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Gravidez e Adolescência – investigação de um problema moderno

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Academic year: 2021

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Gravidez e Adolescência – investigação de um problema moderno

Tânia Ribeiro Catharino UERJ/NUGERA – SecR. Est. de Saúde/RJ

Karen Giffin

Escola Nacional de Saúde Pública

Palavras-chave: saúde do adolescente; saúde reprodutiva; trajetórias biográficas; políticas públicas e sociais.

Introdução

Este trabalho se propõe a analisar da ocorrência da gravidez em adolescentes com idade entre 10 e 14 anos, no período de 1990 a 2001, usuárias do SUS – Sistema Único de Saúde – no Município do Rio de Janeiro e tem como objetivo compreender a relação entre as expectativas sociais e históricas sobre a maternidade e a adolescência no Brasil ( expressas através dos discursos e das práticas médico-psicológicas e educacionais para este estrato populacional ) e as trajetórias efetivas de meninas grávidas, sujeitos de nossa pesquisa . No que diz respeito à referida pesquisa, esta foi desenvolvida como o apoio e supervisão do Núcleo de Gênero e Saúde da Escola Nacional de Saúde Pública, além de ter sido parte integrante de uma tese de doutoramento.

Quanto à metodologia, foi utilizada a abordagem qualitativa, uma vez em que voltamos nosso interesse para histórias e falas selecionadas, em meio às entrevistas realizadas. Como recurso técnico foi utilizada a História Oral (Thompson, 1992 ; Meihy, 1996 ), através do qual, buscamos obter elementos para atingir o objetivo de efetuar uma investigação, privilegiando o diálogo entre o micro e o macro-político; a subjetividade e a objetividade; o individual e o coletivo; a ciência e o saber popular. Isso porque este recurso metodológico valoriza a relação entre os relatos (individuais) e o contexto de onde eles emergem (dimensão social); dá expressão social às experiências

Trabalho apresentado no XIII Encontro da Associação Brasileira de Estudos Populacionais, realizado

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de minorias; e se compromete com a esfera pública, sem no entanto desprezar a dimensão subjetiva. Em suma, rompe com o modelo dualista de ciência e transforma uma história linear numa história viva, onde o oprimido, a minoria e o não-oficial têm voz e valor. Assim, buscamos reconstruir alguns fragmentos de trajetórias biográficas (afetivo-sexuais, sociais e políticas) das adolescentes, que pudessem lançar luzes sobre o problema investigado.

Como já foi dito, o material a ser trabalhado foi selecionado dentre as entrevistas realizadas. Tal seleção se justifica pelo fato de que, em meio a um material muito extenso, optamos por aquilo que Geertz ( 1989 ) denomina uma “descrição densa” – aquela que não se contenta com uma enumeração operacional de comportamentos e respostas. Ao contrário, este autor enfatiza a importância da análise que se fundamenta na percepção e interpretação da realidade investigada, que por sua vez é tomada como produção e não como um dado empírico estático, a espera de ser decifrado. Portanto, os resultados aqui apresentados são o resultado, tanto de um esforço explicativo – “por que as meninas estão ficando grávidas cedo?” – como compreensivo, na medida em que procuramos decifrar o tipo de mensagem que as entrevistas realizadas contém. Afinal, como nos mostra Geertz, nossas construções são tecidas a partir das construções de outras pessoas, que no final das contas se revelam enquanto os dados que obtemos e que são o produto de nosso trabalho. Assim, é extremamente oportuna a afirmação, segundo a qual, ao realizarmos um estudo – no caso de Geertz, de natureza etnográfica – nossa compreensão está sempre presente.

Nada há de errado nisso e, de qualquer forma, é inevitável. Todavia, isso leva a visão da pesquisa antropológica como uma atividade mais observadora e menos interpretativa do que realmente é. Bem no fundo da base fatual, a rocha dura, se é que existe uma, de todo o empreendimento, nós já estamos explicando e, o que é pior, explicando explicações. ... ( p19 )

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1. Gravidez e ação coletiva

Entendemos a gravidez na adolescência como uma ação coletiva. Segundo Becker ( 1977) “A organização social consiste no caso específico em que as mesmas pessoas atuam em conjunto para produzir uma variedade de eventos de maneira recorrente. ... Quer estejamos falando dos atos coletivos de algumas pessoas – uma família ou uma relação de amizade – ou de um número muito maior de pessoas – uma profissão ou um sistema de classes ... ”. Portanto, mesmo não se tratando de uma ação organizada – um movimento social – consideramos a ocorrência da gravidez na adolescência uma ação coletiva.

