• Nenhum resultado encontrado

RISCO DE USO DE DROGAS EM ADOLESCENTES: IMPORTÂNCIA DO PROGRAMA SEGUNDO TEMPO

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "RISCO DE USO DE DROGAS EM ADOLESCENTES: IMPORTÂNCIA DO PROGRAMA SEGUNDO TEMPO"

Copied!
9
0
0

Texto

(1)

Contato: Aline de Freitas Brito - [email protected]

Artigo Original

Uso de drogas em adolescentes participantes

do projeto segundo tempo em João Pessoa-PB:

importância do esporte e da família

Use of drugs in adolescents participating in the “programa segundo

tempo” in João Pessoa-PB: importance of sport and family

Monica J. Cabral da Silva1 Tarciano R. Holanda Leite Leonardo dos S. Oliveira2 Priscilla P. Costa da Silva3 Emília A. P. C. Rodrigues4 Aline de Freitas Brito5

1

Prefeitura Municipal de João Pessoa, Secretaria Municipal de Saúde de João Pessoa - PB

2Universidade Federal da

Paraíba

3Universidade Federal do

Rio Grande do Norte

4Universidade Federal da Bahia 5Universidade Federal do Piauí Recebido: 07/02/2017 Aceito: 15/11/2018

RESUMO: O Programa Segundo Tempo é um programa do Governo Federal que busca democratizar o

acesso à prática e à cultura do esporte. Além de ser um instrumento de inclusão social e formação cidadã, o esporte proporciona uma melhor compreensão do corpo. Assim, o esporte pode ser um importante instrumento para tratamento e prevenção do uso de drogas. Nesta perspectiva, este estudo analisou a prevalência do uso de drogas ilícitas em participantes do Programa Segundo Tempo da cidade de João Pessoa-PB e fatores socioeconômicos e do contexto familiar associados. Em um estudo transversal, 62 adolescentes, com idade entre 12 e 16 anos e frequência de 3x/semana nas atividades, responderam um questionário sobre informações pessoais, socioeconômicas e culturais, além de questões objetivas relacionadas ao tema do estudo. Os resultados apontaram que 35,0% dos adolescentes usavam algum tipo de droga ilícita. O uso de drogas guardou relação significante com a prática de esporte no tempo livre, estado civil dos pais e parente que reside (P<0,05). A prática esportiva ocupou o maior tempo livre dos adolescentes em relação a outras atividades. O uso de drogas ilícitas por adolescentes parece estar mais relacionado às variáveis do contexto familiar e, mais discretamente, relacionado à atividade realizada no tempo livre. Além de suporte familiar, é preciso dialogar dentro dos projetos sociais e desenvolver trabalhos multidisciplinares para elaboração de intervenções com intuito de proporcionar menor exposição e vulnerabilidade ao uso de drogas por adolescentes.

Palavras-chave: Política pública; Drogas ilícitas; Adolescentes; Esportes.

SILVA MJC, LEITE TRH, OLIVEIRA LS, SILVA PPC, RODRIGUES EAPC, BRITO AF. Uso de drogas em adolescentes participantes do projeto segundo tempo em João Pessoa-PB: importância do esporte e da família. R. bras. Ci. e Mov 2019;27(3):130-138.

ABSTRACT:The “Programa Segundo Tempo” is a program of the Federal Government that seeks to

democratize access to sport, through a partnership with the Secretariats of Sports and Leisure. In addition to being an instrument of social inclusion and citizen training, sport provides a better understanding of the body. Thus, sport can be an important tool for treatment and prevention of drug use. In this perspective, this this study analyzed the prevalence of illicit drug use among participants of the Programa Segundo Tempo of João Pessoa-PB city and associated socioeconomic and family context factors. In a cross-sectional study, 62 adolescents, aged between 12 and 16 years and at a frequency of 3x/week in the activities, answered a questionnaire about personal, socioeconomic and cultural information, as well as objective questions related to the aims of the study. Results showed 35.0% of adolescents used some type of illicit drug. Drug use had a significant relationship with free time sports, marital status of parents and relatives living with the adolescent (P<0.05). Sports practice occupied the greatest free time for adolescents compared to other activities. Use of illicit drugs seems to be more related to variables of the family context and, more discreetly, related to the activity performed in the free time of adolescents. In addition to family support, it is necessary to dialogue within social projects and to develop multidisciplinary work to elaborate interventions with the purpose of providing less exposure and vulnerability to the use of drugs by adolescents.

