UNIVERSIDADE DE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO
Efeitos de um programa de Exercício Físico na melhoria da
Função Cognitiva em Idosos
DISSERTAÇÃO DE MESTRADO EM GERONTOLOGIA: ATIVIDADE FÍSICA E SAÚDE NO IDOSO
Liliana Amaral Ferreira
Orientadora: Prof.ª Doutora Maria Dolores Alves Ferreira Monteiro
UNIVERSIDADE DE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO
Efeitos de um programa de Exercício Físico na melhoria da
Função Cognitiva em Idosos
DISSERTAÇÃO DE MESTRADO EM GERONTOLOGIA: ATIVIDADE FÍSICA E SAÚDE NO IDOSO
Liliana Amaral Ferreira
Orientadora: Prof.ª Doutora Maria Dolores Alves Ferreira Monteiro
"Não importa se a estação do ano muda... Se o século vira, se o milénio é outro. Se a idade aumenta... Conserva a vontade de viver, Não se chega a parte alguma sem ela."
Dissertação apresentada por Liliana Amaral Ferreira à Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Gerontologia: Atividade Física e Saúde no Idoso, sob orientação da Prof.ª Doutora Maria Dolores Monteiro.
Agradecimentos
Em primeiro lugar, quero agradecer a todos aqueles que, direta ou indiretamente, contribuíram para a realização deste trabalho de Mestrado em Gerontologia: Atividade Física e Saúde no Idoso, realizado na Universidade de Trás- os-Montes e Alto Douro, e para que eu conseguisse alcançar mais uma etapa importante no meu percurso académico.
Em segundo lugar quero deixar um enorme agradecimento à Professora Doutora Maria Dolores Monteiro pela orientação nesta dissertação, bem como ao Professor Doutor José Carlos Leitão por todos os ensinamentos e pelo apoio prestado. Quero agradecer aos meus amigos que sempre me apoiaram e incentivaram na elaboração deste projeto, especialmente à minha melhor amiga Maria Inês que sempre me apoiou em alturas mais complicadas deste percurso e à minha amiga Diana que percorreu este caminho ao meu lado. Foram essenciais no apoio prestado e no ânimo dado em alturas menos boas deste último ano.
Quero agradecer à minha mãe que me incentivou e ajudou ao longo deste percurso e a quem eu devo tudo o que sou e tudo aquilo que tive oportunidade de realizar até hoje. O meu especial agradecimento e o meu maior pensamento vai para o meu pai que faleceu há um ano atrás e me fez pensar em desistir deste projeto, mas por ele e para o encher de orgulho eu resolvi arranjar forças e continuar este trabalho para dar continuidade a tudo o que ele me proporcionou durante todos estes anos.
Por último, quero agradecer à Camara Municipal de Cabeceiras de Basto e aos funcionários dos respetivos Centros de Dia pelo excelente acolhimento, compreensão e disponibilidade prestados. Quero prestar igualmente o meu profundo agradecimento a todos(as) entrevistados(as) pelo seu indispensável contributo e disponibilidade em participarem neste estudo sem os quais este trabalho não seria possível.
Resumo
O envelhecimento é atualmente um conceito que tem despertado o interesse de muitas áreas do conhecimento devido ao aumento progressivo do número de pessoas que estão incluídas nesta faixa etária. Durante o envelhecimento, os sistemas orgânicos perdem a capacidade de desempenhar corretamente as suas funções perante as diversas modificações do meio interno, levando também ao comprometimento da função cognitiva. O exercício físico é considerado um meio de atenuar o declínio cognitivo, podendo beneficiar de forma significativa o idoso e a sociedade. Assim, o objetivo do presente estudo foi verificar os efeitos de um programa de exercício físico na melhoria da função cognitiva em idosos.
Foi utilizada uma amostra constituída por 40 idosos com idades compreendidas entre os 65 e os 80 anos, 32 do sexo feminino (80%) e 8 do sexo masculino (20%), residentes no concelho de Cabeceiras de Basto. A amostra foi dividida em dois grupos: grupo de controlo (n=20, 72,65±4,98 anos) e grupo experimental (n=20, 72,05±4,39 anos). O grupo experimental foi sujeito a um programa de intervenção (caminhada) com a duração de 4 meses, duas vezes por semana (60 minutos cada sessão) e a uma intensidade moderada. Os dois grupos foram sujeitos a dois momentos de avaliação, pré e pós-teste. Os instrumentos de avaliação usados foram o Mini Mental State Examination (MMSE), o Teste do Relógio (TR), um questionário sociodemográfico e um cardiofrequencímetro para avaliar a intensidade da caminhada. Para comparar os dois grupos no pré e pós-teste utilizou-se o Teste de Wilcoxon para amostras emparelhadas. Inicialmente, os dois grupos foram comparados, não tendo sido observadas diferenças significativas nos resultados do pré-teste (p=0,247). Posteriormente, os dois grupos foram comparados através do resultados do pré com o pós-teste, tendo-se verificado que o grupo experimental que foi sujeito a um programa de caminhada apresentou melhorias significativas na função cognitiva comparativamente ao grupo de controlo (p=0,02).
Concluindo, este estudo mostra que o programa de caminhada realizado durante 4 meses produziu efeitos benéficos na função cognitiva. Os efeitos que o envelhecimento produz podem ser retardados ou atenuados através de programas de exercício físico devidamente estruturados e implementados junto desta população. A crescente tendência para a implementação de programas tem-se revelado bastante benéfica e este tipo de intervenção é uma mais valia no trabalho efetuado com esta população, devendo ser utilizado de forma a prevenir ou retardar o declínio cognitivo.
Abstract
Aging is now a concept that has aroused the interest of many areas of knowledge due to the progressive increase in the number of people who are included in this age group. During aging, body systems lose the ability to properly perform its functions due to the various modifications of the internal environment, also leading to the impairment of cognitive function. Physical exercise is considered a way to attenuate cognitive decline and can benefit significantly the elderly and the society. So, the aim of this study was to verify the effects of a physical exercise program in the cognitive function improvement of in the elderly.
A sample consisting of 40 senior citizens aged between 65 and 80 years, 32 female (80%) and 8 male (20%), residents in the municipality of Cabeceiras de Basto, was used. The sample was divided into two groups: control group (n = 20, 72.65 ± 4.98 years) and experimental group (n = 20 72.05 ± 4.39 years). The experimental group was subjected to an intervention program (walking) with a duration of 4 months, twice a week (60 minutes per session) in a moderate intensity. Both groups were subjected to two stages of evaluation, pre and post-test. The used assessment tools were the Mini Mental State Examination (MMSE), the Clock Test (CT), a socio-demographic questionnaire and a heart rate monitor to evaluate the intensity of the walk. To compare the two groups in the pre and post-test we used the Wilcoxon test for paired samples. Initially, the two groups were compared, not having been observed significant differences in the pre-test results (p = 0.247). Subsequently, both groups were compared by the pre-test results with post-test, having verified that the experimental group, that was subjected to a walking program, showed significant improvements in cognitive function as compared to the control group (p = 0, 02).
In conclusion, this study shows that the walking program conducted during four months, produced beneficial effects on cognitive function. The effects that aging produces may be delayed or attenuated through properly structured and implemented physical exercise programs in this population. The growing tendency towards the implementation of programs has proven to be quite beneficial and this type of intervention is particularly valuable in the work done with this population and should be used to prevent or slow the cognitive decline.