Também Melucci ( 1997 ) entende o campo social como um contexto contraditório de propósitos, significados e recursos, onde a ação coletiva se constitui em um campo de tensões e negociações, onde o ator joga um papel, ao mesmo tempo ativo e por vezes ambíguo. Este autor entende a adolescência como um momento privilegiado, no sentido de entendermos os conflitos sociais. Para ele, estes últimos

... se desenvolvem naquelas áreas do sistema mais diretamente expostas aos maiores investimentos simbólicos e informacionais, ao mesmo tempo sujeitas às maiores pressões por conformidade. [ A ação dos atores neste conflito, no caso os adolescentes ] serve de indicador, como se fosse uma mensagem enviada à sociedade, a respeito de seus problemas cruciais( p 6)

Seguindo este raciocínio, queremos esclarecer que, neste trabalho nos dedicamos a realizar uma busca de significados, que em última análise, não deixa de implicar numa busca de explicações. Acreditamos, tal como nos mostra Geertz, que a nossa

compreensão está sempre presente nos trabalhos que desenvolvemos. Porém, prossegue

o autor: temos que evitar as chamadas “abstrações interpretativas” e para fazê-lo só há um caminho: a descrição que se efetiva na explicação da realidade estudada e a sua combinação com um tipo de compreensão que não deve nunca nos afastar dos

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objetivos perseguidos. Por fim, gostaríamos de enfatizar o fato de que, mesmo que saibamos que nossa análise não é totalmente imparcial – e isso a nosso ver não seria nem possível, nem desejável – e que inevitavelmente estamos implicados com os nossos sujeitos, assim como com o nosso próprio fazer e pensar acadêmicos, devemos nos lembrar das palavras de Geertz: “Somente pequenos vôos de raciocínio tendem a ser efetivos em antropologia: vôos longos tendem a se perder em sonhos lógicos, em embrutecimentos acadêmicos com simetria formal” ( p35 ). Talvez o grande desafio seja saber onde fica o limite entre um e outro e esperamos ter sido bem sucedidas neste empreendimento. No momento, passamos a descrever alguns dados da referida pesquisa:

• Foram realizadas entrevistas abertas e individuais ( junho de 2000 a junho de 2001 ) onde na medida do possível, se procurou cobrir os pontos de um roteiro semi- estruturado.

• Utilizou-se gravação em áudio para registrar os depoimentos, após obtido consentimento dos participantes a serem entrevistados, o que se deu mediante à explicação prévia das finalidades e objetivos da pesquisa. Também foi feito um contrato de sigilo quanto à identidade do entrevistado

• Período investigado: gestações ocorridas entre 1990 e 2001 • Amostra estudada:

Adolescentes grávidas: 11

Jovens mães ( que haviam engravidado nesta faixa etária, no período investigado – de 1990 a 2001: 11

Puérperas: 03 Familiares: 08

Profissionais de saúde: 10

• Campo de pesquisa: Maternidade Municipal situada no Município do Rio de Janeiro, região oeste

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Devemos esclarecer que, no que diz respeito às meninas, apesar de pertencerem às classes populares, elas apresentam um diferencial: como foram recrutadas num pré-natal de um hospital da rede SUS/RJ , consideramos que tal fato já é revelador de algum cuidado e/ou preocupação com a sua saúde reprodutiva, sua gestação e/ou com o futuro bebê, assim como, em muitos casos, já é, em si revelador da participação da família e/ou do companheiro neste processo.

2. A produção de um problema médico-psicológico e educacional: a gravidez precoce

O aumento do número de casos de gravidez na adolescência tem ocupado a cena de vários levantamentos estatísticos. Dados divulgados, no final da última década, pelo PNDS – Pesquisa Nacional de Desenvolvimento Social realizada pela BEMFAM – Sociedade Civil Bem-Estar Familiar no Brasil, assim como pelo SIH/SUS – Sistema de Internação Hospitalar –– dentre outros, nos mostram que este aumento vem ocorrendo, também, na faixa de 10 a 14 anos de idade, ou seja, num período que até bem recentemente, vinha sendo identificado como pré-adolescência. Acrescente-se que, nas estatísticas, tal fato aparece relacionado à pobreza e ao baixo nível de instrução.

Estas constatações – foco de preocupações e debates no campo da saúde pública, da educação e da psicologia – nos remetem a algumas questões, que merecem ser melhor analisadas: a primeira diz respeito à gênese histórica do conceito de adolescência. Defendemos a posição, segundo a qual, não existe um padrão definidor – tanto em termos biológicos como psíquicos – desta “etapa” da vida. Mesmo havendo certas constantes no nível biológico do desenvolvimento, nada garante que este seja acompanhado por manifestações psíquicas e/ou sociais, que guardem com aquele uma relação natural de causa e efeito. Portanto, há que se buscar na cultura, na política – entendida enquanto um interjogo de forças que expressa relações de poder – na estrutura econômica da sociedade e, fundamentalmente, na história, a compreensão, não só das causas que determinam esse fenômeno; mas, fundamentalmente, as razões pelas quais ele vem acompanhado de uma proliferação de discursos – oficiais e não oficiais1 – que dele se ocupam, trazendo-lhe para o

1 Chamamos de discursos oficiais aqueles discursos que emanam de agências governamentais e/ ou de

órgãos que instituam ou influenciem as políticas públicas e as estratégias de ação que tenham como objeto de estudo e intervenção a gravidez na adolescência.

