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A DIVERSIDADE NA EDUCAÇÃO INCLUSIVA E A SEXUALIDADE DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA VISUAL

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Academic year: 2020

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International Scientific Journal – ISSN: 1679-9844 Nº 3, volume 12, article nº 7, July/September 2017 D.O.I: http://dx.doi.org/10.6020/1679-9844/v12n3a7 Accepted: 28/04/2017 Published: 26/09/2017

ISSN: 16799844 – InterSciencePlace – International Scientific Journal Páginas 100 de 160

A DIVERSIDADE NA EDUCAÇÃO INCLUSIVA E A

SEXUALIDADE DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA VISUAL

THE DIVERSITY IN INCLUSIVE EDUCATION AND THE

SEXUALITY OF THE PERSON WITH VISUAL DISABILITY

Nilvia Gomes1, Nágila Paiva2, Shirlena Amaral3, Bianca Castro4

1

Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF) - Campos dos Goytacazes - RJ; Brasil,

[email protected] 2

Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF) - Campos dos Goytacazes - RJ; Brasil,

[email protected] 3

Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF) - Campos dos Goytacazes - RJ; Brasil,

[email protected] 4

Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF) - Campos dos Goytacazes - RJ; Brasil,

[email protected]

Resumo - O presente trabalho, através de revisão bibliográfica, visa articular temas

que, a primeira vista, parecem ser totalmente opostos. Por tal motivo, inicialmente busca-se entender historicamente como se deu a percepção acerca das pessoas com deficiência e após, restringindo para uma compreensão do que constitui a deficiência visual em um mundo onde a compreensão ocorre visualmente, uma vez que, a visão é um dos sentidos que nos ajuda a compreender o mundo à nossa volta, ao mesmo tempo em que dá significado para os objetos, conceitos e ideias. É através da visão que ocorre a que ocorre a denominada “comunicação visual”, por

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meio de imagens e elementos visuais relacionados. Quando o indivíduo não tem ou perde essa capacidade de se comunicar visualmente, é comum que muitas pessoas pensem que ele será incapaz de realizar tarefas cotidianas e, até mesmo, de se relacionar afetivamente e sexualmente. Sendo assim, as pessoas com deficiência visual são a todo tempo subestimados, como se a ausência da visão os tornassem totalmente incapazes de ter uma vida minimamente normal. Por tal motivo, o presente trabalho busca ressaltar que não são as deficiências que precisam ser destacadas, já que muitas vezes, a pessoa com deficiência não consegue ser percebida por aquilo que é, acaba sendo reduzida à sua deficiência, como se fosse incapaz de desenvolver outras habilidades. Ao falarmos da sexualidade da pessoa com deficiência temos um grande desafio, já que a sociedade tem a educação sexual como um tabu. No entanto, veremos que, em todos os contextos, a educação deve se fazer presente como forma de garantia de inclusão social.

Palavras-chave: deficiência, sexualidade, educação inclusiva, diversidade,

inclusão.

Abstract - The present work, through a bibliographical review, aims at articulating

themes that, at first glance, seem to be totally opposite. For this reason, it is initially sought to understand historically how the perception about people with disabilities was given and after, restricting to an understanding of what constitutes visual impairment in a world where comprehension occurs visually, since, vision is a Of the senses that helps us to understand the world around us, while giving meaning to objects, concepts and ideas. It is through the vision that occurs to what is called "visual communication", through images and related visual elements. When the individual does not have or loses this ability to communicate visually, it is common for many people to think that he will be unable to perform everyday tasks, and even to relate affectively and sexually. Thus, people with visual impairment are at all times underestimated, as if the absence of vision renders them totally incapable of living a minimally normal life. For this reason, the present study seeks to emphasize that it is not the deficiencies that need to be highlighted, since often the disabled person can not be perceived for what he is, ends up being reduced to his disability, as if he were unable to develop other skills. When we talk about the sexuality of people with disabilities we have a great challenge, since society has sex education as a taboo. However, we will see that, in all contexts, education must be present as a way of guaranteeing social inclusion.

Keywords: disability, sexuality, inclusive education.

