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Léxico, cognição e contexto

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Academic year: 2021

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Léxico, cognição e contexto

Saliência, conceptualização situada

e evidência quantitativa

Augusto Soares da Silva

Pretendemos neste estudo apresentar a base teórica, os métodos mais adequados e algumas evidências descritivas para uma perspetiva integrada das relações entre léxico, cog-nição e contexto. Argumentaremos a favor de uma conceção maximalista do significado lexical que incorpore e interligue as três principais dimensões contextuais: capacidades e meca-nismos da cognição, ambiente sociocultural e interação verbal no uso linguístico. Seguiremos a posição teórica da Linguística Cognitiva (GEERAERTS; CUYCKENS, 2007), um modelo orientado para o significado e baseado no uso linguístico e o principal modelo de recontextualização da linguagem, e ilus-traremos os argumentos com alguns estudos de caso lexicoló-gicos e semânticos que temos desenvolvido para o português. Evidenciaremos que o significado lexical é:

1. dinâmico e flexível, graças à categorização por protótipos, pelo que se adapta facilmente ao contexto e se organiza em redes radiais, esquemáticas e multidimensionais;

2. enciclopédico, remetendo sempre para domínios conceptuais ou frames que vão para além da palavra; e ;

3. perspetivista, revelando perspetivas alternativas de con-ceptualização e permitindo conceptualizar determinados conceitos em termos de outros, através da metáfora e da metonímia ou por extensão do protótipo. Para dar conta

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Saberes lexicais: mundos, mentes e usos

da multidimensionalidade e da multivariacionalidade das estruturas lexicais, são necessários métodos empíricos e quantitativos avançados, sejam métodos de

corpus ou métodos experimentais.

Depois de delinearmos o mapa conceptual da Semântica Lexical e de ava-liarmos os principais contributos das teorias semântico-lexicais, com destaque para a Semântica Cognitiva, centrar-nos-emos em dois fenómenos de grande importância no estudo cognitivo do léxico. Um é a identificação e a correlação de tipos de “saliência” no léxico, quer a saliência semasiológica (prototipicidade e polissemia) quer a saliência onomasiológica (familiarização de conceitos e pre-valência sociolinguística de sinónimos). Polissemia e sinonímia colocam questões complexas, como a diferenciação e a equivalência de sentidos, que só podem ser tratadas em uma conceção maximalista do significado lexical. O outro tem a ver com a interação entre os aspetos conceptuais e os aspetos sociais do significado e da variação lexical, tendo como pano de fundo a reinterpretação da cognição como cognição socioculturalmente situada. Evidenciaremos as especificidades culturais dos significados das palavras, mesmo daquelas que representam conceitos aparen-temente universais, a interação entre protótipos, estereótipos e normas semânticas e os significados sociais da variação intralinguística. Finalmente, deixamos alguns elementos de lexicologia quantitativa e socioletometria lexical.

Mapa conceptual da semântica lexical

No estudo das palavras e seus significados, podemos partir ora da palavra ou item lexical para os seus significados ou conceitos e referentes, ora de um sig-nificado ou conceito ou ainda uma entidade referencial para as diferentes palavras ou itens lexicais que o designam. Esta distinção fundamental foi bem estabelecida na tradição continental da semântica estrutural (mas quase desconhecida na tra-dição anglo-saxónica), sob as designações de semasiologia e onomasiologia, respe-tivamente. (BALDINGER, 1964)

Por outras palavras, a distinção entre semasiologia e onomasiologia baseia-se na diferença entre dois fenómenos (não exclusivamente) semântico-le-xicais: significação e nomeação. Assim, enquanto a semasiologia faz a descrição

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dos vários sentidos ou conceitos/funções de uma palavra ou outra expressão, a onomasiologia analisa as palavras ou outras expressões alternativas pelas quais determinado conceito ou função é nomeado (a). A Figura 1 sintetiza esta dupla perspetiva de análise dos significados das palavras. Em termos mais gerais, a pers-petiva semasiológica vai da língua ao mundo e coloca a seguinte questão: “Para esta expressão, que tipos de entidades ou situações pode ela designar?”. A perspe-tiva onomasiológica vai do mundo à língua e coloca a questão: “Para esta entidade ou situação, que expressões linguísticas a podem designar?”.

Figura 1– Semasiologia e onomasiologia

Figura 1– Semasiologia e onomasiologia

SEM A SI O LO G IA si gni fic aç ão ONOM AS IOL OGI A nom ea çã o

Fonte: Elaborada pela autora.

Uma outra distinção é a que opõe os aspetos de ordem estrutural ou qualitativos (entidades e suas relações) aos aspetos funcionais do uso ou quantitativos (diferenças de saliência) das estruturas lexicais tanto semasiológicas como onomasiológicas. Combinando estas duas distinções fundamentais – semasiologia vs. onomasiologia e aspetos qualitativos vs. quantitativos –, chegamos ao mapa conceptual da Semântica Lexical, sintetizado no quadro 1.

Quadro 1 – Mapa conceptual da Semântica Lexical

QUALIDADE: entidades e relações

QUANTIDADE: diferenças de saliência SEMASIOLOGIA

sentidos (polissemia) e suas relações (metáfora, metonímia, generalização, especialização) efeitos de prototipicidade entre sentidos ONOMASIOLOGIA

itens lexicais e suas relações (campos lexicais, taxionomias, “frames”, hiponímia, meronímia, sinonímia, antonímia)

efeitos de saliência entre itens lexicais, incrustamento e nível básico

Fonte: Elaborado pela autora.

   

palavra

Fonte: Elaborada pelo autor.

Uma outra distinção é a que opõe os aspetos de ordem estrutural ou

qua-litativos (entidades e suas relações) aos aspetos funcionais do uso ou quantitativos

(diferenças de saliência) das estruturas lexicais tanto semasiológicas como ono-masiológicas. Combinando estas duas distinções fundamentais – semasiologia vs. onomasiologia e aspetos qualitativos vs. quantitativos –, chegamos ao mapa con-ceptual da Semântica Lexical, sintetizado no Quadro 1.

Quadro 1 – Mapa conceptual da Semântica Lexical Qualidade:

entidades e relações

Quantidade: diferenças de saliência

Semasiologia

sentidos (polissemia) e suas relações (metáfora, metonímia, generalização,

especialização)

efeitos de prototipicidade entre sentidos

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Saberes lexicais: mundos, mentes e usos

Onomasiologia

itens lexicais e suas relações (campos lexicais, taxionomias, “frames”, hiponímia, meronímia, sinonímia,

antonímia)

efeitos de saliência entre itens lexicais, incrustamento e

nível básico Fonte: Elaborado pelo autor.

A semasiologia qualitativa trata da estrutura semântica de uma palavra e, por conseguinte, da identificação do(s) seu(s) sentido(s) e da descrição das rela-ções entre esses sentidos. Por outras palavras, a semasiologia qualitativa trata do fenómeno da polissemia (e de outros fenómenos afins, como a vagueza) e dos mecanismos de associação de sentidos de uma palavra, como metáfora (similari-dade), metonímia (contigui(similari-dade), generalização e especialização. Em contrapar-tida, a semasiologia quantitativa estuda as diferenças de saliência entre os sentidos e/ou referentes de uma palavra ou entre as propriedades desses sentidos/referentes, isto é, o fenómeno da prototipicidade e seus efeitos, como a rede radial de sen-tidos/referentes de uma palavra.

