• Nenhum resultado encontrado

Educação e Guerra às Drogas: uma reflexão sobre o PROERD na escola

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "Educação e Guerra às Drogas: uma reflexão sobre o PROERD na escola"

Copied!
17
0
0

Texto

(1)

Vítor Gregório Domingues

Educação e guerra às drogas:

uma reflexão sobre o PROERD na escola

Graduado em Sociologia e Política pela FESPSP ([email protected])

Resumo

Este artigo tem como objeto de análise o Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência - PROERD, realizado pela Polícia Militar no Brasil a partir de 1992 e voltado para alunos do Ensino Fundamental de escolas públicas e privadas. Pretende-se analisar a produção discursiva do PROERD em sua abordagem nas questões que envolvem o uso e o tráfico de drogas, através do material educativo disponibilizado por esse programa e direcionado aos alunos do 5º ano. O objetivo deste trabalho é problematizar o papel desempenhado por este programa educacional no interior de uma política estatal de combate ao tráfico e uso de drogas, e mostrar como as táticas de prevenção deste programa estão inseridas na lógica punitiva de nossa sociedade.

Palavras-chave

(2)

Abstract

This article aims to analyze the ‘Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência’ (Educational Program for Resistance Against Drugs and Violence) – PROERD, performed by Military Police in Brazil since 1992 and which targets Elementary School students from public and private institutions. It intends to focus on the discursive production of PROERD regarding its approach on issues involving drug use and trafficking by utilizing educational materials provided by this program and which is designated to 5th-grade students. The purpose of the present article is to question the role played by this educational program within a government policy to combat trafficking and drug use, and to show how the prevention strategies of this program are inserted in the punitive logic of our society.

Keywords

(3)

Introdução

O objetivo deste trabalho é trazer uma perspectiva analítica acerca das táticas preventivas utilizadas pela Polícia Militar em seu Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência - PROERD. A relevância desta pesquisa se justifica pela presença de um possível discurso ideológico marcado pelo caráter punitivo, voltado para crianças e adolescentes em pleno desenvolvimento do que virá a ser o seu entendimento do mundo e do seu papel na sociedade.

A punição está introjetada em nossos costumes e práticas sociais do cotidiano. Ela é quem dá a forma dos teares das relações entre os indivíduos, desde as relações institucionais até as pequenas relações, exercidas no âmbito dos micropoderes. Assim, essas relações punitivas promovem a tônica de uma sociabilidade autoritária nas diversas instituições disciplinares pelas quais iremos passar durante nossa vida. As práticas punitivas estão presentes na família, na escola, no trabalho, na prisão, na clínica, entre outras instituições. Segundo Michel Foucault (2003, p. 65), no sistema punitivo “[...] as crianças são punidas, os alunos são punidos, os operários são punidos, os soldados são punidos”. Dessa forma se produz a docilidade desses corpos, enquadrando-os em sua condição de sujeição em papéis sociais pré-estabelecidos, anteriores ao sujeito. A lógica de exclusão, reclusão e disciplinarização do indivíduo situado fora da norma constituí uma sociedade que tem o sistema penitenciário como resposta para o crime e a infração, na qual caberá ao Estado atuar como mediador arbitrário. A punição é entendida pelo Estado como prática produtiva do capitalismo, como forma de gerenciamento de comportamentos obedientes e como administração da pobreza (WACQUANT, 2008). Para o transgressor, a premissa

da punição tem como função objetiva instalar o medo de ser punido, funcionando como supressão de sua liberdade, como gestão do seu corpo. A prática de encarcerar os indivíduos, como estratégia para sanar os comportamentos desviantes que supostamente afetam a ordem estabelecida, é uma ideologia que expressa tanto o Estado como a própria sociedade punitiva, levando a crer que excluir os que incomodam é a resolução dos problemas.

Expandindo as noções de poder baseadas no conceito de sociedade disciplinar de Foucault, Gilles Deleuze (2008) apresenta uma nova forma de análise acerca de novas tecnologias de exercício de poder. Para Deleuze as sociedades disciplinares se situavam nos séculos XVIII e XIX, mas teriam lentamente sua derrocada com o fim da Segunda Guerra Mundial. A disciplina promovida em espaços restritos como a escola, a fábrica, a prisão e o sanatório, encontra-se em criencontra-se, trazendo como conencontra-sequência novos mecanismos de controle lançados sobre espaços de ‘livre circulação’. Deste modo os sistemas abertos vão paulatinamente se expandindo em detrimento dos sistemas fechados de confinamento. Esses novos sistemas não se restringem apenas ao território onde os indivíduos estão inseridos, mas perpassam os muros disciplinares, seguindo-os e enquadrando-os permanentemente, como forma de sustentação do capitalismo. Na visão de Deleuze “Não é uma evolução tecnológica sem ser, mais profundamente, uma mutação do capitalismo” (DELEUZE, 2008, p. 223).

Contribuindo com as reflexões acerca do encarceramento nos estudos de abolicionismo penal, Passetti (2003) considera essa política de exclusão inserida na sociedade do controle como uma prática que não reintegra ou reeduca o corpo desviado, mas de confinamento dos indivíduos tidos como irrecuperáveis. Os alvos dessa penitência possuem

(4)

suas marcas:

São apenas os que não interessam mais: escaparam de todos os equipamentos de formação, possuem baixo capital simbólico, provêm das famílias consideradas desestruturadas, são, enfim, pessoas para as quais o investimento social deve ser destinado ao ato de retirá-las, em definitivo, de circulação. (PASSETTI, 2003, p. 137)

As políticas de guerra às drogas têm como uma de suas principais respostas ao tráfico e uso de entorpecentes o encarceramento em massa. Paralelamente, o Estado promove outras estratégias desta guerra, sendo elas ditas políticas de prevenção, sendo uma de suas modalidades o PROERD. Esse programa se efetiva como política pública de combate e prevenção ao uso e tráfico de drogas, tendo como público alvo crianças e adolescentes.

Esse artigo pretende examinar o material didático utilizado pelo Programa, voltado a alunos do 5º ano, para entender se existe a prática de uma lógica punitiva como elemento constitutivo de uma ideologia proibicionista aplicada pelo Estado. Passetti (2012) reflete sobre os mecanismos que a sociedade se utiliza para “educar” crianças e adolescentes, afirmando: “É educando com base na interiorização do medo e na aplicação de castigos que a sociedade se proclama capaz de domar as impulsividades desses pequenos seres“ (p. 15). Neste sentido, pretende-se analisar como o material didático produzido e utilizado pelo PROERD procura introjetar o medo entre os alunos e exercitar táticas de controle em relação a eles como forma de coibir o uso de drogas.

A análise que se desenvolve nesse artigo tem como objetivo compreender os mecanismos de convencimento da perspectiva proibicionista através de uma visão crítica. Para tanto será realizado um recorrido histórico por meio de diferentes fontes secundárias para a abordagem da ideologia proibicionista buscando, assim,

compreender a formação de tecnologias de controle do Estado e seu desdobramento nas políticas de prevenção realizadas em programas como o PROERD.

