UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
GIL ALMEIDA FELIX
TRABALHO, MOBILIDADE, CIRCULAÇÃO: A FORÇA DE TRABALHO EM MOVIMENTO
CAMPINAS 2016
GIL ALMEIDA FELIX
TRABALHO, MOBILIDADE, CIRCULAÇÃO: A FORÇA DE TRABALHO EM MOVIMENTO
Tese apresentada ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas como parte dos requisitos exigidos para obtenção do título de Doutor em Ciências Sociais.
Orientadores: Dr. Arsênio Oswaldo Sevá Filho (in memoriam) Dr. Fernando Antonio Lourenço
Este exemplar corresponde à versão final da tese de Gil Felix orientado pelo prof. Dr. Fernando Lourenço.
CAMPINAS 2016
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
A Comissão Julgadora dos trabalhos de Defesa de Tese de Doutorado composta pelos Professores Doutores a seguir descritos, em sessão pública realizada em 04 de novembro de 2016, considerou o candidato Gil Felix aprovado.
Prof. Dr. Fernando Antonio Lourenço (orientador) Prof. Dr. Ricardo Luiz Coltro Antunes (UNICAMP) Profa. Dra. Rosana Aparecida Baeninger (UNICAMP) Profa. Dra. Delma Pessanha Neves (UFF)
Prof. Dr. José Sergio Leite Lopes (UFRJ)
Prof. Dr. Marcelo Domingos Sampaio Carneiro (UFMA) – suplente Prof. Dr. Mauro William Barbosa Almeida (UNICAMP) – suplente Prof. Dr. Sávio Machado Cavalcante (UNICAMP) – suplente
A Ata de Defesa, assinada pelos membros titulares da Comissão Examinadora, consta no processo de vida acadêmica do aluno.
AGRADECIMENTOS
Contei com o apoio de bolsa concedida pelo PPGSA/UFRJ no primeiro semestre de 2011, até ir para o Programa de Doutorado em Ciências Sociais da Unicamp. Já na Unicamp, contei com auxílio para pesquisa de campo e com bolsa do Programa no segundo semestre de 2011.
Desde então, o Projeto de Doutorado foi apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Processo Nº 2011/22692-6, e também foi apoiado por Bolsa Estágio de Pesquisa no Exterior, Processo Nº 2013/09175-8. Agradeço especialmente aos pareceristas por suas avaliações e sugestões.
Devo agradecimentos a muitos que me acompanharam e contribuíram das mais diversas formas para a realização desse trabalho, que, como não poderia deixar de ser, expressa ideias, teses e interesses construídos sob experiências que extrapolam os próprios limites dos anos ou dos espaços que me dediquei a ele. Essa etapa não seria realizada sem a contribuição de amigos, vizinhos, colegas de trabalho, de sala de aula, alunos, companheiros e camaradas de militância que tive a oportunidade de conhecer não só como pesquisador, mas também bem antes. E se no los puedo contar hoje com a exatidão que gostaria, faço questão de deixar registrado o meu reconhecimento a todas e todos que me forjaram nessa jornada, desde os Praxedes, do Stucky e de Friburgo, até Niterói, Rio, Marabá, Nova Ipixuna, São Gonçalo, Londres, Campinas, Ourilândia, Tucumã, Mexico, etc. Y así – ainda com Yupanqui – seguimos andando...
A pesquisa, contudo, ao mesmo tempo que é uma tarefa incontornável e necessária, é também, sem dúvida, uma tarefa angustiante, considerando tantas outras frente às quais ainda estamos muito longe de condições adequadas para uma melhor intervenção política dentro de um projeto de transformação radical. No caso daqueles que por origem ou militância lidam com o cotidiano das frações mais empobrecidas dos trabalhadores e dos camponeses, as mortes precoces e assassinatos são episódios extremos e insistentemente repetitivos dessa angústia. O assassinato de Maria do Espírito Santo e de José Claudio Ribeiro, pouco tempo após uma visita ao Assentamento em que realizei pesquisa no mestrado e que contou, inclusive, com um almoço preparado pela D. Maria, mais uma vez, me impunha constatar de perto esse cotidiano. Nos dias seguintes, à noite, medo convivido na casa daqueles que foram meus melhores amigos nesse Assentamento. Período recente, tinha presenciado outra morte, nesse caso, por falta de assistência médica, em Friburgo, de uma senhora que tão bem me recebeu em sua casa inúmeras vezes. Acompanhei os últimos dias no hospital, quando já não havia possibilidade de reversão do quadro. Dois dias depois de Maria e José Cláudio, Adelino Ramos, sobrevivente de Corumbiara, também foi assassinado a tiros em Rondônia, me fazendo lembrar que a marcha fúnebre prossegue, mas agora de novo por meio das notícias, estatísticas, boletins, informes, denúncias, e não pelo telefone, hospital, cemitério. Na mesma semana, e no mesmo Assentamento no Pará, Herivelton Pereira dos Santos. Um mês depois, em Marabá, Valdemar Barbosa de Oliveira. Junto com eles, em 2011, teriam tido outros 24, no mínimo, segundo dados que são produzidos de forma artesanal pelos movimentos voltados para os conflitos “no campo”. Em 2015, 50, quase o dobro.
O período dedicado a essa pesquisa não foi diferente. Também foi feita sob um quadro de profunda angústia frente à situação em que se encontravam esses trabalhadores, assim como às condições em que se desenvolvem as suas lutas.
Nesse sentido, antes, e acima de tudo, devo agradecimentos a eles. Essa pesquisa não seria possível sem a paciência e a confiança dos trabalhadores e trabalhadoras que se dispuseram a participar e a conversar comigo em diversas situações, principalmente nas cidades de Tucumã, Ourilândia do Norte e São Felix do Xingu, assim como de militantes e representantes institucionais nessas mesmas cidades e também em Marabá, Parauapebas, Xinguara, Açailândia e Canaã dos Carajás.
Meus agradecimentos à CPT de Marabá, Xinguara, do Alto Xingu e à equipe de Tucumã/Ourilândia. À José Batista Afonso, Primo Battistini, Henry des Roziers, Aninha de Souza, Danilo Lago e equipes. Àqueles a quem devo a recepção, a companhia e a boa amizade a partir de lá: Hélio Lima, Elizangela Lima, Cristiane Lima e suas famílias. Ao MAM e ao CEPASP. À Raimundo Cruz Neto. À Fernando Michelotti, Haroldo Souza e a todos os colegas da Unifesspa. Aos amigos José Maria Sampaio, Laisa Santos Sampaio e toda família.
Aos que debateram trabalhos preliminares dessa pesquisa em mesas, congressos, Seminário de Tese e Exame de Qualificação: Francisco Alves, Maria Aparecida Moraes, Kim Sanchez, Hernán Palermo, Rosangela Correa, Edna Castro, Marcelo Seráfico, Maria Augusta Tavares, Fernando Blanco, Delma Pessanha Neves, Ricardo Antunes, Mauro Almeida e muitos outros.
À Delma Pessanha Neves, também, pela amizade e incentivo intelectual ao longo desses anos. Agora, por aceitar compor a banca de defesa.
Aos que ministraram cursos nesse período ou que também estiveram em parte dessa caminhada: Otávio Velho, José Ricardo Ramalho, Neide Esterci, Beatriz Heredia, Moacir Palmeira, Sonia Bergamasco, Valeriano Costa, Rosana Baeninger, Roberta Peres, Plínio Arruda Jr., Zaira Vieira.
Ao PPGSA/UFRJ, colegas, professores e funcionários de 2010-2011.
Ao GPTEC/UFRJ e à Campanha de Combate ao Trabalho Escravo da CPT. À Ricardo Rezende e Xavier Plassat.
Ao Programa de Doutorado em Ciências Sociais da Unicamp e aos colegas, professores e funcionários dessa Universidade que tive oportunidade de conhecer a partir de 2011. Ao Ceres.
Ao INES, colegas e estudantes do DESU, pelo afastamento para o doutorado. À Adrián Sotelo Valencia, pela supervisão do sanduíche e atendimento ao longo da estadia no Mexico. Ao Centro de Estudios Latinoamericanos, professores e estudantes da FCPyS e da Economia da UNAM. À Ana Alicia Peña López, Nashelly Ocampo Figueroa e aos estudantes de Licenciatura em Intervenção Educativa da Universidad Pedagogica Nacional de Morelos.