A onomasiologia qualitativa estuda estruturas de itens lexicais, entre as quais estão os campos lexicais, as taxionomias lexicais e ainda os frames e os modelos cognitivos idealizados. Estuda ainda as relações semânticas entre itens lexicais, como a hiponímia (inclusão semântica), a meronímia (parte-todo), a sinonímia (equivalência semântica) e a antonímia (oposição semântica), mas também a metáfora/metonímia conceptual. Em contrapartida, a onomasiologia

quantitativa estuda as diferenças de saliência entre itens lexicais, designadamente

o incrustamento conceptual entre categorias e as categorias de nível básico. Os princípios estruturantes de ambos os domínios semasiológico e onoma-siológico são idênticos: diferenças de saliência tanto entre os elementos do campo de aplicação de uma palavra como entre os elementos de um campo lexical ou outra estrutura onomasiológica; problemas de delimitação tanto entre sentidos ou referentes de uma mesma palavra como entre palavras e estruturas onoma-siológicas diferentes; e idênticas relações conceptuais tanto entre sentidos como entre palavras. Sobre este último aspeto, tanto em semasiologia como em onoma-siologia encontram-se relações hierárquicas de inclusão, relações de similaridade literal, relações de similaridade figurativa e relações de contiguidade.

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Podemos ainda adicionar mais duas distinções relevantes para o mapa conceptual da Semântica Lexical. Uma opõe significado referencial ou denota-cional e significado não referencial ou conotadenota-cional, sendo este letal (hiperónimo de dialetal, socioletal e idioletal), estilístico e pragmático. A outra dá-se entre a dimensão sincrónica e a dimensão diacrónica dos fenómenos lexicais, consti-tuindo esta última o fenómeno da mudança semântica ou, mais precisamente, a mudança lexical, que inclui quer a mudança semasiológica ou desenvolvimento de novos sentidos de uma palavra, quer a mudança onomasiológica ou expressão de determinado conceito, previamente lexicalizado ou não, por uma nova ou diferente palavra.

Trajetórias no desenvolvimento da semântica lexical

e a semântica cognitiva

Vejamos agora quais os contributos das principais teorias semânticas para o desenvolvimento da Semântica Lexical. O Quadro 2 sintetiza esses contributos.

Quadro 2 − Contribuição das teorias semânticas para o desenvolvimento da Semântica Lexical Qualidade:

entidades e relações

Quantidade: diferenças de saliência

Semasiologia

Semântica Histórico-Filológica:

meca-nismos de mudança semântica

Semântica Neo-Estrutural: polissemia

regular

Semântica Cognitiva: polissemia

Semântica Cognitiva: teoria do

protótipo

Onomasiologia

Semântica Estrutural / Generativa / Neo-Estrutural: campos lexicais,

rela-ções lexicais, relarela-ções sintagmáticas

Semântica Cognitiva: “frames”,

metá-foras e metonímias conceptuais

Semântica Cognitiva: nível básico e

incrustamento

Fonte: Elaborado pelo autor.

A Semântica Histórico-Filológica (de Bréal, Darmesteter, Paul, Nyrop, Erdmann, Stern) esteve centrada em fenómenos qualitativos e diacrónicos da semasiologia, designadamente nos mecanismos de mudança semasiológica.

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Saberes lexicais: mundos, mentes e usos

Alguns fenómenos onomasiológicos também foram considerados, no contexto da classificação dos tipos de mudança semântica, mas não foram desenvolvidos.

A Semântica Estrutural (de Trier, Weisgerber, Coseriu, Pottier, Lyons) ocu-pou-se das estruturas onomasiológicas, muito tendo contribuído para a análise de campos lexicais, de relações lexicais de hiponímia, sinonímia e antonímia e de relações lexicais sintagmáticas. A análise semasiológica esteve também presente, na forma da bem conhecida análise componencial (ou análise sémica), mas sempre em função de uma análise onomasiológica inicial. A Semântica Generativa (de Katz e Fodor) integra no programa generativo oficial estes três domínios ono-masiológicos, desenvolvendo sobretudo a vertente decomposicional expressa na análise componencial.

A Semântica Neo-Estrutural elabora os programas estruturalistas decom-posicional e relacional, na perspetiva autonomista e formalizante do programa generativista. Assim, e por um lado, a teoria do Léxico Generativo de Pustejovsky, a teoria da Metalinguagem Semântica Natural de Wierzbicka e a teoria da Semântica Conceptual de Jackendoff elaboram a vertente decomposicional da estrutura semântica, estando a primeira centrada na semasiologia, particular-mente na chamada “polissemia regular” e as duas últimas mais focadas nas estru-turas onomasiológicas. Por outro lado, o projeto WordNet (de Miller e Fellbaum), a teoria do Significado – Texto de Mel’čuk e a análise distribucional de corpus (de Firth, Levin, Sinclair) elaboram a vertente relacional da estrutura semântica ono-masiológica, ocupando-se as duas primeiras das relações lexicais paradigmáticas e a última das relações lexicais sintagmáticas, conhecidas desde Firth como “colo-cações”. À parte a teoria de Wierzbicka, todas as restantes teorias da Semântica Neo-Estrutural têm contribuído para o desenvolvimento da semântica lexical computacional.

O contributo da Semântica Formal (de Frege, Montague, Tarski, Dowty) é bastante limitado, dado o seu interesse principal pela semântica da frase. Na ver-dade, a sua aplicação lexical diz respeito à análise de itens lexicais correspondentes a operadores lógicos, tais como os quantificadores e os conectores, e à análise da significação sintática de classes de palavras, correspondentes, por exemplo, aos “tipos” da semântica de Montague.

Finalmente, a Semântica Cognitiva (de Lakoff, Langacker, Talmy) foca-liza os aspetos quantitativos das estruturas lexicais, prestando atenção, por um

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lado, a todas as formas de efeitos de prototipicidade no domínio semasioló-gico e, por outro lado, ao nível básico das hierarquias lexicais e outras formas de incrustamento conceptual no domínio onomasiológico. Mas tem estudado também os aspetos qualitativos dos fenómenos semasiológicos e onomasiológicos. Especificamente, podemos apontar cinco contributos maiores da Semântica Cognitiva para a Semântica Lexical:

1. estudo dos aspetos quantitativos ou fenómenos de saliência tanto semasiológicos como onomasiológicos, ausente nas outras teorias semânticas;

2. o enorme impacto de modelos descritivos como o modelo da rede radial e o modelo da rede esquemática no estudo da polissemia;

3. investigação sobre a metáfora e a metonímia generalizadas;

4. estudo de estruturas onomasiológicas praticamente desconhecidas na tradição estruturalista, como os “frames” e os modelos cognitivos idealizados, e o estudo da onomasiologia pragmática, inexistente nas restantes teorias semânticas; e

5. estudo dos mecanismos lexicogenéticos e sociolexicológicos da mudança lexical semasiológica e onomasiológica.