Índice Geral
Agradecimentos ... iv
Resumo ... v
Abstract ... vi
Índice Geral ... vii
Índice de Tabelas ... ix
Índice de Siglas e Abreviaturas ... x
1. Introdução ... 1
2. Envelhecimento ... 5
Processo de Envelhecimento... 5
Função Cognitiva e o Envelhecimento ... 21
Influência da Atividade Física na Função Cognitiva ... 24
3. Metodologia ... 33
Desenho de Estudo ... 33
Amostra ... 33
Critérios de seleção da amostra ... 33
Programa de Intervenção ... 34
Instrumentos e Procedimentos ... 34
Análise Estatística ... 36
4. Apresentação de Resultados ... 38
6. Conclusão ... 48
7. Propostas Futuras de Investigação ... 51
8. Referências ... 53
9. Anexos... 64
Anexo 1 - Pedido de autorização para realização de Estudo. ... 64
Anexo 2 - Consentimento Livre e Informado ... 65
Anexo 3 - Questionário Sócio Demográfico... 66
Anexo 4 - Teste do Relógio. ... 69
Índice de Tabelas
Tabela 1. Valores de corte para a existência de défice cognitivo... 35
Tabela 2. Frequências e percentagens para a escolaridade, prática de atividade física
e função cognitiva ... 38
Tabela 3. Análise descritiva para a amostra no pré-teste …………...39
Tabela 4. Comparação dos grupos (grupo de controlo e grupo experimental) no pré-
teste ... 39
Tabela 5. Comparação dos resultados do pré-teste e pós-teste nos dois grupos no
MMSE ... 40
Tabela 6. Comparação dos resultados do pré-teste e pós-teste nos dois grupos no
Índice de Siglas e Abreviaturas
ACTH Hormônio adrenocorticotrófico
AF Atividade Física DA Doença de Alzheimer DP Desvio padrão EF FCR Freq Exercício Físico
Frequência Cardíaca de Reserva
Frequência
INE Instituto Nacional de Estatística
LDL Lipoproteína de baixa densidade MMSE Mini Mental State Examination
n Número
OMS Organização Mundial de Saúde
p Valor de Significância
RNA Ácido ribonucleico
SNC Sistema Nervoso Central
SPSS Statistical Package for the Social Sciences
TR Teste do Relógio
VO2max Capacidade máxima do corpo de um indivíduo em
transportar e metabolizar oxigênio durante um exercício físico incremental
1. Introdução
O envelhecimento é atualmente um conceito que tem despertado o interesse de muitas áreas do conhecimento. Isto deve-se ao aumento progressivo do número de pessoas que estão incluídas nesta faixa etária. Assim, são inúmeros os estudos que têm vindo a ser desenvolvidos com o objetivo de estudar mais aprofundadamente esta população e avaliar as suas principais necessidades. Os profissionais que trabalham com este tipo de população devem ser cada vez mais qualificados e intervir junto das pessoas com um empenho acrescido.
Segundo dados estatísticos, entre os censos de 2001 e 2011 a percentagem de jovens com menos de 15 anos desceu para 15% e a percentagem de idosos (com idade igual ou superior a 65 anos) aumentou para 19%. A base da pirâmide que corresponde à população jovem diminuiu, enquanto o topo da pirâmide que corresponde à população mais idosa alargou. Em todos os grupos etários entre os 0- 29 anos observou-se um declínio da população, enquanto que os grupos entre os 30 e os 69 anos sofreram um aumento de 9%. Já o grupo de pessoas com idade superior a 69 anos sofreu um aumento significativo de 26% (INE, 2014; WHO, 2013).
Em 2011 o índice de envelhecimento em Portugal era de 128, isto é, em cada 100 jovens existiam 128 idosos. Em 2013, o índice de envelhecimento era de 136 idosos por cada 100 jovens. Os dados anteriormente referidos mostram de forma clara que nos últimos anos a população residente em Portugal tem sofrido alterações significativas, surgindo um duplo envelhecimento demográfico em que houve um aumento no número de idosos e um decréscimo no número de jovens e pessoas que possuem entre 15 e 64 anos, consideradas população em idade ativa (INE, 2014).
Os investigadores perspetivam uma diminuição da população com menos de 15 anos residente em Portugal até 2060 e um aumento da população com 65 ou mais anos até essa data. As diferenças no desenvolvimento do grupo etário com menos de 15 anos estão associadas à influência dos saldos migratórios e dos níveis de fecundidade observados. No que diz respeito ao grupo etário com 65 ou mais anos, as diferenças observadas nesta população resultam de um maior aumento da esperança média de vida alcançado nos últimos anos (INE, 2014; WHO, 2013).
Como já foi referido anteriormente, as últimas mudanças demográficas devem- se ao aumento progressivo da esperança média de vida, à diminuição da mortalidade infantil, à diminuição significativa da fecundidade, ao aumento da emigração por parte da população jovem e ao crescente envelhecimento da população residente em
Portugal. Em consequência destes dados estatísticos e ao decréscimo da população a eles associados, prevê-se que nos próximos anos as modificações da estrutura etária desta população sejam ainda maiores, uma vez que tem sido observada uma
combinação do declínio da população jovem e do aumento da população idosa, levando, consequentemente, a um maior envelhecimento populacional (INE, 2014).
Estas alterações demográficas observadas nos últimos anos estão a provocar mudanças no mundo de hoje. O funcionamento da sociedade em geral está a ser afetado por estas mudanças, levando a diversos desafios à responsabilidade de cada pessoa e à responsabilidade coletiva. Isto tudo tem um impacto no desenvolvimento dos países, fundamentalmente nos sistemas sociais e políticos (Paiva, 2013).
Em décadas passadas, quando a esperança média de vida nas populações era reduzida, poucas pessoas alcançavam uma idade avançada e a mortalidade infantil provocada por epidemias e outros fatores produzia danos significativos e a morte em muitas situações. No entanto, com o passar dos anos a longevidade e a esperança média de vida sofreram um aumento preponderante. Assim, como resultado do aumento de pessoas com idade avançada, foram surgindo cada vez mais modificações fisiológicas e uma consequente redução da capacidade cognitiva, o que acabou por levar ao aparecimento de demências. Estes dados sugerem que é fundamental existirem cada vez mais estudos relacionados com este tema de forma a atenuar os efeitos provocados pelo envelhecimento (Paiva, 2013).
Ainda nos dias de hoje o envelhecimento surge ligado a doenças e perda das funções, sendo visto como apenas um problema médico. Este processo continua associado à degradação do corpo, ao declínio e à incapacidade. Apesar do avanço das tecnologias e do aumento dos recursos que permitem prevenir ou retardar o aparecimento de doenças, o conceito de envelhecimento continua a ser temido por muitas pessoas e continua a ser visto como uma etapa intolerável da vida (Schneider & Irigaray, 2008).
O envelhecimento apenas pode ser percebido através da relação estabelecida entre os diferentes aspetos cronológicos, biológicos, psicológicos e sociais. Esta relação constitui-se com base nas condições culturais de cada pessoa (Schneider & Irigaray, 2008). Ao longo dos anos de vida, o organismo de cada pessoa sofre diversas modificações que provocam uma diminuição da capacidade funcional e adaptativa a novas condições. Estas modificações provocam uma dependência na pessoa e no meio que a rodeia, levando a que esta apresente dificuldades em desempenhar as atividades da vida quotidiana (Souto, 2012).
Assim, por envelhecimento entende-se uma mudança inata de processos biológicos, ou seja, a perda gradual das capacidades fisiológicas que sucedem ao
longo da vida. Durante o envelhecimento, os sistemas orgânicos perdem a capacidade de desempenhar corretamente as suas funções perante as diversas modificações do meio interno. Este processo também leva ao comprometimento da função cognitiva que inclui a memória, o tempo de reação, a atenção e a velocidade de processamento (Silva, Navarro & Campos, 2007).
Segundo Busse et al., (2008), o envelhecimento provoca a diminuição da função cognitiva ao nível da memória, linguagem e praxias, sendo a memória a mais frequente em idosos saudáveis. Assim, é fundamental prevenir ou retardar os efeitos do envelhecimento na função cognitiva e mais propriamente na memória, estudando os benefícios da prática de exercício físico (EF) regular neste tipo de população.
