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Herança digital: sucessão do patrimônio Cibernético

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Academic year: 2021

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THAIS DONATO BIGUELINI

HERANÇA DIGITAL: SUCESSÃO DO PATRIMÔNIO CIBERNÉTICO

Ijuí (RS) 2018

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HERANÇA DIGITAL: SUCESSÃO DO PATRIMÔNIO CIBERNÉTICO

Trabalho de Conclusão do Curso de apresentado em cumprimento às exigências do curso de bacharel em Direito da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul.

Orientadora: Profa. Ms. Nelci Lurdes Gayeski Meneguzzi

Ijuí (RS) 2018

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DEDICATÓRIA

Dedico este trabalho ao senhor Jurandir Biguelini (in memorian), meu amado pai, que já se foi, mas continua sendo minha maior força e inspiração na vida.

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A minha monografia, intitulada como “HERANÇA DITAL: SUCESSÃO DO PATRIMÔNIO CIBERNÉTICO”, é resultado de uma caminhada que se iniciou na curiosidade e se transformou em objeto de estudo. Agradeço de antemão à todos que, de alguma forma, passaram pela minha vida e contribuíram para a construção de quem sou hoje.

Agradeço primeiramente à Deus, por seu eterno amor, por sua divina proteção, sua guia e suas bênçãos que me fortalecem, iluminam meus caminhos e me conduzem nesta vida.

Agradeço à minha mãe, senhora Nilza Maria Donato Biguelini, por seu amor incondicional que tem por mim. Alguns momentos é mãe, em outros se torna pai. A todo tempo se faz presente em minha vida. Sem medir esforços, me incentiva e me ajuda, pois acredita em meu potencial, orientando com carinho meus passos para que eu possa conquistar todos os meus sonhos.

As minhas avós Clementina D. Biguelini e Rosa Donato que sempre apoiaram, me incentivaram e me ajudaram de todas as maneiras possíveis para a realização desse sonho.

Aos meus avôs Gentil Donato, Adolfo Biguelini (in memorian) e bisavó Estefânia (in memorian) que em algum lugar devem estar vibrando com a minha vitória.

Em especial à minha família, que sempre esteve presente e me incentivou com apoio e confiança nas batalhas da vida e com quem aprendi que os desafios são as molas propulsoras para a evolução e o desenvolvimento.

À minha orientadora Profa. Ms. Nelci Lurdes Gayeski Meneguzzi por compartilhar seus ensinamentos e dedicar parte do seu tempo a mim. Sem dúvidas a sua confiança, sua paciência e seu carinho, que só um professor tem, foi fundamental para desenvolver este estudo.

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vida acadêmica, foram essenciais para minha formação.

Aos amigos do curso de Direito, pela experiência compartilhada no decorrer destes anos, deram apoio neste processo de aprendizado.

Todo o processo de desenvolvimento e conclusão da Monografia foram um marco na minha vida, um momento de reflexão, decisão e mudanças. Foram momentos de ansiedade, nervosismo, cansaço, dúvidas, medo, decisão, força, insistência, esforços… Aqui se encerra um ciclo que gostei muito de ter na minha história. Foi uma experiência incrível, mas com vários obstáculos que dificultaram bastante!

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EPÍGRAFE

“O Direito deve ser um ativo promotor de mudança social tanto no domínio material como no da cultura e das mentalidades.”

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O mundo moderno trouxe descobertas e inovações tecnológicas que alteraram radicalmente as formas de interação e relação social nas últimas décadas. O progresso tecnológico nos meios de comunicação e informação, com o desenvolvimento de novos computadores e celulares, à rapidez com que as informações são transmitidas pela internet, a democratização da comunicação, as redes sociais, o compartilhamento de dados, armazenamento de arquivos à distância são fatores que alteraram o modo de vida e o cotidiano dos indivíduos e a maneira como eles interagem entre si. O ambiente cibernético é uma fonte de informações, com informações guardadas em arquivos digitais armazenados em nuvem, páginas de convívio social como blogs, direitos sobre músicas, livros, fotos, textos, poesias, ilustrações, trabalhos escolares, entre tantos outros e até mesmo documentos pessoais que podem valer muito futuramente. A principal questão a ser enfrentada é a vivência de legado digital e como regimentar a sucessão dos arquivos na hipótese de declaração de último interesse do cônjuge, o testamento. Quando o titular de contas ou arquivos digitais falece, quem é a pessoa indicada a assumir esses conteúdos e arquivos? O objetivo geral desta pesquisa é analisar as questões relacionadas ao direito sucessório de bens armazenados no ambiente virtual. Este trabalho pretende discutir o que é herança, o que é herança digital e o patrimônio digital como herança. A metodologia utilizada neste estudo foi a pesquisa bibliográfica. Conclui-se que os arquivos de conteúdos deixados, não devem ser transferidos aos sucessores sem a determinação por escrito do destino do acervo digital.

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The modern world has brought about breakthroughs and technological innovations that radically altered the forms of interaction and social relations in the last decades. Technological progress in the media and information, with the development of new computers and cell phones, the speed with which information is transmitted over the internet, the democratization of communication, social networks, data sharing, remote file storage are factors that have altered the way of life and daily life of individuals and the way in which they interact with each other. The cyber environment is a source of information, with information stored in digital files stored in the cloud, social pages like blogs, rights to music, books, photos, texts, poetry, illustrations, school work, among many others and even documents that may be worth much in the future. The main question to be addressed is the digital legacy of experience and how regiment the succession of files in the event of last spouse of interest statement, the will. When the holder of accounts or digital files dies, who is the appropriate person to assume these contents and files? The general objective of this article is to analyze the issues related to the succession law of goods stored in the virtual environment. This work intends to discuss what is inheritance, what is digital heritage and digital heritage as heritage. The methodology used in this study was the bibliographical research. We conclude that the left content files, should not be transferred to successors without the written determination of the digital collection target.

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INTRODUÇÃO ... 10

1. LEGISLAÇÃO BRASILEIRA E DIREITO SUCESSÓRIO ... 13

1.1. Considerações, desígnio e finalidade ... 13

1.2. O pos mortis e as modalidades de sucessão ... 16

1.3. Bens passíveis de sucessão ... 23

2. A HERANÇA DO MUNDO DIGITAL ... 29

2.1. Patrimônio Digital ... 31 2.2 Herança Digital...33 2.3 O projeto de lei 4.099/2012 ... 37 2.4 O projeto de lei 4.847/2012 ... 38 2.5 Testamento Digital ... 39 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 44 REFERÊNCIAS ... 46

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INTRODUÇÃO

O mundo em que vivemos está passando por uma transformação, estamos entrando numa nova configuração social, entendida por alguns como a “Era Digital”. Sabia que você tem bens digitais?

O incrível desenvolvimento tecnológico na comunicação tem acelerado a interação entre as pessoas causando uma revolução na sociedade, pois os indivíduos podem obter maiores e instantâneos conhecimentos, em fração de segundos todos podem comunicar-se, compartilhar dados, armazenar arquivos, efetuar compras, colher informações, opiniões, pensamentos com qualquer um que esteja conectado a rede mundial de computadores, sem estar ciente de que tudo isso um dia, estará compondo seu patrimônio na esfera digital.

Sem dúvidas, a internet prenuncia uma nova forma de patrimônio, os também chamados bens digitais, pertencentes a todos os titulares de contas existentes no ciberespaço.

Neste ambiente eletrônico virtual, as normas jurídicas não puderam adaptar-se na mesma rapidez, deixando lacunas para adaptar-serem completadas pelo Poder Judiciário, nos possíveis litígios, advindos nestas situações. O mais importante no presente trabalho é efetuar a análise das consequências jurídicas relacionadas ao direito sucessório de bens armazenados virtualmente, atualmente denominados como Herança Digital.

Assim, com base na legislação e na doutrina existente sobre a temática a questão a ser esclarecida é: qual destino dado ao patrimônio digital quando da morte de um indivíduo?

