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A Logística Inversa nos aparelhos eletrónicos e a perceção do consumidor

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Academic year: 2021

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A Logística Inversa nos aparelhos eletrónicos e a perceção do consumidor

Joana Fortuna de Carvalho da Silva Freitas

Dissertação

Mestrado em Gestão de Serviços

Orientado por

Professor Doutor Rui Alberto Ferreira dos Santos Alves

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Agradecimentos

Neste ano em que quase toda a atenção é dada a este projeto é imprescindível sentir o apoio de quem mais gostamos. Por isso, o meu agradecimento é dirigido a todos aqueles que, direta ou indiretamente, contribuíram para a sua elaboração.

Ao Professor Doutor Rui Alves, o meu agradecimento pela sua orientação e pela sua sempre disponibilidade ao longo deste percurso e à Professora Doutora Teresa Fernandes pelo seu apoio e rigor em todas as questões colocadas.

À Faculdade de Economia do Porto, por possibilitar toda a aprendizagem ao longo destes anos, disponibilizando todos os recursos necessários à realização deste Mestrado.

Quero agradecer também à minha amiga Mafalda, que, por estar a fazer a dissertação ao mesmo tempo, foi sem dúvida a pessoa mais presente e que mais me ajudou no decorrer deste trabalho. Ao meu amigo Bruno, que sempre me apoiou incondicionalmente e respondeu a todos os meus telefonemas desesperados, arranjando sempre soluções para que fosse possível continuar este trabalho, sem desanimar. À Beatriz, à Joana e à Rita, pela amizade, companhia e disponibilidade e a todas as minhas restantes amigas, que sabem quem são, e que, mesmo sem entenderem, me deram sempre forças para conseguir terminar este trabalho.

À minha mãe e ao meu pai, que sempre quiseram que eu tirasse mestrado e sempre acreditaram em mim e no meu valor, leram e ouviram vezes sem conta o meu trabalho. Ao meu namorado por toda a paciência que sempre teve, mesmo quando as coisas não correram da maneira expectável.

Por fim, agradeço ainda a todos aqueles que responderam o meu questionário, sem os quais, não teria sido possível a realização deste estudo.

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Resumo

O consumismo crescente e uma população cada vez mais insaciável por produtos eletrónicos inovadores são responsáveis pelo impacto ambiental negativo verificado no aumento de resíduos gerados. De 2013 a 2019, o total de resíduos urbanos em Portugal aumentou de 4,3 milhões de toneladas para 5, o que constitui uma produção anual de 511 kg por habitante, valor acima da média europeia. Estes valores confirmam a tendência de crescimento destes resíduos e a crescente preocupação dada a esta temática. Os telemóveis são dos bens eletrónicos mais consumidos e, aliado à sua reduzida vida útil, os resíduos gerados por estes são os que mais aumentam, pelo que este estudo se centrará neste tipo de bens. O estudo do comportamento do consumidor face à reciclagem é indispensável, uma vez que é este quem decide o que acontece aos telemóveis no fim da sua vida útil e, apesar de na literatura já se ter estudado o seu comportamento, o modelo da Teoria do Comportamento Planeado (TCP) nunca foi testado neste tipo de reciclagem.

O presente estudo visa através do modelo da TCP avaliar quais os fatores determinantes do comportamento do consumidor português no que diz respeito à intenção de reciclar telemóveis, acrescentando ao modelo duas variáveis (os benefícios ambientais e a consciência ambiental), de modo a aumentar a sua previsibilidade. Para tal, efetuou-se uma investigação quantitativa e realizou-se um questionário online, onde foi possível reunir 434 respostas válidas.

Os resultados permitiram concluir que a intenção de reciclagem dos telemóveis por parte do consumidor é maioritariamente influenciada pela atitude, seguindo-se a consciência ambiental, o controlo do comportamento percebido e as normas subjetivas. Relativamente aos benefícios ambientais, verificou-se que não tinham uma relação direta significativa com a intenção de reciclar como previsto inicialmente, mas sim indireta, via atitude.

Este estudo permite concluir que a variável que mais influencia os consumidores na intenção de reciclagem é a sua atitude, ou seja, se esta for positiva face ao tema, verifica-se uma maior propensão para reciclar telemóveis.

Palavras-chave: Logística Inversa; Resíduos de Equipamentos Elétricos e Eletrónicos; Teoria do Comportamento Planeado; Telemóveis; Comportamento de reciclagem.

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Abstract

The increase of consumerism allied to a relentless population driven by collecting electronics’ products is responsible for boosting generated waste. From 2013 to 2019, the total urban waste escalated from 4,3 to 5 million of tons which implies an annual production of 511 kg per citizen; a high value taking into consideration European’s average. Indeed, these values confirm the increasing trend of waste, as well as, the growing concern of this theme. The cellphones are one of the most consumed electronics’ goods. Their limited useful life contributes to the waste’s growing pattern. For that reason, I had chosen this type of products (cellphones) to center my dissertation and, therefore, to also settle conclusions about the customer’s behaviour towards recycling. Indeed, this study is crucial to understand what happens to cellphones at the end of their useful life. Even though this study was already explored, the Theory of Planned Behaviour (TPB) model was never applied and tested in this recycling’s scope.

The present study attends to evaluate which paramount factors drive portuguese customer’s behaviour throughout TPB’s model. Adding two more variables to this model (environmental benefits and environmental awareness) increases the reliability of this model to demonstrate the cellphone’s recycling intention of customers. In order to address this question, I had conducted a quantitative investigation through an online form that gathered 434 valid answers.

The overcome of this study enhances the dissertated argument: the cellphones’ recycling intention is influenced by their attitude, followed by the environmental awareness, the behaviour’s control and the subjective norms. Concerning environmental benefits, it has been examined that it did not have a significant direct correlation with the recycling’s intention, as it was initially predicted. Indeed, it is stated that only through customer’s attitude, is possible for environmental benefits to have an impact in recycling’s intention.

The present study states that customer’s behaviour has the most significant effect in recycling’s intention. Therefore, a positive attitude towards this subject leads to a higher tendency to recycle cellphones.

Keywords: Reverse logistics; Waste Electrical and Electronic Equipment; Theory of Planned Behavior; Mobile phones; Recycling behaviour

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Índice

Agradecimentos ... i Resumo ... ii Abstract ... iii 1. Introdução ... 1 2. Revisão de Literatura ... 4

2.1 Conceito de logística inversa... 4

2.2 Importância da logística inversa na indústria dos telemóveis ... 6

2.3 Teoria do Comportamento Planeado... 10

2.3.1 Atitude ... 11

2.3.2 Normas subjetivas ... 11

2.3.3 Controlo do comportamento percebido ... 12

2.3.4 Abordagens alternativas ... 12

3. Estudo empírico ... 14

3.1 Modelo e hipóteses de investigação ... 14

3.2 Metodologia de investigação ... 19 3.2.1 Tipo de método ... 19 3.2.2 Estrutura do questionário ... 19 3.2.3 Recolha de dados ... 21 3.3 Análise da amostra ... 22 3.3.1 Caraterização da amostra ... 22 3.4 Análise de dados ... 24 3.4.1 Análise descritiva ... 24 3.4.2 Análise fatorial ... 26

3.4.3 Validação do modelo estrutural ... 30

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4. Conclusões ... 38

4.1 Considerações finais ... 38

4.2 Contributos para a Teoria e para a Gestão... 39

4.3 Limitações e sugestões de investigação ... 41

5. Referências bibliográficas ... 43

Anexos ... 51

Anexo I: Questionário ... 51

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Índice de Figuras

Figura 1-Modelo de investigação ... 14

Figura 2-Género dos inquiridos ... 22

Figura 3-Idade dos inquiridos ... 23

Figura 4-Habilitações literárias dos inquiridos ... 23

Figura 5-Modelo estrutural – Teste das Hipóteses H1-H5 ... 31

Figura 6-Impacto indireto dos benefícios ambientais na intenção de reciclar ... 32

Índice de Quadros

Quadro 1-Constructos, questões e respetivas fontes ... 20

Quadro 2-Análise descritiva das variáveis ... 25

Quadro 3- Escalas de medida, dimensionalidade e confiabilidade ... 28

Quadro 4-Análise da validade discriminante ... 30

Quadro 5-Análise multigrupo ... 33

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1. Introdução

A logística inversa consiste no processo de planeamento, implementação e controlo do fluxo de matérias primas, produtos acabados ou em stock, de forma economicamente eficiente, e toda a informação relacionada desde o ponto de consumo e todos os processos que se seguem, com o objetivo principal de recuperar ou criar valor (Rogers & Tibben-Lembke, 2001). Inclui ainda devoluções, redução da produção de resíduos, reciclagem, substituição de materiais, reutilização dos mesmos, descarte de resíduos e reforma, reparação e remanufactura (J. R. Stock, 1998).

