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The Communication of the Spirit Imaginary Through Pop Cinematography

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Academic year: 2021

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Gismair Martins Teixeira**

Resumo: conforme se infere dos estudos acerca do imaginário, toda representação

cultu-ral possui o seu compósito imagético particular que age, reage e interage com as demais instâncias representativas culturais e suas respectivas gamas de ima-gens. Neste trabalho, apresentaremos o imaginário espiritualista-espírita em interação com peças cinematográficas pop mediante nuances que caracterizam um processo de comunicação singular no contexto da lusofonia.

Palavras-chave: Espiritismo. Cinema. Imaginário.

O

espiritismo, como a maioria dos fenômenos culturais, apresenta uma matização estrutural significativa. Assim, neste estudo, adotaremos a linha de pensamento mais conhecida como espiritismo kardecista, muito embora os profitentes desse segmento considerem a terminologia inadequada. De maneira delimitativa, por-tanto, estaremos nos referindo ao sistema simbólico de crença surgido a partir da publicação da obra intitulada O livro dos espíritos, originalmente publicado em 18 de abril de 1857, de autoria de Allan Kardec, pseudônimo adotado pelo pedagogo francês Hippolyte Léon Denizard Rivail (1804-1869), bem como ao movimento que se lhe seguiu no tempo e no espaço e que fincou raízes profundas na cultura brasileira.

A partir da sistematização doutrinária promovida por Allan Kardec, todo um campo de imagens foi aos poucos sendo construído em torno desse segmento

espiritua-A COMUNICespiritua-AÇÃO DO IMespiritua-AGINÁRIO

ESPÍRITA

ATRAVÉS

DA CINEMATOGAFIA POP*

–––––––––––––––––

* Recebido em: 30.12.2016. Aprovado em: 28.03.2017.

** Doutor em Letras e Linguística pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás. Professor P-IV da Secretaria de Estado de Educação, Cultura e Esporte de Goiás, lotado no Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte, com área de atuação em Linguística, Letras e Artes.

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lista. Esse conjunto imagético tem se espraiado por plataformas comunicacio-nais diversas, dentre as quais se podem destacar o livro e as telas em seus mais variados formatos. Neste estudo, trataremos da conexão entre o imaginário de

três lócus discursivos distintos que, no entanto, se entrecruzam com bastante frequência no contexto cultural brasileiro: o espiritismo kardecista, a literatura e a cinematografia.

A interseção desses imaginários resulta numa peculiar divulgação do espiritismo no âmbito da lusofonia brasileira, que depende da recepção do espectador para que possa ser caracterizado como sendo explícita ou implícita.

IMAGINÁRIO, ESPIRITUALISMO E ESPIRITISMO

Em As estruturas antropológicas do imaginário, o pesquisador francês Gilbert Durand apresenta um conjunto vastíssimo de referências que servem de base para as suas abordagens em torno desse campo de estudos. Numa síntese de toda a conjuntura epistemológica que envolve o problema, Durand (2012, p. 18) de-fine o imaginário como sendo “o conjunto das imagens e relações de imagens que constitui o capital pensado do homo sapiens”.

Infere-se, pois, da definição durandiana, que as mais diversificadas áreas do conhecimento possuem o seu capital de imagens específico que pode rela-cionar-se com as demais instâncias do conhecimento. Áreas conexas podem apresentar um imbricamento que exija um olhar mais aproximado para a ne-cessária distinção em seus matizes imagéticos. Na abertura de O livro dos

es-píritos, por exemplo, Hippolyte Léon Denizard Rivail registra uma importante distinção entre espiritualismo e espiritismo:

Para se designarem coisas novas são precisos termos novos. Assim o exige a clareza da linguagem, para evitar a confusão inerente à variedade de sentidos das mesmas palavras. Os vocábulos espiritual, espiritualista, espiritualismo têm acepção bem definida. Dar-lhes outra, para aplicá-los à doutrina dos Espíritos, fora multiplicar as causas já numerosas de anfibologia. Com efeito, o espiri-tismo é o oposto do materialismo. Quem quer que acredite haver em si alguma coisa mais do que matéria, é espiritualista. Não se segue daí, porém, que creia na existência dos Espíritos ou em suas comunicações com o mundo visível. Em vez das palavras espiritual, espiritualismo, empregamos, para indicar a crença a que vimos de referir-nos, os termos espírita e espiritismo, cuja forma lembra a origem e o sentido radical e que, por isso mesmo, apresentam a vantagem de ser perfeitamente inteligíveis, deixando ao vocábulo espiritualismo a acepção que lhe é própria. Diremos, pois, que a doutrina espírita ou o Espiritismo tem por princípio as relações do mundo material com os Espíritos ou seres do

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mun-do invisível. Os adeptos mun-do Espiritismo serão os espíritas, ou, se quiserem, os espiritistas. Como especialidade, o Livro dos Espíritos contém a doutrina espí-rita; como generalidade, prende-se à doutrina espiritualista, uma de cujas fases apresenta. Essa a razão porque traz no cabeçalho do seu título as palavras: Filosofia espiritualista (KARDEC, 1995a, p.13).

Como se pode deduzir das palavras de Allan Kardec sobre a diferenciação entre o espiritua-lismo e o espiritismo, bem como da definição de Gilbert Durand sobre o imaginá-rio, ambas as vertentes terão por características imagens que em muitos aspectos se aproximam, mas que também podem estabelecer diferenciações entre ambas. Conforme o pesquisador independente espírita, Hermínio C. Miranda, autor de cerca

de quatro dezenas de obras com temática espiritista, a reencarnação é um dos itens que até um passado algo recente (MIRANDA, 2014) marcou a diferença entre o espiritualismo e o espiritismo, sendo que o primeiro não crê necessa-riamente no regresso do espírito à vida corporal, o que por sua vez é um postu-lado essencial para o segundo. Sobre a distinção espiritualismo x espiritismo, afirma o pesquisador brasileiro em tom conciliador e metafísico:

Pouco importa que o movimento tenha ficado conhecido como espiritismo ou espiritualismo, se era reencarnacionista ou não, se tinha ou não conotação re-ligiosa. Ao que tudo indica, trata-se de estratégia orquestrada nos planos es-pirituais da vida, com a finalidade de abrir os olhos da humanidade para uma realidade paralela não aceita, simplesmente porque não a podemos detectar com os cinco sentidos de que dispomos (MIRANDA, 2014, p. 103).

O livro dos espíritos (1995a) emblematiza, pois, em sua estrutura, uma série de pro-posições que enformam o imaginário doutrinal espírita, que é desdobrado em suas implicações na sequência das obras que constituem o que é denominado no movimento espírita brasileiro de pentateuco kardequiano, composto, além de O livro dos espíritos, pelas obras O livro dos médiuns ou guia dos médiuns

e dos evocadores (1996a), O evangelho segundo o espiritismo (1996b), O céu

e o inferno ou a justiça divina segundo o espiritismo (1995b) e A gênese: os milagres e as predições segundo o espiritismo (1995c)1.

Tópicos como sobrevivência do espírito à morte biológica, o seu retorno à vida corpo-ral em um novo corpo físico, além da comunicabilidade possível e constante entre os indivíduos radicados na dimensão espiritual e os radicados na dimen-sionalidade física constituem em suas múltiplas possibilidades de expressão, tanto artística quanto dissertativa, o cabedal imagético do espiritismo.

