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FOTOGRAFIA:
Uma experiência entre arte e vida
Mariete Taschetto Uberti1
Resumo: A proposição deste ensaio originou-se de um projeto desenvolvido junto a
uma turma de 7º ano, de uma Escola Rural de Ensino Fundamental, no interior de Agudo/RS. No qual, discorreremos sobre os entrelaçamentos que o estudo da fotografia poderia articular entre vida e artes. Para a pesquisa e desenvolvimento do projeto nos embasamos nos estudos que abordam as possibilidades de desenvolver projetos que partam do interesse dos estudantes do ensino básico. Para a contextualização da fotografia nos valemos de imagens de obras de arte.
Palavras-chave: Artes; Fotografia; Experiência.
Introdução
A educação é um processo contínuo de aprendizado, de idas e vindas, de encontros de desencontros. São esses movimentos que produzem reflexões e desacomodamentos no educador que reverberando no contexto da sala de aula com os alunos. Onde os sujeitos não são meros receptores do conhecimento, mas sujeitos em ação e interação com o meio. Partindo desse viés que direcionamos o texto, onde são abordadas questões sobre uma experiência vivenciada em uma Escola de Ensino Fundamental, no interior do município de Agudo/RS. Tendo como linha mestra a inserção do estudo da fotografia com uma turma de 7º ano, no segundo semestre de 2013. Estudo que se originou do interesse dos estudantes, pelo tema. Para este texto, o objetivo é traçar alguns apontamentos referentes ao desenvolvimento do projeto, desenvolvido com a referida turma, onde se almejou produção do conhecimento por temas que partissem dos alunos e estes pudessem se constituir como promotores de seu próprio fazer. Para tal premissa, nos embasamos em Hernández (2000), Larrosa, (2002), Freire (2003), e Coelho (2010).
A referida proposição reverberou em muitas questões, que propiciaram contextualizações pertinentes a uma visão de mundo vinculada a arte erudita, que necessitava produzir relações com o contexto dos educandos, a fim de que
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Professora da Rede Estadual do RS, lotada na E. E. E. M. Marechal Humberto de Alencar Castelo
Branco, em Santa Maria/RS e do NEAD – IF Farroupilha. Formada em Artes Visuais Licenciatura
2 pudessem individual e coletivamente, constituírem-se produtores de seu próprio saber.
Deslocando-se do lugar comum: um olhar há conhecer o outro
A docência, o aprendizado em sala de aula é como a arte e a pesquisa, sempre em um devir a ser, a estar, pertencer, é a criação de algo que buscamos, e que de sentido a educação: professores/alunos em relação. Não produzimos somente para os outros, para cumprir normas e regras, mas porque somos movidos pelo conhecimento e pela descoberta. Pela criação incerta de uma arte que só acontesse da interação entre os sujeitos, a qual, só é capaz de ganhar vida e significados se nos permitirmos constituir um ambiente propício para essas trocas e conhecimentos, ou como trata Hernández,
O que aparece como distintivo é que a aprendizagem e o ensino são realizados por meio de uma trajetória que nunca é fixa, mas que serve de fio condutor para a atuação do docente em relação aos alunos. Tê-lo presente serve de auxílio, de ponto de referência, sobre o que significa um projeto em relação ao diálogo e à negociação com os alunos [...] critérios para a seleção dos temas, à importância do trabalho com diferentes fontes de informação, à relevância da avaliação como atitude de reconstrução e transferência do aprendido (2000, p. 182).
Trabalhar a partir de um tema gerador, apresentado pelos educandos, nos desloca do lugar comum, onde temos e podemos trabalhar, dentro de nosso foco de conhecimento e estudo, pois requer uma desestruturação das normas, do habitual dos conteúdos programáticos, de regras e normas que são impostas. Para tanto, se faz necessário conhecimento. Cabendo ao professor um estudo prévio que lhe de base para conduzir e mediar o trabalho, pois, como discorre Paulo Freire, “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para sua própria produção ou a sua construção" (2003, p. 47). O educador necessita buscar alternativas de trabalho com os estudantes, dando sentido ao aprendizado, sempre que possível, relacionando com a vida.
O projeto desenvolvido com a turma de 7º ano vinculou-se a essa ideia, pois o objetivo fôra desenvolver alternativas e temáticas de trabalho que propiciassem autonomia e envolvimento por parte dos educandos. Considerando, que os estudantes chegam à escola “possuidores de uma bagagem de vivências e de
3 prazer com narrativas visuais, sonoras e corporais da cultura popular do seu cotidiano” (COELHO, 2010, p.120), que necessitam serem mediados pelos professores em sala de aula.
A proposta surgiu a partir de uma pergunta realizada por um dos alunos em uma aula sobre arte brasileira, quando conversavamos sobre um artista/fotógrafo: “Professora nós poderiamos aprofundar nossos estudos em fotografia? Eu gostaria de saber o que difere fotografia artística das fotografias que nós temos em casa?”. A turma, de um modo geral, concordou com a proposição do colega, se monstrando muito animados com a ideia. Considerando a diverisidade de possibilidades que poderia desenvolver com o tema da fotografia, os questionei sobre o que gostariam de estudar. Entre as respotas, a que delimitou os estudos, foi a do aluno Lucas: Na verdade o importante é aprendermos como a fotografia se tornou importante para nós, porque antigamente as pessoas não registravam tanto os momentos importantes como hoje em dia. Ouvi falar de uma tal de camêra analógica... nosso encontro encerrou com essas questões.
