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Trabalho no mundo contemporâneo

INTRODUÇÃO

Alcebíades Teixeira Filho

A autorização do Ministério da Educação para que as instituições particulares de ensino superior no Brasil levem a frente experiências de ensino semipresencial na matriz curricular básica estabeleceu um desafio para o corpo docente das Faculdades Simonsen. O planejamento de um curso semipresencial para o terceiro grau envolve a busca do equilíbrio entre a oferta de enriquecimento cognitivo de um lado, e a capacidade dos alunos se servirem adequadamente das novas tecnologias para, eles próprios, ditarem o ritmo da apreensão dos conteúdos, assim como dos debates que devem envolver o professor e os demais colegas de turma.

A escolha do tema Trabalho no Mundo Contemporâneo como tema inaugurador seguiu a compreensão de que as ciências sociais no Brasil arcaram nas últimas décadas com o desafio de interpretar mudanças sociais, econômicas e políticas (e legislativas!) que bombardearam não apenas os círculos educacionais e acadêmicos, mas mesmo o cotidiano de cada lar em nosso país. Tratava-se do debate do desemprego e seus correlatos: desemprego conjuntural e desemprego estrutural. Isso mexeu com os sindicatos, instados que foram a oferecer cursos de requalificação profissional e outras iniciativas. Envolveu também e sobretudo os governos e suas macro políticas econômicas, pois o debate sobre taxas de juros e gestão das dívidas públicas estão intimamente relacionadas com os ritmos de desenvolvimento econômico e social.

Chegamos a dezesseis capítulos que sintetizam nossas preocupações. Bom curso!

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Trabalho no mundo contemporâneo__________________________________________Capítulo 1

CAPÍTULO 1

O Papel do trabalho na história humana

(Uma concepção materialista da história?)

Agora reflita um pouco...

Os intelectuais do século XIX, na Europa principalmente, travavam um apaixonado debate acerca de quais pistas perseguir para melhor compreender a história e a evolução das sociedades humanas, das civilizações, dos países. Um tipo de história que dava mais atenção para os caminhos: por exemplo, o caminho da Economia. Apelidada de concepção idealista, a primeira; e de concepção materialista, a segunda, esses pensadores percebiam que a vida humana possuía uma dimensão produtiva (ou econômica, o que dá no mesmo) e uma dimensão espiritual (ou ideológica), ambas intermediadas por uma terceira dimensão ligada às práticas políticas na sociedade: governar, deixar-se governar, acatar ou desacatar leis, escolher representantes e/ou apeá-los do poder.

A partir do século citado ganhou força nas academias e lugares de reflexão a concepção de que, por mais importância que os grandes líderes e suas doutrinas tenham na condução dos acontecimentos, existe um condicionamento prévio, anterior, que tem a ver com a economia – melhor dizendo, com as condições de produção da

O papel do trabalho na história humana 1 Por onde se inicia a construção de um prédio? Pelos

alicerces? Pelos andares? Pelo telhado? É possível comparar a estrutura de um edifício a uma sociedade humana qualquer? Nesse caso, onde estará o alicerce de toda sociedade humana? Nas artes? Nos valores morais? Nas colheitas?

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Trabalho no mundo contemporâneo__________________________________________Capítulo 1 existência material dos seres humanos: a satisfação de suas necessidades básicas de comer, vestir, habitar. Repetindo uma frase famosa, trata-se da idéia de que a existência precede a consciência. A existência precede a consciência não no sentido de que a primeira explica tudo e determina tudo, mas no sentido mais simples e óbvio de que mesmo o mais criativo artista ou o mais erudito filósofo precisa, antes de saciar a fome do espírito, estar abrigado do frio e ter saciado a fome do estômago. É nesse sentido que afirmamos, nesse primeiro capítulo de nosso curso, que o trabalho humano, inicialmente entendido como produção material para a satisfação das necessidades básicas, está na base, no alicerce mesmo das sociedades humanas desde tempos imemoriais.

Em segundo lugar afirmaremos que, na espécie humana, o trabalho desenvolveu-se como uma atividade coletiva, fosse a cooperação imprescindível dos coletores/caçadores que enfrentavam juntos os grandes animais no passado; fossem as grandes obras que garantiam a abertura dos canais de irrigação e controle de cheias dos grandes rios nos impérios clássicos; chegando até a intrincada articulação da economia de mercado dos dias atuais, onde todos dependem de todos. Por isso caracterizamos o trabalho como social.

Em terceiro lugar, na concepção que atribui ao trabalho humano um enorme papel explicativo dos rumos da sociedade, afirmaremos que o próprio conjunto de idéias, crenças, concepções e valores humanos que variaram tanto ao longo da história, são profundamente condicionados pelas práticas do trabalho, pelas ferramentas e técnicas utilizadas ao produzir e pelas relações sociais que surgem dentro do ato de trabalhar: a todo esse conjunto chamamos a partir de agora de Forças Produtivas de uma dada sociedade.

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Trabalho no mundo contemporâneo__________________________________________Capítulo 1

MATERIALISTA, MAS NÃO DETERMINISTA

A ilha de Páscoa fica no Oceano Pacífico, muitos e muitos quilômetros a oeste da costa da América do Sul. É nela que se encontram aquelas estátuas

gigantescas de pedra, sempre voltadas para o mar e que tanto intrigaram os europeus desde sua descoberta. O filme Rapa Nui (umbigo do mundo, como o povo original chamava sua ilha) apresenta a explicação para o desaparecimento da sociedade que ergueu os belos monumentos que é a explicação mais aceita hoje em dia pelos

estudiosos da história dessa ilha. A crença de que as estátuas eram necessárias para agradar os deuses levou sucessivos líderes a impor um perigoso desmatamento na ilha pois os troncos das árvores existentes eram a única solução para o transporte de peças tão pesadas. Sem árvores, a erosão do solo levou a sociedade a um beco sem saída quanto ao abastecimento alimentar: se os historiadores estão certos, eis um belo caso a demonstrar que a produção material propõe, mas é a ação humana que dispõe.

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Trabalho no mundo contemporâneo__________________________________________Capítulo 1

TESTE SEUS CONHECIMENTOS:

1.O que você entende pela analogia entre um edifício e a sociedade humana?

2.Você consegue explicar o que o autor quer dizer com o existência precede a

consciência?

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Trabalho no mundo contemporâneo__________________________________________Capítulo 2

CAPÍTULO 2

Das Corporações de ofício aos assalariados

Você conhece os sobrenomes ingleses Taylor, Carpenter, Baker e Smith? Os sobrenomes alemães Schneider, Becker, Zimmerman e Schmidt? Ou mesmo o nosso Ferreira? Todos querem dizer uma profissão: alfaiate, carpinteiro, padeiro, ferreiro, açougueiro e assim por diante. Nasceram nas vilas da idade média, quando o renascimento das cidades criou um mercado que justificasse a transferência de alguns camponeses especialmente hábeis num ofício qualquer, a ponto deste trabalhador, agora, dedicar-se exclusivamente a fazer o pão, ou trabalhar a carne, ou fazer carpintaria. Instalado na vila, não lhe faltariam jovens ávidos por aprender o ofício com tão competente mestre, que em troca, se ofereceriam para trabalhar de graça. Começa a surgir o mestre-de-ofício.

O que hoje chamamos de Indústria – e logo pensamos em grandes galpões com máquinas e operários lá trabalhando – seria mais bem identificada como Indústria moderna, de modelo fabril. Mas no ano de 1300 em Paris ou Florença ou Madri havia uma “indústria” e essa indústria da época era baseada nesse mestre-de-ofício que

Das corporações de ofício aos assalariados 1

Na Baixa Idade Média o progresso das cidades e o uso do dinheiro deram aos artesãos uma oportunidade de abandonar a agricultura e viver de seu ofício. O açougueiro, o padeiro e o fabricante de velas foram então para a cidade e abriram uma loja. Dedicaram-se ao negócio de carnes, padaria e fabrico de velas, não para satisfazer suas necessidades, mas sim para atender a procura. Dedicavam-se a abastecer um mercado pequeno, porém crescente.

