TÍTULO: EFEITO DA ADMINISTRAÇÃO SISTÊMICA DE FITOESTEROL NA QUALIDADE LACRIMAL DE CÃES
TÍTULO:
CATEGORIA: CONCLUÍDO CATEGORIA:
ÁREA: CIÊNCIAS BIOLÓGICAS E SAÚDE ÁREA:
SUBÁREA: Medicina Veterinária SUBÁREA:
INSTITUIÇÃO(ÕES): UNIVERSIDADE DE FRANCA - UNIFRAN INSTITUIÇÃO(ÕES):
AUTOR(ES): BRENDA MARTINS CRISTINO AUTOR(ES):
ORIENTADOR(ES): FERNANDA GOSUEN GONÇALVES DIAS, LUCAS DE FREITAS PEREIRA, ADRIANA TORRECILHAS JORGE, CRISTIANE DOS SANTOS HONSHO
1. RESUMO
O filme lacrimal pré-corneano é formado por camadas que nutrem e lubrificam a córnea para que ocorra a refração da luz para a retina. Dentre as camadas, destaca-se a lipídica, que diminui a evaporação e evita o transbordamento da lágrima; assim, reduções dos componentes lipídicos podem desestabilizar o filme lacrimal, gerando afecções oculares. O teste da cristalização da lágrima é utilizado para verificar a qualidade da lágrima em cães. Diante disso, o objetivo do presente estudo foi verificar se a administração sistêmica de fitoesterol influenciaria na qualidade da lágrima de cães hígidos e, além disso, analisar diferenças na interpretação deste teste oftálmico entre quatro distintos avaliadores. Para isso, foram utilizados oito cães Beagle, jovens e adultos, machos e fêmeas, com ausência de sinais clínicos oftálmicos, provenientes do Canil Experimental do Hospital Veterinário da Universidade de Franca. Amostras lacrimais basais foram coletadas do olho direito e esquerdo de todos os animais com auxílio de tubo capilar de vidro e dispostas em lâmina de vidro para posterior digitalização e análise em microscópio de campo claro. Ato contínuo todos os cães foram medicados com fitoesterol durante 15 dias. Após sete (D7) e quinze (D15) dias desta administração, realizou-se novamente o teste da cristalização em ambos os olhos para comparação com os dados basais. As fotografias das lâminas foram classificadas por quatro avaliadores distintos, seguindo padrões estabelecidos na literatura científica. Os resultados do teste da cristalização referentes aos diferentes momentos de análise e avaliadores foram verificados estatisticamente por análise de variância simples (ANOVA One-Way). Não houve diferença estatística no teste da cristalização da lágrima entre os períodos estabelecidos (D0, D7 e D15) e em relação aos diferentes avaliadores do teste. De acordo com a metodologia preconizada e resultados obtidos, pode-se concluir que a administração sistêmica do fitoesterol não interferiu na qualidade lacrimal dos cães e, que os resultados quanto ao teste de cristalização da lágrima, não diferiram entre os avaliadores.
Palavras-chave: Oftalmologia veterinária, pequenos animais, qualidade lacrimal, teste da cristalização da lágrima
2. INTRODUÇÃO
O filme lacrimal pré-corneano é constituído por três camadas distintas: mucosa, aquosa e lipídica (GIULIANO; MOORE, 2007). Nesse sentido, a redução na liberação do componente lipídico, juntamente com alterações na integridade anatômica e funcional das pálpebras, podem desestabilizar o filme lacrimal pré-corneano e gerar aumento na sua evaporação, contribuindo para o surgimento ou piora de afecções oculares, especialmente a ceratoconjuntivite seca (OFRI et al., 2007). Nestes casos, a realização do teste da cristalização da lágrima, juntamente com outros exames complementares, se torna importante no diagnóstico e instituição da terapêutica adequada (NORN, 1987).
Este teste baseia-se na formação de cristais a partir de componentes lacrimais que se dispõem em diversos formatos, semelhantes a folhas de samambaia na microscopia. O mecanismo de formação dos cristais não está totalmente elucidado; acredita-se que a mucina e o eletrólito cloreto de sódio estejam diretamente relacionados com a qualidade e osmolaridade da lágrima. Assim, os cristais são analisados quanto à forma da cristalização e classificados em diferentes graus, conforme padronizado por Rolando (1984), de acordo com a presença e quantidade de ramificações em formato de folhas de samambaia.
