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Eixo Temático – Filosofia e Literatura - Sala nº 28

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XV ERIC – (ISSN 2526-4230)

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XV ERIC – (ISSN 2526-4230)

GIAMBATTISTA VICO (1668-1744): FILÓSOFO-HISTORIADOR E SUAS PRINCIPAIS CONTRIBUIÇÕES PARA A HISTÓRIA

Giovana Eloá Mantovani Mulza Universidade Estadual de Maringá [email protected] Solange Ramos de Andrade Universidade Estadual de Maringá [email protected] Comunicação Oral Resumo: O propósito de nosso trabalho consiste em realizar uma discussão bibliográfica acerca das principais contribuições do filósofo-historiador Giambattista Vico para a História. Apesar de ser filósofo-historiador cujos argumentos tornaram-se fontes históricas, os axiomas viquianos (1668-1744) ainda exercem influência na atual historiografia, inclusive na produção historiográfica brasileira. Teremos como documento primário o livro Scieza Nuova, publicado em 1725 por Vico, o qual contém seus principais argumentos. Buscamos compreender, sobretudo, a filosofia da História desse pensador, seus paradigmas e suas percepções quanto ao tempo e ao movimento histórico, bem como suas contribuições para a Teoria da História. Objetivamos, dessa forma, mapear o modo como a História é uma ciência cujos preceitos também podem ser historicizados, empreendendo uma operação que pretende vincular-se ao campo da Metateoria. Nossa proposta está inserida no âmbito da História das Ideias, sendo influenciada sobretudo pelo contextualismo linguístico da Escola de Cambridge.

Palavras-chave: Vico; Scieza Nuova; Teoria da História.

Fundamental, portanto, num trabalho dessa natureza, é o esforço de decifrar a gramática mais profunda que se supõe estar nos textos estudados: seus termos básicos, as ocasiões típicas em que são empregados, o modo pelo qual se complementam, e se opõem e assim por diante. Quando se adota essa perspectiva, dificilmente o historiador pode se contentar com os grandes autores, os “clássicos”, pois o exame do maior número e variedade deles, supostamente situados num mesmo contexto, por diminuto que seja o fôlego intelectual de suas obras, é decisivo para conhecer aquela gramática. (POCOCK, 2003, p. 11)

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[...] compreender as questões que um pensador formula, e o que ele faz com os conceitos a seu dispor, equivale a compreender algumas de suas intenções básicas ao escrever, e portanto implica esclarecer exatamente o que ele pode ter querido significar com o que disse – ou deixou de dizer. Quando tentamos situar desse modo um texto em seu contexto adequado, não nos limitamos a fornecer um “quadro histórico” para nossa interpretação: ingressamos já no próprio ato de interpretar. (SKINNER, 1996, p. 13)

“A essência de meu método consiste em tentar situar esses textos em contextos que nos permitam, por sua vez, identificar o que seus autores estavam fazendo ao escrevê-los. “ (SKINNER, 1999, p. 22). Importante representante do contextualismo linguístico da Escola de Cambridge, o historiador inglês Quentin Skinner servirá de base epistemológica para nosso trabalho. Ess metodologia proposta pela História das Ideias, por sua vez, transcende a proposta de se analisar somente a tríade autor-público-obra. Afinal, a importância do contexto permanece notória para Skinner (1996) e Pocock (2003). Empreenderemos, primeiramente, a contextualização de nossa fonte mestra - Scieza Nuova (1725) – a fim de compreendermos o pensamento filosófico-historiográfico do italiano Giambattista Vico (1668-1744). Em seguida, apresentaremos os principais pontos da filosofia desse pensador, assim como suas contribuições para a teoria da História.