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Trabalho no mundo contemporâneo__________________________________________Capítulo 2 trabalhava em casa, cercado de um ou dois menores de idade – os aprendizes – e talvez de mais um ou dois diaristas, quer dizer, antigos aprendizes que, tendo completado seu período obrigatório de aprendizado do ofício com o mestre, não tiveram recursos ou iniciativa de abrir sua própria loja. Na bibliografia que trata desses tempos, é muito comum que esse primeiro assalariado seja apresentado como um jornaleiro: nada tendo a ver com o sentido moderno da palavra, o jornaleiro quer dizer diarista ( jour = dia e journée = jornada de trabalho).

PATRÕES E TRABALHADORES, JUNTOS

Ao contrário dos sindicatos modernos, em que os empresários se organizam em sindicatos próprios - patronais; e os trabalhadores se organizam nos

sindicatos de empregados, nas vilas da idade média as corporações de ofício eram diferentes. Todos aqueles que se ocupavam de um determinado tipo de trabalho – aprendizes, jornaleiros, mestres artesãos – pertenciam à mesma corporação. Podiam lutar pelas mesmas coisas dentro da mesma organização porque a distância entre trabalhador e patrão não era muito grande. O jornaleiro morava com o mestre, comia a mesma comida e acreditava nas mesmas coisas. Era regra, e não exceção, tornar-se o aprendiz, com o tempo, um mestre. Mais tarde, quando aumentaram os abusos e as relações já não eram idênticas, encontramos jornaleiros formando corporações próprias. (...) Os degraus da escada da ascensão, de aprendiz a mestre, não estavam fora do alcance dos trabalhadores.

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Trabalho no mundo contemporâneo__________________________________________Capítulo 2

TESTANDO CONHECIMENTOS:

1.Baseado no capítulo que você acabou de ler, você consegue responder qual o

papel do mestre de oficio?

2.Como surgiram os primeiros jornaleiros?

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Trabalho no mundo contemporâneo__________________________________________Capítulo 3

CAPÍTULO 3

Do trabalho doméstico ao trabalho fabril

Começaremos lembrando o que significava a chegada do inverno nos campos ingleses do século XV. O ritmo do trabalho diminuía muito: no inverno não se colhe, não se semeia, não se ara. Em geral, apenas consertos, reparos de todo o tipo e a alimentação dos poucos animais protegidos do tempo nos estábulos. A neve aprisiona a família do camponês dentro da pequena casa e sobra tempo para o artesanato – a manufatura no sentido original da palavra. Fiação e tecelagem eram as duas atividades mais comuns, mas sempre em pequena escala porque era destinada ao consumo da família e, quem sabe, alguma sobra para o pequeno mercado local. Além do mais, tão logo o inverno terminasse, as energias da família novamente se concentrariam no trabalho agrícola.

Imagine no entanto que John, o mercador, habitante do grande burgo de Londres, estivesse em rixa com a corporação de mestres tecelões de Londres: queria mais produção por um preço mais em conta, já que expandia seus negócios para o continente. Enquanto John procurasse tecidos em Londres, estaria submetido à jurisdição dessa corporação que era bastante forte, política e legalmente. No campo,

Do trabalho doméstico ao trabalho fabril 1

No prazo de dois a três séculos o papel do burguês-comerciante agindo a intermediação entre o trabalho familiar às vezes urbano, às vezes rural foi suficiente para retirar do antigo produtor direto o controle dos meios-de-produção. Nem a matéria-prima, nem os instrumentos de trabalho, nem a técnica, o ritmo e o local de trabalho, nada permaneceu em mãos do velho produtor. Ao final do processo o burguês-comerciante tornara-se um burguês produtor.

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Trabalho no mundo contemporâneo__________________________________________Capítulo 3 porém, não havia corporações de ofício: eis um caso de desregulamentação que John procurava. O problema é que a capacidade produtiva de 20, 30 ou 40 famílias camponesas era pequena e, pior, era interrompida quando chegava a primavera. John, se não quisesse arcar com pesadas multas previstas em contratos nos quais ele se obrigava a entregar tanto de mercadoria na data tal, teria de estabilizar e aumentar a produtividade de sua rede de fornecedores.

Primeiro, ele resolveu o problema do gargalo da matéria-prima: se o rebanho dos camponeses para a tosquia era pequeno, John passava a fornecer lã bruta; se as ferramentas de fiação e tecelagem eram antiquadas, John encontraria em Amsterdam ou Brugges as últimas novidades em ferramentas e convenceria seus camponeses a aceitar as novas ferramentas. Por fim, quando o mercado consumidor controlado por John se expandisse ainda mais ele tentaria convencer, família após família, a abandonar de vez a prioridade da agricultura e especializar-se na manufatura não mais no inverno apenas, mas doravante durante o ano inteiro. De início, apenas famílias com posse de terras menos férteis aceitavam a proposta, mas o processo avançava.

O que foi relatado no parágrafo acima demorou, na verdade, algumas gerações, com idas e vindas. O que importa é perceber que, após três ou quatro ou cinco gerações, o camponês tataraneto do primeiro não mais conhecia a arte de produzir sua própria roca de fiar ou ferramentas de tecelagem. Perdera o controle sobre a matéria-prima e a técnica de produzir os instrumentos de seu trabalho. Perdera também o controle sobre o mercado comprador: seu tataravô vendia pouco, mas vendia diretamente na feira dos sábados em sua localidade, enquanto ele só tinha vaga noção de para quem o burguês-mercador vendia os tecidos que ele produzia em sua casa humilde. Matéria-prima, ferramentas, local de trabalho, repare como o conjunto desses elementos – que chamamos de meios de produção – estão saindo do controle do produtor imediato e escorrendo para o burguês. O camponês ainda é dono do,local onde trabalha – sua casa – e porque trabalha em casa, controla também o ritmo de seu trabalho. Mas não por muito tempo.

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Trabalho no mundo contemporâneo__________________________________________Capítulo 3 Quando o burguês-comerciante londrino perceber, já no século XVIII, que a mais recente novidade em tecnologia é uma máquina pesada, cara, que usa vapor e permite que dezenas de operários trabalhem ao seu redor, um salto se dará. Ele não pode fazer à moda antiga, distribuindo uma novidade dessa na casa de cada um de seus quarenta ou cinquenta fornecedores. O investimento é em uma , duas ou três dessas máquinas gigantescas, que necessitam de um galpão alugado ou comprado. John terá de atrair seus velhos tecelões e fiadores para virem morar perto desse galpão. Está nascendo a fábrica moderna.

ALGUÉM QUE ENXERGOU ANTES DE SEU TEMPO

Esse famoso Jack de Newbury era uma figura importante porque, ao contrário dos outros, que levavam matéria-prima para os

artesãos trabalharem em suas casas, ergueu um edifício próprio, com mais de 200 teares, e no qual cerca de 600 homens, mulheres e crianças trabalhavam. Isso ocorreu em princípios do século XVI. Foi ele o precursor do sistema de fábricas que surgiria três séculos mais tarde. Em Newbery contava-se na época que o famoso Jack era um industrial tão grande que quando o Rei Jaime encontrou seus vagões carregados de tecidos indo para Londres, e soube de quem eram, disse – se a história é verdadeira – que esse Jack era mais rico do que ele Rei.