Desempenha igualmente um papel importante no que diz respeito à indústria eletrónica nos países desenvolvidos, particularmente na implementação de diretivas de resíduos de equipamentos elétricos e eletrónicos (REEE) (Hung Lau, 2009). Os REEE são quaisquer equipamentos elétricos e eletrónicos de que o consumidor ou detentor se desfaz ou tem a intenção de se desfazer e incluem todos os seus componentes, subconjuntos e materiais consumíveis que fazem parte integrante do equipamento no momento em que este é descartado.1 Estes resíduos são dos fluxos com maior crescimento nos últimos anos devido ao ciclo de vida dos produtos ser cada vez mais curto e às mudanças nos comportamentos dos consumidores para descartá-los (Islam & Huda, 2018). Os telemóveis são considerados um dos produtos mais importantes, no fim da sua vida útil, utilizados no processo de logística inversa (Islam & Huda, 2018).

A globalização e o consumismo crescente verificados no mercado são responsáveis pelo impacto ambiental negativo verificado e, em consequência, maior número de produtos são produzidos. Ora, como são devolvidos mais produtos, é inevitável um maior custo em geri-los (Giuntini & Andel, 1995). Esta temática tem vindo a ganhar uma importância cada vez maior e, uma das razões que explica esta crescente atenção dada, prende-se com a necessidade de processar uma quantidade cada vez maior de produtos eletrónicos em conformidade com as normas ambientais definidas (Lee, Chang, Wang, & Wen, 2000). Outras motivações surgem de possíveis reduções de custo, legislação ambiental mais rígida e a crescente preocupação do consumidor com o meio ambiente (Srivastava, 2007).

De 2013 a 2019, o total de resíduos urbanos em Portugal aumentou de 4,3 milhões de toneladas para 5, o que constitui uma produção anual de 511 kg por habitante, valor acima

1 APA - Resíduos de Equipamento Elétrico e Eletrónico. (2020). Retrieved 26 August 2020, from

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da média europeia. Estes valores confirmam a tendência de crescimento destes resíduos e a crescente preocupação dada a esta temática.2

A logística inversa funciona como uma importante ferramenta operacional estratégica nesta era atual dos serviços. Torna-se particularmente importante para indústrias com ciclo de vida curto, como é o caso da indústria dos telemóveis (F. T. S. Chan, Chan, & Zhang, 2006). Devido ao seu grande consumo aliado à reduzida vida útil, os resíduos gerados pelos telemóveis são os que mais aumentam, e, embora haja um grande potencial de reciclagem para este produto, a taxa de reciclagem permanece ainda muito reduzida, o que compromete não só a sustentabilidade destas indústrias, como o meio ambiente (Gu, Summers, & Hall, 2019).

Os resíduos são gerados principalmente pelas famílias e empresas (Li et al., 2006). As primeiras descartam uma variedade de equipamentos, entre eles o telemóvel, sendo que, por vezes, o fluxo de resíduos destinados à reciclagem é interrompido devido ao seu armazenamento (Nowakowski, 2019). Em alguns casos, o equipamento, mesmo que não esteja funcional, é mantido pelos indivíduos (Nowakowski, 2019). Estas são algumas das razões pelas quais se torna importante estudar o comportamento do consumidor na temática de reciclagem dos telemóveis, uma vez que o seu comportamento é um dos fatores mais importantes por afetar a taxa de coleta de REEE. São os consumidores que decidem o que acontece ao equipamento no fim da sua vida útil ou quando já não lhes interessa, sendo que a atitude em relação à reciclagem desempenha um papel fundamental no descarte de REEE (Nowakowski, 2019). Uma boa gestão destes resíduos é fundamental face aos avanços tecnológicos e diferentes hábitos de consumo verificados, por constituírem uma das principais preocupações ao nível das políticas ambientais na Europa (Fábio Ytoshi Shibao, 2010).

Em Portugal, tem-se verificado um crescimento no uso de telemóveis. A taxa de penetração de telemóveis aumentou 26% nos últimos catorze anos. No ano de 2018, 96,5% da população residente em Portugal com mais de dez anos detinha pelo menos um telemóvel.3 Face a este cenário, e à importância dada ao impacto ambiental, esta dissertação

2 APA -Resíduos de Equipamento Elétrico e Eletrónico. (2020). Retrieved 25 August 2020, from

https://www.apambiente.pt/index.php?ref=16&subref=84&sub2ref=197&sub3ref=290

3 Penetração de telemóvel. (2020). Retrieved 5 February 2020, from

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tem como objetivo avaliar quais os fatores determinantes do comportamento do consumidor português em relação à intenção de reciclar telemóveis.

Para aferir a sensibilidade do consumidor relativamente à logística inversa, faz-se primeiramente um enquadramento teórico deste conceito e abordam-se os estudos anteriores com maior relevância para este caso.

A metodologia escolhida é de cariz quantitativo, onde a recolha de dados é feita a partir de inquéritos online. Com a realização dos inquéritos pretende-se recolher os dados relevantes para a investigação e, posteriormente, analisá-los segundo o modelo de equações estruturais. O software usado para processar os dados e observar a relação entre as variáveis será o SmartPLS 3, por permitir testar as relações entre as variáveis.

As questões a que este estudo pretende responder são as seguintes: Q1 - Quais as variáveis que influenciam a intenção de reciclar? Q2 - Qual o impacto de cada variável na intenção de reciclar?

A presente dissertação é composta por quatro capítulos: introdução, revisão de literatura, estudo empírico e principais conclusões.

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2. Revisão de Literatura

Neste capítulo são abordados os conceitos relevantes necessários para o trabalho e estudos anteriores importantes para a investigação.

2.1 Conceito de logística inversa

As primeiras definições do termo de logística inversa descreviam-na como seguir o caminho contrário numa “rua” com apenas um sentido, uma vez que a maioria dos fluxos fluem apenas numa direção (James R. Stock, 1981). Mais tarde, outra definição é dada por (Rogers & Tibben-Lembke, 2001), onde a logística inversa é vista como o processo de planeamento, implementação e controlo do fluxo de matérias primas, produtos acabados ou em stock, de forma economicamente eficiente, e toda a informação relacionada desde o ponto de consumo e todos os processos que se seguem, com o objetivo principal de recuperar ou criar valor. Definem também sistema de distribuição de logística inversa como um sistema de pessoas, procedimentos, hardware e software e os fornecedores de transporte responsáveis por levarem os produtos de um local para outro (Tibben-Lembke, 1998). Contudo, esta definição apresentava algumas limitações, na medida em que os produtos não precisam de retornar ao seu ponto de origem, uma vez que podem ser devolvidos em qualquer momento ou ponto de recuperação. Também há definições similares que descrevem esta atividade como a movimentação de mercadorias do consumidor para o produtor através de um determinado canal de distribuição (Murphy, P.R., & Poist, R.F,1988). Em 1995, é criada outra definição que não contempla a direção do fluxo dos bens e considera que, se o produto vier do consumidor, as atividades que se seguem, automaticamente, serão consideradas parte da logística inversa. Ou seja, a logística inversa é definida como a gestão dos recursos materiais obtidos por parte dos consumidores (Giuntini & Andel, 1995).

A logística inversa é então um processo pelo qual as empresas se podem tornar ambientalmente mais eficientes e lucrativas através da reciclagem, reutilização e redução dos materiais utilizados (Carter & Ellram, 1998). Muitas empresas redefiniram a sua cadeia de abastecimentos tradicional pela inversa, de modo a incluírem os movimentos de retorno dos produtos devolvidos e, rapidamente, se aperceberam dos benefícios económicos que advinham do reaproveitamento de recursos. Fecharam, assim, o “loop” da cadeia de abastecimentos, ao juntar os fluxos da cadeia de logística direta com o da inversa.