1. A construção da ideologia proibicionista

A maconha e sua repercussão é um interessante fragmento na história do país para refletir sobre a formação da ideologia proibicionista no Brasil. A

Cannabis Sativa L. não é uma planta nativa das matas

brasileiras, mas trazida para cá pelos africanos que vinham na condição de escravos. Segundo Elisaldo Carlini (2006), em um primeiro momento ela não foi reprimida pelas elites e pelo Estado. A juventude oligárquica também utilizava de uma gama de entorpecentes, sendo condenável moralmente, mas ainda não sendo reprimido devido ao privilégio social que possuíam. Os entorpecentes que estavam relacionados ao uso dessa classe privilegiada eram a cocaína, o éter, o ópio e a morfina, considerados como substâncias de vício elegante. A maconha, que já era um entorpecente característico do uso dos escravos negros, começa a fazer parte da cultura de uso de comunidades indígenas, camadas populares urbanas e grupos rurais (MACRAE; SIMÕES, 2004). Disseminada entre as camadas populares e os marginalizados, a maconha era conhecida no nordeste brasileiro como “ópio dos pobres” (PASSETI, 1991, p. 20).

O movimento de criminalização e medicalização das drogas em seus diversos contextos teve seu início no século XIX. Neste período, o Brasil se encontrava com um projeto de Estado articulado com diversas instituições de poder cuja finalidade era trazer o progresso para um país atrasado. As teorias antropológicas evolucionistas provinham de países euro-americanos, apontando que havia estágios nos quais uma cultura poderia evoluir da selvageria e da barbárie para a civilização, onde raça era um fator caro para esse pensamento. O Brasil queria se

(5)

incluir nesse projeto, transformando-se em um país com padrões euro-americanos, ditos ‘de civilidade’. A Ciência instaurada no país tem como missão realizar esse desejo evolucionista das elites e do Estado (COSTA, 2006). A medicina era tida como ciência que tinha a potência de civilizar o país. A medicina social, tendo como objeto a população, tomou como função prevenir, diagnosticar e tratar das doenças e males sociais que perturbavam esse corpo coletivo. Segundo Macrae e Simões (2000, p. 119) “Para essa disciplina, as causas dos males no Brasil seriam decorrentes do clima tropical e da miscigenação racial, sendo, portanto, indicadas campanhas de higienização social e planos de prevenção eugênica”. Nesta época o branqueamento se torna política da República para formação de uma sociedade burguesa, criando mais uma prática social de sujeição do negro. O vício era visto como uma degeneração, que deveria ser controlada pelo Estado, como forma de manutenção da ordem para a possibilidade do progresso. Produções do racismo científico trazem uma visão condenatória do uso da maconha, como estratégia de criminalizar manifestações culturais e religiosas de origem afro-brasileira (SAAD, 2013). Podemos perceber que as categorias “raça” e “droga” eram pensadas como fatores que impossibilitariam uma retidão moral. As ações do movimento higienista aplicadas na população se tornam fator crucial para que os corpos de comportamento desviante possam ser patologizados e controlados.

Para melhor entender a noção de vício utilizada pela ciência, torna-se necessário entender o discurso médico que se tornou hegemônico sobre o uso de certos psicoativos. Essa visão de que a droga é um fator que consequentemente acarretará problemas sociais é adotada no século XIX. Nesse sentido, o termo “mania” começa a fazer parte do campo discursivo da psicopatologia, vinculando o uso de entorpecentes à “toxicomania”. A psiquiatria passa a incluir essa categoria entre as doenças mentais e loucuras. Ignorando

as diferentes formas possíveis de uso de entorpecentes, a toxicomania é vista como um comportamento de todo consumidor destas substâncias. O ato de se drogar é associado à patologia da degenerescência moral e à falta de autonomia do usuário, que passa a manifestar um comportamento compulsivo quanto ao consumo de drogas, sendo motivado por um prazer obsessivo ou pela dor da dependência, tornando-se escravo de uma substância cujas ações visam apenas suprir sua necessidade da droga. As alterações dos estados de consciência são vistas como manifestações de um comportamento patológico, portanto passível de tratamento (BERGERON, 2012).

A questão das drogas pode ser pensada como uma questão biopolítica, conceito criado por Foucault ao analisar as novas táticas de poder da sociedade moderna. A biopolítica não dirige seu poder apenas ao sujeito, mas ao homem enquanto ser vivo, o homem espécie, focando no biológico do indivíduo. O exercício do biopoder pode ser entendido através de dois polos: a anátomo-política do corpo e a biopolítica da população (FOUCAULT, 2006). A primeira é uma tecnologia de poder focada nas novas formas de disciplinar o corpo de forma individual. A ciência através da relação saber/ poder teve um importante papel, no qual suas produções discursivas acerca da patologização dos corpos tiveram efeitos em táticas de docilização destes corpos. A disciplina acaba ganhando alicerces do biopoder, dando domínios mais amplos a essa nova forma de poder. A biopolítica das populações se expressa nos mecanismos de segurança e efeitos regulamentadores do coletivo.

A biopolítica lida com a população, e a população como problema político, como problema a um só tempo científico e político, como problema biológico e problema de poder [...] (FOUCAULT, 2010, p. 206)

A biopolítica envolve o domínio sobre a natalidade e a mortalidade, o saudável e o doentio, o

(6)

normal e o anormal, assegurando a regulamentação dos processos biológicos onde a ciência possui um papel fundamental legitimando seu discurso através da acumulação de saberes. Nesse sentido “A medicina é um saber-poder que incide ao mesmo tempo sobre o corpo e sobre a população, sobre os organismos e sobre os processos biológicos e que vai, portanto, ter efeitos disciplinares e efeitos regulamentadores” (FOUCAULT, 2010, p.212). Assim o biopoder é exercido em relação ao corpo individual e coletivo, trabalhando nessas duas modalidades coexistentes, operando nessa nova tecnologia de poder.

Os discursos institucionais que inspiraram o proibicionismo atual e seus dispositivos de controle começaram por medidas judicializadas, que foram se transformando no modelo imposto atualmente em âmbito internacional. Para o cientista político Thiago Rodrigues (2004), o germe de uma ideologia proibicionista em relação às drogas começou a se concretizar entre os séculos XIX e XX, mas de forma dispersa em códigos nacionais e tratados internacionais que visavam, através de políticas repressivas do governo, restringir o consumo, o porte e comércio de drogas. A história das medidas tomadas pelo Estado a favor da proibição das drogas não possui um marco ou um corte no qual em um dado momento todas as drogas foram divididas em legais e ilegais. A proibição veio de forma descentralizada, perpassando os anos para ser concretizada, apoiando-se em aspectos morais que ganhariam força do Estado através de instrumentos de legitimação do campo médico e jurídico.