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centro da cena e tornado-lhe alvo de práticas que se propõe “proteger” a saúde reprodutiva dessa camada da população.

A segunda diz respeito ao fato de que a compreensão da ocorrência da gravidez na adolescência, é muitas vezes obscurecida pelo discurso médico-psicológico que, em consonância com ideais higienistas, vem historicamente se limitando a identificar causas para evitar conseqüências – sociais – indesejáveis. Note-se que, a despeito das evidências relatadas por estudos da própria área médica que articulam a maturidade biológica necessária à concepção e à capacidade de gerar e parir de modo seguro, a gravidez na adolescência é, genericamente – e oficialmente – considerada uma gravidez de alto risco. Também o alardeado aumento da taxa de mortalidade materna, que teria nos partos realizados em adolescentes uma causa significativa, vem sendo desmistificado a partir do aprimoramento do sistema de informação, como é o caso da criação do Comitê Estadual de Prevenção e Controle de Morte Materna e Perinatal da Secretaria Estadual de Saúde / RJ, que tem por objetivo o acompanhamento deste indicador epidemiológico.

Nessa mesma perspectiva normativa, se insere o discurso da falta de oportunidades, um do principais argumentos oficiais, para o controle e prevenção da gravidez na adolescência. Este, remete-nos às oportunidades de estudo e trabalho que são perdidas pela jovem mãe. Vejamos: dependendo da classe social (lembremos que os estudos demográficos relacionam pobreza e gravidez precoce), existem, de fato, tais oportunidades? Se não existem, o discurso que relaciona a exclusão da adolescente da escola e do mundo do trabalho, não estaria utilizando a gravidez como uma espécie de “bode expiatório” para encobrir e justificar uma situação social que de fato mantém à margem aqueles que já são historicamente excluídos sociais (neste caso, pobres e mulheres)?

Visto por outro ângulo, ou seja, do ponto de vista das meninas, o advento da gravidez não poderia ser uma tentativa de encontrar – mesmo com grande ônus – um lugar social? Ou seja, a ocorrência da gravidez na adolescência precoce não estaria se constituindo em um elemento de invenção de uma história de vida? Invenção esta, que no entanto não diz respeito a um projeto individual, mas a um projeto coletivo, pois que construído a partir dos significados sociais relativos à maternidade e das oportunidades materiais disponíveis em nossa sociedade. No entanto – através de um mecanismo de inversão – é a diminuição das perspectivas do jovem, com sua concomitante perda de

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opções enquanto sujeito social, que é apontada como conseqüência da gravidez, genericamente afirmada como indesejada. A partir de tal argumento, tido como irrefutável, se justifica uma série de medidas e procedimentos, expressos por Políticas Públicas, que norteiam a organização de Programas e Projetos, que por sua vez se valem de discursos e práticas educativas, sempre pretendendo “orientar” a saúde reprodutiva da população adolescente.

Grande parte das análises que abordam esse fenômeno perde de vista a contextualização da problemática, que a nosso ver, não se reduz a ponderações maniqueístas, tal como: bom/ mau; certo/ errado; mas que requer uma análise que desvele seus fundamentos históricos, sociais, políticos e psicológicos. Não se trata aqui, de fazer a condenação ou o elogio da gravidez na adolescência. Trata-se, sim, de trazer `a cena uma realidade que, sem negligenciar os perfis epidemiológicos, nos remetem a histórias: trajetórias que contém sonhos, esperanças, dores, desilusões e que permitem às meninas se apropriarem das adversidades, para transformar – mesmo que ilusoriamente – o seu cotidiano em algo que valha a pena ser vivido. Ser mãe para estas meninas, talvez seja uma das poucas formas que lhes restam, no sentido se colocarem no mundo como sujeitos sociais.

O “enaltecimento” da maternidade que se verifica, notadamente a partir dos séculos XVIII e XIX têm suas raízes na necessidade de fixar a mulher no casamento e na esfera doméstica. Esta é uma estratégia extremamente funcional ao sistema capitalista que, numa manobra de grande astúcia, abdica de se opor ao poder familiar, aliando-se a ele e delegando às mulheres a criação dos filhos da “nova ordem”. Note-se que, no entanto, tal manobra não dispensa a supervisão e orientação do poder médico, que junto aos pedagogos e moralistas da época irá arbitrar sobre a adequação ou não da mulher à maternidade. Tal ingerência sobre sua saúde reprodutiva é permeada por prescrições e proscrições, que não tardarão a abarcar também sua sexualidade, que passa a ser alvo dos discursos científicos da época.