(Leo Huberman, História da Riqueza do Homem, página 123)

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Trabalho no mundo contemporâneo_______________________________________________Capítulo 4

CAPÍTULO 4

Livre concorrência e monopolização

O capitalismo carrega uma contradição insolúvel: o conjunto dos empresários reza, dia e noite, para que seus colegas paguem bons salários a seus funcionários. Isso é sincero, pois que maiores salários significam maior poder de compra, portanto capacidade de vender aquilo que sua empresa produziu. Onde está então a contradição? Ela está no fato de que cada empresário torce para que os demais façam, mas ele não faz. Por que? Por medo da concorrência. Na economia de mercado, quando um concorrente descobre uma inovação tecnológica e monopoliza essa inovação, ele poderá roubar o mercado de seus concorrentes até levá-los à falência ou a uma fusão forçada, quando a empresa menor é engolida pela empresa maior. O número de empresas diminui, e chamamos isso de concentração e centralização do capital.

Se o número das empresas que concorrem num setor diminuir a menos de uma dúzia, abre-se a possibilidade de contatos entre seus presidentes que produza acordos secretos, como por exemplo um acordo secreto que impeça os preços de baixarem, apesar das constantes inovações tecnológicas: estará criado um Cartel, que configura crime na maioria das legislações dos países do mundo. No Brasil a criação de cartel é

Livre concorrência e monopolização 1

A fábrica moderna cria o capitalismo e faz surgir milhares, dezenas de milhares de empresas que concorrem entre si. Nasce a esperança de que essa concorrência seja tão perfeita e duradoura que faça o bem do consumidor pela melhora da qualidade e do preço dos produtos; e também do trabalhador, que seria disputado pelas empresas a procura de bons operários, oferecendo-lhes melhores salários. Para onde foi a concorrência perfeita?

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Trabalho no mundo contemporâneo_______________________________________________Capítulo 4 caracterizada como crime contra o direito econômico. Se algumas empresas tornam-se tão grandes a ponto de concentrarem um enorme poder econômico, pode surgir um Trust, que significa uma super empresa que exerce influência e controle sobre as várias fases do processo produtivo: como se uma gigante da indústria automobilística passasse a controlar siderúrgicas que lhe vão fornecer o aço para o chassis do automóvel; mineradoras que produzirão o minério usado nas siderúrgicas e assim por diante.

Essas práticas, se não acabam por completo com a concorrência – pois não acabam – criam grandes distorções. E quanto aos salários? O que acontece com aquela expectativa de que a livre concorrência favoreceria os empregados e seus salários? Bem, a resposta é muito complexa, mas se as empresas se tornam muito, muito poderosas e cada vez em menor número – pelo menos do ponto de vista das empresas que de fato ditam os rumos das coisas – a ponto de destruírem muitas concorrentes poderosas, será que faz sentido imaginar que os sindicatos de empregados terão boa correlação de forças nas negociações?

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Trabalho no mundo contemporâneo_______________________________________________Capítulo 4

TUCKER, O AVIADOR, LEONARDO DI CAPRIO E HUGHES

Hollywood produziu alguns filmes interessantes sobre monopólios, cartéis e trustes. “Tucker: o homem e o seu sonho”, estrelado por Jeff Bridges, relata a história real do engenheiro Preston Tucker que,

após a segunda guerra mundial, enfrentou a ira das “três grandes de Detroit” – GM, Ford e Chrysler – construindo um carro inovador para os padrões da época, como motor traseiro, cinto de segurança e pára-brisas ejetável. Foi levado à falência por uma trama do trust comandado pelas gigantes da indústria automobilística norte-americana. “O Aviador”, mais recente, apresenta o galã Leonardo Di Caprio no papel do lendário Howard Hughes que, na década de 1940, enfrenta o FBI em sua luta para denunciar a cumplicidade do governo da época para com o monopólio da Pan am. Curiosamente os dois personagens se cruzam: em “Tucker”, quando Jeff Bridges está às voltas para comprar o aço que o trust das três grandes lhe nega, é nada mais, nada menos do que Howard Hughes que, num encontro cercado de mistério, lhe dará a dica salvadora de uma velha e quase falida fábrica produtora de motores para helicópteros. Além de aço barato, é claro.

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Trabalho no mundo contemporâneo__________________________________________Capítulo 5

CAPÍTULO 5

Taylorismo e Fordismo

A esteira na linha de produção permite que cada operário se especialize numa única tarefa. Especialização pressupõe ganhos de tempo, daí o aumento da produtividade e o barateamento do preço de venda do produto. Henry Ford, um dos pioneiros da indústria automobilística norte-americana no início do século XX, pode ser considerado como alguém que aprofunda as idéias de Taylor. Afirmava que seria capaz de construir um carro tão barato que até mesmo o operário que o construiria seria capaz de adquiri-lo. O modelo Ford – T começou a ser construído quando Henry Ford introduziu em suas fábricas as linhas de montagem, em que o automóvel ainda não montado era colocado em esteiras rolantes e cada operário realizava uma operação. Esse mecanismo pressupunha altos investimentos e grandes instalações: em contrapartida, o ritmo de produção de fato criava impacto nos preços de venda.

O fordismo significava então uma maneira de produzir – chamada de produção em série – bastante padronizada e permitiu que Henry Ford produzisse mais de dois milhões de exemplares do modelo T ao longo da década de 1920. As décadas de 1950 e 1960 foram, no plano mundial, o período de auge desse tipo ou modelo de produção industrial. Essas décadas ficaram conhecidas na história do capitalismo como os anos dourados. A crise sofrida pelos Estados Unidos na década de 1970 foi interpretada

Taylorismo e fordismo 1

O engenheiro Frederick WinslowTaylor, norte-americano, viveu entre 1856 e 1915 e defendeu uma administração científica para e nos locais de trabalho. Seus estudos e propostas baseavam-se em quatro princípios fundamentais: o princípio da necessidade de planejamento; o princípio das vantagens de bem formar os trabalhadores; o princípio do controle e o princípio da execução.

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Trabalho no mundo contemporâneo__________________________________________Capítulo 5

como uma crise do próprio modelo, que apresentava quedas de produtividade e lucros. À medida que essa década encontra um poderoso renascimento da indústria japonesa, fala-se de uma substituição do modelo fordista pelo toyotismo japonês que propunha mais iniciativa aos operários e uma produção mais flexível, quer dizer, mais capaz de se adequar ao ritmo das encomendas, assim como mais flexível às diferentes aspirações dos clientes.

Em linhas gerais a crítica ao fordismo é muito identificada com uma alienação do trabalho simbolizada pela piada do operário cujo sonho, no dia que se aposentar é...ir até o final da linha de montagem para ver o que existe lá. Outra crítica se relaciona com a imposição de ritmos de trabalho muitas vezes esgotantes. No mundo do trabalho de hoje, exemplos como o limite que existe nos supermercados para as vezes em que a “caixa” pode ir ao banheiro, são de alguma maneira “ecos” desse controle taylorista e aceleração fordista.

TEMPOS MODERNOS, DE CHARLES CHAPLIN Um operário de uma linha de montagem, que testou uma" máquina revolucionária" para evitar a hora do almoço, é levado à loucura pela

"monotonia frenética" do seu trabalho. Após um longo período em um sanatório ele fica curado de sua crise nervosa, mas desempregado. Ele deixa o hospital para começar sua nova vida, mas encontra uma crise generalizada e equivocadamente é preso como um agitador comunista, que liderava uma marcha de operários em protesto.

Simultaneamente uma jovem rouba comida para salvar suas irmãs famintas, que ainda são bem garotas. Elas não tem mãe e o pai delas está desempregado, mas o pior ainda está por vir, pois ele é morto em um conflito. A lei vai cuidar das órfãs, mas enquanto as menores são levadas a jovem consegue escapar.