Os fitoesteróis são importantes grupos químicos, biologicamente ativos, encontrados naturalmente em óleos vegetais, sendo os grãos, legumes e sementes as principais fontes. Como os fitoesteróis têm estrutura semelhante à do colesterol, ao alcançarem o intestino, competem entre si causando menor absorção do colesterol ruim (LDL), contribuindo para a redução deste na corrente sanguínea (MARTINS et al., 2013). Assim, o uso de fitoesteróis vegetais em humanos tem sido proposto de forma isolada ou associada a fármacos hipolipemiantes, para reduzir a obesidade e o LDL-colesterol e, consequentemente, as doenças cardiovasculares (RUDERMAN et al., 2013).
Um dos medicamentos fitoesteróis encontrado no mercado é o Collestra®, composto por ésteres de fitoesteróis de origem vegetal, extraídos principalmente da soja, girassol, milho e canola. As principais reações adversas de ingestão de altas doses de fitoesteróis estão associadas à discreta diminuição da absorção de vitaminas lipossolúveis, especialmente, vitaminas A e E (MARTINS et al., 2004).
3. OBJETIVOS
O objetivo do presente trabalho foi verificar se a administração sistêmica de fitoesterol influenciaria na qualidade da lágrima de cães saudáveis e, não obstante, analisar diferenças na interpretação deste teste oftálmico entre distintos avaliadores, por ser um exame subjetivo.
4. METODOLOGIA E DESENVOLVIMENTO
A atual pesquisa foi realizada com aprovação da Comissão de Ética no Uso de Animais (CEUA) da Universidade de Franca (UNIFRAN), processo n° 4594210616.
Foram utilizados oito cães (Canis familiaris) da raça Beagle, saudáveis, jovens e adultos, sendo machos e fêmeas, provenientes do Canil Experimental do Hospital Veterinário da Universidade de Franca.
Como critérios de inclusão no estudo, selecionaram-se os animais com ausência de sinais oftálmicos aparentes.
Foi coletada lágrima de ambos os olhos de todos os cães, para realização do teste da cristalização. As amostras lacrimais foram coletadas no saco conjuntival direito e esquerdo, com auxílio de tubo capilar de vidro para hematócrito, conforme indicações de Farias et al. (2013). Em seguida foram colocadas em lâminas de vidro para microscopia, no centro de um círculo, feito previamente com caneta hidrográfica, pra facilitar a localização da amostra lacrimal, durante o exame microscópico.
Após secagem em temperatura ambiente (aproximadamente 10 minutos), as lâminas foram dispostas em microscópio de campo claro e digitalizadas com câmera específica acoplada ao microscópio. Ato contínuo as fotografias das lâminas foram classificadas por quatro avaliadores distintos (com e sem experiência na área de oftalmologia), quanto aos padrões basais (D0) de cristalização lacrimal, seguindo critérios propostos por Rolando (1984) na medicina humana.
Posteriormente, todos os cães foram medicados com o fitoesterol Collestra® (independente do peso do animal foi administrado 1 cápsula de 650 mg, via oral, a cada 12 horas, juntamente com as refeições habituais, conforme recomendação contida na bula do medicamento para humanos adultos, durante 15 dias
consecutivos). Este fitoesterol vegetal é extraído da soja (60-70%), girassol (5-10%), milho (1-5%) e canola (20-30%).
Após 7 (D7) e 15 (D15) dias da administração sistêmica do fitoesterol, coletou-se novamente uma gota de lágrima de ambos os olhos para realização do teste da cristalização, visando a comparação com os resultados basais.
Os resultados do teste da cristalização referentes aos diferentes momentos de análise e avaliadores, foram verificados estatisticamente por análise de variância simples (ANOVA One-Way) para experimentos inteiramente aleatorizados, com cálculo da estatística F e de seu respectivo “P-value”. Nos casos em que p≤0,05, as médias foram comparadas pelo método de Tukey, com o cálculo da diferença mínima significativa para α = 0,05, com a utilização do programa Graphpad Prism 6.0®.
5. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Observou-se que não houve diferença estatística significativa no teste da cristalização da lágrima entre os períodos D0, D7 e D15. Resultados similares foram encontrados em relação aos diferentes avaliadores deste teste.
Esses resultados demonstraram que a administração sistêmica do Collestra®, nos períodos admitidos, não interferiu na qualidade lacrimal dos cães e, que os resultados quanto ao teste de samambaia, não diferiram entre os avaliadores, mesmo este sendo considerado subjetivo.