INTRODUÇÃO

O presente artigo inicialmente busca trazer breves concepções históricas sobre os estereótipos da deficiência, mostrando como a história da pessoa com deficiência é

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contada socialmente, principalmente em uma sociedade que cultua as aparências e renega toda e qualquer diferença.

Daremos ênfase a questão da deficiência visual, principalmente porque a falta da visão faz com que a pessoa não tenha o contato visual com o mundo a sua volta, motivo pelo qual, muitas vezes, é considerada incapaz de realizar várias atividades e principalmente, incapaz de se relacionar afetivamente e discutir sobre sexualidade.

Por isso, o presente artigo pretende mostrar a importância da diversidade na educação inclusiva, bem como a importância da discussão da sexualidade para pessoas com deficiência visual, evidenciando a necessidade de que educadores das diversas áreas do conhecimento abordem de forma clara, objetiva e inclusiva a sexualidade de pessoas com deficiência visual, inserindo no contexto social, cultural e educacional a discussão desta temática como aspecto natural e fundamental do desenvolvimento humano do indivíduo, para além de quaisquer deficiências.

O artigo mostrará ainda é essencial que a comunicação com tal público seja acessível e que haja todo o tipo de adaptação necessária para que a informação seja compreendida, atentando para a importância do conhecimento do próprio corpo, facilitando a promoção da auto-estima, prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e gravidez indesejada, dentre outros, promovendo saúde e bem-estar.

BREVES

CONCEPÇÕES

HISTÓRICAS

SOBRE

OS

ESTEREÓTIPOS DA DEFICIÊNCIA

Atualmente, muito se fala sobre diversidade e respeito às diferenças, mas nem sempre houve esse debate e nem sempre isso ocorreu. É destacado, por Carvalho et al.(2006), que os estereótipos de beleza e perfeição, que consistem em modelos arraigados na nossa sociedade, já eram vivenciados e evidenciados nas sociedades escravistas greco-romanas, quando verificados a supervalorização do corpo perfeito, da beleza e da força física, uma vez que estas características eram fatores importantes, tendo em vista que tais sociedades dedicavam-se de forma

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predominante à guerra, cuja finalidade maior se baseava na conquista e dominação de escravos e da manutenção da ordem vigente.

Nessas sociedades, amparadas em leis e costumes, se uma criança ao nascer, sinalizasse algum "defeito" que viesse a se contrapor de alguma forma com o modelo idealizado, esta poderia ser eliminada ou abandonada, e esta ação, não se constituiria em crime. Exemplo bem contundente dessa prática, concernente às pessoas com deficiência, era adotada na Cidade-Estado de Esparta, na qual, todo recém-nascido que fosse filho da nobreza necessitava ser, em conformidade com as leis vigentes, examinado por uma espécie de comissão oficial, formada por anciãos com autoridade reconhecida, que se reuniam para tomar ciência do novo cidadão, cujo veredicto consistia em caso de comprovação da deficiência por parte destes, em abandono ou morte da criança (Carvalho, 2006).

Para que o pater família pudesse assassinar seu filho recém-nascido, bastaria que o mesmo apresentasse a criança a um grupo de cinco pessoas, as quais deveriam atestar sua monstruosidade e, com isto, condená-la ao abandono ou à morte. A chamada monstruosidade não se referia tão somente às pessoas que nascessem com características muito diferentes das do ser humano, mas também, àquelas deficiências que poderiam resultar em dificuldades severas para que os mesmos conseguissem dar conta das tarefas que lhes seriam colocadas ao longo de suas vidas (CARVALHO, 2006, p.8-9).

Os autores destacam, também, que nas classes subalternas dessa sociedade, poucos registros são encontrados a respeito dos pertencentes aos setores sociais dominados e oprimidos, principalmente em relação aos escravos. Não obstante, considerando-se alguns elementos representantes deste modo de produção, é possível formar uma ideia de como deveria ter sido a vida de uma pessoa com deficiência que não fosse pertencente à hierarquia dominante.

