Psic%gia da Arte
L. S. Vigotski
liev SemlOnovitc:h Vig(,tski (1 896-1936) e uma das figuras mais importantes da escola psicol6gica russa. Entre as suas mais destacadas contribui90es estao os estudos sobre a psicologia geral, infantil, pedag6gica e genetica, assim como sobre a psicopatologia. No entanto devem ser lembradas especialmente as suas teorias sobre a origem s6cio-hist6rica das fun90es psfquicas superiores e sobre as fun90es do ensino no desenvolvimento psfquico da crian9a. Suas investiga90es sobre psicologia da arte come9am a influenciar as principais
tendencias ocidentais preocupadas com esta area da atividade
humana. Vigotski coloca e resolve questoes sobre psicologia da arte que marcam uma reviravolta completa nas concep90es tradicionais.
CA~A
PSICOLOGIA
DAARTE
Esra obra fo; publicada origina/mente em russo com 0 titulo PS/JOLOGUIA ISKUSSTVA. Copyright © L. Vigolski's silcessor ill title -Vigotskayo Gira Lic\'ol'lIo.
Copyright © 1999, Livraria Martills Fontes Editora Ltcla., Sao Paulo, para a presellfe edi{ilO.
j;} edic;ao je\'ereiro de 1999 2~ tiragern lIovembro de 2001 Tradu«;:fto PAULO BEZERRA Revisao da tradu~ao Vadim Valentinovitel! Nikirin
Revisao gratica Soiange Martins Ivete Batista dos Santos Alldrea Stahel M. da Silva
Produc;ao grafica Cera/do Alves
Capa Katia Harumi Terasaka
Dados Internacionais de Catalogac;ao na Publicac;ao (eIP) (Camara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Vygolsky, Lev Semenovitch, 1896~1934.
Psicologia da arte I L. S. Vigotski ; tradu~ao Paulo Bezerra. ~ Sao Paulo: Martins Fontes, 1999.
Titulo original: Psijologuia iskusstva. Bibliografia.
ISBN 85·336· 1003·3
I. Artes -Aspectos psicol6gicos I. Titulo. 99·0098
indices para catalogo sistematico: 1. Arte : Psicoiogia 701.15
CDD·701.15
Todos os direitos para a lingua portuguesa reservados a Livraria Martins Fontes Editora Llda.
Rua Conselheiro Ramalho, 3301340 01325·000 Sao Paulo SP Brasil Tel. (1/)3241.3677 Fax (11) 3105.6867
e-mail: [email protected] http://www.martinsfonres.com.br
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Sum
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edifiio brasileira Pre/acioMETODOLOGIA DO PROBLEMA 1. 0 problema psico16gico da arte
"Estetica de cima" e "estetica de baixo". A teoria mar-xista da arte e a psicologia. Psicologia social e indivi-dual da arte. Psicologia subjetiva e objetiva da arte. 0 metodo objetivo-analitico e sua aplicafaO.
CRiTlCA
2. A arte como conhecimento
Principios 'cia critica. A arte como conhecimento. 0 intelec-tualismo dessa formula. Critica a teo ria da jigurafaO. Re-sultados praticos dessa teoria. A nao compreensao da psi-cologia da forma. Dependencia em face da psicologia associativa e sensualista.
3. A arte como procedimento
Reafao ao intelectualismo. A arte como procedimento. PSicoiogia do enredo, da personagem, das ideias literarias,
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1 7 "'--- 1 _ 131
59dos sentimentos. A contradi(:iio psicologica do Forma-lismo. A niio compreensiio da psicologia do material. A pratica do Formalismo. Um hedonismo elementar.