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Trabalho no mundo contemporâneo_______________________________________________Capítulo 6

CAPÍTULO 6

O Estado do bem estar social

“Em apenas três anos após a crise de 1929 a produção norte-americana havia se reduzido à metade. A falência atingiu 130 mil empresas e dez mil bancos. As mercadorias que não tinham compradores eram literalmente destruídas, ao mesmo tempo em que milhões de pessoas passavam fome”1. A intensidade da crise destruiu a

confiança no liberalismo econômico, ou seja, na fé de que a economia de mercado possuía, ela mesma, mecanismos eficientes de auto-regulação e que a velha lei da oferta e da procura tudo resolveria, mais cedo ou mais tarde, de maneira harmoniosa. Um aspecto particularmente desconcertante da situação era que as pessoas queriam trabalhar e aceitavam quaisquer condições e salários, mas mesmo assim não conseguiam trabalho.

Talvez por isso Lord John Maynard Keynes tanto insistisse na questão do emprego. Particularmente nos debates que procuravam reanimar a economia norte-americana na década de 1930, Keynes insistia na necessidade do Estado – leia-se

1 Site: http:/forum.valinor.com.br/archive/index.phpt/t-11094.html

O Estado do bem estar social 1

No passado, crise e fome pressupunham que não havia alimentos para todos. Uma catástrofe ambiental, como a seca, pode ter levado a civilização Maia à decadência. Quem sabe, não foi o desmatamento não-sustentável que tenha comprometido de maneira irreversível os solos e, com isso, a capacidade de abastecer a sociedade na ilha de Páscoa. As guerras, a peste, as pragas podem ter impedido a semeadura ou a colheita. Tudo isso é trágico, mas compreensível. Incompreensível era a fome chegar porque existiam riquezas em demasia encalhada nos pátios e depósitos.

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Trabalho no mundo contemporâneo_______________________________________________Capítulo 6 governo – não ficar paralisado sob a desculpa de que não tinha direito a intervir na economia do país. Ao contrário, propôs fazer do Estado a alavanca de retomada da economia através de obras e gastos públicos de maneira a colocar todos a trabalhar, ganhar, comprar, gastar, mesmo que às custas do endividamento público. O fundamental seria fazer “novamente a roda da economia girar”. Quanto ao endividamento, este seria resolvido com o crescimento da economia. Tal crescimento permitiria o recolhimento de impostos com os quais o Estado seria capaz de honrar suas dívidas. Portanto, intervenção estatal e gastos públicos orientados para o pleno emprego estavam na matriz da solução keynesiana para os “ciclos depressivos da economia capitalista”.

Quanto ao Welfare State, na Europa do pós-guerra, sua emergência parece ser explicada pelo encontro de três dinâmicas: a) a grande influência da doutrina keynesiana naquele momento; b) a conveniência de fazer concessões ao movimento operário numa conjuntura de real ameaça de avanço do chamado “campo socialista” liderado pela ex-União Soviética; e c) os ritmos de vigoroso crescimento econômico que tornam possíveis essas concessões. Em linhas gerais o Estado do Bem Estar Social significou forte proteção social em matéria de saúde e educação públicas e aposentadoria, além de conquistas diretamente trabalhistas como férias e legislação avançada de salário-desemprego.

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Trabalho no mundo contemporâneo_______________________________________________Capítulo 6

“EU LUTO POR LEITE”

O ator Russell Crowe é conhecido no Brasil por sua atuação em “O Gladiador”. Mas ano passado seu filme “A luta pela esperança” contou a história real de um pugilista norte-americano chamado

James Braddock que, após rápida ascensão, vive um declínio quando quebra seu punho direito. Seu azar é tanto que esse momento coincide com o crack da bolsa de Nova York em 1929. Sem conseguir mais lutar, sobrevive como diarista na estiva, onde aprende a usar a “esquerda”. A falta de dinheiro para pagar a luz e a calefação provoca a momentânea fragmentação da família e a saída é esmolar. Um pouco de sorte e solidariedade do velho agente, também empobrecido, ressuscita um pouco da velha carreira, o suficiente para sair da ameaça permanente de fome e para reviver uma coletiva de imprensa onde a pergunta “pelo que você luta?” encontra uma resposta diferente do glamour da década anterior.

TESTE SEUS CONHECIMENTOS:

1.O que Keynes propunha para alavancar a economia?

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Trabalho no mundo contemporâneo_______________________________________________Capítulo 7

CAPÍTULO 7

O Neoliberalismo entra em cena

Se a bolsa de Nova York em 1929 fez os ventos guinarem em favor da intervenção do Estado na economia, a queda do muro de Berlim, sessenta anos depois, teve o resultado oposto. Os ventos já estavam mudando de direção desde antes: após muita prosperidade no hemisfério norte do planeta entre 1948 e 1968, a década de 1970 começou a trazer crises de (falta de) crescimento na Europa e nos Estados Unidos. Margareth Thatcher no Reino Unido, e Ronald Reagan, nos Estados Unidos, chegam ao poder na década de 1980 com propostas sobre o assunto: a proteção social estaria provocando ineficiência; os direitos sociais estariam acomodando as pessoas; o melhor que os governos teriam a fazer seria dar garantias aos mais capazes, mais dedicados e mais empreendedores da sociedade, de que seu esforço será recompensado e eles progredirão e deixarão para trás os acomodados, os incapazes, os preguiçosos. Se essas idéias soassem um tanto o quanto desumanas e pouco solidárias, havia resposta também para isso: todos ganhariam com as mudanças, não apenas os mais ricos e bem posicionados. Dando condições para que reinassem o esforço e a iniciativa, a economia cresceria e, no final, até sobrariam mais recursos para que o Estado protegesse os necessitados.

O neoliberalismo entra em cena 1

Charles Darwin foi aquele que explicou a evolução da vida através do mecanismo da sobrevivência das espécies mais adaptadas: ou ele teria dito mais fortes? Espécies mais adaptadas ou espécies mais fortes? Tanto faz? Ao que parece uma dada interpretação desse raciocínio foi trazida para as ciências sociais e para a teoria econômica. O ser humano é mesmo egoísta: Cada um por si! Que vença o melhor! E que Deus nos proteja a todos!

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Trabalho no mundo contemporâneo_______________________________________________Capítulo 7 Essa maneira de pensar desaguava nas seguintes propostas: a) menos aposentadoria pública, se possível sua privatização; b) menos salário desemprego, para que ninguém se acomodasse e, também, para que o emprego conquistado fosse devidamente valorizado; c) redução dos direitos trabalhistas definidos em lei, para que um exagero de leis protetoras não inibisse a iniciativa nem atrapalhasse as empresas, já que são elas que criam empregos e fazem a economia progredir; d) por fim, privatizar empresas e serviços, pois o Estado é incompetente para administrar. No início dessas reformas – chamadas de liberais ou neoliberais – o discurso era de privatizar as mineradoras, siderúrgicas, empresas de telefonia, água e luz, para que o governo pudesse se dedicar ao que de fato seria seu papel: educação e saúde. Passados alguns anos, esquecido o primeiro discurso, uma parte dos teóricos defende que também, quem sabe, a educação e a saúde do povo pudesse funcionar melhor se ficasse a cargo da iniciativa privada.