A Primeira Convenção Internacional do Ópio ocorreu em 1912, sendo assinada em Haia e depois adotada pela Liga das Nações. Essa convenção, impulsionada pelos Estados Unidos da América, tinha como objetivo criar regulamentos para controlar a venda de opiáceos no mundo. Nesse momento, os países participantes se comprometem a atingir uma

meta mais repressiva que a proposta inicial: impedir o comércio de opiáceos e cocaína fora dos padrões de uso médico. No artigo 20 deste tratado está presente uma recomendação para que os Estados participantes pensem na possibilidade de criminalizar a posse desses psicoativos1. A Segunda Conferência Internacional do

Ópio ocorreu em 1924, na cidade de Genebra, com mais de 40 países representados por seus delegados, e teve como principal foco traçar táticas de contenção do comércio de ópio e cocaína. O representante do Estado brasileiro teve decisivo papel ao lutar para que a maconha fosse incluída junto às drogas proibidas de comercialização, por também ser portadora de alta periculosidade. Fazendo coro ao delegado egípcio, os representantes de Estado conseguiram que a criminalização do comércio da Cannabis fosse aprovada

(CARLINI, 2006). Em 1932, pelo decreto 20.930, o Estado brasileiro criminaliza as “substâncias tóxicas de natureza analgésica ou entorpecente”, sendo essas opiáceos, cocaína e seus derivados, e a maconha. A classe médica era a única que tinha o poder de prescrever esses psicoativos sem que houvesse repressão das autoridades sanitárias, policiais e judiciárias. As drogas antes utilizadas como meio de cura pela medicina popular foram proibidas e os saberes daqueles que indicavam seu uso para fins medicinais foram deslegitimados e taxados como charlatanismo. A medicina alopata passa a ser considerada pelo Estado como única e legitima sanadora de doenças. Produtos antes utilizados na cura de diversas enfermidades, como o cigarro de maconha e o xarope de cocaína, tornaram-se ilegais (FIORE, 2002).

Outro marco na história da criminalização de drogas no Brasil foi em 1964, quando ocorreu o golpe civil-militar, cuja ação repressiva por parte da polícia passou a ser a principal forma de controle da população.

1 “Artigo 20. Os Poderes contratantes devem examinar a possibilidade de editar leis ou regulamentos tornando um ilícito penal a posse ilegal de ópio natural, ópio refinado, morfina, cocaína e seus respectivos sais, a não ser que já existentes leis ou regulamentos na matéria”.

(7)

Com a imposição da Lei de Segurança Nacional, os direitos antes concedidos aos cidadãos foram negados, legitimando assim, os abusos cometidos pelo braço armado do Estado. A supressão das liberdades do Direito Liberal tornou os hábitos privados passiveis de permanente vigilância policial. Nesse panorama, a Lei 6.368/1976, promulgada durante esse regime, decreta penas mais duras com maior tempo de reclusão, ou internação compulsória em manicômios. Essa lei criminalizava a fabricação, o porte, o comércio e o uso de uma maior gama de drogas. Possuir qualquer instrumento ou objeto para produção ou manipulação de entorpecentes é um ato que se torna penalizado. Não há uma clara diferença entre traficante e usuário - quanto ao porte de drogas e sua circulação – em que se confunde essas duas figuras ‘aliciadoras e perigosas’ que necessitam estar reclusas dentro de uma lógica punitiva. Pensando sobre a ideologia “reacionária” que tem como utopia a proibição do indivíduo ter a autonomia sobre seu estado de consciência, Henrique Carneiro (2002, p. 6) afirma que “[...] os estados de consciência são legislados e policiados pelo Estado, que reprime e controla populações nos seus hábitos íntimos e cotidianos estabelecendo um sistema de terror e altos investimentos”.

Dentro do panorama internacional nesse período, o presidente americano Richard Nixon (1969-1974) expõe a questão das drogas como um problema que deveria ser extirpado da sociedade por afetar a segurança pública. A partir desse momento, o problema da violência e do vício passam a ser vistos como universais, e os EUA começam a pressionar outros países a enfrentar este inimigo comum. Uma nova onda de mobilização proibicionista, que repercutiu em nível internacional, ocorre durante o governo de Ronald Reagan (1981-1989). A posição do governo Reagan em relação à guerra às drogas é assinalada por Escohotado (1998) como uma política que:

[...] passa por elevar las penas, multiplicar el número de represores, multiplicar los privilegios para quienes hacen la guerra sucia, multiplicar los gastos del complejo industrial montado sobre el abuso de drogas y seguir com la escalada selectiva de chantajes o agresiones armadas a otros países. (ESCOHOTADO, 1998, p. 305) O tráfico e o consumo, principais focos a serem combatidos, necessitavam de uma união dos povos para que essa guerra fosse verdadeiramente concretizada. Desta forma, acordos internacionais elaborados dentro da Organização das Nações Unidas (ONU) foram articulados. O aumento de políticas repressivas, em relação ao consumo de drogas, estava intrinsecamente ligado à visão de que todo uso de drogas proibidas seria um comportamento abusivo. (ESCOHOTADO, 1998, p. 265).

A guerra às drogas foi declarada munida de poder bélico, com leis repressoras e produções científicas dando alicerce a essa estratégica política internacional. Quando o Estado diz que declara guerra ao crime deve-se refletir como esdeve-se termo é inapropriado. Guerra é uma batalha entre militares e inimigos externos, colocando a pessoa que comete um crime na posição de inimigo da nação, ignorando seus direitos de cidadão. Essa declarada guerra não é direcionada contra o “crime” em geral, ela é seletiva (WACQUANT, 2008). Por isso é necessário pensar o termo “guerra às drogas”, pois não há como travar um incessante combate às substâncias. Essa guerra tem alvos humanos, principalmente os grupos que o Estado e a sociedade dos ‘normais’ querem extirpar. Como fórmula para acabar com o consumo de entorpecentes, foi lançada na década de 1980 a campanha publicitária do “Just say no” (Apenas

diga não [às drogas]) organizada pela primeira dama Nancy Reagan, cujo intuito era mostrar um caminho de salvação para a juventude. A necessidade de diálogo com os jovens trouxe a confecção de programas estatais orientados pela possibilidade de uma concretização de

(8)

uma sociedade higienizada, uma vida sem drogas. É interessante observar que durante esse enrijecimento houve um maior ataque ao consumo de drogas, não sendo coincidência que o Drug Abuse Resistance Education

(D.A.R.E. ou Educação para a resistência ao abuso de drogas) surgisse nessa época como uma política de enfrentamento.

2. Políticas de prevenção às drogas: DARE

e PROERD

Em 1983 o Departamento de Polícia de Los Angeles, na Califórnia, funda o programa D.A.R.E, um programa que através de ações educativas em escolas procura aplicar práticas de convencimento a alunos e às suas famílias sobre os problemas advindos das drogas (RODRIGUES, 2004). Oficiais são treinados para aplicar o programa dentro da sala de aula, tentando despertar proximidade e confiança. Com o intuito de utilizar a prevenção como produtora de docilidade, o D.A.R.E começa a ser adotado como programa educacional em outros estados dentro dos EUA. Segundo o site institucional, o D.A.R.E encontra-se consolidado em 50 Estados, tornando-se mais que um projeto nacional: trata-se de uma forma de combater a presença das drogas, inspirando a criação de programas que atuam da mesma forma em outros 49 países. Não por acaso, o mesmo país que exportou o pacote de guerra às drogas, trouxe o D.A.R.E. inclusive ao Brasil.