O EF constitui uma ferramenta fundamental como forma de prevenção para os problemas de equilíbrio, cardiovasculares, neuromusculares e sensoriais e encontra-se ainda associada a uma menor incidência de demência e declínio das funções cognitivas (Zidan et al., 2012). Para além disso, o EF exerce benefícios no idoso a nível psicológico, diminuindo os níveis de ansiedade e depressão. Considera-se que o EF é um meio de atenuar o declínio cognitivo e pode beneficiar significativamente o idoso e a sociedade (Chiari, Mello, Rezeak & Antunes, 2010).
Posto isto, o objetivo geral deste estudo é verificar os efeitos de um programa de EF na melhoria da função cognitiva em idosos.
Como objetivos específicos expomos:
- Verificar a existência de melhorias na orientação após o período de intervenção;
- Verificar a existência de melhorias na atenção ao fim do tempo de intervenção;
- Verificar a existência de melhorias na memória ao fim do tempo de intervenção;
- Verificar a existência de melhorias na linguagem ao fim do tempo de intervenção;
- Verificar a existência de melhorias na habilidade construtiva ao fim do tempo de intervenção;
2. Envelhecimento
Processo de Envelhecimento
O envelhecimento em Portugal tem sido contínuo nas últimas 4 décadas, principalmente na faixa etária superior a 85 anos. Por um lado, o número de jovens tem baixado cada vez mais ao longo dos anos, e, por outro lado, o número de idosos tem subido de forma acentuada. Este acontecimento deve-se à redução da fecundidade a ao aumento da esperança média de vida. O que antes era um modelo demográfico de fecundidade e mortalidade elevados passou nos últimos anos a ser um modelo em que tanto a fecundidade e a mortalidade são baixas (Pinto, 2006).
Na sociedade atual o fenómeno mais preponderante é o envelhecimento. Nos últimos anos tem sido cada vez mais notório o envelhecimento da população no países em desenvolvimento. O envelhecimento populacional deve-se principalmente à associação do declínio progressivo das taxas de natalidade com o aumento progressivo da esperança média de vida. Perceber o processo de envelhecimento é, assim, fundamental para esclarecer a etiologia associada aos processos de degeneração a ele ligados e principalmente para descobrir e promover estratégias que possam retardar ou atenuar os efeitos do mesmo. Desta forma, o idoso pode usufruir de uma vivência do final ciclo de vida autónoma e muito positiva em termos de qualidade de vida (Fechine & Trompieri, 2012; Argimon, 2006; Guerra & Caldas, 2010; Silveira, Portuguez, Pasqualotti & Colussi, 2014).
O envelhecimento populacional é um acontecimento mundial e tem consequências diretas nos sistemas de saúde pública. O crescimento cada vez maior do envelhecimento populacional resulta numa maior prevalência das demências, principalmente da doença de Alzheimer (DA) (Fichman, Caramelli, Sameshima & Nitrini, 2005; Garcia, Rodrigues & Borega, 2002; Veras, 2008).
Um dos principais fatores que tem levado ao crescimento do envelhecimento populacional é o avanço da promoção da saúde nos últimos anos, com a obtenção do controlo de doenças infetocontagiosas e uma diminuição da taxa de mortalidade infantil e da taxa de natalidade. Como consequência destes fatores, surgiu uma modificação no perfil demográfico e epidemiológico da população idosa (Argimon, 2006; Busse et.al., 2008; Garbin et al., 2010).
O envelhecimento é um processo biológico, psicológico e social que afeta o indivíduo e altera a sua relação com o tempo, com o mundo e com a sua própria vida (Teixeira, 2006). O termo senescência diz respeito ao processo natural do
envelhecimento que afeta de forma gradual e progressiva os aspetos físicos e cognitivos de cada indivíduo. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a terceira idade inicia-se entre os 60 e 65 anos. No entanto, esta é apenas uma idade atribuída para efeitos de pesquisa, uma vez que o envelhecimento depende de fatores biológicos, psicológicos e sociais. É a partir destes fatores que se pode acelerar ou retardar o aparecimento de doenças ou sintomas caraterísticos da terceira idade (Teixeira, 2006; Ferreira et al., 2012; Filho, 2009).
Por envelhecimento entende-se como uma mudança inata de processos biológicos, ou seja, a perda gradual das capacidades fisiológicas que sucedem ao longo da vida. Durante o envelhecimento, os sistemas orgânicos perdem a capacidade de desempenhar corretamente as suas funções perante as diversas modificações do meio interno. (Silva, Navarro & Campos, 2007). Ao longo deste processo, surge um declínio progressivo dos sistemas visual, propriocetivo e vestibular responsáveis pelo equilíbrio (Hernandez, Coelho, Gobbi & Stella, 2010; Petroski, 1997).
O envelhecimento é uma etapa da vida e que é interpretada através da relação estabelecida entre os diferentes aspetos cronológicos, biológicos, psicológicos e sociais. Esta relação realiza-se a partir das condições da cultura em que o indivíduo está incluído. São várias as condições que provocam diferentes representações sociais da velhice e no próprio idoso, entre as quais históricas, políticas, económicas, geográficas e culturais (Schneider & Irigaray, 2008; Banhato, Scoralick, Guedes, Silva & Mota, 2009).
O envelhecimento não pode ser considerado um estado mas sim um processo em que ocorre a degradação progressiva e diferencial dos vários órgãos do organismo e não existe uma data para o começo, uma vez que varia de indivíduo para indivíduo (Cancela, 2007). Este processo é gradual e irreversível. São várias as teorias que procuram explicar de que forma o organismo envelhece, sendo que uma delas defende que ocorre um progressivo encurtamento dos telómeros à medida que as células passam pelas sucessivas mitoses, associado a uma lesão provocada por radicais livres e processos de oxidação (Santos, Andrade & Bueno, 2009; Maciel, 2010).
O envelhecimento é considerado um processo de desenvolvimento normal que envolve mudanças neurobiológicas funcionais, estruturais e químicas. Para além destas alterações, fatores ambientais e socioculturais também atuam no organismo e têm influência no processo de envelhecimento. Fatores como a qualidade de vida, o estilo de vida, o sedentarismo, a dieta e o exercício são exemplos de fatores ambientais e socioculturais. Neste processo ocorre uma degradação geneticamente programada, visto que existe envelhecimento celular e uma diminuição na
capacidade das células se dividirem e regenerarem (Zaitune et al., 2010; Santos, Andrade & Bueno, 2009).
Os défices físicos, cognitivos e comportamentais que surgem neste processo têm origem num conjunto de alterações biológicas que estimulam situações de eventos moleculares e celulares. Estes eventos provocam apoptose celular, mudanças proteicas e outros danos secundários (Santos, Andrade & Bueno, 2009). O envelhecimento depende de fatores biológicos, psíquicos e sociais, todos responsáveis por acelerar ou retardar o aparecimento de doenças ou sintomas caraterísticos (Cancela, 2007).
O envelhecimento pode ser entendido como um processo dinâmico e gradual em que ocorrem alterações na homeostase, assim como nos aspetos morfológicos, funcionais, bioquímicos e psicológicos, levando a uma perda gradual da capacidade de o indivíduo se adaptar ao meio ambiente, e, consequentemente, surge uma maior vulnerabilidade ao aparecimento de patologias (Ferreira et al., 2010; Carvalho, Medeiros, Silva, Barbosa & Souza, 2014; Ferreira, Tavares & Rodrigues, 2010).
O envelhecimento é caraterizado por dois conceitos, nomeadamente a senescência e a senilidade. A senescência pode ser descrita como um processo natural do ciclo vital em que existe uma degradação física e mental. Quanto à senilidade, este conceito pode ser entendido como um processo patológico em que surge um declínio físico mais elevado e uma desordem mental (Carvalho, Medeiros, Silva, Barbosa & Souza, 2014).