Ao GETD, Fernando Prado, Marina Gouvea, Maíra Bichir e Sel Guanaes, que acabaram de me presentear com uma amigável recepção e de me apresentar o ambiente intelectual e politicamente animado e promissor da Unila.
À Garcia Quitari.
À Lucio Verçoza e família.
À Arsênio Oswaldo Sevá Filho, in memoriam, que me deu a honra de trabalhar e de aprender com ele até o momento que decidiu que não tinha mais condições de continuar me orientando, já no limite de suas forças físicas.
À Fernando Antonio Lourenço, em especial, por quem nutro grande apreço pessoal, agradeço a orientação arguta e generosa, assim como a decisão de continuar comigo mesmo após a aposentadoria.
Aos professores que aceitaram participar da banca de defesa, Ricardo Antunes, Rosana Baeninger, Gustavo Lins Ribeiro, Marcelo Carneiro, José Sergio Leite Lopes, Savio Cavalcante e Mauro Almeida.
À minha família, minha mãe, meu avô. Aos amigos e amigas de longa data. Aos que me acolheram afetuosamente nas suas vidas, Maria, Leandro e Tassia.
À Juliana Guanais, com quem compartilho amor, todos os momentos, memórias, sentimentos, sonhos e ideias. Não terei palavras, nunca, para agradecer toda a confiança, tudo o que fez por mim e junto a mim nesses anos.
“(...) aí, no nosso dizer, se pergunta: ‘Rapaz, onde está fulano?’ – ‘Ah, fulano está aí no meio do mundo’. E ninguém sabe onde é o meio do mundo, né? (risos). Disse que uma vez alguém perguntou onde era esse meio do mundo e o outro disse assim ‘Ó, eu sei’. ‘E onde é?’. ‘É aqui!’. ‘E como é que você sabe?’. ‘É só você medir de lá pra cá e de cá pra lá que você vai ver onde é o meio do mundo’ (risos). Quer dizer, não provam nunca, né, onde é esse meio do mundo”
RESUMO
Nesta tese, analiso processos sociais de mobilidade espacial e de circulação mercantil da força de trabalho, considerando, em especial, as transformações decorrentes da chamada acumulação flexível do capital e as características que essas transformações assumem frente a aspectos específicos de formações dependentes como o Brasil. Para tanto, dando prosseguimento a investigações anteriores sobre as condições de constituição e reprodução social da pequena produção rural, por um lado, e, por outro, sobre as especificidades do exército de reserva nas formações dependentes, foram analisados dados de uma nova etapa de pesquisa de campo realizada junto a trabalhadores de um grande projeto da indústria da mineração na Amazônia Oriental. Fruto de um plano estratégico global da empresa Vale, o grande projeto em questão foi composto pela construção de uma megamina e de uma usina metalúrgica entre os anos de 2007 e 2010, visando explorar as reservas das Serras da Onça e do Puma, situadas em região limítrofe dos municípios de Ourilândia do Norte, Tucumã e São Felix do Xingu, no estado do Pará, norte do Brasil. Nesse sentido, em um primeiro momento, analiso características das frentes de expansão, dos grandes projetos e das morfologias sociais de deslocamento de trabalhadores e trabalhadoras nestas cidades, assim como das respectivas trajetórias de circulação da força de trabalho que parte deles estabelece em várias regiões do país, principalmente nas empresas terceirizadas e subcontratadas, nas empresas agropecuárias, no mercado informal remunerado por dia de trabalho ou tarefa e no emprego doméstico. Em seguida, considerando tais trajetórias junto a tendências globais de transformações no mundo do trabalho, analiso os processos de aceleração e amplificação da circulação mercantil da força de trabalho que vêm ocorrendo nas últimas décadas e que estão, ao menos no caso brasileiro, diretamente relacionados a um regime de superexploração do trabalho. Por fim, concluo que esses processos implicam em uma maior aproximação entre o exército ativo e o exército de reserva e, portanto, em uma nova condição imposta à classe trabalhadora.
Palavras-chave: classe trabalhadora; força de trabalho; mobilidade espacial;
ABSTRACT
In this thesis, I analyze social processes of spatial mobility and labour-power circulation, considering, in particular, the transformations arising from the so-called flexible accumulation of capital and the characteristics that these transformations assume against specific aspects of dependent formations such as Brazil. In order to carry out previous research on the conditions for the constitution and social reproduction of the small rural production, on the one hand, and on the other, on the specificities of the reserve army in the dependent formations, data were analyzed for a new research stage of fieldwork held together with workers of a large mining industry project in the Eastern Amazon. As a result of Vale's global strategic plan, the major project in question consisted of the construction of a megamine and a metallurgical plant between 2007 and 2010, in order to explore the reserves of the Onça and Puma mountain ranges, located in the region bordering the municipalities of Ourilândia do Norte, Tucumã and São Felix do Xingu, in the state of Pará, northern Brazil. In this sense, in the first instance, I analyze the characteristics of the fronts of expansion, the large projects and the traffic of workers attracted and then expelled from the cities that receive these flows, as well as the respective social morphologies of displacement and trajectories of circulation of the labour-power that part of them establishes in several regions of the country, mainly in outsourced and subcontracted companies, in the agricultural companies, in the informal market remunerated by day of work or task and in the domestic employment. Then, considering these trajectories along with global trends of transformations in the world of work, I analyze the processes of acceleration and amplification of the mercantile circulation of the labour-power that have been occurring in the last decades and are, at least in the Brazilian case, directly related to a regime of super-exploitation of labour-power. Finally, I conclude that these processes imply a closer approximation between the active army and the reserve army and, therefore, in a new condition imposed on the working class.
Keywords: working class; labour-power; mobility; super-exploitation; mines and
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
ACP – Ação Civil Pública
ALBRAS – Alumínio Brasileiro S.A. ALCOA – Alcoa Alumínio S.A.
ALUMAR – Consórcio de Alumínio do Maranhão ALUNORTE – Alumina do Norte do Brasil S.A. BASA – Banco da Amazônia S.A.
BB – Banco do Brasil S.A.
BCA – Banco de Crédito da Amazônia S.A. CAT – Comunicação de Acidente de Trabalho
CEPASP – Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular; CEPLAC – Comissão Executiva de Plano da Lavoura Cacaueira;
CFEM – Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais CIPA – Comissão Interna de Prevenção de Acidentes
CLT – Consolidação das Leis Trabalhistas (Decreto-Lei 5452 de 1º de maio de 1943) COMPERJ – Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro
CPT – Comissão Pastoral da Terra
CSP-Conlutas – Central Sindical e Popular Conlutas CTPS – Carteira de Trabalho e Previdência Social CUT – Central Única dos Trabalhadores
CVRD – Companhia Vale do Rio Doce
DIEESE – Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos EFC – Estrada de Ferro Carajás
EIA – Estudo de Impacto Ambiental EIR – exército industrial de reserva
FETAGRI – Federação dos Trabalhadores na Agricultura FGTS – Fundo de Garantia por Tempo de Serviço
FUNAI – Fundação Nacional do Índio
GETAT – Grupo Executivo das Terras do Araguaia-Tocantins
IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
ICMM – International Council on Mining and Metals
ICMS – Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços ICOMI – Indústria e Comércio de Minérios S.A.
INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária INSS – Instituto Nacional do Seguro Social
MAM – Movimento dos Atingidos pela Mineração ou Movimento Nacional pela Soberania Popular Frente a Mineração
MAPA – Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento MMA – Ministério do Meio Ambiente
MME – Ministério de Minas e Energia MOP – Mineração Onça Puma S.A. MPF – Ministério Público Federal MPT – Ministério Público do Trabalho
MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra MTE – Ministério do Trabalho e Emprego
OIT – Organização Internacional do Trabalho ONG – Organização Não Governamental
PAC – Programa de Aceleração do Crescimento PGC – Programa Grande Carajás
RAC – Requisitos de Atividades Críticas RAIS – Relação Anual de Informações Sociais RIMA – Relatório de Impacto do Meio Ambiente
SEMA – Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará SFX – São Felix do Xingu
SIMETAL MARABÁ – Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas, de Material Eletrônico, Eletroeletrônico, Informática e Similares do Município de Marabá
SIMETAL PARÁ – Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas, Eletromecânicas, Eletroeletrônicos, Eletrônicos, de Material Elétrico, de Informática e Empresas Prestadoras de Serviços Metalúrgicos, Mecânicos, Eletromecânicos, Eletroeletrônicos, Eletrônicos e de Informática do Estado do Pará SIMETAL PARAUAPEBAS - Sindicato dos Trabalhadores nas Empresas Prestadoras de Serviços Metalúrgicos, Eletromecânicos, Eletroeletrônicos e nas Indústrias
Metalúrgicas, Mecânicas, de Material Elétrico, Eletrônico e de Informática do Município de Parauapebas
SIMINERAL – Sindicato das Indústrias Minerais do Pará
SINDICATO METABASE CARAJÁS – Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Extração do Ferro, Ouro e Metais Básicos de Marabá, Curionópolis, Parauapebas, Eldorado dos Carajás e Canaã dos Carajás
SINE – Sistema Nacional de Emprego
SINTICLEPEMP – Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Construção Civil Leve e Pesada e do Mobiliário de Parauapebas
SINTRAPAV-PA – Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Pesada e Afins do Estado do Pará
SINTRARSUL – Sindicato dos Trabalhadores em Transporte Rodoviário do Sul e Sudeste do Pará
SINTRODESPA – Sindicato dos Trabalhadores Rodoviários nas Empresas de Transporte de Passageiros Interestadual, Intermunicipal e Urbano, Cargas e Similares nos Municípios de Parauapebas e Canaã dos Carajás
SPVEA – Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia STR – Sindicato de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais
SUDAM - Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia TI – Terra Indígena
SUMÁRIO
O enigma e a paúra da circulação: considerações iniciais...p. 18
Situação de estudo e condições de pesquisa...23
Capítulo 1: MINAS...p. 28 1.1 A pequena produção agropecuária e os trabalhadores “no mundo”...28
1.2 O declínio da “grande migração” brasileira...39
1.3 Frentes de expansão e dependência...44
1.4 Totalidade...53
1.5 Um grande projeto japonês, uma mina enxuta...56
1.6 Ouro, terra, madeira, boi e mina: fluxos e refluxos...71
1.7 Exército de reserva: acumulação de capital e circulação da força de trabalho...82
1.8 A “população nômade” e o proletariado irlandês: produção e circulação da força de trabalho...97
Capítulo 2: FIRMAS...p. 106 2.1 Arranjos reprodutivos...106
2.2 Formas de salário e de não pagamento...111
2.3 Peões-de-trecho...119
2.4 Com ponto certo, sem ponto certo...124
2.5 Rodados...132
2.6 Trajetórias de circulação...136
2.6.1 peões-de-trecho-firma...136
2.6.2 diárias/emprego doméstico-firma...138
2.6.3 firma-firma...150
2.7 Difusão da categoria trecho...178
Capítulo 3: EXPULSÕES...p. 185 3.1 “Aqui não é mais pra nós...”: demissões, arrastões, tratores e pastos...186
3.2 Fogo, rebelião, greve...190
3.4 O sossego e a questão da volta...224
Capítulo 4: CIRCULAÇÃO...p. 234 4.1 Circulação e reprodução da força de trabalho...234
4.2 Rumo a uma “classe trabalhadora de reserva”? A aproximação entre exército ativo e exército de reserva...247
4.3 O trabalho nas prateleiras do supermercado...263
4.4 A assim chamada rotatividade...273
4.5 Supercirculação, superexploração: (breves) notas finais sobre o caso brasileiro...279
Mais mercado! O império das coisas: considerações finais...p. 301
Referências bibliográficas...p. 308 Anexo 1: Sobre o conceito de exército industrial de reserva em Ruy Mauro Marini..p. 322 Anexo 2: Termo de Consentimento Livre e Esclarecido...p. 351
O ENIGMA E A PAÚRA DA CIRCULAÇÃO
Considerações iniciais
Em uma quadra histórica na qual a ideologia da liberdade de mercado é reproduzida como panaceia e o “mundo das coisas” ganha dimensões cada vez mais vastas, também estão cada vez mais ocultas as relações sociais que as produzem. Neste sentido, fazer o caminho inverso não é uma tarefa fácil.
Em primeiro lugar, para entender o “mundo das coisas” teríamos que nos voltar aos possuidores dessas coisas e às relações que estabelecem entre si esses possuidores – uma constatação, no mínimo, ingênua em Sociologia, porém ainda necessária e, justamente por isso, deveras significativa, na medida em que expõe a que ponto se chegou em um curioso “animismo burguês” nas ciências contemporâneas e na vida social em geral.
Porém, considerando que a teoria de Marx, por exemplo, permanece nos auxiliando com algum poder explicativo, esse exercício não basta. Isso porque, no modo de produção capitalista de mercadorias, considerando que as relações de produção se realizam sob a forma de relações entre “coisas”, a reificação seria dupla: haveria tanto “relações sociais entre coisas” quanto relações coisificadas entre pessoas. Assim, por um lado, trata-se de algo de fácil percepção e simples exercício analítico desmistificador: coisas “agem”. Mas, por outro, nem tanto. As pessoas trocam sua capacidade de trabalho no mercado com coisas, sendo assim, essa troca não relaciona pessoas, produtores, trabalhadores de carne-e-osso, mas coisa com coisa, mercadoria com mercadoria. Se, por um lado, a análise sociológica deve restituir as relações sociais ocultas na troca das coisas, por outro, não pode negligenciar essa troca, já que é através dela que se organizam as próprias relações sociais para a produção desse “mundo de coisas” frente às quais estão subsumidas essas pessoas, considerando o fato de sua reprodução social depender do acesso a essas coisas que compõem seus meios de vida. Afinal, como Marx demonstra, quanto mais se negligencia a forma dessas trocas em qualquer dimensão da vida social, mais poder explicativo se atribui a uma teoria que retira das coisas os seres humanos que as produzem e mais natureza se atribui às relações sociais estabelecidas entre eles em
dado momento histórico. Mais teológicas serão essas coisas e menos deuses serão todas as não-coisas, humanas ou não.
Sendo assim, um exercício de teoria e pesquisa social em torno da troca de uma dessas coisas, como é o caso proposto aqui, ganha algum sentido na medida em que a forma com que se está trocando essa coisa hoje demonstra poder explicativo para entender não exatamente o óbvio tautológico, a produção social dela mesma, do “mundo das coisas”, mas sim o estado atual das próprias relações sociais de produção que ela oculta, aprisiona e perpetua.
Porém, analisar a troca dessas coisas encerra ainda mais riscos de tomá-las de maneira reificada, por uma série de razões. A princípio, a simples circulação não as altera, a não ser espacialmente. Tomadas e isoladas nesse movimento, mesmo um competente e perspicaz analista social pode não produzir mais do que um inócuo empirismo pautado pela observação da sociabilidade ou da “cultura do dinheiro”, que, ao recortar a circulação em sua forma aparente, coisas como coisas (ou coisas com coisas), reproduz com autoridade científica o “mundo das coisas”, concedendo natureza a tudo o que observa com sua varinha mágica: economia, sociedade, cultura, indivíduo, banana, gado, floresta, etc. Voltamos ao seu divino reino fictício, à moderna (ou moderníssima) religião burguesa, às mercadorias sem portadores de mercadorias e, portanto, às mercadorias sem produtores de mercadorias, sem trabalho, ao modo de produção capitalista sem capital. A um exercício intelectual que, quando realizado com propriedade, restitui movimento em tudo, mas transformação em nada. Ou seja, frente a um mundo de ideias interessado na ordem, no equilíbrio estático das narrativas da sociedade pela qual, inclusive, se formou historicamente a ciência social – e pela qual se travam e se materializam continuamente as lutas pelo poder atribuído aqueles produtores de ideias a que se credita socialmente (e, portanto, também “movilmente”, em movimento) ter o domínio de explicação da realidade empírica, que é, obviamente, síntese de múltiplas determinações, “móvel” – alia enorme capacidade provocativa com nula capacidade crítica. Tudo se move, mas para manter tudo no mesmo lugar. Simples complexificação das mesmas novas (velhas) narrativas da ordem, agora com uma representação dinâmica levada mais a sério.
