IDÉIAS
EUA não está longe
de um parlamentarismo
P ro f. J a m e s Y oung 1 H á d u z e n to s
anos atrás, nes ta é p o c a d o ano, delegados d os novos E s ta d o s U n id o s estavam se pre- p a ra n d o p ara partirem à P h i la d elp h ia p ara escrev e r u m a n o v a C o n s ti tuição. A ta re fa deles n ã o era fácil. A n ova N aç ão tin h a p o u c o m ais de dez anos. A p ó s a Revolução A m eric an a es tava em crise de regime, a a u to rid a d e d o governo central estava sen d o desres p eitad a, os E stad o s que lu ta ram ju n to s pela independência estavam se desagre gan d o , estavam fo rm a n d o exércitos, falava-se em g u erras en tre os E stad o s, e as contendas com erciais prosseguiam . O s d elegados levaram três m eses p ara escrever a nova c o n stitu iç ã o e um p o u co m ais d o q u e isso p a ra convencer os E sta d o s a ratific á-la .
C o m o u m e stu d io so de h istó ria c o n s titu c io n a l e d a presid ên cia dos EU A , bem co m o c id a d ã o a m e ric a n o sinto-m e m uito h o n rad o pelo convite de estar a q u i n ã o ta n to p a ra ensinar, m as para aprender com vocês, e acredito que o tr a b a lh o dos b rasileiros vai ser m u i to m ais difícil, p a ra e la b o ra r a su a n o va c o n stitu iç ã o do que foi o tra b a lh o d os fu n d a d o re s d os EU A e te n h o cer teza de q u e isso será, dificilm ente, c o n cluído em três meses. Eu n ão estou aqui p a ra a d v o g a r um sistem a p residencial, o u um sistem a p a rla m en tarista , e de fa to eu co n fesso q u e às vezes sin to um p o u c o de c o n fu sã o e n tre as ca ra c te rís ticas p ró p ria s de c a d a um desses siste m as, p o rq u e c a d a um de nós ten d e a perceber n o sistem a q u e nós preferim os as suas q u alid ad e s, e n o sistem a que a c eitam o s os seus defeitos.
J a m e s Y oung é D ire to r d o P ro g r a m a s o b re P r e s id ê n c ia d o “ M iller C e n te r o f P u b lic A f f a ir s ”, d a U n iv er s id a d e d e V irg ín ia, E s ta d o s U n id o s , e c o n fe re n c is ta d o 2 ? D ia.
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P o rta n to , n o m eu entender, n ã o há u m a definição única que seja universal m ente aceita do P residencialism o, e do P arlam en tarism o . O que eu g o sta ria de fazer aqui n ã o seria d efender u m a p ro p o sta geral d o P residencialism o, m as te n ta r explicar o q u e é o q u e n ã o é o S istem a P residencial n os EUA, q u al a relação com o que está previsto na cons titu iç ã o que eu a c h o m u ito im p o rta n te p a ra as q u estõ es q u e a N aç ão brasilei ra en fre n ta e p o r fim falarei, um p o u co, sobre os te rm o s e as co n d içõ es sob as q u ais o sistem a fu n cio n a nos EUA. N ão sei o q u e vocês a p re n d e rã o disso e n ã o te n h o certeza q u e vão ap re n d e r m uito, porém ac h o im p o rta n te q u e eu te n te explicar alg u m a co isa sobre a n a tu rez a d o nosso sistem a.
P rim eiro, o que n ã o é o S istem a Pre- sidencjal na ex periência dos a m e ric a nos: m u itas vezes um sistem a p re sid e n cial é asso ciad o , em te rm o s de concei to, com um p o d e r legislativo ou c o rp o legislativo m u ito fraco. N ão se p o d e fa la r d o sistem a p residencial n os EU A, nestes ttrm o s . U m a presid ên cia fo rte existe, c o a b ita , c o n ju n tam en te , a um congresso, ta m b ém , extrem am ente for te; e um legislativo bicam eral ex trem a m ente forte. D everas, sou de o p in iã o q u e o C o n g resso nos EU A , possivel m ente, é o m ais forte, o m ais ciu m en to d o seu p o d e r sobre p o lítica , sobre a d m in istraç ão , sobre investigação d a a d m in istraç ão e c o n d u ta d o executivo, do q u e q u a lq u e r o u tro n o m undo.