O processo de envelhecimento não é apenas concentrado na velhice, ou seja, é um processo gradual e que se vai manifestando ao longo dos anos de vida. É um processo irreversível e diz respeito a todos. Cada ser humano contém o fenótipo de envelhecimento, apresentando alterações e manifestações típicas como a diminuição da massa magra corporal, perda de peso, cabelos que vão ficando grisalhos e pele enrugada. Todas estas manifestações fazem parte de um conjunto de alterações somáticas que variam de indivíduo para indivíduo, podendo ocorrer mais rapidamente ou de forma mais lenta. Apesar de estas alterações não ocorrerem ao mesmo tempo em cada indivíduo, elas estão presentes em todos os gerontes e acabam por se manifestar (Amorim & Dantas, 2002).
A intensidade e o ritmo das várias alterações que ocorrem ao longo do processo de envelhecimento estão dependentes da herança genética e de fatores ambientais, culturais e sociais que influenciaram o indivíduo ao longo da vida. À medida que a idade vai avançando, maior é o risco do aparecimento de doenças mentais (Stella, Gobbi, Corazza & Costa, 2002). Independentemente da presença ou
não de patologias, o declínio da função cognitiva é uma consequência normal do envelhecimento (Chiari, Mello, Rezeak & Antunes, 2010).
Este processo também leva ao comprometimento da função cognitiva que inclui a memória, o tempo de reação, a atenção e a velocidade de processamento (Silva, Navarro & Campos, 2007). Com o avançar da idade, o sistema biológico que é mais afetado é o Sistema Nervoso Central (SNC). O SNC é responsável pelas sensações, movimentos, funções psíquicas e funções biológicas internas. Com o processo de envelhecimento, o SNC vai apresentando várias mudanças com diminuição no número de neurónios, diminuição na intensidade dos reflexos e redução das respostas motoras (Fechine & Trompieri, 2012).
O cérebro é uma parte do organismo sensível a vários fatores que conduzem a prejuízos nas redes neuronais. Tal como os outros tecidos, o cérebro tem a capacidade de reparação, adaptação e compensação pela perda de neurónios. Quando existe uma desproporção entre uma lesão neuronal e a sua reparação, a capacidade de plasticidade neuronal é afetada, levando ao envelhecimento cerebral e, em muitos casos, ao aparecimento de demência (Antunes, Santos, Cassilhas, Santos, Bueno & Mello, 2006).
O SNC está sujeito a várias alterações que afetam o controlo da postura e o equilíbrio, inserindo-se perda de neurónios, perda dentrítica e redução das ramificações, alteração da síntese de neurotransmissores e uma diminuição do metabolismo e perfusão cerebral (Hernandez, Coelho, Gobbi & Stella, 2010; Figliolino, Morais, Berbel & Corso, 2009).
Para além das alterações acima referidas, também surge uma redução do peso do encéfalo, diminuição do fluxo sanguíneo cerebral e redução da velocidade da condução nervosa. Estas alterações todas levam a um declínio gradual das funções cognitivas consideradas habituais, como a perda gradual da memória, podendo levar também a défices mentais mais acentuados (Petroianu, Capanema, Silva & Braga, 2010). No aspeto fisiológico ocorre uma redução da quantidade e velocidade das sinapses. Além destas alterações, são ainda evidenciadas modificações anatómicas e bioquímicas que levam à deterioração do processo cognitivo com o envelhecimento (Dias & Lima, 2012).
As fibras nervosas perdem a mielina que é responsável pela velocidade das sinapses. As funções inteletuais também sofrem alterações com o envelhecimento, nomeadamente nos processos de aprendizagem e de memorização. Este acontecimento está associado às alterações químicas, neurológicas e circulatórias que prejudicam a função cerebral. Além dos processos de aprendizagem e de memorização, também a eficácia da oxigenação e nutrição celular sofrem alterações.
A diminuição da aprendizagem deve-se principalmente à diminuição da velocidade das sinapses e à diminuição da disponibilidade dos neurotransmissores (Teixeira, 2006).
Algumas das alterações cerebrais que ocorrem no envelhecimento abrangem o depósito de lipofuscina nas células nervosas, depósito amilóide nas células sanguíneas e células nervosas, aparecimento de placas senis e emaranhados fibrilares, alterações nos neurotransmissores, fundamentalmente os dopaminérgicos, atrofia da plasticidade de recetores colinérgicos e redução da produção de acetilcolina. O EF é de extrema importância para a diminuição de alguns défices no sistema nevoso com o envelhecimento (Fechine & Trompieri, 2012).
Vários estudos demonstram que a região mais afetada é o lobo frontal, fundamentalmente na porção dorsolateral, responsável pelas tarefas provenientes da função executiva e memória de trabalho. Em termos clínicos, observa-se uma diminuição da velocidade de processamento cognitivo, diminuição da atenção, complicações na recuperação das informações aprendidas e redução da memória prospetiva e contextual. As diversas alterações que ocorrem no cérebro levam a um prejuízo cognitivo que afeta a realização de tarefas do quotidiano, podendo comprometer em algumas situações a participação do idoso na sociedade (Petroianu, Capanema, Silva & Braga, 2010).
A partir da segunda década de vida, o envelhecimento cerebral normal apresenta um declínio ponderal lento e progressivo, conjuntamente com a redução do seu volume. Vários estudos microscópicos de neurónios apresentam alterações caraterizadas por uma redução do RNA citoplasmático e da substância de Nissl, um acúmulo de lipofuscina, depósito amilóide nos vasos sanguíneos e células e emaranhados neurofibrilares, presentes na doença de Alzheimer. Estas alterações todas podem ser encontradas em cérebros de idosos que não apresentem qualquer tipo de demência, sugerindo assim uma atrofia neuronal que leva à diminuição da quantidade de células nervosas. Esta perda de células nervosas não chega de igual forma às regiões corticais, uma vez que neurónios da mesma região apresentam fenótipos moleculares únicos (Moraes, Moraes & Lima, 2010).
O envelhecimento normal, além de estar ligado a alterações microscópicas dos neurónios, está também relacionado a alterações nos sistemas de neurotransmissores. Ocorre uma diminuição na ação dos sistemas dopaminérgicos e colinérgicos. O declínio que ocorre na memória pode estar associado à disfunção fisiológica e não à perda dos neurónios. O SNC não possui a capacidade de recuperar os seus neurónios. Porém, ele possui propriedades que podem atenuar o impacto das modificações do envelhecimento, nomeadamente redundância, uma vez que existem mais neurónios no cérebro do que é necessário,
mecanismos compensadores que atuam em casos de lesão cerebral e plasticidade (Moraes, Moraes & Lima, 2010).
Para além das diversas alterações a nível do sistema nervoso central, com o avanço da idade, a força muscular, particularmente nos membros inferiores, é conjuntamente afetada, surgindo uma diminuição na mobilização e ativação das unidades motoras. Nos idosos com demência esta situação acontece, levando a um aumento do risco de quedas (Hernandez, Coelho, Gobbi & Stella, 2010).
O envelhecimento está ligado a diversas mudanças com prejuízos na mobilidade, autonomia e saúde da população idosa, uma vez que com o avançar da idade, surge um processo ou conjunto de processos inerente a todos os indivíduos que causa a perda da capacidade de adaptação e a redução da funcionalidade (Carvalho, 2009; Orsi, Xavier & Ramos, 2011; Camara, Gerez, Miranda & Velardi, 2008).
No que diz respeito ao ponto de vista fisiológico, o envelhecimento está fundamentalmente dependente do estilo de vida adotado pela pessoa desde a infância ou adolescência, ou seja, a prática regular de EF, a ingestão de alimentos saudáveis, os diferentes tipos de atividades ocupacionais, o consumo ou não de tabaco, entre outros, são ações decisivas para o futuro de cada pessoa. O organismo vai envelhecendo com um todo mas os seus órgãos, tecidos, células e estruturas sub- celulares sofrem um envelhecimento diferenciado (Teixeira, 2006).
A partir de 1960, a gerontologia sugeriu um novo termo para os aspetos positivos da velhice: velhice bem sucedida ou saudável. A velhice saudável é determinada por vários fatores, nomeadamente a independência, a autonomia, o envolvimento ativo com a família, os amigos e a sociedade e, por fim, a estabilidade entre as limitações e potencialidades do idoso. Estes fatores são determinantes para a aquisição de uma velhice saudável (Banhato, Scoralick, Guedes, Silva & Mota, 2009; Ribeiro, Neri, Cupertino & Yassuda, 2009).