Nos séculos XVII e XVIII, no contexto de auge da filosofia iluminista, a escrita da História era efetuada por filósofos-historiadores, visto que as ciências humanas ainda não haviam se desvinculado do pensamento filosófico (QUEIROZ, IOKOI, 1999, p. 63). O termo filosofia da história foi formulado pelo filósofo Voltaire com o intuito de nomear a prática da análise do passado anterior à cientificização da História. Os filósofos-historiadores analisavam o passado de forma especulativa, procurando sempre elaborar categorias universais. Para tais pensadores, “[...] parecia-lhes então não existir conhecimento autêntico que não devesse desembocar em demonstrações incontinente irrefutáveis, em certezas formuladas sob o aspecto de leis imperiosamente universais. ” (BLOCH, 2001, p. 47). Vico insere-se nessa categoria de filósofo-historiadores, que Michel Foucault intitulou de “mathêsis”, isto é, a busca por um conhecimento total e sem interrupções. (JOANILHO, 2004).

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Foi num ambiente de profunda renovação e grandes debates que, entre o fim do século XVII e os primeiros decênios do seguinte, numa atmosfera que respirava os ventos novos provenientes da Franga cartesiana e da Inglaterra baconiana e hobbesiana, e que, na Itália, via maturando a grande escola de Galileu, o "antididáscab", ou seja, o autodidata Giambattista VICO (1668-1744), solitário e silencioso, mas não ignorante do que se passava na Europa, estava gerando o que hoje a maioria reconhece como primeira autêntica filosofia da história e como revolução no conhecimento histórico em geral. (ASSMANN, 1985, p. 55)

O pensamento de Vico e suas formulações filosófico-históricas somente viriam a ser efetivamente estudados posteriormente à sua morte em 1744. Assim, “Em sua vida obscura, Vico não alcançou o reconhecimento almejado, e não galgou os postos superiores na Universidade. No entanto, produziu uma obra sem paralelo na sua época, objeto de inspiração a muitos trabalhos” (JOANILHO, 2004, p. 70). Para Joanilho (2004), a genealogia da História Cultural deve ser conferida a Vico, e não a Michelet – o qual fora influenciado por aquele pensador. Vico viria a influenciar diversos pensadores, inclusive Marx. Deve-se reconhecer, ademais, que seus argumentos estão inseridos no contexto do iluminismo do século XVIII, não podendo ser dissociados desse ínterim.

Talvez devêssemos remeter a genealogia da História Cultural não a Michelet, como tradicionalmente fazem as obras apologéticas, ou não, desta corrente historiográfica, mas a Vico, que influenciou o próprio Michelet. Mas, essa remissão não deve ser feita porque Vico concebeu esse método de pesquisa histórica. O que é relevante de fato é que ele trouxe ao campo da filosofia no século XVIII a noção de que os homens estão mergulhados no tempo, e suas habilidades dependem do contexto social em que vivem. Instituições, linguagens, engenhos, são frutos de cada época, conforme as capacidades de cada sociedade. (JOANILHO, 2004, p. 70)

Vico está vinculado a uma conjuntura na qual as ciências naturais eram vistas como superiores. Assim, o principal objetivo da Scieza Nuova (1725) consistia em conferir cientificidade às ciências humanas. Segundo Luígi Castagnola (s/d, p. 28), “Vico viveu numa época em que, na Europa, se havia espalhado o racionalismo,

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especialmente cartesiano, e estava no seu pleno dia o iluminismo: movimentos culturais que hostilizavam a história e enalteciam as ciências”. Divergindo do pensamento vigente, Vico conferia proeminência à História. Para Castagnola (s/d, p. 32), “Empolgado pela sua convicção de que a história é a única ciência possível, visto que o homem é causa da história e somente da história, Vico apaixonou-se pela história. ”.

Conforme apresenta Peter Burke em Historia social del conocimiento (2000, p. 32), o século XVIII comporta uma conjuntura de expansão das universidades ocidentais, nas quais o debate intelectual permanecia continuamente acentuado.

