• Nenhum resultado encontrado

Avaliação da percepção ambiental dos moradores de uma favela após a implantação de uma praça.

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "Avaliação da percepção ambiental dos moradores de uma favela após a implantação de uma praça."

Copied!
13
0
0

Texto

(1)

Silvana Aparecida Alves

Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho - UNESP

[email protected]

Avaliação da percepção ambiental dos moradores de uma favela após a

implantação de uma praça.

Caroline Turolla Santos UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “Júlio de Mesquita Filho” - UNESP

[email protected]

(2)

8º CONGRESSO LUSO-BRASILEIRO PARA O PLANEAMENTO URBANO, REGIONAL, INTEGRADO E SUSTENTÁVEL (PLURIS 2018)

Cidades e Territórios - Desenvolvimento, atratividade e novos desafios Coimbra – Portugal, 24, 25 e 26 de outubro de 2018

AVALIAÇÃO DA PERCEPÇÃO AMBIENTAL DOS MORADORES DE UMA FAVELA APÓS A IMPLANTAÇÃO DE UMA PRAÇA

Silvana Aparecida Alves e Caroline Turolla Santos

RESUMO

O atual cenário dos assentamentos sociais no Brasil evidencia uma desconexão com os fundamentos norteadores do conceito de urbanidade, indicando que fatores econômicos, sociais e ambientais afetam as relações físico-espaciais no contexto urbano, bem como na escala do bairro. Entretanto, nota-se que mesmo intervenções mínimas possuem certo impacto na qualidade de vida da população. Assim, essa pesquisa tem como objetivo a análise do impacto causado pela instalação de um equipamento urbano na melhoria da qualidade de vida dos moradores do Jardim Nicéia, localizado em Bauru-SP. A metodologia utilizada fundamentou-se na Percepção Ambiental, que abarca conceitos e técnicas de observação e entrevistas realizadas com os moradores, avaliando as inter-relações entre ambiente construído e comportamento humano. A análise dos dados obtidos salienta um impacto positivo, sendo fundamental para a elevação da qualidade de vida urbana e conferindo uma melhor relação entre os moradores e o espaço público.

1. INTRODUÇÃO

No Brasil, a desigualdade social é refletida e reforçada na paisagem. No desenho urbano, abrigam-se diferentes realidades em um espaço que nem sempre é democrático. Aqueles que possuem maior poder aquisitivo instalam-se nos melhores locais. Com a construção de muros, excluem as classes mais pobres, utilizando-se da insegurança como justificativa. Do muro para dentro, não falta infraestrutura, a área de lazer é completa e a qualidade de vida aparenta ser efetiva. Do muro para fora, o saneamento básico é precário, o acesso aos serviços públicos é dificultado e as moradias, muitas vezes, são construídas em locais inapropriados (Caldeira, 2011). Nesse cenário, o espaço público, considerado como aquele de uso comum e posse de todos, é desprezado. A segregação social contribui para que praças, parques e ruas percam seu significado enquanto locais que propiciam encontros e o convívio entre um público heterogêneo.

O bairro Jardim Nicéia, na cidade de Bauru-SP, é um exemplar desse fenômeno, tratando-se de uma área que apretratando-senta um astratando-sentamento carente, cercado por condomínios de alto padrão. Desse modo, este estudo tem como objetivo analisar a praça do bairro, construída a partir de uma iniciativa público-privada, a qual estabelece-se como a única área de lazer pública do local. A análise destaca o ponto de vista do usuário, baseada no campo da Percepção Ambiental, a partir da aplicação de entrevista estruturada. Utiliza-se o método de Avaliação Qualitativa buscando avaliar o grau de (in)satisfação dos moradores em

(3)

relação ao equipamento e em que medida sua construção influenciou na melhoria da qualidade de vida dos mesmos.

