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Analisando habilidades envolvidas em brincadeiras com escolares

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Academic year: 2020

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cometidas, o colégio lançava mão de "sinais obstáculos" e de algumas for-mas de punição. Os castigos eram basicamente de ordem moral: dormir antes da hora, refazer o dever na hora do recreio, copiar trechos de livros e cânticos religiosos, copiar frases de efeito moral. Porém, não deixavam de ser de ordem fisica, à medida que controlava os corpos e adestrava os gestos. Também os jogos de sinais utilizados no colégio serviam para deixar a falta em desvantagem. Eles eram muitos: toque do sino, palmas, livrinho com som de castanholas, olhares, expressões faciais; os mais usados. Esses sinais eram facilmente decodificados pelas alunas e acatados

Assim, através do processo de convencimento, de uma relação amorosa, do exemplo e dos meca-nismos disciplinares iam conseguin-do formar hábitos e desenvolver convicções, ou seja, formar o ca-ráter. Desse modo, a educação mi-nistrada pelas religiosas da Ordem de Santa Úrsula, no colégio de Nos-sa Senhora das Mercês, não viNos-sava atingir apenas o corpo, fazendo com que as alunas andassem numa pos-tura correta, sentassem com distin-ção, colocassem as mãos e as per-nas corretamente, pretendia, tam-bém, atingir a alma, formando há-bitos de conduta e uma forma de ser, ou seja, um tipo de caráter.

Analisando Habilidades Envolvidas em Brincadeiras

com Escolares

Pesquisadoras: Carla CB da Silva e Maria Luisa G Emmel Instituição: Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) Fonte Financiadora: FAPESP

A constatação de que as brincadeiras ajudam no desenvolvi-

mento global das crianças, refinan-do a coordenação motora, provo-

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cando interações sociais, melhoran-do a atenção e à memória, é fato conhecido por diversos profissio-nais que trabalham com essa clien-tela. Como terapeutas ocupacio-nais, as autoras, envolvidas em um projeto que objetivava oferecer ati-vidades nos horários de recreio para crianças de 7 a 10 anos, reencon-traram uma antiga questão: a sim-ples indicação "do brincar" não sa-tisfazia a necessidade de conhecer quais elementos estariam, em cada atividade ou brincadeira, influindo para o desenvolvimento de uma ou outra habilidade. Esta resposta só poderia ser colhida após uma análi-se minuciosa do processo da ativi-dade. O que acontece enquanto a criança brinca? Que elementos pos-sui cada brincadeira que permitem associá-los ao desenvolvimento de tal ou qual função ou habilidade? Não haveria brincadeiras mais indicadas e outras menos, para o desenvolvimento desta ou daquela habilidade? Como definir e como encontrar estas habilidades?

Foi com base nessas refle-xões que surgiu o trabalho aqui des-crito, que se encontra em andamen-

to. Ele se propõe a desenvolver uma sistematização para a análise de brincadeiras tradicionais infantis, de forma a facilitar a identificação de habilidades e colaborar com a pro-gramação de professores, terapeu-tas e outros profissionais que fazem uso da brincadeira como auxiliar no desenvolvimento de crianças. A fundamentação teórica adotada ba-seou-se principalmente em mode-los teóricos e práticos da área de terapia ocupacional, que tem sua prática assentada na aplicação de atividades como forma de tratamen-to, prevenção, promoção do desen-volvimento e reabilitação.

"O procedimento básico para configurar cientificamente o uso da atividade é a sua análise" (Francis-co, 1988, p.38). A análise de ativi-dades, para a terapia ocupacional, tem como objetivo básico possibili-tar o conhecimento detalhado da ati-vidade, permitindo a observação de suas propriedades específicas.

Neste sentido, as atividades humanas devem ser compreendidas em sua historicidade, portanto a aná-lise de atividade não pode ser con-cebida como uma simples tarefa a

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ser realizada, mas como um método que efetiva uma intencionalidade. "E desse modo que se pode perceber a existência de diferentes focos de in-vestigação (diferentes análises), correspondendo a diferentes inten-cionalidades", afirma Medeiros (1989, p. 117), complementando que na área há diferentes modelos de análise de atividade e que os mes-mos correspondem a "... uma dada concepção de homem, saúde e soci-edade..." (p. 118).