Argumenta Geeraerts (2010), no seu recente estudo interpretativo sobre as teorias de Semântica Lexical, que o progresso desta disciplina compreende dois desenvolvimentos maiores. Por um lado, um movimento teórico cíclico de

des-contextualização, com a Semântica Estrutural e a Semântica Generativa, e recon-textualização, com a Semântica Histórico-Filológica e, sobretudo, a Semântica

Cognitiva. Por outro lado, um movimento linear de expansão descritiva: da semasiologia qualitativa para a onomasiologia qualitativa e daí para os fenó-menos quantitativos dos domínios semasiológico e onomasiológico. Enquanto o desenvolvimento teórico da Semântica Lexical envolve mudanças, oposições e até ruturas, o seu desenvolvimento empírico faz-se em termos de complementaridade e acumulação e o seu desenvolvimento metodológico está ligado a uma atenção crescente aos métodos empíricos.

Vejamos mais especificamente qual a especificidade teórica, descri-tiva e metodológica da Semântica Cognidescri-tiva no estudo do léxico. A Semântica Cognitiva opõe-se teoricamente à Semântica Generativa e à Semântica Estrutural pela rejeição da abordagem autonomista e sistémica e a assunção de uma perspe-tiva psicológica, experiencialista e baseada no uso do significado lexical. Ainda

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Saberes lexicais: mundos, mentes e usos

no plano teórico, a Semântica Cognitiva contribui para uma recontextualização plena do significado lexical e do significado linguístico em geral: recontextua-lização cognitiva ou estudo do significado na mente, cultural ou estudo do sig-nificado na cultura e social e situacional ou estudo do sigsig-nificado na sociedade e no discurso. (SILVA, 2011a; 2011d) Descritivamente, a Semântica Cognitiva representa uma expansão dos aspetos qualitativos para os aspetos quantitativos das estruturas semasiológicas e onomasiológicas, isto é, para os fenómenos de saliência no léxico, e também um desenvolvimento de certas estruturas semasio-lógicas, como a polissemia, e onomasiosemasio-lógicas, como os “frames”, as metáforas e metonímias conceptuais e a onomasiologia pragmática. Metodologicamente, a orientação para o uso e o interesse pela metodologia empírica e quantitativa levam a uma interessante convergência entre a Semântica Cognitiva e a análise distribucional de corpus introduzida por Firth.

Combinando estrutura e uso: fenómenos

de saliência no léxico

Uma das maiores inovações da Semântica Cognitiva nos domínios da Semântica Lexical e da Lexicologia é o estudo sistemático dos fenómenos de saliência lexical. (GEEARERTS, 2000, 2010) O grande contributo para o estudo da saliência no léxico vem da Teoria do Protótipo, com origem nos anos 70 na investigação psicolinguística de Eleanor Rosch e seus colegas (ROSCH, 1978; ROSCH; MERVIS, 1975) e na investigação antropológica de Brent Berlin e seus colegas (BERLIN; KAY, 1969) sobre a categorização de cores, aves, frutos e artefactos, e depois desenvolvida quer na psicologia cognitiva (MURPHY, 2002; SMITH; MEDIN, 1981), com vista à elaboração de modelos formais da memória conceptual humana, quer na linguística cognitiva, como um módulo central da semântica cognitiva. (GEERAERTS, 1985; 1997; 2006; LAKOFF, 1980; TAYLOR, 1989) A Teoria do Protótipo diz que categorizamos, não em

termos de “condições necessárias e suficientes”, mas na base de protótipos, isto é, representações mentais das propriedades e dos exemplares que consideramos mais característicos, pelo que os membros de uma categoria apresentam diferentes graus de representatividade ou saliência, agrupam-se por similaridades parciais ou

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“parecenças de família” e os limites entre si e entre diferentes categorias são geral-mente difusos. Para além do contributo para o estudo de um dos fenómenos mais interessantes e complexos de saliência lexical, como é a prototipicidade, a Teoria do Protótipo abriu caminho para o estudo de outros fenómenos de saliência no léxico, designadamente os fenómenos de saliência onomasiológica.

Antes de avançarmos, importa compreender por que é importante estudar a saliência no léxico. A saliência é o lugar de encontro de estrutura e uso ou, melhor ainda, é a manifestação do uso na estrutura, no sentido de que algumas partes da estrutura são mais importantes do que outras justamente porque são mais usadas. Estudar os fenómenos de saliência é, pois, estudar a interação entre estrutura e uso e, mais concretamente, combinar semântica, tradicionalmente entendida como estudo da estrutura, e pragmática, como estudo do uso. Seguem-se daqui duas importantes implicações teóricas para o estudo do léxico e para o estudo linguístico em geral. Uma é a de que a tradicional dicotomia entre semântica e pragmática é artificial: o estudo dos fenómenos de saliência lexical mostra como articular as duas dimensões e, mais ainda, como a pragmática deve estar integrada na semântica. A outra implicação teórica tem a ver com a noção de estrutura: a integração dos fenómenos de saliência implica alterar a noção tradicional de estrutura linguística e entendê-la, não como um conjunto de possibilidades, mas como um conjunto de probabilidades.

Para uma melhor identificação dos fenómenos de saliência no léxico, comecemos por verificar uma das características maiores do significado lexical: a sua variabilidade e os tipos de variação lexical. A Figura 2 sistematiza quatro tipos de variação do significado lexical.

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Saberes lexicais: mundos, mentes e usos

Figura 2 – Tipos de variação do significado lexical

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Figura 2 – Tipos de variação do significado lexical

VARIAÇÃO SEMASIOLÓGICA VARIAÇÃO ONOMASIOLÓGICA

co ncep tu al palavra conceito conceito palavra palavra conceito conceito nã o c onc ept ua l N ão co ncep tu al

coisa coisa coisa

co

ncep

tual

Fonte: Elaborada pela autora.

Para além da distinção entre variação semasiológica e variação onomasiológica, já implicada na distinção acima referida entre semasiologia e onomasiologia, há a distinção entre variação conceptual e variação não conceptual. (GEERAERTS, GRONDELAERS; BAKEMA, 1994) À variação conceptual, que envolve diferenças conceptuais, opõe-se a variação não conceptual ou variação contextual, ligada aos diversos aspetos da situação comunicativa (como o género do discurso, por exemplo), ou ainda a variação social, ligada aos aspetos sociais do significado, seja a variação letal (dialetal, socioletal e idioletal), seja a variação estilística, seja ainda a variação pragmática. Isto mostra que as escolhas lexicais que os falantes fazem no discurso são determinadas por diferentes fatores. Obviamente que há escolhas lexicais de conceitos (mais ou menos) específicos Fonte: Elaborada pelo autor.

Para além da distinção entre variação semasiológica e variação onomasioló-gica, já implicada na distinção acima referida entre semasiologia e onomasiologia, há a distinção entre variação conceptual e variação não conceptual (GEERAERTS, GRONDELAERS; BAKEMA, 1994). À variação conceptual, que envolve dife-renças conceptuais, opõe-se a variação não conceptual ou variação contextual, ligada aos diversos aspetos da situação comunicativa (como o género do discurso, por exemplo), ou ainda a variação social, ligada aos aspetos sociais do significado, seja a variação letal (dialetal, socioletal e idioletal), seja a variação estilística, seja ainda a variação pragmática. Isto mostra que as escolhas lexicais que os falantes fazem no discurso são determinadas por diferentes fatores. Obviamente que há escolhas lexicais de conceitos (mais ou menos) específicos determinadas pelo tema do discurso, mas há outras escolhas lexicais que têm a ver, não com diferenças entre conceitos, mas com diferenças sociolinguísticas, estilísticas ou pragmáticas.