A acumulação desenfreada de informação em computadores, smartphones, tablets e na nuvem, sugere uma adaptação da ciência jurídica às novas realidades tecnológicas em relação ao gerenciamento pós - morte dos bens digitais de um indivíduo, propondo alternativas viáveis para evitar o conflito em questões sucessórias, seja de forma preventiva ou estabelecendo regras que possam ser

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cumpridas uniformemente, sem prejudicar o ordenamento jurídico vigente, uma vez que, surgindo demandas de inventários com bens adquiridos virtualmente tem sido tomadas decisões totalmente divergentes causando insegurança jurídica devido a falta de regulamentação específica.

Em relação a essa nova forma de patrimônio que se apresenta atualmente, será necessário a criação de normas específicas para regulamentar o assunto, tendo em vista, a complexidade do tema e a fragilidade do ordenamento jurídico brasileiro no tocante à tutela dos direitos de herança provenientes do patrimônio digital, que não possui um reconhecimento expresso e um direcionamento objetivo para cuidar desta matéria, fazendo-se necessário maior concretismo jurídico, vez, que, em razão da falta de regulamentação expressa, resta prejudicada a imprescindível segurança jurídica.

O ambiente cibernético é uma fonte de informações, sendo algumas relevantes e outras nem tanto, com informações guardadas em arquivos digitais armazenados em nuvem, páginas de convívio social como blogs, direitos sobre músicas, livros, fotos, textos, poesias, ilustrações, trabalhos escolares, entre tantos outros e até mesmo documentos pessoais que podem valer muito futuramente.

A questão não está limitada aos aspectos exclusivamente patrimoniais ou criminais, pois abrange outras áreas da ciência do Direito, como o direito de Família.

Marcos Aurélio Mendes de Lima (2016) aponta que o direito sucessório, que tem fundamentos antigos como muitas outras disposições civis, por tempos não se viu desafiado como agora se vê. Existem inúmeras possibilidades e novas formas de patrimônio e herança como nunca se viram ou imaginaram, como a herança digital. As pessoas dispõem de tesouros armazenados no meio cibernético, porém nunca pararam para pensar qual destino estes tesouros teriam no futuro que, na maioria dos casos, ficam perdidos e abandonados e, em alguns, nem mesmo a família tem conhecimento de sua existência.

Lima (2016) entende que os patrimônios da era digital deixados pelo falecido podem não ter um valor econômico significativo, sendo apenas contas em redes

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sociais ou e-mails, porém é importante avaliar o que será feito com esse acervo e se a família tem ou não direito para o acesso à estas contas. Hoje em dia todo mundo tem um perfil em pelo menos um dos muitos dos sites de relações, sendo cada dia mais comum ver famílias lutando na justiça para excluir o cadastro de seus entes falecidos. Independentemente da decisão de cada um, permitir ou não que seus familiares tenham acesso a seus bens virtuais após sua morte, é de suma importância que se deixe registrado por meio de testamento esta ação como única maneira de garantir o respeito a sua última vontade.

Para Nathalia Zampieri Antunes e Marcelo Carlos Zampieri (2015) a morte não é um conteúdo, um assunto muito discutido em rodas de conversas, e muitas pessoas nem mesmo gostam de falar no assunto. Para alguns, chega a ser um absurdo falar em planejar o futuro de seus bens digitais. Mas a morte significa uma certeza na vida de todos e pode se tornar um verdadeiro pesadelo para quem fica quando o ente falecido não deixa expressa sua vontade em relação a esses bens armazenados em meio digital, ficando para sempre ignorados.

Afirmam ainda, que é vasta a dimensão dos problemas e suas consequências nas relações sucessórias. A principal questão a ser enfrentada é a vivência de legado digital e como regimentar a sucessão dos arquivos na hipótese de declaração de último interesse do cônjuge, o testamento.

Especificamente, este trabalho pretende discutir (a) o que é herança, (b) o que é herança digital e (c) o patrimônio digital como herança.

A metodologia utilizada no desenvolvimento deste trabalho foi a pesquisa bibliográfica por meio do método hipotético-dedutivo que diz respeito ao estudo de obras já publicadas pelo homem e que estão reunidas em documentos que, analisados, fichados e selecionados, permitem a construção de um novo estudo.

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1. LEGISLAÇÃO BRASILEIRA E DIREITO SUCESSÓRIO

Marcos Aurélio Mendes de Lima (2016) entende que na ciência jurídica no ramo de estudo de direito das sucessões, a palavra suceder possui o sentido de transferência do conjunto de direitos e obrigações de uma pessoa para outra, em virtude de lei ou testamento, em razão da morte de alguém, prevista no livro V do Código Civil, lei 10.406 de 10 de janeiro de 2002 a partir do artigo 1.784, além de encontrar sustentação no artigo 5º, XXX, da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 (CRFB/88), em que está garantido o direito de herança.

Vale ressaltar que a sucessão pode ser inter vivos, denominada também de substituição obrigacional, o qual ocorre mediante a transmissão de direitos e obrigações por negócio inter vivos. A sucessão pode ser ainda causa mortis, e, é essa que interessa para o direito sucessório do presente estudo.

Em se tratando de transferência de bens em decorrência da lei, Marcos Aurélio Mendes de Lima (2016) afirma que a herança será distribuída aos herdeiros de acordo com as regras próprias do que se chama sucessão legítima ao passo que, se a transferência dos bens se der por ato de disposição de última vontade do falecido, as regras a serem observadas serão as da chamada sucessão testamentária. A morte é o momento que fixa a abertura da sucessão e da transmissão da herança aos herdeiros, legítimos e testamentários.

O direito sucessório para Marcos Aurélio Mendes de Lima (2016) tem indiscutível relevância para as relações familiares e sociais, tendo em vista que é ele quem dita o modo pelo qual se opera a transferência de bens, direitos e deveres causa mortis, porque o homem desaparece, mas os seus bens continuam.

1.1. Considerações, desígnio e finalidade

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titularidade de um acurado direito de uma pessoa em benfeitoria de outrem, podendo incidir entre indivíduos vivos (inter vivos), como no caso da cessão de crédito e da transferência de bens, ou resultante da morte de alguma pessoa (causa mortis), ocasião em que os direitos e obrigações do de cujus são delongados para seus sucessores e herdeiros (LIMA, 2016).

Na ciência jurídica a nomenclatura Direito das Sucessões se alude à transferência de bens, direitos e obrigações em equidade da morte de um sujeito. Por morte compreende-se que é interrupção da atividade cerebral, circulatória e respiratória de uma pessoa, sendo que a vistoria clínica do momento correto do falecimento só pode ser arranjada por um médico legista (GONÇALVES, 2014, p. 126).

Juridicamente a terminação sucessão sugere o fato de uma pessoa inserir-se na titularidade de uma relação jurídica que lhe advém de outra pessoa, podendo da acepção da palavra ser em sentido amplo ou restrito, conforme ensina Maria Helena Diniz (2002, p. 16):

a) Em sentido amplo: o termo sucessão aplica-se a todos os modos derivados de aquisição do domínio, indicando o ato pelo qual alguém sucede a outrem, investindo-se, no todo ou em parte, nos direitos que lhe pertenciam. Trata-se da sucessão inter vivos;

b) No sentido restrito: Sucessão é a transferência, total ou parcial, de herança, por morte de alguém, a um ou mais herdeiros. É a sucessão mortis causa que, no conceito subjetivo, é o direito por força do qual alguém recolhe os bens da herança e, no conceito objetivo, indica a universalidade dos bens do de cujus, que ficaram com seus direitos e encargos.

No mesmo sentido, Silvio de Salvo Venosa (2009, p. 1-2) raciocina que suceder é substituir, tomar o lugar de outrem no campo dos fenômenos jurídicos. Na sucessão, existe uma substituição do titular de um direito. Esse é o julgamento de sucessão no direito.