(2)

R. bras. Ci. e Mov 2019;27(3):130-138. Introdução

A educação física contempla múltiplos conhecimentos produzidos e usufruídos pela sociedade a respeito do corpo e do movimento1,2,3. Assim, parte-se do pressuposto que são fundamentais todas as atividades culturais de movimento com finalidades de lazer, expressão de sentimentos, afetos e emoções, e com possibilidades de promoção, recuperação e manutenção da saúde. Estas atividades podem ser representadas por meio das manifestações culturais encontradas em jogos e brincadeiras, esportes, danças, ginásticas, lutas, práticas de aventuras, entre outros4,5. O esporte, por sua pluralidade de sentidos, pode ser manifestado em qualquer ambiente da sociedade6,7 e, portanto, deve ser reconhecido como promotor da saúde, da educação e da formação humana. Sua representatividade pode se dar, formalmente, mediante transmissão de conhecimentos sistematizados e regras pré-definidas ou, ainda, informalmente, como bem cultural ou prazer de quem o pratica8,9.

A formação educacional adquirida pela prática esportiva é um dos instrumentos educacionais mais importantes na sociedade6,7. Por meio do esporte, crianças e adolescente têm a oportunidade de compreender melhor o seu corpo, suas capacidades e limitações, e valorizar a cooperação, a autoconfiança e a autonomia10. Além disso, o esporte figura como uma bandeira da inclusão social e formação cidadã7,10, podendo ser um importante instrumento no tratamento e prevenção do uso de drogas, especialmente para adolescentes. Contudo, como prevenção ao uso de drogas, o esporte é uma forma simplista, pois depende da forma em que é pensado e organizado para que de fato ocorra a prevenção e, por si só, não irá prevenir o contato e a utilização das drogas.

Silva et al.11 apontam que o envolvimento com drogas ilícitas ocorre principalmente dentro da população de adolescentes. O aumento da dependência química é crescente no Brasil, sendo o abuso das drogas um fenômeno complexo, não é totalmente compreendido12. Tal fato recai para as possíveis manifestações das condutas de risco, relacionadas à procura de sensações intensas e de experiências em assumir riscos físicos, sociais, jurídicos e financeiros13. A Organização Mundial de Saúde14 apontou que, aproximadamente, 10% da população dos centros urbanos usa substâncias psicoativas, sendo a dependência química determinada por fatores psicossociais, biológicos, ambientais, culturais e educacionais. Um levantamento nacional entre estudantes do ensino fundamental e médio indicou um aumento nas internações importunadas pela dependência de drogas abrangendo cerca de 15,5%15. Em adição, este levantamento constatou uso de cocaína (2,3%), de solventes (5,8%) e de maconha (6,9%) nos casos analisados15.

Diante desse quadro, surge um programa estratégico do Governo Federal que objetiva democratizar o acesso à prática e à cultura do esporte: Programa Segundo Tempo16 (PST). Trata-se da promoção do desenvolvimento integral de crianças, adolescentes e jovens, como fator de formação da cidadania e melhoria da qualidade de vida, prioritariamente para os que se encontram em áreas de vulnerabilidade social. Este é, nos dias atuais, um dos principais programas de política pública direcionado ao esporte, em especial, para o esporte educacional. Considerando o Programa Setorial de Esporte e Lazer 2007-2010 do Governo Federal, o esporte e o lazer passaram a constituir a agenda de desenvolvimento social do país, com políticas públicas específicas que incluem o fortalecimento da identidade cultural, da cidadania, da autodeterminação de seu povo e da defesa da soberania do país.

O PST é uma parceria das Prefeituras Municipais por meio das Secretarias de Esporte e Lazer, juntamente com o Ministério do Esporte do Governo Federal17. Na cidade de João Pessoa-PB, a prefeitura municipal é a entidade responsável pela execução do programa, por meio da celebração de convênios com o Ministério do Esporte. O público-alvo é formado por crianças e adolescentes expostos aos riscos sociais. Cada núcleo de esporte educacional do PST é composto por um grupo (100 crianças e/ou adolescentes) que desenvolve atividades esportivas e complementares, sob a orientação de profissionais de educação física. Atualmente, na cidade de João Pessoa, existem 68 núcleos de esporte educacionais. Dentre eles, está o Ginásio de Esporte Tambiá, localizado próximo a uma comunidade da periferia, cujo

(3)

atendimento, em sua maior quantidade, é de crianças e adolescentes carentes em risco de vulnerabilidade social. A partir dessas considerações, a presente investigação analisou a prevalência do uso de drogas ilícitas em participantes do Programa Segundo Tempo da cidade de João Pessoa-PB e fatores socioeconômicos e do contexto familiar associados.