No Brasil, a sua divulgação se deu e se dá sobretudo mediante a produção discursiva es-crita, com destaque para as atividades mediúnicas de médiuns como Francisco

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Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco, dentre outros, que respondem por uma vasta produção psicográfica, caracterizada no imaginário espírita pela escri-ta que um ser de outra dimensão realiza através das mãos de um intermediário. De maneira ostensiva ou sutil, no entanto, há uma outra forma de comunicação da

mensagem espírita para um número significativamente exponencial de pes-soas no Brasil e no mundo que instaura, através da cinematografia, um caso bastante peculiar de referencialidade ao conjunto de imagens do espiritismo e do espiritualismo. Na seção seguinte, apresentaremos dois exemplos conexos e matizados de sutilezas do imaginário espiritista, que nem sempre se torna perceptível ao primeiro olhar.

CINEMATOGRAFIA E COMUNICAÇÃO ESPÍRITA

O conjunto de imagens que constitui o patrimônio cultural do espiritismo tem sido levado ao cinema em diversas oportunidades através de produções diversas. Mais recentemente, filmografia brasileira marcadamente espírita, como Chico

Xavier (2010) e Nosso lar (2010), têm apresentado a mensagem doutrinária espiritista ao público cinéfilo. São filmes em que é possível ao espectador identificar de imediato o conteúdo discursivo da doutrina sistematizada por Allan Kardec.

A cinematografia, sobretudo a hollywoodiana, tem produzido também peças cuja dis-cursividade relacionada ao imaginário kardequiano é imediatamente reco-nhecida. Amor além da vida, produção de 1998, dirigida por Vincent Ward e estrelada por Robin Williams, que narra a situação pós-morte dos protagonis-tas, e Os outros, filme dirigido por Alejandro Amenábar, estrelado por Nicole Kidman, que apresenta a relação entre os vivos e os mortos do ponto de vista desses últimos, são desse número que reverbera o imaginário do espiritismo e do espiritualismo de maneira ostensiva.

Contudo, há produções em que o conjunto de imagens relacionadas ao pensamento espírita kardecista é marcado por nuances nem sempre acessíveis ao primeiro olhar. Esta última afirmação sobre as nuances pode ser entendida tanto em sentido literal quanto metafórico. É o que se pode observar no filme

Interes-telar. Produção anglo-americana de 2014, dirigida por Christopher Nolan, o filme apresenta um enredo bastante peculiar, que vem tornando-se cada vez mais comum em sua abordagem geral nos últimos tempos, pois trata de uma humanidade desesperada em busca de um novo lar, já que a Terra se encontra

exaurida pela incúria humana.

Num futuro distópico, o planeta vive a ameaça de ver sua população dizimada, pois a fertilidade do solo se esgota rapidamente. A humanidade regride a um estágio fundamentalmente agrário, em que todos os recursos de inteligência e

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tecno-logia têm de voltar-se para a busca de uma solução para o problema da fome que de maneira fatal vai tornar-se uma realidade para as gerações seguintes. O único produto da terra que ainda nasce é o milho, que os especialistas percebem estar também com os dias contados em sua germinação.

Diante dessa realidade apocalíptica, a solução encontrada por um grupo de cientistas é a colonização de outros mundos com potencial para o processo de terrafor-mação. Curiosamente, esses mundos não seriam os vizinhos próximos, do sis-tema solar. O misterioso aparecimento de um buraco de minhoca – atalhos no espaço-tempo – nas proximidades de Saturno deixa os cientistas terrenos com a impressão de que talvez se trate de alguma ajuda extraterrena. Astronautas são enviados através do misterioso caminho para outro sistema, onde três pla-netas são pré-selecionados para a pesquisa de viabilidade de colonização. Na Terra, o ex-piloto da NASA, Cooper, tem a sua atenção despertada para a sua filha

Murphy, que acredita estar sendo visitada por fantasmas, que supostamente têm lhe enviado códigos secretos, que ainda não pôde decifrar, através da mo-vimentação de moeda que cai no chão da sala totalmente envolto em poeira da poluição generalizada que envolve o mundo. Em determinado momento, Cooper pretende provar à filha que não se trata de entidades misteriosas, mas constata que de fato há uma codificação sendo transmitida, formando um có-digo binário que aponta para uma coordenada.