No final da antiguidade e início da Idade Média tem-se o modelo das instituições como asilos, hospitais e hospícios, em geral mantidos pela Igreja Católica, que se constituía como a principal organização econômica e política desse período, para o tratamento das pessoas com deficiência. O modelo institucionalizado foi o que predominou na maior parte do modo de produção capitalista,

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principalmente, em relação aos indivíduos pertencentes às classes exploradas da sociedade. Isso porque, segundo Carvalho:

Apesar da existência dessas instituições, é importante salientar que na Idade Média, a maioria das pessoas com deficiência não eram internadas. Isso ocorria porque a sociedade não dispunha de recursos suficientes para adotar tal procedimento, o que levava boa parte dessas pessoas a sobreviver da mendicância. Existiam também aqueles que eram aproveitados nas atividades laborais desenvolvidas no interior dos feudos, o que se tornava possível devido a maior parte da produção ocorrer no âmbito familiar, onde cada indivíduo poderia trabalhar segundo as suas condições físicas, sensoriais e mentais (CARVALHO, 2006, p.11).

Com o avanço das sociedades, logo no início dos dois primeiros séculos XVI e XVII, início da sociedade moderna, pode ser verificado, principalmente com aqueles que pertenciam à classe subalterna, explorada da população, a segregação por meio do internamento, o que ficou conhecido como processo de institucionalização das pessoas com deficiência (Carvalho, 2006).

Percebem-se nessa sociedade as diferenças básicas na educação dos filhos da nobreza e dos filhos dos pertencentes à classe do proletariado, em que a educação sistematizada das pessoas com deficiência, se restringiu basicamente aos filhos da nobreza e da nascente burguesia enriquecida, os quais puderam usufruir de sua condição de membros das elites. Os demais eram largados à própria sorte. Consiste desse período a criação de instituições voltadas para a educação de surdos no ano de 1760 e de cegos em 1784, na França.

Com o decorrer do tempo, este modelo de educação foi se ampliando para praticamente todos os países do mundo, geralmente mantido por ações filantrópicas e tendo como fundamento principal recolher e isolar do convívio social todas as pessoas que “interferiam” e “atrapalhavam” o desenvolvimento da nova forma de organização social, baseada na homogeneização e na racionalização, orientada por uma lógica voltada para a produção e o lucro (Carvalho, 2006).

Somente por volta da metade do século XX que o paradigma da institucionalização começou a ser criticamente examinado e denunciado como sendo uma prática que violava os direitos humanos. Esta crítica estava inscrita dentro de um contexto marcado pelo crescimento da luta por direitos de todas as minorias sociais, em que este movimento levou ao estabelecimento do modelo da

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integração, cujo modelo está alicerçado na oferta de serviços, com a finalidade de equalizar o acesso desses serviços às pessoas com deficiência.

O modelo do paradigma da integração começou oferecer os serviços a fim de tentar “normalizar” as pessoas com deficiência, se efetivando nas escolas especiais, nas entidades assistenciais e nos centros de reabilitação. Não obstante, este paradigma começou a receber críticas tanto da academia, quanto das próprias pessoas com deficiência, que segundo Brasil (2000) as deficiências, na realidade não se ofuscam, mas são conduzidas por meio do convívio social. As resultantes dessas críticas estão sendo semeadas, dando origem ao paradigma da inclusão, bem discutido no presente momento.

Mediante o exposto, na presente seção, percebemos que a quebra de paradigmas, inclusive dos que já caíram por terra ainda persistem na luta das pessoas com deficiência para alcançar direitos que durante muito tempo foram severamente negados.

ENXERGANDO O IMPERCEPTÍVEL: SOBRE A DEFICIÊNCIA

VISUAL

De acordo com Nunes & Lomonaco (2010, p. 56): “A cegueira é uma deficiência visual, ou seja, uma limitação de uma das formas de apreensão de informações do mundo externo - a visão. Há dois tipos de deficiência visual: cegueira e baixa visão.” Sendo assim, a carência da visão é um fenômeno multifacetado, podendo ser experenciado singularmente de forma percepcional.

Ainda no estudo da temática os mesmos autores nos remetem a seguinte consideração: devido às muitas discussões sobre a deficiência e seus estigmas, é comum a preocupação com os termos utilizados a fim de que eles não sejam pejorativos nem reflitam preconceitos. Em face disto, algumas pessoas preferem o termo deficiente visual à palavra cego. Todavia, esses termos não são equivalentes. O conceito de deficiência visual é mais abrangente visto que engloba não só a cegueira como também a baixa visão. Embora haja quem acredite ser o termo “cego” preconceituoso ou pejorativo, não compartilhamos dessa premissa.

