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‘O exercício de comércio por oficial’
João Rodrigues Arruda *
I - O Delito Penal Militar e a Transgressão Disciplinar Correspondentes ao ‘ Exercício de Comércio por Oficial ‘
II - O Objetivo da Tutela Jurídica III - Comércio
IV- Identidade da Tipificação Penal à Disciplinar
V - Identidade de Excludentes do Crime e da Infração Disciplinar nas respectivas Instâncias VI - A Licitude de Outras Atividades
VII - Conclusão
I - O DELITO PENAL MILITAR E A TRANSGRESSÃO DISCIPLINAR CORRESPONDENTES AO ‘EXERCÍCIO DE COMÉRCIO POR OFICIAL’
O exercício de comércio por oficial é tratado em três diplomas legais.
No Código Penal Militar, no Título III - Dos Crimes contra o Serviço Militar e o dever Militar, temos no art. art. 204:
‘Art. 204 - Comerciar o oficial da ativa, ou tomar parte na administração ou gerência de sociedade comercial, ou dela ser sócio ou participar, exceto como acionista ou cotista em sociedade anônima, ou por cotas de responsabilidade limitada.’
O Estatuto dos Militares, Lei nº 6880/80, também se refere à atividade comercial, já não apenas para o oficial, mas abrangendo qualquer militar da ativa, nos seguintes termos:
‘Art. 29 - Ao militar da ativa é vedado comerciar ou tomar parte na administração ou gerência de sociedade ou dela ser sócio ou participar, exceto como acionista ou quotista em sociedade anônima ou por quotas de responsabilidade limitada.’
Finalmente, o Regulamento Disciplinar do Exército, Dec. nº 90.608/84, em seu Anexo I, que enumera as transgressões disciplinares, dispõe no nº 121:
‘121 - Exercer o militar da ativa qualquer atividade comercial ou industrial, ressalvadas as permitidas pelo Estatuto dos Militares.’
A comparação literal dos três dispositivos acima revela:
- a lei penal é específica em suas vedações: Comerciar ou tomar parte na administração ou gerência de sociedade comercial, ou dela ser sócio ou de participar.
- o Estatuto dos Militares repete o texto do CPM, apenas omitindo a designação comercial nas entidades a que se refere;
- o Regulamento Disciplinar repete a restrição, ampliando com a abrangência as atividades industriais.
A definição penal é clara e a preocupação se resume ao comércio e as sociedades que tenham a mesma finalidade, sendo raras as infrações que dela se cometem, escassa, por isso, a jurisprudência que se lhe refira.
JURISPRUDÊNCIA DO SUPERIOR TRIBUNAL MILITAR
‘Art. 204 do CPM - EXERCÍCIO DE COMÉRCIO (COMÉRCIO ILÍCITO) Apelação nº 28820 - Relator Ministro Murgel de Rezende
COMÉRCIO ILÍCITO - Embora o atual Código Penal Militar não empregue a expressão comércio habitual, constante do art. 176 do Código revogado, é a prática habitual da mercancia a característica legal do ato de comércio (Código Comercial - art. 4º). Ac. 24/7/57.’
‘Apelação nº 39762/MT - Relator Ministro Jacy Pinheiro
COMÉRCIO ILÍCITO - Manter o oficial, direta ou indiretamente, loja ou estabelecimento para venda de mercadorias, seja qual for a sua procedência, acertando com outrem as operações das vendas e partilhando os lucros das mesmas, pratica atos de comércio, previstos no art. 204 do CPM. Indeferimento da Apelação da defesa para se manter a sentença apelada em todos os seus termos. (Ac. 14/11/73. Ementário do STM - Março/74, p. 3).’
Na esfera disciplinar temos o RDE como norma regulamentadora do Estatuto (ver art. 47), sendo certo que a omissão do qualificativo comercial, não implica no entendimento de que a proibição estatutária abrange as sociedades em geral, tais como as sociedades religiosas, culturais, desportivas, prestadoras de serviços, etc.
II - OBJETIVO DA TUTELA JURÍDICA
O objetivo da norma proibitiva é evitar o comprometimento financeiro ilimitado do militar da ativa, mesmo que apenas na condição de gerente ou administrador da sociedade comercial.
À falta de comentários de doutrinadores especificamente quanto ao art. 29 do Estatuto dos Militares, cabe socorro ao Estatuto dos Funcionário Públicos Civis da União (Lei nº 1711, de 28 Out 52), pela perfeita equivalência dos dispositivos.
Diz o art. 195, da Lei nº 1711/52: ‘Art. 195 - Ao funcionário é proibido:
VII - exercer comércio ou participar de sociedade comercial, exceto como acionista, cotista ou comanditário;’
J. Guimarães Menegale, no seu ‘O Estatuto dos Funcionários’(Vol. II, Forense), comenta:
‘O espírito da alínea VII é de vedar ao funcionário atividade comercial que possa comprometê-lo financeiramente, fazendo-o responsável, ilimitadamente, pelas obrigações sociais da empresa que participar, como os que não são, simplesmente, acionistas, cotista ou comanditário.’ (p. 557)
No mesmo sentido se manifesta o consagrado administrativista Themistocles Brandão Cavalcanti:
‘Não podem os funcionários praticar atos de comércio que envolvam a sua responsabilidade ilimitada. Por isso mesmo, a exceção para acionistas, cotistas e comanditários, porque limitada a responsabilidade.’(in, Direito e Processo Disciplinar, Fundação Getúlio Vargas, 2ª Ed. 1966)
III - COMÉRCIO
Restaria esclarecer o que vem a ser comércio e conseqüentemente comerciante. É ainda Menegale quem preleciona:
‘Que é, com efeito, comerciante ? Ao que todos sabem, ainda não se liquidou o conceito. Invoquemos, todavia, os elementos de sua definição. Uma pessoa reveste a qualidade de comerciante quando reune duas condições: a) exercer atos de comércio; b) fazer disso profissão habitual. Necessário é que os pratique e em seu nome pessoal.