4. Arte e psicamilise ...... 81
o
inconsciente na psicologia da arte. A psicanalise da arte. A niio compreensiio da psicologia social da arte. Critica ao pansexualismo e ao infantilismo. 0 papel dos momen-los conscientes em arte. A aplica(:iio pratica do metodo psiC'Clnalitico.-ANALISE DA REA9AO ESTETICA
5. Analise da fabula .......................... 103 A fabula, a novela, a tragedia. A teoria da fabula de Les-sing e Potiebnya. Afabula em poesia e prosa. Elementos da constru(:iio da fabula: a alegoria, 0 uso de animais, a moral, a narra(:iio, 0 estilo poetico e os procedimentos. 6. "Veneno sutil". A sintese ......................................... 141
o
germe da lirica, do epos e do drama na fabula. As fabu -las de Krilov. Sintese da fabula. A contradi(:iio emocional como base psicologica dafabula. A catastrofo dafabula. 7. Leve alento .............. ...... 177"Anatomia "e "ftsiologia" da narra(:iio. Disposi(:iio e com-posi(:iio. Caracteristica do material. Sentido funcional da composi(:iio. Procedimentos auxiliares. Contradi(:iio emo-cional e destrui(:iio do conteudo pela forma.
8. A tragedia de Hamlet,principe da Dinamarca .................... 207
o
enigma de Hamlet. Solu(:oes "subjetivas"e "objetivas".o
problema do carater de Hamlet. Estrutura da tragedia: fabula e en redo. Identifica(:iio do heroi. A catastrofo.PSICOLOGIA DA ARTE
9. A arte como catarse ................... 249 A teoria das emo(:oes e a fantasia. A lei do menor esfor(:o. A teo ria do tom emocional e da empatia. A lei da "dupla
CI
expressiio das emo(:oes". A lei da "realidade das emo-(:oes ". A descarga central e periferica das emoemo-(:oes. A con-tradi(:iio emocional e 0 principio da antitese. A catarse. A destrui(:iio do conteudo pela forma.
10. Psicologia da arte ...... 273 Verifica(:iio da formula. Psicologia do verso. Lirica, epos. Herois e personagens. 0 drama. 0 camico e 0 tragico. 0 teatro. A pintura, 0 graftco, a escultura, a arquitetura.
11. Arte e vida ........................ · 303 Teoria do contagio. Sentido vital da arte. Sentido social da arte. Critica da arte. Arte e pedagogia. A arte do futuro. Comentarios
Notas ............................ ..... . Obras sobre Vigotski
Bibliografia
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Ate hoje ninguem definiu aquilo de que 0 corpo e capaz ... mas dizem que seria impossivel deduzir apenas das leis da Natureza, uma vez considerada exclusiva-mente como corp6rea, as causas das edifica<;oes arqui-tetonicas, da pintura e coisas afins que s6 a arte huma-na produz, e que 0 corpo humano nao conseguiria cons-truir nenhum templo se nao estivesse determinado e dirigido pela alma, mas eu ja mostrei que tais pessoas nao sabem de que e capaz 0 corpo e 0 que concluir do simples exame da sua natureza ...
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edifiio brasileira
Psicologia da arte chega as maos do publico brasileiro um ana depois do centemirio de nascimento do seu autor, ja bastante conhecido entre n6s, particularmente entre aqueles que trabalham nos campos da Lingiiistica, da educa9ao e psicologia da educa-9ao. A Editora Martins Fontes ja publicou dele Pensamento e lin-guagem, Aformar;iio social da mente (1984), Os metodos em psi-cologia (1995) e esta com Psicologia pedagogica e uma edi9ao integral e traduzida do original russo de Pensamento e linguagem no prelo. 0 estudo especifico que Vigotski dedicou a Hamlet e vinha em anexo no original russo saira em livro a parte com 0 titu-lo A tragedia de Hamlet, principe da Dinamarca.
Em Psicologia da arte, salta a vista a preocupa9ao sistemica que acompanha t~ a reflexao do a~ A arte aparece como urn fen6meno humano, que decorre da rela9ao_
-
direta ou mediata do~~~-lIomem com urn cosmo fisico, social e cultural, onde se
cons-troem e se multiplicam variedades de facetas e nuan9as que caraCf terizam 0 homem como integrante desse cosmo. Dai decorre uma questao central de. implica9ao interdisciplinar: a psicologia nao ode explicar 0 cODE2ort~ento humano ignorando a ~ao este-tica suscitada pela arte naquele que a frui. Essa questao diz res-p eitoas rela90es de r,eciprocidade entre 0 homem e 0 mundo e as
~e.illa90es que 0 homem faz do mundo.