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A variação semasiológica pode envolver diferenças conceptuais, como em “escola” com os sentidos de instituição de ensino, conjunto de alunos, professores e funcionários e doutrina, teoria ou movimento, ou não envolver diferenças con-ceptuais, como em escola primária e escola secundária. A variação semasiológica conceptual corresponde ao fenómeno da polissemia, ao passo que a variação semasiológica não conceptual ou referencial corresponde ao fenómeno da vagueza ou polirreferência. Por sua vez, a variação onomasiológica pode envolver dife-renças conceptuais, como entre “deixar” e “abandonar” ou entre “guarda-redes” e “jogador”, ou envolver diferenças sociais, quer letais, como entre “guarda--redes” e “goleiro” (aquele do português europeu e este do português brasileiro),

quer estilísticas, como entre “carro” e “automóvel”, quer ainda pragmáticas, como entre “você” e “o senhor”. A variação onomasiológica não conceptual pode dizer-se formal na medida em que envolve diferentes formas para um mesmo con-ceito. A variação onomasiológica conceptual manifesta-se em fenómenos como a quase-sinonímia e a hiponímia, ao passo que a variação onomasiológica não con-ceptual ou formal corresponde ao fenómeno da sinonímia denotacional.

As escolhas lexicais fazem-se, pois, em função de um ou mais do que um de três fatores: significado, forma e contexto. O mesmo é dizer que significado, forma e contexto são três fontes de variação do significado lexical.

Podemos distinguir diferentes tipos de saliência no léxico, associados aos principais tipos de variação lexical. O Quadro 3 sistematiza quatro tipos de saliência no léxico.

Quadro 3 – Tipos de saliência no léxico

Conceptual não conceptual saliência semasiológica polissemia, redes semânticas prototipicidade

saliência onomasiológica incrustamento, nível básico prevalência sociolinguística Fonte: Elaborado pelo autor.

A saliência semasiológica envolve os fenómenos amplamente estudados pela Semântica Cognitiva da polissemia (SILVA, 2006) e da prototipicidade (GEERAERTS, 1985; 1997; LAKOFF, 1987; TAYLOR, 1989), isto é, o facto de alguns sentidos ou alguns referentes de determinada palavra serem mais repre-sentativos, em termos de frequência ou de coerência semântica, do que outros;

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Saberes lexicais: mundos, mentes e usos

por outras palavras, terem um peso estrutural preponderante dentro do campo de aplicação de determinado item lexical. Por exemplo, a maçã, a laranja ou a pera são referentes mais salientes da palavra “fruto” e (mais diretamente) “fruta” do que o limão, a romã ou o coco; e os sentidos de "abandonar" e "permitir" são mais salientes do verbo deixar do que o sentido de "ir-se embora, retirar-se". (SILVA, 1999)

O estudo da Semântica Cognitiva destes dois fenómenos de saliência sema-siológica no léxico muito tem contribuído para o desenvolvimento da semântica lexical. A prototipicidade evidencia a flexibilidade do significado linguístico e sin-toniza com o facto de o significado representar o mundo e o mundo ser uma realidade em mudança. Efetivamente, categorizamos o mundo, não sob a forma de propriedades necessariamente comuns aos membros de determinada categoria e suficientes para distinguir essa categoria de outras categorias, mas na base de protótipos, isto é, por semelhanças ou associações com o protótipo.

A razão maior da prototipicidade está nas próprias características do sistema cognitivo humano e do seu funcionamento. Uma categoria estruturada com base em protótipos satisfaz três requisitos de eficiência cognitiva (GEERAERTS, 1988):

1. densidade informativa, possibilitando máxima informação com o mínimo esforço; 2. flexibilidade, permitindo aos falantes adaptar a categoria a novas circunstâncias e

experiências e nela integrá-las; e

3. estabilidade estrutural, permitindo interpretar novos factos através do conheci-mento já existente e, assim, evitar que aquela flexibilidade torne a categoria comu-nicativamente ineficiente. As categorias prototípicas tornam o sistema conceptual mais económico e têm a enorme vantagem de facilmente se adaptarem à inevitável variação e mudança e de funcionarem como modelos interpretativos das novas condições, situações ou necessidades.

O fenómeno da polissemia, natural e ubíquo nas línguas, é um macroefeito da prototipicidade. Olhada na perspetiva inversa, a polissemia é uma das maiores evidências linguísticas de que categorizamos com base em protótipos. (SILVA, 2006) A polissemia mostra como as categorias estruturadas com base em protó-tipos têm a enorme vantagem de facilmente se adaptarem à inevitável variação e mudança, mas também a não menos importante vantagem de funcionarem como modelos interpretativos dessas novas condições, situações ou necessidades.

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A polissemia revela que as nossas categorias lexicais – e com elas os dados que armazenamos no léxico mental – estão estruturadas em redes radiais, esquemá-ticas e multidimensionais. (SILVA, 2006) Como redes radiais, os sentidos de uma palavra estão organizados à volta de um centro, ocupado pelo núcleo prototípico, do qual emanam novos usos, radialmente ligados ao centro prototípico. (LAKOFF, 1987) Como redes esquemáticas, os sentidos de uma palavra estão organizados não só à volta de um centro prototípico, mas também hierarquicamente em níveis de esquematicidade. E como redes multidimensionais, determinado sentido de uma palavra pode resultar da combinação de duas ou mais dimensões semânticas e, inversamente, uma dimensão pode entrar em diferentes sentidos de um item. A polissemia revela ainda a existência de determinados mecanismos de

conceptua-lização e geração de sentidos, que estão na base das extensões a partir do centro prototípico, como a metáfora e a metonímia, e das instanciações do esquema, como a especificação e a generalização, das redes semânticas.

A saliência a nível onomasiológico exprime-se na preferência por determi-nado item lexical em vez de outro como nome de determidetermi-nado referente ou ceito. Essa preferência por itens lexicais alternativos pode envolver diferenças con-ceptuais, como entre “jogador” e “guarda-redes” (este termo é hipónimo daquele) ou deixar e abandonar (este último verbo exprime uma rutura emotivamente mais intensa do que aquele), configurando a saliência onomasiológica conceptual. Em contrapartida, essa preferência por itens lexicais alternativos pode ser conceptual-mente neutra e envolver diferenças sociolinguísticas, estilísticas ou pragmáticas, como entre “guarda-redes” e “goleiro” ou “carro” e “automóvel”, constituindo o que pode ser designado como saliência onomasiológica formal.

A saliência onomasiológica conceptual manifesta-se de dois modos especí-ficos. Um é a rotinização, familiarização ou ancoragem (LANGACKER, 1987), de determinado item lexical no conhecimento linguístico dos falantes. Por exemplo, o item lexical “cadeira” será, em princípio, mais familiar e assim mais saliente do que o item lexical “poltrona”. A outra manifestação é o chamado “nível básico” de categorização, que se situa entre um nível mais geral e um nível mais específico e é constituído por categorias conceptualizadas em termos de gestalts percetivos e funcionais, que tendem a ser apreendidas em primeiro lugar e são o alvo privile-giado de efeitos de prototipicidade. (ROSCH, 1978) Por exemplo, “saia” e “calças” são categorias de nível básico, mais salientes do que “minissaia” e “jeans”.