A modificação da titularidade da relação jurídica é a inovação ou evidência na sucessão por causa da morte; isto porque o conteúdo e o objeto

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da referida relação jurídica permanecem sem alteração alguma, como explica Sílvio de Salvo Venosa (2009, p. 1-2) no texto abaixo destacado:

Quando o conteúdo e o objeto da relação jurídica permanecem os mesmos, mas mudam os titulares da relação jurídica, operando-se uma substituição, diz-se que houve uma transmissão no direito ou uma sucessão. Assim, o comprador sucede ao vendedor na titularidade de uma coisa, como também o donatário sucede ao doador, e assim por diante. Destarte, sempre que uma pessoa tomar o lugar de outrem em uma relação jurídica há uma sucessão. A etimologia da palavra (sub cedere) tem exatamente esse sentido, ou seja, de alguém tomar o lugar de outrem.

O direito sucessório está expressamente previsto na Constituição Federal em seu artigo 5º, inciso XXX, consagrado entre os direitos fundamentais:

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo- se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

[...]

XXX - é garantido o direito de herança. (BRASIL, 1988)

A herança, também denominada espólio ou monte, é o patrimônio deixado pelo de cujus, que será conduzido aos seus sucessores fidedignos ou testamentários e herdeiros, sendo ponderado um imóvel e obedecendo a todas as normas peculiares desses bens. Eis o que ensina o artigo 80, inciso II do Código Civil.

Art. 80. Consideram-se imóveis para os efeitos legais:

I – os direitos reais sobre imóveis e as ações que os asseguram;

II – o direito à sucessão aberta. (BRASIL, 2002)

Tal conjuntura fica igualmente clara que com o falecimento do titular, comunica-se seguidamente aos herdeiros a herança, passando a agregar o patrimônio de quem a recebeu. Assim, a transmissão ocorre no período da abertura da sucessão, mesmo que o herdeiro não tenha ciência da morte do agente do legado herdado, e não com a abertura do documento de partilha

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(LIMA, 2016).

O direito sucessório tem dimensão social, tendo como finalidade a garantia da segurança familiar, de se manter na família o valor de determinada propriedade, ou seja, evitar que um pai deixe seu filho numa condição financeira prejudicada ou insuficiente para manter sua subsistência ou a de sua família. É essa visão apresentada por Lisboa (2006, p. 426):

[...] a solução adotada pelo legislador civil de manutenção do patrimônio na família do de cujus pode até ser considerada, porém é inegavelmente um meio satisfatório de se permitir aos integrantes da família enlutada de prosseguir com os propósitos para os quais tal patrimônio foi constituído, com a percepção das necessidades dos sucessores.

Torna-se evidente, de que nos termos do artigo 5º, XXX da CF/88, a herança sobreveio a ter amparo constitucional, necessitando atingir a sua finalidade, que é avalizar aos validados, suceder o direito de alcançar aquilo que lhes é justo, de modo a avalizar o prosseguimento das afinidades jurídicas instituídas pelo falecido quando vivo (LIMA, 2016).

O ponto crucial a destacar, é que a sucessão acima comentada, é aquela que provém do fato causa mortis; a despeito de que permanece a sucessão entre pessoas vivas. A sucessão causa mortis deve fazer obedecer no Código Civil (Lei nº 10.406/2002) a partir do artigo 1.784, que trata das regras de transmissão de bens, em razão da morte de um titular (LIMA, 2016).

1.2. O pos mortis e as modalidades de sucessão

Contextualizando os meios gerais do direito sucessório, à análise dos tipos de sucessão causa mortis localizados na atual legislação civil brasileira é necessária. Quanto à fonte que estabelece a transferência de bens e direitos do finado, a sucessão pode acontecer de feitio testamentário, originária de testamento consentido pelo falecido podendo ser legítima ou hereditária, resultante da lei, conforme determina o artigo 1.786 do Código Civil.

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Efetivamente, o artigo 1.786 do Código Civil de 2002, a exemplo do que dispunha o de 1916, preceitua que „a sucessão dá-se por lei ou por disposição de ultima vontade. Previstas se acham, nesse dispositivo legal, as duas formas de sucessão do nosso ordenamento jurídico, a legítima, resultante de lei, e a testamentária, decorrente do testamento.

Washington Monteiro de Barros (2008, p. 9) discorre sobre as ambas formas de sucessão, professadas a seguir:

Se não há testamento, se o falecido não deixa qualquer ato de ultima vontade, a sucessão é legítima ou ab intestado, deferido todo o patrimônio do de cujus às pessoas expressamente indicadas pela lei de acordo com a ordem de vocação hereditária (Cód. Civil de 2002, art. 1.829). Assim estabelece o art.1.788. Morrendo a pessoa sem testamento, transmite a herança aos herdeiros legítimos; o mesmo ocorrerá quando os bens que não forem compreendidos no testamento; e subsiste a sucessão legítima se o testamento caducar, ou for julgado nulo. A essas hipóteses acrescente-se a revogação do testamento.

Importante aqui observar, que diversas teorias explicam as razões pelas quais a ordem de vocação sucessória vem beneficiar os membros da família do de cujus, seja por ver no caso um resquício da propriedade primitiva, que teria sido familiar, seja interpretando a vontade presumida do falecido, que, normalmente, se testamento fizesse, iria deixar os seus bens aos seus parentes, seja, enfim, porque seria natural que o falecido tendo em vida contribuído para o sustento de sua família em sentido extrito (casal e filhos), queira que os bens remanescentes sejam atribuídos aqueles que com ele conviveram e que ele em vida sustentou (WALD, 2012. P. 60).

A descendência testamentária não procede diretamente da lei, como é o caso da sucessão legítima, entretanto, é possibilitada e medida pela legislação pátria, como elucidada por Orlando Gomes (2014, p. 40):

A sucessão ab intestato deriva imediatamente da lei, ao contrário da sucessão testamentária que resulta, consoante permissão legal, de uma disposição de última vontade, denominada testamento. Por ter na lei sua fonte imediata, chama-se sucessão legítima ou, também, sucessão legal.

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Ocorre quando o falecido não houver disposto, no todo ou em parte, dos bens, em testamento válido, ou quando não se pode dispor de parte desses bens por ter herdeiros necessários. Na segunda hipótese, dá-se inevitavelmente, denomina-se sucessão legitimaria.

A sucessão legitima ou sucessão legal como também é chamada, é aquela a que é deferida por determinação da lei. Atendendo ao que ocorre quando o sucedendo morre sem testamento (intestato), diz também ab intestato. “[...] Em nossos meios, é a mais frequente, tendo-se em vista a menor difusão do testamento e, portanto, da sucessão testada.” (PEREIRA, 2015, p. 83).

A sucessão legítima é do que uma transferência dos bens de uma pessoa falecida para os seus íntimos familiares por conta de supressão de amostra testamentária, para cobrir uma mantença de alguns familiares mais adjuntos sendo eles descendentes, ascendentes e cônjuge ou companheiro (FARIAS, 2016, p. 254).

A herança legítima corresponde a metade do patrimônio hereditário, pertencente de íntegro direito aos sucessores mandatórios (descendentes, ascendentes e cônjuge sobrevivente); a outra metade que obedece a parte disponível pode ser designada em testamento como bem perceber o de cujus.

A existência de testamento não exclui, portanto, a sucessão legítima, porquanto, ainda sendo válido e eficaz, se dará havendo herdeiros obrigatórios ou havendo bens excedentes das disposições testamentárias. Quando ineficaz, por haver caducado, ou ter sido declarado nulo, aplicam-se, em substituição, as regras da sucessão ab intestato. Herdeiro legítimo é a pessoa indicada na lei como sucessor nos casos de sucessão legal, a quem se transmite a totalidade ou quota-parte da herança. Na classificação dos herdeiros legítimos, distinguem-se os necessários, também designados legitimários „reservatários‟, dos facultativos; mas a expressão, empregada em sentido lato, designa quem, por prescrição legal, é chamado à sucessão do que faleceu intestato; já em acepção estreitíssima, refere-se aos filhos, primeiros herdeiros necessários. (GOMES, 2014, p. 40).

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O herdeiro necessário é o parente (descendente ou ascendente) e o cônjuge com direito a uma cota parte da herança, da qual não pode ser privado. A parte reservada aos herdeiros legitimados chama-se legítima.