Em 1992, nove anos depois da criação do DARE, surge o PROERD, sendo a Polícia Militar do Rio de Janeiro a primeira a acolher esse programa, depois disseminado por todo território nacional. Trata-se da implantação de uma nova forma de controle e guerra às drogas em um novo período democrático no país. A aplicação deste programa dentro da sala de aula consiste em palestras expositivas ministradas por um policial militar obrigatoriamente fardado, contando com

o auxílio de recursos didáticos como vídeos, músicas, desenhos e atividades recreativas. Essa política pública conta com cursos que atuam na educação infantil, ensino fundamental e cursos para pais.

Nesse propósito o PROERD possui como seu material didático o “Manual do Instrutor”, “Livro dos Pais” e “Livro do Estudante”. Para crianças que estudam nos primeiros anos escolares, como na pré-escola, o material consiste em um álbum de cartazes coloridos. O curso que se torna objeto de análise é o desenvolvido para crianças e adolescentes do 5º e 7º anos do Ensino Fundamental. Para tanto foi utilizado o livro do estudante direcionado para alunos do 5º ano como base para realização da análise do discurso do PROERD acerca da prevenção do uso de drogas e da violência. Esse material didático tem como base o utilizado pelo D.A.R.E., produzido na Universidade de Akron (EUA). A revisão pedagógica é realizada pelo Centro de Treinamento do PROERD, Diretoria de Polícia Comunitária e Direitos Humanos, e a própria Policia Militar do Estado de São Paulo. A Diretoria de Policiamento Comunitário de Direitos Humanos, órgão estadual, é o responsável pela implantação do programa nas escolas junto a Secretaria Estadual de Educação. O programa tem 10 semanas de duração e visa ensinar a criança e ao adolescente que “[...] as drogas podem tornar as pessoas violentas e infelizes” (2013, p.7). O PROERD é implantado em escolas de ensino fundamental II, públicas, municipais e estaduais, bem como em escolas privadas, concretizado de acordo com o interesse da direção da escola que o procura.

Este Programa se define como um programa de caráter social preventivo com o objetivo de evitar o uso de drogas, e tem como foco crianças e adolescentes. Sua perspectiva é uma ação educativa como forma de prevenção da criminalidade através de uma educação voltada à justiça social, podendo assim reduzir os problemas locais que afetam a segurança pública. O

(9)

Ministério da Justiça passou a manter relações de aliança e investimentos com o PROERD ao incluir o crack em seu material didático (BISPO, 2012). Conforme o site institucional:

O PROERD não foi implantado para ser mais uma campanha de prevenção ao uso de drogas, mas sim para preencher um hiato cuja ação é atribuída à Polícia Militar pelas Constituições Federal e Estadual, e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), desenvolvendo nas crianças atitudes voltadas a resistir à pressão da oferta de drogas e uso da violência.” (site do PROERD)

Programas de prevenção ao uso de drogas, cujos modelos são de mesma natureza do PROERD, e que têm seu foco nos danos causados à saúde a partir de uma abordagem baseada no amedrontamento, já sofreram críticas quanto à sua eficácia. Fefferman e Figueiredo (2006) trazem uma reflexão crítica sobre a forma de prevenção ao uso de drogas adotadas pelas políticas públicas, as quais trabalham com a cisão de drogas legalizadas e ilegais tendo na experiência delas o jovem como interlocutor. Como alternativa às atuais políticas preventivas as autoras propõem a redução de danos como uma abordagem que aplica novos pressupostos educacionais, considerando a vivência, as condutas e comportamentos do sujeito. Essa estratégia de forma horizontal visa fortalecer a autonomia e a reflexão do usuário como agente transformador de sua realidade. A redução de danos é entendida como ferramenta facilitadora preventiva que consegue travar um diálogo emancipatório com o jovem. Nesse sentido, ela se opõe à perspectiva educacional de prevenção ao consumo de drogas de programas que, como o PROERD, possuem uma abordagem de julgamento moral e amedrontamento.

3. Análise do material educativo: estratégias

de prevenção

Em uma apresentação dirigida aos pais no manual do aluno de 5ª série, o PROERD afirma que, o curso consiste em uma oportunidade de seus filhos participarem de um programa que os conduziria a uma vida longe das drogas, aprendendo a tomar decisões de forma segura e correta. Nesse sentido, será apresentado o “modelo de tomada de decisão”, exposto na apostila para estudantes, que tem por intuito orientar os mesmos em relação a como devem proceder para resolverem os exercícios propostos. A partir de seus instrumentos essas crianças e adolescentes aprenderão a ter um comportamento tido como correto. Sua proposta é o “fortalecimento da cultura de paz e a construção de uma sociedade mais saudável e feliz” (2013, p. 3), como é salientado no material analisado. Após essa breve apresentação da origem do programa e de seu objetivo, na página 4 da apostila já se encontra presente o hino nacional do Brasil. Os hinos, assim como estatuas de heróis nacionais, bandeiras e outros símbolos são elementos que foram criados para impulsionar o sentimento de nação, algo que une os cidadãos de um território delimitado pelo Estado independente da heterogeneidade de uma dada sociedade (HOBSBAWN, 1984). Utilizar esse símbolo nacional, como veremos, constitui um elemento de uma construção militarizada de educar, que consiste em recrutar novos soldados na luta às drogas enquanto dever cívico, sendo essas substâncias o inimigo comum desta nação.

O PROERD se utiliza de recursos didáticos-pedagógicos que seguem a mesma lógica da escola institucional como a disciplina, controle de frequência e avaliações acerca do conteúdo ministrado. É atuando estrategicamente nesse território que o PROERD se legitima, sendo a escola considerada o lugar da produção de saber, onde se deposita a esperança de trazer cidadãos melhores para a nação. A educação formal tem como uma de suas funções ensinar a disciplina, inserindo a criança na crença da autoridade e na obediência ao

(10)

comando desta.

Ao analisar a educação através de uma abordagem da sociedade do controle, Silvio Gallo (2013) pensa as tecnologias de poder exercidas pela escola enquanto instituição do aprendizado do controle social. Este autor afirma que “A escola é o lugar da disciplina, de seu aprendizado e de seu controle” (p. 81). A distribuição das carteiras enfileiradas de modo militarizado explicita que sempre há uma ordem vigente em sala de aula, concedendo de forma estratégica maior controle à figura de autoridade e introjetando a disciplina nos alunos. Outro importante mecanismo de poder exercido pela instituição educacional para o controle são os métodos de avaliação do aluno que, legitimados pelo discurso didático-pedagógico, concedem o poder à instituição e à figura de autoridade, que tem poder de decisão sobre o conhecimento do aluno (GALLO, 2013). Avaliações, exames, frequências e advertências são mecanismos exercidos através de uma chave punitiva, ao qual a escola ocupa a posição de importante instituição do aprendizado e reprodução da disciplina e do castigo.