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Saberes lexicais: mundos, mentes e usos

Finalmente, a saliência onomasiológica formal consiste na prevalência sociolinguística entre sinónimos denotacionais, isto é, itens lexicais com mesmo significado denotacional e diferenças geográficas, sociais, estilísticas ou pragmá-ticas. Essa prevalência e a consequente opção por um item lexical dentro de um conjunto de sinónimos denotacionais têm a ver com a variedade linguística ou o contexto pragmático em causa. Por exemplo, “atacante” é mais saliente do que “avançado” no português brasileiro, sendo o inverso no português europeu.

Há ainda outros tipos de saliência no léxico. Um é a saliência sintagmá-tica e tem a ver com a ocorrência dominante de restrições de seleção (KATZ; FODOR, 1963) ou as colocações (FIRTH, 1957) mais frequentes dentro do potencial sintagmático de determinado item lexical. Um outro tipo é a saliência estrutural e consiste no predomínio de determinada dimensão ou traço semântico como dimensão ou traço distintivo dentro da estrutura semântica de um campo lexical. Por exemplo, no léxico espacial são estruturalmente salientes as dimensões da forma, do movimento e da geometria. (TALMY, 2000)

Questões de polissemia e sinonímia

Polissemia e sinonímia são os fenómenos mais salientes, mais reveladores da natureza do significado lexical e mais complexos das dimensões semasiológica e onomasiológia do léxico. Um e outro colocam questões complicadas. Um dos maiores problemas é o da diferenciação de sentidos, na polissemia, e da equiva-lência de sentidos, na sinonímia.

Começando pela polissemia, as questões principais são saber (i) quando é que dois usos de uma palavra representam sentidos diferentes, (ii) como é que os diferentes sentidos de uma palavra estão relacionados e (iii) que mecanismos geram novos sentidos e os associam. Com base na nossa investigação sobre a polis-semia (SILVA, 2006), apresentamos breves respostas a estas questões. A resposta à primeira questão vamos dá-la de duas formas. Negativamente, não podemos determinar quantos significados tem uma palavra nem podemos aplicar os tradi-cionais testes de diferenciação de sentidos (cujos resultados serão inevitavelmente contraditórios) se pressupusermos a existência de sentidos estáveis. A prototipici-dade – chave cognitiva da categorização, como vimos acima – implica a tremenda

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flexibilidade do significado e a instabilidade da polissemia. Positivamente, devemos “puxar” o significado tanto para cima, com vista a encontrar significados esquemá-ticos e outros fatores de coerência, quanto para baixo, em ordem a dar conta da inevitável flexibilidade e variabilidade do significado. Por outras palavras, é neces-sário procurar o significado esquemático de uma palavra, sem, todavia considerá-lo como o “significado essencial”, e ao mesmo tempo analisar os usos contextuais particulares, sem, no entanto, exagerar as diferenças de sentido. Desta forma, evi-tamos quer o preconceito monossémico ou o mito do “significado essencial”, pre-sente por exemplo na análise de Searle do verbo do inglês to open “abrir” e, mais sistematicamente, no estudo de Ruhl (1989), quer o preconceito polissémico ou a multiplicação incontrolável de sentidos, presente na análise de Lakoff (1987) do nome window “janela” e noutras análise cognitivas da polissemia.

A resposta à segunda questão já a demos em grande parte na secção ante-rior. Reiteramos que os sentidos estão organizados em redes, mas essas redes são não apenas radiais ou extensões a partir do protótipo, mas também esquemá-ticas, como combinações de extensões de protótipos e elaborações de esquemas, e ainda multidimensionais, pela covariação de diferentes dimensões. Como res-posta à terceira questão, os mecanismos lexicogenéticos de geração e associação de sentidos de uma palavra são a metáfora e a metonímia, como relações de simi-laridade e contiguidade figurativas, e as relações hierárquicas de especialização e generalização. A literatura funcionalista e cognitivista fala de outros mecanismos: a inferenciação desencadeada ou convencionalização de implicaturas conversacio-nais (TRAUGOTT; DASHER, 2002) e a subjetificação. (LANGACKER, 1999; TRAUGOTT; DASHER, 2002) Todavia, a inferenciação desencadeada é um processo metonímico e a subjetificação é um efeito de mecanismos mais básicos como a generalização, a metonímia ou a metáfora. (SILVA, 2011d)

Vamos ilustrar estas respostas às questões da polissemia com breves referên-cias a duas das categorias polissémicas do português que temos estudado. (SILVA, 2006) O verbo “deixar” exprime dois grupos de sentidos em tensão homonímica (SILVA, 1999; 2003; 2006): um significa “suspender a interação com o que se caracteriza como estático” (complemento nominal) e está estruturado à volta do protótipo “abandonar”; o outro significa “não se opor ao que se apresenta como dinâmico” (complemento verbal) e organiza-se à volta do protótipo “não intervir”. Onde é que está a coerência semântica interna do verbo “deixar”, capaz de impedir

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Saberes lexicais: mundos, mentes e usos

a homonímia entre os dois grupos? Temos que puxar o significado de “deixar” para cima. Em primeiro lugar, essa coerência reside em uma estrutura multidi-mensional, que compreende a dimensão da “construção (estática vs. dinâmica) do objeto” e a dimensão do “grau de atividade do sujeito” (atitude ativa com/sem intervenção prévia vs. atitude passiva). Em segundo lugar, essa coerência reside numa estrutura de transformações de esquemas imagéticos de movimento de afas-tamento ou não aproximação e de dinâmica de forças, que consistem na inversão do participante dinâmico (que realiza o movimento físico ou abstrato) – o par-ticipante sujeito na categoria de complemento nominal e o parpar-ticipante objeto na categoria de complemento verbal. Em terceiro lugar, essa coerência reside em elaborações metafóricas e metonímicas desses esquemas imagéticos: por exemplo, a rutura de relações interpessoais ou funções é uma extensão metafórica e meto-nímica do movimento de afastamento. Finalmente, a coerência da polissemia de "deixar" reside também na existência de um esquema de dinâmica de forças (TALMY, 2000) comum aos dois grupos de sentidos: uma entidade mais forte,

codificado no sujeito do verbo, não exerce força que possa interferir na disposição natural de uma entidade focal.

A palavra “pronto” exibe um vasto conjunto de usos pragmático-discur-sivos actualizados no discurso oral espontâneo (SILVA, 2006a; 2006c), que são o resultado de um processo recente de gramaticalização (ou pragmatização) do adje-tivo “pronto”. Todavia, os nossos melhores dicionários não dão conta da polis-semia funcional de “pronto”. Onde é que se encontra então a polispolis-semia do mar-cador discursivo “pronto”? Temos que puxar o significado de “pronto” para baixo. Os usos pragmático-discursivos de “pronto” estão metonímica e metaforicamente relacionados com dois esquemas imagéticos e suas implicações em diferentes domínios cognitivos e comunicativos: de um lado, a imagem “retrospectiva” de processo terminado, a que estão associados os usos conclusivos, de concordância, de fecho temático e de cedência de vez; do outro lado, a imagem “prospetiva” de processo disponível, a que estão ligados os usos impositivo, explicativo, de aber-tura temática e de tomada de vez.