Sobre a natureza lícita da sucessão legítima, frisa Orlando Gomes (2014, p. 40):

São herdeiros necessários; os descendentes e ascendentes sem limites no grau de parentesco e, ainda, o cônjuge. A qualificação do herdeiro legítimo fundamenta-se na organização da família. Por direito de família stricto sensu, em favor dos parentes legítimos, por direito de sangue dos filhos e pais e por direito matrimonial do cônjuge. As regras gerais concernentes à sucessão testamentária quanto aquela que se processa tendo falecido o de cujus ab intestato, passa o legislador a editar regras especialmente desenhadas para aqueles casos em que a morte se dá com ausência de testamento ou mesmo com testamento válido, por que a outra metade do acervo, deve ser compartilhada com os herdeiros necessários, que são aqueles que necessariamente devem ser chamados a herdar ou, ao menos se manifestarem a respeito da quota que lhes é deferida por direito, se habilitando ou aceitando a sua parte ou ainda fazendo menção a renúncia da parte da herança que lhes cabe por direito.

Desta forma, entende-se que se cumpra a pretensão do finado, em conferir para os favorecidos no testamento, sejam eles herdeiros ou legatários, até a metade do amontoado da herança e a seguinte metade necessitada de ser repartida nos moldes da lei, aos herdeiros imprescindíveis.

Torna-se prudente destacar que os parentes em linha paralela até mesmo o quarto grau têm direito de granjear herança, reverenciadas os demais preceitos da sucessão testamentária, como por molde, os semelhantes mais associados do finado eliminam da herança os mais afastados, conforme o artigo 1.829 do Código Civil que traz em sua redação à resolução de idoneidade hereditária na sucessão legítima:

Art. 1.829. A sucessão legítima defere-se na ordem seguinte: I – Aos descendentes, em concorrência com o cônjuge sobrevivente, salvo se casado com o falecido no regime da

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comunhão universal ou no de separação obrigatória de bens (art. 1.640, parágrafo único); ou se, no regime de comunhão parcial, o autor da herança não houver deixado bens particulares;

II – aos ascendentes, em concorrência com o cônjuge; III – ao cônjuge sobrevivente;

IV – aos colaterais. (BRASIL, 2002)

Conforme verificado acima, sobre descendentes (filhos, netos, bisnetos, e demais), não há limite na sucessão, bem como para os ascendentes (pais, avós, bisavós e demais), a sucessão legitima tem uma ordem legal a ser seguida, de forma que uma classe só será chamada na falta de herdeiros da classe precedente, sendo assim, há uma relação preferencial onde a existência de uma classe exclui a sucessão de classes subsequentes (DINIZ, 2009).

A transmissão da herança pode acontecer também por disposição de vontade do denominado testador e neste caso acontece a sucessão testamentária, em que o instituidor antes de falecer expressa sua vontade em amparar alguém de seu agrado, respeitadas as restrições legais.

Vale lembrar então que a sucessão testamentária decorre da última vontade do falecido, assim manifestando o seu derradeiro desejo. Neste caso o autor da herança tem liberdade para testar em favor de uma ou mais pessoas os seus bens. Mas, contudo se houver herdeiro legítimo o falecido não poderá usar toda sua herança em benefício dessas pessoas escolhidas por ele, e sim somente 50% (cinquenta por cento) do seu patrimônio, conforme já mencionado anteriormente.

Então se o falecido deixou testamento válido, ter-se-á nesse caso a sucessão testamentária, do ato de última vontade em favor das pessoas indicadas no testamento que poderão herdar a metade dos seus bens ou a totalidade, no caso de inexistir herdeiros necessários.

Washington Monteiro de Barros (2008, p. 10) alerta que o testador tem restrições à liberdade de dispor em testamento, conforme abaixo destacado:

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Importa frisar, para logo, que absoluta não é a liberdade de testar, como outrora sucedia no primitivo direito romano. Atualmente, pelo nosso direito, se o testador tem herdeiros necessários, isto é, descendentes, ascendentes e cônjuge sucessíveis (art.1.845), somente poderá dispor da metade de seus bens (art. 1.789). Havendo, destarte, herdeiros em linha reta, descendentes ou ascendentes ou cônjuge sobrevivente denominados herdeiros necessários, divide-se o universum jus defuncti em duas partes iguais: a legítima, que, de direito, cabe aos referidos herdeiros, e a porção disponível, da qual o testador pode livremente dispor, ou para outorga-la ao cônjuge sobrevivente, ou a qualquer de seus herdeiros, ou a estranhos.

As excepcionais restrições viventes são definidas pelos artigos 1.801 e 1.802 do Código Civil, que acondicionam a inaptidão testamentária passiva.

Art. 1.801. Não podem ser nomeados herdeiros nem legatários: I - a pessoa que, a rogo, escreveu o testamento, nem o seu cônjuge ou companheiro, ou os seus ascendentes e irmãos; II - as testemunhas do testamento;

III - o concubino do testador casado, salvo se este, sem culpa sua, estiver separado de fato do cônjuge há mais de cinco anos;

IV - o tabelião, civil ou militar, ou o comandante ou escrivão, perante quem se fizer, assim como o que fizer ou aprovar o testamento.

Art. 1.802. São nulas as disposições testamentárias em favor de pessoas não legitimadas a suceder, ainda quando simuladas sob a forma de contrato oneroso, ou feitas mediante interposta pessoa.

Parágrafo único. Presumem-se pessoas interpostas os ascendentes, os descendentes, os irmãos e o cônjuge ou companheiro do não legitimado a suceder. (BRASIL, 2002)

Na legislação brasileira, predomina a sucessão legítima, em consequência da acentuada autoridade do componente doméstico na formação dessa seção do Direito. Diante disso, pode-se afiançar que a sucessão legítima é a norma, e a testamentária, a restrição (DINIZ, 2009, p. 17).

Ainda analisa a amostra disponível fixa e inalterável acomodada à metade da herança. Ou seja, em alguma presunção, seja qual for a característica e o número dos herdeiros, abrangerá continuamente cinquenta por cento dos bens do testador.

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imprescindível o testamento advém uma coexistência harmoniosa entre os dois tipos de sucessão, a legítima e a testamentária, segundo apreciação a seguir abalançada por Francisco José Cahali e Giselda Maria Fernandes Novaes Hironaka (2007, p. 264):

Contrariamente ao que se dá com a sucessão legítima, a sucessão testamentária pressupõe uma aquisição de situação jurídica decorrente da intervenção volitiva do autor da herança, o testador. O patrimônio endereçado pelo testador ao seu sucessor constitui o que se designa por herança.

Assim como em Roma se falecer o autor da herança ab intestato, prevalecerá a sucessão legítima. Por outro lado, declarando uma pessoa sua disposição de última vontade, estará possibilitando o ingresso no campo da sucessão testamentária, que, ao contrário do que se possa imaginar, não exclui a sucessão legítima, mas com ela convive, se for o caso, se houver herdeiros necessários, para o efeito final de se ver distribuído o acervo sucessório entre herdeiros legítimos e herdeiros e/ou legatários nomeados em testamento. Tal regra, hoje reproduzida no direito brasileiro pela parte do artigo 1,788 do Código Civil.

Ilustram ainda da raiz de juristas e doutrinadores ao assegurar que, no Brasil, a difusão da sucessão testamentária é pequena, como segue (CAHALI; HIRONAKA, 2007, p. 264):

Na verdade, via de regra, as pessoas passam pela vida e dela se vão intestadas; o reduzido número daquelas que testam o fazem porque não tiveram filhos, ou porque desejavam beneficiar o cônjuge, em desfavorecimento dos ascendentes, ou ainda, porque desejavam beneficiar certas pessoas, por meios de legados, ou simplesmente, porque desejavam reconhecer filhos havidos fora do casamento.