O envelhecimento saudável não depende apenas da condição genética de cada indivíduo, mas fundamentalmente dos hábitos de vida que ele adquire ao longo dos anos. Nascer, crescer e envelhecer são processos inerentes que se manifestam com o tempo, porém, a forma e o tempo em que eles ocorrem depende da história de vida conjuntamente com as potencialidades genéticas de cada pessoa (Fechine & Trompieri, 2012).
Uma das grandes preocupações da gerontologia tem sido esclarecer normas para diferenciar o que é normal, patológico ou bem sucedido no processo de envelhecimento. Para a obtenção dessa comparação, os parâmetros mais aceites são os seguintes: avaliação da inexistência de doenças físicas e mentais crónicas,
inexistência de fatores de risco como hipertensão e obesidade, subsistência do funcionamento físico e mental e, por fim, empenho ativo com a vida (Banhato, Scoralick, Guedes, Silva & Mota, 2009).
São várias as formas de descrever e classificar o envelhecimento e uma delas é a definição da Organização Mundial da Saúde, baseada na idade cronológica e que tem início aos 65 anos no países desenvolvidos e aos 60 anos nos países ainda em desenvolvimento. O envelhecimento nos dias de hoje é cada vez mais visto como um processo que é influenciado por vários fatores, entre eles o género, classe social, cultura, entre outros (Schneider & Irigaray, 2008; WHO, 2013).
A cronologia por si só não chega para definir o envelhecimento. As condições físicas, funcionais, mentais e de saúde de cada indivíduo são fundamentais para definir o envelhecimento, isto é, em indivíduos em que a idade cronológica seja a mesma, podem ser observadas diferentes idades biológicas. Posto isto, a idade cronológica deixa de ser um indicador exato para as alterações que acompanham o envelhecimento e passa a ser apenas um padrão de contagem dos anos do idoso. Alguns estudos afirmam mesmo que acontecimentos relacionados com a vida pessoal, familiar e profissional servem de base para as alterações. Conclui-se, assim, que o envelhecimento é visto como um processo composto por diferentes idades, nomeadamente idade cronológica, biológica, psicológica e social (Ribeiro & Paúl, 2011; Ueno, 1999).
É possível criar um perfil de idade compreensivo para qualquer pessoa, ou seja, um homem de 75 anos pode apresentar uma boa saúde (idade biológica), mas ter problemas de memória (idade psicológica). As medidas de idade cronológica, biológica, psicológica e social são fundamentais para compreender o processo de envelhecimento, mas não para o determinar, uma vez que o envelhecimento é uma etapa da vida e não existem indicadores de quando ele se inicia ou de quando ele termina (Schneider & Irigaray, 2008).
Torna-se difícil conseguir estabelecer o início da velhice, uma vez que é difícil a generalização em relação à mesma. A idade é de fato fundamental neste processo, porém, o tratamento que é atribuído aos anos depende muito das caraterísticas de cada pessoa. Existem controvérsias quanto aos parâmetros que devem ser utilizados para estabelecer o início da velhice, uma vez que ainda permanecem inúmeras discussões entre os profissionais quanto aos aspetos que descrevem esta etapa da vida. A variabilidade de cada indivíduo, tanto genética como ambiental, torna impossível estabelecer parâmetros concretos. Posto isto, a idade em si não estabelece o envelhecimento, estando apenas presente no processo de desenvolvimento da
pessoa e servindo apenas como uma referência da passagem dos anos (Freitas, Queiroz & Sousa, 2010; Schneider & Irigaray, 2008).
Pode dizer-se que o envelhecimento é um processo que é caraterizado pelo conjunto de consequências do passar dos anos. É considerado como uma involução morfofuncional que tem influência em todos os sistemas fisiológicos e de forma variável. Independentemente das alterações que ocorrem, a pessoa pode manter-se ativa, independente e feliz. Do ponto de vista psicológico, este processo representa a conquista da sabedoria e da compreensão do sentido que a vida tem. Uma velhice saudável, tanto a nível físico como psicológico, é considerada uma fase da vida de grandiosidade. No entanto, a maioria das pessoas não conseguem ver a beleza dos anos vividos e da experiência que adquiriram ao longo desses anos todos (Freitas, Queiroz & Sousa, 2010).
O envelhecimento biológico é um processo ativo e irreversível, provocando uma maior vulnerabilidade do organismo às agressões do meio externo e interno. Diversos estudos apontam que o envelhecimento é de natureza multifatorial e depende da herança genética e de alterações que ocorrem ao nível celular e molecular. Consequentemente, pode surgir um declínio na capacidade funcional das áreas afetadas e uma sobrecarga dos diversos mecanismos de controlo homeostático. Este declínio na capacidade funcional vai surgindo de forma discreta ao longo dos anos, processo que é designado por senescência, não comprometendo as relações e a capacidade de decisão (Moraes, Moraes & Lima, 2010).
Os vários estudos do ramo da Psicologia no idoso levaram a mudanças no paradigma do envelhecimento psicológico. Ao longo do envelhecimento não é habitual a manifestação de modificações na funcionalidade mental do idoso, isto é, idosos que sejam saudáveis e sem limitações físicas tendem a ter um nível produtivo bastante elevado. É importante que o idoso não seja tratado como um indivíduo limitado em termos cognitivos, mas sim como um indivíduo que tem a capacidade de se adaptar a estímulos ambientais com o objetivo de preservar a funcionalidade associada à de jovens adultos. Possuir um conhecimento sobre o envelhecimento neuropsicológico é fundamental para obter respostas quanto às mudanças necessárias pela sociedade para que os idosos sejam devidamente valorizados dentro da mesma (Moraes, Moraes & Lima, 2010).
Assim, cada pessoa idosa fica apta para aceitar a realidade como ela é, aceitar a diminuição da independência física e tolerar a dor, bem como compreender o sentido da vida e a filosofia da mesma em que os valores que a regem se tornam cada vez mais elevados, conscientes e racionais (Moraes, Moraes & Lima, 2010).
O envelhecimento refere-se aos efeitos da passagem do tempo que ocorrem no organismo, isto é, envelhecimento somático, e no psiquismo, isto é, envelhecimento psíquico. Para um envelhecimento saudável e para que o idoso consiga atingir a felicidade, é fundamental que todas as dimensões sejam levadas em conta, uma vez que são essenciais para a permanência da estabilidade somática e psíquica. Assim, conclui-se que o envelhecimento é completamente individual e variável, evoluindo de dia para dia, desde a infância ou adolescência. A velhice saudável é fruto de uma vida saudável (Freitas, Queiroz & Sousa, 2010).
Envelhecimento não significa perda de todas as capacidades, antes pelo contrário, ao longo deste processo, as pessoas podem continuar a adquirir novas habilidades e novas informações, assim como serem capazes de resgatar e utilizar as habilidades de que já possuem conhecimento (Argimon, 2006).
Uma vez que a população idosa apresenta um elevado nível de sedentarismo, é fundamental implementar novos hábitos de vida de forma a reduzir a necessidade de atendimento em hospitais da rede pública, assim como o uso de medicamentos. É fundamental que as políticas públicas e de saúde tenham em vista a estimulação da prática de atividade física regular, uma vez que estas práticas podem contribuir significativamente para a diminuição das despesas sociais de uma sociedade que está a envelhecer cada vez mais e para a melhoria da qualidade de vida desta população (Silva, Navarro & Campos, 2007; Toscano & Oliveira, 2008; Mazo et al., 2009).