Materiais e métodos

Tipo de estudo, sujeitos e aspectos éticos

Trata-se de um estudo transversal, do tipo descritivo e de campo18,19. A pesquisa foi desenvolvida no PST, núcleo do Ginásio de Esporte Tambiá, na cidade de João Pessoa/PB, o qual está inserido em uma comunidade com indicadores elevados de violência relacionados às drogas. A população se caracterizou por adolescentes, participantes desse núcleo, no turno da tarde, totalizando 100 sujeitos. Foram selecionados sujeitos regularmente matriculados no PST, com frequência de três vezes por semana. Portanto, foram investigados 62 adolescentes, do sexo masculino, com idade entre 12 e 16 anos. Ressalta-se que, nesse núcleo do PST, todos os participantes eram do sexo masculino.

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética do Hospital Universitário Lauro Wanderley da Universidade Federal da Paraíba, CAAE: 01958112.2.0000.5188. Participantes e pais/responsáveis foram esclarecidos quanto aos objetivos, aos procedimentos e à privacidade das informações, e assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido.

Instrumentos e procedimentos

Empregou-se um questionário, elaborado pelos autores, de modo a contemplar questõesreferentes aos aspectos pessoais, socioeconômicas e culturais, além de perguntas diretamente relacionadas ao objetivo do estudo (Quais das atividades abaixo ocupa a maior parte do seu tempo livre? Já fez uso de droga? Qual destes tipos de droga já utilizou?), por contribuir no levantamento de informações e permitir ao pesquisador conhecer opiniões dos sujeitos pesquisados20. Foram consideradas como drogas ilícitas: ópio, maconha, cocaína, crack, LSD e o êxtase. Foi realizado um estudo piloto e, posteriormente, aplicação do questionário.

Primeiramente, os adolescentes foram convidados a participar da pesquisa e, após consentimento dos pais/responsáveis, aplicou-se o questionário. A coleta dos dados ocorreu em março de 2012. Os questionários foram aplicados individualmente por três pesquisadores em uma sala reservada, no período das atividades do PST. A duração da aplicação foi, em média, 10 minutos por adolescente.

Análise dos dados

O desfecho (variável dependente) foi uso de drogas ilícitas (sim/não) e faixa etária, cor da pele, nível econômico, escolaridade, tempo livre, parente com quem reside, estado civil dos pais e escolaridade dos pais foram tratadas como variáveis independentes. As variáveis foram reportadas por frequência absoluta (n) e relativa (%). O teste qui-quadrado (χ2), com ajuste de Fisher e para tendência linear, foi empregado para verificar associações entre o desfecho e as variáveis independentes. Consideraram-se significantes valores de P<0,05. Os dados foram analisados no programa SPSS 16.0 (SPSS Inc., EUA).

Resultados

A análise e interpretação dos dados, advindos do questionário, possibilitaram a classificação dos resultados em duas etapas. Primeiramente, com a apresentação do perfil sociodemográfico e, em seguida, a relação entre o contexto da família e o uso de drogas nos adolescentes participantes do núcleo do PST investigado.

(4)

R. bras. Ci. e Mov 2019;27(3):130-138.

Metade dos participantes possuía entre 14 e 15 anos de idade, sendo a maioria de cor branca (64,5%), cursando principalmente as séries do 8º e 9º anos (41,9%). Aproximadamente 45% dos adolescentes possuíam renda familiar mensal de um salário mínimo.

Verificou-se uma tendência de associação entre o uso da droga e a renda mensal (P = 0,053) (Tabela 1). Em relação ao tempo livre, uma porção significativa dos indivíduos reportou praticar esportes (53,2%), em comparação a outros comportamentos de risco ligados à inatividade física. Encontrou-se uma associação significante entre o uso de drogas e as atividades no tempo livre (P = 0,037) (Tabela 1).

Tabela 1. Frequência absoluta (n) e relativa (%) das variáveis socioeconômicas e tempo livre em função do uso de drogas em adolescentes participantes do Projeto Segundo Tempo em João Pessoa-PB (n = 62).