O que assistimos hoje, dois séculos depois, vem a ser uma atualização destes discursos, que nos parece, são muito bem assimilados pelas meninas, alvo de nossa pesquisa. Cria-se, portanto, uma situação ambígua: ser mãe parece, então, um caminho inevitável. Caminho esse que irá lhes conferir um status e algumas prerrogativas,

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constituindo-se numa verdadeira estratégia de sobrevivência. Porém, ao mesmo tempo, elas são tomadas como desviantes em relação à idade que se espera que a maternidade ocorra. Entre o sonho e a realidade vai se constituindo uma situação que requer que seja analisada e cuidada com toda atenção que nós, profissionais engajados na melhoria da qualidade de vida de nossos adolescentes podemos – e devemos – lhe dispensar.

3. Notações sobre algumas categorias temáticas

Procederemos a análise do material emergente nas entrevistas realizadas. Procuramos destacar alguns temas gerais, eleitos em função da relevância – atribuída por nós e/ou pelas entrevistadas – aos mesmos.

• Gravidez e contracepção

A pesquisa realizada evidencia que 92% das jovens mães entrevistadas tiveram todas as suas gravidezes como resultado de uma relação com parceiro conhecido e / ou fixo: alguém com que “ficava”, namorado, noivo ou até mesmo marido. Este número sobe para 100% entre as adolescentes grávidas e as puérperas.

Quanto a abusos sexuais, foi relatado um caso em que uma adolescente grávida, quando criança, foi molestada sexualmente pelo seu pai. Houve também dois casos de estupro ( 8% do universo total investigado ), sendo que apenas um deles teve como conseqüência a gravidez, que foi levada a termo.

No que diz respeito aos métodos contraceptivos, apenas duas entrevistadas (8% de todas as entrevistadas: adolescentes grávidas, jovens mães e puérperas ) relataram que não tinham conhecimento de qualquer método contraceptivo, o que não se verificou entre as demais, que conheciam em geral a pílula e a “camisinha”. As fontes de informação são diversas: chama atenção o fato de que, muitas recebem informações pela própria mãe. A escola também parece ter um papel muito importante, através de aulas que abordam a educação sexual. Em alguns casos, a iniciativa da contracepção é do namorado – especificamente quanto ao uso da “camisinha”, o coito interrompido, ou ainda comprando a “pílula”.

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Há quem, apesar do conhecimento, não faz uso dos métodos. Dentre os motivos para este fato, são apontados: vergonha de ir ao médico; a crença que não irão engravidar, gerada pelo fato de não terem relação sexual diariamente; coito ininterrupto; preconceitos quanto à utilização do preservativo masculino; e o desejo de engravidar, citado, principalmente, entre as jovens mães. No que diz respeito às adolescentes grávidas, apenas uma afirma que planejou engravidar. Fazemos aqui uma distinção entre planejar e desejar uma gravidez: em geral, o que aconteceu com as meninas entrevistadas foi que elas não planejaram, mas no entanto, o desejo de ficar grávida é revelado pós-fato, através de expressões tais como: “fiquei toda boba ... novinha assim!”; “fiquei super feliz”; “eu não era bobinha, sabia dos métodos, mas não usava”; “usava camisinha e um dia não usei”. De maneira geral, o momento em que se descobre que está grávida vem acompanhado de sentimentos de surpresa e temor. Estes são causados por anteverem uma reação negativa da família e, em alguns casos, do namorado, que logo são superados, na medida em que se instala a aceitação familiar. Neste momento, a gravidez passa a ser vivida como algo muito desejado, apesar de surgirem sentimentos ambivalentes, expressos em falas como “tenho medo de perder minha liberdade”. Tais fatos aqui relatados estão em conformidade com as afirmações de Bruno e Bailey ( 1998 ), quando no “Seminário Gravidez na Adolescência”, promovido pelo PEM – Projeto de Estudos da Mulher no Brasil, afirmam:

A maioria destas adolescentes não queria a gravidez quando esta ocorreu. Porém, no grupo de pré-natal, 40% disse que sim, queria a gravidez quando esta ocorreu. É um engano assumir que toda gravidez de adolescente é indesejada. Muitas são, sim, desejadas e planejadas. ( p 65 )

De maneira geral, podemos nos referir a um desejo consciente ou não de serem mães, pois, de alguma forma todas admitem ter conhecimento dos riscos de uma gravidez, além da maioria delas – entre gestantes e jovens mães demonstrarem algum tipo de conhecimento de pelo menos um método para evitá-la.

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• Os novos arranjos familiares e as redes de sociabilidade primária

No que diz respeito à descoberta da gravidez pela família, esta num primeiro momento se surpreende e condena a adolescente; neste contexto, a mãe parece ser a grande aliada para a resolução da situação, seja em relação ao pai, ao namorado, ou o restante da família. Mas até que a situação se defina, a adolescente vive de forma dolorosa as represálias e críticas de alguns membros da família, da escola, da comunidade, bem como a questão relativa ao aborto, como uma possibilidade sempre ventilada por alguém.