Com o avançar da idade, as pessoas tornam-se cada vez mais sedentárias e sofrem diversas alterações físicas, levando à deterioração natural funcional. Entre os 20 e 35 anos, as alterações fisiológicas e bioquímicas provocam um declínio do desempenho de força e resistência em cerca de 1 a 2% por ano e 15% até à oitava década de vida. Com a implementação de EF regular essas perdas podem ser atenuadas, podendo verificar-se uma melhoria e conservação das capacidades físicas, uma vez que o EF leva a adaptações neuromusculares, endócrinas e cardiorrespiratórias (Silva, Navarro & Campos, 2007; Eiras, Silva, Souza & Vendruscolo, 2010; Meireles et al., 2008).
Nos dias de hoje, é fundamental a presença de EF e até se afirma que é uma necessidade absoluta para o indivíduo, uma vez que a sociedade atual vive com elevados níveis de stress, ansiedade e sedentarismo que afetam de forma
significativa a saúde das populações de países desenvolvidos e sub-desenvolvidos. Estes elevados níveis de stress, ansiedade e sedentarismo presentes na sociedade atual devem-se em grande parte ao avanço científico e tecnológico resultante da revolução industrial e da revolução tecnológica. Nos últimos anos tem surgido um maior interesse e preocupação por parte dos indivíduos e dos profissionais de saúde pelo EF regular com o objetivo de alcançar o bem estar físico e cognitivo (Antunes et al., 2006; Caromano, Ide & Kerbauy, 2006).
O EF possui efeitos benéficos quando é realizado regularmente e pode até promover o contato social dos indivíduos que a praticam, permitindo uma maior convivência e sentimento de integração e satisfação. Assim, os indivíduos sentem-se valorizados e aceites pelo grupo a que pertencem, aumentando a sua auto- estima. Estes benefícios levam à diminuição dos problemas psicológicos como a ansiedade, caraterísticos desta faixa etária (Amorim & Dantas, 2002; Zaitune et al., 2010).
Muitos estudos falam do EF regular como uma alternativa não- farmacológica no tratamento de depressão. No entanto, o EF apresenta a vantagem de não possuir efeitos colaterais prejudiciais, quando comparada ao tratamento por medicação. Além disso, a prática de EF obriga a um maior comprometimento ativo por parte das pessoas, podendo conduzir a melhorias na auto- estima e auto-confiança (Stella, Gobbi, Corazza & Costa, 2002).
Com o avançar da idade surge uma lentificação do tempo de reação e movimento devido ao mau funcionamento do sistema nervoso central, levando ao declínio dos reflexos do corpo e à alteração da coordenação e equilíbrio corporal. Posto isto, diversos estudos demonstram que o EF regular pode aumentar a velocidade do tempo de reação e movimento, prevenindo as alterações acima descritas. A atividade física pode (AF), de fato, constituir uma das principais intervenções para ultrapassar a degradação das capacidades que surgem como resultado do processo de envelhecimento orgânico (Silva & Matsuura, 2002; Pedrinelli, Garcez- Leme & Nobre, 2009; Petroski, 1997).
A prática regular de AF desempenha um papel essencial para prevenir ou controlar o aparecimento de doenças crónicas não transmissíveis. Para além disso, a prática regular da mesma também provoca melhorias na mobilidade, na capacidade funcional e na qualidade de vida ao longo do processo de envelhecimento. É fundamental referir que não basta por si só estimular uma prática regular de EF aeróbio, de fortalecimento muscular e de equilíbrio. Para que as pessoas possam usufruir de um envelhecimento com saúde e qualidade de vida, é
igualmente necessário que adotem mudanças para adquirirem um estilo de vida ativo (Matsudo, 2009; Salvador, Florindo, Reis & Costa, 2009; Mazo et al., 2009; Pilger, Menon & Mathias, 2011; Mazo & Benedetti, 2010).
A performance física também é alterada ao longo do processo de envelhecimento. Diversos estudos apontam que um programa de EF regular provoca benefícios nas pessoas idosas. Os profissionais especializados defendem que a realização de um programa de EF deve fazer parte do dia-a-dia das pessoas idosas, surgindo sempre uma recomendação de um programa por parte dos mesmos (Teixeira, 2006; Benedetti & Petroski, 1999).
Com o decorrer dos anos, vários estudos têm vindo a analisar os possíveis efeitos da AF na idade biológica, na capacidade funcional e na saúde da pessoa idosa. Tem sido demonstrado que a redução da capacidade física e funcional ligada ao processo de envelhecimento pode ser atenuada e até revertida com a prática regular de EF, mesmo em pessoas com uma idade muito avançada. É de salientar também que uma prática regular de EF leva à diminuição do aparecimento de doenças cardiovasculares, hipertensão, diabetes e estados de ansiedade e depressão. Por fim, a prática regular da mesma atividade tem sido também associada ao acréscimo do conteúdo mineral ósseo e com a diminuição do risco de quedas e de fraturas osteoporóticas (Carvalho, 2009; Maciel, 2010; Matsudo, Matsudo & Neto, 2000).
O relacionamento interpessoal e o envolvimento por parte do idoso em diversas atividades é fundamental para um envelhecimento saudável em que o idoso se sinta bem e realizado em todos os aspetos (Teixeira, 2006). A realização de EF acarreta várias consequências a nível físico, fisiológico, psicológico e social, todos com o objetivo de melhorar o bem estar, a auto estima e a qualidade de vida do idoso (Carvalho, 2009).
Vários estudos demonstram que o EF, fundamentalmente aeróbio, praticado de 3 a 5 vezes por semana, a uma intensidade moderada e com uma longa duração (cerca de 30 minutos), promove o alívio do stress e ansiedade. Este acontecimento deve-se a um aumento da taxa de endorfinas que atuam no sistema nervoso, podendo prevenir ou abrandar transtornos depressivos (Stella, Gobbi, Corazza & Costa, 2002; Oliveira, 2014).
O exercício aeróbio envolve os grandes grupos musculares em atividades dinâmicas, levando a um aumento do gasto energético. Este tipo de exercício pode melhorar a aptidão cardiorrespiratória e diminuir os riscos de mortalidade por doença cardiovascular, sendo, assim, um tipo de exercício a ser recomendado para todas as faixas etárias. Para além dos efeitos acima referidos, diversos estudos demonstram
que o exercício aeróbio provoca uma melhoria no metabolismo da glicose com diminuição da pressão arterial, melhoria do perfil lipídico e, por fim, redução dos depósitos de gordura corporal (Carvalho, 2009).
Estudos evidenciam que a caminhada é um dos mais simples e naturais tipos de EF que pode ser facilmente controlado e ajustado. Para além disso, a caminhada não requer a utilização equipamentos especiais e pode ser realizada por qualquer pessoa. É ainda vista como um dos tipos de exercício mais seguros a nível cardiovascular e ortopédico e são inúmeras as pessoas que aderem a este tipo de exercício para prevenir problemas de saúde. O local de prática da caminhada é outra vantagem, uma vez que ela pode ser efetuada em qualquer ambiente, assim como pode ser realizada individualmente ou coletivamente (Nunes & Santos, 2009; Krug et al., 2011; Torres et al., 2013).
Vários estudos defendem que se as pessoas idosas forem fisicamente ativas, possuem uma capacidade semelhante à das pessoas jovens ativas. Tal facto comprova que alguns aspetos fisiológicos que sofrem um declínio ao longo dos anos podem ser alterados pela realização de EF e pelo condicionamento físico (Argimon, 2006).
Função cognitiva e o Envelhecimento
Quando se fala em função cognitiva ou sistema funcional cognitivo, faz-se referência às fases do processo de informação como a perceção, a aprendizagem, a memória, a atenção, a vigilância, o raciocínio e a resolução de problemas. O funcionamento psicomotor que inclui o tempo de reação, o tempo de movimento e a velocidade de desempenho também é associado ao conceito de função cognitiva (Antunes, Santos, Cassilhas, Santos, Bueno & Mello, 2006).