O estudo realizado aqui sobre a coisa convencionalmente denominada “força de trabalho”, forma como foi designada a mercadoria que o capitalista compra do trabalhador por Marx, também encerra outros riscos específicos. Ao mesmo tempo que possuidores de mercadorias não são mercadorias, as trocas das mercadorias não são de possuidores de mercadorias, mas de mercadorias por mercadorias, por exemplo, de “força de trabalho”
por quantia em dinheiro, isto é, a relação entre esses possuidores de mercadorias é necessariamente coisificada. Daí o problema para a pesquisa tanto dos possuidores de mercadoria quanto para a troca das mercadorias, que não podem ser dissociadas, mas que também não podem ser eclipsadas sob pena de uma análise, no mínimo, mecânica de ambos, facilmente refutada empiricamente ou torpemente afastada do “concreto”, algo que não corresponde à prática propriamente dita, mas simplesmente à ideologia, seja em uma ficção das “mercadorias sem valor” ou, por outro lado, em uma ficção das pessoas-mercadoria, que é uma redução sociológica grosseira, mesmo em modos de produção que não o capitalista.
Sendo assim, lidar com a mobilidade de pessoas que vendem sua força de trabalho é problema antigo que envolve necessariamente um distanciamento teórico-metodológico tanto de um estruturalismo mecanicista (que, bem observado, não vale nem mesmo no caso do deslocamento do mais miserável trabalhador em busca de trabalho, momento inquestionável da redução do ser social à sua condição de escravo moderno, vendedor exclusivo de força de trabalho), quanto de um idealismo liberal, que supõe os trabalhadores indivíduos livres circulantes e as migrações de trabalho o resultado de uma enorme calculadora social, em um matching de soma zero. Nesse caso, como as pesquisas vêm demonstrando, ambos os pólos se aproximam mais de um certo tipo de positivismo de matriz economicista do que propriamente de uma ciência social do fenômeno equivocadamente considerado “econômico” dos deslocamentos, isto é, da mobilidade e da circulação do capital. Neste sentido, caso consideremos a prática o “critério da verdade”, portanto, o confronto da teoria com a prática em nada a desautoriza a priori, a menos que a intenção seja, ao invés de construir teoria ou analisar dados construídos em pesquisa, reafirmar dogmas, construção que nem mesmo o idealismo mais vulgar de todos preconiza1.
No campo dos estudos da migração laboral internacional, desde os anos 1980, a crítica à base epistêmica do nacionalismo metodológico e das dicotomias binacionais e biculturais, junto à maior dificuldade para a definição do lugar de ida-retorno, ou de origem-destino, “emigração” ou “imigração”, ou mesmo, às vezes, “migração”, e com a
1 “Compreendendo-se a si mesmo”, como escreveria depois, o rascunho de Marx foi: “A questão de saber
se ao pensamento humano cabe alguma verdade objetiva [gegenständliche Wahrheit] não é uma questão da teoria, mas uma questão prática. É na prática que o homem tem de provar a verdade, isto é, a realidade e o poder, a natureza citerior [Diesseitigkeit] de seu pensamento. A disputa acerca da realidade ou não realidade do pensamento – que é isolado da prática – é uma questão puramente escolástica”. (grifos do autor; Marx, 2007: 533).
constatação de um fluxo contínuo de deslocamentos, vem encorajando os pesquisadores a arriscar conceitos mais adequados a uma condição de “transnacionalidade” ou de “translocalidade”, como “nômade”, “transmigrante”, etc. Trabalhos que se avolumam desde os anos 1990 e, em especial, depois dos 2000, já, inclusive, transcenderam o campo das migrações ou dos deslocamentos, para o que se propõe a partir da França como o novo “paradigme de la mobilité” de Alain Tarrius ou o “mobility turn” de John Urry e associados no Reino Unido. A partir de referências em tradições interacionistas e em releituras de G. Simmel, novos paradigmas para as ciências sociais têm sido anunciados a fim de compreender o movimento de “pessoas, ideias e coisas” ou, lato sensu, as “mobilidades”, considerando que teria ocorrido “um rápido crescimento em várias formas de mobilidade no mundo contemporâneo”.
No Brasil, dos anos 1980 em diante, o declínio da “grande migração” que caracterizou boa parte do século XX e as transformações das últimas décadas nos denominados mundo rural e mundo do trabalho também têm motivado a experimentação ou, na falta de melhores reflexões a respeito, a apropriação de conceitos que visam dar conta de uma empiria que – como não poderia deixar de ser – suplanta epistemes historicamente constituídas em meio aos rígidos recortes da divisão do trabalho científico, como é o caso do atual enigma da circulação.
Nesse sentido, o pensamento reflexivo a respeito desse enigma implica revisitar questões antigas (ou, melhor, pautas ocultas e sempre renovadas) de campos de estudos nem sempre em diálogo, como, por exemplo, no chamado mundo rural, os fantasmas da questão agrária, da acumulação primitiva e da proletarização, e, no chamado mundo do trabalho, da questão do valor e das polêmicas em torno da esfera da circulação. Também implica enfrentar os pontos cegos deixados pela doxa acadêmica para uma análise processual da circulação, ou seja, do vastíssimo mundo ainda inexplorado da cotidianidade e da historicidade dos processos sociais de circulação, na medida em que a análise processual privilegiou transições históricas ou processos de transformação com sentidos polarizados do tipo condição camponesa a proletária, fábrica antes e depois da reestruturação produtiva, operários estáveis a trabalhadores precários, rural-agrário a urbano-industrial, categoria ou setor A a categoria ou setor B, exército ativo a exército de reserva, etc., ou vice-versa.
Em um contexto no qual a análise sociológica se depara com a rapidez das novas condições colocadas pelo aumento da produtividade na indústria de transportes, tecnologias de comunicação e sistemas de crédito, pelas novas condições sociais da esfera
da circulação e da rotação do capital, um amplo leque de questões teóricas e metodológicas ainda resta em aberto2. Mais uma vez, dependendo dos achados empíricos, da “prática”, debates teóricos como os colocados pelos autores da Neue Marx-Lektüre, por exemplo, poderiam ser arguidos com mais propriedade, já que, obviamente, investigar a esfera da circulação não implica em determinar a priori uma “centralidade da troca” ou uma “centralidade da produção”.
Contudo, a construção do objeto dessa pesquisa, como qualquer outra, ainda que tenha partido de uma questão teórica e de uma problemática constituída frente a um interesse de diálogo e produção sociológica, não foi exatamente essa mesma questão teórica a que me refiro nessa exposição introdutória, mais afeita à reflexão que foi feita ao longo da pesquisa. A intenção inicial era problematizar criticamente certa teoria desenvolvimentista a respeito das regiões outrora designadas “novas fronteiras” na Amazônia a partir de uma pesquisa sistemática de campo e do diálogo com referenciais teóricos da teoria marxista da dependência3. No fim, porém, o exercício não se limitou a
2 Sem surpresas, os exercícios mais criativos e que alcançaram maior poder explicativo foram, justamente,
aqueles que buscaram não se limitar perante a paúra da circulação, em geral – e mui curiosamente – mantida sob gritos de totalidade e de abandono da teoria do valor trabalho. David Harvey, por exemplo, que toma por base (com direito a seus pontos cegos também) os chamados “países capitalistas avançados” para entender a atual etapa de acumulação de capital, assim definiu recentemente o trabalho que leva adiante desde The limits to capital [1982]: “I had long recognized that the first two volumes of Capital were constructed under radically different assumptions and that they produced two quite different accounts of how capital worked. Volume One of Capital is about the production of value and surplus value whereas the main (though not exclusive) focus of the incomplete and stitched together Volume Two is the problem of realization. (…) But I had never followed up the full implications of what Marx in the Grundrisse called “the contradictory unity of production and realization.” To begin with, most Marxists read Volume 1 of Capital with care but very few read or let alone study Volume 2. In writing the introduction to the Companion to Volume 2, I emphasized how important it is to give equal weight to the two volumes, but judging from the sales rankings on Amazon the strong bias towards emphasizing the first volume relative to the second is very much in evidence. The result has been a bias in the history of Marxist thinking towards a “productivist” reading of Capital while questions of realization are treated as of secondary importance.” (Harvey, 2015). No mínimo desde os anos 1960, já ficou claramente demonstrado que as epistemologias políticas, econômicas, históricas, sociológicas, antropológicas, etc., limitadas por essa paúra pouco poder tiveram para avançar dos velhos e novos eurocentrismos, do apagamento do mundo do trabalho das colônias e ex-colônias. Se antes, por exemplo, o processo de valorização não inseria dialeticamente a circulação, agora a circulação não insere dialeticamente o processo de valorização (com sistematizações bastante sugestivas como, por exemplo, “fim do trabalho”, “retorno da superexploração” ou, mais recentemente, “nova classe social”).