A figura de um policial militar fardado em sala de aula ministrando suas palestras a seus pequenos soldados, que irão ajudá-lo a combater as drogas e a violência, se torna um forte arranjo com o ensino do controle e da autoridade que a escola já possui. Legitimando o policial enquanto figura de admiração, que não possui apenas uma conotação repressiva de atuação, mas uma conotação positiva de educador. Essa tecnologia de poder reforça a visão de que o representante do Estado existe enquanto autoridade para servir ao bem comum junto à participação dos cidadãos.

Antes de começar os exercícios do módulo, o PROERD realiza combinados com os estudantes. Essa é a primeira lição que traz como aprendizado: comportar-se em sala de aula durante as atividades do

programa. Com o auxílio de desenhos, essa lição tem o intuito de regrar e controlar esses pequenos seres que serão acompanhados por um policial durante esse processo. Um destes signos de interação consiste em levantar a mão ao querer falar e esperar a permissão do policial, o qual concederá a palavra a cada aluno ou aluna. Deve-se falar de forma respeitosa e obedecer quando a autoridade fizer o sinal de silêncio. Para conservar o público infanto-juvenil recrutado nesse programa, pede-se o sigilo dos nomes das pessoas envolvidas em casos discutidos em sala de aula e para não apontar para as mesmas no caso de estarem presentes. Penso que utilizam essa regra, uma vez que para o programa a vida pública é vista como passível de riscos, pois o agente condutor do programa possui responsabilidade sobre aquele aluno. Sabem que apontar algum indivíduo como personagem condenado na frente dos outros alunos pode acarretar vulnerabilidade ao delator. Não que o programa não tenha intenção de recrutar delatores que cooperem com a polícia e sua rede de instituições ao apontar os usuários e traficantes de sua convivência, mas a segurança de seu tutelado não pode ser colocada em risco. Esse ato será estimulado, mas através de outra tática de controle, que será exposta ao longo dessa análise.

Começando com a apresentação do “modelo de tomada de decisão” feito pelo PROERD, esse modelo é apresentado como uma ferramenta para auxiliar os alunos a tomarem a decisão correta, sendo dividido nos seguintes tópicos: definir, analisar, atuar e avaliar. A proposta se manifesta em definir um problema entendendo o fato ocorrido, para depois analisar as diferentes formas de lidar com ele, escolher a forma mais apropriada, agir a partir desta tomada de decisão, e, no final, avaliar se a escolha foi correta ou incorreta. Esse modelo é aplicado repetidamente em diversos exercícios propostos na apostila. Esses exercícios pretendem criar responsabilidades nas

(11)

crianças e adolescentes. Inicialmente, são aplicados em pequenas situações cotidianas vividas por elas, a fim de conciliar diversão e responsabilidade. Posteriormente, o cenário muda, entrando no âmbito das drogas. As situações iniciais consistem em escolher entre duas responsabilidades que aparecem frequentemente no cotidiano desses estudantes. Na primeira situação, logo na lição 1 da apostila, a cena envolve um garoto que é convidado a ir à casa de um amigo para jogar videogame, porém não haverá nenhum adulto presente. A avaliação conduzida pelo programa aparece de forma positiva, onde o aluno pensa que o melhor a fazer é desistir da ideia de ir a uma casa sem adultos. Isto já demonstra a visão do programa da necessidade da criança e do adolescente sempre estar em um ambiente sob a vigilância de um adulto, que desempenha o papel de figura de autoridade. Fica explicito a falta de controle e, consequentemente, o risco representado por um ambiente não supervisionado por adultos. O aluno é tido como incapaz de se autodeterminar, pois não há organização e segurança em um lugar sem mediação de uma autoridade. Nota-se o objetivo de estimular comportamentos obedientes, isto é, de sujeição, entre crianças e adolescentes, que irão reverberar na sua atual condição de não adulto, como figura que necessita de uma autoridade para sua condução, assim como se constitui em um treinamento para o exercício de seu papel no futuro, de cidadão tutelado pelo Estado. Interessante perceber como um programa que supostamente estimularia crianças e adolescentes a tomar decisões sobre si, não concede credibilidade a autonomia e protagonismo desses próprios sujeitos.

Ao analisar os exercícios de poder da figura de autoridade presentes no material se torna importante frisar a participação dos pais no programa. Para cada lição feita pelo aluno em sala de aula, há uma lição que deve ser feita em casa junto a maior autoridade familiar, os pais. O programa propõe para os pais atenciosos

com o bem-estar de seu filho que os auxiliem nesse importante processo de aprendizagem. O “método de tomada de decisão” também é exportado para esses exercícios. Junto a cada uma dessas lições há uma dica de segurança da polícia militar, direcionada ao responsável pelo aluno. Elas se apresentam como dicas de segurança, para um melhor convívio da família com o auxílio benéfico da polícia. O cerne de todas elas é o aprendizado do controle exercido pela polícia, braço armado do Estado. Um dos temas debatidos é a abordagem policial, no qual o trabalhador não precisa temer, pois a polícia só irá punir quem for criminoso. Afirmando que ao abordar o trabalhador, “[...] o policial militar, logo saberá reconhecer sua condição[...]” (2013, p. 54), e supostamente nada acontecerá a ele. Essa visão naturaliza uma forma de violência policial, na qual se trabalha com a cisão entre o trabalhador e o criminoso. Percebe-se que isso é um aviso para os pais sobre qual lado seu filho ocupará ao utilizar entorpecentes.

Após abordar os temas de autoridade e responsabilidade a partir do “modelo de tomada de decisão”, as demais lições adotam esse modelo aplicado ao tema drogas. Essas situações perigosas consistem em: colegas que são usuários de drogas se utilizam de pressões chantagistas, na tentativa de, mais do que fazer esse aluno utilizar drogas, introduzi-lo nesse tenebroso mundo sem volta. Esses alunos estão sujeitos a essas situações de risco a qualquer momento. Os sujeitos aliciadores se apresentam em diversas esferas como amigos, colegas de escola, colegas de atividades físicas e conhecidos. Trazem situações para serem debatidas em seu material didático chamado de “pressões de grupos” nas quais o grupo de usuários tenta forçar os inocentes a experimentarem psicoativos para serem inclusos e aceitos. Em um exercício, por exemplo, um grupo de garotos que joga futebol tenta pressionar um outro garoto a fumar cigarros. As pressões utilizadas variam desde perguntas mais amigáveis como “Quer um

(12)

cigarro?” (2013, p. 39) até frases mais agressivas como “Se você não fumar não é um de nós” (2013, p. 39). Como forma de resistência a essas pressões, orienta-se os alunos a orienta-se ajudarem contra esorienta-ses corruptores, construindo uma polarização entre dois grupos a partir do sentimento de pertencimento aos mesmos: “os drogados” e “os saudáveis”. Um dos discursos presentes nos argumentos desses personagens é que “os saudáveis” podem praticar esportes e ter uma vida social tranquila, por sua mente e corpo estarem na sanidade. No “modelo de tomada de decisão”, a avaliação é sempre conduzida pelo PROERD, a fim de produzir esse comportamento obediente nos indivíduos, que consiste em negar as drogas, assim tirando uma barreira prejudicial em sua vida. O sentimento produzido pela avaliação é de pensar que o caminho correto foi escolhido.