É ressaltante pronunciar que herdado de sua cultura, com raras advertências o brasileiro não gosta de falar a reverência da morte, e sua conjuntura, é ainda bastante mistificada e protegida, como se falar de sua competente morte ocasionasse mal prenúncio, pressentimento ruim, assim como são poucas as pessoas que convencionam o sepulcro no cemitério.

O testamento é um prendo de personalidade e revogável pelo qual alguma pessoa prepara em um todo ou em parte de seu patrimônio antes de sua morte, são amparadas pelo testamento de caráter não patrimonial,

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podendo o testador demudar o testamento no todo ou em parte, de modo que o testamento porvindouro anula o anterior exclusivamente no que diz respeito a acomodações de origem patrimonial. (DINIZ, 2009).

Desta forma, de acordo com Venosa (2016, p. 64), o testamento tem determinadas caraterísticas como:

a) unilateral, uma vez que se perfaz com uma única vontade, a do testador, que produz seus efeitos mortis causa, ou seja, após a morte do testador; b) personalíssimo, pois não há outro modo de se fazer a não ser pelo próprio testador, c) solene, exigindo rigorosamente as formalidades prescritas em lei, onde a desobediência implica indubitavelmente em sua invalidação. Esse formalismo é indispensável, sendo da própria natureza do testamento, assim como sua gratuidade, sendo que o ato de testar não aceita retribuição; d) por fim, revogável, pois o testador o poderá revogá-lo de acordo com sua vontade, assim como fazer outro, revogando o anterior.

O testamento é um ato majestoso, entretanto para que se tenha efeito, há a precisão de que sejam satisfeitas os protocolos exigidos na lei. Sendo assim pode-se concluir que a sucessão testamentária não é muito empregada pelos sujeitos e que para cada natureza de testamento há uma formalidade que deve ser professada e, caso isso não ocorra, o testamento cruza o risco de apanhar os efeitos de anulação.

1.3. Bens passíveis de sucessão

A transmissão de herança se dá no momento do óbito do fundador, tendo o herdeiro concessionário 60 dias para alvitrar a Ação de Abertura de inventário e Partilha segundo prescreve o artigo 611 do Novo Código de Processo Civil, tempo determinado este que carecerá de ser preenchido, sob pena de multa a ser recolhida na ocasião do recolhimento do ITCMD (imposto de transmissão causa mortis ou doação).

Do atual Código de Processo Civil – CPC, destaca-se o seguinte:

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instaurado dentro de 2 (dois) meses, a contar da abertura da sucessão, ultimando-se nos 12 (doze) meses subsequentes, podendo o juiz prorrogar esses prazos, de ofício ou a requerimento de parte.(BRASIL, 2015)

Na procura de uma melhor velocidade processual e desentrave do judiciário a acenada lei traz também a novidade da escolha do inventário e partilha poderem ser feitos pela forma administrativa, por Escritura Pública em Cartório Tabelionato, na qualidade de que todos os sucessores sejam maiores e adequados e tenha o finado admitido em testamento, nos compreender do CPC/2015, como segue:

Art. 610. Havendo testamento ou interessado incapaz, proceder-se-á ao inventário judicial.

§ 1o Se todos forem capazes e concordes, o inventário e a partilha poderão ser feitos por escritura pública, a qual constituirá documento hábil para qualquer ato de registro, bem como para levantamento de importância depositada em instituições financeiras.

§ 2o O tabelião somente lavrará a escritura pública se todas as partes interessadas estiverem assistidas por advogado ou por defensor público, cuja qualificação e assinatura constarão do ato notarial. (BRASIL, 2015)

Quanto a transmissão da herança, ressalva Francisco José Cahali e Gisela Maria Fernandes Novaes Hironaka (2007, p. 42-43), que:

Nos termos do art. 6º do Código Civil, a existência da pessoa natural termina com a morte, ainda que presumida nos termos da Lei. Este é o momento exato da abertura da sucessão, também chamada de delação ou devolução sucessória, ou delação hereditária.

[...]

O art. 1.784 do Código Civil estabelece: „Aberta a sucessão, a herança transmite-se, desde logo, aos herdeiros legítimos e testamentários‟, sendo conveniente deixar claro, que a abertura da sucessão ocorre com a morte e não se confunde com a abertura do inventário, fato este só instaurado com a provocação do judicial comunicando o falecimento.

Constituindo o objeto da sucessão pos mortis a deixa ou herança, Arnold Wald (2012, p.7-8), elucida perpetrando a distinção entre sucessão e herança:

Para esclarecer essas noções podemos dizer que a sucessão é o modo de transmissão, enquanto a herança é o conjunto de

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bens, direitos e obrigações que transmitem aos herdeiros e legatários. Assim a herança transmite-se em virtude de sucessão mortis causa; a sucessão mortis causa é o modo de transmitir a herança.

A herança, também denominada espólio ou monte, abrangendo a totalidade dos bens transferíveis, é considerado pelo direito brasileiro, em virtude de ficção legal, como um imóvel, obedecendo às normas peculiares referentes a essa espécie de bens. Desse modo, quaisquer que sejam os elementos integrantes da herança, terá ela natureza imobiliária, dependendo, para sua alienação, de escritura pública, e sujeitando-se às normas sobre sua transferência de imóveis (CC, art.80, II).

Pode ser compreendida ainda, como “o patrimônio ativo e passivo deixado pelo falecido por ocasião de seu óbito, a ser recebido por seus herdeiros.” (NOGUEIRA, 2010, p. 7).

Arnold Wald (2012, v.6, p. 24), entende que a herança também denominada monte ou espólio, constitui-se em um monte só, e passa a ser como copropriedade, que só se invalida pela partilha, como segue:

A herança constitui-se no momento da abertura da sucessão. Ou seja, por ocasião da morte do de cujus, apresentando-se para como uma universitas júris, um patrimônio único, até o momento da partilha e adjudicação dos bens aos herdeiros. Durante o período de indivisão, funciona como uma espécie de condomínio, que só se dissolve pela partilha, em virtude da qual é composto o quinhão hereditário de cada um dos herdeiros com os bens que passam a incorporar-se ao seu patrimônio retroativamente, como se seus fossem desde a data do falecimento do de cujus (CC, 1.791, parágrafo único).

Quanto a competência sucessória dos legatários ou sucessores, doutrina Silvio de Salvo Venosa (2009, p. 49-51) que:

A capacidade para suceder é a aptidão para se tornar herdeiro ou legatário numa determinada herança. A vocação hereditária está na lei, norma abstrata que é. Daí por que a lei diz que são chamados os descendentes, em sua falta os ascendentes, cônjuge, colaterais até quarto grau e estado. Assim, para suceder, não basta que alguém invoque a ordem de vocação hereditária ou seu aquinhoamento no testamento. Há certas condições a serem verificadas. A pessoa deve reunir três condições básicas: a) estar viva; b)ser capaz; c) não ser indigna.

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Explica, ainda, que para os herdeiros não inventados ou concebidos, que é uma condição para transferência da herança, apresentarão seus bens protegidos por certo tempo. Que em regra todos são apropriados, ressalvas feitas aos elencados no artigo 1.801 do CC, e o indigno, segundo explana:

No caso de herdeiros ainda não concebidos, os bens da herança serão confiados, após a partilha, a curador nomeado pelo juiz (art.1800). Se, após dois anos contados da abertura da sucessão, não nascer o herdeiro esperado, os bens reservados caberão aos herdeiros legítimos, salvo disposição em sentido diverso feita pelo testador (art.1800, § 4º).

A importância de dois outros estabelecimentos do Direito Sucessório, decorrentes da ciência de herança. São eles a herança jacente e a herança vacante, impecavelmente esclarecido por Coelho (2012, v. 5, p. 231):

Quando não se apresentam sucessores, legítimos ou testamentários, o patrimônio do falecido é considerado jacente. Quer dizer, ficará sob a guarda e administração de um curador nomeado pelo juiz, à espera de sucessores. No processo de inventário, expedem-se editais, chamando-os. Decorrido um ano sem que apareçam titulares de direito sucessório, declara-se a herança vacante. Também declara-se declara, desde logo, a vacância se todos os herdeiros chamados a suceder renunciarem à herança (CC, arts. 1.819, 1.820 e 1.823).