Por outro lado, destacamos que a “recusa” da família limita-se em aceitar, num primeiro momento, a gravidez da adolescente. Constatamos que, existe um consentimento da prática sexual, mais especificamente, por parte da mãe; porém com a ressalva de “não pegar filho”. Tal fato revela um tipo de concepção – note-se que tal concepção convive com outras, por vezes contraditórias, dentro de uma mesma família – sobre a sexualidade da adolescente, na qual esta é tomada em separado da função reprodutiva. Isto nos chama a atenção, principalmente quando confrontamos esta visão àquela veiculada por discursos oficiais, como é o caso de uma declaração conjunta da OMS/ FNUAP /UNICEF sobre a Saúde Reprodutiva de Adolescentes (1989). Nesta declaração, as doenças sexualmente transmissíveis são relacionadas à gravidez na adolescência ( p 6). Embora essa seja uma questão delicada, que mereça uma análise mais profunda, arriscamos fazer uma analogia entre este discurso e aquele dos higienistas do início do século. Estes, através de prescrições e proscrições – que tinham como intenção declarada, proteger a saúde da população – encobriam uma série de normalizações que, em verdade se baseavam em conceitos morais sobre o comportamento – notadamente o comportamento sexual – da população pobre. ( sobre este assunto, ver Costa, 1989 )

No que diz respeito a valores, como a virgindade, por exemplo, fica clara a ambivalência da família e da adolescente. Algumas adolescentes usam a expressão “me perdi” ao se referirem a primeira relação sexual, e procuram enfatizar que o pai da criança foi o primeiro e único com que tiveram relações sexuais e lamentem quando isto não aconteceu. Também constatamos que grande parte das adolescentes se referem a sentimentos de vergonha e culpa em relação à família, à comunidade e `a escola.

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Tais fatos vêm a demonstrar que o terreno da sexualidade continua envolvido em preconceitos e tabus, mas que a despeito destes, parece que há algo mais urgente que precisa ser levado em conta e que diz respeito a estratégias de sobrevivência objetivas e subjetivas. Estamos nos referindo aos ganhos secundários que, muitas vezes, advêm de uma gravidez.

Em verdade, parece-nos que, o advento da gravidez na adolescência se constitui, em muitos casos numa denúncia, num grito de socorro, que aponta para uma situação de abandono social. Pecebemos ainda, que tal lacuna é preenchida, em parte, pelo que Robert Castel (1998) denomina redes de sociabilidade primária:

... sistemas de regras que ligam diretamente os membros de um grupo a partir de seu pertencimento familiar, da vizinhança e do trabalho e que tecem redes de interdependência sem a mediação de instituições específicas ( p 48 )

A gravidez é vivida por todos como um momento especial e merecedora de cuidados especiais, de modo que a futura mãe mobiliza a família no sentido de possibilitar o nascimento de uma criança saudável. Em relação ao parto, as adolescentes demonstram grande ansiedade e muitas preferem “nem pensar”, contudo a maioria prefere o parto normal, muito comum em suas famílias, em função da rápida recuperação.

Fortalecem-se os laços familiares, mas também aquilo que o autor denomina como social-assistencial: práticas especializadas – que se dão através de instituições, também especializadas, como o hospital, por exemplo – que se constituem historicamente, como uma resposta a uma maior complexidade das sociedades e também a um certo “afrouxamento” dos laços de sociabilidade primária. Note-se, no entanto, que em contrapartida, esses laços serão fortalecidos, quando a assistência especializada falha. Nestes casos – que segundo o autor, são característicos das sociedades contemporâneas – para evitar um abandono social “... ou a retomada pelas

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redes comunitárias ‘dadas’ funciona ( e ela sempre representa um custo ), ou não há nada, exceto diferentes formas de abandono e morte social”. ( p 52 )

No que diz respeito a situação por nós analisada, parece-nos que, a ocorrência da gravidez na adolescência precoce mobiliza ambas as instâncias. Muitas adolescentes nos relatam desde a conquista de um quarto, até a obtenção de cuidados afetivos, que são dispensados pelas redes de sociabilidade primária – notadamente a família – que é fortalecida e acionada. Também o Estado Social, através de suas agências específicas – Secretarias de Saúde, Unidades Hospitalares, Unidades Básicas – será acionado e colocará à disposição da adolescente grávida uma série de aparatos, que se expressam através programas que garantem uma atenção diferenciada, mesmo que no momento atual, não se verifique uma cobertura total.

Percebemos também, que uma grande expectativa das adolescentes grávidas se refere à assunção da paternidade, por parte do parceiro. Demonstram isso, ao ressaltar, com orgulho e alívio, que “o companheiro está com elas”, embora a maioria dos relatos evidencie que ele não possa assumir efetivamente a responsabilidade do sustento de uma nova família.