Variável Usa droga? χ2 Valor-p

Não Sim Total

3,39a 0,091 Faixa etária 12 - 13 anos 12 (19,4% ) 2 (23,2%) 14 (22,6%) 14 - 15 anos 19 (30,6%) 12 (19,4%) 31 (50,0%) > 16 anos 9 (14,5%) 8 (12,9%) 17 (27,4%) Cor da pele Branca 27 (43,5%) 13 (21,0%) 40 (64,5%) 1,15 0,614 Parda 5 (8,1%) 2 (3,2%) 7 (11,3%) Negra 8 (12,9%) 7 (11,3%) 15 (24,2%) Escolaridade 4º - 5º ano 3 (4,8%) 2 (3,2%) 5 (8,1%) 0,36a 0,595 6º - 7º ano 17 (27,4%) 3 (4,8%) 20 (32,3%) 8º - 9º ano 13 (21,0%) 13 (21,0%) 26 (41,9%) 1º ano 5 (8,1%) 3 (4,8%) 8 (12,9%) 2º ano 1 (1,6%) - 1 (1,6%) EJA* 1 (1,6%) 1 (1,6%) 2 (3,2%) Renda mensalb < 1 salário 3 (4,8%) 6 (9,7%) 9 (14,5%) 4,27a 0,053 1 salário 18 (29,0%) 10 (16,1%) 28 (45,2%) 2 salários 15 (24,2%) 5 (8,1%) 20 (32,3%) 3 salários 4 (6,5%) 1 (1,6%) 5 (8,1%) Tempo livre TV 16 (25,8%) 2 (3,2%) 18 (29,0%) 8,64 0,037 Internet 5 (8,1%) 3 (4,8%) 8 (12,9%) Leitura e música 1 (1,6%) 2 (3,2%) 3 (4,8%) Esporte 18 (29,0%) 15 (24,2%) 33 (53,2%) Total 40 (64,5%) 22 (35,%) 62 (100,0%)

Dados apresentados por frequência absoluta (n) e relativa (%). *EJA – Educação para jovens e adultos. aValores da estatística para tendência linear. bSalário mínimo de 622 reais.

(5)

Em relação às variáveis relacionadas ao contexto familiar, constatou-se que 46,8% dos adolescentes residiam com pai e mãe, em que se identificou uma associação significante com o uso de drogas (Tabela 2). A quantidade de pessoas que reside com os participantes parece não influenciar o uso de drogas (P > 0,05), destacando-se que 46,8% dos entrevistados moram com cinco ou mais pessoas. Para o estado civil dos pais, um maior percentual do uso de drogas foi observado entre os sujeitos com pais divorciados (56,5%), em que a associação foi significante com o desfecho (P < 0,001). Quanto à escolaridade dos pais, prevaleceu o ensino fundamental para mães (68,3%) e pais (69,5%), todavia sem associação significante com o uso de drogas (Tabela 2).

Tabela 2. Frequência absoluta (n) e relativa (%) das variáveis relacionadas à família em função do uso de drogas em adolescentes participantes do Projeto Segundo Tempo em João Pessoa-PB (n = 62).

Variável Usa droga? χ2 Valor

p

Não Sim Total

16,2 0,001

Parente que reside

Mãe 8 (12,9%) 12 (19,4%) 20 (32,3%) Pai 1 (1,6%) 2 (3,2%) 3 (4,8%) Pai e mãe 26 (41,9%) 3 (4,8%) 29 (46,8%) Avós 5 (8,1%) 5 (8,1%) 10 (16,2%) Quantidade de pessoas que residea Duas - 1 (1,6%) 1 (1,6%) 0,09 1,00 Três 6 (9,7%) 2 (3,2%) 8 (12,9%) Quatro 16 (25,8%) 8 (12,9%) 24 (38,7%) > Cinco 18 (29,0%) 11 (17,7%) 29 (46,8%)

Estado civil dos pais

Divorciados 14 (22,6%) 21 (33,9%) 35 (56,5%) 21,9 0,001 União estável 8 (12,9%) - 8 (12,9%) Casados 18 (29,0%) 1 (1,6%) 19 (30,6%) Escolaridade da mãea Analfabeto - 1 (1,7%) 1 (1,7%) 4,3 0,050 Fundamental completo/incompleto 24 (40,0%) 17 (28,3%) 41 (68,3%) Médio completo/incompleto 15 (25,0%) 3 (5,0%) 18 (30,0%) Escolaridade do paia Analfabeto 1 (1,7%) 1 (1,7%) 2 (3,4%) 3,07 0,088 Fundamental completo/incompleto 23 (39,0%) 18 (30,5%) 41 (69,5%) Médio completo/incompleto 13 (22,0%) 1 (1,7%) 14 (23,7%) Total 40 (64,5%) 22 (35,%) 62 (100,0%)

Dados apresentados por frequência absoluta (n) e relativa (%). aValores da estatística para tendência linear.