3 Em resumo: “Nas últimas duas décadas tem sido constante e cada vez mais frequente as denúncias de
"trabalho escravo" ou degradante envolvendo trabalhadores rurais no Brasil, que alcançam grande número, especialmente nas regiões atualmente designadas como novas fronteiras na Amazônia. Tais denúncias têm veiculado fatos que são tomados como expressões do atraso, qualificados como maneiras arcaicas de exploração que teriam lugar nos rincões atrasados do país e que, portanto, seriam substituídos e/ou superados pelo desenvolvimento econômico e social ou por uma intervenção estatal qualificada. Neste sentido, o Projeto visa analisar as trajetórias sociais estabelecidas pelos trabalhadores rurais a partir de uma dessas regiões, considerando as condições sociais que possibilitam formas específicas de mobilidade espacial e de superexploração do trabalho e suas possíveis relações com os processos de acumulação e reestruturação capitalistas regionais e globais ocorridos nas últimas três décadas”. (Felix, 2010).
isso. A decisão de tomar a sério os dados produzidos nos percursos dos trabalhadores exigiram mais algumas reflexões que terminaram por alterar significativamente a pesquisa e seus resultados.
No capítulo 1, “Minas”, exponho em maiores detalhes a construção do objeto e o desenvolvimento da pesquisa a partir de referências de campo, como a noção sintetizada no que os trabalhadores e camponeses em certas regiões da Amazônia Oriental designam como “mundo” ou como estar “no meio do mundo”. Em seguida, abordo o processo de implantação de uma nova mina da empresa Vale no estado do Pará. No segundo capítulo, “Firmas”, abordo as trajetórias de circulação da força de trabalho, os arranjos reprodutivos e as morfologias sociais de deslocamento dos diferentes grupos de trabalhadores estabelecidos ou em trânsito nas cidades do entorno dessa nova mina. Em “Expulsões”, descrevo as diversas formas de expulsão a que estavam sujeitos esses trabalhadores e sua relação com a circulação da força de trabalho. No último capítulo, “Circulação”, a partir dos dados da pesquisa de campo, analiso as atuais formas de circulação mercantil da força de trabalho frente a processos mundiais ocorridos nas últimas décadas. No caso brasileiro, relaciono um processo por mim denominado supercirculação com a reprodução histórica do regime de superexploração do trabalho. No anexo, considerando algumas citações feitas nos capítulos, inseri um texto ainda não publicado em que sistematizo referências teóricas pouco conhecidas no Brasil.
Para facilitar a leitura, cabe esclarecer como utilizei os grifos no texto. Usei o itálico para grifar as categorias do discurso de meus interlocutores que têm relevância para o estudo que faço. As aspas foram usadas para citar palavra, título ou trecho retirado de outros autores, grupo de autores ou de outro contexto em geral, enfatizando a forma tal como ela aparece na origem. Outras vezes, usei também para problematizar. O sublinhado foi usado quando era minha intenção ressaltar partes do texto de outros autores ou do meu próprio texto para o leitor. No anexo, que se trata de outro texto, independente do texto principal da tese, foi o itálico que usei para ressaltar.
À exceção daqueles que ocupam cargos ou posições públicas, os nomes são fictícios.
Situação de estudo e condições de pesquisa
Além de uma série de atividades de campo acompanhadas e registradas enquanto observações de natureza etnográfica, em 2011 e 2012, foram entrevistados 37
trabalhadores de forma detalhada, assim como 26 dirigentes de 22 instituições relacionadas ao objeto de pesquisa (sindicatos, movimentos, centros de assessoria, empresas de construção civil, secretarias de assistência social, escritórios de advocacia trabalhista, escritórios de contabilidade de fazendas, escolas de cursos técnicos, ONGs, etc), totalizando, portanto, no final da etapa de campo, 63 pessoas, nas cidades de Ourilândia do Norte, Tucumã, São Felix do Xingu, Xinguara, Parauapebas, Marabá e Açailândia (esta última no Maranhão, as demais no sudeste do Pará). O período de campo compreendeu uma semana em setembro de 2011 e 4 meses em 2012, entre agosto e dezembro. Morei em uma quitinete na cidade de Tucumã com minha companheira ao longo dos meses de trabalho de campo, com a exceção do primeiro período, quando fiquei hospedado em casas da CPT e, depois, no segundo, em um pequeno hotel por alguns dias. Desde então, além do habitual levantamento de base de dados, literatura e informações em geral relativas à pesquisa, mantive contato com os interlocutores que estabeleci em campo.
Em Ourilândia do Norte, as entrevistas com trabalhadores foram feitas, principalmente, nos setores “Joel Hermógenes” e “Marcia Veloso”, além de visitas e conversas com moradores no Projeto de Assentamento “Campos Altos”, no Projeto de Assentamento “União” e na “Ocupação 8 de março”. Em Tucumã, as entrevistas com trabalhadores foram feitas no loteamento “Lago das Rosas”, em um “grilo” em área de propriedade de um órgão do Ministério da Agricultura, em cerca de 6 dormitórios e num bar próximo à Rodoviária da cidade. Também foram visitados alguns dormitórios em São Felix do Xingu (“hotéis pioneiros”), no momento da pesquisa inicial de campo. Ao longo do período, participei, de maneira geral, como convidado e observador, das atividades diárias da CPT do Alto Xingu, em especial, da equipe de Ourilândia do Norte/Tucumã, além de outras, mais gerais, como foi o caso de um Retiro dos Movimentos Sociais em São Felix do Xingu (agosto de 2012), do I Encontro da Juventude Atingida pela Mineração de Canaã dos Carajás (outubro de 2012) e de um Encontro de Formação do Movimento dos Atingidos pela Mineração, em Marabá (novembro de 2012).
Além disso, em janeiro e fevereiro de 2013, mantive contato e obtive autorização para visitar e ter acesso aos dados produzidos por instituições de denúncia das condições de trabalho e vida de trabalhadores rurais, como foi o caso da Campanha de Combate ao Trabalho Escravo da Comissão Pastoral da Terra (“Escravo nem Pensar”, CPT/CRS) e o Grupo de Pesquisa sobre Trabalho Escravo Contemporâneo da Escola de Serviço Social da UFRJ (GPTEC/UFRJ). A partir do contato com o GPTEC, que utiliza principalmente
os dados produzidos pela CPT, obtive os arquivos digitais de todas as denúncias no Brasil nos anos 2010, 2011 e 2012, gentilmente enviados pelo coordenador da Campanha Nacional, Xavier Plassat. E, junto com os mesmos, ao longo do ano, também obtive as publicações que buscaram analisar e consolidar esses dados nos últimos anos. Por outro lado, todas as visitas às instituições também foram oportunidade para ter acesso a panfletos, jornais, arquivos digitais, pastas e documentos de maior ou menor interesse para a pesquisa, assim como suas mídias eletrônicas. Dados sobre condições de trabalho no Brasil e no mundo foram retirados de fontes diversificadas: outras pesquisas publicadas, dissertações e teses, relatórios de agências internacionais, conteúdo das mais variadas publicações na internet, como blogs, sites de recrutamento, fotos, etc.