2. CARACTERÍSTICAS DO ASSENTAMENTO DO JARDIM NICÉIA

O Jardim Nicéia, localizado ao sudeste da cidade de Bauru-SP, é um bairro periférico, e o assentamento em estudo é constituído atualmente por cerca de 370 habitações, nas quais estão alocadas famílias em condição de vulnerabilidade socioeconômica. Sua ocupação teve início na década de 1990, a partir de uma doação de terra para a população carente, surgindo então, uma divisão de lotes em um traçado ortogonal, semelhante ao encontrado no restante do município. Contudo, em meados da década de 2000, duas famílias declararam-se proprietárias originais da área. Hoje o bairro passa por um processo judicial

de regularização dos terrenos, reivindicando o usucapião1 coletivo, de acordo com o

Estatuto da Cidade. No momento, o processo se encontra em avançada instância judicial e possivelmente, a regularização da área será favorável aos moradores do Nicéia. O local, apesar de possuir infraestrutura básica na maior parte de sua extensão, como esgoto, água, coleta de lixo e energia elétrica, não contém pavimentação e sistema de drenagem na maioria das ruas e por isso sofre com processos erosivos.

No final da década de 1950 a construção da Rodovia Marechal Rondon se tornou uma barreira física para a expansão da malha urbana de Bauru. A construção da Avenida Nações Unidas na década de 1950, tangenciando a região central da cidade e posteriormente, sua expansão na década de 1960, aproximando-se da Rodovia Marechal Rondon, favoreceu a expansão da malha urbana ao longo da via (Losnak, 2004). No entanto, a mancha urbana de Bauru começa a se expandir, ganhando uma nova configuração morfológica a partir da implantação dos conjuntos habitacionais. Estes, por sua vez, são construídos nas áreas periféricas, onde o custo da terra é mais barato, justamente pela ausência de infraestrutura e equipamentos urbanos (Alves, 2008).

Conforme aponta Alves (2008, p. 86) em Bauru “esse processo de periferização, estratificação social e segregação espacial das classes mais pobres, contribuíram para gerar os vazios urbanos, porções de terra a espera de valorização com a chegada da infraestrutura”. A produção do espaço urbano, nesta cidade, ocorreu de forma fragmentada durante quatro décadas - de 1960 a 1990. Entre os fatores que contribuíram para formar e expandir a malha, há a distribuição dos conjuntos habitacionais na periferia, revelando intenções econômicas e políticas especialmente ligadas a especulação imobiliária e interesses financeiros dos detentores das terras intermediárias entre a cidade e o novo assentamento popular (Alves, 2008).

Apesar de ser a lógica de expansão da malha urbana de várias cidades brasileiras, o assentamento do Jardim Nicéia surge em um vazio urbano, incrustado entre a Rodovia Marechal Rondon e a Rodovia Comandante João Ribeiro de Barros, como mostra a Figura 1. Observa-se que não está próximo dos núcleos habitacionais e totalmente segregado pela Rodovia Marechal Rondon. Dessa maneira, sua localização o coloca em condição de ocupação em periferia, desarticulado da malha urbana, ocupando um fragmento que não se conecta com nenhuma das principais vias da cidade. Desprovido de qualquer equipamento institucional, de saúde, serviços e comércio, ainda impõe aos seus moradores a falta de

1 Usucapião é um recurso, garantido pela Lei 10.257/2001 (conhecida como Estatuto da Cidade), o qual

assegura a legalização de um imóvel sem escritura, após 5 a 10 anos de uso de maneira pacífica e para fins sociais.

(4)

transporte público coletivo. Assim, é indispensável atravessar a Rodovia Marechal Rondon, com todos os riscos eminentes que uma travessia como essa oferece, para acessar equipamentos instalados em bairros fora da área de alcance. Com o tempo foram implantados os condomínios fechados e de alto padrão, o Hospital Estadual e um supermercado. A circunferência da Figura 1 representa um raio de 1 quilômetro em torno do Jardim Nicéia. Desse modo é possível notar que as instituições de ensino público e de saúde, bem como as avenidas e um dos supermercados, estão fora desse raio.

Fig. 1 Jardim Nicéia e entorno, com destaque para o raio de 1 km e equipamentos.

Diante dessa situação, de total exclusão a que foram submetidos os moradores do Jardim Nicéia e pela falta de um equipamento de lazer, é que surgiu a necessidade de elaborar um projeto de uma praça para os moradores desse bairro.