Em p arte, isso é c o n seq ü ê n cia d o q u e está escrito na C o n stitu iç ão , é um a q u e s tã o de co m o o C o n g resso co n se g uiu se o rg a n iz a r in te rn a m e n te p a ra o exercício d a a m p la a u to rid a d e c o n s ti tu c io n a l nele investido. O p rim eiro a r tig o d a C o n s titu iç ã o A m e ric a n a d e fi ne os p o d eres d o legislativo: (a p resi d ên c ia vem dep o is). E, m esm o se n d o a C o n s titu iç ã o p eq u e n a, esie artig o é um d os m ais longos. N ã o q u ero enum erar, p orém , to d o s os p oderes q u e são desig n a d o s ao G o v ern o C e n tra l, n a C o n s ti tu iç ão A m erican a. E nuinero, no e n ta n to, a lg u m as p rerro g a tiv a s d o C o n g re s so, d esig n a d o s co m o se n d o poderes d o legislativo: o p o d e r de estab elecer im p o sto s, d e p a g a r d ív id a s e to m a r e m p réstim o s, de reg u la r o com ércio exte rio r e o com ércio e n tre os estad o s, de d e fin ir a p o lítica fiscal e o rça m e n tá ria , c ria r novos estad o s, d e c la ra r g u e rra e prover a defesa, c o n v o c ar e su p rir o exército, a m a rin h a , e reu n ir m ilícias,
p a ra repelir invasões, reprim ir in su rrei ções, além de executar as leis d a U nião.
O C ongresso tem poderes executivos m u ito fortes n a C o n stitu iç ão A m erica na. É o C ongresso qu em estabelece tu d o q u e diz respeito à m issão e s ta tu tá ria d a p a rte executiva, a n ão ser à pre sidência. Todas as agências d o governo federal dos EUA são criad as pelo C o n gresso: o C o n g resso vela e pag a po r elas, e elas têm q u e dar-lh e satisfações d o q u e faz. Esse p o d er é exercitado de u m a m aneira m uito forte através do sis tem a de com itês d o C ongresso. P o rta n to, p a ra to d o s os efeitos, to d o s os p o deres de governo, e de estabelecer
polí-Todas as agências do
governo federal dos EUA
são criações do Congresso,
que vela por elas e paga
por elas. Elas têm que
prestar satisfações ao
Congresso. Esse poder é
exercitado de uma maneira
muito forte através do
sistema de comitês do
Congresso. ■
ticas estã o in sc rito s co m o a trib u içõ e s do legislativo.
P o r o u tro lado, a P resid ên cia tem um rol de atrib u iç õ e s m u ito m enor. O P re sid en te é o c o m an d a n te-ch e fe das Forças A rm a d a s, m as é o C ongresso qu e tem o p o d e r de estabelecer o reg u la m e n to p a ra sua ad m in istra çã o . M es m o se n d o o co m an d an te-ch efe, o P re sidente n ã o tem o p o d er de g o vernar as Forças A rm ad a s, esta é u m a a trib u iç ã o d o Legislativo. O P residente p o d e en v ia r e receber E m b aix ad o res, isto é, o p o d er de reconhecer e con d u zir a d ip lo m acia. N o entanto, p oder de firm ar tra ta d o s é re p a rtid o s co m o S enado, e d e
pen d e d a a p ro v a ção p o r d o is terços do m esm o. O P resid en te p o d e nom ear, com o c o n sen tim en to de dois terço do S enado, os oficiais d o c o rp o executivo e os m in istro s d o governo. O P re sid e n te detém to d o p oder executivo d ad o pe la C o n stitu iç ão , com a ressalva d e que, g ran d e p a rte desse p o d e r será re p a rti d o com o C ongresso. Provavelm ente, o m ais im p o rta n te poder, d o P residente, no sistem a p residencial, seria o do ve to co n d icio n a l sobre os a to s d o legisla tivo. D igo co n d icio n a l p o rq u e dois te r ço d o C o n g resso p o d e re p u d ia r o veto e essa a ç ã o te rá fo rça de lei. D e certo m o d o esse é o p o d e r legislativo d o P re sidente. P orém , nem o P re sid en te nem q u a lq u e r o u tro m em b ro d o E xecutivo p o d e o c u p a r u m a ca d eira n o L egislati vo, e so m e n te c o m p arec er a o p le n ário d o C o n g resso p o r convite do L egislati vo.