O modelo de Ocupação Humana, proposto por Kielhofner e colaboradores na década de 80, parece o mais adequado à análise pretendida. Ele está estruturado sob a Teoria Geral dos Sistemas que, a partir de seus elementos concei-tuais, descreve e explica a ocupa-ção humana. Este modelo entende o homem como um sistema aberto e seu comportamento ocupacional como o resultado desse sistema aberto. "Um sistema aberto interage com seu ambiente e está constante-mente mudando, como função des-sa interação" (Kielhofner, Burke, 1990, p.57). Esta interação é um processo de input (informação ex-

terna), througput (organização e re-organização interna da informação), output (informação exteriorizada/ ação) e feedback (informações re-ferentes à conseqüência da ação).

A estrutura e a organização interna de um sistema aberto são con-ceituadas por três subsistemas inter-relacionados e hierarquicamente or-ganizados, cada um dos quais com uma finalidade diferente, que contri-buem para o output do sistema. São eles: o subsistema da vontade, o do hábito e o do desempenho.

O subsistema da vontade é o nível mais elevado, que guia as es-colhas da ação, partindo da motiva-ção pessoal, dos objetivos e interes-ses. O subsistema do hábito, consti-tuído por hábitos e papéis inte-riorizados, funciona para manter a ação. Já o subsistema do desempe-nho tem a função de produzir ações. Sua estrutura é constituída de habi-lidades organizadas para um fim.

Modelo de Análise Ocupacional

Ao se basear no modelo da ocupação humana, Cubie (1985) propõe um modelo de análise ocupa-

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cional, no qual enfatiza a mútua influência da pessoa e do ambien-te. Esse modelo de análise é pro-posto como um processo compos-to de duas partes; a primeira refe-re-se à análise ocupacional, na qual é realizado um estudo descritivo que visa examinar os seguintes aspectos: o ambiente criado pela ocupação, a motivação provo-cada, as formas com que a ocu-pação organiza o ambiente, as habilidades que ela utiliza e os ti-pos de output que são produzidos. A segunda parte do modelo de análise é a análise clínica da ocu-pação, em que se examina a rela-ção prática entre as ocupações e os objetivos terapêuticos.

Ao realizar um estudo sobre este modelo de análise, observou-se que sua proposta parece ser a mais adequada para o objetivo desta pes-quisa, por ser um estudo descritivo, que visa, dentre seus objetivos glo-bais, à identificação das habilidades utilizadas numa atividade.

As habilidades compõem a estrutura do subsistema de desem-penho e funcionam para produzir ações habilidosas. "As habilidades

incluem não somente o movimento e a percepção exigidos para agir so-bre o ambiente, mas também a to-mada de decisão e solução de pro-blemas" (Kielhofner, 1990, p.64).

"As ações habilidosas exi-gem tanto funções fisiológicas (neurológicas e cinesiológicas) como funções simbólicas,..." (Relly, apud Kielhofner e Burke, 1990, p.64). "As habilidades con-sistem de ações componentes inter-relacionadas e organizadas flexi-velmente, que levam à realização de um propósito ou de uma meta sob condições ambientais favorá-veis" (Bruner, apud Kielhofner e Burke, 1990, p.64).

Cabe ressaltar que as habi-lidades e as regras que as organi-zam não são inatas, mas adquiri-das. "As regras que governam as ações habilidosas são processadas largamente durante o longo perí-odo de imaturidade através das brincadeiras da criança" (Bruner, apud Kielhofner e Burke, 1990, p.64). Autoras como Bomtempo (1992) e Friedmann (1992) tam-bém consideram as brincadeiras como fatos universais, que cons-

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tituem a cultura das crianças, pos-sibilitando a aprendizagem de vá-rias habilidades.

Para este trabalho, os termos jogos e brincadeiras serão sinônimos e serão entendidos como o ato ou efeito de brincar, correspondendo à atividade física ou mental organiza-da por um sistema de regras.