Discussão

O presente estudo analisou a prevalência do uso de drogas ilícitas em participantes do Programa Segundo Tempo da cidade de João Pessoa-PB e fatores socioeconômicos e do contexto familiar associados. Os principais achados apontaram uma importante prevalência do uso de drogas e sua associação com a prática de esporte no tempo

(6)

R. bras. Ci. e Mov 2019;27(3):130-138.

livre, estado civil dos pais e parente que reside com o adolescente. Foi possível constatar, ainda, que a prática de esportes é a atividade que ocupa o maior tempo livre destes adolescentes. Por fim, ficou caracterizada, ainda, uma possível associação entre o uso de drogas e a renda familiar dos adolescentes. Sabe-se que o esporte se configura como uma das principais manifestações socioculturais21. Conforme Melo22, poucos fenômenos sociais têm a mesma inserção que tem o esporte, sendo mais comum encontrar crianças, adolescentes e jovens nos bairros, nas escolas ou em ações sociais esportivas. Tendo o esporte grande relevância, sobretudo como lazer, para esse grupo social.

A maior parte dos adolescentes possuía uma renda mensal de apenas um salário mínimo. No entanto, este fator econômico não impossibilita o uso de droga, uma vez que sujeitos com renda familiar mensal de um salário mínimo apresentaram maior prevalência do uso. Estudos de natureza similar23,24,11, mostram resultados divergentes, no qual o uso de drogas está relacionado à renda familiar mais elevada, associando a disponibilidade de dinheiro ao uso de drogas. Desta forma, esses estudos apontaram que a classe socioeconômica alta está associada a um risco maior do uso de droga, quando comparada à classe baixa. Salienta-se que a maior quantidade de salários em nosso estudo foi de três salários, justificando a diferença entre as investigações citadas.

Em relação à associação entre o uso de drogas e o estado civil dos pais, o maior percentual do uso de drogas foi observado entre os sujeitos com pais divorciados. Tal resultado corrobora com dados prévios, apontando que uma estrutura familiar precária constitui um fator de risco para utilização de drogas por parte dos adolescentes25. Cabe ressaltar que a família é o alicerce de qualquer indivíduo, uma vez que esta é responsável pela elaboração de relações primárias e a base de seu desenvolvimento. Portanto, quando está desestruturada, o adolescente procura preencher essa lacuna na rua com amigos próximos e, dependendo da situação vivenciada, pode ser incentivado à experimentação ou ao constante uso de drogas26.

Barbosa27 aponta que o consumo de drogas por parte dos pais/responsáveis é um dos fatores que favorece esse uso, além dos baixos níveis de qualidade de vida e menor frequência da prática de atividade física. No entanto, a inserção no esporte por si só, não garante o distanciamento das drogas pelos adolescentes. Pratta e Machado acrescentam que “praticar esportes” é uma atividade frequente entre os não-usuários de drogas, alertando para elaboração de ações preventivas ao uso de drogas e indicando a necessidade de estudos sobre opções de lazer para adolescentes na atualidade28.

Apoiando estudos prévios, Bedendo, Andrade e Noto, em seu atual artigo de revisão evidenciou que adolescentes homens, praticantes de esportes coletivos, consumiam menos drogas como cocaína, heroína, metanfetamina, crack que seus pares de esportes não-coletivos29. Estes autores ainda reportaram que o ambiente sociocultural e a motivação tanto para a prática esportiva, quanto para o consumo da substância, também estavam envolvidos29. Logo, o planejamento de ações preventivas, que envolvam a prática de esportes a fim de promover a prevenção do consumo de drogas entre os adolescentes, deve considerar os diferentes fatores envolvidos a partir de ações conjuntas da família e de profissionais.

Por esse motivo, o PST vem objetivando promover o desenvolvimento integral de crianças, adolescentes e jovens como fator de formação da cidadania e melhoria da qualidade de vida, por meio da democratização do acesso ao esporte educacional no contraturno escolar de escolas públicas para alunos, em áreas de vulnerabilidade social30. Segundo Souza et al.31, de acordo com os coordenadores de núcleos do PST, os facilitadores desse programa são: reforço alimentar; apoio da pessoa responsável pelo local onde o núcleo está sediado; e oferta de materiais esportivos de boa qualidade.

Ainda conforme Souza et al.31, contudo, algumas barreiras têm impedido a efetivação do PST, tais como, incompatibilidade entre os interesses dos gestores do município, os objetivos e as complexidades envolvidas na implementação do mesmo; carência de pessoal para coordenar o PST em nível municipal, o que sobrecarrega os

(7)

coordenadores e dificulta o acompanhamento dos núcleos; e falta de articulação entre as diferentes secretarias do município para promover ações conjuntas que facilitem a implementação do PST. Para os coordenadores de núcleo, as principais barreiras são: falta de materiais; falta de apoio para o desenvolvimento do trabalho; “engessamento” da proposta do PST; falta de autonomia para tomada de decisões perante os responsáveis pelos locais onde o programa é sediado; e dificuldade para se atingir o mínimo de 100 crianças exigido pelo Ministério do Esporte.