Para decidir de forma confiante o PROERD possui uma lista intitulada, “Maneiras de estar no controle”. Sua primeira orientação para evitar situações de risco expressa a ideologia do programa de estigmatização e marginalização da figura do usuário: “Se você conhece os lugares onde geralmente as pessoas usam drogas, fique longe desses lugares” (2013, p. 41). Outra orientação do programa é que seu aluno “Ande sempre com amigos que não usam drogas” (2013, p. 41). A punição para o corpo entorpecido, em um primeiro momento, deve ser a segregação do convívio social através de um julgamento moral, iniciando uma das formas de reclusão desses anormais. Como explicita em sua sigla, para resistir à violência o PROERD incluiu

o bullying em suas lições, tema muito debatido no

campo da educação na atualidade. Concedendo lições de amizade, o programa define como amigo: “alguém que é companheiro: protetor” (2013. p. 36), e a pessoa que o protegeria das drogas e não o deixaria ter contato com elas. Os colegas são tidos como alguém com quem convivemos nas diversas esferas da vida e passíveis de

suspeita. Segundo essas lições de amizade, o bullying é

classificado como uma prática de violência repetitiva que pode ser física ou verbal entre pares. O conselho dado pelo programa é de buscar uma autoridade munida de confiança para denunciar essa agressão, sendo ela os pais, o professor e a polícia. Curioso perceber que o abuso de poder de autoridades não é classificado como

bullying, mas como apenas “conflito”. Se o universo das

drogas exerce uma pressão e atua de forma violenta, estas autoridades são as sanadoras dessa agressão, o programa mostra sua intencionalidade de recrutar seus alunos a denunciar essas práticas.

O usuário, através de uma chave proibicionista, é tido como o sujeito que alimenta o circuito do tráfico. As pessoas que estão imersas nesse universo das drogas são retratadas pelo PROERD sem grande distinção. Há apenas uma linha muito tênue entre quem utiliza e quem alicia. Por mais que não haja o oferecimento de drogas mediante dinheiro, em seus exercícios, as figuras aliciadoras possuem grande disposição a se prestar ao papel de quem leva a droga ao outro. Não se apresenta uma clara distinção entre usuários e traficantes, confundindo-se essas duas figuras, ambas estigmatizadas e criminalizadas na conjuntura da sociedade proibicionista. Tal lógica causal de criminalização do usuário tem seu reflexo nas leis aplicadas a usuários de drogas, como indivíduos que compõem a rota do tráfico.

Como já havia sido mencionado antes, esse programa trabalha em seu método educacional com a cisão entre drogas legais e ilegais, acompanhada da noção de drogas leves e pesadas. Quando retratado o uso de drogas legalizadas, como álcool e cigarro, é exposto de forma mais abrangente a questão dos danos que essas substâncias causam ao corpo biológico enquanto tecnologia de convencimento biopolítico. Nesse sentido, se tornam presentes as advertências feitas pelo Ministério da Saúde na lição sobre cigarro,

(13)

onde o discurso de tutela do Estado sobre o corpo do cidadão dá legitimidade à argumentação do PROERD. A partir de dados quantitativos feitos pelo CEBRID, produz-se a imagem de que apenas uma minoria de jovens brasileiros consome álcool e cigarro. Legitimado pelo discurso científico, os jovens usuários dessas drogas são transformados em uma minoria corrompida, sendo exceção de uma regra dentro de um panorama mais amplo. Em relação às drogas ilegais, há uma ausência de dados, de números ou estatísticas acerca de usuários jovens, somente presente ao abordar inalantes. Inalantes são drogas que convencionalmente entram em contato com o corpo pelas vias aéreas, compondo uma vasta gama de substâncias, como cocaína, ketamina, éter, cola de sapateiro e lança-perfume. Afirma-se que, segundo pesquisa realizada pelo CEBRID, 86% dos jovens brasileiros nunca experimentaram inalantes. Apesar desse dado, os inalantes são apresentados de forma genérica, não sendo citado o nome das substâncias que compõe essa categoria. A cocaína é apenas citada como pasta base do crack, mas não como um inalante. Os inalantes são expostos como categoria perigosa, podendo levar a óbito em seu primeiro uso, porém há uma falta de informações sobre como esses casos ocorreram, qual psicoativo utilizado, a quantidade e como prevenir essa dita fatalidade. Drogas ilegais como a maconha, inalantes e o crack são tidas como perigosas drogas degenerativas, que atrapalham os exercícios de atividades na esfera social, como consequência dos danos causados a saúde.

Uma das justificativas de convencimento para a incorruptível abstinência é a afirmação da ilegalidade dessas substâncias e o necessário respeito às leis. Após demonstrar os malefícios a saúde logo vem o argumento da ilegalidade, como se essa posição proibicionista fosse para resguardar os indivíduos e a coletividade de substâncias altamente viciantes. A lógica desse discurso está estruturada na perspectiva do uso de drogas ser

consequência da falta de autonomia e do cuidado de si, como ato de violação ao próprio corpo. Assim sendo, torna-se necessária a intervenção do Estado para um permanente cuidado dos corpos desatentos desses indivíduos, alimentado a ideologia proibicionista e justificando políticas públicas como o PROERD. Nesse sentido, o Estado e as instituições de controle social possuem a função tanto de contribuírem para a formação de corpos saudáveis e policiados, quanto penalizar os corpos entorpecidos e aliciadores por sua condição.

Problematizando essa chave punitiva, podemos pensar o PROERD enquanto política que faz parte das políticas do Estado de “prevenção geral”. Essa noção de prevenção trabalha através do convencimento a não transgredir certas regras com base na aplicação de castigos (PASSETTI, 2003, p. 220). A prevenção da sociedade punitiva não opera por uma noção educadora e emancipatória. Ela está introjetada em políticas do Estado, sendo transmitida aos cidadãos que certos atos podem acarretar em punições, tanto jurídicas quanto morais. Para Passetti (2012, p. 21), a prevenção geral é uma política seletiva, sendo direcionada a certos grupos: “Os perigosos são tidos como os anormais, subversivos, assaltantes, pobres, etnias diversas, pessoas, grupos ou classes tidos como intoleráveis”.