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Utilizamos a palavra por seu caráter descritivo: cego é aquele que é privado de visão, segundo o dicionário Houaiss. E é dessa realidade que estamos tratando. Não há preconceito na utilização do termo cego. O preconceito está em pressupor que o cego é um sujeito menos capaz.

O estranhamento social gerado pela deficiência visual pode acarretar inúmeros complicadores para a inclusão social, uma vez que é um processo complexo, que envolve a pessoa com deficiência visual e aqueles que o cercam. Corriqueiramente pessoas com deficiência visual são vítimas de preconceito e discriminações dentro e fora de seu ambiente familiar, sendo associadas e significadas como impotentes, frágeis, vulneráveis, dentre outros, e, por conseguinte, vítimas da pena alheia.

Nas palavras de Maciel:

o desconhecimento sobre a deficiência alimenta a crença de que as pessoas com deficiência não conseguem levar uma vida „normal‟. Por consequência, a elas lhe é imposta uma segregação desde o nascimento, seja por receio da família de que a criança com deficiência será rejeitada, seja pela falta de acessibilidade. (MACIEL; 2007, p 165).

São muitos os modelos estabelecidos e replicados socialmente que precisam ser enfrentados e desconstruídos, pois a deficiência visual pode levar aquele que a possui a ser desconsiderado enquanto sujeito, ou seja, se passa do estado de pessoa, para condição de algo, a deficiência. Tornando-se então o elemento que nos define enquanto indivíduos potentes a presença ou não da visão. Por este motivo, a terminologia adotada busca valorizar a pessoa e não a deficiência que ela possui, conforme nos ensina Silva (2009), sobre a expressão “pessoas com deficiência”:

A diferença entre esta e as anteriores é simples: ressalta-se a pessoa à frente de sua deficiência. Ressalta-se e valoriza-se a pessoa, acima de tudo, independentemente de suas condições físicas, sensoriais ou intelectuais. Também em um determinado período acreditava-se como correto o termo "especiais" e sua derivação "pessoas com necessidades especiais". "Necessidades especiais" quem não as tem, tendo ou não deficiência? Essa terminologia veio na esteira das necessidades educacionais especiais de algumas crianças com deficiência, passando a ser utilizada em todas as circunstâncias, fora do ambiente escolar. (...) Não se rotula a pessoa pela sua característica física, visual, auditiva ou intelectual, mas reforça-se o indivíduo acima de suas restrições. A construção de uma verdadeira sociedade inclusiva passa também pelo cuidado com a linguagem. Na linguagem se expressa, voluntária ou involuntariamente, o respeito ou a discriminação em relação às pessoas com deficiência. Por isso, vamos sempre nos lembrar que a pessoa com

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deficiência antes de ter deficiência é, acima de tudo e simplesmente: pessoa” (SILVA, 2009).

Desta forma, não possuir um corpo reconhecido como perfeito, caracteriza a falta, a falha, sendo uma afronta aos padrões de beleza e perfeição tidos como admiráveis e até desejáveis, entranhados em contextos sociais, o que acaba destacando as restrições das pessoas com deficiência e não seus valores pessoais e capacidades a serem desenvolvidas.

FORA DO PADRÃO: A DIVERSIDADE NA EDUCAÇÃO INCLUSIVA E A SEXUALIDADE DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA VISUAL

Está intrínseco no imaginário social a percepção da pessoa com deficiência como alguém que necessita de cuidados especiais por possuir um corpo diferente daquele dito como normal, logo, tal corpo não é compatível com os padrões impostos de beleza e, consequentemente, atrativos sexuais.