A sinonímia é a contrapartida onomasiológica da polissemia, pelo que aspetos típicos e problemas do fenómeno da polissemia podem ser extrapolados para o estudo, menos desenvolvido, da sinonímia. Como ponto de partida, lem-bremos a distinção referida anteriormente entre sinónimos com diferenças

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conceptuais ou quase-sinónimos, como “atacante” e “jogador” ou “deixar” e “aban-donar”, e sinónimos com diferenças não conceptuais, mas sociais ou sinónimos denotacionais ou, simplesmente e em sentido estrito, sinónimos, como “atacante” e “avançado” ou “carro” e “automóvel”. Os sinónimos conceptualmente diferenciá-veis mostram como determinada entidade da realidade pode ser conceptualizada de perspetivas diferentes. Os sinónimos denotacionais são reveladores da própria existência e da competição entre variedades letais. Esta distinção evidencia já que a afirmação ou a negação de um caso de sinonímia depende da própria definição de sinonímia. As grandes questões da sinonímia são saber (i) quando é que dois itens lexicais são sinónimos, (ii) se diferenças de forma correspondem sempre a diferenças de sentido e (iii) quais os fatores que dão origem à sinonímia.

Respondendo à primeira questão, a sinonímia é, tal como a polissemia, um fenómeno mais flexível e contextual do que aparenta na conceção tradicional. Isto implica abandonar o modelo tradicional estruturalista da sinonímia como relação de sentido entre itens lexicais a nível do sistema linguístico (LYONS, 1977), para encontrar os aspetos enciclopédicos, referenciais e contextuais de que

depende uma relação de equivalência semântica. Tal como a polissemia, também a sinonímia pode ser estabelecida em diferentes níveis de esquematicidade e também é necessário para a sua identificação puxar o significado tanto para cima como para baixo. Quanto maior for o grau de especificidade no reconhecimento de uma relação de equivalência semântica, menor é a possibilidade de admitir uma relação de sinonímia. A resposta à segunda questão é afirmativa: diferenças de forma correspondem sempre a diferenças de sentido, mas estas diferenças de sentido podem ser conceptuais ou sociais. Como resposta à terceira questão, os fatores geradores de sinonímia são quer conceptuais, como a prototipicidade, a saliência onomasiológica ou as alterações de perspetivação conceptual, quer sociais, como a variação letal, estilística ou pragmática.

Como ilustração, vejamos muito sumariamente as relações de sinonímia entre “deixar”¸ “abandonar” e “permitir”. Em relação a “abandonar”, “deixar” exprime abandono com densidade emotiva menor, pelo que “deixar” pode ser usado como eufemismo dos processos expressos por “abandonar”: por exemplo, “deixar o marido/o emprego/os estudos”, frente a “abandonar o marido/o

emprego/os estudos”. Em relação a “permitir”, “deixar” é usado no registo não formal e pressupõe uma autoridade mais familiar ou pessoal, por outras palavras,

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Saberes lexicais: mundos, mentes e usos

uma autoridade subjetificada: por exemplo, “deixar a Maria chegar mais tarde” é mais adequado em um contexto familiar de pai para filha, ao passo que “permitir que a Maria chegue mais tarde” é mais próprio de uma situação institucional de superior para subordinado.

Há um aspeto interessante no desenvolvimento histórico destes três verbos. (SILVA, 1999) A entrada tardia de abandonar e permitir na língua portuguesa (finais do português antigo) conduziu a uma situação de completa sinonímia conceptual e distribucional com os dois usos prototípicos de “deixar”. Todavia, esta situação rapidamente desencadeou uma dissimilação semântica que tomou a forma de uma reorganização de protótipos na estrutura semasiológica de “deixar”. Com a entrada de “permitir”, o uso passivo de “deixar” com a acepção de não impedir (passividade do sujeito “deixar”) tornou-se prototípico em comparação com o sentido ativo de “deixar”, entendido como “permitir”. Além disso, os novos verbos “abandonar” e “permitir” vieram colocar os sentidos prototípicos de “deixar” em níveis hierarquicamente mais esquemáticos. Isto mostra como a prototipicidade pode ser um fator tanto gerado como diferenciador de sinónimos.

Cognição situada e conceitos culturais

Poderemos conceber a cognição sem a interação? Podemos continuar a separar cognitivo e social, individual e interindividual, perceção e interação, neural e cultural? Podemos continuar a privilegiar a vertente individual e uni-versal da cognição, o seu lado físico e neurofisiológico?

Tem havido, nos últimos vinte ou mais anos, um alargamento signi-ficativo do conceito de “cognição”: desde uma perspetiva puramente interna e autónoma, compendiada na ideia (metafórica) da cognição como cérebro, com a “primeira geração das ciências cognitivas”, à perspetiva da corporização

(embo-diment) da cognição ou sua integração no conjunto do corpo físico do

indi-víduo (EDELMAN, 1992; DAMÁSIO, 1995; 2000; GIBBS, 2005; LAKOFF; JOHNSON, 1999; VARELA; THOMPSON; ROSCH, 1991), com a “segunda geração das ciências cognitivas” e, mais recentemente, à inclusão da situação e da interindividualidade na cognição e, assim, à noção de cognição situada ou cog-nição social. (BERNÁRDEZ 2005; 2008a; 2008b; HARDER, 2010; PISHWA,

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2009; TOMASELLO, 1999; ZIEMKE, ZLATEV; FRANK, 2007; ZLATEV, 1997; 2007; ZLATEV et. al. 2008) Por exemplo, o neurocientista Wilson (2005)

fala de mente coletiva e de cérebro social, sugerindo que o nosso cérebro está especialmente preparado para estabelecer conexões com os outros cérebros, para comportamentos interativos e que a cognição é tão coletiva como individual.

Impõe-se, pois, complementar dois conceitos que têm feito sucesso em ciências cognitivas: o mais antigo e popular de corporização (embodiment) ou bases corpóreas e sensório-motoras da mente, da cognição e da linguagem e o mais recente de situacionalidade sociocultural (sociocultural situatedness) ou modos pelos quais mentes individuais e processos cognitivos são configurados por interações sociais e culturais. Nesta perspetiva, a cognição é situada, já que a atividade cognitiva tem sempre lugar em um contexto sociocultural; é distribuída, pela repartição do esforço cognitivo entre dois ou mais indivíduos e entre eles e os seus instrumentos cognitivos; e é sinérgica, como atividade de colaboração entre indivíduos, cujos mecanismos são a imitação e os recentemente descobertos “neu-rónios espelho”.

Vejamos como a percepção sensorial não está conceptualmente desligada da ação motora e da interação social? Graças ao aparato percetual humano, per-cecionamos a topologia dos objetos. Mas ao mesmo tempo tomamos consciência do movimento dos objetos e da interação com os objetos, projetando interesses e objetivos particulares nas situações da realidade. Quer isto dizer que perceber o mundo é (inter)agir com ele, como já apontava Merleau-Ponty (1945) na sua fenomenologia da perceção. Vários estudos em Semântica Cognitiva sobre semântica espacial apontam para os aspetos projetados e sociais dos significados espaciais das expressões linguísticas.