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Uma das principais preocupações da implementação da logística inversa por parte das empresas é perceber se a recuperação dos produtos usados é mais lucrativa do que descartá-los. O valor extraído da logística inversa pode advir da melhoria do serviço ao cliente, o que gera uma maior retenção de clientes e consequentemente mais vendas, gestão dos retornos mais eficiente ou devido a um novo modelo de negócios implementado (Mont, Dalhammar, & Jacobsson, 2006).

As cadeias de abastecimento em circuito fechado, que incluem a logística direta e a inversa, podem ser combinadas para obterem uma produção e um consumo mais sustentáveis (Wells, 2005). Se as empresas detiverem um sistema de logística inversa eficiente e eficaz, este funciona como uma arma crucial entre a concorrência no mesmo setor (Varma, 2006) e influencia positivamente o desempenho financeiro (Green Kenneth, 2008). Contudo, continuam a verificar-se ainda algumas barreiras à implementação da logística inversa, como a falta de atenção por parte das empresas às políticas da mesma, ausência de processos e tecnologias padronizadas, escassez de pessoal e de recursos financeiros, entre outros (Tibben-Lembke, 1998). Por conseguinte, este processo acaba, por vezes, por ser mal gerido, uma vez que mais do que uma empresa estão envolvidas. Portanto, torna-se necessário uma abordagem em que exista uma estreita colaboração entre as partes e um redesenho dos processos de logística direta de modo a formarem um circuito fechado (Chapman *& Corso, 2005).

As empresas têm interesse em recuperar os seus produtos usados, principalmente devido a uma maior consciencialização ambiental e ao aumento das expetativas dos consumidores em relação ao processo de reciclagem, dos seus produtos, de forma segura. Uma empresa transparecer uma imagem “verde”, ou seja, sustentável, passou a ser um elemento essencial e consequentemente crucial para o seu marketing. A implementação de programas de logística inversa por parte das empresas para reduzir, reciclar e reutilizar resíduos da distribuição, ou de outros processos, produzem um valor tangível e intangível e podem gerar uma melhor imagem corporativa das empresas que o fazem (Carter & Ellram, 1998). Por esta razão, várias empresas sentiram-se estimuladas a explorar as opções de reutilização dos seus produtos (Thierry, 1997). O mesmo autor propõe várias formas de reutilização e considera principais: a reparação, a reforma, a remanufactura, a canibalização e a reciclagem. Todas estas opções envolvem a recolha de produtos usados e os seus componentes, processo em si e redistribuição. A principal diferença entre elas, centra-se no nível de processamento que cada uma exige, envolvendo a reparação o mínimo e a

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remanufactura o máximo. A reciclagem difere das outras opções de recuperação do produto, uma vez que nesta opção a identidade e a funcionalidade dos produtos não se mantêm. Esta atividade reutiliza materiais de produtos ou componentes usados, que podem ser reutilizados na produção de peças novas ou não. Este processo só acontece se os produtos e os componentes forem desmontados e separados em diferentes categorias de materiais.

As empresas podem optar por implementar a logística inversa através do seu próprio sistema de suporte, o que acarreta investimentos elevados, ou externalizar esse serviço para lidar com as devoluções do consumidor e reciclagem, de modo a minimizar os riscos (Hung Lau, 2009). Outra abordagem seria a criação de uma entidade colaborativa ou aliança estratégica para executar este processo para várias empresas do mesmo setor, o que acaba por ser mais eficaz e eficiente, uma vez que o investimento individual das empresas se vê reduzido, gerando economias de escala (He & Ji, 2006). Contudo, o conflito de interesses entre as entidades pode ser um desafio (Jin et al., 2006).

É também necessário mencionar a importância do consumidor no processo de logística inversa. Relativamente aos estudos já efetuados, não é muitas vezes considerado o seu papel, que por ser tão importante, constitui uma barreira à aplicação do processo (Prakash, Barua, & Pandya, 2015). Consequentemente, o comportamento do consumidor face aos resíduos em fim de vida útil é uma temática indispensável. Alguns estudos consideram que os fatores que podem influenciar as decisões do consumidor passam pela minimização de resíduos, (Tonglet, Phillips, & Read, 2004), a sua vontade de reciclar lixo eletrónico nos centros de coleta, (Saphores, Nixon, Ogunseitan, & Shapiro, 2006), as suas preferências para alternativas de reciclagem de lixo eletrónico e a sua disposição para pagar pela reciclagem de conveniência (Nixon, Saphores, Ogunseitan, & Shapiro, 2008).

2.2 Importância da logística inversa na indústria dos telemóveis

Nesta era de comunicação, tecnologia e de uma população insaciável por produtos inovadores, a produção de bens eletrónicos, como os telemóveis não para de crescer. Esta situação é cada vez mais alarmante, na medida em que constitui uma ameaça para a humanidade e meio-ambiente (Gonul Kochan, Pourreza, Tran, & Prybutok Victor, 2016).

Por sua vez, o rápido avanço das tecnologias aliado ao grande fluxo de informação, a competitividade entre as empresas e o crescimento da consciência ambiental quanto às consequências provocadas pelo descarte dos telemóveis, fez com que cada vez mais as

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empresas e até os consumidores adotassem novos comportamentos (Fábio Ytoshi Shibao, 2010).

Todos os anos deixam de ser usados milhões de telemóveis em Portugal, ou porque estão obsoletos ou porque o consumidor quer comprar um novo. A maior parte das vezes, o consumidor sofre de pressão (social) para adquirir um novo aparelho, mais moderno e inovador. Cada vez mais é importante abordar esta temática de reciclagem de telemóveis e o seu impacto ambiental, num período em que se fala de sustentabilidade e de reaproveitamento do que nos rodeia. A logística inversa é fundamental na redução da quantidade de lixo gerado atualmente, sendo que, em Portugal, em 2019, o lixo eletrónico provocado pelos telemóveis corresponde a 992 mil toneladas.4

A logística inversa aplicada nas empresas torna possível o retorno dos telemóveis após a sua venda e utilização aos respetivos centros de produção, através de canais de distribuição inversos, agregando-lhes valor (Gonul Kochan et al., 2016). Uma eficiente implementação nas empresas requer uma estrutura logística apropriada e as mesmas devem explorar como aplicar a logística inversa no ciclo de vida do seu produto, com o objetivo de conseguirem alcançar metas de desenvolvimento sustentável e gerar lucros a partir da extração de valor desses processos. A inclusão da logística inversa nos processos das empresas pode gerar aumentos de produtividade e lucros através do uso de produtos reciclados ou recondicionados, tornando, assim, a reutilização economicamente atrativa (Fleischmann, Krikke, Dekker, & Flapper, 2000). Assim, do mesmo modo que as empresas desenvolvem processos logísticos eficientes para produtos novos, devem fazer o mesmo para produtos devolvidos, com consciência que os processos vão ser bem distintos (J. Stock, Speh, & Shear, 2002). É preciso ter em conta que este processo de recuperação dos materiais dos produtos usados é lucrativo apenas a longo prazo, uma vez que as entidades responsáveis demoram bastante tempo a preparar a estrutura organizacional necessária para incluir a logística inversa (Dowlatshahi, 2000).

Doutro passo, o descarte dos produtos ao longo do tempo deixou de ser responsabilidade do consumidor e passou a ser das próprias empresas ou fabricantes, por razões de cariz ambiental, económico ou legislativo, uma vez que os produtos passaram a ser

4 Lixo eletrónico. (2020). Retrieved 16 July 2020, from

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reciclados ou recondicionados por eles. Os regulamentos ambientais também contribuíram para que as empresas se tornassem cada vez mais responsáveis pelos seus produtos finais e residuais (Dowlatshahi, 2000). Os consumidores podem agora devolver a maior parte dos produtos dentro do período de garantia definido pelas empresas, o que integra o serviço pós-venda, para os produtos que não respondam às suas necessidades ou quando atinjem o fim da sua vida útil.

À medida que as empresas investigam a sua capacidade para reutilizar, reciclar ou recondicionar os produtos, cada vez menos produtos são descartados, pois estas entendem que são beneficiadas juntamente com o meio ambiente (Phelan, 1996). No entanto, nem todas as empresas implementam este processo, mesmo que as pesquisas indiquem um consenso de que a logística inversa pode ajudar a manter o desenvolvimento sustentável e gerar lucros adicionais (Yuan, P.H.,2006).

As oportunidades de reutilização implicam em todos os casos um novo fluxo do material desde o consumidor final até ao produtor e a gestão deste fluxo é muito importante, visto que se comporta de forma contrária à logística convencional (Kopicki, 1993; J. R. Stock, 1992).

