Por que ler Aristóteles hoje
Existem autores que obcecam a posteridade. As interpretações de seu pensamento passam, mas o vigor da obra, qual motor imóvel, permanece vivo e capaz de animar as novas gerações a retornar a ela. Vinte e quatro séculos de interpretação produziram os mais diversos Aristóteles: o diluidor do platonismo dos neoplatônicos e “o mestre dos que sabem” de Dante; o “príncipe dos filósofos” dos exegetas islâmicos e a viga mestra da escolástica cristã medieval; a bête noire de Galileu, Descartes e Hobbes e o empirista infatigável dos tratados biológicos; um proto-hegeliano e um adepto do senso comum escocês; a “consciência possível” do mundo grego e o inimigo da ordem liberal; um existencialista heideggeriano avant la lettre e um precursor da filosofia analítica anglo-americana; o sistematizador dogmático e o cultor de aporias. O elenco dos Aristóteles possíveis – criados e potenciais – parece não ter fim.
Cada um desses Aristóteles tem a sua dose de verdade. Todos reivindicam o seu direito à cidadania na história das idéias e oferecem uma pequena antologia de textos, cuidadosamente extraídos da obra do mestre, a fim de legitimar o pleito. Afinal, como lembra o próprio Aristóteles em outro contexto, “algumas dessas coisas vêm sendo ditas por inúmeras pessoas há um bom tempo, e outras por algumas poucas merecedoras de respeito; é razoável supor que nenhuma delas tenha errado totalmente o alvo, mas que cada uma tenha acertado ao menos em certas coisas, ou até mesmo em muitas delas” (Ética a Nicômaco, 1098b26). O equívoco seria imaginar que alguma leitura, por mais exaustiva e criteriosa, possa representar a palavra final ou a verdade plena sobre ele. Sobre alguém tão grandioso e multifacetado como Aristóteles, o máximo a que podemos legitimamente aspirar são verdades parciais – interpretações fadadas a serem corrigidas por novas abordagens e deslocadas por outras verdades parciais. É indutivamente confortável prever que novos Aristóteles continuarão a ser gerados (ou ressuscitados) no futuro.
Como explicar a perene atualidade de Aristóteles? Qual a fonte do sempre renovado interesse por sua obra? Parte da resposta, creio, está na espantosa abrangência e qualidade de sua contribuição aos mais diferentes ramos do conhecimento: lógica, ciências naturais, metafísica, psicologia, ética, política, economia, retórica e estética. É plausível supor que
nenhum outro pensador, em qualquer tempo, tenha chegado a saber e sistematizar uma proporção tão vasta de tudo o que havia para se saber em sua época. O sistematizador do sabido, contudo, não sufocou o desbravador do saber.
O padrão se repete. É surpreendente verificar a frequência com que trabalhos especializados de pesquisa – não apenas em filosofia, mas em diversos ramos das ciências naturais e sociais – terminam de algum modo aprofundando pistas, recuperando abordagens ou tangenciando idéias que já estavam delineadas em tratados aristotélicos. Entre os casos recentes figuram, por exemplo, a “teoria das catástrofes” do físico-matemático francês René Thom, a economia do bem-estar desenvolvida pelo Prêmio Nobel de economia Amartya Sen e a “nova retórica” do lógico belga Chaim Perelman. Se há uma ponta de ironia na observação de Aristóteles de que “com toda a probabilidade, cada habilidade e cada filosofia já foi descoberta muitas e muitas vezes e novamente sucumbiu” (Metafísica, 1074b10), parece justo afirmar, no entanto, que a história das idéias registra, sim, movimentos cíclicos e que estes, por seu turno, teimam em retornar, às vezes por inesperados caminhos, a trilhas e temas peripatéticos.
O principal, porém, não é isso. O que verdadeiramente diferencia Aristóteles e dá a ele um lugar de absoluta preeminência na história da filosofia não são as doutrinas, teorias ou teses substantivas que ele chegou a propor. É a qualidade do seu fazer filosófico: não só a forma como ele cuidadosa e pacientemente baliza e encaminha o trabalho investigativo, recolhendo saberes, pesando evidências e ajustando conceitos, mas a extraordinária força e engenhosidade da argumentação empregada na busca do saber.
Para além de todos os resultados concretos colhidos por Aristóteles em seu trabalho de pesquisa e reflexão, é no pensamento in statu fiendi, isto é, o pensamento a se fazer e se moldar, a se desdobrar e testar os seus limites que reside, acima de qualquer outra coisa, o valor perene e a sempre renovada força de atração de seu legado. É por isso que mesmo que todas as suas teorias e conclusões viessem a ser positivamente refutadas – o que está longe, é claro, de ser o caso – sua obra não se reduziria à condição de peça de antiquário, restrita a um punhado de excêntricos e especialistas. Ler Aristóteles é caminhar e refletir com ele: o ponto de chegada é provisório; a estrada percorrida, imortal.