2.1. Praça do Jardim Nicéia

O projeto da praça é uma iniciativa do grupo de pesquisa ArqHab2 da UNESP/Campus de

Bauru, com o objetivo de suprir uma das deficiências do bairro: a falta de um espaço de lazer e esportes. A ideia do projeto surge a partir de uma visita na área em 2004, na qual foi realizada uma coleta de dados sobre as características do assentamento e de seu entorno. Nessa época iniciava-se a implantação dos primeiros condomínios fechados. Mas foi somente em 2010 que houve o apoio de técnicos da Prefeitura Municipal de Bauru para que fosse elaborado o projeto da praça. Para dar andamento ao projeto, foram realizadas reuniões intermediadas pela Prefeitura com os moradores, a fim de ouvir suas demandas em relação a um equipamento de lazer para o bairro. A partir daí, concluiu-se que a praça era desejo da maioria. O local ideal era na área central do bairro, até então desocupada, abandonada e funcionando como depósito de lixo e entulho. O espaço livre era formado por duas quadras urbanas e com uma rua entre elas, como mostram as Figura 2 e 3.

2 Núcleo de Pesquisa em Arquitetura e Habitação de Interesse Social, vinculado ao Departamento de

Arquitetura, Urbanismo e Paisagismo, da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (FAAC) da UNESP/Campus de Bauru.

(5)

Fig. 2 Área central do assentamento, totalmente livre e escolhida para praça

Fig. 3 Área antes da construção da praça, mostra abandono e erosão

A proposta projetual consistiu em dividir a praça em três áreas com usos distintos, visando criar espaços que atendam todas as faixas etárias: uma para recreação ativa, destinada aos equipamentos de ginástica e a quadra poliesportiva; recreação passiva, para descanso e convívio dos usuários; e recreação criativa, com playground (ver Figura 4).

Fig 4. Proposta projetual com divisão em áreas relacionadas ao tipo de uso

Próximo à área do assentamento do Jardim Nicéia fica a nascente do Córrego da Água Comprida, que atravessa o centro da área livre, onde foi implantado o projeto. Assim, para viabilizar a construção da praça, foi necessário que o córrego fosse canalizado neste pequeno trecho. Além disso, essa área estava sofrendo com o assoreamento. Após resolver essas questões a praça foi construída e inaugurada em 2013 e atualmente é um ponto de referência para o assentamento do Jardim Nicéia. Em um bairro desprovido de ações públicas e de equipamentos urbanos, a praça é o único local capaz de integrar socialmente as pessoas e promover o convívio e o lazer.

3. PERCEPÇÃO AMBIENTAL E AVALIAÇÃO QUALITATIVA

A Percepção Ambiental é um campo de estudo da arquitetura de caráter multidisciplinar, envolvendo também a psicologia, a antropologia, a geografia humana e a sociologia urbana. Tem o intuito de estudar a relação homem-ambiente, pois observou-se que há uma interrelação entre o comportamento humano e o espaço físico, isto é, um influencia e é

(6)

influenciado pelo outro. Nessa perspectiva, a Percepção Ambiental estuda como os usuários apreendem o espaço e se comportam no ambiente, tanto o natural, quanto o construído, buscando evidenciar os elementos que atuam no nele. Para isso, deve-se analisar o usuário como único e, ao mesmo tempo, como parte de uma estrutura social, considerando sua cultura, idade, gênero, classe social, suas vivências passadas, seu papel social e sua relação com o local avaliado. Pois, segundo Okamoto (1997), a realidade não é percebida tão-somente pela objetividade das características exteriores, mas também, é subjetiva. Constrói-se o ambiente empregando valores objetivos, como forma, função, cor e iluminação, e o compreende de maneira subjetiva, dado que a percepção é particular de cada um.

Nesse sentido, o comportamento humano pode ser norteador em um projeto arquitetônico, quando leva em conta os mecanismos que o homem utiliza para se relacionar com o meio. E de acordo com Sommer (1973), todo indivíduo possui uma área invisível que circunda o corpo, a qual ninguém pode acessá-la, denominada de espaço pessoal. A defesa do espaço pessoal implica na ideia de territorialidade, que surge quando há a interação com outro indivíduo e o desejo de delimitar a sua área. Outros conceitos também devem ser considerados, como a flexibilidade, a aglomeração, a privacidade e a personalização. Hall (1977) descreve que a disposição do layout no recinto afeta na relação entre os usuários, sendo a intenção do arquiteto estabelecida desde o momento do projeto. A organização do ambiente, então, influencia no contato social, podendo ser promovido, em um espaço denominado de socio-petal – quando o arranjo espacial dos mobiliários favorece a interação entre as pessoas, ou inibido, em um espaço socio-fugal - quando o arranjo espacial não favorece a interação.