No que diz respeito aos telemóveis, considerados como o aparelho eletrónico mais omnipresente em todo o mundo, por existirem em grandes quantidades e apresentarem um custo reduzido, são dos produtos eletrónicos com maior valor, do ponto de vista da reciclagem (Kumar, 2017).Os desenvolvimentos tecnológicos, razões psicossociológicas e atualizações contribuem para o facto do seu ciclo de vida não ser, em média, superior a dois anos (Wilson et al., 2017).

Uma vez que os sistemas de logística inversa, na sua definição, envolvem a gestão do fluxo de produtos destinados à remanufactura, reciclagem ou reutilização, através do uso eficaz dos recursos (Dowlatshahi, 2000), faz com que o telemóvel e as suas peças, tenham grande potencial para serem recicladas, e, por fim, reutilizadas. Outra definição descreve a logística inversa como a movimentação de mercadorias do consumidor até ao produtor (Murphy, Paul R. & Richard F. Poist,1988) e, como tal, faz com que o consumidor final

assuma agora o papel de produtor que tem um produto acabado para o levar até ao comprador, que neste estudo, são os responsáveis pela reciclagem dos telemóveis. O retorno dos telemóveis por parte do consumidor constitui, então, a principal preocupação da logística inversa, por ser quem dá início a todo o processo. Os fluxos logísticos seguem então novamente, mas na ordem inversa (Gonul Kochan et al., 2016; Zikmund & Stanton, 1971).

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Esta movimentação do produto num canal inverso, na maioria das vezes não se verifica, uma vez que a maior parte dos sistemas logísticos estão mal equipados (James R. Stock, 1981). O depósito dos telemóveis em aterros sanitários, por exemplo, não é uma solução viável, visto que a maioria destes podem ser reciclados e reaproveitados de forma a gerar valor, sendo que o benefício económico é uma das motivações para a implementação dos processos de logística inversa nos países desenvolvidos. No entanto, este processo também acarreta alguns custos e as empresas têm de o planear como uma estratégia a longo prazo. Este tema tornou-se para muitas empresas da indústria eletrónica uma questão estratégica crítica.

O descarte destes produtos representa um problema significativo e crescente no que diz respeito ao desperdício provocado pelos resíduos gerados (Dalrymple, 2007). Esta questão é emergente e cada vez mais importante devido à escassez de recursos, principalmente os usados na composição dos telemóveis. Por sua vez, entender se os consumidores estão ou não sensibilizados com esta temática da devolução dos mesmos quando chegam ao fim da sua vida útil ou se tornam dispensáveis, é imprescindível.

Pelo facto de algumas reservas mundiais destes recursos estarem em declínio e com preços cada vez mais elevados, o Parlamento Europeu preparou uma listagem de todas as matérias primas potencialmente críticas, onde incluiu materiais importantes para o fabrico dos telemóveis (Chancerel, Meskers, Hagelüken, & Rotter, 2009). Desta perspetiva, os telemóveis são vistos como tendo elevado valor percebido e, consequentemente, os resíduos provocados são ricos em recursos, sendo que, se reciclados, geram grande benefício económico (Amin, Zhang, & Akhtar, 2017). As matérias constituintes dos telemóveis precisam de ser processadas para gerarem a criação de novos produtos sem ter que utilizar novos recursos e reaproveitar os usados (Dalrymple, 2007).

Atualmente, a taxa de reciclagem dos resíduos provocados pelos telemóveis apresenta valores ainda muito baixos (Wang et al., 2017). Por isso, há uma necessidade imediata de melhoria da coleta, reutilização e reciclagem destes aparelhos no fim da sua vida, de modo a contribuir simultaneamente para a conservação dos recursos naturais e melhorar o lucro das empresas por aproveitamento de recursos utilizados.

A maioria dos consumidores prefere ainda armazenar o seu lixo eletrónico em casa, em vez de o devolver ao produtor. O facto de o telemóvel ter um tamanho pequeno também não contribui para motivar o consumidor a reciclar. Isto limita uma aplicação bem-sucedida da logística inversa. Compreender as atitudes e comportamentos do consumidor é um pré-requisito para que este comece a ter incentivo para reciclar (Bai, Wang, & Zeng, 2018).

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Em Portugal, tem-se verificado um crescimento no uso dos telemóveis. A taxa de penetração aumentou 26% nos últimos catorze anos. No ano de 2018, 96,5% da população residente em Portugal com mais de dez anos detinha pelo menos um telemóvel (Grupo Marktest, 2018). No final de 2018 verificou-se uma taxa de penetração de 170,5 por cada 100 habitantes e o número de assinantes do serviço móvel atingiu 11,9 milhões de habitantes. Também no final desse ano se pôde concluir que 9,1% da população usufruía de mais do que um telemóvel.5

2.3 Teoria do Comportamento Planeado

De modo a entender esta relação atitude-comportamento do consumidor, na literatura, tem sido comum usar-se a ferramenta do modelo TCP (Teoria do Comportamento Planeado) que consegue prever diversos comportamentos do mesmo em várias áreas (Kumar, 2017). Esta teoria explica os determinantes chave que levam o consumidor a seguir determinado comportamento e postula que as suas intenções de realizar diferentes tipos de comportamento vão ser previstas em conjunto pela intenção comportamental, formada pela combinação das atitudes, normas subjetivas e comportamento do controlo percebido (Kumar, 2017; Zhang, Wu, & Rasheed, 2020).

No âmbito da reciclagem, este é um dos modelos mais usados para avaliar o comportamento dos consumidores e explicar quais os fatores que o influenciam (Gonul Kochan et al., 2016). Este modelo é uma evolução do modelo da Teoria da Ação Racional (TAR) que permite também prever uma elevada gama de comportamentos humanos (Park & Ha, 2014). Uma das razões pelas quais este modelo foi estendido para a TCP prende-se com a focalização em fatores pessoais e sociais, considerados por si só voláteis quando pretendem explicar as intenções dos consumidores (Povey, Conner, Sparks, James, & Shepherd, 2000). A TCP, como extensão dessa versão, permite, para além do foco nesses fatores, ter em conta os recursos pessoais e ambiente envolvente na sua análise, acabando por ser assim uma versão mais abrangente que nos permite examinar de forma mais clara as intenções dos consumidores (Povey et al., 2000). A TAR conta apenas com dois fatores base

5 Serviços móveis - 2018. (2020). Retrieved 28 February 2020, from

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para avaliar as intenções dos consumidores: a sua atitude perante o desempenho de determinado comportamento e a norma subjetiva (Povey et al., 2000).

2.3.1 Atitude

A atitude em relação ao comportamento refere-se ao grau em que uma pessoa tem uma avaliação favorável ou desfavorável relativamente ao comportamento em questão e, quanto mais favorável for a atitude em relação a um comportamento, mais forte será a intenção do indivíduo em realizá-lo (Tarkiainen, 2005). Esta é estabelecida como um elemento de previsão do comportamento humano, pelo que o seu papel é determinante para influenciar o comportamento do consumidor (Dixit & Badgaiyan, 2016).

Vários estudos na literatura sugerem que a atitude em relação ao comportamento de reciclagem determina de forma positiva a intenção de reciclagem. Tarkiainen (2005) estudou as intenções de compra de alimentos orgânicos entre os consumidores e chegou à conclusão de que havia uma associação positiva entre as atitudes dos consumidores e as suas intenções. Outro estudo, no qual foram abordadas as intenções dos consumidores em regressar a um hotel ecológico, relatou que as atitudes eram a variável que mais influenciava o comportamento dos consumidores. Essas atitudes eram formadas durante a estadia e tinham um papel fundamental na decisão de repetir a experiência (Han & Kim, 2010). Deste modo, acredita-se que se um indivíduo associar resultados favoráveis a determinada atitude, a probabilidade de realizar esse comportamento é mais elevada. No entanto, apesar de existirem estudos em que o efeito da atitude é contrário ao proposto anteriormente (Dixit & Badgaiyan, 2016), a maioria dos estudos remete para o efeito positivo da mesma na intenção e comportamento do consumidor (Oskamp et al., 1991).

2.3.2 Normas subjetivas

No que diz respeito às normas subjetivas, estas estão relacionadas com a pressão social percebida para se envolver em determinado comportamento baseado nas perceções dos indivíduos sobre aquilo que as outras pessoas querem que eles façam (Shan & King, 2015). Podem também constituir motivações para cumprir as expetativas dos outros que o rodeiam.