Brincadeiras ou jogos tradi-cionais infantis são aqueles filiados ao folclore como parte da cultura popular, transmitidos pelas gera-ções, e que aconteciam (ou acon-tecem) nas ruas, nas praças, nos parques, dentro de casa ou no re-creio da escola (Friedmann, 1992). Diante do conteúdo expos-to surgem as seguintes questões:

— Quais as habilidades en-volvidas em brincadeiras tradicio-nais?

— Quais as habilidades que mais se destacam? E quais as que são pouco utilizadas?

— Como viabilizar a análi-se de atividades de brincadeiras tra-dicionais?

Com isso, este trabalho ob-jetiva analisar brincadeiras tradicio-nais infantis baseando-se na primei-ra parte do modelo de análise ocu-

pacional proposto por Cubie (1985), a fim de identificar as habilidades re-queridas em tais brincadeiras. Para tanto, os objetivos foram assim especificados:

— descrever as brincadeiras, bem como o processo de desen-volvimento das mesmas;

— identificar e descrever as habilidades encontradas em brinca-deiras tradicionais infantis;

— elaborar a sistematiza-ção de um procedimento para aná-lise de atividades — brincadeiras tradicionais.

Procedimento de coleta de dados

Para a realização da coleta de dados, foi selecionada uma es-cola da rede pública, de acordo com os seguintes critérios: horário e lo-cal disponível para a realização das brincadeiras; interesse da direção da escola e de, pelo menos, uma pro-fessora do ciclo básico em partici-par da pesquisa.

Um grupo de 15 crianças, entre 8 e 9 anos de idade, de uma classe de ciclo básico, foi selecio-nado para participar da pesquisa. Para a realização das brincadeiras

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foi estabelecido um número míni-mo de participantes correspondente a 10 crianças do grupo de 15.

Foram programadas 20 ses-

sões com duração de 50 minutos cada. Para cada sessão foram programadas de duas a três brincadeiras. Todas as brincadeiras realizadas foram filmadas.

Procedimento para a análise dos dados

Para a análise das brincadei-ras e a identificação das habilida-des nelas envolvidas, foi realizada uma adaptação do modelo de aná-lise ocupacional, que teve como base os aspectos considerados re-levantes, segundo os objetivos des-ta pesquisa. Para des-tanto, foram uti-lizados os seguintes indicadores básicos: descrição da brincadeira; tempo de duração; objetos utiliza-dos e identificação das habilidades requeridas.

A seguir, serão apresentados os tópicos que compõem as análi-ses das brincadeiras objetivadas, correspondentes aos resultados pre-liminares desta pesquisa.

Resultados preliminares—Análise das brincadeiras

DESCRIÇÃO DAS BRINCADEIRAS

As brincadeiras estão sendo descritas com o objetivo de expor suas características básicas, suas re-gras e variantes (quando houve uma variação). A maioria das brincadei-ras foram extraídas da literatura e adaptadas às condições adequadas para sua aplicação. As alterações ocorridas deveram-se à necessida-de necessida-de adaptações das brincanecessida-deiras à realidade das crianças e à situa-ção escolar.

ANÁLISE AMBIENTAL

Consistiu em descrever al-guns aspectos ambientais referen-tes à brincadeira, que são:

Espaço fisico: corresponde ao local onde foram realizadas as brincadeiras, pátio aberto ou qua-dra de esportes da escola.

Espaço utilizado: refere-se à utilização, aproximada em metros quadrados, do espaço físico reque-rido pela brincadeira.

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Objetos utilizados: consis-te na descrição dos objetos utili-zados para o desenvolvimento da brincadeira.

Tempo de duração: corres-ponde ao tempo total para a aplica-ção da brincadeira, que consistiu em: instruções, explicação das re-gras, organização do espaço e/ou das crianças e brincadeira propria-mente dita.

Organização social: indica o número total de crianças que parti-ciparam da brincadeira, como tam-bém o número de meninos e de meninas que compuseram o núme-ro total.

Descrição da organização social: este item tem como objeti-vo descrever como as crianças se organizaram e/ou foram organiza-das física e socialmente, durante a brincadeira.