Ao segui-la, Cooper e a filha encontram a base científica secreta que trabalha no pro-jeto de colonização de outros mundos, ocasião em que é convidado a integrar o projeto como piloto. Ao aceitar a missão, tem de abandonar a família, talvez para sempre, em função das distâncias espaciais, o que gera em Murphy gran-de sofrimento, pois acredita que jamais verá o pai novamente.

Os eventos fantasmagóricos que preparam a descoberta da base científica apresentam uma instigante correspondência com o imaginário espírita. Obras como As

mesas girantes e o espiritismo, de Zêus Wantuil (2005), apresentam uma re-lação de extraordinários acontecimentos sobrenaturais promovidos por forças ocultas. Mesas, cadeiras, estantes de livros, dentre outros móveis caseiros, serviram durante a história do espiritualismo como objetos que tiveram suas estruturas movidas e tangenciadas forças invisíveis com a finalidade de cha-mar a atenção das pessoas.

Em Interestelar, o móvel que o suposto fantasma mobiliza para contactar-se com Mur-phy e o pai é uma estante de livros. As obras perfiladas sofrem deslocamentos perceptíveis através de uma força desconhecida que somente terá sua proce-dência revelada nos momentos finais do filme, causando grande surpresa ao espectador em função de sua origem.

Todavia, uma particularidade bastante peculiar e quase invisível foi utilizada pelo di-retor Christopher Nolan nos instantes em que a força oculta esteve presente

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nas telas. Quando os livros se movem sutilmente na prateleira, a câmera se aproxima de um grosso volume enfileirado entre as demais obras. Na lombada do massudo livro se lê: “Arthur Conan Doyle – Obra completa”.

Conan Doyle marcou época na literatura universal com a criação do célebre persona-gem Sherlock Holmes, cujas aventuras de detetive embalaram gerações atra-vés dos livros e das adaptações cinematográficas, como ainda será abordado

mais adiante neste trabalho. Em uma obra de natureza autobiográfica, intitu-lada A nova revelação (1980), Arthur Conan Doyle relata a sua conversão ao espiritualismo-espiritismo, conforme é de domínio da historiografia literária. Após anos de pesquisas em torno dos fenômenos das mesas girantes, Conan Doyle se torna

um pregador da nova crença, proferindo conferências em diversas cidades e países. Sobre os insólitos fenômenos sobrenaturais que estuda ao longo do tempo, bem como seus agentes produtores e intermediários – os espíritos e os médiuns, ainda conforme a definição de imaginário durandiana –, o criador de Holmes e Dr. Wat-son relata em História do espiritismo (2008) uma série de sessões em que os mais diversos fenômenos mediúnicos puderam ser testemunhados pelos mais diferentes e seletos grupos de curiosos e estudantes da fenomenologia espiritista.

Ao relatar as sessões realizadas por um médium de nome Mr. Evan Powell, Conan Doyle descreve fenômenos que remetem de alguma forma à estante fantasma-górica de Interestelar:

No nível de Miss Besinnet está Mr. Evan Powell, com a mesma variedade, mas nem sempre com o mesmo tipo de poderes. Os fenômenos luminosos de Powell são igualmente bons. Sua produção de voz é melhor. O autor ouviu vozes de Espíritos tão altas quanto as humanas comuns e se recorda de uma ocasião em que três falavam ao mesmo tempo — uma a Lady Cowan, outra a Sir James Marchant e uma terceira a Sir Robert McAlpine. Os movimentos de objetos são comuns nas sessões de Powell e ‘numa ocasião uma estante de 60 libras foi suspensa durante algum tempo, sobre a cabeça do autor’ (DOYLE, 2008, p.292, grifo nosso).