De qualquer forma, Nápoles, em finais do século XVII, vivia um momento de grande efervescência científica e cultural, período chamado de Risorgimento, apesar dos olhares vigilantes dos vice-reis espanhóis e da Inquisição. Vico não deixou de se entusiasmar pelas ideias correntes naquele momento, e chegou até mesmo a escrever poesias em conformidade com a moda filosófica (JOANILHO, 2004, p. 68)

Era um contexto propício para a emergência de novos modelos intelectuais (QUEIROZ; IOKOI, 1999, p. 54). Conforme assinala E. B. Lenzi e M. R. Vicentini (2002, p. 202), o pensamento de Vico contestaria a filosofia de Descartes – então em voga no Ocidente. Assim, para o filósofo italiano, o quadripartismo matemático cartesiano não seria capaz de explicar tudo, especialmente as “coisas humanas”. Assim, os sentimentos, a retórica e a História – produtos humanos fundamentais – não poderiam ser compreendidos através do modelo de conhecimento de Descartes. Diante disso, Vico propõe uma nova ciência para examiná-los. Efetivamente, “A sua pretensão de criar uma nova ciência não se concretizou, porém, ele pôde ser inovador ao propor outras formas de compreender o ser humano e sua história. ” (JOANILHO, 2004, p. 74). Segundo S. Assmann, o que importava era dispor de um princípio que permita distinguir o que se pode conhecer e o que não pode.

[...] a orientação de Descartes [...] não poderia ser válida para todas as ciências, visto que existiriam outras esferas de indagação, sendo a história humana a principal delas, que não poderiam ser reduzidas às evidências da razão abstrata das formulações exatas. [...] Para esses objetos que não deveriam

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ser matematizados, Vico propõe a Ciência Nova, ou seja, uma forma específica para estudá-los. (LENZI, VICENTINI, 2002, p. 202)

O ponto de partida da revolta de Vico contra Descartes foi sua convicção, plenamente articulada em 1708-9, de que os critérios cartesianos para avaliar clara e distintamente as ideias, não podiam ser aplicados proveitosamente fora do campo da matemática e das ciências naturais. De acordo com a escala cartesiana, o paradigma do verdadeiro conhecimento consistia em partir de verdades tão claras e tão distintas que somente podiam ser contestadas a custa de cair no absurdo, e dali prosseguir até chegar, através de normas estritamente dedutivas, a conclusões cuja autenticidade estava garantida pelas infringíveis regras da dedução e transformação, mediante as quais, como acontece na matemática, tais deduções derivavam das suas inatacáveis e eternamente verdadeiras premissas. Para Vico, como também tinha o sido para o próprio Descartes, era óbvio que esse modelo não podia ser aplicável ao campo do que hoje chamamos estudos humanos. (BERLIN, 1982, p. 26-27)

De início, devemos partir de uma questão básica: qual a pretensão de Vico ao escrever A Ciência Nova? Como ele próprio afirma na sua autobiografia, o seu desejo era estabelecer a ciência em novas bases, questioná-la em toda a sua extensão e no modo como era praticada. Contestando Descartes, Vico propôs que a única verdade que podemos obter é aquela produzida pelo próprio homem; a linguagem e a história são dois campos nos quais podemos chegar a essa verdade, contrariando a dúvida cartesiana sobre a realidade. A partir do que os homens fizeram, pode-se compreender a Providência ou, para usar a afirmação de Vico, ter consciência dela e, assim, ter a consciência da existência. (JOANILHO, 2004, p. 75)

Assim, Vico possuía o intuito de “[...] formular uma nova forma de se pensar cientificamente, isto é, ele tinha para si uma ideia de que estava fundamentando a ciência de sua época em novas bases de compreensão. ” (JOANILHO, 2004, p. 69). Vico seria fundamental para delimitar a História. Conforme apresenta Isaiah Berlin – autor do livro Vico e Herder (1982) –, os argumentos viquianos determinam que somente permanece passível aos indivíduos apreender plenamente as coisas humanas. A linguagem estaria no centro da atividade humana; para compreender a

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humanidade, basta estudar sua linguagem. Vico teria criado uma nova esfera do conhecimento social, que abrangeria a antropologia social e os estudos históricos e comparados da filosofia, linguística, etnóloga, jurisprudência, literatura e mitologia: isto é, a história da civilização em seu mais amplo sentido (BERLIN, 1982, p. 22).