Nesse sentido, Franca destaca:

No caso das pessoas com cegueira, existem vários estereótipos que podem interferir na expressão da sexualidade, entre eles estão que as pessoas deficientes: são assexuadas; incapazes de gerir a própria vida; altamente dependentes, não são atraentes fisicamente; entre outros. Estes estereótipos são generalizados, e como as pessoas deficientes ainda vivem à margem da sociedade, o desconhecimento sobre o viver destas pessoas, ainda é significativo. (FRANCA, 2013, p. 592)

Na contemporaneidade nos encontramos imersos em um universo de constantes e contínuos estímulos visuais, no qual a atração sentida pode ser arrolada diretamente a aparência do outro, criando relações sem nenhum tipo de profundidade. Vive-se na superficialidade do belo, do esteticamente irretocável, desconsiderando-se aspectos que nos constituem enquanto indivíduos, as vivencias, histórias e tecimentos singulares que nos tornam únicos.

Mas enxergar com os olhos seria a única forma de visão? Lusseyran (1983) não considera a cegueira uma perda, mas um novo estado de percepção. Para ele, ficar cego não implica somente em limitações, mas possibilita ao homem experimentar estados perceptivos novos, e conhecimentos e descobertas ilimitados.

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Assim, pode-se considerar que é possível “enxergar” de inúmeras formas, sendo o ver, uma vivência singular que pode ser significada através de múltiplas configurações, sempre respeitando as ilimitadas possibilidades de adaptação, desenvolvimento e aprendizagens humanas. Desta forma, visão é algo que envolve todo um conjunto de explorações e sensações que invadem o indivíduo em sua relação consigo mesmo e com o mundo ao seu redor.

Dessa forma, embora tenham ocorrido inúmeros progressos relacionados à temática da deficiência, principalmente com o advento da proposta da educação inclusiva, ancorada na ideia da igualdade de oportunidades na educação, que deve ser ofertada com qualidade, independente das limitações, transtornos ou deficiências, ainda existem lacunas quanto aos instrumentos de trabalho, métodos, técnicas, apoio e orientações que auxiliem educadores no manejo com alunos com deficiências.

Para Groenwald:

A escola, inserida na sociedade, deve refletir acerca de seus próprios objetivos para atender ao paradigma da inclusão. A educação exige um projeto pedagógico que motive o acesso e a permanência, com sucesso, do educando no meio escolar, assumindo a diversidade e contemplando suas necessidades e potencialidades. Faz-se necessário, também, repensar as práticas pedagógicas atuais e a ação dos docentes, que precisam ser renovadas e aprimoradas constantemente. (Groenwald, 2013, p.829)

Alguns temas específicos que se encontram inter-relacionados ao sujeito, independente da sua condição física ou intelectual, comuns a natureza humana, até hoje são compreendidos como proibitivos, haja vista a discussão quanto à sexualidade. Falar de educação sexual pode ser considerado um tema espinhoso, que ainda trás rejeição a um grande número de pessoas, pois se imagina que nominar o que seja sexualidade, signifique o mesmo que promover sexo. Tal associação necessita ser esclarecida, já que estamos falando de matérias totalmente distintas.

Por tal motivo, a escola deve se constituir como um local onde os indivíduos possam adquirir consciência de si como sujeito de direitos, bem como possam tê-los assegurados, fazendo assim o enfrentamento de qualquer tipo de preconceito ou discriminação. É um espaço de convivência com a diversidade, com diferentes grupos, identidades e culturas, sendo um local privilegiado para a discussão de

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questões referentes aos direitos humanos e sensibilização dos estudantes quanto à temática. A garantia desses direitos supõe o respeito às diferenças.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos (ONU1, 1948), ressalta em seu artigo 26 que:

1. Toda a pessoa tem direito à educação. A educação deve ser gratuita, pelo menos a correspondente ao ensino elementar fundamental. O ensino elementar é obrigatório. O ensino técnico e profissional dever ser generalizado; o acesso aos estudos superiores deve estar aberto a todos em plena igualdade, em função do seu mérito.

De acordo Prioste (2010), os Parâmetros Curriculares Nacionais, documento de orientação do Ministério da Educação quanto às temáticas que devem ser manuseadas com os alunos objetivando-se a promoção da autonomia e cidadania, a partir 1997, inseriu a sexualidade como um dos temas interdisciplinares, a serem manipulados no ambiente escolar. Apesar disso, aulas sobre sexualidade se resumem a orientações quanto às funções biológicas do corpo humano, ignorando as questões subjetivas, históricas e culturais que permeiam e constituem o indivíduo.

