1º Econometric Game
São Paulo
CASE RESOLVIDO
FEA-USP 05/11/2016
Tema: Efeitos da Redução da Velocidade
nas vias de São Paulo
Motivação:
Política: redução da velocidade de diversas vias da cidade a partir de
20/07/2015 pela Prefeitura de São Paulo
Objetivo: reduzir o número de acidentes e mortes no trânsito da cidade Perguntas a serem respondidas*:
Qual é o real efeito da política sobre o número de acidentes?
Qual é o custo de política, em termos de tempo adicional de deslocamento? Com base nos resultados encontrados, é possível dizer que a política é
custo-benéfica?
Dados de São Paulo antes e depois da
política
Não podemos inferir causalidade ao comparar as mortes no trânsito (ou taxas de acidentes) em São Paulo antes e depois da política. Veja que há tendência de
redução de acidentes:
Dados de São Paulo antes e depois da
política
Potenciais variáveis que explicam a taxa de acidentes no trânsito, e que possivelmente estão correlacionadas com os períodos antes e depois da política:
• Comportamentais (conscientização da população) • Outras políticas (lei seca, multas)
• Conjunturais (desemprego, que gera menos deslocamentos para trabalho) • Mudanças de preços relativos (substituição dos veículos individualizados por
transportes coletivos)
Etapa 1: Dados de São Paulo em comparação
com Guarulhos (Modelo de Regressão Simples)
A comparação no tempo pode apresentar correlações espúrias (por
desconsiderar vários outros fatores que explicam a redução da taxa de acidentes e estão variando no tempo)
O primeiro exercício consistia em comparar as taxas de acidentes em São
Paulo, impactada pela política, com uma cidade vizinha, que não sofreu impacto da política.
A regressão simples abaixo ilustra o primeiro exercício esperado (cross-section
de vias das duas cidades para 2006):
Etapa 1: Dados de São Paulo em
comparação com Guarulhos
A estimação da regressão simples gerou os seguintes resultados*:
_________________________________________________________________________________ taxa_acidentes | Coef. Est. Erro Pad. t P>|t| [95% Intervalo Conf.] _________________________________________________________________________________
dummySP | -0,003739 0,0001678 -22,28 0,000 -0,00407 -0,00341
constante | 0.0123274 0,0001626 75,80 0,000 0,01200 0,01264
___________________________________________________
O efeito de -0,003739 não é uma porcentagem (é uma redução da taxa, i.e. em pp).
Comparando com a taxa média de acidentes, o efeito estimado, em termos percentuais, seria de -0,43, isto é, uma redução de 43%
Etapa 1: Dados de São Paulo em
comparação com Guarulhos
Críticas às estimações da Etapa 1:
O efeito estimado não pode ser interpretado como causal, pois há outros
fatores que explicam a taxa de acidentes (incorporados no termo de erro) e que podem diferir entre as duas cidades (isto é, serem correlacionados com a
variável dummy para São Paulo), tais como:
• Políticas mais específicas de cada cidade (tais como a lei seca, multas
diferenciadas)
• Conjunturais e setoriais (a composição da atividade econômica de cada
cidade pode ter sofrido de forma diferenciada com a crise econômica)
Etapa 2: Dados de São Paulo em comparação
com Guarulhos antes e depois da política
(Modelo de Diferenças-em-diferenças)
Uma forma de estimar o efeito pretendido sobre a taxa de redução de acidentes seria
comparar os acidentes nas vias das cidades de Guarulhos e de São Paulo antes e depois da política.