Portanto, a jacência e a vacância de herança são duas circunstâncias jurídicas caracterizadas. Herança jacente é aquela que jaz sem herdeiros conhecidos, aguardando a habilitação de sucessores, enquanto a vacante é a que permanece sem titular após um ano de citações, via edital, para que herdeiros a ela se habilitem.

De acordo com Lima (2013, p.26), a herança jacente é o que ocorre quando não se conhece os herdeiros e o juiz para evitar a ruína daqueles bens, nomeia um curador para arrecadar e administrar os bens, ou seja, concluído o inventário com surgimento dos herdeiros a herança é passada para eles, caso não surgir a herança se torna vacante e os bens são passados para o patrimônio público.

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O poder público, porém, não é herdeiro, e sim o último depositário da herança, não possuindo direito de saisine, que só vale para herdeiros, não ocorrendo de imediato a transmissão da herança, mas somente após a sentença de vacância e o transcurso do prazo de cinco anos da morte do autor da herança. (LIMA, 2013).

Em relação a classificação de “bens”, existe muita divergência doutrinária a respeito do conceito de bem e da diferença que existe para o conceito de coisa.

Segundo Beviláqua (1977), define como bem, um conjunto de anseios e desejos materiais ou não, que sejam de interesse da pessoa humana.

É uma questão que também não se tem consenso doutrinário, o “bem” pode ser considerado gênero e coisa considerada espécie, assim a noção de bem estaria para os objetos jurídicos sem valor econômico, ao passo que coisa ficaria como objetos materiais. (GOMES, 2016, p. 93).

Maria Helena Diniz e Silvio Venosa (2012), são contrários aos conceitos dos autores supramencionados, para eles o conceito de coisa abrange o de bem, tendo em vista que o termo coisa é mais vasto, por abranger tudo o que existe no universo, como ar atmosférico, o espaço, etc.

Assim diz Silvio Rodrigues (2003, p.115):

“Entretanto, ainda dentro do conceito econômico, nem todas as coisas úteis são consideradas bens, pois, se existirem em grande abundância na natureza, ninguém se dará ao trabalho de armazená-las. Assim, nada mais útil ao homem do que o ar atmosférico, mas, como ele abunda na natureza, não é um bem econômico.” Continua ele “Desse modo, poder-se-iam definir bens econômicos como aquelas coisas que, sendo úteis ao homem, existem em quantidade limitada no universo, ou seja, são bens econômicos as coisas úteis e raras, porque só elas são suscetíveis de apropriação.”

A confusão é tão grande em nosso país que prefere-se tratar bens e coisas como sinônimos. Para uma parte da doutrina bens seria tudo o que

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existe na natureza com exceção das pessoas ou seja, o bem é tratado como gênero em quanto a coisa seria apenas a espécie, considerada como todos os bens que podem ser objeto de negócio jurídico e que possui conteúdo patrimonial.

Para uma segunda corrente, os conceitos exatamente se invertem, então tudo o que existe na natureza com exceção das pessoas, não seriam os bens, mas sim as coisas, então coisas seria tratada como gênero e bens tratados como as espécies. Sendo assim, somente poderia ser considerado bem, as coisas que possuíssem conteúdo patrimonial e que pudesse ser objeto de negócio jurídico. (ALMEIDA, 2013, p.193).

Essas são duas das diversas correntes que tentam explicar a diferença entre bem e coisa, os conceitos se confundem em consequência da confusão doutrinária que é feita sobre o tema. Acredita-se, que bens e coisas, devem ser tratados como sinônimos, porém nem todos os bens e nem todas as coisas podem ser objeto de negócio jurídico, somente pode ser objeto de negócio jurídico as coisas ou bens que possuem conteúdo patrimonial e que podem ser objeto de relações jurídicas. (GAGLIANO, 2015).

Assim sendo, para o Código vigente só importam os bens que portem algum valor econômico, pois são esses que estão sujeitos a gerarem conflitos e fazer parte do legado deixado pelo autor da herança.

Dada a crescente relevância da matéria, ainda não explorada pela doutrina pátria, aborda-se a viabilidade jurídica de reconhecer bens armazenados virtualmente como parte do patrimônio de um indivíduo e transmiti-los após a morte.

O próximo tópico fará discussões com enfoque na temática da herança digital, após esta apreciação dos julgamentos concernentes a herança, bem como aos legatários e sucessores.

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2. A HERANÇA DO MUNDO DIGITAL

O mundo em que vivemos está passando por uma transformação, estamos entrando numa nova configuração social, entendida por alguns como a “Era Digital”. Sabia que você tem bens digitais?

O incrível desenvolvimento tecnológico na comunicação tem acelerado a interação entre as pessoas causando uma revolução na sociedade, pois os indivíduos podem obter maiores e instantâneos conhecimentos, em fração de segundos todos podem comunicar-se, compartilhar dados, armazenar arquivos, efetuar compras, colher informações, opiniões, pensamentos com qualquer um que esteja conectado a rede mundial de computadores, sem estar ciente de que tudo isso um dia, estará compondo seu patrimônio na esfera digital.

Outras informações, guardadas em formato de arquivo nos mais variados dispositivos eletrônicos, como computadores, pen drives e celulares, também podem ser consideradas componentes desse acervo moderno, conforme preleciona Lima (2013, p.32):

Além de senhas, tudo o que é possível comprar pela internet ou guardar em um espaço virtual como músicas e fotos, por exemplo passa a fazer parte do patrimônio das pessoas e, consequentemente, do chamado “acervo digital”. Os ativos digitais podem ser bens guardados tanto na máquina do próprio usuário quanto por meio da internet em servidores com este propósito o chamado armazenamento em “nuvem”.

A acumulação desenfreada de informação em computadores, smartphones, tablets e na nuvem, sugere uma adaptação da ciência jurídica às novas realidades tecnológicas em relação ao gerenciamento pós - morte dos bens digitais de um indivíduo, propondo alternativas viáveis para evitar o conflito em questões sucessórias, seja de forma preventiva ou estabelecendo regras que possam ser cumpridas uniformemente, sem prejudicar o ordenamento jurídico vigente.

Quando a sociedade muda, o Direito também deve acompanhar essa evolução. Ainda que o ordenamento jurídico não consiga andar junto com as

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mudanças sociais e tecnológicas, ele deve ao menos tentar evoluir e não se tornar tão obsoleto. (LIMA, 2013, p.23).

Patricia Peck (2013, p.77), advogada especialista em Direito Digital, reflete sobre a existência dessa nova área do Direito. São suas palavras:

[...] o Direito Digital traz a oportunidade de aplicar dentro de uma lógica jurídica uniforme uma série de princípios e soluções que já vinham sendo aplicados de modo difuso – princípios e soluções que estão na base do chamado Direito Costumeiro. Esta coesão de pensamento possibilita efetivamente alcançar resultados e preencher lacunas nunca antes resolvidas, tanto no âmbito real quanto no virtual, uma vez que é a manifestação de vontade humana em seus diversos formatos que une estes dois mundos no contexto jurídico.

Algumas características básicas do Direito Digital podem ser destacadas. São elas: celeridade, dinamismo, auto-regulamentação, poucas leis que o tipificam diretamente, grande utilização do direito costumeiro, uso de analogia, entre outras. (LIMA, 2013, p.21-22).

Também é possível encontrar quem adote a terminologia Direito eletrônico. Alega-se que a comunicação de dados via computador é feita por meio de impulsos elétricos, tornando-a uma comunicação eletrônica, cujo estudo é atribuído ao ramo da física que trata dos circuitos elétricos. A opção também justifica-se pelo fato de que o termo “eletrônico” é bastante utilizado para nomear ferramentas tecnológicas da atualidade, a exemplo do comércio e do correio eletrônicos. (TEIXEIRA, 2014, p.22).