Entre as características gerais do fazer filosófico aristotélico – e tendo em vista a sua possível relevância contemporânea – três aspectos me parecem especialmente dignos de
destaque: (1) os preliminares de uma investigação; (2) o compromisso com a clareza e os cuidados referentes ao uso da linguagem; e (3) o caráter cooperativo e aberto da busca do conhecimento.
(1) Preliminares da investigação. O primeiro passo em qualquer trabalho de pesquisa ou reflexão é a determinação da exata natureza do problema a ser investigado. Chegar à pergunta certa, ou seja, a uma questão ou problema central que tenha sido devidamente identificado e que seja merecedor de um esforço de investigação não é tarefa fácil. Nessa etapa da jornada costumam naufragar inumeráveis aventuras de descobrimento. “É necessário, tendo em vista o conhecimento que buscamos, investigar de início quais são as primeiras questões a serem feitas. Isso inclui tanto os pensamentos de outros sobre elas, como qualquer outra coisa que eles tenham porventura omitido. Para aqueles que almejam solucionar questões é proveitoso colocar essas questões bem, pois a resposta que emergir consistirá na solução de dificuldades previamente encontradas e é impossível desatarmos algo a não ser que saibamos qual é o nó” (Metafísica, 995a24). Qual é o nó a ser desatado? Uma boa pergunta é metade da pesquisa.
Essa preocupação percorre todo o trabalho maduro de Aristóteles e, ao que parece, já se fazia presente em seus diálogos de juventude – escritos nos tempos de estudante na Academia dirigida por Platão – que eram precedidos por um proêmio no qual o autor delineava as questões a serem debatidas pelos participantes. Uma argumentação bem conduzida pressupõe um desafio bem formulado e uma questão compartilhada. Embora não se restrinja a isso, uma das funções centrais da dialética de Aristóteles consiste no recolhimento das opiniões preexistentes sobre determinada questão teórica ou prática visando: a) sua melhor formulação e b) a busca de soluções por meio de um trabalho de elucidação e avaliação que incorpore, na medida do possível, as opiniões passadas como contribuições parciais.
(2) Uso da linguagem. “Pensar como um sábio, falar como uma pessoa comum”. O compromisso com a clareza, sem prejuízo da profundidade, é um dos traços definidores do fazer filosófico aristotélico. Aristóteles não se trancou na cela de uma terminologia técnica altamente especializada, repleta de termos especiosos, nem fez da obscuridade o biombo da absurdidade. Sua opção preferencial é pela transparência e acessibilidade da
linguagem comum, ainda que por vezes ele julgue necessário depurá-la de impurezas e ambiguidades.
Ao mesmo tempo, ele evita recorrer às artimanhas da sedução estética em seu trabalho filosófico. “Tudo aquilo que é dito metaforicamente não está claro” (Tópicos, 139b34). A inversão em relação a Platão é completa. Enquanto o seu ex-mentor serviu-se à larga do arsenal poético e retórico em seus diálogos, mas pretendeu banir os poetas e condenou veementemente a retórica, Aristóteles preserva o mais frio distanciamento e neutralidade nos meios de expressão que emprega, mas sustenta a legitimidade da poesia no âmbito da pólis e oferece uma análise penetrante e uma fundamentação racional da arte retórica. Ele sabe que com imagens, alegorias e dramatizações é possível persuadir e convencer, mas não provar ou justificar racionalmente. Daí que o apelo do persuasivo e do convincente, embora perfeitamente válido em suas instâncias apropriadas, deva ser evitado pelos que perseguem o saber racional. “A virtude do estilo é ser claro” (Retórica, 1404b2). Quando se trata do uso da linguagem, o belo e o verdadeiro podem impelir o filósofo em direções não-convergentes.
Nem por isso, contudo, Aristóteles perdeu de vista os limites do rigor e da precisão no uso da linguagem em teorias e argumentos que se pretendem pautados pela disciplina da razão. Ainda que o ideal do conhecimento apodíctico (demonstrativo e irrefutável) seja válido para todas as ciências e áreas do saber, isso não significa que ele resolva todos os problemas ou possa ser indiscriminadamente usado. “A marca de uma pessoa educada é buscar tanta precisão em cada classe de coisas quanto a natureza do assunto permite. Demandar uma demonstração lógica de um orador seria tão absurdo quanto permitir a um matemático servir-se das artes da persuasão. (...) Não se pode exigir o mesmo grau de precisão em todas as discussões” (Ética a Nicômaco, 1094b23).
A falta e o excesso – extremos simétricos – se tocam. Quando o afã da razão ignora e atropela os limites da racionalidade, a irracionalidade irrompe. O pai da lógica analítica e formalizador do método dedutivo – capaz de fornecer conclusões demonstrativamente verdadeiras a partir de premissas aceitas – foi também o primeiro a reconhecer o domínio restrito de sua aplicabilidade. A hybris cognitiva é inimiga do conhecimento. “Recordar-se de que “Recordar-se é tão-somente um homem”, alerta Aristóteles no fragmento de um texto da
juventude que se perdeu, “é algo que convém não apenas ao afortunado, mas também ao lógico”.