A família do namorado, por sua vez, parece levá-lo à assumir a paternidade, o que se verifica na mobilização de todos, para que o companheiro tenha um trabalho, nos arranjos residenciais quando se constrói um quarto para o casal, na recepção da adolescente em sua moradia ou ainda no acompanhamento do pré-natal pela sogra ( ou mesmo por alguma vizinha ). As famílias – tanto materna quanto paterna – tentam solucionar de alguma forma o sustento e a moradia do futuro casal. Tal fato revela que, a aceitação da gravidez, mais cedo ou mais tarde, acaba se impondo. Correlato a este movimento, podemos perceber um outro, freqüentemente relatado, de assunção do neto, como se ele fosse um filho, por parte da avó. Em alguns casos, a história da adolescente repete a história da mãe. Esta, também foi mãe na adolescência e em alguns casos, deu a criança para sua própria mãe criar, o que agora parece ser retribuído pela filha.

Parece-nos também, que a gravidez nesta faixa etária – 11 a 14 anos – é melhor aceita do que numa faixa etária mais avançada da adolescência. Participando de um grupo de familiares de gestantes adolescentes na instituição pesquisada, pudemos perceber esta situação através dos comentários das mães e mesmo de profissionais de

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saúde. Tudo parece reforçar a crença de que a adolescente na faixa de 16 anos está na “idade do fogo”, sabia o que fazia e cometeu um “erro”. Já a menina de menos de 14 anos é tratada como um bebê que vai ganhar outro bebê, sendo vista, portanto, como uma “vítima inocente” ( isto, independente da idade do seu parceiro ) . Tal fato justifica a prática, segundo a qual, este bebê vai, muita vezes, ser presenteado à sua mãe.

De qual quer forma, o bebê será acolhido: ou a família o fará, ou ajudará a adolescente a assumir a maternidade. Não foi constatado nenhum caso em que o abandono do bebê fosse levantado, sequer como possibilidade remota. Tal fato também nos faz refletir sobre outra afirmação contida no documento já referido da OMS/ FNUAP / UNICEF, que cita, entre as conseqüências indesejáveis da gravidez na adolescência, o abandono de crianças, que passam a estar mais expostas à violência.

Ouro aspecto que reputamos de fundamental importância refere-se a uma melhor compreensão da história familiar de socialização. No entanto, devemos esclarecer, que não é nossa intenção conduzir esta análise, a partir do que se convencionou chamar familiarismo – um tipo de compreensão que aborda os fenômenos sociais, reduzindo-os à intimidade das relações interpessoais, forjadas na trama familiar ( sobre este assunto ver Coimbra, 1995 ). No entanto, não devemos nos esquecer que tal história é de fundamental importância para que conheçamos os valores e as crenças, que modelam as expectativas e os desejos do jovem. Isto porque, acreditamos que as conseqüências que cada ação terá para a vida adulta do jovem, é avaliada num quadro de referência que tem por parâmetro a vivência familiar, que por sua vez expressa e traduz a posição social daquele grupo específico.

• Projetos futuros: considerações sobre escolaridade e trabalho

Constata-se, quanto a divisão do trabalho familiar, que as filhas adolescentes têm os estudos e o trabalho doméstico como atividades básicas, sendo que a fonte de renda resulta do trabalho dos pais e em muitos casos, exclusivamente do trabalho da mãe. Na sua maioria, as adolescentes citam o baile como forma de lazer. Dentre as perspectivas futuras estão a constituição da nova família, a criação e os cuidados infantis e a construção da casa própria.

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Percebemos nos discursos das adolescentes que, de certa forma, suas famílias encaram a gravidez como uma ruptura ou “desvio de rota” ao criticarem a questão da idade. Também nos relatos das adolescentes se evidencia uma certa crítica a si próprias, responsabilizando-se pelas mudanças (indesejáveis) em suas vidas com o advento da gravidez. No entanto, tal “culpa” representa tão somente um lado do conflito que é vivido (por outro lado mostram-se satisfeitas e bem com seu estado) o que é resolvido através de planos de retorno à escola, por exemplo.

Das onze adolescentes grávidas, 8 ( aproximadamente 73% ) continuam estudando, apesar de planejarem parar quando o neném nascer. No entanto, afirmam convictas, que irão retornar, tão logo o neném cresça ou até que arrumem uma pessoa ou lugar onde possam deixá-lo. Vale a pena ressaltar o fato de que, das três adolescentes que abandonaram os estudos durante a gravidez, uma já havia saído da escola há três anos, portanto, antes de engravidar. Quase todas as jovens mães ( 96% do universo pesquisado ) abandonaram a escola, apesar de nenhuma delas ter abandonado seu projeto de um dia voltar a estudar. Algumas chegaram a retornar à escola, tendo, no entanto, que abandoná-la novamente, por ocasião de uma nova gravidez. Apenas uma permanece na escola até hoje. Tal quadro deve ser comparado com os dados contidos no PNDS – Pesquisa Nacional sobre Demografia e Saúde ( 1996 ) no que diz respeito à educação formal. Esta pesquisa constatou que o advento da gravidez na adolescência cresce inversamente aos anos de escolarização: 50,7% das adolescentes que já eram mães não tinham nenhum ano de escolarização, enquanto 4,2% possuíam de 9 a 11 anos passados na escola. No entanto, é significativo observar que