De fato, como complementa Lenzi e Vicentini (2002, p. 203), “[...] somente quem fez pode compreender verdadeiramente, ou seja, a compreensão científica advém do estudo ‘interior’ do feito. Os homens só compreendem a verdade do que eles mesmos fazem ou fizeram. ”. Assim, o conhecimento referente ao mundo exterior e natural difere do conhecimento sobre as coisas humanas, argumentação que diverge das proposições universalistas da metodologia cartesiana (BERLIN, 1982, p. 08). A natureza, divinamente concebida, consiste em um fato já determinado por Deus, não permanecendo apta a ser plena e integralmente compreendida pelos homens. Assim, “Sobre os fatos os homens estabelecem conhecimentos certos, mas não verdadeiros; sobre os fatos há uma consciência, mas não uma ciência. O conhecimento consciente advém do estudo ‘exterior’ dos fatos. ” (LENZI, 2002, p. 203). Portanto, Vico estabelece notórios antagonismos à epistemologia naturalista cartesiana, contestando a universal aplicabilidade desse modelo filosófico.

[...] para Vico, só seria efetivamente demonstrável aquilo que o próprio homem fez. Não podemos obter a verdade da física ou da natureza, pois, não sendo produtos humanos, não eram demonstráveis nas suas causas, o que invalidava a ideia cartesiana da verdade que subsistiria nos elementos em si, isto é, a física, por exemplo, seria demonstrável per si. Então, para Vico, só podemos ter a verdade, isto é, o conhecimento per causas, do que é produzido pelos homens. A matemática é desse tipo de conhecimento. Ela só é verdadeira porque a inventamos, logo a conhecemos per causas, e estas "ciências formais (...) não são formas de descoberta, mas de invenção". Mas, não só estas ciências, e sim tudo aquilo que é humano, ou melhor, produzido pelos homens, é passível desse conhecimento, o que ficou conhecido pelos intérpretes de Vico como verum-factum. (JOANILHO, 2004, p. 76)

No que tange ao estudo do passado, Vico determina que a História consiste em uma preeminente produção humana, permanecendo apta a ser compreendida

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pelos homens. Por conseguinte, “[...] os homens só poderiam adquirir ciência sobre as coisas feitas pelo próprio homem, ou seja, nada mais científico do que os homens compreenderem sua própria história. ” (LENZI, 2002, p. 204). A Ciência Nova seria a própria História. E esta, “[...] ao contrário do que pensavam os europeus pré-modernos e até pré-modernos, não é simplesmente obra de Deus, e sim factum humano. ” (ASSMANN, 1985, p. 58). Nada mais conveniente do que estudar o principal produto humano, a história.

São os homens que fazem a história — e isso para alguns nem hoje em dia é óbvio, muito menos no início do século XVIII — por conseguinte os homens a podem conhecer melhor do que a natureza, que não foi feita pelos homens. O estudioso italiano concebe a história como processo pelo qual os seres humanos constroem sistemas de linguagem, costumes, leis, mitos, instituições civis e militares, juntamente como propósitos, ações, esperanças e terrores. A história é história da gênese e do desenvolvimento das sociedades e das suas instituições. E não há, segundo Vico, nenhuma contradição entre as ações humanas e o plano divino (a Providência), mesmo que as primeiras, que desembocam em costumes, leis e estruturas sociais mutáveis, não sejam sempre e completamente conscientes. Por outras palavras, o plano da história é completamente humano, mas não preexiste na forma de uma intencionalidade não realizada encaminhando-se para uma sua própria e gradual realização. O homem, neste sentido, criador da sociedade humana, e o que cria é um factum, ou seja, cognoscível para a inteligência humana. (ASSMANN, 1985, p. 58)