Sobre a dificuldade de adesão completa ao PST, Santos32-34 relatam que os incentivos ofertados pelo programa não são suficientes para promoverem difusão do mesmo. Estes autores apontam que para os governos estaduais se tornarem parceiros estratégicos do Ministério do Esporte é preciso revisar o sistema de incentivos à descentralização para esse ente governamental. Do contrário, permaneceremos produzindo uma desigualdade regional que compromete o princípio da justiça social32-34.

O PST, em adição, tem sua continuidade questionada pela falta de material, de espaço adequado para as aulas, de acompanhamento do trabalho pedagógico pelos coordenadores, pelo excesso de demandas burocráticas e de preocupação com o número de inscritos, sobrepondo-se ao cuidado com a qualidade das aulas e a não adequação das propostas às realidades das escolas. Apresentado a necessidade de se romper com o conflito entre a Educação Física escolar e o PST, uma vez que implica em prejuízo para a Educação Física escolar.

Como possibilidade, Silveira et al.35 evidenciaram que a articulação entre os projetos pedagógicos de EF escolar e do PST tem se mostrado uma rica possibilidade de aprendizagem das práticas corporais em uma escola de tempo integral. Com isso, tem-se percebido a apropriação de um maior número de práticas corporais pelos estudantes, o que se concretiza em um número significativo de relatos de estudantes, dos três ciclos, que têm afirmado apreciar mais práticas corporais na TV e na internet, além de ter incorporado, no seu tempo de lazer, práticas corporais como a capoeira, o badminton, o slackline, o skate, o frisbee, o tênis de mesa, as práticas circenses, etc. Ademais nos eventos interescolares, tem sido comum, que alunos enquadrados nessa metodologia de trabalho, apresentem com propriedade, práticas corporais não convencionais aos estudantes das escolas convidadas, não só ensinando regras ou formas de praticar, mas, discorrendo sobre outras dimensões (sociais, históricas) do conhecimento sobre essas práticas.

Souza et al.31 afirmam que, por conseguinte, o ideal seria a oferta de educação integral em tempo integral dentro da própria escola, de acordo com um projeto político pedagógico adequado para este fim. Estes autores ainda apontam que se necessita se pensar saídas que contribuam para a qualificação deste programa, como a flexibilização dos editais do PST, adequando-se aos interesses e necessidades locais de escolas e estudantes; a construção de propostas pedagógicas conforme as realidades locais; a estimulação de parcerias do PST com escolas/professores de EF; e a articulação do PST com propostas de EF da região em que o programa é implantado, entre outras. Com todas essas oportunidades, os adolescentes teriam maiores chances de preencher seu tempo dentro e fora da escola com maiores ações educativas, minimizando talvez, as grandes possibilidades de aproximação com o mundo das drogas.

Concernente às implicações práticas, os resultados encontrados podem fundamentar a elaboração de estratégias para a prevenção do uso de drogas nessa população. Neste caso, diferentes medidas podem ser adotadas como orientação e planejamento familiar, estabelecimento de consenso familiar sobre o uso de substâncias ilícitas, maior vínculo familiar entre pais e filhos, independentemente de morarem juntos. Além disso, pode haver melhor desenvolvimento de políticas públicas para geração de emprego em áreas de maior vulnerabilidade social36.

Nossos achados alertam para a importância de identificar os grupos mais expostos ao uso de drogas, como alunos que possuem pais separados ou apresentam renda familiar de um salário mínimo, a fim de direcioná-los a uma política de conscientização e prevenção, para que possam ser bem-sucedidos e melhor encaminhados. Ainda que limitada, este estudo também confirmou a importância do PST na qualidade de vida de adolescentes, por meio da prática esportiva, sobretudo, daqueles cujos contextos sociais são mais vulneráveis. Uma das limitações do estudo foi

(8)

R. bras. Ci. e Mov 2019;27(3):130-138.

ter investigado apenas um núcleo da cidade de João Pessoa/PB e o fato da temporalidade das associações, inerentes ao método utilizado. É importante diagnosticar a realidade de outros núcleos e de diferentes regiões do Brasil.

Considerações finais

O uso de drogas ilícitas por adolescentes parece estar mais relacionado às variáveis do contexto familiar e, mais discretamente, relacionado à atividade realizada no tempo livre. Foi importante observar que mais da metade dos participantes reportou a prática esportiva em seu tempo livre. Contudo, ainda que o esporte, a partir da forma em que é organizado e pensado, possa ser um instrumento de intervenção social para tratamento e prevenção do uso de drogas, não pode ser compreendido como a solução do problema. Além de suporte familiar, é preciso ater-se à importância do diálogo dentro dos projetos sociais e um trabalho multidisciplinar com professores de educação física, assistentes sociais e psicólogos para que, de forma conjunta, elaborem estratégias de intervenção com intuito de proporcionar menor exposição e vulnerabilidade ao uso de drogas por adolescentes.