O conceito de cognição refere-se ao funcionamento inteletual do ser humano e abrange a perceção, atenção, memória, raciocínio, conquista de decisões, solução de problemas e o desenvolvimento de estruturas complexas do conhecimento. A maior barreira que existe em relação ao envelhecimento é saber quando se trata de alterações cognitivas normais e patológicas. Nos últimos anos, os progressos do conhecimento sobre os diversos tipos de demências, assim como a melhoria dos métodos de neuroimagem e estudos científicos adequados permitiram estabelecer um limite entre saúde e doença no idoso (Moraes, Moraes & Lima, 2010; Custódio, Júnior & Voos, 2010).
Nos últimos anos têm vindo a ser descobertos alguns fatores de risco que podem aumentar a probabilidade de uma pessoa vir a ser a ser afetada pelo declínio
cognitivo. Fatores como a idade, o género, a história familiar, o nível de escolaridade, o tabagismo, o stress mental, os aspetos da nutrição e a socialização são os que mais se destacam no risco de aparecimento de declínio cognitivo. Outros fatores têm vindo a ser ligados ao maior risco de declínio cogntivo, fatores estes que podem ser atenuados pela prática regular de EF, tais como doenças crónicodegenerativas, hipercolesterolemia e sedentarismo (Antunes, Santos, Cassilhas, Santos, Bueno & Mello, 2006).
O declínio cognitivo leva a uma maior probabilidade de ocorrência de quedas, uma vez que uma grande parte desses incidentes ocorre em idosos com défice cognitivo. Em idosos que apresentam Doença de Alzheimer, o risco de quedas é três vezes maior quando comparado a idosos saudáveis. Isto deve-se a alterações do lobo frontal, levando a um declínio das tarefas executivas e de controlo da atenção (Hernandez, Coelho, Gobbi & Stella, 2010; Custódio, Júnior & Voos, 2010; Daffner, 2010).
São várias as definições para a memória, sendo que vários autores a definem como a capacidade que a pessoa tem para armazenar informação que pode ser posteriormente evocada e utilizada. A memória é vista como a autobiografia de uma pessoa, ou seja, o registo de existências e sentimentos de cada pessoa. A memória representa a informação que é armazenada e que pode ser apresentada em qualquer momento quando for solicitado (Silva, Navarro & Campos, 2007; Mancini et al., 2014).
A memória diz respeito ao processo pelo qual a pessoa codifica, armazena e recupera informações e conhecimentos. Enquanto a codificação está ligada ao processamento da informação, a consolidação refere-se ao processo de endurecimento das representações já armazenadas anteriormente. A pessoa deve ser capaz de conseguir resgatar a informação quando esta for solicitada de forma a tornar a memória uma função cognitiva útil e vantajosa (Kemoun, 2010).
A memória não é um sistema único, isto é, esta função cognitiva possui uma diversidade de formas diferentes em que cada uma delas é influenciada por diferentes componentes que são também elas influenciadas por diferentes mecanismos neurais. Uma das formas de se conseguir etiquetar a memória é através do seu tempo de duração, em que existe a memória imediata ou de curto prazo, a memória recente e a memória remota. A memória a curto prazo carateriza-se pela capacidade de utilizar imediatamente a informação que chega, sendo que passado alguns segundos do estímulo ela é perdida (Chiari, Mello, Rezeak & Antunes, 2010).
A memória recente diz respeito ao armazenamento de informações durante algumas horas ou dias e, por fim, a memória remota refere-se à memória em a informação fica armazenada durante semanas, meses ou anos. A memória remota
pode permanecer por tempo indefinido e é controlada pela frequência de repetição dos acontecimentos que surgem e pela capacidade de armazenamento e de retenção da informação que cada pessoa possui, ou seja, que lhe está inerente (Chiari, Mello, Rezeak & Antunes, 2010).
Normalmente a memória dissocia-se em diferentes partes temporais, dependendo do tempo de retenção entre a aquisição da informação e a sua evocação. Assim, a memória divide-se em memória ultra-rápida, de curta duração e de longa duração. A memória ultra-rápida, também chamada de memória sensorial tem uma duração de frações de segundos até alguns segundos e é acumulada em zonas sensoriais. Este tipo de memória ocorre depois da ativação de uma região neural provocada por ocorrências internas ou externas (Silva, Navarro & Campos, 2007).
A memória de curta duração mantém temporariamente a informação que dura minutos ou horas até ser esquecida ou até que seja incorporada num armazenamento de longa duração que é mais seguro e permanente. Dentro da memória de curta duração estão presentes a memória imediata e a memória de trabalho. Quanto à memória de longa duração, esta é infinita na sua capacidade e é considerada estável, uma vez que dura dias, semanas ou até toda a vida. Este tipo de memória possui a capacidade de reter inúmeros fatos, conceitos e padrões, permitindo guardar todo o passado autobiográfico e todos os conhecimentos de cada pessoa. Para além destes tipos de memória acima referidos, alguns autores apontam para um outro tipo de memória que é designada por memória intermediária ou memória a longo prazo. Este tipo de memória pode durar dias e semanas mas acaba por ser perdida ao fim de um certo tempo (Silva, Navarro & Campos, 2007).
No que diz respeito à sua natureza, a memória pode ser dissociada em memória implícita ou não declarativa, memória explícita ou declarativa e memória operacional. A memória operacional refere-se ao armazenamento de informações temporárias para uma rápida utilização no raciocínio, na resolução de problemas e no planeamento. A memória declarativa refere-se à capacidade da pessoa em lembrar de forma consciente fatos ou acontecimentos e manifestá-los explicitamente de forma verbal ou como uma imagem visual. Este tipo de memória resume-se em lembranças vivenciadas do passado associado a emoções. Divide-se em episódica que abrange a autobiografia de eventos e semântica que se refere à memória para fatos. Quanto à memória não declarativa, este tipo de memória não precisa de uma recuperação consciente das experiências prévias e as funções são realizadas de forma implícita, ou seja, são efetuadas sem que a pessoa se aperceba disso (Kemoun, 2010).
A formação da memória é um processo que envolve várias etapas. A primeira etapa designa-se por aquisição ou registo e resume-se na chegada de um evento nos
sistemas neurais associados à memória. Este evento pode ser um acontecimento, um objeto, uma emoção, um pensamento ou uma sequência de movimentos. A segunda etapa designa-se por codificação e consiste na seleção entre memórias recentes e antigas. Esta seleção é efetuada através de semelhanças e diferenças. Nesta etapa, é analisada a forma como a informação recebida é processada, preparada e priorizada para posteriormente ser armazenada na memória. A terceira etapa designa-se por armazenamento ou consolidação e resume-se na permanência do conhecimento que pode ser reforçado pela repetição ou associação com outras informações (Silva, Navarro & Campos, 2007).
Vários autores sugerem que não existe um local separado para a memória onde elas possam ser armazenadas permanentemente. Os mesmos autores sugerem igualmente que a memória não se encontra dispersa de forma homogénea no sistema nervoso, ou seja, existem várias zonas do encéfalo que possuem funções especializadas e que estão envolvidas na representação de um acontecimento, porém, cada zona do encéfalo contribui diferentemente para o armazenamento de memórias completas. Por fim, a última etapa designa-se por evocação ou recordação e resume- se num processo que permite localizar uma memória já armazenada para utilizá-la mentalmente ou então exteriorizá-la através do comportamento. Esta etapa da memória é fundamental, uma vez que é através dela que a memória pode ser analisada pela execução numa sessão de testes cognitivos (Barros, Porto & Negrão, 2014; Silva, Navarro & Campos, 2007).
Toda a informação que é incorporada na memória pode ser alterada com a aquisição de informações novas e com incidentes posteriores de evocação, assim como pode ser alterada devido a influências endógenas, hormonais e neuro-humorais. Por volta dos 45 anos, o desempenho cognitivo começa a diminuir sendo que esta diminuição ocorre mais lentamente em pessoas que conservam um bom nível inteletual. O nível de disfunção da memória varia de pessoa para pessoa e pode afetar a qualidade de vida (Silva, Navarro & Campos, 2007).