“... entre as razões de abandono [ dos estudos] mencionadas, ficar grávida, casar e cuidar dos filhos correspondem a 13%. A principal razão de interrupção na área urbana foi o fato de precisar trabalhar e na área rural foi o acesso difícil à escola” ( p 30 ). No entanto, é significativo observar que na área urbana 4,5% das entrevistadas abandonaram a escola porque ficaram grávidas; 6,9% porque se casaram; 16,9% porque precisaram trabalhar e 17,8% ( o maior índice ) porque não gostavam da escola. Na área rural, 2,9% saíram da escola porque ficaram grávidas; 9,4% porque se casaram; 16,9% porque a escola era de

difícil acesso e 19,2% ( também o maior índice ) porque não gostavam da escola.

Observamos também que as adolescentes demonstram vivenciar sentimentos ambivalentes diante das exigências da família e da sociedade, na medida que deverão

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assumir com responsabilidade a maternidade, mas também concluir seus estudos – estes são referidos como um fator que possibilitará a inserção no mercado de trabalho. Tal proposição se configura sobretudo nos relatos das jovens mães, cuja retrospectiva de vida demonstra as dificuldades encontradas no retorno aos estudos, o que ocasiona a criação de situações alternativas de trabalho que no entanto, são tidas como transitórias. A despeito deste discurso, constatamos o abandono escolar como prática freqüente entre as adolescentes grávidas, embora todas revelem o retorno aos estudos como projeto de futuro. Gomes (1997), ao realizar uma pesquisa sobre a relação entre o valor atribuído à escolarização pelas classes populares e o processo de socialização, aponta para a incongruência entre a fala que idealiza a escola e a vida escolar efetiva, que nega a referida fala.

De qualquer forma, o que se verifica é uma relação inequívoca entre gravidez e abandono escolar. No entanto, para analisá-la, invertemos a explicação habitualmente aceita, segundo a qual o abandono dos estudos é visto como uma conseqüência da gravidez precoce. Propomos que entendamos a ocorrência da gravidez como uma alternativa a um processo de escolarização que não atende às reais necessidades dos jovens. Segundo Sposito (apud Gomes,1997), nesta fase, os adolescentes das classes populares irão se questionar sobre a utilidade do saber escolar, face à realidade por eles vivida. Haverá, então, uma desfetichização do saber escolar, decorrente da constatação de sua inocuidade como critério de empregabilidade, o que acaba por gerar a recusa à escola. Gomes (1997) aponta ainda, o trabalho como substituto da escola, sendo que essa transição se dá, principalmente, entre 12 e 14 anos. Como esta autora não faz referência a distinções de gêneros, arriscamo-nos a levantar a seguinte questão:

Considerando a tradição, segundo a qual o trabalho doméstico impõe-se, ainda hoje, como uma espécie de “destino” feminino – principalmente nas classes populares (sobre este tema ver Stolcke, 1980); considerando a precariedade de oportunidades ocupacionais, que mantém excluídos do mundo do trabalho, contingentes cada vez mais expressivos – homens e mulheres , gerando um fenômeno denominado por Robert Castel (1998) de “supranumerários”; podemos entender a gravidez na vida da menina adolescente, como um substituto do trabalho (que, por sua vez, segundo Gomes, substituiria, nesta faixa etária, a escolarização)? Ou seja, não estaria a ocorrência da gravidez na adolescência se impondo – face à ausência de sentido que tem para suas

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vidas a educação escolar – como uma forma de achar um lugar social? Não estaria ela funcionando como uma referência – num cenário onde vigora uma quase total ausência de referências – na qual possa ser ancorada a construção da sua identidade?

Para melhor entendermos este fenômeno, recorreremos a Castel, que ilustra bem essa ausência de um lugar social, ao se referir àqueles que denomina desfiliados sociais. Estes, ou são excluídos, ou sequer chegam a se inserir no mercado de trabalho, formal ou informal. Porém diferentemente do que se convencionou designar por marginalidade social – fenômeno funcional, até recentemente, numa economia capitalista – os supranumerários são, no mundo contemporâneo, simplesmente supérfulos, pois que suas competências não são conversíveis em valores sociais.