Dessa forma, apesar das imprecisões técnicas observadas em alguns desses vocábulos, o importante é que o objeto de estudo desse novo viés do Direito, independentemente de sua nomenclatura, represente as consequências jurídicas da mudança de paradigma social proporcionada pela revolução tecnológica recente e pelo advento da internet, sempre de maneira abrangente. (ELIAS, 200).

Em uma sociedade conectada, portanto, é preciso estudar o Direito Digital não apenas para fins profissionais, mas também para possibilitar a

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convivência de todos os cidadãos nessa nova era digital para que todos possam exercer sua liberdade individual sem prejuízo da vida coletiva.

Para Dobedei (2008, p.52), a noção de patrimônio é milenar, e está presente nas sociedades no mundo clássico e na Idade Média, embora a sistematização dos estudos sobre o tema tenha se constituído em fins do século XVIII com a formação dos Estados nacionais. O conceito de patrimônio permite entender que é o livre sentido de acumulação, transitando com essa categoria em outros contextos socioculturais e “[...] isto nos facilita pensar também o patrimônio como pertinente ao mundo virtual, ao menos no sentido da transmissão digitalizada, que é mais compartilhada e não visa prioritariamente a acumulação, mas à socialização da informação.

2.1. Patrimônio Digital

Jéssica Ferreira da Silva (2014, p.88), afirma que os avanços tecnológicos existentes vêm trazendo muitas facilidades para a vida dos indivíduos de maneira geral, desde uma simples consulta ao saldo bancário em um aparelho celular ou até mesmo a possibilidade de se dirigir um carro apenas com comando de voz. Estes avanços trazem possibilidades ímpares, porém existem questões que devem ser consideradas diante de tantos conteúdos acessados, adquiridos e produzidos.

Ainda, menciona que a popularização dos computadores e possibilidade de maior acesso por parte da população trouxe uma gama de novos documentos gerados de forma individual e digitalmente. Estes ativos digitais dos indivíduos, de maneira geral, trazem sua história: traços de sua personalidade, momentos de suas vidas, trajetórias percorridas, dentre outros.

O acervo deste patrimônio digital pode ser composto por: fotos, vídeos, músicas, textos, filmes etc., os quais podem ser adquiridos ou feitos por seu proprietário. De posse destes ativos, o dono sabe da destinação e uso que lhe dará durante sua vida, porém não sabe o que pode acontecer após seu falecimento e o destino de todos estes ativos digitais.

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Desse modo, sendo a herança o patrimônio transmitido aos herdeiros e considerando a ideia expressa pelo código de 2002 de que o patrimônio inclui o complexo de relações jurídicas dotadas de valor econômico de uma determinada pessoa, percebe-se que arquivos digitais dotados de tal valor (sites, musicas, filmes, livros, bens virtuais e etc.) devem fazer parte da partilha. A crescente relevância de bens digitais já possibilita a interferência desses na parcela legítima reservada aos herdeiros. (FRANÇA, 1973, v.2, p.5).

De acordo com Aurelio (2016) o conceito de herança digital tem sido discutido em larga escala a nível internacional, ele abrange todo o legado digital que um indivíduo deixa após sua morte. A importância desta temática se faz necessária devido às transformações pautadas principalmente pelos avanços tecnológicos vivenciados na sociedade atual. A herança digital tem se tornado uma preocupação por parte de pessoas em diversos países, não somente por valores sentimentais, mas também por valores monetários existentes em algumas coleções adquiridas por intermédio de compras.

Em pesquisa realizada a pedido da empresa de segurança informática McAfee, a MSI1 internacional, foi entrevistado mais de 300 consumidores sobre o valor econômico atribuído aos seus ativos digitais. Foi avaliado os mais variados tipos de downloads como: música, carreira (currículos, carteiras, cartas de apresentação, contatos de e- mail), passatempos e projetos de criação. Disso constatou-se que:

O valor atribuído pelos entrevistados aos arquivos digitais é R$238.826,00. Os entrevistados indicam que 38% de seus arquivos são insubstituíveis, significando que o valor de seu patrimônio insubstituível é de R$90.754,00, um dado que deve ser considerado relevante.

Para argumentar, asseverou Sergio Oliveira (2016), diretor regional da área de consumidores para a América Latina da McAFee:

[...] a maioria dos consumidores nem sonharia em deixar uma pilha de fotos de seus filhos, extratos bancários, senhas de internet e outras informações pessoais disponíveis ou

1

Informação retirada do site http://olhardigital.uol.com.br/noticia/brasileiro-calcula-patrimoniodigital-%20em-r-238-mil,-diz-estudo/29129>. Acesso em 07/07/16

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facilmente acessíveis para que estranhos pudessem se apossar desses dados.

É necessário introduzir a previsão da herança digital no processo civil brasileiro, principalmente a sua necessidade na atualidade, no sentido de como este direito já está sendo utilizado, sua natureza jurídica e as suas peculiaridades. A importância desta modalidade de sucessão tende a satisfazer a realidade da população virtual. (ROHRMANN, 2005, p.195).

Para Oliveira (2014) é de suma importância a inserção deste assunto no ordenamento jurídico, apesar da magnitude, ainda é pouco esclarecido, tendo em vista que o instituto da herança digital permitirá a discussão dos bens virtuais do de cujus, ou ainda, na sucessão testamentária, podendo este mesmo resguardar seus direitos no que concerne aos bens digitais, acesso, entre outros. Independentemente do valor econômico, preservar um patrimônio significa preservar a identidade de um determinado tempo, local ou cultura.

Investigar e analisar a atuação e as consequências jurídicas dos bens armazenados no meio virtual e a forma de suceder esses bens, é fundamental para que se discuta o potencial que a herança digital vem a oferecer no ordenamento civil. Uma problemática que gira em torno da questão se o ordenamento jurídico brasileiro dá suporte ao Poder Judiciário para analisar as pretensões das partes que vivem numa era totalmente digital. (LARA, 2016).

2.2. Herança Digital

A discussão em torno da Herança Digital vem movimentando o judiciário internacional desde o ano 2000. Um dos casos mais marcantes foi em 2009, com a morte da norte-americana Janna Moore Morin, aos 28 anos de idade, na cidade de Ohama, estado de Nebraska (EUA). Ao voltar para casa, Morin foi atropelada por um veículo limpa-neve e veio a óbito. A tragédia causou comoção entre a população local e sua página no facebook começou a receber centenas de mensagens de condolências diariamente. (FRANCO, 2015, p.51).

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passaram a incomodar a família da jovem, já que as fotos de Morin constantemente apareciam na rede social, causando dor aos seus entes queridos. (SILVA, 2014, p.32).

O fato teve repercussão em âmbito nacional e internacional, fazendo com que o parlamentar norte-americano John Wightman, do estado de Nebraska, elaborasse um projeto de lei com a intenção de regulamentar o direito ao acesso e gerenciamento das “propriedades digitais” de pessoas falecidas, transmitindo esses conteúdos para seus representantes legais. (TRUZ, 2013).

No Brasil um dos casos de maior repercussão em relação a temática da Herança Digital se deu com a morte da jornalista Juliana Ribeiro Campos, que faleceu em 27 de maio de 2012, aos 24 anos de idade, em decorrência de complicações causadas por uma endoscopia realizada dias depois de uma cirurgia bariátrica. Desde então, a mãe da jovem passou a travar uma verdadeira batalha para que o perfil de sua filha no facebook fosse excluído, tendo em vista as inúmeras tentativas sem sucesso, junto à rede social, para a remoção da página. (LIMA, 2016, p.57).

Em janeiro de 2013, Dolores entrou com uma ação judicial contra o Facebook Brasil na 1ª Vara do Juizado Central de Campo Grande. Após dois meses de espera, a juíza Vânia de Paula Arantes decidiu, por meio de liminar, o cancelamento do perfil imediatamente com multa de 500 reais por dia de descumprimento. A decisão não foi cumprida, e após comunicar o fato à justiça a juíza emitiu nova liminar dando o prazo de 48h para que fosse cumprida a decisão, com o prazo valendo após a entrega da notificação via oficial de justiça (SILVA, 2014, p. 33).