(3) Caráter do conhecimento. Com Aristóteles a filosofia alcança a maioridade da autoconsciência. Ele é o primeiro filósofo ocidental de quem temos registro que se mirou e colocou a si mesmo, de modo explícito e sistemático, em seu próprio contexto histórico. Sua dialética representa um esforço criterioso de resgate, assimilação e filtragem do saber constituído – a afirmação do caráter eminentemente cooperativo e aberto ao novo de toda busca genuína do conhecimento.
O presente é o herdeiro do passado, assim como o futuro herdará um dia tudo aquilo que pudermos legar a ele. Especialistas ou leigos, físicos ou poetas, “todos têm algo a contribuir”. Sem abrir mão da verdade como alvo da cognição, Aristóteles jamais incorre na suprema imodéstia, comum a tantos intelectuais antigos e modernos, de decretar que só são válidas as perspectivas tomadas de um único ângulo, ou seja, aquele que ora ocupamos. Quando o saber verdadeiro (episteme) ou a sabedoria do agir (fronesis) estão em jogo, ele afirma, “está aberto a qualquer um fornecer o que falta”. “O tempo é um ótimo descobridor e aliado nessas coisas” (Ética a Nicômaco, 1098a22).
Ao lado do crivo lógico, o trabalho empírico tem um papel fundamental no processo de filtragem e conquista de novos saberes. O contraste com o autor do Timeu é nítido. Da metereologia à ética e política, todas as investigações aristótelicas são balizadas pelos dados da experiência e pela evidência empírica. Em nenhuma ocasião Aristóteles invoca um mundo transcendente de formas platônicas – o acesso privilegiado a algum tipo de realidade que extrapole os fatos observáveis e a experiência comum – como critério de verdade.
Um exemplo singelo da biologia ilustra bem o ponto: “Este, então, parece ser o modo de reprodução das abelhas, a julgar pela teoria e pelo que parecem ser os fatos sobre o assunto. Os fatos, entretanto, não foram ainda devidamente certificados. Mas, se vierem a sê-lo, então devemos confiar na evidência dos sentidos, ao invés de na teoria, e nas teorias apenas caso as suas conclusões estiverem de acordo com os fenômenos” (De generatione animalium, 760b28). Na colméia como nos céus, a observação criteriosa e o uso do instrumental lógico-crítico – e não o apego a essências ou princípios apriorísticos – decidem provisoriamente a questão.
Não se trata, é evidente, de reincidir em anacronismos historiográficos e transformar Aristóteles em protótipo do “homem de ciência” ou empirista lockiano embrionário. O que se busca é evidenciar como a orientação empírica do seu pensamento – tal como a dialética, uma nota constante ao longo de sua obra – concorre para assegurar o caráter genuinamente cooperativo e aberto ao novo de sua paixão pela conhecimento. Não é preciso omitir ou negar o que há de caduco e equivocado em Aristóteles – os excessos teleológicos, o otimismo ingênuo de sua psicologia moral, a defesa da escravidão, a condenação dos juros e do comércio, a pletora de erros factuais em anatomia, zoologia, astronomia etc. – para reconhecer e render tributo ao que há de fértil e duradouro em sua vasta contribuição.
Vivemos hoje em dia sob o impacto de um big-bang informacional. Estima-se que a quantidade de informação no mundo – o volume total de exabytes (1018 bites cada) armazenados em papel, filme e mídias ópticas e eletrônicas – tenha dobrado nos últimos três anos. Ocorre, no entanto, que embora a massa bruta de informação disponível tenha crescido explosivamente desde os tempos do iluminismo grego de Sócrates, Tucídides e Eurípides, a capacidade intelectual dos homens permanece a mesma. O poder da mente individual não cresce na proporção do aumento do estoque de saber acumulado: estamos fadados a nos tornar cada vez menores e mais insignificantes em relação ao universo que nos cerca.
O estudo dos clássicos da cultura grega é um aliado valioso – talvez o melhor de que dispomos – contra o estilhaçamento da atenção e o caos informacional que nos acossam. Ler Aristóteles não é adentrar numa redoma de idéias feitas e valores fósseis – é desfrutar do privilégio de fazer contato com o poder inigualável de sua mente. É ingressar na fabulosa arena de argumentação racional de sua filosofia e exercitar-se na disciplina austera de raciocínio e reflexão que ensina a transformar informação em conhecimento e capacidade analítica em sabedoria de vida. Aristóteles não é doutrina ou sistema – é ferramenta de pensar e bússola do agir. Ao caminhar em sua companhia vislumbramos o que seria viver à altura do que há de melhor em nós.
Eduardo Giannetti
Insper Instituto de Ensino e Pesquisa São Paulo