Assim, o imaginário que se relaciona a uma vasta gama de fenômenos mediúnicos comum ao espiritualismo e ao espiritismo aparece de forma bastante sutil na referenciada produção fílmica de Christopher Nolan, o que remete aos apontamentos da pes-quisadora canadense Linda Hutcheon, que estabelece uma nova proposta episte-mológica no que diz respeito ao conceito de paródia em Uma teoria da paródia: ensinamentos das formas de arte no século XX. Diz a autora sobre a paródia:

A natureza textual ou discursiva da paródia (por oposição à sátira) é evidente no elemento odos da palavra, que significa canto. O prefixo para tem dois sig-nificados, sendo geralmente mencionado apenas um deles — o de ‘contra’ ou

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‘oposição’. Desta forma, a paródia toma-se oposição ou contraste entre textos. Este é, presumivelmente, o ponto de partida formal para a componente de ridí-culo pragmática habitual da definição: um texto é confrontado com outro, com a intenção de zombar dele ou de o tornar caricato. [...] No entanto, para em grego também pode significar ‘ao longo de’ e, portanto, existe uma sugestão de um acordo ou intimidade, em vez de um contraste. [...] ‘A paródia é, pois, na sua irônica ‘transcontextualização’ e inversão, repetição com diferença. Está implícita uma distanciação crítica entre o texto em fundo a ser parodiado e a nova obra que incorpora, distância geralmente assinalada pela ironia. Mas esta ironia tanto pode ser apenas bem-humorada, como pede ser depreciativa; tanto pode ser criticamente construtiva, como pede ser destrutiva. O prazer da ironia da paródia não provém do humor em particular, mas do grau de empenhamento do leitor no ‘vai-vém’ intertextual [...] (HUTCHEON, 1985, p.48, grifo nosso). Infere-se dessas asserções de Linda Hutcheon que toda releitura, aqui entendida como

o recontar da mesma narrativa, bem como a sua retomada de um determina-do ponto narrativo para desdetermina-dobrá-lo em uma sequência, configura-se como uma paródia em sua nova possibilidade de desdobramento narrativo de um texto pré-existente. Mais adiante, especifica a pesquisadora canadense:

[...] é realizada [a paródia] ou actualizada apenas pelos leitores que preenchem certas condições requeridas, tais como capacidade ou treino. ‘E neste sentido que existe uma competência ideológica, bem como genérica, implícita’: [...] encontra-mo-nos no domínio do ‘contexto paradigmático (e não sintagmático) do conheci-mento partilhado pelos dois locutores e também pela sociedade a que pertencem’. O leitor que não ‘apanha’ a paródia é aquele cujas expectativas previstas são de alguma forma deficientes. Da paródia, como da ironia, pode, pois, dizer-se que requerem um certo conjunto de valores institucionalizados — tanto estéticos (ge-néricos), quanto sociais (ideológicos) — para ser compreendida ou até para exis-tir. A situação interpretativa ou hermenêutica é uma situação baseada em normas aceites, mesmo que essas normas existam apenas para serem transgredidas, como vimos no último capítulo (HUTCHEON, 1985, p.120, grifo nosso).

O “vai-vém intertextual” hutcheniano é um imbricamento com a competência ideoló-gica, com o contexto sintagmático. Dessa forma, para o espectador de

Interes-telar, a percepção da lombada de um livro que traz o nome de Arthur Conan Doyle numa estante sob aparente efeito paranormal, vai remetê-lo ao universo do imaginário espírita, caso seja ele dotado da competência ideológica e do contexto sintagmático, que podem ser pensados como fatores importantes no âmbito da intertextualidade.

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O DESDOBRAMENTO DE UM IMAGINÁRIO

Se em Interestelar o imaginário espírita aparece de forma bastante sutil, com a referên-cia visual de uma obra volumosa que enfeixa a produção completa de Arthur Conan Doyle em uma estante sacudida por fenômeno sobrenatural, em

Sher-lock Holmes, a versão cinematográfica do personagem detetivesco criado por Doyle dirigida por Guy Ritchie em 2009, a referencialidade ao conjunto das imagens que identificam o espiritismo é mais ampla.