Estudos anteriores demonstram que as normas têm um impacto positivo no comportamento de reciclagem e que devem ser incluídas no modelo da previsão do

(19)

12

comportamento do consumidor (Gonul Kochan et al., 2016). Um estudo realizado em Hong Kong por K. Chan (1998) destacou a importância das normas subjetivas, na medida em que os consumidores eram encorajados a participar na reciclagem. Também outro estudo na Escócia, por Tucker (1999), demonstrou o mesmo, onde foi possível encontrar uma relação linear entre a taxa de reciclagem e a colocação do lixo de todas as famílias próximas.

2.3.3 Controlo do comportamento percebido

A TCP incorpora mais um fator: controlo do comportamento percebido, que está relacionado com a importância que passou a ser dada aos recursos e oportunidades que os consumidores detêm para realizar um determinado comportamento, funcionando assim como influenciadores desse mesmo comportamento e intenções dos mesmos (Povey et al., 2000).

Olhando para a literatura, esta aponta que as ações e comportamentos do consumidor são consideravelmente influenciados pelo controlo do comportamento percebido, sendo que se verificou um impacto significativo nas intenções de realizar um comportamento pró-ambiental num estudo realizado na Índia. Nesse estudo, em que se determinavam quais os fatores psicológicos que influenciavam os consumidores a devolver o lixo eletrónico, concluiu-se que o controlo percebido afetava significativamente a intenção do retorno (Dixit & Badgaiyan, 2016).

Esta variável traz, então, maior precisão na previsão comportamental, uma vez que os comportamentos não estão sob o controlo dos consumidores (Trafimow & Duran, 1998).

2.3.4 Abordagens alternativas

Na literatura, alguns estudos identificaram vários fatores que influenciam a adoção da reciclagem por parte do consumidor como: retorno económico, conveniência, influência familiar e de amigos, valores, normas sociais, consciência ambiental, motivação e oportunidade (Kumar, 2017). Um estudo semelhante que pretendia identificar quais os motivos pelos quais o consumidor armazenava os telemóveis em casa, mostraram a importância da educação, idade e género como fatores influenciadores e como razão mais frequente para o fazerem, a possibilidade de uso no futuro (Nowakowski, 2019).

(20)

13

O estudo mais semelhante realizado em Portugal prende-se com a análise dos determinantes do comportamento de compra de produtos verdes, com base na Teoria do Comportamento Planeado (Oliveira-Brochado, Oliveira-Brochado, & Caldeira, 2015).

Contudo, a validade do modelo TCP associado à reciclagem dos telemóveis nunca foi testada por ser um processo, menos frequente e mais especializado por envolver materiais perigosos. Ademais, os telemóveis, apresentam um valor considerável no fim da sua vida útil, uma vez que os seus componentes têm a possibilidade de serem ainda usados ou revendidos de forma individual (Kumar, 2017).

Desta forma, e por existirem poucos estudos neste âmbito, torna-se imperativo aferir a sensibilidade do consumidor face a esta temática de reciclagem dos resíduos eletrónicos provenientes dos telemóveis, de modo a compreender em que medida é que a população portuguesa está ou não consciente e se age ou não a pensar no ambiente, contribuindo para uma mais eficiente implementação do sistema de logística inversa.

(21)

14

3. Estudo empírico

3.1 Modelo e hipóteses de investigação

Esta dissertação tem como objetivo avaliar quais os fatores determinantes do comportamento do consumidor português em relação à intenção de reciclar telemóveis. Como tal, o modelo de investigação desenvolvido para este estudo surge de uma extensão do modelo da TCP, utilizando variáveis adicionais, de modo a fortalecer a capacidade de explicar certos comportamentos. Esse conjunto de variáveis juntamente com as do TCP estão demonstradas na Figura 1.

As questões a que este estudo pretende responder são as seguintes: Q1 - Quais as variáveis que influenciam a intenção de reciclar?

Q2 - Qual o impacto de cada variável na intenção de reciclar?

Figura 1-Modelo de investigação

Apesar do modelo TCP ser aceite na previsão do comportamento de reciclagem, ainda não foi validado quando se trata de reciclagem de bens eletrónicos, como o caso dos telemóveis (Kumar, 2017). Este modelo permite a incorporação de variáveis adicionais, desde que as mesmas tenham uma contribuição significativa para a explicação fornecida pelo modelo (Ramayah, Lee, & Lim, 2012). De modo a prever com maior eficácia o comportamento do consumidor e trazer maior previsibilidade na sua medição, foram

(22)

15

acrescentadas duas variáveis ao modelo: benefícios ambientais e consciencialização ambiental. O presente estudo testa a influência destas variáveis na intenção e comportamento do consumidor de reciclagem em Portugal.

Quando associado este modelo à reciclagem, previu-se em estudos anteriores que a intenção de reciclar dos consumidores aumentava à medida que aumentava a sua atitude positiva face à reciclagem (Park & Ha, 2014). Ou seja, se considerarem a reciclagem dos telemóveis como algo que lhes agrade ou mesmo uma escolha sensata a fazer, constata-se um aumento da propensão para desempenhar determinado tipo de comportamento (Tarkiainen, 2005).

Deste modo, formula-se a seguinte hipótese:

H1 - A atitude face à reciclagem está positivamente relacionada com a intenção de reciclar telemóveis.

Estudos anteriores apontam igualmente que, quando os consumidores têm em conta as opiniões de familiares e amigos, a sua intenção de reciclar aumenta caso estes se comportem de modo a beneficiarem o ambiente, como reciclar telemóveis ou mesmo considerarem essa atividade correta (Park & Ha, 2014). Também caso os indivíduos sofram de maior pressão para realizarem determinado comportamento, é mais provável que executem esse comportamento (Zhang et al., 2020). Estudos correlacionais comprovaram que a reciclagem feita por amigos ou mesmo vizinhos previram o comportamento de reciclagem do próprio indivíduo (Cheung, Chan, & Wong, 1999). Estipula-se então que: H2 - As normas subjetivas relacionam-se positivamente com a intenção de reciclar telemóveis.

Todas as influências, externas ou não, têm um papel significativo no comportamento dos indivíduos (Wan, Shen, & Yu, 2015). No contexto de reciclagem, se um indivíduo perceciona que outros estão envolvidos em comportamentos de reciclagem e que são socialmente aceitáveis, este tende a adotar esse mesmo comportamento (Wan et al., 2015). O controlo do comportamento percebido advém de uma capacidade do consumidor estar ou não sob controlo das atividades de reciclagem ou reutilização dos telemóveis (Kumar, 2017). O papel desta variável no comportamento de reciclagem de telemóveis é crucial na

(23)

16

previsão do comportamento dos consumidores, pois este vai ser influenciado pelo nível de controlo que possui, pelas dificuldades percecionadas e valores morais (Kumar, 2017). Várias investigações na literatura mostraram que o comportamento do consumidor é fortemente influenciado pela sua confiança na capacidade de conseguir realizá-lo, ou mesmo por fatores como a proximidade dos centros de coleta, esforços necessários, entre outros (Bandura, 1977; Cheung et al., 1999).

Neste estudo, o controlo percebido é medido através da facilidade com que encontra tempo para reciclar e na criação de hábitos na reciclagem. Deste modo sugere-se:

H3 - O controlo do comportamento percebido está positivamente relacionado com a intenção de reciclar telemóveis.

Os benefícios que os consumidores podem alcançar com a reciclagem dos telemóveis vão ser considerados neste estudo. Compreender a forma como os consumidores percecionam determinada ação e comportamento é muito importante, uma vez que as suas perceções em termos de custos e benefícios influenciam a sua disposição de agir (Tobler, Visschers, & Siegrist, 2012). Estudos anteriores demonstraram que os comportamentos pró-ambientais, como a reciclagem, são influenciados pelo conhecimento acerca dos custos e benefícios que advêm dessa atividade, sendo então que os custos e benefícios devem ser determinantes das ações dos consumidores, uma vez que contribuem para a vontade de agir ou não (Tobler et al., 2012). Na literatura, foi estudado que quanto mais altos forem os níveis de consciencialização dos consumidores dos resultados que podem alcançar com a reciclagem, maior será a probabilidade de o fazerem (Wan et al., 2015). Ou seja, se o consumidor estiver ciente de que pode contribuir de forma positiva para o ambiente se reciclar, maior vai ser a probabilidade de o fazer. Outro estudo realizado por Davies (2002) explicou que os benefícios percebidos se referem à consciência dos resultados comportamentais e que, um maior nível de consciência dos resultados desejáveis da reciclagem, aumenta a intenção de realizar a reciclagem. Ou seja, se o consumidor percebe um nível superior de benefícios quando recicla, este estará mais propenso a apoiar medidas de política de incentivo e mesmo a reciclar (Wan et al., 2015).