Essa etapa de pesquisa visou dar prosseguimento a investigações anteriores, buscando informações a partir de situações em que uma determinada parcela de trabalhadores estivessem em trânsito ou recém estabelecidos em municípios que se transformaram rapidamente nos últimos anos, ou que representassem um rumo recorrente de fluxos do tipo. A escolha de um contexto em que tal fluxo se estrutura a partir da implantação de uma megamina e de suas atividades associadas, entretanto, requer ainda outras notas iniciais, sobre as condições de pesquisa e de produção científica.
A implantação da empresa se deu, dentre outros, a partir de dispositivos comuns aos grandes projetos, ou seja, a partir de técnicas de resolução negociada de conflitos empregadas por agências do Estado ou de instituições da chamada “sociedade civil” que significam, na verdade, a própria imposição da negociação e execução mediada das ações estratégicas de acumulação do grande capital.
A apresentação da empresa Vale como responsável pelo “desenvolvimento” e pelo “progresso” faz com que as intervenções e os investimentos da rede de produção representada por ela se deem com amplo apoio de órgãos de financiamento público e com incentivo fiscal e político dos agentes de governo municipais, estaduais e federal. Em contraponto, a implantação desses empreendimentos vem ocasionando conflitos, principalmente a partir da luta por indenizações ou contra as desapropriações de pequenos produtores rurais. Nos últimos anos, ocorreram vários protestos públicos e foi organizada uma ampla rede de movimentos sociais específicos, como o Movimento dos Atingidos pela Mineração, a Justiça nos Trilhos e a Articulação Internacional dos Atingidos pela Vale4. Por outro lado, como friso adiante, desde 2005, os índios Xikrin e Kayapó,
4 Uma série de manifestações convocadas por associações de pequenos produtores rurais, sindicatos de
vizinhos do empreendimento, também reivindicam indenizações e compensações pelos danos causados pela abertura da Mina, mediados por suas próprias associações indígenas, pela Fundação Nacional do Índio e pelo Ministério Público Federal.
A realização do trabalho de campo dessa pesquisa, portanto, se insere em um contexto mais amplo de luta política, no qual, nem o pesquisador e tampouco a própria produção de conhecimento está descolada, em certo sentido. No período em que desenvolvi minhas atividades havia, nesse sentido, uma disputa política bastante intensa e desigual entre aqueles que buscavam demonstrar os “benefícios trazidos pela mineração” (e “pela Vale”, em particular) e os que demonstravam “o saque e a pilhagem das riquezas naturais” que representa a expansão da indústria da mineração conduzida pelo capital transnacional, meio no qual estive posicionado e a partir do qual, via de regra, conduzi as investigações. Havia, assim, uma verdadeira guerra de números do que gera a mineração na região, cada qual recorrendo a estatísticas favoráveis ao seu argumento, e nem sempre de forma confiável. Eram comumente citados pelos agentes em disputa dados como renda bruta do município, renda per capita, Índice de Desenvolvimento Humano, crescimento econômico, número de empregos, características dos empregos gerados, ocupação desses postos de trabalho, número de instalações de unidades públicas de atendimento à saúde e outras instalações públicas, crescimento da população, propriedade das terras, violência, etc. Além desses, também eram citados outros dados de mensuração ainda mais difícil de se atingir algo objetivo como é o caso da “melhoria das condições de vida”, prostituição, poluições, impactos ao meio ambiente, etc. Esse campo político, porém, antagoniza agentes em extrema desigualdade de poder entre si, concentrando, em especial, no pólo daqueles que são “favoráveis à mineração” praticamente todas as posições de prestígio e instrumentos de poder, com a exceção de algumas associações de moradores, de pequenos produtores rurais, alguns movimentos sociais e sindicatos de trabalhadores e suas mídias associadas, em geral, de circulação restrita e com pouco poder de difusão de informação.
A produção acadêmico-científica também não estaria fora dessas influências, como se pode verificar, por exemplo, no apoio financeiro a determinadas publicações e pesquisas que a Vale oferece diretamente ou através de associações científicas e/ou de
Pará desde 2008. Os movimentos são organizados em redes coordenadas pelos movimentos Justiça nos Trilhos e Fórum Carajás.
fomento à pesquisa acadêmica5. A proibição que os funcionários da empresa têm de se pronunciar a respeito das ações que desenvolvem, ou, às vezes, de se pronunciar sobre qualquer outro assunto, sob pena de serem demitidos ou até mesmo processados judicialmente, é outro exemplo6.
No caso das prefeituras municipais e outros órgãos de governo do Estado, a perda ou ganho de arrecadação advindas das decisões das empresas de mineração estão sempre em jogo em qualquer evento, campanha ou mesmo pronunciamento público a respeito de assunto que possa vir a ser relacionado às atividades extrativas desenvolvidas no próprio município ou nos municípios vizinhos7.
Mesmo entre aqueles que, por ofício ou por convicção, estiveram posicionados no pólo oposto, foi comum acompanhar em campo uma série de desconfianças e de disputas a respeito de como agir a respeito das ações da empresa: se deviam combater as expropriações ou não, aceitar indenizações ou não, aceitar apoios financeiros para projetos ou não, fazer ou participar ou não de uma manifestação, apoiar um ou outro grupo e/ou movimento, receber ou não um pesquisador (possível infiltrado policial ou espião da empresa, pesquisa confiável ou não), dentre muitas outras questões.
5 A Vale, além do “Prêmio Vale-Capes de Ciência e Sustentabilidade”, junto à Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de nível superior (CAPES, órgão do Ministério da Educação), também mantém convênio para promoção de pesquisas de interesse com fundações de amparo à pesquisa dos estados em que localiza suas operações (Fapesp, Fapemig, Fapespa e Faperj, dentre possíveis outras). Cf. http://www.vale.com/brasil/PT/aboutvale/news/Documents/Rev_Pesquisa_Fapesp_Jan15_Medidas_espac iais.pdf . Sobre o Prêmio, ver a Carta de repúdio da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (ANPUR, 2012).
6 Em campo, fui informado por um funcionário operacional de nível médio da Vale que ele estaria
desenvolvendo uma pesquisa para seu Trabalho de Conclusão de Curso de graduação numa universidade privada, à distância, e não foi autorizado a citar o nome da empresa, referindo-se às transformações no município pós-implantação da Vale como relacionadas aos “empreendimentos minerários da região”. Em outro momento, também tomei conhecimento que os funcionários da Vale seriam incentivados nos cursos e treinamentos internos a se portarem de forma diferenciada mesmo fora dos portões da empresa, por serem corresponsáveis pela “imagem da empresa”.
7 Em entrevista realizada por mim em 12/11/12, o prefeito em exercício de Ourilândia do Norte (porém
recém-derrotado nas eleições de 2012), ao se referir ao contexto de transformações provocadas pela abertura da Mineração Onça Puma, dizia, por exemplo, que a Vale era o próprio “Deus na Terra”. No período eleitoral, um dos candidatos a prefeito nessas cidades chegou a pedir direito de resposta alegando que seu adversário teria lhe ofendido ao dizer que ele era “contra a mineração”.
CAPÍTULO 1: MINAS
1.1) A pequena produção agropecuária e os trabalhadores “no mundo”
“O próprio movimento é uma contradição”, cita Mao em “Sobre a contradição”. A frase é de Engels, Parte I de “Anti-Dühring”:
“Certamente, desde que nos limitemos a focalizar as coisas como se fossem estáticas e inertes, contemplando-as isoladamente, cada uma de
per si, no tempo e no espaço, não descobriremos nestas coisas nenhuma
contradição. Encontrar-nos-emos com determinadas propriedades, umas comuns e outras diferentes e até mesmo contraditórias entre si, mas que não encerram uma contradição verdadeira uma vez que esta se encontra distribuída entre diversos objetos. Nos limites desta zona de observação podemos aplicar o método vulgar da metafísica sem nenhum perigo. Mas a coisa é diferente se quisermos focalizar os objetos dinamicamente, acompanhando-os em sua mobilidade, vendo-os transformar-se, viver, e influir uns sobre vendo-os outrvendo-os. Ao pisar neste terreno, cairemos imediatamente numa série de contradições. O próprio movimento, por si mesmo, é uma contradição; o deslocamento mecânico de um lugar para outro somente pode ser realizado por estar um corpo, ao mesmo tempo, no mesmo instante, num e noutro lugar e também pelo fato de estar e não estar o corpo ao mesmo tempo no mesmo local. A sucessão contínua de contradições desse gênero, ao mesmo tempo formadas e solucionadas, é precisamente o que constitui o movimento” (Engels. [1878]. Parte I, seção 12).