O P residente, ta m b ém , tem o p o d e r e o d ireito de re la ta r ao C ongresso, o esta d o d a U n iã o e fazer-lhe rec o m en dações. E sse é o seu p o d er de recom en d a r e p ro p o r p o lítica s a o Legilastivo. M as, q u a n d o se c o m p a ra n ã o som ente o n ú m e ro de palavras, m as ta m b ém o elenco de a trib u iç õ e s so b re p o lítica, o p o d e r fu n d a m e n ta l de governo, nos EU A , e stá n as m ão s do C ongresso. O P residente, p o rém , é in d e p e n d e n te d o C ongresso, seu m a n d a to n ã o p o d e ser reduzido ou in te rro m p id o a n ã o ser po r “a lto s crim es e m á c o n d u ta ”, o u te n h a sido ju lg a d o incom petente.
O u tro m o tiv o pelo q u a l o C o n g res so é forte, d iz respeito à m a n e ira com o ele está o rg a n iz a d o e d esem p e n h a suas funções. C reio q u e os e stu d io so s dessa q u e s tã o co n c o rd a m q u e u m a a sso cia çã o coletiva tem u m a c a p a c id a d e lim i ta d a de increm entar políticas em p len á rio o u em debate. O C ongresso, p o rta n to, tem q u e te r pessoas q u e tra b a lh e m , especialistas q u e aju d e m a testar, d is c u tir e e la b o ra r to d a a p o lítica p ú b li ca.
E m 1985, o "C ongresso A m e ric a n o desenvolveu os parâm etro s do seu atu al sistem a de fo rtíssim o com itês, n a C â m a ra e n o S enado. Esses co m itês são b a s ta n te especializados nas diferentes áreas legislativas. Eles supervisionam os vários D ep a rtam e n to s, iniciam , revêem e a n a lisa m a legislação. A lém disso, o s ta ff p o lítico d o C o n g resso e d o s c o n gressistas cresceu m u ito n os ú ltim o s 20 an o s. S ão m ais de 10.000 pesso as tr a b a lh a n d o à d isp o siçã o d o C ongresso,
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in c lu in d o peritos em p o lítica externa, p o lítica fin an ceira e o rça m e n tá ria , etc.
A lém disso, ao C ongresso, tam bém , foi d a d o poderes ju d iciais. Seus co m i tês p o d em req u isitar d o cu m en to s e in form ações, bem com o co m p elir e exi gir de pessoas testem unho em juízo. P o dem os a firm a r que, de certo m odo, o C ongresso p ossui agreg ad o s ao s seus poderes legislativos, poderes ju d iciais, e executivos. P o rta n to , os fortes p o d e res d o C ongresso, nos E sta d o s U nidos, são u m a realidade viva e constitucional.
PODERES DO PRESIDENTE
H á u m a segunda con o tação n a ques tã o do P residencialism o, o u q u e m u i to s p en sam ser u m a trib u to dos Siste m as P residencialistas, m as q u e n ã o é um fato dos EU A. D iz respeito à c a p a cid ad e de legislar d o P residente. F ala rei rapidam ente sobre isso. O Presidente dos EUA n ã o p ode rep u d ia r um a to do Legislativo, dissolver o C ongresso, nem governar po r decreto na ausência d o Le gislativo. O P residente, en tão , tem um p o d e r de veto realm ente c o n d icio n a l. N ão a c a ta r ou d esobedecer u m a deci são do C ongresso, é u m a to in c o n sti tu c io n a l e ele p o d e ser punid o .