Aqui, o fundamental é entender que determinados acontecimentos na cena mundial – o fracasso da economia soviética, por exemplo – ajudam a reabilitar uma maneira de pensar que se pensava derrotada desde a década de 1930 no mundo. Darwinismo social é a expressão criada para indicar um raciocínio que compara seres humanos às espécies animais, vegetais, bactérias e fungos, na luta pela sobrevivência. Na natureza os não adaptados sucumbem, como ocorreu com os grandes répteis entre o mesozóico e o cenozóico. Dão lugar à hegemonia dos mamíferos, senhores do planeta a partir de então. Na vida das sociedades humanas a comparação teria o sentido de, em primeiro lugar, fazer as pessoas se conformarem com a idéia de que a desigualdade social é inevitável pois as pessoas têm potenciais diferentes. Em segundo lugar, sustentar a idéia de que a competição entre os seres humanos seria até virtuosa, pois dessa competição nasceriam o progresso e as invenções.

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Trabalho no mundo contemporâneo_______________________________________________Capítulo 7

A ALEGORIA NADA IMPARCIAL DO TRAPÉZIO

D izem que Margareth Thatcher era tão fundamentalista na defesa dos princípios

liberais na economia que a levou a comprar boa briga com os planejadores do

serviço de abastecimento de água na Escócia, porção norte do Reino Unido. A Escócia possui uma natureza pródiga em água potável, densidade demográfica suportável e um clima que não atrai grandes gastos desse líquido precioso. Resultado: nunca se cobrara conta de água residencial nas cidades escocesas, pelo simples fato de que os economistas afirmavam que a provável economia – pequena, diziam eles – que os moradores fariam a partir da instituição da cobrança, não compensaria os custos criados para montar uma máquina medidora, cobradora e controladora. Nada disso convenceu a Dama de ferro, que exigiu a instituição da cobrança. Mais do que os argumentos da economia real, o que importava mesmo era o exemplo: qualquer gratuidade é fonte de desperdiço, acomodação, mau exemplo. Tamanha era a combatividade da Primeira-ministra por suas idéias que surgiu, entre seus críticos, a historinha maledicente de que, como última reforma após privatizar estatais e diminuir direitos trabalhistas, a Dama de Ferro interviria na vida circense britânica apelando contra a utilização das redes de proteção por ocasião dos números de trapezistas: sem rede de proteção, os artistas treinariam mais, se concentrariam mais...

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Trabalho no mundo contemporâneo_______________________________________________Capítulo 7

TESTE SEUS CONHECIMENTOS:

1.Quais as medidas neoliberais que defendiam Thatcher e Reagan?

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2.Faça uma avaliação crítica sobre o neoliberalismo.

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Trabalho no mundo contemporâneo_______________________________________________Capítulo 8

CAPÍTULO 8

O Empreendedorismo

Na grande maioria dos países europeus, atualmente, a taxa de desemprego é muito alta e isso só não acarreta uma convulsão maior porque são países que possuem legislações com salário-desemprego generoso se comparado a padrões latino americanos. Os jovens sofrem mais, e os jovens de pouca qualificação, ainda mais. Cunhou-se uma expressão para essa situação: inempregáveis. No Brasil o quadro é muito similar, com o agravante de que não temos um seguro-desemprego decente. Com a exceção dos bastante ricos, não há no Brasil uma família em que não se encontre um desempregado ou uma desempregada, em geral jovem. Na juventude com pouca escolaridade, as muitas jovens disputam as poucas vagas de caixa de supermercado ou redes de fast-food ou comércio em geral. Para os rapazes não é muito diferente, incluindo-se na lista postos de gasolina, oficinas de reparo mecânico e parece ser só.

As vagas na indústria são cada vez mais raras, frente à robótica e painéis automatizados. Alguns ramos dos serviços o emprego já parou de crescer, como o sistema bancário. Na indústria automobilística brasileira, os números da década de 1980 falavam na produção anual de um milhão e meio de automóveis empregando

O empreendedorismo 1

Vivemos uma época em que a máquina nos rouba o emprego a cada dia. Chegamos a pensar que a engrenagem econômica conseguirá, afinal, substituir o trabalho humano em definitivo. Qual é a solução? Exigir a interrupção do progresso tecnológico? Fazer como os ludistas do século XIX e declararmos guerras às máquinas e ao progresso?

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Trabalho no mundo contemporâneo_______________________________________________Capítulo 8 140.000 trabalhadores. Agora, para uma produção de três milhões de automóveis ao ano, os empregos foram reduzidos para 90.000. Essa situação é nova, pois no passado o desemprego surgia como um tormento nos momentos de crise econômica mas assim que a economia reaquecia, o mercado de trabalho voltava a contratar fortemente: por isso fala-se hoje em desemprego estrutural. No caso brasileiro, além desse desemprego estrutural, vivemos nos últimos 25 anos taxas de crescimento do PIB baixíssimas, o que só agravou o sentimento de que o emprego da carteira assinada fica cada vez mais distante.

Proliferou então a idéia de construir sua própria alternativa de renda. O empreendedorismo significa, de maneira simplificada, o conjunto de iniciativas que procura alcançar essa meta. Obviamente a primeira idéia para quem pensa em trabalhar para si mesmo é abrir um negócio, uma pequena empresa: nesse quadro as instituições como o SEBRAE – serviço brasileiro de apoio à pequena e microempresa – são muito importantes. Uma segunda alternativa é a ideia da associação de esforços em torno de uma cooperativa. Quanto a essas iniciativas em torno do cooperativismo é bom distinguir dois tipos de cooperativa: a cooperativa de força de trabalho, a coopergato como é chamada pejorativamente, é muito criticada porque parece uma intermediação por parte de quem vai se aproveitar e lucrar oferecendo trabalho alheio. O segundo tipo de cooperativa se aproxima mais da velha tradição do cooperativismo europeu do século XIX, em que existe uma associação entre iguais para oferecer um serviço. Embora com modelos variados, os inúmeros curso de empreendedorismo surgidos no país baseiam-se no seguinte tripé: a) contribuir para a aumentar a capacidade dos indivíduos para empreender um negócio, o que pressupõe iniciativa, autoconfiança e disposição ao risco; b) iniciar e gerir empreendimentos, oferecendo aos indivíduos o conhecimento e o treinamento de técnicas e conceitos típicos da administração de empresas; e c) a construção de um amplo movimento social no país para conquistar opinião pública e governos para dar suporte a todas as iniciativas destinadas a criação de emprego e renda.

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Trabalho no mundo contemporâneo_______________________________________________Capítulo 8

TESTE SEUS CONHECIMENTOS:

1.O que você entende de desemprego estrutural?

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Trabalho no mundo contemporâneo_______________________________________________Capítulo 9

CAPÍTULO 9

A revolução de 1930 no Brasil

Do ponto de vista formal, a Revolução de 1930 é o movimento que assume o poder no país nessa data, não reconhecendo a eleição – que acusa ser fraudulenta – do candidato da situação, Júlio Prestes. Esse acabara de derrotar o maior partido da oposição, a Aliança Liberal, que por sua vez lançara candidato Getúlio Dornelles Vargas. O assassinato do candidato à vice-presidente da oposição, o paraibano João Pessoa, foi o estopim do movimento. O novo regime começa frágil, claudicando aqui e ali. O país não podia ser governado sem a renda das exportações do café e Vargas, que também é oriundo de uma oligarquia rural (gaúcha), fará concessões ao setor cafeeiro quando São Paulo se subleva em 1932. O governo central derrota militarmente os rebelados, mas politicamente é preciso fazer uma trégua. Até 1937 o poder de Getúlio Vargas parece instável e pouco sólido.

Pouco a pouco, no entanto, Getúlio parece encontrar o caminho, a fórmula, e só será apeado do poder quando os grandes acontecimentos internacionais lhe forem

A revolução de 1930 no Brasil 1

O Brasil não teve senhores feudais, mais teve coronéis; não teve feudos, mas teve o curral eleitoral; não teve os pedágios do antigo regime Europeu quando as estradas e pontes passavam pelas terras de Condes e Barões, mas teve alfândegas estaduais. Do ponto de vista prático o movimento de 1930 teve, antes de tudo, um papel centralizador: a partir daquele momento veríamos os governos locais perderem força, sempre em favor do governo central.