Por exemplo, Talmy (2000) desenvolve um modelo de semântica cognitiva do espaço que compreende, para além da localização e do movimento, aspetos biossociais vários como a intencionalidade, a perspetiva do conceptualizador e padrões de dinâmica de forças de interação entre os participantes. Vandeloise (1991; 2003) elabora um modelo de semântica espacial assente na confluência de três fatores experienciais: perceção das configurações topológicas, determinada pelas capacidades percetuais humanas; cinética ou experiência sensório-motora, determinada pelas capacidades motoras humanas; e interação ou assimilação do contexto e acomodação do corpo, determinada pela interação social. Mesmo

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esquemas imagéticos ou padrões da nossa atividade sensório-motora e da nossa perceção de ações e eventos, popularizados pela Semântica Cognitiva (HAMPE, 2005; JOHNSON, 1987), são complexos na medida em que envolvem não só a percepção, mas também a ação e a interação. (CORREA-BENINGFIELD et al., 2005; VANDELOISE, 2003) Por exemplo, o esquema imagético do container vai

além da inclusão topológica e inclui elementos de força e elementos funcionais. (VANDELOISE, 1991; 2003)

Atentemos agora em conceitos aparentemente universais que, não obstante, estão intimamente relacionados com a cultura. Os conceitos escolhidos são os de causa, verbos de perceção e partes do corpo.

“Causa” não é um primitivo semântico, mas uma construção mental fun-damentada na experiência. Na cultura ocidental, causação é movimento forçado é a metáfora preferencial para a compreensão do conceito de causa. (LAKOFF; JOHNSON, 1999) O nosso modelo popular ocidental de causação subjacente às

construções causativas analíticas como “fazer” + Inf. ou “deixar” + Inf. vê as causas como forças e a causação em um cenário de dinâmica de forças, no qual uma entidade tem uma tendência natural e manifestá-la-á a menos que seja vencida por outra entidade mais forte. Há uma ideologia nos verbos causativos “fazer” e “deixar” que se caracteriza pelo postulado popular “As coisas estão como estão a menos que alguém interfira”. (SILVA, 2004, 2005) Noutras culturas, a causação é entendida através de outras metáforas (BERNÁRDEZ, 2008): precedência tem-poral, no sentido de a causa de um evento ser o que precede esse evento; compa-nhia, como o sol ser a causa da luz; ou progenitura. (TURNER, 1987)

Relativamente aos verbos de perceção, Sweetser (1990) sugere que a extensão que vai do significado de perceção visual para o significado de com-preensão é interlinguisticamente dominante e mesmo universal. Mas Vanhove (2008) mostra que a associação semântica entre visão e cognição não é geografi-camente universal: verifica-se somente na Europa e em algumas partes de África.

A experiência das partes do corpo é também culturalmente específica. A principal razão está no facto de que o que importa conhecer não são todas as partes do corpo, mas aquelas que são utilizadas em atividades de alguma impor-tância e aquelas que podem ser afetadas por alguma doença. Bernárdez (2008) mostra que no cha’palaachi (língua do Equador), os termos de partes do corpo dão mais importância às formas do que às próprias partes do corpo.

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Sem negar a existência de aspetos universais na experiência humana, decor-rentes da própria estrutura corporal que é a mesma para todo o ser humano, deve reconhecer-se, porém, que esses universais são complexos e são situados e, por-tanto, cultural e linguisticamente específicos. Assim, o que Wierzbicka (1996) na sua extensa investigação sobre os universais semânticos propõe como o alfabeto do pensamento humano (“eu”, “tu”, “agora”, “porque”, “querer” etc.) não poderá ser entendido como primitivos atomísticos, mas como primitivos complexos, nem poderá ser entendido como universais independentes da cultura e da língua.

O significado social

O significado social compreende as componentes funcional, interacional e cultural e a componente letal (geográfica, social, estilística) do significado linguís-tico. A convenção social desempenha um papel importante na constituição do significado lexical. Por exemplo, um dos traços prototípicos de “fruta”, designada-mente o de “usar-se geraldesignada-mente como sobremesa”, emerge justadesignada-mente dos nossos costumes sociais.

O conhecimento semântico dentro de uma comunidade é heterogéneo, sendo necessárias forças normativas que garantam a coordenação semântica e distribuam as interpretações. O princípio da divisão do trabalho linguístico de Putnam (1975), também conhecido por princípio de “deferência semântica”, é apenas uma destas normas semânticas. Para além da autoridade, há também a cooperação e o conflito. Estas três normas semânticas permitem que uma cate-goria se desenvolva em diferentes direções. A semântica da cooperação leva à expansão semântica das categorias, à sua flexibilidade e prototipicidade, ao passo que a semântica da autoridade conduz à restrição semântica das categorias, a uma definição precisa e essencialista. A semântica do conflito ocupa uma posição inter-média, na medida em que a discussão pode levar ora a restringir o campo de apli-cação da categoria, ora a ampliá-lo. Quer isto dizer que protótipos, estereótipos e normas semânticas são componentes integrantes e interatuantes do significado lexical. (GEEARERTS, 2008)

A melhor manifestação da dinâmica social do significado é a variação letal. A variação letal tem uma função socialmente expressiva: marca pertença ao grupo

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e distância social, dá a conhecer a atitude do falante relativamente ao referente de uma expressão, a sua avaliação da situação de comunicação e as intenções intera-tivas do locutor com o interlocutor. Como referimos anteriormente, os sinónimos denotacionais são os melhores indicadores lexicais da variação letal e das relações entre variedades letais.

Tema fundamental de investigação é saber como e até que ponto se correla-cionam os aspetos sociais e os aspetos conceptuais da variação letal. Este é o objeto da Sociolinguística Cognitiva (GEERAERTS; KRISTIANSEN; PEIRSMAN, 2010; KRISTIANSEN; DIRVEN, 2008; SILVA, 2009), uma extensão

emer-gente da Linguística Cognitiva como modelo baseado no uso e orientado para o significado. A Sociolinguística Cognitiva traz contributos da maior importância para dois domínios de investigação da variação letal: a variação do significado e a análise das correlações entre os fatores conceptuais e os fatores sociais da variação; e o significado da variação ou representação cognitiva da variação letal, nas suas componentes de perceção, categorização e avaliação atitudinal e na forma de modelos cognitivos culturais da variação intralinguística.

No enquadramento da Sociolinguística Cognitiva, desenvolvemos um pro-jeto de investigação centrado na questão diacrónica da convergência e divergência entre o português europeu (PE) e o português brasileiro (PB) nos últimos 60 anos. (SILVA, 2010; 2011b; 2012, 2013) O projeto utiliza o método onomasio-lógico de estudo da variação letal, mais precisamente a variação onomasiológica formal entre sinónimos denotacionais, e métodos socioletométricos de medição de distâncias entre variedades linguísticas baseados em perfis onomasiológicos, isto é, conjuntos de sinónimos denotacionais usados para designar determinado conceito, diferenciados pela sua frequência relativa. Por exemplo, os termos “ata-cante”, “avançado”, “avante”, “dianteiro”, “forward” e “ponta de lança” consti-tuem o perfil onomasiológico do conceito de "avançado". A análise baseia-se no

corpus CONDIVport, atualmente com 4 milhões de palavras do registo formal

e 15 milhões do registo informal, disponibilizado pela Linguateca. O corpus está estruturado na base de três variáveis: (i) geográfica, com textos de Portugal e do Brasil (sobretudo São Paulo e Rio de Janeiro); (ii) diacrónica, das décadas de 50, 70 e 2000; e (iii) estilística, do registo formal de jornais e revistas e do registo informal de chats da internet e de etiquetas de roupas de lojas de vestuário.