Conforme complementa Lenzi (2002, p. 203-204), as fontes ideais para a apreensão dos fatos feitos consistiriam no material filológico, nos mitos e poemas antigos, cuja interpretação racional e filosófica propiciaria a obtenção da verdade. Assim, “os fragmentos de linguagem seriam a prova, a fonte da Ciência Nova; contudo, sobre eles não deveriam repousar apenas estudos filológicos, mas também uma racionalidade filosófica” (LENZI, 2002, p. 203). É através da palavra que se pode adentrar no passado e compreender a História. Vico, assim, corrobora a imprescindibilidade da filologia para as análises históricas.

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A física, a astronomia, enfim, a natureza, isto é, os elementos que não foram criados pelo homem, eram passíveis de outra forma de conhecimento para Vico, o que ele chamou de certum. Só podemos ter certeza desses elementos, mas não podemos deduzir a verdade deles, pois não são conhecidos per causas, isto é, nas suas causas. Logo, somente Deus tem pleno conhecimento desses elementos já que por Ele foram criados: "o que Deus é no universo da realidade, o

homem é no universo da quantidade e números – um universo de

fato, mas um universo povoado por abstrações e ficções". Para Benedetto Croce, "Deus sabe todas as coisas porque Ele contém em Si todos os elementos pelos quais as fez: o homem tenta entendê-las tomando-as por partes". (JOANILHO, 2004, p. 77)

Para Vico, a natureza humana permanecera constante no transcorrer das mudanças históricas. Assim, “É exatamente uma dessas constantes, a natureza humana, que permite a reconstrução mental dos fatos feitos pelos homens do passado. ” (LENZI, 2002, p. 204). Tal permanência, evidenciada em seus argumentos, propiciara aos pensadores vincular-se com a mente dos homens do passado, tornando-se possível a apreensão dos feitos humanos anteriores. A história poderia ser reconstruída e compreendida interiormente na e pela mente do homem do presente, por meio da interpretação, da racionalização das provas de linguagem legadas pelas “mentes” de seus ancestrais. De fato, “Seria essa ‘ligação mental’ o ponto que possibilitaria ao contemporâneo reconstituir os eventos e processos históricos. ” (LENZI, 2002, p. 205).

[...] a maneira de compreender aqueles homens e seus mundos é procurar penetrar nas suas mentes, averiguar o que faziam, estudar as regras e significado de seus métodos de expressão [...]. Para compreender sua história é necessário compreender aquilo para o qual viviam, e isso somente pode ser descoberto por aqueles que possuem a chave do significado da sua linguagem, artes e rituais. Essa chave é o que a New Science de Vico procurou proporcionar. (BERLIN, 1982, p. 09).

Finalmente, Vico compreende a história elipticamente é composta por três eras, as quais apresentam uma linguagem característica: a era dos deuses, dos heróis e dos homens (LENZI, 2002, p. 205). Assim, “Para Vico, a humanidade em geral e cada povo em particular, começa pela "idade dos deuses", segue com a

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"idade dos heróis" e chega à "idade dos homens", e a semelhança com "a lei dos três estágios" de Comte parece visível” (ASSMANN, 1985, p. 60). E mais: a ciência histórica, segundo Vico, teria por tarefa descobrir as leis secretas, trazer à luz o que está escondido no caminho das nações, ordenar o que transparece da deplorada obscuridade dos princípios e da inumerável variedade dos costumes das nações (ASSMANN, 1985).