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Trabalho no mundo contemporâneo_______________________________________________Capítulo 9 desfavoráveis, em 1945. O estudo de seu governo parece indicar a combinação entre o poder unipessoal e o cumprimento de tarefas que a realidade exige. Olhado de uma perspectiva histórica, a Revolução e os quinze primeiros anos de Getúlio no poder representam a passagem de uma sociedade cujo centro de gravidade estava no campo e desloca-se para o urbano e suas classes sociais. Para as classes médias urbanas, representa a modernidade de um projeto de país centralizado, com atuação intensa do Estado na educação e cultura nacionais. Para o empresariado industrial, representa um governo que tomará atitudes de incentivo à industrialização, inclusive agindo diretamente no setor de indústrias de base, como o siderúrgico.

Finalmente, havia a questão do mundo do trabalho: a questão operária, que fervilhava no mundo inteiro. Herdeira da terrível crise de 1929, a década de 1930 será de enormes tensões sociais, no velho mundo e no novo mundo. Os partidos socialistas, comunistas e os sindicatos revolucionários e anarquistas conquistam audiência crescente entre os assalariados, cada vez mais concentrados em bastiões de uma indústria que não pára de crescer. Até certo ponto, a história da década de 1930 é a história do tipo de resposta que se dá, em cada país, a esse caldeirão de reivindicações sociais: new deal, keynesianismo, fascismo, nacional-socialismo, planificação bolchevique, cardenismo, peronismo. Em solo brasileiro, nasce o Getulismo.

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Trabalho no mundo contemporâneo_______________________________________________Capítulo 9

O FIM DA POLÍTICA DO CAFÉ COM LEITE

Após a consolidação da República, através dos governos dos “Marechais das Alagoas” Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, iniciou-se um período em

que políticos paulistas e mineiros passavam por rodízio pela presidência do país. Ora Minas apoiava o candidato paulista, ora São Paulo apoiava aquele que havia sido indicado pelas forças políticas de Minas Gerais. A exportação do Café era a grande riqueza do estado de São Paulo, enquanto Minas Gerais se destacava pela pecuária bovina, inclusive leiteira. De modo geral esse acordo, vigente por toda a República Velha, era politicamente conservador e, ao trazer vantagens e proteções aos produtores de Café, atraiu fortes críticas dos setores urbanos, tanto industriais quando setores da classe média. Ademais, essa aliança era constantemente acusada de vencer fraudulentamente as eleições.

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Trabalho no mundo contemporâneo ______________________________________________Capítulo 10

CAPÍTULO 10

A Consolidação das leis do trabalho

Substituição de importações, eis o modelo. No entanto, se pensamos nas condições tecnológicas daquela década; e se pensamos também que se trata da industrialização de um país periférico, tudo isso aponta para um aumento significativo dos trabalhadores industriais nos grandes centros urbanos: passeatas, greves, sindicatos, enfim, os ventos sopram a favor do aumento da autoconfiança e combatividade dos assalariados.

O governo já golpeara dois setores radicais da política brasileira no período – os comunistas, em 1935; e os integralistas, de inspiração fascista, em 1937. Poderia, se quisesse, tomar a frente de um movimento social e urbano que já caminhava pelas próprias pernas, reivindicando melhorias salariais e direitos trabalhistas outros. Parcialmente inspirado em Benito Mussolini, Getúlio Vargas faz sua escolha e, entre 1938 e 1942, angaria popularidade para si e seu governo ao antecipar-se a algumas demandas trabalhistas, nos famosos discursos proferidos nas comemorações do dia do trabalhador, no campo de futebol de São Januário.

A consolidação das leis do trabalho 1

Entre 1912 e 1929, a produção industrial cresceu cerca de 175%. No entanto a política econômica do governo continuava privilegiando os lucros das atividades agrícolas. Mas, com a crise mundial do capitalismo em 1929, a economia cafeeira não conseguiu manter-se. De 1930 até 1939 a agricultura cresce apenas 20%, refletindo o momento de depressão. A indústria, ao contrário, cresce num ritmo intenso, pois a capacidade de importar exige todo um surto baseado na substituição das importações.

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Trabalho no mundo contemporâneo ______________________________________________Capítulo 10 Começa a amadurecer, dentro do governo, a reunião e compilação de um conjunto de leis que representam conquistas e garantias para os assalariados. Toda a lógica de proteção só faria sentido, no entanto, se fosse erigida uma realidade jurídica específica, distinta da justiça comum. Nesse sentido, em ato realizado em 1º de maio de 1941, o então Presidente da República Getúlio Vargas anunciou a criação da Justiça do Trabalho, um acontecimento histórico. Coube a Francisco Barbosa de Resende, quinto presidente do Conselho Nacional do Trabalho, presidir a Comissão Especial incumbida de organizar e instalar a Justiça do Trabalho. Ela foi declarada instalada por Getúlio Vargas em ato público realizado no dia 1º de maio de 1941, no campo de futebol do Vasco da Gama, Rio de Janeiro. Um ano antes, em 1940, um decreto federal havia criado o salário mínimo. Finalmente, em 1° de maio de 1943, o presidente promulgaria a Consolidação das Leis do Trabalho, a CLT.

TESTE SEUS CONHECIMENTOS:

1.Qual a intenção de Vargas com a justiça do trabalho?

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2.Reflita! Você conhece seus direitos e deveres como trabalhador?

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Trabalho no mundo contemporâneo ______________________________________________Capítulo 10

LÁ VAI MAIS UM OPERÁRIO NO BONDE DE SÃO JANUÁRIO

O estádio de futebol do clube Vasco da Gama tem uma história curiosa. O futebol carioca nasceu nas elites da zona sul. Seus primeiros jogadores eram jovens de famílias abastadas, muitas vezes estudantes de medicina e direito, como no plantel de Flamengo, Botafogo e Fluminense das primeiras décadas. Lá pelo ano de 1923 o clube Vasco da Gama rompeu esse monopólio e venceu o campeonato. Qual era o problema? Seus jogadores não eram verdadeiros cavalheiros. Eram pobres, alguns estivadores, alguns negros e o racismo estava longe de ser superado. Empresários portugueses do bairro de São Cristóvão faziam um profissionalismo disfarçado e seus jogadores podiam treinar durante toda a semana e, no campo, corriam mais do que os jovens da fina flor da sociedade carioca. Como fazer para que essa gente aprendesse seu lugar? O subterfúgio encontrado foi exigir de cada clube, como pré-condição para disputar a primeira divisão, ter estádio de sua propriedade, coisa que o Vasco não possuía. O clube português é excluído, mas não por muito tempo. Irritada com a manobra espúria, a colônia de comerciante se mobiliza e arrecada dinheiro suficiente para construir, nas colinas de um canto do bairro de São Cristóvão, o estádio da rua São Januário, que será o maior da América do Sul por alguns anos, além de ser o primeiro no Brasil a ter iluminação para jogos noturnos. Nesse palco repleto de simbolismo popular, Getúlio Vargas fará grandes festas políticas por ocasião das celebrações do primeiro de Maio: em 1940, 1941 e 1943, é lá que ele anuncia os decretos que instituem o salário mínimo, a justiça do trabalho e a CLT.