ANÁLISE DO DESEMPENHO

Segundo Cubie (1985), a análise do desempenho consiste basicamente em identificar e descre-ver quais são as habilidades utiliza-das, no caso, numa brincadeira tra-

dicional. Neste trabalho, optou-se por descrever a dinâmica das brin-cadeiras, a fim de auxiliar o proce-dimento de identificação das habi-lidades utilizadas.

Dinâmica da brincadeira: neste tópico, foi realizada a obser-vação integral da brincadeira na fita de vídeo, em velocidade normal. Este procedimento objetivou iden-tificar e compreender como ocor-reu a dinâmica de cada brincadeira, isto é, o processo de desenvolvi-mento de uma brincadeira.

Mediante a descrição da di-nâmica das brincadeiras, observou-se que a maioria delas observou-se deobservou-senvol- desenvol-veu pela repetição de ações bási-cas, que mobilizaram a brincadeira. Cada conjunto destas ações básicas, que na maior parte das brincadei-ras se repetem sucessivamente, foi denominado, neste trabalho, como ciclo.

A descrição da dinâmica das brincadeiras e a observação deta-lhada dos ciclos que as compõem possibilitaram a identificação de suas características básicas, o que permitiu agrupá-las em três catego-rias distintas.

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CATEGORIAS DAS BRINCADEIRAS

Competição entre equipes: aqui foram incluídas todas as brin-cadeiras que eram compostas por equipes e que tinham como objeti-vo final a vitória de uma das equi-pes participantes. Nesta categoria também foi observada a presença de ciclos, onde a participação de uma a três crianças ganhou destaque.

Competição entre crianças: esta categoria compreendeu as brin-cadeiras que se desenvolveram com a participação conjunta de todas as crianças, competindo para um úni-co objetivo: ser a equipe vencedora. Linear, foram incluídas as brincadeiras que demandaram a par-ticipação destacada de uma a três crianças em cada ciclo, cujas ações envolviam questões de certo ou er-rado. Estas brincadeiras se carac-terizaram por apresentar um ritmo contínuo, sem o objetivo final de destacar um vencedor.

IDENTIFICAÇÃO DAS HABILIDADES

Para a identificação das ha-bilidades envolvidas numa brinca-

deira, foram escolhidos de dois a três ciclos, de acordo com a brin-cadeira. Os critérios de escolha dos ciclos analisados foram: a qualida-de da imagem; a nitiqualida-dez das ações exercidas pelas crianças, na filma-gem; a não intercorrência de inter-rupções ou falhas e as característi-cas da brincadeira. Este último cri-tério será apresentado na análise de cada brincadeira.

As habilidades, até o pre-sente momento, estão sendo defi-nidas com base nos comportamen-tos registrados, nas habilidades analisadas e na literatura, portan-to, ainda se encontram em fase pre-liminar. Para esta definição, optou-se por autores como Valett (1977) e Landivar (1990), pelo fato de apresentarem habilidades defini-das, segundo características de ati-vidades realizadas por crianças em idade escolar.

Referências bibliográficas

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brincar: a brinquedoteça. São Paulo: Scritta, 1992. p. 76-82. CUBIE, S.H. Occupational analysis.

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Ocu-pacional. Campinas: Papirus, 1988.

FRIEDMANN, A. A evolução do brincar. In: FRIEDMANN, A. et al. O direito de brincar: a brinquedoteca. São Paulo: Scritta, 1992. p.23-34.

FRIEDMANN, A. A criança na brinquedoteca. In: FRIED-MANN, A. et al. O direito de brincar: a brinquedotecas. São Paulo: Scritta, 1992. p.65-73.

KIELHOFNER, G., BURKE, J.P. Modelo de ocupação humana: parte I. Trad. por Maria Auxi-liadora Cursino Ferrari. Tera-pia Ocupacional, São Paulo, v.l, n.l, p.54-67, 1990.

LANDIVAR, J.G. Como programar em educação especial São Paulo: Manole Dois, 1990. MEDEIROS, M.H.A. A terapia

ocupacional como um saber. uma abordagem epistemoló-gica e social. São Paulo, 1989. Dissertação (mestrado) — UFSCar.

VALETT, RE. Tratamento de dis-túrbios de aprendizagem, ma-nual de programas psico-educacionais. SãoPaulo: EPU: EDUSP, 1977.

Referências

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