A empresa só cumpriu a decisão judicial após a grande repercussão do fato nos veículos de comunicação. Assim como no caso da jovem norte-americana, a família da jornalista brasileira também desejava acabar com o sofrimento causado pela presença constante de fotos e vídeos da falecida na

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rede social, o que impossibilitava parentes e amigos superarem a dor de sua partida repentina.

Para Jaime Gustavo Gonçalves de Oliveira (2014, p.124):

Nos últimos anos, o tema de Gestão da Herança Digital tem despertado a atenção de alguns investigadores. Quando o individuo nasce, é dado a ele um nome e posteriormente um registro no país onde nasceu, passando assim a cidadãos com um conjunto de direitos e deveres. Ao longo da vida este individuo adquire um conjunto de documentos que servem para sua identificação em diferentes situações. Quando este indivíduo morre, é gerado outro documento, e a partir daí ocorre todo um processo em que seus bens materiais são herdados pelos familiares ou amigos, consoante a lei e o que são deixados pré-estabelecido em testamento.

Oliveira (2014, p. 38-39) afirma que existe um outro aspeto da vida atual e que advém da crescente utilização das novas tecnologias que não fica tratado, constituído de Herança Digital. Paralelamente a uma vida real, muitos dos indivíduos têm uma vida que caminha lado a lado a si e que é fruto das inovações tecnológicas surpreendentes e da crescente utilização das novas tecnologias. Assim como na vida real, na vida digital possuem-se bens ou objetos com valor. No entanto são bens em formato digital e que são propriedades digitais de cada um.

A Herança Digital é descrita como o conjunto de ativos digitais, (e-mails, fotos, vídeos, contas dos mídias sociais e todos os outros ficheiros em formato eletrônico), que são os principais elementos da outra vida, a vida digital. A Herança Digital pode ser uma um local onde as heranças futuras (filmes de festas, fotos pessoais ou familiares) se encontram maioritariamente em formato digital ou armazenadas em cloud storage. Ainda não se saber se este tipo de bens, que se encontram armazenados nestes serviços pode ser destinado à seus familiares, caso o seu proprietário morra. (SANTOS, 2014).

Afirma que a sua preocupação sobre o que acontecerá aos ativos digitais quando um utilizador morre, com o armazenamento em cloud storage e com a segurança e privacidade é indiscutível. Cada utilizador da internet tem

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em média, vinte e seis contas diferentes e utiliza cerca de dez senhas diferentes. Com estes números o processo de planeamento da Herança Digital e a obtenção dos dados por parte dos familiares faz antever grandes complicações.

Sendo assim, a análise da natureza civil dos bens digitais componentes do acervo patrimonial também ganha destaque no estudo dos aspectos pertinentes à Herança Digital. (SILVA, 2014, p.50-52).

Sem dúvida de que são bens jurídicos, já que podem ser objetos de uma relação jurídica, os bens digitais, quanto à sua tangibilidade, devem ser classificados como espécies de bens incorpóreos, ou seja, “aqueles com existência abstrata e que não podem ser tocados pela pessoa humana” (TARTUCE, 2014, v. 1, p. 251), a exemplo dos direitos de autor, da propriedade industrial e da hipoteca.

O fato da evolução tecnológica é observado a um ritmo cada vez mais forte e os dispositivos móveis de acesso à internet aumentam a cada dia, o volume de informação criado e partilhado é gigantesco, sendo que algumas dessas informações podem pertencer a alguém e fazendo parte da identidade pessoal deste alguém, devem ser criados mecanismos para resguardar e passar estas informações de geração em geração. (DODEBEI, 2008, p. 3).

No entendimento de Oliveira (2014, p. 212), neste momento a Herança Digital está em risco, pois não são criados mecanismos para salvaguardar os dados. A causa desta falta de mecanismos é que, se não se pensar que um dia irão todos morrer não se pode ter noção do que pode acontecer com as informações em caso de morte e, tais informações ficam em propriedade dos responsáveis dos servidores que a alojam, diante dos termos aceites pelo utilizador.

O debate sobre a temática da Herança Digital chegou ao Congresso Nacional, os deputados federais Marçal Filho e Jorginho Mello apresentaram projetos de lei objetivando a normatização do procedimento que deverá ser realizado nos casos em que bens digitais do de cujus estiverem disponíveis,

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devendo estes, na falta de expressa manifestação do autor da herança, serem transmitidos a seus herdeiros legais, seguindo o raciocínio sucessório já existente no Código Civil de 2002. (Lima, 2016, p. 42).

2.3 O projeto de lei 4.099/2012

Mesmo que vagamente, a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania aprovou uma proposta que garante aos herdeiros o acesso a contas e arquivos digitais de pessoas falecidas, denominada Projeto de Lei n.0 4.099/2012 alterando o Código Civil.

Segundo Bernardo Junior (2014, p. 94):

A proposta prevê que como não há regra específica para esses casos, os herdeiros acabam tendo que entrar na Justiça para ter acesso a e-mails e contas em redes sociais de falecidos. Na falta de uma norma geral, os juízes passaram a ter decisões de formas diferentes para cada família.

Bernardo Jr. (2014, p. 96) afirma que a proposta atende às demandas dos tempos modernos e atualiza a legislação, pois houve um crescimento nas aquisições na era da internet de arquivos digitais como fotos, filmes, músicas, e-books, aplicativos, agendas de contatos, o que justificou a aprovação desta lei por prever o acesso dos herdeiros aos dados digitais.

Esta lei propôs a inclusão de um parágrafo único no artigo 1.788 do atual Código Civil, sobre as regras de transmissão de heranças, que determinam que devam ser transmitidos aos herdeiros todos os conteúdos de contas ou arquivos digitais de titularidade do autor da herança. (COELHO, 2014, p. 102).

Ainda, esclarece que em casos de morte do titular da conta, seus familiares e herdeiros que desejem encerrar essa conta, e diante dos diversos casos de transtornos que a situação gera a este, têm recorrido ao judiciário para obter seus direitos. Sendo assim, o entendimento dos juízes têm levado à maneiras de decisões, gerando controvérsias sobre a questão. Esta lei,

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portanto, supre a falta de normativas legislativas, especificando expressamente um direito para facilitar essa transferência do domínio.

Desta forma, o texto abaixo transcreve o mérito do Projeto de Lei 4.099/2012, in verbis:

O Congresso Nacional decreta:

Art. 1.º. Esta lei altera o art. 1.788 da Lei n.º 10.406, de 10 de janeiro de 2002, que “institui o Código Civil”, a fim de dispor sobre a sucessão dos bens e contas digitais do autor da herança.

Art. 2.º. O art. 1.788 da Lei n.º 10.406, de 10 de janeiro de 2002, passa a vigorar acrescido do seguinte parágrafo único: Parágrafo único. Serão transmitidos aos herdeiros todos os conteúdos de contas ou arquivos digitais de titularidade do autor da herança.

Esta lei foi a primeira a tratar especificadamente sobre o assunto de transferências de bens e contas digitais quando do falecimento de uma pessoa.

2.4 O projeto de lei 4.847/2012

Ainda na discussão deste assunto, uma segunda lei que altera a legislação foi aprovada pelo Congresso Nacional, sendo esta a Lei 4.847/2012, o qual visa inserir o Capítulo II-A e os artigos 1.797-A a 1.797-C ao Código Civil Brasileiro.

Neste sentido, destaca-se o texto do Projeto de Lei 4.847/2012, in

verbis:

O Congresso Nacional decreta:

Art. 1º. Esta Lei estabelece normas a respeito da herança digital.

Art. 2º Fica acrescido o Capítulo II-A e os arts. A a 1.797-C à Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002, com a seguinte redação:

Capítulo II-A Da Herança Digital “Art. 1.797-A. A herança digital defere-se como o conteúdo intangível do falecido, tudo o que é possível guardar ou acumular em espaço virtual, nas condições seguintes: I – senhas; II – redes sociais; III – contas da Internet; IV – qualquer bem e serviço virtual e digital de titularidade do falecido.

Referências

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