Trabalhar o tema sexualidade provoca certo incômodo aos profissionais da educação porque estes sentem-se despreparados, constrangidos e o assunto acaba por não ser abordado de forma naturalizada no ambiente escolar. Restando a pais ou profissionais especialistas, o dever de orientar os alunos quanto à temática. Observa-se ainda certa resistência no ambiente educacional, no trato da questão, apesar do sexo estar exposto de forma naturalizada e latente, em nosso cotidiano, através dos discursos e na mídia, que apresenta conteúdos pornográficos por meio de rádio, televisão e internet.

Segundo Furlani:

A Escola não pode mais "deixar" a mídia, por exemplo, "falar sozinha" sobre a sexualidade. Contribuir para uma sociedade de respeito às diversidades, que busque a equidade de gênero, a livre orientação sexual e a igualdade étnico-racial é colocar-se, política e assumidamente, em favor da Educação Sexual, em todos os níveis de ensino. (Furlani, 2008, p. 128)

Mas não falar sobre algo, faz com que o mesmo desapareça? Como atuar com a perspectiva de um assunto avaliado como secreto e ao mesmo tempo lidar com uma realidade no qual se tem acesso quase imediato e descontrolado a todo o tipo de informação concernente ao tema? Como lidar a exposição e hiper valoração

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de conteúdos sexuais em todos os meios de comunicação social que nos inundam implícita e explicitamente todos os dias, e não abordar o assunto?

Não haveria uma dissonância em tal posicionamento? Tais percepções, não nos encaminhariam a um questionamento maior? Porque não se pode esclarecer e refletir sobre um tema tão pertinente e que atravessa todo ser em desenvolvimento biopsicossocial? Não seria a escola exatamente aquela destinada a nos fazer evoluir intelecto e emocionalmente em diversas questões?

Se inferir sobre sexualidade já parece nos amedrontar, o que dizer de dizer de explorar o estudo da sexualidade das pessoas com deficiência? Em uma sociedade que ainda é resistente em discutir claramente questões relacionadas à sexualidade humana em qualquer de seus âmbitos, discorrer sobre desejo, orientação sexual e sexualidade de pessoas com deficiência visual ainda é um enorme desafio.

O sujeito que possui deficiência visual tem cerceado seu acesso a estímulos e informações sobre o mundo, visto que pessoas que possuem boa acuidade visual utilizam o sentido da visão como forma de acesso e comunicação.

Fatores sociais podem representar barreiras quase intransponíveis para pessoas com deficiência expressarem suas inquietações relacionadas à sexualidade, o que pode acarretar demasiado sofrimento, podendo ser a educação sexual um fator extremamente relevante na diminuição de muitos dos estigmas e preconceitos.

Segundo Franca:

De fato, as pessoas cegas têm plena condição de compreender os conteúdos discutidos nas propostas de educação sexual dirigida às pessoas não cegas; o que falta é material adequado para atender suas necessidades. Alguns autores sugerem que para os deficientes visuais o ideal é o uso de objetos concretos que possam ser tocados, com texturas específicas, contornos e formas que facilitem a compreensão daquilo que se pretende explicar. Franca (2014, p.131):

A pessoa com deficiência visual possui todas as aptidões e condições para acessar e discernir os contextos relacionados a todos os âmbitos de sua vida, é preciso apenas que a educação se aproprie da importância fundamental de seu papel enquanto formadora máster de sujeitos plenos e completos de suas capacidades intelectivas e emocionais.

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A IMPORTÂNCIA DE DISCUTIR A SEXUALIDADE NA EDUCAÇÃO

INCLUSIVA

Inicialmente, faz-se necessário diferenciar sexualidade de sexo, uma vez que sexualidade é uma propriedade do ser humano, é existencial e nos compõe, enquanto que sexo é uma prática que podemos ter ou não.

Abordar e trazer a tona questões sobre sexo e sexualidade humana ainda é considerado um tabu. A sexualidade até hoje é da ordem do encoberto, do velado, daquilo que não se pode ser visto, muito menos nomeado, portanto indismistificável. Essa forma de pensar pode ser considerada retrógrada e até mesmo perigosa, pois ao não se discorrer e pensar sobre algo de tamanha importância, faz com que esta matéria ganhe um status mistificado sujeito a inúmeras criações fantasiosas e por vezes com um caráter mais assustador e aterrorizante do que é enquanto realidade, o que se pode observar claramente na forma como a sexualidade é concebida e experenciada pelo senso comum.