O C o n g resso é so b e ra n o p a ra c o n tro la r os h o rário s d a suas sessões com o ta m b ém a su a o rg an iz aç ão in te rn a e o P re sid en te n ã o p o d e in te rfe rir nessas questões. N ão há n ad a na C o n stitu iç ão A m eric an a sem elhante ao que é previs to em m uitos sistem as parlam entaristas, co m o é o caso, d a 5.“ R epública F ra n cesa, em que, em situações de em ergên cia, o presidente p o d e g o v ern a r p o r d e creto. N em o P residente, nem o C o n gresso, nem as Forças A rm a d a s e n e n h u m o u tro ó rg ão c o n stitu tiv o no g o verno a m e ric a n o tem d ireito c o n s titu cio n al p a ra g o v ern ar p o r decreto.
Falar do sistem a presidencial dos E s tad o s U nidos, é falar de um tip o de g o verno no q u al um executivo é eleito, in d ep en d en tem en te, com títu lo de “ P re sidente”, que fo rm a um governo que a d m in istra, q u e to m a à fren te e d e te rm i n a q u e tip o de p o lítica a N aç ã o deve a d o ta r e seguir d u ra n te seu m a n d a to , e ele será responsável, n a p ró x im a elei ção, pelas conseqüências desta política. Esse é, a m eu ver, o sig n ific ad o e a n a tu re z a do sistem a p residencial, n os EU A .
E stu d io so s d o sistem a p a rla m e n ta rista perceberão logo q u e d a m an eira com o eu descrevi o sistem a presidencia lista dos EU A — a presidência, o p a r tido o u coalisão de p artid o s — está fu n cio n an d o de fo rm a m u ito assem elhada de seu sistem a p a rla m e n ta rista d esen volvido. O sistem a presidencialista d e ve ser asso cia d o n ã o a legislativo fraco m as a um legislativo forte. O sistem a presidencialista é asso ciad o com um le gislativo que tem realm ente poderes de fo rm u la r p o lítica q u e é asso cia d o com o sistem a p a rtid á rio fraco. O sistem a p a rtid á rio nos EU A é fraco e isso é a s sociado no sistem a presidencialista não com um legislativo fraco, ou m esm o um
O presidente tem o poder
executivo dado pela Carta,
mas grande parte desse
poder também está nas
mãos do Congresso. O
mais importante poder do
presidente é o do veto
sobre os atos da
legislatura, mas ainda
assim é veto condicional.
ju d ic iá rio fraco, pois este ú ltim o no fi nal tem um veto sobre q u a lq u e r a to do governo, seja ad m in istra tiv o , d o P re si d en te o u d o C ongresso.
O SISTEMA DE SEPARAÇÃO DOS PODERES
N o Brasil, no m eu entender, h á u m a qu estão Im portante, u m a questão cons titu cio n al, q u a n to à e stru tu ra do gover no, às relações e n tre a C o n s titu iç ã o e à n a tu re z a d o sistem a se P a rla m e n ta r ou P residencial. Deve d e sta c a r q u e nos E stados U nidos, o sistem a presidencial, m esm o que ele seja u m a decorrência da
C o n stitu iç ão , ele n ão foi p o r ela e sta belecido tal co m o o p raticam o s hoje. Vou explicar um p o u co esse ponto.
O atu a l Sistem a P residencial A m e rican o é, principalm ente, u m a criação do século X X , e ele n ã o estava presen te nem é característico d o sistem a am e rican o existente em g ran d e p arte d o sé culo X IX . ele é e n tã o um desenvolvi m ento m ais recente da evolução p o líti ca dos EU A e n ã o um sistem a estip u lado ou estabelecido pela C o n stitu iç ão de 1787.