Esse método é conhecido por Método de Diferenças-em-diferenças (DD). Para
estimá-lo, podemos escrever a seguinte equação:
𝑇𝑎𝑥𝑎 𝑑𝑒 𝑎𝑐𝑖𝑑𝑒𝑛𝑡𝑒𝑠𝑖𝑡
= 𝛽0 + 𝛽1𝐷𝑢𝑚𝑚𝑦𝑆𝑃𝑖 + 𝛽2𝐷𝑢𝑚𝑚𝑦𝑃ó𝑠𝑃𝑜𝑙í𝑡𝑖𝑐𝑎𝑡 + 𝛽3𝐷𝑢𝑚𝑚𝑦𝑆𝑃𝑖 ∗ 𝐷𝑢𝑚𝑚𝑦𝑃ó𝑠𝑃𝑜𝑙í𝑡𝑖𝑐𝑎𝑡 + 𝑢𝑖𝑡
O modelo acima controla pelas especificidades de cada região (dummySP) e por
choques que tenham ocorrido em ambas as cidades no período da política (dummyPolítica)
Etapa 2: Dados de São Paulo em comparação com
Guarulhos antes e depois da política (Modelo de
Diferenças-em-diferenças)
𝛽3 pode ser interpretado como causal (i.é. como o verdadeiro efeito da política) caso a evolução da taxa de acidentes, na ausência da política, seja igual para as duas
cidades (mesmo que ambas tenham diferentes taxas), conforme o gráfico abaixo ilustra:
Etapa 2: Dados de São Paulo em comparação
com Guarulhos antes e depois da política
(Modelo de Diferenças-em-diferenças)
A estimação gerou os seguintes resultados*:
____________________________________________________________________________________ taxa_acidentes | Coef. Est. Erro Pad. t P>|t| [95% Intervalo Conf.] ____________________________________________________________________________________ dummy_SP | -0,0027729 0,0001678 -16,53 0,000 -0,0031018 -0,002444 dummy_Política | -0,0001 0,00023 -0,43 0,664 -0,0005508 0,0003508 dummySP*dummyPP| -0,0009662 0,0002373 -4,07 0,000 -0,0014313 -0,000501 Constante | 0,0124274 0,0001626 76,42 0,000 0,0121086 0,0127461 _____________________________________________________
Para interpretar em termos percentuais (em relação à média de São Paulo), o efeito estimado seria de -0,100075, isto é, uma redução de 10%
Etapa 2: Dados de São Paulo em comparação
com Guarulhos antes e depois da política
(Modelo de Diferenças-em-diferenças)
Críticas e considerações sobre as estimações da Etapa 2:
O efeito estimado não pode ser interpretado como causal caso existam
mudanças ocorrendo (que impactem a taxa de acidentes) em ambas as cidades no período posterior à política
De qualquer forma, nota-se que o controle de outros fatores (na estimação
por DD) faz com que o efeito estimado de 43% se reduza para 10%, indicando que, possivelmente, a estimativa do efeito por regressão simples seja
viesada.
O modelo DD é bastante sensível à escolha da cidade do grupo de controle
(ou seja, que não sofreu o impacto da política). Assim, a próxima etapa pretende verificar as semelhanças e diferenças entre as cidades.
Etapa 3: Teste de Médias entre as
cidades de São Paulo e Guarulhos
Nesta etapa, implementamos um teste de igualdade de média (ou teste de
distribuição, ou teste de variâncias) para comparar as características de ambas as cidades.
As seguintes variáveis foram consideradas:
Área
PIB per capita, PIB da indústria, de serviços, da agrocpecuária
Despesas com transporte (absolutas e em termos %), receitas tributárias per capita Educação (analfabetismo)
Etapa 3: Teste de Médias entre as
cidades de São Paulo e Guarulhos
Os testes rejeitaram a hipótese de igualdade nas médias e variâncias
amostrais de todas as características das cidades
Uma hipótese aventada por estes resultados seria de que Guarulhos pode
diferir muito de São Paulo em características importantes que influenciam a taxa de acidentes e estão mudando no tempo, tais como:
– frota de veículos,
– despesas com políticas de transporte, – atividade econômica, entre outras.
Assim, a etapa 4 propõe a aplicação de um modelo de controle sintético, para
Etapa 4: Método de Controle Sintético
O método de controle sintético é geralmente aplicado:
à avaliação de políticas pontuais (como no caso da cidade de São Paulo, que
foi a única unidade tratada no estado); e
a dados agregados.
A abordagem consiste em encontrar unidades, dentro de um grupo de possíveis controles (chamado de donor pool e não impactados pela política), que
repliquem a trajetória da taxa de acidentes de São Paulo. Esse grupo é considerado o grupo de controle sintético.
Ao final do procedimento, o grupo sintético tem os valores de suas variáveis explicativas bastante próximos às da cidade tratada.