Como vimos nesse artigo, os usuários são um grupo social que nos processos de formação do proibicionismo foram sujeitados pelas instituições de poder a serem qualificados como um grupo perigoso para a sociedade dos normais. Apenas castigar as pessoas relacionadas a drogas não seria o bastante para manter o controle do Estado. Tornou-se necessário criar novas tecnologias de controle, pois o comércio e consumo da maioria dos psicoativos existem, mesmo sendo crime. Para tanto, as políticas de prevenção que se concretizam através dessa lógica se tornaram estratégicas para reforçar o destino guardado aos drogados e mais do que

(14)

isso, introduzir a vigilância e o policiamento entre os próprios tutelados do Estado.

O crack é apresentado como substância pesada, de grande periculosidade que “É muito potente e já fez milhares de pessoas dependentes no Brasil” (2013, p. 24). Interessante perceber como se caracterizam os efeitos causados pelo uso do crack, tanto fisicamente quanto psicologicamente neste manual. Segundo o material analisado, os efeitos desse psicoativo são: “Falta de apetite, agitação física, aumento da temperatura e das frequências respiratória e cardíaca, suor excessivo, tremores, contrações musculares involuntárias, tiques, dilatação da pupila e cansaço intenso” (2013, p. 24). Esses efeitos parecem mais sintomas de uma doença do que alteração do estado de consciência causada pelo uso de um entorpecente. Isso reflete o viés patológico imposto a qualquer tipo de uso de crack, sem discernir os tipos de uso, sua frequência e os danos causados ou não ao usuário. Também é descrito o comportamento patológico supostamente provocado pelo crack, relatado como uma forte euforia temporária que desaparece, causando uma profunda depressão, o que acarretaria em um uso repetitivo, no qual o usuário tentaria suprir a tristeza causada pela droga, se intoxicando cada vez mais. Nessa abordagem pelo amedrontamento, sugere-se que os terríveis efeitos do uso do crack apareceriam em alguém escravo dessa substância, um viciado. Consumo e dependência estão ligados a construção de um estigma, no qual se constrói uma analogia entre agressor e vítima. Apresentam os usuários de crack enquanto toxicomaníacos2, utilizando um discurso

médico que dá alicerces as ações do Estado em relação a esse grupo.

O exercício proposto acerca dos ensinamentos sobre o crack, não por acaso, se chama “Efeito dominó”. De forma metafórica, essa expressão é utilizada como algo que acarreta outro fato de forma

2 Para melhor compreensão do conceito de toxicomania e sua origem rever p. 5 do presente artigo.

sistemática, onde uma coisa levaria a outra, somando consequências. Esse exercício é o desenho de dois diferentes dominós com peças montados com palavras, onde há algumas lacunas para o aluno preencher. No primeiro dominó se pede para preencher as lacunas com o que aprenderam sobre o uso do crack. No segundo pede-se ao aluno para preencher as lacunas relacionadas às palavras que caracterizam pessoas que não usam drogas. Esse exercício, em formato lúdico, induz as crianças a preencher as palavras de acordo com adjetivos presentes na apostila sobre pessoas que usam ou não drogas. Relacionado ao crack estão as palavras: “doenças mentais”, “dependência” e “destruição”. Já no dominó das pessoas que não usam drogas estão “família”, “escola”, “saúde”, “paz”. Outro exercício proposto em relação ao crack possui um desenho que expressa a visão do PROERD sobre a luta cotidiana às drogas. Intitulada de “Vamos impedir o avanço do Crack”, o desenho consiste em pais e crianças juntos a policiais militares empurrando a palavra “Crack”, cuja união enfrentaria o avanço dessa terrível substância que tenta ganhar novos adeptos.

Sistematizando as palavras presentes nos desenhos das lições ao longo da apostila, a linguagem utilizada se delimita a dois diferentes polos maniqueístas. Quando abordam as drogas ilegais, as palavras que as qualificam são: “agressividade”, “alucinação”, “paranoia”, “violência”, “delírio”, “dependência”. No outro conjunto de palavras, que enunciam a trajetória de vida proposta pelo PROERD, estão presentes: “família”, “escola”, “saúde” e “liberdade”. São dois caminhos opostos a serem trilhados, sendo o das drogas o lugar obscuro da loucura, do sofrimento para a família e da ilegalidade, onde se sugere que as pessoas que optarem por esse caminho irão iniciar um ciclo de dependência patológica, e que ele certamente terminará em uma punição moral e jurídica. Por isso, o PROERD propõe o “engajamento social” de sua atuação para

(15)

que as pessoas optem por uma “vida saudável, sem drogas e sem violência” (2013, p. 7). Tendo seus alunos não apenas como receptores desses ensinamentos do programa, mas também como difusores desse ideal, há uma construção discursiva binária na qual caracterizações tidas como opostas acabam por ser hierarquizadas.

A visão aplicada pelo programa é de que pessoas estão expostas a constantes riscos por esses maus elementos estarem na sociedade. Por isso, a Polícia Militar propõe uma aliança entre instituições, com o poder de controle, para que juntas possam atuar na comunidade contra às drogas e a violência. Essa aliança tem como objetivo recrutar professores, diretores, pais, alunos e pessoas da comunidade a se tornarem agentes que auxiliem na manutenção da ordem. A proposta inspirada na filosofia da polícia comunitária do PROERD se encontra nas últimas páginas da apostila. Ela “visa à participação social e o envolvimento de todas as forças vivas da comunidade em busca de mais segurança” (2013, p. 62). Defende-se a colaboração com a força policial, auxiliando no combate “aos crimes e à insegurança social” (2013, p. 62). Legitimando sua atuação, utiliza dados quantitativos para demonstrar que em 2010 esse projeto atingiu seus efeitos, uma vez que as taxas de homicídio eram de 10,47 por 100.000 habitantes, sendo os indicadores recomendados pela ONU de 10 por 100.000 habitantes.

A apostila do PROERD propõe ainda que, para garantir a maior participação na segurança de sua comunidade, as pessoas participem dos CONSEG (Conselhos Comunitários de Segurança). Esse conselho é apresentado como lugar de análise, discussão e planejamento de políticas de segurança e qualidade de vida na comunidade. Além disso, este instrumento propõe que se façam campanhas educativas, se disponibilizando a colaborar neste sentido com lideranças locais.

A Polícia Militar do Estado de São Paulo apresenta um plano de melhoria da vida das pessoas pela higienização do local, através de uma vigilância panóptica. Criando uma rede de apoio local e fortalecendo a confiança na instituição como sanadora de problemas, potencializa um canal de informações de denúncia em relação aos maus elementos. Pelo teor do PROERD, claramente os usuários de drogas se tornam um dos principais alvos, pela visão condenatória de seu uso e por supostamente compor a rota de tráfico.

Considerações finais

A partir da análise feita do discurso presente no “Livro do Estudante”, direcionado a alunos do 5º ano, importantes dados foram apontados para nossa conclusão. O PROERD se apresenta enquanto política pública de prevenção, que se utiliza de táticas de amedrontamento para o recrutamento de novos agentes na guerra às drogas. Essas táticas acabam por estigmatizar a figura do usuário de drogas enquanto figura portadora de periculosidade e comportamento patológico. Assim, se justifica e reforça a forma discriminatória do Estado atuar em relação aos usuários de drogas em suas intervenções.