A realização de novos estudos relacionados ao uso de drogas e à participação de adolescentes em programas e projetos direcionados ao esporte pode ampliar essa discussão e, consequentemente, possibilitar novas estratégias a serem utilizadas em programas dessa natureza.

Referências

1. Brasil. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: terceiro e quarto ciclos: apresentação dos temas transversais. Brasília: MEC/SEF; 2001.

2. Caparroz FE, Bracht V. O tempo e o lugar de uma didática da educação física. Revista Brasileira de Ciências do Esporte. 2007; 28(2): 21-37.

3. Coletivo de Autores. Metodologia do ensino de Educação Física. São Paulo: Cortez; 2012.

4. Almeida L, Fensterseifer PV. O que ensinar e aprender nas aulas de educação física na escola? Lecturas: Educación Física Y Deportes. 2006; 11(102): 1-1.

5. Darido SC. Educação Física na Escola: Conteúdos, dimensões e significados. Conteúdos e Didática da Educação Física - 2007. Disponível em http://www.acervodigital.unesp.br/ [2016 jul 11].

6. Silva SM, Knuth AG, Del Duca GL, Camargo MBJ, Cruz SH, Castagno V. Prevalência e fatores associados à prática de esportes individuais e coletivos em adolescentes pertencentes a uma coorte de nascimentos. Rev Bras Educ Fís Esporte. 2009; 23(3): 263-274.

7. Reis NS, Carneiro FHS, Matias WB, Ahayde AFA, Mascarenhas F. O esporte educacional como tema da produção de conhecimento no periodismo científico brasileiro: uma revisão sistemática. Pensar a Prática. 2015; 18(3): 709-724. 8. Coll C. Os conteúdos na reforma. Porto Alegre: Artmed; 2000.

9. Couto ACP. Referencial teórico do Projeto Guanabara: conteúdos da Educação Física a serem desenvolvidos nos projetos de educação pelo esporte. In: Garcia ES, Lemos KLM. Temas Atuais VI – Educação Física e Esportes. Editora Health: Belo Horizonte; 2001. p. 1-7.

10. Oliveira AAB, Moreira EC. Planejamento e organização para o programa Segundo Tempo. In: Perim GL, Oliveira AAB. Fundamentos pedagógicos para o Programa Segundo Tempo. Brasília, DF. Ministério do Esporte; Maringá, PR: Eduem; 2008.

11. Silva EF, Pavani RAB, Moraes MS, Chiaravalloti Neto F. Prevalência do uso de drogas entre escolares do ensino médio do Município de São José do Rio Preto, São Paulo, Brasil. Cadernos de Saúde Pública. 2006; 22(6): 1151-1158. 12. Bertoni LM, Adorni DS. A prevenção às drogas como garantia do direito à vida e à saúde: uma interface com a educação. Cadernos CEDES. 2010; 30(81): 209-217.

13. Hampson SE, Severson HH, Burns WJ, Slovic P, Fisher KJ. Risk perception, personality factors and alcohol use among adolescents. Personality and Individual Differences. 2001; 30: 167-181.

14. Organização Mundial da Saúde. CID-10: Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde. São Paulo: EDUSP; 2004.

(9)

Psicotrópicas entre Estudantes do Ensino Fundamental e Médio da Rede Pública de Ensino nas 27 Capitais Brasileiras. São Paulo: CEBRID – Departamento de Psicobiologia, UNIFESP; 2004.

16. Brasil. Ministério do Esporte. Secretaria Nacional de Esporte Educacional. Material didático para o processo de Capacitação dos Coordenadores de Núcleo do Programa Segundo Tempo. Brasília: ME/SENED; 2008.

17. Brasil. Ministério do Esporte. Manual de Orientações para Implantação de Núcleos do Programa Segundo Tempo. Brasília: ME; 2005.

18. Banks M. Dados visuais para pesquisa qualitativa. Porto Alegre: Artmed; 2009. 19. Gil AC. Métodos e técnicas de pesquisa social. São Paulo: Atlas; 2008.

20. Severino AJ. Metodologia do trabalho científico. 23. ed. São Paulo: Cortez; 2007.

21. Martins CHS, Melo MP. Políticas Públicas de Esportes para Juventude Na Baixada Fluminense/RJ: uma discussão introdutória. Rio de Janeiro: UFF; 2004.