É verdade, com o já disse, q u e a C o n stitu iç ão estabeleceu as p rerro g a ti vas d o P residente, isto é, seu p oder co n stitucional. Porém , não se encontra n a C o n stitu iç ão , em lugar n en h u m , a determ inação de que cabe ao Presidente a in iciativa n a e lab o raç ão e im p lem e n ta çã o d a p o lítica pública.
D e fato, os fo rm u lad o res d a C o n s titu içã o visavam um sistem a de c o n tro les e equilíbrios, n o q u al nem um dos três poderes d o governo seria c a p az de assu m ir a lid e ran ça um sobre o o utro, ao decidir os rum os d a política pública.
E sse sistem a de co n tro les e eq u ilí brios, é às vezes, d e n o m in a d o de siste m a de se p araç ão dos Poderes.
A “ S eparação de Poderes”, não p o s sui u m a descrição precisa, porq u e, co m o j á ind iq u ei, pela C o n stitu iç ão , o P resid n ete tem alguns p oderes legisla tivos; o C ongresso tem alguns poderes executivos e até poderes ju d ic iá rio s, e é claro, a S u p re m a C o rte tem q u e estar envolvida na fo rm u lação d a política, já qu e ela tem o p o d er de revisão final so bre a c o n stitu c io n a lid a d e d a legislação e ato s d o P residente ou de seu governo.
U m a descrição m ais precisa seria de qu e a C o n s titu iç ã o estabelece in stitu i ções se p arad a s, que re p a rte m en tre si o p o d e r de fo rm u la r a p o lítica. E ssa se p a ra ç ã o é tã o severa q u e um D e p u ta d o o u um S en ad o r n ã o p o d e o c u p a r um cargo do executivo d u ra n te a vigência de seu m a n d a to , nem m esm o em caso de ren ú n cia. U m D e p u ta d o n ã o p o d e ter ca d eira no Senado, sim u lta n eam en te, a seu cargo de D eputado e vice-versa. A se p araç ão de p oderes é co m p leta, m a s o p o d e r é rep a rtid o . P elo sistem a de co n tro les e e q u ilíb rio s p retende-se p e rm itir q u e q u a lq u e r um dos poderes, ou q u a lq u e r interesse envolvido nas re presentações destes três poderes, possa iniciar, ou p a rtic ip a r d a p o lítica. P o
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rém , to rn a-se m u ito difícil que um d e les im p o n h a a sua v o n ta d e sobre a p o lítica p ú b lic a sem o c o n sen tim en to dos o u tro s dois.
É m u ito difícil n o sistem a a m e ric a no, o P residente con seg u ir fazer a lg u m a coisa a n ã o ser q u e ele co n te com o co n sen tim en to , m u itas vezes p o r ato positivo, do C ongresso. É m u ito difícil p a ra o C ongresso conseguir alg u m a aç ã o o u im p o r u m a p o lítica p ública co n tra d e te rm in a d a p o siç ão d o P resi dente. É im possível p a ra o P residente, p ara o Senado, ou p a ra a C â m a ra , m es m o se eles concordem en tre si, d a r c o n tin u id a d e a u m a d iretriz p o lítica, se a S u p re m a C o rte a invalidou. E n tão , o p o d er de veto de um sobre o o u tro , c a m in h a ju n to com o p o d e r de fo rm u la r a política. N ão se tr a ta de u m a falha de ju lg a m e n to , nem um p o n to de estím u lo à controvérsia, m as, a o co n trá rio , trata-se de u m a n o rm a explícita de co n vivência e repartição dos poderes no sis te m a presidencial de governo. E ssa é u m a n o rm a in te n cio n al e n ã o u m a fa lh a de ju lg a m e n to , sobre q u em deveria d o m in a r o p o d er d e n tro de um sistem a de governo.