Já a Avaliação Pós-Ocupação (APO) é um campo da Percepção Ambiental, que atua como uma metodologia que busca diagnosticar aspectos positivos e negativos do ambiente. Desse modo, visa-se mensurar o desempenho do espaço construído em uso, considerando não apenas o ponto de vista do arquiteto, mas também, o grau de satisfação dos usuários (Ornstein e Romero, 1992). As pesquisas avaliativas, no campo das ciências sociais, objetivam coletar, analisar e interpretar sistematicamente informações a propósito da implementação e eficiência de quaisquer intervenções humanas, afim de otimizar condições sociais e comunitárias. Os processos e os resultados da aplicação destes métodos de pesquisa incorporados em avaliação de Percepção ambiental e APO são uma atividade política (Ornstein e Romero, 1992, p. 18). Assim, a APO pretende corrigir os problemas detectados no ambiente analisado, de acordo com as necessidades de alterações comportamentais, e também, servir de apoio para projetos futuros que buscam usos semelhantes.

4. METODOLOGIA

O presente trabalho trata-se de uma pesquisa aplicada, fundamentada no campo da Percepção Ambiental, que se desenvolve a partir da implementação da Avaliação Pós-Ocupação (APO) na praça do assentamento do Jardim Nicéia. O objetivo deste estudo de caso possui caráter descritivo ao analisar o fenômeno da interação dos indivíduos com o ambiente. A metodologia utilizada abarca conceitos e técnicas de observação, elaboração de um mapa comportamental e entrevistas realizadas com moradores do local. De acordo com Ornstein e Romero (1992), a APO aplicada na praça em questão refere-se a uma avaliação orientada, com o foco nas variáveis da análise funcional - que considera a segmentação, a flexibilização, a circulação e o dimensionamento do espaço. A avaliação

(7)

comportamental, por sua vez, avalia os conceitos de privacidade, proximidade, territorialidade, identidade, comunicação e interação com o meio.

Neste caso, a coleta de dados da pesquisa segmenta-se em duas etapas: a primeira compreende-se no reconhecimento do espaço estudado através da realização de um mapa comportamental, de um registro fotográfico e de uma ficha com as condições de uso do ambiente. Esta, em formato de tabela, consiste em anotações referentes ao atual estado de conservação da praça e de seus equipamentos. São avaliados o piso, a vegetação, os bancos, as lixeiras, os postes de iluminação, a quadra, o playground, quiosques e os equipamentos de ginástica, classificando-os em um dos cinco critérios pré-selecionados: Muito degradado; Degradado; Pouco degradado; Conservado e Muito conservado. Nesta etapa ocorre a aplicação do mapa comportamental. Trata-se de um método, no qual o pesquisador se posiciona no espaço em avaliação - da maneira mais neutra possível, com uma planta ou desenho esquemático do local, - fazendo anotações das ações humanas relacionadas com o ambiente e com os demais indivíduos. Os registros geralmente são feitos em forma de desenhos, com setas indicando percursos, interações entre as pessoas, espaços mais utilizados, entre outros (Sommer, 1973; Ornstein e Romero, 2003). A aplicação do mapa comportamental foi programada para ocorre em três períodos, que se compõe em três dias de visitação, sendo uma no período da manhã, uma no período da tarde e uma no período da noite, com o intuito de avaliar o local em diferentes horários. Posteriormente, a segunda etapa da pesquisa consiste em entrevistar os usuários da praça. Esta etapa proporciona o contato do pesquisador com os moradores do Nicéia, a partir de entrevistas separadas em estruturadas e semiestruturadas. Essa fase desenvolve-se durante um dia e é efetuada por uma equipe de entrevistadores acompanhada pelo pesquisador do trabalho (Ornstein e Romero, 1992). O método da entrevista é recomendado quando a intenção é recolher informações do usuário sobre os atributos do lugar, focando nos seus pontos positivos e negativos. Sendo assim, a entrevista estruturada é direcionada aos moradores do Jardim Nicéia e elaborada com perguntas fechadas com escala de valores e abertas, as quais permitem que o entrevistado faça interferências espontâneas que podem ser relevantes para a coleta de dados. A entrevista foi organizada em sete partes, sendo elas: Perfil do usuário; Imageabilidade; Identidade com o espaço; Apropriação do espaço; Utilização do espaço; Influência do espaço e Melhorias para o local. A entrevista semiestruturada configura-se em perguntas pré-estabelecidas, livres para a intervenção do pesquisador. O método de perguntas livres apresenta-se relevante no sentido de desenvolver uma relação na qual o entrevistado e o entrevistador se influenciam mutuamente. Essa entrevista é dirigida às personalidades mais atuantes do bairro, com a finalidade de se obter uma visão mais abrangente sobre a relação ambiente-usuário a partir do ponto de vista de uma entidade representante dos moradores, no caso o líder comunitário.