Grosso modo, é o “movimento” que vem sendo abordado por mim, porém não apenas nessa pesquisa. A pesquisa realizada no Doutorado é, na verdade, um desdobramento de uma pesquisa mais ampla realizada desde 2005 no sudeste do Pará, cujos dados iniciais foram obtidos a partir da condição de estudante de mestrado em Antropologia na Universidade Federal Fluminense e, ao longo de um ano e meio, como antropólogo do Ministério Público Federal no Pará. O interesse dessa pesquisa agora em desenvolvimento e a construção de seu objeto muito devem aos resultados anteriores. A própria delimitação do estudo de uma fração específica de trabalhadores que aqui denominarei “trabalhadores no mundo” se deve a uma categoria com que me deparo em pesquisa de campo desde 2005 e que sigo analisando em textos, comunicações, mesas
redondas, etc, desde 20068. O Projeto de Pesquisa do Doutorado na UNICAMP visava, desde o início, estudar essa fração de trabalhadores em situação diferente da que analisei mais detidamente em etapas anteriores, ou seja, agora, não mais a partir de uma situação de posse da terra, como moradores de um Projeto de Assentamento Rural, mas a partir de situações em que estivessem circulando “no mundo”, tal como explico a seguir.
Antes, dentre outras questões, busquei compreender as formas de constituição e de reprodução social de um determinado conjunto de pequenos produtores no sudeste do Pará (ver Felix, 2008; 2009; 2010)9. Assim, deparei-me com um contexto no qual o deslocamento espacial era constitutivo do percurso de parcela dos pequenos produtores, o que sugeria, inclusive, a incorporação de uma noção de vida e de certo condicionamento social, na medida em que:
“(…) ao conversar sobre estes deslocamentos, algo que não deixava de saltar aos meus olhos era o sentido que meus interlocutores davam a suas histórias e às suas experiências pretéritas, sugerindo a incorporação de uma determinada noção de vida como trajetória. Esta noção estaria a informar certa maneira de encarar e de organizar o mundo sob situações às vezes bem perversas, ao expressar, por exemplo: a crença na busca pelo “sucesso”; na mudança como opção para se alcançar este sucesso, ou como opção de recomeço, ou de prosseguimento; na terra como algo a ser transformado; na existência de terras livres à Oeste; na reconstrução do mundo do parentesco e da reagrupação familiar original; na noção de que o patrimônio da família pode “se mudar”, seja no sentido da acumulação ou de que pode se transferir espacialmente, de um local para outro; enfim, na crença da vida em geral como uma espécie de “universo aberto”. Ao conceber a vida como uma trajetória fazia sentido relacionar certas situações como sendo características de retorno ou de avanço, falando sobre a ocasião em que se “voltou a sair na diária” ou na que se “passou a ser dono da terra”. Estaria também relacionada a um sentimento de transitoriedade, motivando o incômodo (ou a aceitação) com uma situação de assalariamento e/ou de estar sem acesso a terra considerada própria; a noções de vida que agem como amortizador das reais condições de vida e como amenizador do sofrimento, visto, de certa forma, tanto como necessário quanto como eternamente passageiro”. (Felix, 2008: 227).
8 Diferentes resultados da pesquisa já foram apresentados em reuniões da ABA, RAM, ANPOCS,
REA/ABANNE, ABEP, ALASRU, AMET, dentre outras, assim como em alguns eventos na UFF e na antiga UFPA campus Marabá (atual UNIFESSPA) em que fui convidado. As principais publicações são as que estão citadas aqui (Felix, 2008; 2009; 2010).
9 Embora não seja intenção abordar aqui a intensa e sempre renovada luta de classificações a respeito da
questão, cabe mencionar que a escolha da referência a “pequenos produtores” visa dar conta da miríade de arranjos em que se constitui a pequena produção independente rural, sem, contudo, atribuir uma essência à chamada “unidade de produção camponesa”, dentro da tradição de Velho (1982), Neves (1995) e outros.
A possibilidade de se “voltar a sair na diária”, dependendo de uma reviravolta na situação em que se encontravam no momento da pesquisa, era uma condição plausível. O “retorno” se devia a uma memória dos tempos em que formavam as pequenas poupanças e estabeleciam as transações necessárias para, enfim, se constituírem na situação em que se encontravam, na posse da terra, como pequenos produtores assentados. “À diária”, ou seja, ao pagamento por dia de trabalho braçal, que, na região, identifica o mais despossuído de todos os trabalhadores que circulam, aquele que não possui sequer os instrumentos de trabalho, realiza os mais árduos serviços – como é o caso da limpeza de pastos (roçagem de “juquira”10) – e que normalmente está vinculado a um intermediário, que fez um trato com o patrão e recebeu desse pela tarefa (empreita), subcontratando o trabalhador diarista. Esse “retorno” era plausível porque, tal como ficava claro em seus percursos até aquele momento, o acesso a terra não significava para eles necessariamente permanência, como, inclusive, já acontecera antes e, portanto, demonstrava sua experiência. E, por outro lado, mesmo a possibilidade de ascensão, de “avanço”, em geral, era vista a partir do deslocamento “definitivo” para a rua, possuindo ou não outra terra, ou uma sonhada fazenda11. No caso de um dos grupos de pequenos produtores que encontrei, houve até aquela situação uma série de deslocamentos, rearranjos familiares e trabalhos variados, certas vezes, com “retornos”, outras com “avanços”. O gráfico a seguir ilustra um desses percursos, de um pequeno produtor que tinha 66 anos e que iniciou sua jornada, então, quando tinha 14 anos, na década de 1950:
10 Forma como é denominada a vegetação secundária. Os usos dessa palavra, contudo, se estendem a
situações bem mais amplas.
11 Rua é um termo utilizado para designar tanto as pequenas vilas e cidades da região quanto outras cidades
como São Paulo, Goiânia, Imperatriz, Marabá, etc. Terra se refere a parcela do pequeno estabelecimento rural, em geral, cuja posse é atribuída ao chefe de um grupo doméstico. Fazenda é normalmente atribuído às médias e grandes propriedades rurais voltadas principalmente para a produção pecuária extensiva de corte. Para maiores detalhes e análise, ver Felix (2008).
Gráfico 1: exemplo de percurso
Para esse grupo cujo percurso acima é um exemplo, o período que compreendia a circulação anterior àquela situação de posse da terra era designado como um período em que estiveram “no mundo”. Dessa forma, parte considerável dos pequenos produtores com quem eu dialogava, portanto, referiam-se a suas histórias da época em que estavam “no mundo”, aos trabalhos nas fazendas e nas cidades, doenças, brigas, mortes, várias mudanças, aos tempos de solteiro, etc. Enfim, a tudo o que compreendia sua circulação anterior, quando não estavam na condição de pequeno produtor, o que naquele contexto significava também, necessariamente, estarem casados, quer dizer, em união conjugal, com a constituição de um grupo doméstico composto por, no mínimo, um homem, mulher e crianças. (Entretanto, os casamentos anteriores, no momento em que conversavam comigo, também integravam esse tempo que passaram no mundo.) A expressão “no mundo” também localizava irmãos em outras regiões ou até eles mesmos, no futuro, caso as condições de permanência se alterassem: “se precisar, saio de novo no mundo”. Com ela, portanto, em geral, faziam uso de uma localização social específica, que relacionava determinadas relações de trabalho (principalmente como assalariado, “peão”, trabalhador
braçal) a uma duração indefinida, ou seja, a uma condição que podia durar meses, anos ou mesmo décadas, subentendida, sempre, enquanto uma condição de grande mobilidade espacial.