Essa escolha foi feita conscientem en te e d eix ad a co m o h e ra n ç a às fu tu ra s gerações: estabelecer um sistem a o n d e q u a lq u e r um p o d e ria in ic ia r o u c a rre g ar o fardo, de o rg a n iz a r o co n sen so e o a p o io p a ra u m a d e te rm in a d a p o líti ca d e n tro d o sistem a. H av ia um se n ti m e n to p ro fu n d o en tre os constituintes, de q u e n a C o n stitu iç ã o n ã o deveria h a ver n en h u m d isp o sitiv o q u e perm itisse n o fu tu ro , u m a in stitu iç ão , classe ou cargo ter a ú ltim a p alav ra ou o c o n tro le crítico sobre u m a d e te rm in a d a p o lí tica pública. Eles a c h a m q u e isso c o lo c a ria em p erig o a ca u sa d a liberdade. Sentia-se, n aq u ela época, que era de sejável q u e a co n ten ç ão , o u o c o n flito em to r n o d a p o lítica , e n tre os seg m en tos d o governo, e en tre as bases p o r eles rep rese n tad a s fosse d eb a tid o , e q u e a in ic ia tiv a d o g o v ern o q u a n to a p o líti cas p ú b lic as só deveria ser in c re m e n ta d a a p a rtir d o consenso, de c o n c o rd â n cia, ou d o co m p ro m isso e n tre as diver sas p a rte s d o C ongresso.
O q u e os e lab o rad o res d a C o n s titu i çã o d eix aram em a b e rto foi: co m o se deveria ch e g ar a esse consenso? Q uem lid eraria? A través de q u e m aneira? E através de q u e processo? E n tã o a C o n s tituição, de certo m odo, estabeleceu um
program a m as n ão predeterm inou o seu resultado em term os de um sistem a fos se ele p arla m en tar, presidencial, ou a l g u m a m istu ra dos dois.
O SISTEMA DE SEPARAÇÃO DOS PODERES
C h eg o à m in h a terceira observação sobre o sistem a am erican o , de que a C o n stitu iç ã o perm itiu a existência, d u ran te um p e río d o pregresso d a h istó ria am erica n a de algo sem elhante a um sis te m a p arlam en tar, neste século, um sis tem a bem m ais parecido com o sistem a presidencialista. A C on stitu ição perm
i-A separação entre os
poderes é muito dura: um
deputado não pode ocupar
um cargo do Executivo ou
ser nomeado para um
cargo durante seu mandato
parlamentar, nem mesmo
se ele renunciar. É
completa a separação, mas
o poder é repartido. É
equilíbrio de poderes.
tiu q u e a in ic ia tiv a de poder, passasse de um lado p a ra outro, sem que ela p ró p ria se m odificasse.
Q u ero dizer algum as breves palavras sobre o S istem a P arla m e n ta r nos EUA. Se nós procurássem os os exemplos p rin cipais, o lh a ría m o s para o tem po de Jef- ferson, isto é, 1800 a 1807 q u a n d o o p ri m eiro sistem a p a rtid á rio foi desenvol v id o an tes, n o te m p o q u e foi escrita a C o n stitu iç ã o , n ã o havia p artid o s. Tal vez isto te n h a facilitad o o tra b a lh o dos c o n stitu in te s. O s p a rtid o s só se fo rm a ram em seguida, a o redor d a controvér sia so b re a p o lítica de desenvolvim en to d o governo e a q u estão de q u al o r u m o q u e a N a ç ã o deveria to m ar. O p a r
tid o de Je fferso n d e rro to u o p a rtid o de H a m ilto n , e p erm a n ec eu 20 a n o s no poder. A p a rtir de 1800 ele p ô d e im ple m e n ta r seu p ro g ra m a de desenvolvi m e n to d a n ova N ação, q u e n ã o era de in d u stria liz aç ão , m as ex p a n sã o do te r ritório, n ã o de a d o ta r o protecionism o, m as desenvolver in d ú stria s n ac io n a is e u sa r o déficit p a ra a u m e n ta r os rec u r sos e o te rritó rio g eo p o lític o d a nova N ação. E sse p ro g ra m a foi desenvolvi do, m e parece, exatam ente co m o n o sis te m a p a rla m e n ta r inglês, p o rq u e a m a io ria d o p a rtid o n o C o n g resso in i ciava e aprovava a legislação e fo rm a va o governo; to d o s os m inistros de Je f ferson p e rte n cia m a o legislativo e eles eram m em bros d o m esm o P artid o . O seu p rin cip al a u x ilia r era Ja m es M adi- son q u e era líd er do P a rtid o n o C o n gresso .