Inquieta e com alguns rascunhos sobre as questões apresentadas pela turma, busquei embasamento nos estudos de Hernández (2007), que demonstrou o quão complexo seria o desenvolvimento de um projeto em sala de aula, tendo em vista que, grande parte da turma não tinha acesso direto aos meios de comunicação, como jornais, revistas e a internet, deliberando a mim a função de selecionar o material a ser levado para a sala de aula. No encanto seguinte direcionei a proposição da aula a partir de algumas questões, dentre elas:
- Vocês sabem o significado do termo “fotografia registro”? Têm câmeras fotográficas em casa ou celulares? Já fotografaram? Destaquei estas, por terem sido as norteadoras do projeto, pois, naquela ocasião muitos de meus alunos responderam que não tinham câmera fotográfica e nem celular com câmera. E o que me surpreendeu foi que, quatro, dos quinze alunos da turma, nunca haviam pegado uma câmera nas mãos.
Partimos da análise de imagens de fotografias trazidas pelos estudantes, como registros de casamento, aniversários, primeira comunhão, confirmação; as quais foram a base para articular alguns apontamentos sobre fotografias de família, desenvolvimento da câmera fotográfica e das imagens no decorrer dos tempos. As
4 contextualizações nos levaram a problematizar sobre o desenvolvimento tecnológico e sua influência nos lares. Também estudamos algumas fotografias/arte de artistas brasileiros, como Sebastião Salgado (1944-) (imagem 1).
Articulando essas proposições com os estudos, saímos a campo, para praticarmos, com duas câmeras digitais fotografando imagens ao redor da escola, a partir do tema “paisagem rural”. Nas atividades práticas, foi onde os alunos conseguiram dar sentido as contextualizações em sala de aula, principalmente na experiência fotográfica realizada pela turma. Pois como discorre Larrosa, “a experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca” (2002, p. 21). Propor um perceber-se e perceber o outro no espaço escolar, o entorno por meio da câmera fotográfica, para alguns foi mais que uma experiência, foi um novo conhecimento, uma descoberta através da imagem fotográfica. Pois, alguns não tinham conhecimento de como manipulá-la e necessitaram do auxílio da professora e dos colegas, para realizar suas primeiras fotografias, realizar seus primeiros registros (imagem 2).
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Imagem 2. Fotografia do aluno Jacson, junho de 2013.
Outra atividade realizada pelos estudantes foi à delimitação de temáticas para a realização de registros fotográficos, e posteriores trabalhos práticos, como a criação de histórias a partir das imagens. Concluímos, assim o segundo trimestre letivo, com relatórios individuais e coletivos das experiências.
Considerações
Trabalhar com a fotografia enquanto dispositivo entre arte e vida, no processo educativo, requereu mais do que conhecimentos teóricos sobre o tema. Propiciou deslocamentos. Ao organizar estratégias de trabalho que dessem sentido ao aprendizado entre conteúdos, onde o diálogo, a interação, a escuta, a mediação nos possibilitaram mais que simples trocas, oportunizaram conhecer o outro, histórias, experiências, curiosidades, sentidos e olhares, além de seus medos e inseguranças.
A fotografia nos levou entrelaçar imagens familiares com a arte e esta com o olhar dos alunos, por meio das experiências fotográficas que realizamos, onde eles se colocaram como mediadores e atores de seus próprios fazeres, ao poder analisar e discutir com a turma sobre as imagens e suas relações diretas com a vida e também desta com as fotografias trazidas, de casa, pelos alunos. Onde a arte foi à promotora da curiosidade, de questões que reverberaram em buscas, alternativas e resultados de experiências vivenciadas não somente pelo fazer pedagógico, mas pelas relações que se estenderam a criações a partir de seus próprios fazeres. Escrever a partir de suas próprias imagens é recriar um mundo particular, a partir de
6 experiências e vivencias, que a imposição de conteúdos ou imagens de terceiros nem sempre propiciam, por já virem com pré-delimitações. A experiência e o trabalho desenvolvido foram os fomentadores de reflexões e buscas por alteridades nas aulas de artes, com outras proposições e olhares, buscando considerar os espaços e experiências dos educandos.
Referências
COELHO, Roseane. M. O sujeito e a construção da identidade: implicações na infância, na educação e na arte. In: MARTINS, Raimundo; TOURINHO, Irene. (orgs.). Cultura Visual e
Infância: quando as imagens invadem a escola. Santa Maria: Editora UFSM, 2010, p.
105-130.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia - saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 2003.
HERNÁNDEZ, Fernando. Transgressões e mudanças na educação: os projetos de trabalho. Porto Alegre: Artmed, 2000.
___________. Catadores da Cultura Visual: uma proposta para uma nova narrativa educacional. Porto Alegre: Mediações, 2007.
LARROSA, Jorge B. Notas sobre a experiência e o saber da experiência. Revista Brasileira de Educação, jan – abril 2002, Nº 19, p. 20 - 28. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rbedu/n19/n19a02.pdf. Acesso em 02 de abr. 2015.