São vários os fatores que contribuem para o declínio da memória, nomeadamente a idade, o baixo nível educacional e socioeconómico, o sedentarismo, a doença de Alzheimer, mudança na síntese de substâncias específicas da memória, diminuição da prática recente de habilidades motoras e sensoriais, doenças cardiovasculares, uso de medicação, depressão e ansiedade, sono, entre outros (Silva, Navarro & Campos, 2007; Barros, Porto & Negrão, 2007).
A memória é uma das funções cognitivas fundamentais na vida de uma pessoa e é através da memória que as informações são retidas e utilizadas. Na terceira idade, esta função cognitiva é um dos grandes problemas que surge, visto que uma grande
parte das queixas dos idosos recai na memória. Assim, é fundamental manter um bom funcionamento desta função cognitiva para se atingir um envelhecimento saudável. São vários os estudos que procuram definir intervenções que possam retardar ou atenuar os declínios normativos ou causados por demências para assim garantir um desempenho eficiente e ajudar a pessoa na gestão da sua própria vida (Dias & Lima, 2012; Paulo & Yassuda, 2009).
A literatura mostra que a prática regular de EF produz diversos benefícios na memória. Independentemente da idade, quer sejam adultos ou idosos, os resultados mostram que a adoção de um estilo de vida ativo com a inclusão da AF é fundamental para prevenir o aparecimento de declínios cognitivos que ocorrem ao longo do processo de envelhecimento. Além de o EF ser claramente uma mais valia no processo de envelhecimento, é possível também afirmar que o exercício aeróbio, quando realizado com intensidade moderada e de forma sistematizada, influencia positivamente a memória em qualquer idade (Chiari, Mello, Rezeak & Antunes, 2010).
A atenção é o processo que inclui um grupo complexo de comportamentos em que a pessoa pode escolher certas informações e excluir outras. Para além deste comportamento, a pessoa também pode manter a concentração numa informação por um certo período de tempo bem como dividir a atenção entre duas ou mais informações ao mesmo tempo e mudar o centro da atenção quando é preciso. Com o avançar da idade, a capacidade da pessoa em dividir a atenção entre vários estímulos para assimilar uma informação é afetada significativamente, enquanto que as outras funções da atenção não são alteradas com o envelhecimento (Moraes, Moraes & Lima, 2010).
A função executiva diz respeito à habilidade de resolver problemas, ao planeamento, à inibição da resposta e ao processamento de informações. Estudos apontam que as habilidades cristalizadas, também chamados de conhecimentos adquiridos no processo de socialização mantém-se estáveis ao longo do tempo. Já as habilidades fluidas, responsáveis pela solução de novos problemas, sofrem um declínio progressivo ao longo do tempo (Moraes, Moraes & Lima, 2010).
A velocidade de processamento da informação continua a ser a mudança mais acentuada neste tipo de população. Assim, conclui-se que cognição vai sofrendo um declínio gradual com o envelhecimento, influenciando todas as outras funções que são responsáveis pelo aparecimento do défice cognitivo na terceira idade. Os idosos começam a apresentar uma maior dificuldade em compreender textos e vai surgindo a necessidade de explicações mais aprofundadas e maiores períodos de tempo para a
realização de cálculos devido à diminuição da velocidade no processamento da informação (Barros, Porto & Negrão, 2007; Moraes, Moraes & Lima, 2010).
Cerca de 15 % das pessoas apresentam inicialmente inabilidade cognitiva progressiva, sendo que uma percentagem dessas pessoas desenvolvem demência. Diversos estudos referem que os défices cognitivos conjuntamente com o a perda da memória, situam-se entre os problemas mais habituais apresentados por idosos durante uma consulta médica (Gurian, Oliveira, Laprega & Júnior, 2012).
Em relação à área da cognição, o défice cognitivo surge como um problema normal do processo de envelhecimento. Porém, a origem precisa destas alterações não é uma certeza e situações que estejam relacionadas à linha que divide o declínio cognitivo da hipótese de uma possível demência ainda são muito delicadas (Argimon, 2006).
Entre os 65 e os 75 anos as mudanças cognitivas são quase inexistentes em aspetos como o conhecimento do vocabulário. Porém, em processos que envolvam a velocidade ou capacidades não exercitadas, surgem declínios significativos. Um dos principais acontecimentos ligados ao envelhecimento é a queda no desempenho cognitivo. A cognição pode ser descrita como um conjunto de funções e processos que possibilitam às pessoas tomar decisões e ter um comportamento inteligente (Soares, Diniz & Cattuzzo, 2013).
Este longo processo carateriza-se por modificações na cognição. O desempenho cognitivo inclui vários indicadores, tais como: a atenção, a memória episódica, a memória de trabalho, a memória semântica e a função executiva. A atenção refere-se ao conjunto de procedimentos que levam à seleção no processamento da informação. A memória episódica refere-se a eventos que se sucederam num lugar e tempos exclusivos, enquanto a memória de trabalho é definida como sendo a memória que armazena temporariamente e manipula a informação essencial para a realização de tarefas como compreensão da linguagem, aprendizagem e raciocínio. A memória semântica diz respeito ao conhecimento geral do mundo recolhido ao longo dos anos, independentemente do tempo ou lugar. Por fim, a função executiva é caraterizada pelo planeamento, agrupamento, coordenação, sequência e monitorização de outras operações cognitivas (Pereira et al., 2007; Soares, Diniz & Cattuzzo, 2013).
Quando os idosos são saudáveis, normalmente as alterações que ocorrem no cérebro são moderadas e não fazem muita diferença no funcionamento. Por outro lado, quando está presente um problema associado ao sistema nervoso central, este pode prejudicar a função cognitiva, levando a piores resultados em testes cognitivos. Além disso, pode igualmente afetar a capacidade de aprendizagem e memória. O processamento da informação torna-se mais lento e pode levar a incompreensão das informações por parte das pessoas com mais idade quando estas lhes são expostas muito rapidamente (Argimon, 2006).
À medida que envelhecemos, as áreas do funcionamento cognitivo podem ser afetadas e o envelhecimento tem sido relacionado com o desenvolvimento de comorbidades, um maior risco de aparecimento de demência, perda de independência, hospitalização e em último caso, morte (Paúl, Ribeiro & Santos, 2010; Santos, Guimarães, Xavier, Monte & Parcias, 2011).
Em alguns casos, o défice cognitivo pode provocar alterações na auto-estima e na qualidade de vida dos idosos, bem como trazer complicações na realização de atividades do dia-a-dia como refeições, medicação e cuidar de si próprio. Assim, adotar medidas que possibilitem à pessoa conservar ou aumentar as capacidades cognitivas é de extrema importância para a subsistência da saúde e da qualidade de vida de pessoas idosas (Soares, Diniz & Cattuzzo, 2013). A cognição afigura-se como função cortical e é dividida em várias sub-funções que incluem a atenção, a orientação, o raciocínio, a função executiva, a organização visuo-motora, a resolução de problemas e o planeamento (Soares, Diniz & Cattuzzo, 2013).
Os défices cognitivos normalmente observados durante o envelhecimento e considerados naturais do mesmo apresentam sinais como esquecimento de acontecimentos recentes, dificuldades na realização de cálculos e mudanças de atenção (Carvalho et al., 2014). Um dos principais problemas que colaboram para a má qualidade de vida nas pessoas idosas é, de fato, o declínio cognitivo. Assim, pode concluir-se que é essencial a pesquisa de instrumentos de avaliação, fundamentalmente de avaliação cognitiva, para observar alterações leves na cognição com o fim de detetar precocemente doenças como a demência (Carvalho et al., 2014).
Com o decorrer do tempo, são várias as habilidades cognitivas que sofrem alterações, enquanto que por outro lado, outras permanecem intactas. A experiência da evolução neuropsicológica permite avaliar se algumas habilidade cognitiva afetada se refere a doença. Com a idade, as habilidades cognitivas que vão diminuindo são nomeadamente a memória de trabalho, a velocidade de processamento e a