O s m e m b ro s d o P artid o , n u m a reu n iã o d en o m in ad a o “caucus convencio n a l” decid iram q u e seu líd er n o C o n gresso seria n o m e a d o p a ra a P re sid ê n cia. T h o m a s Je fferso n n o seg u n d o te r m o, Ja m es M a d iso n , Ja m es M o n ro e e, d epois J o h n Q uincy A dam s, fo ra m to d os esco lh id o s presid en te pelo P a rtid o q u e representavam no C ongresso. E is so parece rea lm en te com u m sistem a p arla m e n ta r. O p a rtid o fo rm a o gover no, estabelece o p ro g ra m a de governo e, n as eleições, é o responsável pelas co n seq ü ê n cia s d as suas ações. O P a rti d o de Je ffe rso n recebeu votos de c o n fia n ç a v ária s vezes, e n a vez d e M o n roe, to d o s os votos eleitorais fo ra m p a ra o c a n d id a to d o governo, a o p o siç ão n ão teve nenhum êxito. Os E stados U n i d os tin h a m um sistem a m o n o p a rtid á - rio. O o u tro exem plo é d o fin al desse m esm o século. N o au g e d a in d u stria li za çã o a m e ric a n a , d ep o is d a g u e rra ci vil, depois d a re c o n stru ç ã o de 1880 até o final d o século, q u a n d o tivem os o que alg u n s ch a m a m de a “é p o c a d o u ra d a ” de governo congressual. N esta ép o c a o líd er d o C on g resso era c h a m a d o de “ P rim e iro -M in istro ” ou de “ T zar” p e la im p ressa a m e ric a n a e c o rre sp o n d ia a o carg o m ais im p o rta n te d a U nião . O C o n g resso através d a o lig a rq u ia , do P a rtid o R ep u b lican o estabeleceu o c a p ita lism o co m o p o lític a d a n aç ão , su p rim iu os sindicatos p o rq u e era a favor d a m ã o -d e -o b ra b a ra ta , p ro teg e u o m ercad o com ta rifa s a lfa n d eg á rias ele vadas, en co rajo u a im igração, forneceu os m eios p a ra q u e as ferrovias p u d e s sem ser c o n s tru íd a s e asseg u ro u um m e rc a d o cativ o p a ra desenvolver as in
IDÉIAS
d ú stria s dom ésticas. Tudo isso foi fei to sem g ran d e p a rtic ip a ç ã o d o P resi dente. O P residente era u m fu n c io n á rio d o “ P rim eiro -M in istro ”, q u e estava d e n tro d a C â m a ra dos D ep u ta d o s. O Congresso supervisionava a adm inistra ção d as suas políticas através d o siste m a de C o m itê d o C ongresso. D u ra n te g ran d e p erío d o d a h istó ria a m erica n a co n fia m o s, desenvolvem os, u tilizam os um sistem a p arla m en tar, sem n u n ca m o d ific a r a C o n stitu iç ã o de m a n eira significativa. U m a im p o rta n te exceção a este “sistem a parlam en tarista”, corres p onde ao período d a guerra civil, q u a n do A b rã o L incoln era o presidente, ele im plem entou um sistem a bem diferente.