Etapa 4: Método de Controle Sintético
O método de controle sintético gerou os seguintes resultados:
Cidades consideradas na construção do grupo de controle sintético:
Cidades Pesos (%)
Osasco 25.9
Santo André 36
Santos 9.6
São Caetano do Sul 22.5 Taboão da Serra 6.1
Etapa 4: Método de Controle Sintético
A comparação de algumas variáveis da cidade de São Paulo com a variável simulada para o grupo de controle sintético foi:
___________________________________________________________________________________________________________________
Variável | Tratado (SP) Sintético
______________________________________________________________________________________________________________________________________________
PIB per capita | 15.277,72 16.673,29 Densidade pop. | 6.978,42 6.837,63 %PIB serviços | 0,62 0,55 População urbana | 10 milhões 5 milhões %Gastos mun transp | 0,11 0,055 Proporção homens | 0,476 0,478 Taxa analfabetismo | 4,15 5,77 Proporção automov | 0,38 0,32 Proporção motos | 0,045 0,041
Etapa 4: Método de Controle Sintético
A comparação de algumas variáveis da cidade de São Paulo com a variável simulada para o grupo de controle sintético foi:
.0 0 8 .0 0 8 5 .0 0 9 .0 0 9 5 .0 1 ta xa _ a ci d e n te s 2014 2014.5 2015 2015.5 2016 ano
treated unit synthetic control unit
Em termos percentuais, o efeito foi de 0,0085/0,0093 = 7,85%
Etapa 4: Método de Controle Sintético
Críticas e considerações sobre as estimações da Etapa 4:
O efeito estimado pelo controle sintético foi próximo ao efeito estimado pelo
modelo de DD, indicando que a redução da velocidade das vias de São Paulo tenha reduzido em 7,85% a taxa de acidentes
Problemas do método:
– São observados poucos períodos anteriores à política para ajustar um grupo de controle sintético mais próximo
Etapa Final: Avaliação de Custo-Benefício
Por fim, as equipes deveriam fazer uma comparação do custo-benefício da política a partir de: efeitos estimados; dados fornecidos; e outras hipóteses sobre os custos de oportunidade das pessoas impactadas pela política:
Benefício: Redução da taxa de acidentes e, consequentemente, da mortalidade no
trânsito (vidas salvas)
Custo: Aumento do tempo de deslocamento das pessoas que circulam nas vias cuja
velocidade média foi reduzida*
Hipóteses possíveis**: – Valor estatístico da vida
– Custo de oportunidade do tempo
– Número de pessoas que circulam nas vias com redução da velocidade
*Foram fornecidos dados sobre esse custo, embora a política tenha outros custos, como os de fiscalização (efetivo policial, radares, placas).
Etapa Final: Avaliação de Custo-Benefício
Modelo Redução acidentes em
um ano
Mortos em acidentes de trânsito na cidade (média
2005-2014)¹
Redução mortes prevista no ano
Valor de uma vida
(R$) Benefício ao ano (R$) Reg Simples 43.00% 592 R$ 97,762,250.70 Diff in Diff 10.00% 138 R$ 22,735,407.14 Sintético 7.85% 108 R$ 17,847,294.60 ¹http://vias-seguras.com/os_acidentes/estatisticas/estatisticas_estaduais/estatisticas_de_acidentes_no_estado_de_sao_paulo/acidentes_na_cidade_de_sao_paulo Hipóteses:
(i) todos os acidentes evitados foram fatais;
(ii) valor da vida é VP dos salários à taxa da poupança (6% a.a.); (iii) salário mínimo considerado (estimativa lower bound)
1,376 R$ 165,264.28
Etapa Final: Avaliação de Custo-Benefício
Aumento no tempo parado no trânsito (horas) Salário/h ora Número carros por dianas vias de São Paulo¹ Número de carros em horário de pico (7h as 10h e 17h as 20h) Número de pessoas por carro (média por dia)² Salário perdido no trânsito todo ano 0.25 R$ 5.00 530,000 132,500 1.4 R$ 61,215,000.00 ¹http://vejasp.abril.com.br/materia/destino-marginais-matthew-shirts ²http://oglobo.globo.com/brasil/sao-paulo-tem-media-de-14-ocupante-por-carro-2695421 Hipóteses:
(i) salário/hora = salário mínimo por hora
Etapa Final: Avaliação de
Custo-Benefício
A depender das premissas e do modelo que é tomado como verdade, a
decisão sobre a continuidade da política pode ser questionada
Deve-se prosseguir com uma política que não é custo-benéfica (i.e. seu custo
é maior que seus ganhos)?
Críticas à análise: resultados sensíveis às premissas adotadas (qual o valor da
vida? Salário mínimo como custo de oportunidade subestima custos)
Modelo Custo Benefício Benefício Líquido Conclusão
Reg Simples R$ 97,762,250.70 R$ 36,547,250.70 Política Custo-Benéfica
Diff in Diff R$ 22,735,407.14 -R$ 38,479,592.86 Política Não Custo-Benéfica
Sintético R$ 17,847,294.60 -R$ 43,367,705.40 Política Não Custo-Benéfica
61,215,000.00 R$
Case Makers
Profa. Paula Pereda Bruno Palialol Danilo Souza Bruno Komatsu
Critérios de Avaliação Utilizados
1. Resultado e interpretação da Regressão Simples 2. Resultado e interpretação do DD
3. Análise custo-benefício (Peso 2) 4. Testes de média e argumentação
5. Resultado e interpretação do controle sintético (Peso 2) 6. Endereçamento adequado
7. Clareza na exposição e justificativa dos dados 8. Hipóteses assumidas e metodologia