Por fim, a análise dos resultados é elaborada através de uma abordagem de natureza predominantemente qualitativa, pois depende da interpretação do autor da pesquisa na verificação das informações coletadas. Contudo, a abordagem qualitativa possibilita uma maior flexibilidade no momento de ponderação das conclusões, visto que se lida com questões subjetivas. Porém, a estrutura da entrevista conta também com duas perguntas fechadas e com escala de valor, permitindo uma breve análise quantitativa dos resultados. Ainda, estabelece-se durante a análise uma correlação entre os dados obtidos com os diferentes métodos utilizados, traçando uma analogia entre as observações do pesquisador e as dos usuários. Evidenciam-se, então, os pontos em comum, criando categorias a partir

(8)

das respostas das entrevistas, a fim de definir um perfil da percepção dos moradores em relação à praça, permitindo-se uma conclusão a respeito da melhora na qualidade de vida das pessoas no assentamento do Nicéia.

5. RESULTADOS E DISCUSSÕES

Os resultados estão apresentados em fichas –apresentadas em forma de tabelas e gráficos para facilitar a visualização dos dados coletados associados à análise.

5.1. Fichamento do estado de conservação do espaço

O fichamento, apresentado na Tabela 1, foi realizado durante a visita ao local no dia 04/04/2018, no período da manhã. Durante a observação, notou-se que, de modo geral, os elementos avaliados encontram-se conservados, com exceção do playground, que está com os brinquedos enferrujados e alguns estão quebrados. A quadra poliesportiva está pouco degradada, porém, o alambrado apresenta alguns buracos e a pintura do piso esta gasta.

Tabela 1. Avaliação do estado de conservação do espaço

5.2. Registro fotográfico

A Figura 5 apresenta fotos do registro fotográfico da praça, mostrando sua atual condição.

(9)

5.3. Observações e Mapas comportamentais

A observação e o mapa comportamental foram aplicados com a finalidade de avaliar as características técnico-construtivas e as condições ambientais da praça, além de compreender a relação entre fenômenos comportamentais e o ambiente construído.

1ª visita (04/04/18, quarta-feira – horário de observação: das 14h15 às 15h15):

No momento da visita o sol estava forte e os únicos lugares com sombra eram embaixo dos quiosques, que não possuem bancos. Notou-se que os usuários preferiam ficar à sombra a sentar nos bancos sob o sol. Em um dos quiosques, um adolescente ficou sentado em um tronco improvisado de banco por cerca de 40 minutos e utilizando seu celular. No outro quiosque, um pai permaneceu em pé observando o filho pequeno brincar no playground. Encontravam-se fechados os três food trucks que ficam instalados no entorno da praça. Quanto a movimentação das pessoas que estavam somente de passagem, havia crianças brincando: andando de bicicleta na calçada da praça e nas ruas que a contornam; brincando nos equipamentos de ginástica; e sentadas na casinha do playground. Observou-se que duas casas direcionaram seus acessos diretamente para a praça, apesar de possuírem a fachada voltada para a rua que atravessa a praça. Nestas casas, nota-se uma relação direta com a praça, como se a mesma fosse incorporada em ambas as casas. Nessa circunstância, cria-se uma apropriação do espaço público como extensão do espaço privado, no qual, encontravam-se mulheres sentadas conversando. Em uma das casas, 3 mulheres permaneceram sentadas em cadeiras colocadas embaixo da sombra de uma árvore. Já na outra casa, com abertura voltada para a parte da área de lazer que possui o playground, foi instalada uma porta na sala com acesso direto para a praça. Essa porta ficou aberta o tempo todo da observação e 5 mulheres revezavam, entre sentar no sofá da sala e nos bancos da praça instalados na frente da casa. Verificou-se também que em um dos canteiros, havia três estatuas de jardim enfeitando a praça. Esses enfeites não pertenciam ao projeto original e demonstram uma tentativa de personalização do espaço por parte dos moradores.