22. Melo MP. Para além do salvacionismo ou considerações sobre políticas de esporte em favelas. Anais XIII Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte; 2003. Caxambu-Brasil.

23. Baus J, Kupek E, Pires M. Prevalência e fatores de risco relacionados ao uso de drogas entre escolares. Revista de Saúde Pública. 2002; 36(1): 40-46.

24. Tavares BF, Beria JU, Lima MS. Fatores associados ao uso de drogas entre adolescentes escolares. Revista de Saúde Pública. 2004; 38(6): 787-796.

25. Pechansky F, Diemen LV, Micheli D, Amaral MB. Fatores de risco e proteção em diferentes grupos de usuários: mulheres, adolescentes, idosos, indígenas. In: Ronzani TM. Detecção do uso abusivo e diagnóstico da dependência de substâncias psicoativas. Brasília: Secretaria Nacional Antidrogas; 2006.

26. Schenker M, Minayo MCS. A implicação da família no uso abusivo de drogas: uma revisão crítica. Revista de Ciências e Saúde Coletiva. 2003; 8(1): 299-306.

27. Barbosa, D. O adolescente e o esporte. In: Maakaroun MF, Souza RP, Cruz AR, editores. Tratado de adolescência: um estudo multidisciplinar. Rio de Janeiro: Cultura Médica; 1991. p. 128-35.

28. Pratta, EM, Machado MAS. Lazer e uso de substâncias psicoativas na adolescência: possíveis relações. Psicologia: Teoria e Pesquisa. 2007; 23(1): 43-52.

29. Bedendo A, Andrade, ALM, Noto, AR. Prática esportiva e uso de substâncias entre estudantes do ensino médio: diferentes perspectivas dessa relação. Rev. Eletrônica Saúde Mental Álcool Drog. 2015; 11(2): 85-96.

30. Brasil. Ministério do Esporte. Diretrizes do Programa Segundo Tempo. Brasília; 2011.

31. Souza APP, Souza DL, Castro SBE. Barreiras e facilitadores para a implementação do programa Segundo Tempo: um estudo de caso. Pensar a Prática. 2013; 16(4): 997-1013.

32. Santos ES. Ambiente institucional e difusão do programa segundo tempo: uma análise da difusão regional de 2005 a 2009. Pensar a Prática. 2013; 16(1): 35-53.

33. Santos ES, Andrade JSC, Santos RS. Programa Segundo Tempo e o papel das prefeituras na sua difusão. Pensar a Prática. 2014; 17(4): 1-14.

34. Santos ES. Governo do estado e descentralização do programa Segundo Tempo. Pensar a Prática. 2016; 19(2): 386-395.

35. Silveira GCF, Campos T, Freitas AFS, Albanez NC. Educação física escolar e programa Segundo Tempo: uma experiência de articulação curricular no centro pedagógico/UFMG. Pensar a prática. 2016; 19(13): 688-701. 36. Rosenstock, KI, Vasconselos KI, Neves MJ. Papel do enfermeiro da atenção básica de saúde na abordagem ao dependente de drogas em João Pessoa, PB, Brasil. Revista Brasileira de Enfermagem. 2010; 63(4): 581-586.

Referências

Documentos relacionados

Pretendo, a partir de agora, me focar detalhadamente nas Investigações Filosóficas e realizar uma leitura pormenorizada das §§65-88, com o fim de apresentar e

Por fim, na terceira parte, o artigo se propõe a apresentar uma perspectiva para o ensino de agroecologia, com aporte no marco teórico e epistemológico da abordagem

O tema proposto neste estudo “O exercício da advocacia e o crime de lavagem de dinheiro: responsabilização dos advogados pelo recebimento de honorários advocatícios maculados

O Plano de Metas Compromisso Todos pela Educação, de 2007, e a Política Nacional de Formação de Profissionais do Magistério da Educação Básica, instituída em 2009 foram a base

As análises do Projeto de Redesenho Curricular (PRC) das três escolas pesquisadas tiveram como suporte teórico os estudos de Mainardes (2006). Foi possível perceber

Art. O currículo nas Escolas Municipais em Tempo Integral, respeitadas as Diretrizes e Bases da Educação Nacional e a Política de Ensino da Rede, compreenderá

Para solucionar ou pelo menos minimizar a falta ou infrequência dos alunos dos anos finais inscritos no PME, essa proposta de intervenção pedagógica para o desenvolvimento

Neste capítulo foram descritas: a composição e a abrangência da Rede Estadual de Ensino do Estado do Rio de Janeiro; o Programa Estadual de Educação e em especial as