Outros estudos sugeriram também que os benefícios percebidos eram fatores que significativamente influenciavam a intenção de reciclar (Chen & Tung, 2009; Stern, 1992; Tonglet et al., 2004). Os benefícios esperados estão relacionados principalmente com

(24)

17

benefícios ambientais que podem derivar da reciclagem dos telemóveis. Estes últimos podem advir da economia da energia ou mesmo da redução de resíduos sólidos, através da recuperação ou reutilização de componentes usados dos telemóveis (Michaud & Llerena, 2011).

Deste modo, sugere-se então que os benefícios percebidos da reciclagem sejam adicionados ao modelo como possível fator influenciador da intenção de reciclagem, propondo-se a seguinte hipótese:

H4 - As expectativas relativamente aos benefícios ambientais da reciclagem de telemóveis estão positivamente relacionadas com a intenção de os reciclar.

A outra variável adicionada prende-se com a questão ambiental que tem vindo a ganhar cada vez mais importância e, consequentemente, os consumidores estão cada vez mais conscientes das fragilidades do nosso meio ambiente e da necessidade de preservar os recursos naturais. Daí advêm mudanças de comportamentos de compra mais ecológica, de comportamentos mais ecológicos, entre outras (Kalafatis et al., 1999; Laroche et al., 2001; Manaktola & Jauhari, 2007). De forma geral, pressupõe-se que a preocupação ambiental influencia o comportamento ecológico do consumidor, desde que este não implique custos elevados ou seja pouco conveniente. A reciclagem é considerada uma atividade de baixo custo, sendo que facilita a transformação e mudanças de comportamento dos consumidores (Tobler et al., 2012). Contudo, a literatura indica-nos que a preocupação ambiental demonstrada pelos consumidores não é por si só suficiente para superar as barreiras, sendo que o custo tem um papel muito forte nesta relação (Tobler et al., 2012). Desde que a maioria dos consumidores se considere consciente a nível ambiental, acredita-se que esta consciencialização pode ter um impacto significativo no comportamento dos mesmos (Kumar, 2017).

Estudos anteriores concluem que quanto mais conscientes os consumidores estiverem relativamente à situação ambiental da atualidade, maior é a probabilidade de envolvimento nesta temática de reciclagem de telemóveis e ainda que a sua preocupação ambiental faz aumentar a sua disposição de mudar os seus comportamentos (Tobler et al., 2012). Sugere-se então:

(25)

18 H5 - A consciencialização ambiental está positivamente relacionada com a intenção de reciclar telemóveis.

Adicionalmente, formulou-se a Hipótese 6, que diz respeito ao efeito moderador que a idade pode ter na intenção de reciclagem dos telemóveis. Além dos aspetos comportamentais, foi adicionada a variável demográfica idade. A literatura considera esta variável sociodemográfica relevante no âmbito de comportamentos favoráveis ao meio ambiente, como a reciclagem (Meneses & Palacio, 2005). Vários estudos na literatura relevam o contributo da idade na previsão do comportamento pró-ambiental dos consumidores (Xu, Ling, Lu, & Shen, 2017). Assim sendo, é expectável a correlação inversa entre a intenção de reciclar e a idade do consumidor. Ou seja, quanto mais jovem for o consumidor, maior a sensibilidade com a temática do ambiente e maior a probabilidade de reciclarem telemóveis. Num estudo na Califórnia apurou-se que os indicadores idade e educação eram os que mais influência tinham na disposição das famílias para reciclar lixo eletrónico (Saphores et al., 2006). No mesmo estudo, concluiu-se que os jovens com idades compreendidas entre os 18 e 35 anos e os adultos com mais de 65 anos são os menos propensos à reciclagem de lixo eletrónico. Sendo assim, a faixa etária intermédia é mais sensível às questões ambientais e, por isso, mais propensa a reciclar. Outro estudo realizado em Macau, país onde se gera grandes quantidades de lixo eletrónico sem tratamento adequado, pretendia discutir as atitudes e a disposição dos indivíduos para pagar a reciclagem do lixo eletrónico. Em concordância com o estudo realizado na Califórnia, verificou-se igualmente que, em Macau, o nível de educação e a idade eram os fatores mais significativos no comportamento de reciclagem. Concluiu-se ainda que a idade é estatisticamente significativa e que geralmente são os jovens que, por possuírem maior conhecimento sobre a proteção ambiental, têm maior propensão para adotar comportamentos como a reciclagem (Song, Wang, & Li, 2012). Deste modo, a complementar as hipóteses anteriores, sugere-se que:

(26)

19 3.2 Metodologia de investigação

3.2.1 Tipo de método

Esta dissertação tem como objetivo avaliar a sensibilidade do consumidor português no que diz respeito a esta temática e de que forma a consciencialização e conhecimento da realidade alteraria o comportamento de consumo e reciclagem dos telemóveis.

Neste estudo empírico, optou-se por uma metodologia de cariz quantitativo, visto que o estudo se baseia numa abordagem dedutiva, em que se pretende descrever as intenções dos consumidores ao mesmo tempo que se estabelece relações entre as variáveis (Monteiro & Martins, 2013).

O instrumento de observação foi o indireto e a recolha de dados foi efetuada a partir de inquéritos online, de modo a poder analisar as relações entre as variáveis propostas e ainda recolher informação de forma significativa. Para além disso, permitem ainda tratar de forma acessível toda a informação recolhida (Mark Saunders, 2009).

Para validar o modelo proposto anteriormente recorreu-se ao Modelo de Equações Estruturais, com recurso ao Método dos Mínimos Quadrados Parciais e ao software SmartPLS 3 para observar a relação entre as variáveis, uma vez que permite testar relações entre estas,

como proposto no estudo(Hair, Ringle, & Sarstedt, 2011).

3.2.2 Estrutura do questionário

Os inquiridos, antes de responderem, começaram por ler um breve enquadramento do estudo. De seguida, o inquérito foi baseado em escalas já desenvolvidas e testadas na literatura, com base nas variáveis escolhidas expressas no Quadro 1.

Todas as questões foram medidas numa escala de likert de 1 a 5, sendo 1 “Discordo Totalmente” e 5 “Concordo Totalmente”. O inquérito era composto por 23 questões fechadas de resposta obrigatória, de modo a evitar questionários incompletos e aumentar a eficiência e rapidez, recolhendo muitas respostas num curto espaço de tempo (Mark Saunders, 2009). O questionário completo pode ser consultado em anexo (Anexo I).

(27)

20 Quadro 1-Constructos, questões e respetivas fontes

Constructo Questões Fonte(s)

Atitude

Fazer reciclagem de telemóveis contribui para a sociedade.

(Yue Zhang, Song Wu, Muhammad Imran Rasheed, 2019)

e (Yadav & Pathak, 2016) Reciclar telemóveis deveria ser uma

responsabilidade social.

Reciclar telemóveis é uma boa ideia. Reciclar telemóveis é uma escolha sensata.

Reciclar telemóveis é algo que me agrada.

Norma subjetiva

As pessoas que são importantes para mim aprovariam que eu reciclasse telemóveis.

(Tonglet 2000) e (Paul et al. 2016) As pessoas que são importantes para

mim aprovam que eu recicle telemóveis.

As pessoas que são importantes para mim querem que eu recicle

telemóveis.

As pessoas cuja opinião eu valorizo gostam que eu recicle telemóveis.

Controlo percebido

É fácil para mim habituar-me a reciclar telemóveis.

(Anita Kumar, 2017) É fácil para mim encontrar tempo

para reciclar telemóveis. É fácil para mim encontrar

informação acerca da reciclagem dos telemóveis.

Benefícios ambientais

A reciclagem dos telemóveis permite diminuir a poluição.

(Sidique 2010) A reciclagem dos telemóveis permite

conservar os recursos naturais. A reciclagem dos telemóveis permite melhorar o meio ambiente.