2ª visita (10/04/18, terça-feira – horário de observação: das 08h30 às 09h30):

A visita ocorreu de manhã, em um momento do dia em que o sol ainda não estava a pino, por isso a temperatura estava mais agradável em relação ao dia da primeira visita. Entretanto, havia menos pessoas utilizando a praça como recinto de permanência. A maioria estava meramente de passagem, provavelmente a caminho do trabalho, por ser um dia de semana. Apenas um casal, ficou sentado em um dos bancos por algum tempo. Os três food trucks também permaneceram fechados durante a manhã. Ao final da observação, algumas crianças chegaram para brincar no playground. A quadra poliesportiva esteve vazia o tempo todo. Desse modo, verificou-se que a praça cumpre a função, predominantemente de espaço de passagem, durante a semana no período da manhã. 3ª visita (16/04/18, segunda-feira – horário de observação: das 18h30 às 19h30):

Na terceira visita, observou-se um aumento significativo de pessoas utilizando a praça. Atribui-se a isso, o fato da avaliação ter ocorrido no início da noite. Havia, principalmente, uma grande quantidade de crianças: a maioria estava jogando bola na quadra poliesportiva e andando de bicicleta pela praça; algumas estavam brincando no playground e outras poucas brincando nos equipamentos de ginastica. Nenhuma criança estava acompanhada dos pais ou responsável – com exceção de um menino que aparentava ter 3 anos. Em um certo momento, os meninos saíram da quadra para que os adultos pudessem jogar futebol. Percebeu-se que, nesse período do dia, a praça é predominantemente frequentada por crianças e adultos do gênero masculino. As poucas mulheres que permaneceram na praça,

(10)

cerca de 5, ficaram sentadas conversando em dois bancos dispostos em L, exemplificando o conceito utilizado por Hall (1997) de espaço socio-petal, o qual promove a interação entre os usuários. Quanto aos food trucks, apenas um encontrava-se aberto e estava utilizando um dos quiosques com a finalidade de abrigar uma mesa de plástico para seus clientes. Durante toda a visita, 4 jovens ficaram sentados à mesa.

5.4. Entrevista semiestruturada com o líder comunitário:

Adalton Candido, reconhecido como líder comunitário do Jd. Nicéia, é o responsável pelo pedido de usucapião coletivo do bairro. A entrevista semiestrutura ocorreu no dia 07/04/2018, com base nas perguntas da entrevista estruturada e aplicada aos demais moradores. Aos 56 anos, pedreiro, Adalton vê na praça uma oportunidade de ganhar uma renda extra. O próprio está reformando a sua garagem, de frente para a praça, com o intuito de abrir uma sorveteria até o fim deste ano. Reside no local desde 1996, quando houve a doação de terras e, possuí uma relação bastante próxima com a área de lazer. Apesar de afirmar que não a utiliza para recreação, ele se encarrega da organização da área: coordena a tabela de horários da quadra poliesportiva entre os meninos, as meninas e os adultos; recolhe o lixo do chão sempre que possível; e cuida das plantas, atividade que mais lhe agrada. Contudo, reconhece a dificuldade em manter a limpeza do espaço devido à falta de conscientização dos usuários e, também, de proporcionar sombras na praça, já que as plantas pouco se desenvolvem em razão do solo infértil e a negligencia da prefeitura para fornecer adubo. Adalton acredita que a praça é um espaço que promove encontros e contribui para as relações de amizade no Nicéia. Pensa na praça como algo maravilhoso e de grande importância, pois antes de sua construção o local era perigoso e inóspito. O que mais lhe agrada é passar pela praça e ver as crianças do bairro se divertindo.