A fim de produzir corpos saudáveis, o PROERD retrata o consumo de drogas ilegais de forma patológica, enquanto única e estrita forma de uso dessas. Para esse programa da polícia, o uso de drogas não ocorre pela própria vontade do sujeito, que assim exerce sua autonomia e realiza seu desejo, mas sempre pela pressão violenta de uma figura aliciadora que leva essa vítima a utilizar entorpecentes. As formas de uso medicinais, lúdicas e religiosas são inexistentes em seu discurso. Importante perceber como a violência é vista como causa e efeito das drogas, seja pelo consumo ou pelo comportamento estigmatizado. Retratam a figura do usuário, que hora se confunde com o traficante,

(16)

em que essas duas personas representam risco para a segurança pública e a saúde coletiva.

Grande parte do material expressa a crença na autoridade como necessária para balizar a conduta correta a seguir, pois acatando aos valores e sujeitando-se ao poder exercido pelas autoridades, o indivíduo não sofrerá nenhuma punição moral e jurídica. Porém, deve-se perceber que não é explicitado em deve-seu discurso que justamente quem irá puni-las são as mesmas instituições que enunciam esse conjunto de verdades. Para tanto, pode-se concluir que o PROERD trabalha através de uma lógica punitiva de exclusão e penalização dos comportamentos tidos como desviantes. Penso ainda ser necessário refletir como se perpetua um programa que utiliza a lógica do amedrontamento como meio educativo em relação às drogas, se há o conhecimento de outras ferramentas preventivas que utilizam visões não punitivas sobre o uso de entorpecentes.

Referências bibliográficas

BISPO, Sabrina Lopes. Problematizando a dinâmica implicada no processo de produção discursiva contemporânea sobre questão das “drogas” a partir do Programa Educacional de Resistência às Drogas - PROERD. 2012. TCC (Graduação

em Sociologia e Política) - Escola de Sociologia e Política. FESPSP, São Paulo, 2012.

CARLINI, Elisaldo Araújo. A história da maconha no Brasil. Jornal Brasileiro de Psiquiatria. Rio de

Janeiro, v. 55, n. 4, p. 314-317, 2006.

CARNEIRO, Henrique. A fabricação do vício. Belo

Horizonte, 2002. Disponível em: <http://www. neip.info/downloads/t_hen1.pdf> Acesso em: 01/10/2015.

COSTA, Sérgio. Dois atlânticos: teoria social,

anti-racismo, cosmopolitismo. Belo Horizonte: Editora UFMG/Humanitas, 2006.

DELEUZE, Gilles. Conversações. São Paulo: Editora

34, 2008.

ESCOHOTADO, Antonio. Historia general de las drogas. v. 3. Madrid: Alianza Editorial, 1998.

FIORE, Mauricio. Algumas reflexões a respeito dos discursos médicos sobre uso de drogas. ENCONTRO ANUAL DA ANPOCS. v. 26, p. 28, 2002. Disponível em: <http://www.neip.info/upd_ blob/0000/675.pdf> Acesso em: 13/11/2015. FEFFERMANN, M.; FIGUEIREDO, R. Redução de

danos como estratégia de prevenção de drogas entre jovens. Boletim do Instituto de Saúde. São Paulo,

n. 40, 2006.

FOUCAULT, Michel. Ditos & escritos V: ética,

sexualidade, política. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.

_________. Em defesa da sociedade. 2. ed. São

Paulo: WMF Martins Fontes, 2010. _________. Prisões e revolta nas prisões. In:

FOUCAULT, Michel. Ditos e escritos IV: estratégia

e poder-saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2003.

HOBSBAWM, E.; RANGER, T. (Orgs.). A invenção das tradições. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1984.

MACRAE, E. O controle social do uso de substâncias psicoativas. In: PASSETTI, E. & SILVA, R. (Orgs.).

(17)

Conversações abolicionistas: uma crítica do

sistema penal e da sociedade punitiva. São Paulo: IBCCrim/PEPG-PUC, 1997. p.107-116. Disponível em: <https://twiki.ufba.br/twiki/bin/view/ CetadObserva/Obra134> Acesso em: 29/10/2015. MACRAE, E.; SIMÕES, J. A. Rodas de fumo: o uso

da maconha entre camadas médias. 2 ed. Salvador: EDUFBA, 2000.

PASSETTI, E. Anarquismos e sociedade de controle.

São Paulo: Cortez, 2003.

PASSETTI, E. A atualidade do abolicionismo penal.

In: PASSETTI, E. (Org.). Curso livre de

abolicionismo penal. 2 ed. Rio de Janeiro: Revan,

2012.

PASSETTI, E. Das ‘fumeries’ ao narcotráfico. São

Paulo: Educ, 1991.

PROERD - Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência. Disponível <http://www. proerdbrasil.com.br/oproerd/oprograma.htm> acesso em 28/04/2015

PROERD. Livro do Estudante. São Paulo: Imprensa

Oficial, 2013.

RODRIGUES, T. Drogas e liberação: enunciadores insuportáveis. Revista Verve. São Paulo, n. 6, p.

129-156, 2004.

RODRIGUES, Thiago. Drogas, proibição e abolição de penas. In: PASSETTI, E. (Org.). Curso livre de abolicionismo penal. 2 ed. Rio de Janeiro: Revan,

2012.

SAAD, Luísa Gonçalves. “Fumo de negro”: a

criminalização da maconha no Brasil (c. 1890- 1932). 2013. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal da Bahia, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Salvador, 2013.

WACQUANT, L. O lugar da prisão na administração da pobreza. Novos Estudos. São Paulo, n. 80, p.

Referências

Documentos relacionados

En el ámbito del CPC/2015, las reglas sobre el ejercicio de la voluntad en la elección del foro nacional, o sea, cuanto a los efectos positivos de la elección del foro, o sea,

Estudar o programa PROERD (Programa Educacional de Resistência às Drogas e a Violência), desenvolvido pela polícia militar, analisando a influência do PROERD na

Atualmente existem em todo o mundo 119 milhões de hectarS destinados a plantações florestais, dos quais 8,2 milhões na América do Sul. No Brasil, em 1997 havia cerca de 4,7 milhões

de professores, contudo, os resultados encontrados dão conta de que este aspecto constitui-se em preocupação para gestores de escola e da sede da SEduc/AM, em

De acordo com o Consed (2011), o cursista deve ter em mente os pressupostos básicos que sustentam a formulação do Progestão, tanto do ponto de vista do gerenciamento

Esta ação consistirá em duas etapas. Este grupo deverá ser composto pela gestora, pelo pedagogo e ou coordenador pedagógico e um professor por disciplina

Pensar a formação continuada como uma das possibilidades de desenvolvimento profissional e pessoal é refletir também sobre a diversidade encontrada diante

patula inibe a multiplicação do DENV-3 nas células, (Figura 4), além disso, nas análises microscópicas não foi observado efeito citotóxico do extrato sobre as