De acordo com Masmali, Murphy e Purslow (2014), a análise química dos componentes do filme lacrimal é dificultada pelo pequeno volume das amostras e pela transparência da lágrima. Na presente pesquisa, as coletas lacrimais foram obtidas no saco conjuntival de cada olho, utilizando tubo capilar de vidro, seguindo indicações de Farias et al. (2013) e Willians e Hewitt (2017). De acordo com Feldberg et al. (2008) e Silva et al. (2015), não há descrições na literatura científica relacionadas com acidentes ou outras complicações durante esta técnica de coleta nas diversas espécies animais, tornando-a exequível e confiável na prática veterinária (WILLIANS; HEWITT, 2017).
Padronizou-se o ambiente de coletas amostrais, com portas e janelas fechadas, para que a cristalização da lágrima não sofresse quaisquer alterações devido a oscilações no ar (FELDBERG et al., 2008). Willians e Hewitt (2017)
descreveram que a presença de corpos estranhos e de muco ocular pode interferir nos resultados do teste da samambaia.
Visando o registro da cristalização da lágrima, optou-se por fotografar as lâminas de vidro após a secagem das mesmas, pois segundo Norn (1987), a alíquota lacrimal é rapidamente perdida (cerca de uma hora depois da confecção da lâmina). Neste contexto, Murube (2004) discorreu a necessidade de corar as lâminas com eosina-hematoxilina ou com outros corantes antes da análise microscópica; em contrapartida outros pesquisadores não indicaram tal manobra laboratorial por não comprometer a fidedignidade dos resultados (FELDBERG et al., 2008; FARIAS et al., 2013; SILVA et al., 2015).
Conforme descrito por Murube (2004) e Feldberg et al. (2008), a lágrima quando seca, demonstra cristalização de alguns de seus componentes, os quais assumem aspectos variados, similares às folhas de samambaia. Neste âmbito, os padrões estabelecidos por Rolando (1984) baseiam-se na presença e exuberância dessas folhas. Como o teste da cristalização da lágrima envolve determinada subjetividade, este estudo teve a intenção de verificar, independente da experiência prévia de cada examinador, a capacidade de classificarem semelhantemente os graus de cristalização em cães, de forma semelhante ao proposto por Rolando (1984) e Feldberg et al. (2008)em humanos, pois na veterinária estes padrões não estão bem definidos. Deste modo, os dados obtidos nesta pesquisa demonstraram que é possível a reprodutibilidade dos padrões humanos para cães, possibilitando o diagnóstico precoce de afecções oftálmicas lacrimais nesta espécie, o que pode proporcionar melhor qualidade de vida e maior sobrevida aos acometidos.
No atual trabalho, os resultados quanto ao teste da samambaia não diferiram entre os avaliadores com diferentes experiências profissionais, mesmo sendo considerado subjetivo (FELDBERG et al., 2008). Assim, salienta-se que este teste oftálmico possa ser rotineiramente utilizado em medicina veterinária, como exame complementar oftálmico, principalmente pelo baixo custo, rapidez e facilidade de execução (NORN, 1987; FELDBERG et al., 2008; WILLIANS; HEWITT, 2017). Resultados similares foram encontrados no estudo de Feldberg et al. (2008), que verificou a reprodutibilidade da classificação dos padrões do teste de cristalização da lágrima, utilizando cinco diferentes examinadores e comparou esses padrões entre pacientes humanos portadores da síndrome de Sjögren com os de indivíduos sem doenças da superfície ocular.
No experimento de Willians e Hewitt (2017), cães com ceratoconjuntivite seca demonstraram anormalidades nos padrões de cristalização da lágrima e os pesquisadores atribuíram esse achado às mudanças na proporção de eletrólitos e macromoléculas lacrimais. Em humanos, Tabbara e Okumoto (1982) demonstraram que a cristalização lacrimal é prejudicada em pacientes com deficiência na camada mucosa. Nessa temática, objetivou-se verificar se os fitoesteróis influenciariam na qualidade lacrimal de cães saudáveis.
Os fitoesteróis contribuem para a redução sanguínea do colesterol (RUDERMAN et al., 2013); em contrapartida, os resultados encontrados no atual trabalho sugeriram que a administração sistêmica do Collestra®, nos períodos admitidos, não interferiu na qualidade lacrimal de cães hígidos. Deste modo, tal medicamento natural pode ser prescrito com intuito hipolipemiante (VENERO et al., 2010) em cães com afecções oftálmicas concomitantes.
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com base na metodologia utilizada e nos resultados obtidos, pode-se admitir que a administração sistêmica de fitoesterol não interferiu na qualidade lacrimal de cães saudáveis. Ademais, independente da experiência na área da oftalmologia veterinária, não houve diferença estatística entre os distintos avaliadores do teste da cristalização da lágrima.
7. FONTES CONSULTADAS
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