Também é difícil ver como poderiam representar uma força de pressão, um potencial de luta, se não atuam diretamente sobre nenhum setor nevrálgico da vida social. Assim, inauguram uma problemática teórica e prática nova. Se, no sentido próprio do termo, não são mais atores, porque não fazem nada de socialmente útil, como poderiam existir socialmente ? No sentido, é claro, de que existir socialmente eqüivale a ter, efetivamente, um lugar na sociedade. Porque, ao mesmo tempo, eles estão bem presentes – e isso é o problema, pois são numerosos demais. ( p 33 )

Vejamos : se considerarmos as adolescentes estudadas – assim como seus companheiros – como potenciais supranumerários, poderemos compreender por um outro ângulo, as preocupações e as advertências expressas pelo que estamos chamando discurso oficial. Evidenciamos nestes discursos um viés normalizador e disciplinador, pautado em valores morais, na medida em que, percebemos a existência latente de outros “perigos”, além daqueles por eles explicitados. Referimo-nos, por exemplo, aos imensos contigentes de desfiliados sociais, citados por Castel. À afirmação deste autor

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poderíamos contrapor a idéia da existência de uma função de denúncia, de um certo modo-de-estar-no-mundo, característicos da adolescência. Queremos reafirmar que, ao falarmos destas características, não a tomamos como algo natural, mas como construção simbólica, forjada hitórica e socialmente. No entanto, não podemos nos esquecer o quanto a literatura, assim como os movimentos sociais nos mostram o grande potencial transformador – e contestador – experimentado nesta fase da vida.

• Gravidez e construção da identidade

Entendemos que a gravidez na adolescência passa a se constituir numa estratégia extremamente útil, não só para a jovem mãe, mas também para o jovem pai – note-se que, em geral, os parceiros das adolescentes são, eles próprios, adolescentes. Estratégia útil, porque reforça concepções historicamente vinculadas ao gênero feminino – a mulher-mãe; a mulher-esposa; a mulher “rainha do lar” – funcionando como matéria prima com a qual se constrói suas identidades.

Devemos esclarecer que, ao nos referirmos à identidade, não a confundimos com individualidade, nem tão pouco com um produto estático. Concebemos-lhe como construção coletiva, que envolve uma incessante reorganização dos significados a partir dos quais nos relacionamos com o mundo e conosco mesmos. Além disso, cremos que identidades múltiplas e plurais podem ser assumidas pelos atores sociais.

• Jovens Mães

No discurso das jovens mães, em sua retrospectiva de vida enfatizam a inexperiência na época da primeira gravidez e o quanto se sentem seguras no momento, sobretudo pela constituição do vínculo com o companheiro.

Das entrevistas realizadas com jovens mães constatamos que, praticamente, todas abandonaram os estudos mas todas os incluem nos planos de futuro, embora algumas reconheçam as dificuldades de retomá-los.

A maioria não exerce nenhuma atividade fora de casa, tendo os afazeres domésticos como única atividade. Continuam com o mesmo companheiro com tempo variável entre 2 à 8 anos, dependendo da idade da entrevistada e da época da gravidez.

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Quase todas ( 96% do universo total pesquisado) cuidaram do neném independente de sua idade ao parir. Somente uma jovem mãe entrevistada – vítima de estupro – relatou que permaneceu 2 anos sem cuidar de seu filho, delegando esta tarefa à família e tomando-a para si, tão logo teve condições emocionais de fazê-lo. Não foi relatado qualquer caso de abandono do filho.

Todas demonstram – pelo menos a intenção- de fazer uso de algum método contraceptivo. Embora algumas designam como acidental a segunda gestação e a maioria demonstra desejo de engravidar novamente. Entre as expectativas, é relatado, pela maioria, a questão da moradia, o trabalho e os estudos como perspectiva de melhores condições de vida.

Conclusão

O trabalho aqui apresentado representa um primeiro passo no sentido de, ao explicarmos e compreendermos a realidade estudada termos condições de nela intervir, para alterar seus rumos, auxiliando na elaboração de alternativas viáveis para efetivar um projeto que mude este quadro. É bem verdade que as Políticas Públicas para a adolescência e a juventude no Brasil praticamente inexistem. É chegada a hora de efetivarmos as contribuições da academia, o que só pode ser feito se assumirmos nosso compromisso com os movimentos sociais que versam sobre o tema aqui tratado. Neste sentido, cremos que nossos esforços – no sentido de explicar e compreender esta ação coletiva de meninas que, muitas vezes utilizam a gravidez como uma estratégia de sobrevivência – pode se beneficiar, e muito, se fizermos alianças com aquelas que são alvo de nossas ações e investigações.

Fundamentalmente, cremos que a efetividade de nosso empreendimento está vinculado à possibilidade de vincularmos teoria e prática, para melhor intervirmos em todas as suas dimensões, ao invés de nos restringirmos a campos de atuação de maneira estanque: da saúde, da educação, da economia, da política e outros. Somente no momento em que pudermos reconhecer a forma como estas determinações se atravessam para constituir o campo o qual estamos investigando; somente no momento que pudermos reconhecer suas interfaces e conexões; somente no momento em que

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efetivamente, para transformar esta realidade, a qual, enquanto cidadãos, também ajudamos a produzir.

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Referências

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