Ainda assim, porém, exigirá do espectador a competência a que se refere Linda Hu-tcheon em seu Uma teoria da paródia: ensinamentos das formas de arte no século XX. A primeira e mais ostensiva referência ao imaginário espírita é em relação ao próprio criador do famoso personagem, o escritor e pesquisador de fenômenos mediúnicos, Arthur Conan Doyle.

O enredo da produção também remete ao conjunto das imagens que caracterizam cul-turalmente a doutrina sistematizada por Allan Kardec. Em Sherlock Holmes, o roteiro assinado por cinco escritores que adaptam Doyle traz a instigante história de um vilão que pretende ter ressurgido dos mortos mediante artifícios de prestidigitação tão bem elaborados que confundem durante algum tempo o próprio Sherlock Holmes, que não desiste de sua cientificidade, pragmatismo e poder de observação para decifrar o enigma proposto por Lorde Blackwood, que pretende dominar o mundo e inaugurar uma nova ordem com base no te-mor supersticioso.

O início das ações é a caçada de Holmes ao vilão, que acaba sendo detido na iminên-cia de cometer mais um homicídio ritualístico. Na prisão, ele consegue uma entrevista com o detetive, ocasião em que diz a Holmes que o mundo como ele conhecia estava prestes a acabar. É uma tentativa de insuflar no espírito do investigador a dúvida em relação a sua cientificidade e lógica. Condenado à morte por enforcamento, Lorde Blackwood afirma minutos antes de ser enfor-cado que a morte é apenas o começo de tudo.

Após a execução, o famoso parceiro de Holmes, Dr. Watson, atesta a morte de Blackwood medindo-lhe o pulso. Alguns dias depois são surpreendidos com a notícia de que o vilão retornara dos mortos, fato que aterroriza a cidade de Londres do final do século XIX. Tem início, assim, toda uma investigação em torno da façanha re-alizada por Lorde Blackwood. À medida em que a trama avança, mortes envol-tas em ritualismos pretensamente sobrenaturais vão ocorrendo, o que desafia a argúcia de Holmes durante toda a trama.

A cada cena em que um assassinato é descoberto, aparece sempre um corvo que crocita de maneira sinistra. Ao que parece, trata-se de uma referencialidade intertex-tual, conforme a proposição de Julia Kristeva em Introdução à semanálise (1974, p.60), ao poema O corvo, de Edgar Allan Poe, que é considerado por

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muitos como o precursor do gênero em que Arthur Donan Doyle se desta-ca. O conto de Poe, Assassinatos na rua Morgue e outras histórias(2011), é bastante emblemático dessa possibilidade de pioneirismo no gênero.

Lorde Blackwood funciona, pois, como uma interessante referência na história do es-piritualismo e do espiritismo no que diz respeito ao problema do imaginário. Nos postulados do espiritismo, a morte não existe, representando um novo começo. No entanto, uma tônica bastante comum na historiografia dos fenô-menos espiritistas é a constante luta contra o charlatanismo. O próprio Arthur Donan Doyle discorre em A nova revelação (1980) acerca dos entraves que essa prática de pessoas inescrupulosas representa.

Outro dado que compõe, ainda, o imaginário espiritualista-espírita no que tange à fe-nomenologia mediúnica é a constante animosidade dos mágicos de palco em relação aos fenômenos paranormais. Mágicos célebres, como Robert Houdini, foram especialistas em desmascarar impostos que se passavam por médiuns. Na série televisiva que trata da vida do importante nome dos espetáculos de mágica, intitulada Houdini (2014), há o confronto entre Harry Houdini e o autor de Sherlock Holmes.