5.5. Entrevistas estruturadas com os moradores:

As entrevistas foram realizadas no dia 07/04/2018 durante o período da manhã, e no dia 16/04/2018 no fim da tarde. Ao todo foram entrevistadas 55 pessoas.

Perfil do entrevistado: As Figura 6 e 7 apresentam em forma de gráfico informações quanto ao gênero, idade, ocupação dos entrevistados e o tempo que residem no local. Como 42% dos entrevistados na praça e no seu entorno possuíam até 18 anos, conclui-se que o local é bastante frequentado pelo público jovem. Ainda, verificou-se que 98% das pessoas que utilizam a praça residem no Jd. Nicéia, evidenciando o fato de que a praça não é utilizada por pessoas de bairros vizinhos.

(11)

Figura 7. Sequência de gráficos sobre o perfil dos entrevistados.

Imageabilidade: Ao realizar a pergunta “Quando você pensa na praça qual a primeira coisa que vêm a sua mente?”, 67% dos entrevistados responderam aspectos positivos como a importância da área de lazer para o bairro, por ser um espaço no qual as crianças podem brincar.

Identidade com o espaço: Ao questionar o que mais e menos gostavam na praça, os entrevistados apontaram para a opção de lazer proporcionado pela área, elegendo a quadra como o local preferido da maioria. Por outro lado, o playground com brinquedos quebrados e o barulho à noite gerado pelo uso intenso da quadra foram razões de maiores reclamações, principalmente para aqueles que moram mais próximo da quadra, como pode-se conferir na Tabela 2. Em terceiro lugar os entrevistados indicam que o que menos gostam é a sujeira devido à grande quantidade de lixo espalhado pela praça. Contudo, é importante ressaltar que de um modo geral, o espaço é considerado satisfatório pelos usuários, pois a média da nota de satisfação foi de 8,1. Segundo os entrevistados, para aqueles que avaliaram a área como pouco conservada, apontaram que o problema está na falta de manutenção e cuidado de alguns dos próprios moradores.

Tabela 2. Resultados do que os usuários mais e menos gostam na praça

Apropriação do espaço: Constatou-se que 33% dos usuários não se consideram responsáveis pelo cuidado da praça, acreditando que tal tarefa seja cargo da prefeitura ou do líder comunitário. Quando foi perguntando se já haviam feito alguma alteração no local, percebeu-se que havia uma confusão com personalização e vandalismo. Quanto a sensação de segurança, 80% dos entrevistados afirmaram que se sentiam seguros na praça,

(12)

justificando as suas respostas com o fato de que todos do bairro se conhecem. Por fim, descobriu-se que ocorrem bastante eventos no local: festas nos feriados, cultos da igreja e comemorações de fim de ano. Além de aula de futebol aos sábados de manhã na quadra poliesportiva.

Utilização do espaço: A Tabela 3 apresenta o resultado do “Porque as pessoas vão à praça”, “Com qual frequência” e “Qual equipamento mais utilizam”. Interagir e brincar foram os maiores motivos de idas à praça. Entre os entrevistados, 26 pessoas afirmaram que frequentam a praça todos os dias, 15 em nenhum horário definido e 11 durante o período da noite. Entre os espaços mais usados estão os bancos e a quadra.

Tabela 3. Resultados quanto à utilização o espaço

Influência do espaço: Todos os entrevistados concordaram que a praça contribui para as relações de amizade entre os moradores, por ser um lugar que promove o encontro e a interação. A média das notas dadas à importância do local é 9,4. Quando questionados se sentiriam falta da praça caso ela não existisse mais, apenas uma pessoa respondeu que não, pois preferia que o local tivesse um posto de saúde, evidenciando a dificuldade dos moradores de chegarem à outros equipamentos públicos da cidade.

Melhorias no local: Ao perguntar para os entrevistados como seria, para eles, uma praça ideal, notou-se que não havia um conceito utópico, entretanto, especificavam que a praça ideal seria o local já existente, porém, com as melhorias necessárias. A Figura 8 apresenta o que acrescentariam no espaço: em primeiro lugar a reforma do playground e em segundo, a implantação de mais árvores, já que, atualmente, há pouca sombra na área.