(28)

21 Consciência

ambiental

Acredito que sou responsável por reduzir o nível de desperdício gerado pela sociedade.

(Anita Kumar, 2017), (Yadav & Pathak, 2016) e (Tarkianien &

Sundqvist, 2005) Acredito que sou responsável, como

consumidor, em reciclar os produtos que compro.

Escolho cuidadosamente o que compro porque me preocupo com o ambiente.

Considero-me um consumidor ecologicamente consciente. Costumo ter em mente questões ambientais.

Intenção de reciclar

No futuro, tenho intenção de (continuar a) devolver telemóveis para reutilização ou reciclagem.

(Cigdem Gonul Kocha,2016) e (Lee,

Hsu, Jan & Kim, 2010) No futuro, tenho a intenção de

(continuar a) reciclar telemóveis. Planeio (continuar a) reciclar telemóveis num futuro próximo. Farei um esforço para (continuar a) reciclar telemóveis no futuro.

Para efeitos de caraterização amostral foi recolhida informação sobre o género, idade e habilitações literárias de cada indivíduo, uma vez que, para além dos aspetos comportamentais, se deve incluir a relação entre estas variáveis (Gonul Kochan et al., 2016).

Antes do questionário ser implementado foi testado numa amostra reduzida, de modo a ser possível identificar dificuldades no preenchimento e a sua consistência.

3.2.3 Recolha de dados

O questionário foi publicado através da ferramenta Google Docs e enviado através do email institucional da Universidade do Porto, de modo a que todos os estudantes de Licenciatura, Mestrado e Pós-graduação de todas instituições da universidade tiveram acesso. A disponibilização e partilha do questionário por este meio permitiu rapidez na obtenção de respostas sem qualquer gasto monetário. O questionário esteve disponível online

(29)

22

desde o dia 15 maio até 29 de junho, onde foi possível reunir 438 respostas, sendo que a quantidade recomendada foi ultrapassada, pelo que se considera que a amostra é adequada.

O inquérito contava com 23 questões e, sendo o número de respostas válidas obtidas de 434, o número mínimo de 115 respostas foi ultrapassado de forma clara.

No que diz respeito à dimensão da amostra necessária é recomendado que o número de observações corresponda a pelo menos cinco vezes o número de questões de cada variável a ser analisada, enquanto que uma amostra com maior qualidade deverá ser superior a dez vezes (Joseph F. Hair, 2010).

3.3 Análise da amostra

3.3.1 Caraterização da amostra

Das 438 respostas obtidas, apenas 434 foram consideradas válidas. Através de uma análise descritiva relativamente às questões sociodemográficas, foram consideradas género, faixa etária e habilitações literárias. Dos questionários válidos, foi possível apurar que a maioria dos inquiridos pertencem ao género feminino com um total de 311 (72%) e 121 do género masculino (28%), visível na Figura 2.

Figura 2-Género dos inquiridos

No que diz respeito à faixa etária, representada na Figura 3, é possível observar que a amostra é constituída por diferentes idades, sendo que maioria dos inquiridos tem entre

72% 28%

(30)

23

18-25 anos (42%), seguindo-se os indivíduos entre 41-60 (31%). A média das idades dos inquiridos situa-se nos 41,25 anos.

Figura 3-Idade dos inquiridos

Quanto às habilitações literárias da amostra em questão, a maioria dos inquiridos possui uma formação superior, em que 158 possuem um grau de licenciatura (36%), seguindo-se 112 com pós-graduação ou doutoramento (26%), 85 com ensino básico (20%) e, por último, 79 com Mestrado (18%) (Figura 4).

Figura 4-Habilitações literárias dos inquiridos 42% 24% 31% 3% 18-25 26-40 41-60 + de 60 20% 36% 18% 26%

(31)

24 3.4 Análise de dados

Para realizar a análise estatística dos dados recorreu-se ao programa SmartPLS, uma vez que o mesmo permite-nos analisar o modelo estrutural no seu todo, tal como medir a sua confiabilidade e validade (Demartini & Trucco, 2017). Para além disso, este programa é o mais adequado para esta investigação, dado que o modelo em causa é um Modelo de Equações Estruturais e o SmartPLS permite analisar com facilidade as relações das variáveis dependentes com a independente. O Anexo II contém a especificação do modelo de medida.

3.4.1 Análise descritiva

Nesta secção serão analisadas as variáveis propostas no modelo de forma descritiva através da moda, da média e do desvio padrão. A moda amostral é o valor mais comum que se encontra num conjunto de dados e, neste caso, é a resposta dada com maior frequência em cada uma das questões. A maioria das respostas apresentadas no Quadro 2 demonstra concordância total nas afirmações dadas, uma vez que a moda é 5. Contrariamente, os itens CP17 “É fácil para mim encontrar tempo para reciclar telemóveis”, NS12 “As pessoas que são importantes para mim querem que eu recicle telemóveis” e por último NS13 “As pessoas cuja opinião eu valorizo gostam que eu recicle telemóveis” apresentam moda 3. Isto pode significar que os inquiridos consideraram que era difícil para eles dedicarem parte do seu tempo à reciclagem e que não tinham qualquer conhecimento da opinião de reciclagem das pessoas que lhes são mais próximas cuja opinião valorizam. Para além disso, os consumidores consideram ainda que a informação disponibilizada acerca desta temática da reciclagem de telemóveis não é suficiente, uma vez que a variável CP 15 “É fácil para mim encontrar informação acerca da reciclagem dos telemóveis” é a que apresenta a moda de 2, a mais baixa relativamente às restantes.

No que diz respeito à média, esta indica onde se concentram as respostas dos inquiridos em cada uma das variáveis. Através do Quadro 2 é possível verificar que a variável que apresenta o valor mais elevado é AT7 “Reciclar telemóveis é uma boa ideia”, seguida da variável AT8 “Reciclar telemóveis é uma escolha sensata” e da variável BE20 “A reciclagem dos telemóveis permite melhorar o meio ambiente”. De um modo geral, a amostra concordou com quase todas as afirmações, exceto as variáveis que apresentam as médias mais baixas, como a CP15 “É fácil para mim encontrar informação acerca da reciclagem dos telemóveis” e a CP17 “É fácil para mim encontrar tempo para reciclar telemóveis”,

(32)

25

demonstrando assim que os inquiridos, para além de não encontrarem informação acerca da reciclagem dos telemóveis, não dispõem de tempo para fazê-la.

O desvio padrão, por sua vez, como medida de dispersão de dados relativamente à média, é importante para analisar se as respostas são ou não heterogéneas. Todos os itens não apresentam valores superiores a 1,23, sendo que as respostas dadas pelos inquiridos foram bastante homogéneas. A variável do controlo percebido é a que apresenta os valores de desvio padrão mais elevados, (Quadro 2), o que pode ser explicado pela discordância demonstrada pela facilidade com que veem a atividade de reciclar os telemóveis, pelo tempo que disponibilizam para a mesma e também pelo grau de acesso à informação acerca desta temática.

Quadro 2-Análise descritiva das variáveis

Variáveis Moda Média Desvio

padrão

Atitude

AT5-Fazer reciclagem de telemóveis contribui para a

sociedade. 5 4,47 0,77

AT6-Reciclar telemóveis deveria ser uma

responsabilidade social. 5 4,35 0,87

AT7-Reciclar telemóveis é uma boa ideia. 5 4,64 0,61

AT8-Reciclar telemóveis é uma escolha sensata. 5 4,58 0,65

AT9-Reciclar telemóveis é algo que me agrada. 5 4,39 0,84

Normas subjetivas

NS10-As pessoas que são importantes para mim

aprovariam que eu reciclasse telemóveis. 5 4,22 0,91

NS11-As pessoas que são importantes para mim

aprovam que eu recicle telemóveis. 5 4,15 0,93

NS12-As pessoas que são importantes para mim

querem que eu recicle telemóveis. 3 3,51 1,09

NS13-As pessoas cuja opinião eu valorizo gostam que

eu recicle telemóveis. 3 3,75 1,03

Controlo percebido

CP15- É fácil para mim encontrar informação acerca da

reciclagem dos telemóveis. 2 2,18 1,07

CP16-É fácil para mim habituar-me a reciclar

(33)