...Torna-se
praticar certos atos de comércio não bastaria, se a repetição deles não constituir profissão, suscetível de granjear para os interessados meios regulares de subsistência.’(Ob. cit. p. 555/557)
Plácido e Silva, em seu Vocabulário Jurídico, diz sobre o verbete comércio:
‘Juridicamente, significa ou compreende a soma de atos mercantis, isto é, de atos de execução com a intenção de cumprir a mediação, característica de sua finalidade, entre o produtor e o consumidor, atos estes que devem ser praticados habitualmente, com o fito de lucro.’ (Vol. I, p. 362)
IV - IDENTIDADE DA TIPIFICAÇÃO PENAL À DISCIPLINAR
A identidade resulta irrecusável da superposição, que seria possível, do texto do art. 29 do Estatuto dos Militares, ao art. 204 do Código Penal Militar.
‘Art. 29, do Estatuto dos Militares:
- Ao militar da ativa é vedado comerciar ou tomar parte na administração ou gerência de sociedade ou dela ser sócio ou participar, exceto como acionista ou quotista em sociedade anônima ou por quotas de responsabilidade limitada.’
Art. 204 - CPM
- Comerciar o oficial da ativa, ou tomar parte na administração ou gerência de sociedade comercial, ou dela ser sócio ou participar, exceto como acionista ou cotista em sociedade anônima, ou por cotas de responsabilidade limitada.
A infração, penal e/ou disciplinar, tem a mesma definição, sem tirar nem por; é idêntica; é a mesma.
A sanção que lhe corresponde, penal e/ou disciplinar se endereça ao mesmo fato ; é penal e/ou disciplinar apenas em razão de ser penal e/ou disciplinar a responsabilidade
que lhe dá causa à imposição, dado o sediço princípio legal da independência das instâncias, civil, penal e disciplinar.
V - IDENTIDADE DE EXCLUDENTES DO CRIME E DA INFRAÇÃO DISCIPLINAR NAS RESPECTIVAS INSTÂNCIAS
Tal identidade é também irretorquível à luz dos textos legais:
CPM - ‘Art. 204 - ....exceto como...cotista em sociedade por cotas de responsabilidade limitada.’
ESTATUTO - ‘Art. 29 - ...exceto como...cotista...;’
São pois idênticas, as excludentes do crime e da transgressão disciplinar nas respectivas instâncias. Quando presentes, inexiste crime e/ou transgressão disciplinar.
VI - A LICITUDE DE OUTRAS ATIVIDADES
Firmado que está o entendimento de inocorrência de crime e/ou transgressão disciplinar na atividade do militar que não implique em comprometimento financeiro ilimitado, com muito mais razão o mesmo entendimento pode, e deve, ser extensivo a quaisquer outras atividades que não se traduzam em comércio (ou indústria, como quer o RDE), como sejam, as prestações de serviços de natureza técnica.
A acrescentar, ainda, que a permissão aos oficiais dos Quadros de Saúde para o exercício de atividades técnicos-profissionais no meio civil, não se traduz, de modo algum, em vedação, por via indireta, às atividades de oficiais de outros quadros, quer nas mesmas especialidades, quer em outras, desde que, habilitados e sem expressa proibição legal.
O disposto no § 3º do art. 29 do Estatuto dos Militares se destina, obviamente, a satisfação do interesse da própria Instituição Militar, no ‘intuito de desenvolver a prática profissional’ daqueles oficiais, para melhoria das condições técnicas de atendimento nas
Organizações Militares, consistindo, assim, em estímulo aos oficiais dos Quadros de Saúde para o aprimoramento de suas habilitações técnicas.
Registre-se, no entanto, por ser de destacada importância, que em qualquer hipótese, tais atividades devem ser exercidas sem prejuízo para o serviço, como muito bem assinalado na parte final do já mencionado parágrafo.
O oficial que presta serviços de natureza técnica não responde, quer limitada ou ilimitadamente pelos compromissos da sociedade, enquadrando-se assim na exceção ou na excludente legal. Não pratica ato de comércio nem pode ser equiparado a ‘participante na administração ou gerência de sociedade’.
Jamais poderá incorrer em infração disciplinar ou crime militar de exercício de comércio; jamais poderá ser indiciado em processo administrativo disciplinar ou em inquérito policial militar.
VII - CONCLUSÃO
Configura-se inexistência de crime militar ou de transgressão disciplinar no fato de o oficial prestar serviços de natureza técnica.
É a conclusão que a doutrina, a jurisprudência e os textos legais permitem, não se admitindo outra que dela possa discrepar.
Rio de Janeiro, junho de 1987
*Advogado
Disponível em:< http://www.cesdim.org.br/temp.aspx?PaginaID=128> Acesso em.: 01 out 2007