Figura 9. Resultados do que acrescentariam na praça 6. CONCLUSÃO

(13)

A partir do trabalho realizado, constatou-se que a praça possui grande importância para o bairro por diversos motivos: é um local favorável para o convívio entre os moradores, que os agrada visualmente e proporciona uma flexibilidade de usos (recreação ativa, passiva e criativa); é o único equipamento público em um raio de 1 km do bairro, de fácil acesso para todos os moradores; e principalmente, é uma área de lazer onde as crianças podem brincar todos os dias, sem a necessidade da supervisão dos pais, que consideram o local seguro. A sensação de segurança deve-se ao fato de que apenas os próprios moradores do Jd. Nicéia frequentam a praça. Acredita-se que isto ocorre devido à localização do bairro, que fica na região periférica da cidade e cercado por condomínios de alto padrão. Assim, não há o interesse das classes mais altas de utilizarem a praça, pois dentro dos condomínios em que residem, existem equipamentos de lazer privativos.

Entretanto, verificam-se notoriamente alguns problemas, sendo dominante a necessidade de manutenção do playground e da quadra poliesportiva, a carência de áreas sombreadas, apesar de o projeto ter apresentado uma grande quantidade de árvores, o solo não é tratado com adubo. Ainda que os moradores utilizem a praça como extensão do quintal de suas casas e dois terços consideram-se responsáveis pela sua preservação, a limpeza da mesma revela o contrário.

Por fim, conclui-se que a qualidade de vida dos habitantes do Jd. Nicéia melhorou com a construção da praça, proporcionando para os mesmos uma área de lazer em um local onde era insalubre e perigoso devido à presença de animais peçonhentos e que sofria com processo erosivo. Desse modo, o intuito do projeto de implantar uma praça nesse assentamento tão carente de infraestrutura e equipamentos foi alcançado. Principalmente ao verificar, por intermédio das entrevistas, que os usuários criaram uma relação afetiva com o espaço.

7. REFERÊNCIAS

Alves, S. A. (2008) Habitação Social na Cidade de Bauru – SP. In: Olhares sobre Bauru. (Org.) Fontes, M. S. G. C. e Ghirardello, N. Editora Canal 6. Bauru-SP, Brasil.

Caldeira, T. P. R. (2011) Cidade de Muros, 3ª ed. Editora 34, São Paulo, Brasil.

Hall, E. T. (1977) A dimensão oculta. 2ª edição. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1977. Losnak, C. J. (2004) Polifonia Urbana: imagens e representações – Bauru 1950-1980. EDUSC. Bauru-SP, Brasil.

OKAMOTO, J. (1996). Percepção ambiental e comportamento. IPSIS: São Paulo, Plêiade. ORNSTEIN, S. W.; ROMERO, M. (1992). Avaliação Pós-Ocupação (APO) do ambiente construído. São Paulo: Studio Nobel, EDUSP.

SOMMER, R. (1973). Espaço pessoal. São Paulo, Edusp, Editora da Universidade de São Paulo.

Referências

Documentos relacionados

Nessa situação temos claramente a relação de tecnovívio apresentado por Dubatti (2012) operando, visto que nessa experiência ambos os atores tra- çam um diálogo que não se dá

dois gestores, pelo fato deles serem os mais indicados para avaliarem administrativamente a articulação entre o ensino médio e a educação profissional, bem como a estruturação

Our contributions are: a set of guidelines that provide meaning to the different modelling elements of SysML used during the design of systems; the individual formal semantics for

O setor de energia é muito explorado por Rifkin, que desenvolveu o tema numa obra específica de 2004, denominada The Hydrogen Economy (RIFKIN, 2004). Em nenhuma outra área

De seguida, vamos adaptar a nossa demonstrac¸ ˜ao da f ´ormula de M ¨untz, partindo de outras transformadas aritm ´eticas diferentes da transformada de M ¨obius, para dedu-

O termo extrusão do núcleo pulposo aguda e não compressiva (Enpanc) é usado aqui, pois descreve as principais características da doença e ajuda a

Este trabalho buscou, através de pesquisa de campo, estudar o efeito de diferentes alternativas de adubações de cobertura, quanto ao tipo de adubo e época de

O valor da reputação dos pseudônimos é igual a 0,8 devido aos fal- sos positivos do mecanismo auxiliar, que acabam por fazer com que a reputação mesmo dos usuários que enviam