26

CP17-É fácil para mim encontrar tempo para reciclar

telemóveis. 3 3,34 1,23

Benefícios esperados ambientais

BE18-A reciclagem dos telemóveis permite diminuir a

poluição. 5 4,57 0,68

BE19-A reciclagem dos telemóveis permite conservar

os recursos naturais. 5 4,53 0,72

BE20-A reciclagem dos telemóveis permite melhorar o

meio ambiente. 5 4,58 0,65

Consciência ambiental

CA23-Acredito que sou responsável por reduzir o nível

de desperdício gerado pela sociedade. 5 4,47 0,74

CA24-Acredito que sou responsável, como

consumidor, em reciclar os produtos que compro. 5 4,55 0,69

CA28-Escolho cuidadosamente o que compro porque

me preocupo com o ambiente. 4 3,75 0,89

CA29-Considero-me um consumidor ecologicamente

consciente. 4 3,73 0,88

CA30-Costumo ter em mente questões ambientais. 4 4,12 0,87

Intenção de reciclar

IR31-No futuro, tenho intenção de (continuar a)

devolver telemóveis para reutilização ou reciclagem. 5 4,14 0,92 IR32-No futuro, tenho a intenção de (continuar a)

reciclar telemóveis. 5 4,12 0,95

IR33-Planeio (continuar a) reciclar telemóveis num

futuro próximo. 5 4,02 1,01

IR34-Farei um esforço para (continuar a) reciclar

telemóveis no futuro. 5 4,24 0,89

3.4.2 Análise fatorial

Depois da análise descrita acima em que foi caraterizada a amostra e analisada de forma descritiva, sucede-se uma análise da qualidade do ajustamento do modelo de medida utilizado à estrutura correlacional das variáveis em causa. Esta análise fatorial confirmatória (AFC) é uma técnica habitualmente empregue em Modelos de Equações Estruturais, sendo que vai ser a primeira etapa para avaliar o modelo de equações estruturais (Marôco, 2014).

A análise fatorial foi realizada com base numa ferramenta do SmartPLS denominada de “bootstrapping”, que define um número de subamostras, neste caso 1000, em que estima o modelo para cada subamostra com base em observações aleatórias provenientes do conjunto

(34)

27

de dados original. Quanto mais elevado for o número de subamostras, maior vai ser a estabilidade dos resultados apresentados (Marôco, 2014).

Para avaliar a fiabilidade dos resultados, ou seja, perceber a consistência interna das variáveis, calculou-se o Alpha de Cronbach (α), a Variância Média Extraída (AVE) e a Composite

Reliability (CR). O valor do Alpha de Cronbach varia entre 0 e 1, contudo apenas valores iguais

ou superiores a 0,6 devem ser tidos em consideração (P. Gageiro, 2003).

Com a observação do Quadro 3, pode-se verificar que todas as variáveis apresentam consistência e demonstram boa confiabilidade. As variáveis “Intenção de reciclar”, “Atitude” e “Benefícios ambientais”, segundo a escala M. H. P. e. J. N. Gageiro (2003), exibem uma consistência interna excelente, pelos valores de Alpha serem superiores a 0,9, seguindo-se as variáveis “Normas subjetivas” e “Consciência ambiental” com boa confiabilidade e, por último, o “Controlo percebido” com uma consistência questionável, no entanto, dentro dos parâmetros estipulados.

No que diz respeito aos valores de CR estes são aceitáveis quando superiores a 0,7 (Joseph F. Hair, 2010), sendo que todas as variáveis cumprem esse requisito por variarem entre 0,812 e 0,960. Os valores da AVE, pelo mesmo autor acima citado, devem ser superiores a 0,5 para que os fatores consigam explicar uma proporção considerável da variância total dos dados apresentados originalmente. Ou seja, se o valor da AVE for de 0,5, isto significa que essa variável explica 50% da variância dos indicadores (Joseph F. Hair, 2010). Todas as variáveis apresentaram valores do AVE acima do recomendado, entre 57% e 86%.

Ao considerar também na análise os pesos fatoriais (loadings), estes valores, caso sejam superiores a 0,5, são considerados aceitáveis, sendo que se forem superiores ou iguais a 0,7 são significantes e indicativos de uma estrutura bem definida. Neste caso, todos os pesos fatoriais são superiores a 0,694, com exceção da variável CP15 “É fácil para mim encontrar informação acerca da reciclagem dos telemóveis” que apresenta um peso fatorial de 0,471. Contudo, com exceção dessa variável, os valores indicam-nos que a estrutura do modelo se encontra bem definida e confirmando uma correlação forte entre os itens e os seus construtos (Joseph F. Hair, 2010) (Quadro 3).

Relativamente aos valores da estatística t (t-value), têm de ser superiores a 1,96 (p<0,05) para que os pesos fatoriais sejam considerados significativos. No Quadro 3 pode-se comprovar que isso pode-se verifica, demonstrando, assim, validade convergente entre as variáveis (Joseph F. Hair, 2010).

(35)

28 Quadro 3- Escalas de medida, dimensionalidade e confiabilidade

Item Loading t-value CR AVE

Atitude (α=0,905) 0,930 0,726

AT5-Fazer reciclagem de telemóveis

contribui para a sociedade. 0,823 32,933

AT6-Reciclar telemóveis deveria ser uma

responsabilidade social. 0,830 35,962

AT7-Reciclar telemóveis é uma boa ideia. 0,869 43,098

AT8-Reciclar telemóveis é uma escolha

sensata. 0,907 76,553

AT9-Reciclar telemóveis é algo que me

agrada. 0,828 32,690

Normas subjetivas (α=0,895) 0,927 0,760

NS10-As pessoas que são importantes para mim aprovariam que eu reciclasse

telemóveis.

0,858 40,885

NS11-As pessoas que são importantes para

mim aprovam que eu recicle telemóveis. 0,889 67,731

NS12-As pessoas que são importantes para

mim querem que eu recicle telemóveis. 0,848 48,569

NS13-As pessoas cuja opinião eu valorizo

gostam que eu recicle telemóveis. 0,891 67,257

Controlo percebido (α=0,795) 0,812 0,607

CP15- É fácil para mim encontrar informação acerca da reciclagem dos

telemóveis. 0,471 6,211

CP16-É fácil para mim habituar-me a

reciclar telemóveis. 0,920 82,753

CP17-É fácil para mim encontrar tempo

para reciclar telemóveis. 0,869 34,874

Benefícios ambientais (α=0,905) 0,940 0,840

BE18-A reciclagem dos telemóveis permite

diminuir a poluição. 0,907 48,450

BE19-A reciclagem dos telemóveis permite

conservar os recursos naturais. 0,905 61,337

BE20-A reciclagem dos telemóveis permite

(36)

29

Consciência ambiental (α=0,815) 0,871 0,574

CA23-Acredito que sou responsável por reduzir o nível de desperdício gerado pela sociedade.

0,694 17,632

CA24-Acredito que sou responsável, como consumidor, em reciclar os produtos que compro.

0,738 21,266

CA28-Escolho cuidadosamente o que compro porque me preocupo com o

ambiente. 0,794 31,424

CA29-Considero-me um consumidor

ecologicamente consciente. 0,760 21,866

CA30-Costumo ter em mente questões

ambientais. 0,799 32,096

Intenção de reciclar (α=0,945) 0,960 0,859

IR31-No futuro, tenho intenção de (continuar a) devolver telemóveis para reutilização ou reciclagem.

0,921 68,233

IR32-No futuro, tenho a intenção de

(continuar a) reciclar telemóveis. 0,953 117,140

IR33-Planeio (continuar a) reciclar

telemóveis num futuro próximo. 0,917 53,854

IR34-Farei um esforço para (continuar a)

reciclar telemóveis no futuro. 0,917 53,503

A validade discriminante foi também testada através da análise das correlações entre os constructos e a raiz quadrada das suas AVE. As raízes quadradas devem ser superiores à correlação verificada entre os constructos e, como se comprova pelo Quadro 4, a condição é respeitada (Fornell & Larcker, 1981). Para a validade discriminante ser suportada, para além dessa condição, a correlação entre os fatores tem de apresentar valores inferiores a 1, não excedendo 0,85, o que também se verifica analisando o Quadro 4 (Bagozzi & Yi, 1988). Ou seja, conclui-se então que as variáveis medem aspetos diferentes e não se sobrepõem.

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Figura 1-Modelo de investigação
Figura 2-Género dos inquiridos
Figura 3-Idade dos inquiridos

Referências

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