Houdini recebe uma mensagem psicografada da esposa de Doyle, que era médium, e durante um tempo se deixa convencer. No entanto, descarta a veracidade das informações mediúnicas, atribuindo-as à sagacidade do criador de Holmes, que em sua análise teria orientado sua esposa na elaboração do comovente texto atribuído ao espírito da mãe do célebre prestidigitador. Houdini vai a pú-blico e trata de maneira desrespeitosa ao grande escritor europeu. Importantes escritores norte-americanos, admiradores de Doyle, saem em sua defesa. Outra referência cinematográfica que reforça o imaginário da disputa en-tre mágicos e fenômenos paranormais mediúnicos é o filme Magia ao luar (2014), do celebrado diretor Woody Allen. Nesta peça cinematográfica, tem-se a narrativa em torno de famoso e arrogante mágico de palco que dedica uma aversão extremada aos chamados fenômenos paranormais. Com esse ânimo, dedica-se a desmascarar charlatães mediúnicos sempre que possível.

À semelhança de Houdini, Stanley, o protagonista, deixa-se convencer por uma falsa médium, Sophie, que coleta informações detalhadas sobre a sua vida. No en-tanto, ele descobre a farsa, mas já havia se apaixonado pela atriz que simulava a mediunidade com a conivência de alguns conhecidos seus. A magia de pal-co, pois, e a fenomenologia mediúnica travam ao longo da historiografia da mediunidade, do espiritismo e do espiritualismo uma constante disputa por mentes e corações.

Sherlock Holmes, o filme que retoma do ponto de vista da paródia à Hutcheon as nar-rativas em torno do personagem detetivesco criado por Arthur Conan Doyle, utiliza-se, portanto, do imaginário espírita e espiritualista em seu roteiro de

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forma bastante eficiente, haja vista o sucesso de público e de crítica que o filme alcançou. A relação entre magia de palco, charlatanismo, fenômenos pa-ranormais, a possibilidade de constatar-se a sobrevivência do espírito à morte corporal, além da presença implícita do próprio criador da personagem, espíri-ta convicto, mediante sua criação literária, espraiam-se na tela materializando o imaginário espírita.

CONCLUSÃO

O espiritismo brasileiro, conforme foi apontado neste artigo, relaciona-se ao espiri-tualismo através do imbricamento do imaginário de ambos, que apresentam semelhanças, bem como diferenciações. Como exemplo de diferenciação, foi mencionado neste estudo o problema da reencarnação. O espiritualismo anglo-europeu não crê de forma generalizada neste tópico, ao passo que o espiritismo franco-brasileiro de orientação kardecista tem na palingenesia um ponto de crença.

Tanto o espiritualismo quanto o espiritismo possuem em comum uma vasta gama de fenomenologia de natureza mediúnica, que no imaginário de ambos represen-taria uma evidência de que o ser sobrevive à morte do corpo físico. Telecine-sia, telepatia, animismo, influências espirituais maléficas ou benéficas, fazem todos parte do arcabouço de imagens comuns ao espiritismo kardecista e ao espiritualismo.

No Brasil, a divulgação doutrinária do espiritismo se dá de forma bastante generali-zada através de uma vasta produção escrita, algumas das quais tangenciam a literatura tradicional por especificidades que não puderam ser diretamente trabalhadas nesse estudo em função da exiguidade de espaço. Neste trabalho, que obedeceu a um viés metodológico alusivo ao estudo de caso, buscamos apontar uma forma bastante sutil que divulga, voluntária ou involuntariamen-te, o imaginário espiritualista-espírita para um público que pode muito bem ser estimado em milhões, em função da plataforma utilizada: o cinema.