Essa condição também era atribuída aos jovens filhos homens que saíram de casa em busca de trabalho. O paradeiro deles era desconhecido, perdido pela falta de informações e pelas constantes mudanças que teriam feito ou estariam fazendo. Da última vez que se teve notícia, estariam “de fazenda em fazenda”, em algum garimpo “na Guiana”, “pros lados da cidade” X ou Y, etc. No momento em que saíram da companhia dos pais, eles eram solteiros, tinham entre 14 e 25 anos em média e buscavam oferecer serviços braçais em troca de estadia, salário e/ou diárias. Essa situação, “estar no mundo”, era mais ou menos previsível, tida como quase normal de acontecer num dado momento com os filhos naquele contexto. Alguns desses filhos que saíram no mundo voltaram e, com novo status na família, buscaram se estabelecer também como pequenos produtores, em uma nova terra (o que envolvia algumas poupanças e acesso a uma série de condições que estavam disponíveis apenas para uma minoria). Outros teriam se estabelecido nas cidades do sudeste do Pará ou em outras regiões do país, e não vieram a se constituir como pequenos produtores rurais. Esses trabalhadores no mundo, portanto, já compunham, no mínimo, duas gerações seguidas de pessoas que se deslocaram para o Pará, ao longo da frente de expansão agropecuária iniciada nos anos 1960. O gráfico a seguir exemplifica o destino dos irmãos e filhos de um desses pequenos produtores, na situação que encontrei em 2005 e 200612. Em 2011, fui informado que ele mesmo também teria saído no mundo.
12 Sobre as denominadas “filhas fugidas” e a mobilidade específica das mulheres naquele contexto, ver
Gráfico 2: trabalhadores “no mundo” (Fonte: Felix, 2008: 158)
A formação dessa fração de trabalhadores aqui designada como “no mundo” está relacionada a uma série de fatores que não pretendo investigar sistematicamente neste texto, até mesmo porque significaria o investimento em um tipo de pesquisa que não fiz. Dentre outros fatores, significaria investigar a precariedade da reprodução social e
econômica da pequena produção agropecuária na região13, assim como os processos de concentração e centralização do capital na agricultura, o que se reflete, no caso, na expansão das grandes e médias propriedades rurais e na expansão da pecuária extensiva e instalação de frigoríficos, na maioria das vezes subsidiada por políticas públicas e financiamentos de bancos públicos e privados. No entanto, é importante notar que os processos que se desenvolveram desde o início da frente de expansão agropecuária nos anos 1950 alteraram até mesmo o sujeito político da luta pela reforma agrária, tal como resumem Afonso et al. (2010) com o sugestivo título “De posseiro a sem-terra” 14. Comentando a consolidação do MST no Pará, que ocorreu em meados dos anos 1990, eles afirmam:
Os avanços do Movimento se deram por meio da organização do mesmo setor social envolvido na luta dos posseiros. Essa camada da população era composta principalmente de trabalhadores pobres, muitas vezes analfabetos, imigrantes de municípios do interior do Nordeste, em particular do estado vizinho do Maranhão. Em geral, tinham algum histórico na lavoura, entretanto, incapazes de obter terra, muitos trabalhavam em minas de ouro ou serrarias ou como empregados de fazendas de gado ou em áreas urbanas. Críticos do MST costumavam dizer que os recrutas do Movimento eram mais urbanos e tinham menos ‘vocação para agricultura’ do que os posseiros. Contudo, não há muita evidência quanto a isso. As famílias que compunham o MST provinham de áreas urbanas em virtude da rápida ocupação da
13 Falta de acesso a agentes de mercado, de condições de mercado ou ausência de condições técnicas de
reprodução econômica da pequena produção – rebanho geneticamente qualificado, esgotamento do solo, rotação de pastagens, etc –, deslocamentos por doença, envelhecimento, assassinatos e ameaças de morte, endividamentos, etc.
14 Um desses processos foi a própria diferenciação interna que caracterizava a frente de expansão. O
denominado “desenvolvimento camponês ‘espontâneo’”, tal como definiu Velho (1976: 206-208), que se expandia a partir dos anos 1950 no Maranhão e sul do Pará, já distinguia três camadas de camponeses: uma “camada superior de culaques”, uma espécie de “campesinato médio” e a “massa do campesinato”. Segundo ele, os culaques utilizavam “mão-de-obra contratada permanente e assim por vezes torna-se difícil decidir se ainda são camponeses”; os médios eram camponeses que utilizavam “mão-de-obra temporária ou permanente extra-familiar (em geral constituída de recém-chegados à área), mas nunca a ponto de torná-la mais importante do que a força de trabalho familiar”; e os demais eram os que eventualmente utilizavam mão-de-obra extrafamiliar “por ocasião da colheita” (é importante observar que nos últimos 30 anos houve um processo de pecuarização da pequena produção e os camponeses deixaram quase completamente a produção do arroz que caracterizava o início dessa expansão). Ao analisar a titulação de terras realizada pelo antigo Grupo Executivo das Terras do Araguaia-Tocantins (GETAT, que substituiu o INCRA sob a intervenção fundiária que se seguiu à repressão à Guerrilha do Araguaia), Almeida (1986: 291) também distinguiu uma pequena camada de camponeses que “praticamente já se descampesinizou e gere, na verdade, uma empresa rural com força de trabalho contratada” dos camponeses “pobres”, que, “recebendo lotes inferiores aos módulos regionais, insuficientes para seu grupo familiar e dispostos em áreas inaproveitáveis ou de utilização difícil, sua condição é percebida como insustentável. Frente a tais impasses, aqueles que persistem buscam compensar as possíveis perdas com maior ênfase em atividades antes acessórias como o garimpo, o trabalho na ferrovia ou em empresas construtoras”. Sobre a pecuarização da pequena produção no sudeste do Pará, ver Michelotti e Rodrigues (s/d).
terra pelas enormes fazendas de gado que fizeram da Amazônia, diferentemente de outras fronteiras agrícolas na história do país, uma região de fronteira maiormente urbana. (Afonso et al., 2010: 269).
Outro fator que, sem dúvida, contribuiu para a formação desse contingente de trabalhadores foi a significativa expansão da indústria da mineração que ocorreu, em especial, a partir da última década. Com ela, além da atração de trabalhadores das mais variadas regiões que têm origem na pequena produção agropecuária, como analiso mais adiante, há o processo de espoliação direta e indireta das terras antes destinadas a esta produção para a implantação das minas, das unidades de beneficiamento mineral e de toda a logística necessária para a frente de expansão da indústria da mineração, em sentido amplo15.
A pesquisa visou, portanto, em um primeiro momento, investigar as condições de trabalho e de deslocamento desses trabalhadores que saíram “no mundo”, tal como, dentre outros, os pequenos produtores assentados se referiam. Afinal, como, de fato, se reproduzia essa força de trabalho no mundo? A curiosidade inicial se relacionava ao próprio intervalo compreendido nessa noção, que não delimitava de antemão nem período e nem destino fixos, apenas a saída e, quando se tratava dos filhos, em certos casos, o retorno. A intenção, entretanto, não era analisar a força de trabalho de origem camponesa a partir dos percursos daqueles que estão ou retornaram para essa condição, mas sim a partir “de dentro”, ou seja, a partir dos percursos daqueles que estão circulando no tal mundo. O objeto, então, não foi a reprodução camponesa, mas a circulação mercantil das forças de trabalho de origem camponesa e, enfim, ao longo da pesquisa, a própria circulação da força de trabalho em geral.
No momento da construção do Projeto de Pesquisa, em 2009, já era possível sistematizar algumas características dessa fração de trabalhadores “no mundo”, como a intersetorialidade, a circulação regional, inter-regional e mesmo internacional e a importância do que chamarei aqui de redes sociais de mobilidade. A intersetorialidade era nítida na forma como esses trabalhadores transitavam entre diferentes setores da economia: na rede de produção agropecuária, na construção civil, na produção de madeira, de carvão, nos garimpos, dentre possíveis outros. Por outro lado, o raio de circulação se demonstrava bastante extenso, entre cidades da região, mas também em
15 Os processos de espoliação da pequena produção vêm sendo estudados a cada novo empreendimento e
sistematizados, principalmente, pelos pesquisadores vinculados aos movimentos dos atingidos pela mineração, tal como indicarei a seguir. Ver, dentre outros, Cepasp (2010); Cepasp e Neto (s/d).