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Trabalho no mundo contemporâneo_________________________________________Capítulo 11

CAPÍTULO 11

Justiça do trabalho, tutela, hipossuficiência

O que vem a ser um ato jurídico perfeito? Quando um cidadão maior de idade adere a um plano privado de saúde, ele assina um contrato reconhecendo que conhece e está de acordo com as cláusulas desse contrato. Desde que nenhuma cláusula do dito contrato seja considerada criminosa ou abusiva, eis aí um contrato que pode ser considerado um ato jurídico perfeito. Caso dois vizinhos moradores da cidade do Rio de Janeiro assinem um contrato que define a construção compartilhada de um muro, pode se dizer o mesmo. E quando eu arranjo um emprego no comércio, meu patrão assina minha carteira e eu começo a trabalhar, não se trata também, este vínculo (empregatício) agora criado entre mim e meu patrão, de um contrato livre entre partes iguais? A resposta é não. Pela lei brasileira existe de fato um contrato entre duas partes, mas esse contrato não envolve duas partes iguais.

Imagine que você, parado faz quase um ano, quer tanto a vaga na empresa perto de sua casa que toma a iniciativa de procurar o empresário e oferecer a renúncia de certos direitos, como por exemplo as férias remuneradas de 30 dias após um ano de carteira assinada. Imagine também que você se dispõe a abrir mão do um terço de salário a mais que a legislação garante no momento em que sai de férias. Imagine também que você se dispõe a assinar um documento no qual você, no gozo de suas faculdades mentais, renuncia desses

Justiça do trabalho, tutela, hipossuficiência 1

A igualdade entre as partes é uma quimera. Em nenhuma sociedade o emprego é pleno. Daí que o empregador pode, se quiser, livrar-se de um e rapidamente arranjar um outro para o seu lugar. De sorte que as classes laboriosas devem ser protegidas. Uma justiça específica, uma justiça do trabalho, deve garantir a proteção dessas classes frete ao um despotismo das classes patronais. Esse é o sentido das palavras tutela e hipossuficiência.

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Trabalho no mundo contemporâneo_________________________________________Capítulo 11 direitos e entrega esse documento a seu empregador como garantia dele. Resultado: a justiça do trabalho não reconhece valor nesse documento, nem que você vá ao juiz dizer que foi de sua livre iniciativa e vontade a assinatura desse documento. O juiz lhe dirá que, no Brasil, a lei não lhe faculta o poder de renunciar a direitos trabalhistas: essa doutrina se chama tutela. A justiça do trabalho nasceu para tutelar você e todos os assalariados, pois considera que os empregadores, quase sempre, terão o poder de chantagear você para que abra mão de direitos que estão previstos em lei: particularmente nos momentos de desemprego alto, mas não só. A compreensão dessa realidade de desigualdade, dessa dificuldade de sair das situações de chantagem, é chamada de hipossuficiência.

O DIREITO DO TRABALHO NASCEU...

Segundo Rodrigues Pinto, o Direito do Trabalho pode ser entendido como “um conjunto de princípios e normas jurídicas destinado a

disciplinar as relações entre empregadores e empregados, nos planos do interesse individual e coletivo, e entre estes e o Estado, no plano

do controle da observância de seu conteúdo de ordem pública”(2000, p.46).

Não se trata da regulamentação das relações de trabalho como um todo, mas apenas das chamadas “relações de emprego” estabelecidas através do contrato individual de emprego, que envolvem prestação de trabalho com subordinação, permanência, onerosidade e pessoalidade, por uma pessoa física a um empregador que assume os riscos da atividade econômica. Esta regulamentação tem como escopo conferir proteção jurídica ao empregado, reconhecendo sua situação de desigualdade e debilidade econômica na relação jurídica, a fim de diminuir a assimetria inerente às partes Como explica Plá Rodrigues, “todo o Direito do Trabalho nasceu sob o impulso de um propósito de proteção(...). Surgiu com o preciso objetivo de equilibrar, com uma desigualdade jurídica favorável, a desigualdade econômica e social que havia nos fatos” (2000, p. 80).

Assim, o Direito do Trabalho nasceu do reconhecimento, pela sociedade, de ser necessária a regulamentação pública do uso da força de trabalho pelos detentores dos meios de produção.

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Trabalho no mundo contemporâneo_________________________________________Capítulo 12

CAPÍTULO 12

Primazia do negociado sobre o legislado?

O geógrafo Milton Santos escreveu sobre a guerra dos lugares na década de 1990, ou seja, de como os governos nacionais, estaduais e municipais ofereciam vantagens e mais vantagens para atrair a instalação de uma nova fábrica ou a construção de um novo shopping-center: renúncia de impostos durante tantos anos, doação de terrenos e coisas assim. É como se, num mundo em que o emprego é cada vez mais escasso, o capital pode chantagear os povos e exigir, como se fosse um leilão, as melhores vantagens para se instalar. O raciocínio é fácil de compreender, porém pede uma pergunta: por que antes não era assim?

Ao que parece, antes as fronteiras entre os países eram economicamente mais impenetráveis. As empresas multinacionais tinham mais cuidados ao escolher um lugar para construir uma coisa grande e, depois da decisão tomada, não achavam vantajoso mudar de lugar e recomeçar tudo de novo. As técnicas de construção devem ter ficado mais ágeis. Talvez, hoje, seja mais viável, do que no passado, fazer a mudança de uma fábrica para outro lugar: eles que sabem fazer de tudo, devem ter descoberto também como fazer isso, e baratinho. Como devemos batizar essa capacidade contemporânea de mudar o local de produção a cada instante? Flexibilização geográfica? A última nos jornais é que a Nike dos tênis, já não considerando os salários da Tailândia e China tão

Primazia do negociado sobre o legislado? 1

Aprendemos na escola que a força de trabalho barata foi um dos segredos para o desenvolvimento da Coréia do Sul. Que a força de trabalho barata foi um fator para o crescimento em Taiwan. Que a força de trabalho barata tem sido decisiva para atrair investimentos e empregos na China que cresce a taxas de 10% ao ano. Ora, se força de trabalho barata fosse uma coisa tão boa assim países como Suíça e Suécia já teriam pedido concordata faz muito.

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Trabalho no mundo contemporâneo_________________________________________Capítulo 12 baixos quanto no passado, talvez mude suas fábricas de cadarços e mais alguma coisa para o Vietnam e Bangladesh. Mas, além da flexibilização geográfica, existe outra flexibilização?

A flexibilização das leis e relações trabalhistas parece ser uma acompanhante lógica da primeira flexibilização: se nada resta aos lugares que não dobrar os joelhos para obter investimentos e empregos, os trabalhadores não deveriam fazer o mesmo e dobrar os joelhos para não perder seus empregos? Vejamos a indústria automobilística, muito forte em São Paulo. Imaginemos que a demanda por carros é bem maior no primeiro semestre do ano e menor no segundo semestre. Pela CLT o operário dessa montadora não pode trabalhar mais de 44 horas semanais: qualquer coisa superior a isso, a empresa terá de pagar hora-extra, que sabemos, é mais cara. Pois bem: a legislação foi alterada – flexibilizada – de maneira que no período de menos encomendas os trabalhadores são mandados para casa mais cedo ou não trabalham todos os dias da semana e todas essas horas não trabalhadas ficam anotadas como um crédito que a empresa passou a possuir. No semestre seguinte, quando as encomendas crescem, a empresa pode cobrar aquelas tantas horas a mais, sem ter a obrigação do pagamento de hora-extra. Há duas ressalvas nesse caso: a) é preciso que o sindicato dos trabalhadores assine a concordância desse banco de horas, como é chamado; b) o empate entre horas creditadas e horas pagas tem de ser fechadas dentro do período de 12 meses; por fim, c) a empresa não poderá estender em mais do que duas horas diárias a jornada de trabalho que o operário tinha originalmente.