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A investigação sociolexicológica já realizada com base em 21 perfis ono-masiológicos do campo lexical do futebol e 22 perfis do campo do vestuário e em largos milhares de observações do uso destes termos (183 de futebol e 264 de vestuário) no corpus CONDIVport (jornais de desporto e revistas de moda,

chats associados a clubes de futebol e etiquetas de roupas de lojas de vestuário)

permite concluir que a hipótese da divergência entre PE e PB se confirma no campo lexical do vestuário, mas não no do futebol. Os termos de vestuário são mais representativos do vocabulário comum e, por isso, os resultados do vestuário estarão mais próximos da realidade sociolinguística. A ligeira convergência no campo do futebol será um efeito da globalização e da padronização do vocabu-lário do futebol. Entre outros resultados, encontramos bastantes diferenças entre as duas variedades nacionais, nenhuma orientação específica de uma variedade em direção à outra – o que aponta para um pluricentrismo simétrico – e ainda maiores mudanças ao longo do tempo e maior distância estratificacional no PB.

Lexicologia quantitativa e socioletometria lexical

Para dar conta da multidimensionalidade e da multivariacionalidade das estruturas lexicais, são necessários métodos empíricos e quantitativos avançados, sejam métodos de observação de corpus, sejam métodos experimentais, seja a combinação de ambos. São igualmente necessárias técnicas letométricas que per-mitam calcular distâncias entre variedades letais e, por exemplo, medir conver-gência e diverconver-gência diacrónica entre variedades letais e estratificação interna sin-crónica de variedades letais.

Relativamente à elicitação e experimentação, o método do corpus tem a vantagem de permitir observar o uso real da língua. Com efeito, o que os falantes pensam que fazem com a língua pode não coincidir com o que eles realmente fazem com a língua. Além disso, a análise de corpus fornece uma base empírica consistente para investigações experimentais. Mas uma análise de corpus adequada implica grandes corpora, bem como análise estatística, quantitativa e multivaria-cional e técnicas sofisticadas. Não basta uma análise ilustrada por um corpus; é necessária uma análise efetiva de corpus. Por outro lado, a investigação linguística

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beneficiará da utilização de técnicas de inquéritos, técnicas de experimentação da psicologia, ou mesmo técnicas da análise neurofisiológica.

No domínio da letometria ou medidas de distâncias entre variedades letais, a recente socioletometria distingue-se das tradicionais dialetometria e estilometria por compreender métodos que permitem medir distâncias entre variedades letais e correlacioná-las não só com distâncias no espaço, mas com todos os tipos de variáveis sociolinguísticas. A socioletometria trabalha com a variação onomasio-lógica entre sinónimos denotacionais. A Unidade de Investigação Quantitative Lexicology and Variational Linguistics tem desenvolvido métodos socioletomé-tricos nos seus estudos sobre o neerlandês da Holanda e da Bélgica. (GEERAERTS; GRONDELAERS; SPEELMAN, 1999; SPEELMAN, GRONDELAERS, GEERAERTS, 2003) Medidas de uniformidade baseada em perfis onomasio-lógicos permitem calcular convergência e divergência entre variedades nacionais. A uniformidade é a medida da (dis)similaridade entre os perfis nas diferentes variedades e é calculada somando as frequências relativas mais pequenas de cada termo alternativo. Convergência e divergência entre duas variedades traduzem-se em aumento ou diminuição da uniformidade.

Utilizando também métodos estatísticos multivariacionais aplicados a grandes corpora, o grupo de Gries e Stefanowitsch (GRIES; STEFANOWITSCH, 2006, STEFANOWITSCH; GRIES, 2006, 2008) tem desenvolvido um modelo

colostrucional de grande eficácia na análise das correlações entre a variação lexical

e a variação sintática.

No domínio da linguística computacional e das suas aplicações à semântica lexical, existem os “modelos de espaço de palavras” aplicados a grandes corpora, que permitem uma análise automática da distribuição de uma palavra e detetam automaticamente similaridades semânticas entre palavras. (PADÓ; LAPATA, 2007) Estas técnicas matemáticas podem ser aplicadas na extração automática

de sinónimos e na identificação automática de variação lexical entre variedades letais. (HEYLEN et al. 2008; PEIRSMAN, HEYLEN;GEERAERTS, 2010; PEIRSMAN; GEERAERTS ; SPEELMAN, 2010) Mais especificamente, a téc-nica dos “modelos de espaço vetorial” permitirá uma análise mais rigorosa das cor-relações entre fatores letais e fatores conceptuais de variação semântica no léxico.

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Conclusão

Argumentámos neste estudo sobre as vantagens e os desafios de uma abor-dagem maximalista do significado lexical e dos diversos fenómenos semasiológicos e onomasiológicos do léxico. Uma abordagem maximamente contextualizada do léxico, isto é, um estudo do léxico no contexto da cognição em geral e da expe-riência humana individual, social e cultural. Uma abordagem do léxico que rejeita a distinção entre conhecimento das palavras e conhecimento do mundo e que toma a distinção entre semântica e pragmática como irrelevante. Uma abordagem do léxico, não no plano abstrato e idealista de um sistema estático e homogéneo, mas no seu uso efetivo, conseguindo assim reconhecer a enorme flexibilidade e variabilidade do significado lexical. E uma abordagem do léxico que dê conta da natureza dinâmica e flexível, enciclopédica e perspetivista do significado lexical.

A abordagem maximalista do significado lexical permite dar conta do importante fenómeno cognitivo da saliência, reconhecer a saliência como uma das mais importantes variáveis lexicológicas e identificar os diferentes tipos de saliência no léxico e suas correlações, quer a saliência semasiológica ou prototipi-cidade quer a saliência onomasiológica ou familiarização, nível básico de categori-zação e prevalência sociolinguística de sinónimos. Polissemia e sinonímia encon-tram aqui novas e promissoras abordagens. A abordagem maximalista do léxico tem ainda uma outra grande vantagem: permite saber como interagem os aspetos conceptuais e os aspetos sociais do significado lexical; como interagem protótipos, estereótipos e normas semânticas e perceção, ação e interação; permite ainda uma visão sociocognitiva integrada da variação do significado lexical em todas as suas dimensões e do significado dessa variação.

A Semântica Cognitiva oferece hoje um contributo da maior importância para o desenvolvimento da semântica lexical e da lexicologia, justamente porque assume uma conceção maximalista do significado. Mas para conseguir cumprir integralmente o seu programa, a Semântica Cognitiva terá que integrar mais sis-tematicamente a situacionalidade sociocultural do significado lexical e métodos quantitativos e multivariacionais avançados.

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Referências

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