A PERSPECTIVA DO PRESIDENCIALISMO AMERICANO
O século X X assistiu a o e n fraq u e ci m en to desse “ p a rla m e n ta rism o ” e o fo rtalecim en to d o sistem a presidencial. O enfraquecim ento dos p artid o s é o que p o d e explicar com o a p residência cres ceu e assu m iu funções q u e seriam d o p artid o , n u m sistem a p arla m e n ta r. A P resid ên cia e n ã o os p a rtid o s deve fo r m u la r e g u ia r a p o lítica e ser re sp o n sá vel p o r ela p era n te o eleitorado. O b v ia m ente, q u e o p ap el dos EU A n as d u as g u erras m u n d iais, a em ergência da A m érica com o um p o d er in tern acio n al e um p o d e r nuclear, com co m p ro m is sos m u n d ia is, a G ra n d e D epressão de 1929 tu d o isso tem a ver com as m u d a n ças do sistem a e as novas atribuições as su m id as pelo P residente. N ão sabem os d u ra n te q u a n to te m p o o sistem a p resi dencial vai d u ra r ou q u e o u tro d esen volvim ento ou m o d ificação to m a rá seu lugar. H á m u ita disc u ssã o n os EU A, hoje, d u ze n to s a n o s d ep o is d a no ssa C o n stitu iç ã o , sobre os p ro b lem as que existem no sistem a p resid e n cialism o e n o governo presidencial. E h á um a t r a tivo novo, in d ic a n d o n a d ireção de um sistem a p arla m e n ta r. A q u estão , e n tã o será de fo rta le ce r os p a rtid o s. N ão sei se eles p o d em ser ressu scitad o s n a m a neira com o fu n cio n a ra m em ép o cas a n teriores, m as eu a c h o q u e p ode-se d i zer com certeza que o sistem a presiden cialista a m e ric a n o vai se m o d ific a r e, possivelm ente, j á está se m o d ific an d o .
O q u e assistim o s n os ú ltim o s 10 ou 15 a n o s foi a rea tiv aç ão d o p o d e r e da a u to rid a d e d o C o n g resso n u m esforço
de p o liciar a presidência, vigiar a a d m in istra ç ã o d as suas p olíticas, e in te r ferir com u m a voz p o d ero sa n a fo rm u lação d as políticas dom éstica e in te rn a cional.
Será interessante observar o resu lta do das atuais investigações sobre a ação do Presidente n a C a sa B ranca, p ara ver se isso vai se to rn a r um ca so no qual o P re sid en te assu m iu u m a p re rro g a ti va q u e ele n ã o tem , ou q u e o u tro s em nom e dele assum iram prerrogativas que n ã o tin h a m , q u er dizer se eles in frin g i ram o u n ão a v ontade do Congresso. Se isso for com provado, podem ser proces sa d o s pelo C ongresso.
Esses acontecim entos, os escândalos de N ixon, a p erd a de c o n fia n ç a q u e ti vem os no V ietn am , tu d o isso renovou o interesse em red u zir o p o d er d o P re sid en te e v o lta r a um sistem a m ais p ró xim o de u m sistem a de governo, no
q u al o C o n g resso é um sócio m a jo r itá rio d o P residente.
O sistem a presidencial n ã o p o d e so breviver sem o a ssen tim en to d o C o n gresso. G ra n d e p a rte d a a u to rid a d e do P resid en te é o riu n d a d a d eleg ação fei ta a ele po r atos específicos d o C ongres so, p o d en d o , p o rta n to , retirá-la. N o m o m e n to a tu a l ele está nas condições de fazer isso de m a n e ira le n ta e incer ta. O sistem a p residencial ta m b ém não p o d erá sobreviver se o presidente n ão p u d e r d e m o n stra r q u e ele n ã o som ente tem o consentim ento do legislativo, m as que a su a p o lítica reflete o consenso do país, além dos m em bros do seu p a r ti do. N essas condições eu vejo um recuo d o sistem a p residencial nos EUA, m as n ã o o en fraq u ecim en to d a presidência. A p residência vai se m a n te r forte; o C ongresso vai se m a n te r forte, m as a li d era n ç a p o d e rá sair d as m ã o s d a P re sidência.