Desconsidera-se que a sexualidade é tão natural ao indivíduo quanto qualquer outra função biológica, associada a características biopsicossociais.

Portanto, Gesser (2015, p. 559) afirma que: “a sexualidade como um fenômeno complexo e multifacetado, a qual incorpora aspectos culturais, históricos, biológicos e políticos que atravessam e constituem a experiência das pessoas nesse âmbito.” Ainda na mesma ênfase Giddens (1993 apud Ferrari, 2012, p. 867): “sexualidade é tudo que se produz, via linguagem, sobre os desejos, emoções, vivências, práticas, pensamentos.”

Quando pensamos acerca da sexualidade de pessoas com deficiência visual, diversas interrogações permeiam nosso ser: A falta de visão impede, atrapalha, potencializa, diferencia, configura a sexualidade ou a prática sexual? Sexualidade tem a ver com prazer, com dar e receber prazer, e não é qualquer prazer, mas um prazer que passa necessariamente pelo próprio corpo e pelo outro.

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O corpo do outro, para o portador de deficiência visual, é um mistério que muitas vezes só é desvendado com a experiência sexual, principalmente para os que não têm irmãos do sexo oposto, pois, até tocar em alguém do outro sexo, o deficiente visual não tem a real idéia de como ele se configura. (Moura & Pedro, 2006, p. 223)

É conhecido que a pessoa com deficiência visual tem um desenvolvimento sexual comum a qualquer outro indivíduo dito normal, pois tal deficiência não gera qualquer prejuízo as funções corporais e hormonais do corpo humano, nem altera transformações comuns a puberdade e a adolescência.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente trabalho evidenciou a importância da diversidade na educação inclusiva, bem como a importância da discussão da sexualidade para pessoas com deficiência visual, justificando a necessidade de que educadores das diversas áreas do conhecimento abordem de forma clara, objetiva e inclusiva a sexualidade de pessoas com deficiência visual, inserindo no contexto social, cultural e educacional a discussão desta temática como aspecto natural e fundamental do desenvolvimento humano do indivíduo, para além de quaisquer deficiências.

Assim, concluímos que é necessário que educadores das diversas áreas do conhecimento abordem de forma clara, objetiva e inclusiva a sexualidade de pessoas com deficiência visual, inserindo no contexto social, cultural e educacional a discussão desta temática como aspecto natural e fundamental do desenvolvimento humano do indivíduo, para além de quaisquer deficiências.

É primordial considerar que a comunicação com tal público seja acessível e que haja todo o tipo de adaptação necessária para que a informação seja compreendida, atentando para a importância do conhecimento do próprio corpo, facilitando auto-estima, prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e gravidez indesejada, dentre outros, promovendo saúde e bem-estar.

Possuir a garantia de direitos sexuais e reprodutivos, bem como viver sua sexualidade de forma segura, saudável e prazerosa são condições básicas que necessitam ser garantidas as pessoas com deficiência, propiciando a experienciação da sexualidade de forma naturalizada, livre de estereótipos e estigmas.

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Pessoas com deficiência visual possuem a necessidade de serem reconhecidos enquanto pessoas sujeitos de direitos, deveres e possibilidades que o habilitam enquanto cidadão. É justamente a cristalização de preconceitos o maior elemento excluidor e aniquilador que nos permeia, devendo ser arduamente combatido e tendo como grande ferramenta de ação a educação inclusiva.

Dessa forma, o trabalho ressalta a importância da diversidade e da discussão que envolve a sexualidade, que por si só já é um tema emblemático e, mostra-se ainda mais complexo quando relaciona-se às pessoas com deficiência. Buscou-se evidenciar que a falta da visão não interfere ou, ao menos, não deveria interferir no aprendizado e na descoberta da vida sexual e afetiva da pessoa com deficiência visual. Nesse sentido, mostrou-se que é essencial que a comunicação com tal público seja acessível e que haja todo o tipo de adaptação necessária para que a informação seja compreendida.

REFERÊNCIAS

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