Procuramos demonstrar, ainda, nuances epistêmicas envolvidas no processo, como o con-ceito de paródia que tem sido difundido na segunda metade do século por pesqui-sadores como a canadense Linda Hutcheon, que considera não somente o aspecto burlesco tradicional do termo, mas considera cada obra que se baseia numa já exis-tente como uma releitura parodística que tem a intenção também de homenagear o texto-fonte. Além da paródia, trabalhamos ainda o conceito de imaginário do pesquisador francês Gilbert Durand, cuja conceituação nos servimos na referência às imagens culturais que são próprias ao espiritismo e ao espiritualismo.

Assim, o tratamento que os roteiristas de Sherlock Holmes deram ao filme pode ser con-siderado uma parodização hutcheniana, pois a homenagem tanto ao personagem

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quanto ao seu criador, Conan Doyle, pode ser percebida, mais uma vez, volun-tária ou involuntariamente, no imaginário espírita presente no enredo fílmico. De forma a aprofundar a nuance em torno do imaginário espiritista, a película do famoso detetive guarda uma correspondência intertextual extremamente sutil com Interestelar, que trata do imaginário da doutrina sistematizada por Allan Kardec mediante a inserção de um fenômeno físico de natureza transcendental na estante sob ação de uma força incomum e que tem em sua prateleira um am-plo volume que enfeixa a obra completa de Sir Arthur Conan Doyle.

Trata-se, portanto, de forma bem evidente, de uma sutilíssima comunicabilidade espí-rita em âmbito lusófono – mais perceptível na cultura de massa brasileira em função da maior popularidade da versão espírita francesa no Brasil –, que se contrapõe a divulgações cinematográficas desse imaginário que muitas vezes é imediatamente reconhecido pelo espectador de cinema.

THE COMMUNICATION OF THE SPIRIT IMAGINARY THROUGH POP CINEMATOGRAPHY

Abstract: as it is inferred from the studies about the imaginary, every cultural

represen-tation has its own particular composite that acts, reacts and interacts with the other representative cultural instances and their respective ranges of images. In this work, we will present the spiritualist-spiritist imaginary in interaction with pop cinematic pieces through nuances that characterize a singular com-munication process in the context of lusophony.

Keywords: Spiritualism. Movies. Imaginary. Nota

1 Após o falecimento de Kardec, seus escritos engavetados foram enfeixados sob o título de Obras póstumas (2002).

Referências

DOYLE, Arthur Conan. História do espiritismo. Tradução de Júlio Abreu Filho. São Paulo: Editora Pensamento, 2008.

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HOLMES, Sherlock. Guy Ritchie. Warner Bros. Pictures, 2009. HOUDINI. Uli Edel. A&E Televison Networks, 2014.

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Tradução de Tereza Louro Pérez.

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KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: Editora FEB, 1995a.

______.O livro dos médiuns ou guia dos médiuns e dos evocadores. Tradução de Guillon Ri-beiro. Rio de Janeiro: Editora FEB, 1996a.

______.O céu e o inferno ou a justiça divina segundo o espiritismo. Tradução de Manuel Justi-niano Quintão. Rio de Janeiro: Editora FEB, 1995b.

______.O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: Editora FEB, 1996b.

______.A gênese: os milagres e as predições segundo o espiritismo. Tradução de Guillon Ri-beiro. Rio de Janeiro: Editora FEB, 1995c.

______.Obras póstumas. Tradução de Maria Lucia Alcantara de Carvalho. Rio de Janeiro: Edições CELD, 2002.

Kristeva, Julia. Introdução à semanálise. Tradução de Lúcia Helena França Ferraz. São Paulo: Editora Perspectiva, 1974.

MIRANDA, Hermínio C. Memória cósmica. Bragança Paulista, SP: Instituto Lachâtre, 2014.

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POE, Edgar Allan. Assassinatos na rua Morgue e outras histórias. Tradução de William Lagos. Porto Alegre: L&PM, 2011.

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XAVIER, Chico. Daniel Filho. O2 Pós Produções, Laboratório Technicolor Creative Services, Labo Cine do Brasil, 2010.

Referências

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