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Trabalho no mundo contemporâneo_________________________________________Capítulo 12

OFERECE UM DEDO, JÁ QUEREM A MÃO TODA

Muitos sindicalistas e partidos de esquerda consideram a flexibilização da CLT uma fria. Dizem que isso abre a porteira para retirar direito atrás de direito. Exemplos disso são os discursos cada

vez mais presentes nos jornais de que direitos como as férias obrigatórias de 30 dias e o 1/3 de abono salarial no momento do gozo de férias poderiam ser motivo de “livre negociação entre as empresas e os legítimos sindicatos dos trabalhadores”.

TESTE SEUS CONHECIMENTOS:

1.Atualmente existem dois tipos de flexibilização: geográfica e das Leis

Trabalhistas. Qual a sua opinião a respeito destas alterações?

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Trabalho no mundo contemporâneo___ _____________________________________Capítulo 13

CAPÍTULO 13

Automação e empregabilidade

Os livros de geografia sempre trazem a famosa tabela da PEA - População economicamente ativa - em que os que trabalham no país estão divididos, proporcionalmente, em três grandes setores: o setor primário, o setor secundário e o setor terciário. Como você sabe, o setor primário representa a agricultura e a criação de animais e apenas países de economia atrasada ainda tem muita gente trabalhando nesse setor: para se ter idéia, os Estados Unidos, o Reino Unido e a Alemanha são países em que apenas 3% da PEA estão ocupados no setor primário. Isso não quer dizer que a agricultura desses países seja fraca, ao contrário. Trata-se de uma agricultura altamente moderna e mecanizada e por isso ocupa atualmente um percentual tão pequeno de pessoas.

Pois bem: os tratores, colhedeiras e debulhadoras liberaram mão-de-obra que foi procurar trabalho, provavelmente, na indústria, que chamamos de setor secundário da economia. Acontece que nos países mais adiantados a constante inovação tecnológica chegou também a esse setor. Nos Estados Unidos e Alemanha, por exemplo, o percentual de gente empregada na indústria caiu em relação a vinte anos atrás e não é verdade que a economia tenha se desindustrializado: a indústria é que se robotizou. No caso da PEA brasileira, algo semelhante vem acontecendo. Em 1982 o percentual da população economicamente ativa do país ocupada na indústria já havia atingido 22% do total e, desde então, o valor permanece mais ou menos o mesmo: a produção industrial não parou de crescer, mas esse fator vem sendo neutralizado por um aumento de

Automação e empregabilidade 1

Quem está roubando meu emprego? O progresso? Mas eu não posso ser contra o progresso. As pessoas de bem são a favor do progresso. O progresso não pode ser culpado de nada ruim, se ele é uma coisa boa. Na televisão, ontem, apareceu a resposta: se eu entendi bem a TV disse que a culpa era minha. Será? Quem fala pela televisão?

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Trabalho no mundo contemporâneo___ _____________________________________Capítulo 13 produtividade decorrente da introdução de máquinas cada vez mais modernas e de processos produtivos tendentes à automação, ou seja, poupadores de mão-de-obra.

Resta então perguntar se algo parecido pode acontecer com o setor terciário: afinal, até aqui, quando a força-de-trabalho era expulsa de um setor da economia, tendia a transferir-se para o setor econômico seguinte e, em tese, uma situação de pleno emprego continuava sendo possível. Não é por acaso que atualmente, nos países de economia mais desenvolvida, é exatamente o chamado setor terciário – transporte, comércio, bancos, serviços públicos – que congrega o maior percentual da PEA. Mesmo em países como México, Brasil e Argentina, que não podem ser classificados como países do centro capitalista, o setor terciário já reúne mais de 50% da população economicamente ativa. Conseguimos perceber que há atividades nesse setor em que a automação não é um processo fácil: por mais que a ciência avance, é sempre difícil fazer com que máquinas substituam enfermeiros e auxiliares de enfermagem nos hospitais e o mesmo raciocínio vale para professoras e professores desde as creches até o ensino superior – embora a proliferação de cursos semi-presenciais indiquem alguma coisa. Por outro lado, na área de transportes é possível enxergar a destruição de postos de trabalho quando roletas eletrônicas substituem os cobradores de carne e osso. No sistema bancário, então, nem se fala: as caixas automáticas já reduziram a categoria profissional bancária a menos da metade do que era na década de 1980.

Como balanço de todo esse processo devemos atualmente distinguir três tipos de desemprego: friccional, conjuntural e estrutural. O desemprego friccional seria apenas produto da imperfeição do mercado de trabalho, à medida que existiriam concomitantemente a vaga e o candidato à vaga, mas se levaria um pequeno tempo até que a empresa necessitada encontrasse o funcionário de que precisa. O desemprego conjuntural expressa aquelas demissões que acontecem a partir de um desaquecimento da economia que pode ser fruto da prática de juros altos, ou a retração do setor exportador frente a um câmbio desfavorável ou ainda uma crise momentânea da agricultura decorrente de um acontecimento natural desfavorável. Por fim, o desemprego estrutural procura expressar a perda dos postos de trabalho que acontecem por razões de fundo tecnológico e/ou de

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Trabalho no mundo contemporâneo___ _____________________________________Capítulo 13 reestruturação produtiva. A automação; o fechamento de fábricas ou sua transferência para outras regiões ou países; as aquisições e fusões entre empresas que trazem enxugamento de pessoal; são esses os exemplos mais comuns daquilo que se chama de desemprego estrutural. Essas vagas desaparecem para sempre.

É nesse ponto da questão que surge com grande força a idéia de empregabilidade, a saber, a capacidade de uma cidadã ou cidadão de arranjar emprego. Em nosso país, que faz mais de um quarto de século não cresce em ritmo acelerado, ganhou extremo espaço na opinião pública a idéia-força de que o desemprego é culpa do trabalhador porque este não possui qualificação satisfatória: não possui empregabilidade. Daí uma terrível corrida aos cursinhos de informática que em geral tudo prometem e às vezes são de qualidade duvidosa, mas que vendem a ilusão de que uma precária alfabetização digital será a garantia da inserção no mercado de trabalho. Mutatus mutandi, fazem lembrar os reclames das ofertas de cursos de datilografia na década de 1950, ou ainda os cursos por correspondência para técnicos em conserto de rádio e televisão na década seguinte.

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Trabalho no mundo contemporâneo___ _____________________________________Capítulo 13 REDUÇÃO DA JORNADA; PARA QUE TODOS TRABALHEM?

Reduzir a jornada semanal para que todos trabalhem. Será possível? Faz

cerca de dez anos, a lei francesa reduziu a jornada semanal de trabalho para 35 horas semanais como forma de combate ao desemprego. No Brasil, no entanto, qualquer proposta nesse sentido costuma ser rechaçada sob o argumento de que nossa economia é atrasada e que nossas empresas perderiam competitividade. Pode ser, mas quando recuamos no tempo nos lembramos de que já em 1886 existia, nos países do hemisfério norte, uma forte luta pela jornada de trabalho de 8 horas diárias, que significavam na época 48 horas semanais de trabalho. Ora, ora, nesses mais de cem anos transcorridos a tecnologia e a produtividade avançaram muito, muito!!

O que surpreende, pois, é que em pleno século XXI a jornada semanal no Brasil ainda seja de 44 horas como diz a lei. Perdão: mais de 50 horas! Segundo cálculos do IBGE, quando agregamos as horas-extras que são praticadas e adicionamos o trabalho rural, a jornada semanal se aproxima das 52 horas. Quem sabe não estaria aí a explicação para o fenômeno: o alto índice de desemprego seria fruto da combinação entre grandes avanços da técnica e de uma jornada laboral muito grande para quem está conseguindo trabalhar.

 TESTE SEUS CONHECIMENTOS:

1.Você acredita que a qualificação é o fator primordial para a redução da

taxa de desemprego?

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