Efetivamente, as três idades compreenderiam uma constante da humanidade, as quais repetir-se-iam em quaisquer nações temporal e geograficamente distintas, auferindo o caráter de curso – Corsi. Por conseguinte, no transcorrer das eras, a humanidade verificara o advento de ciclos semelhantes a fases já transpostas, cujas características, no entanto, tornam-se novas, constituindo um verdadeiro Ricorsi. Por conseguite, “Este curso e recurso da história ou das idades dos povos seria diferente de uma ideia de retorno, pois institui uma concepção de tempo helicoidal, espiral e não circular. ” (LENZI, 2002, p. 206). Vico corrobora que o ascendente transcorrer das eras tende à divinização, em que continuo o Ricorsi implica na progressão da humanidade.

Da espontaneidade desenfreada, violentíssima, da primeira idade, passa-se à liberdade consciente da terceira idade. Aqui chegado, no entanto, parece que o homem não sabe conservar o precioso patrimônio acumulado ao longo de sua longa caminhada. Cai então num novo estado de barbárie, de decadência pelo mau uso da razão maliciosa, que arrasta a humanidade ao trágico destino da desagregação e da ruína. Começará então outro ciclo histórico, voltando novamente o homem à espontaneidade primitiva. (CASTAGNOLA, s/d, p. 31)

A Providência divina atuaria enquanto baliza na história humana, visto que “A providência divina não se aposentará nos séculos ditos modernos. ” (QUEIROZ; IOKOI, 1999, p. 53). Assim como suscita Lenzi (2002, p. 207), “[...] os desdobramentos da história humana se desenvolveriam relacionados a um plano de Deus, a uma história ideal divina, cuja providência seria à sua maneira de ação e expressão específica [...]”. Assim, “[...] a história ideal terrena, ou aqueles cursos e recursos que fazem as nações em todas as épocas e lugares, teria uma profunda relação com a história ideal divina. ” (LENZI, 2002, p. 207-208).

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Considerações Finais

O papel de Vico para a História não pode ser mensurado em simples palavras. Afinal, o modo como esse intelectual atribui proeminência às ciências humanas e, em especial, à História, conferiram um novo patamar aos estudos científicos europeus. Vico formulou uma nova ciência – a História – que se propunha fundamental e imprescindível para a humanidade. Enquanto filósofo-historiador, ele deve ser estudado não somente na disciplina de Teorias da História, mas também nas demais matérias conteudistas nos cursos de ciências humanas. Apesar da escrita rebuscada, Vico deve ser lido e debatido na academia. Essa foi nossa proposta com esse trabalho.

Referências Bibliográficas

ASSMANN, Selvino José. Vico, um gênio solitário e inovador. Revista de Ciências humanas, UFSC, 1985.

BERLIN, Isaiah. Vico e Herder. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1982. BLOCH, Marc. Apologia da História ou o Ofício do Historiador. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

BURKE, Peter. Historia social del conocimiento. De Gutenberg a Diderot. Barcelona: Titivillus, 2000.

CASTAGNOLA, Luígi. Vico e sua “ciência nova”. Curitiba: Universidade Federal do Paraná, s/d.

DESCARTES, René. Discurso do método. Porto Alegre: L&PM, 2014.

JOANILHO, André Luiz. Vico: O Tempo e a História. Mediações: Revista de Ciências Sociais, v. 09, n. 02, 2004, p. 67-84.

LENZI, E. B., VICENTINI, M. R. Vico e a História como Ciência. Maringá, Acta Scientiarum, v. 24, nº 01, 2002, p. 201-210.

POCOCK, J. G. A. Linguagens do Ideário Político. São Paulo: Editora Universidade de São Paulo, 2003.

QUEIROZ, Tereza Aline Pereira de; IOKOI, Zilda Márcia Grícoli. A História do Historiador. São Paulo: Humanitas, 1999.

SKINNER, Quentin. Razão e Retórica na filosofia de Hobbes. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1999.

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VICO, Giambattista. Principios de una ciencia nueva en torno a la naturaliza común de las naciones. México: FCE, 2006.

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