Vi got ski enfoca a obra de arte como psic610go, mas se opoe ao psicoiogismo tradicional por considera-lo limitado e redutor,
XII Psic%gia da arte
incapaz de dar conta das amp las rela90es presentes na arte e da sua rela9ao com 0 publico. Nesse sentido, concorda com Theodor Lipps e admite que a ~N.t~ca~p~ojSl...§el. definida como disciplina pertencente ao campo da psicologia aplicada, mas acrescenta a tese
-marxista segundo a qual 0 enfoque sociologico da arte nao anula o enfoque estetico mas 0 admite como complemento. Trata-se de uma questao de extrema complexidade, porque:). arte_e o,socjal em nos" e, mesmo que 0 seu efeito se registre em urn individuo
a
Parte, isso ainda nao nos autoriza a afirmar que as raizes e aes-sencia da arte sejam individuais, assim como seria ingenue ima-ginar 0 social apenas como coletivo, como somatorio de pessoas.
Esse postulado multidisciplinar condiz com a concep9ao de Vigotski sobre 0 carater mediato da atividade psiquica e a origem dos processos psiquicos interiores na atividade inicialmente ex-terna e interpsiquica. Portanto, trata-se de uma atividade de fundo social na qual 0 homem se forma e interage com seus semelhan-tes e seu mund9 numa rela9ao intercomplementar de troca. A re-la9ao entre 0 homem e 0 mundo passa pela media9ao do discurso, pela forma9ao de ideias e pensamentos atraves dos quais 0 ho-mem apreende 0 mundo e atua sobre ele, recebe a palavra do mundo sobre si mesmo e sobre ele-homem e funda a sua propria palavra sobre esse mundo. Entende Vigotski qu~,c> 1?~sament<l.s.f!
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Trata-se de uma rela - ' ntre ensa~discurso,que 0 autor ve como questao centra a PSICO ogia, pois envolve urn processo latente ~ co~nicayao s?cial ep cuja ve!:.ba}iza9~0 da-_s~e . <?J?ro-cesso de transi9ao de urn senti do subjetivo, ainda nao verbalizado_[
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Como a sua visao de arte literaria passa pelo crivo da linguagem, sem cuja especifica9ao e impossivel entender 0 que tOflla literaria uma obra, 0 enfoque estetico da arte deve ter fundamento psicossocial, isto e, deve combinar as vivencias do ser humane em nivel indivi-dual com a recep9ao do produto estetico percebido como produto social e cultural.E
isso que 0 leva a firmar que "a arte e 0 social em nos".:11
Pre/acio
a
edi9iio brasileira XIIIPsicologia da arte e uma obra polemica. Da introdu9ao ao ultimo capitulo 0 autor polemiza com as correntes e autores mais importantes no campo da psicologia e da estetica.
Vigotski discute a arte como conhecimento e traz informa-90es de excepcional importancia para 0 lei tor brasileiro ao expor e analisar a teoria de Potiebnya, fundador de uma das mais imp or-tantes escolas da filologia e da critic a russas, e abordar 0 essencial da obra de Ovsianiko-Kulikovski, importante critico e pensador russo, principal discipulo de Potiebnya. Ao discutir a teoria da
fi-,. gUl2,~de..£Qtiebpyit§ sua escola, para quem a poesia e a prosa s~ acima de tudo urn modo de pensamento e con1i~ifuentQ;~Vi~ gotSK:i discorda dessa concep9ao, que considera redutora,
gualifi-cando-a de teona putamente intelectual que reduz a arte a mem rxercicio intelectual, enfatiza apenas as opera90es do ensamen-to e des reza tu 00 ais or considera-Io fenomeno secundario
"
.na psicologia da arte. Ao polemizar com Potie nya e sua escola, 'nlgOtski esta semprepreocupado com a especificidade do esteti-co, com 0 que justifica 0 qualificativo de artistico aplicado a urn produto ficcional.
Ao discutir os procedimentos de constru9ao do discurso lite-rario em "A arte como procedimento", 0 autor desenvolve uma discussao apaixonada de urn dos movimentos criticos mais co-nhecidos do seculo XX: 0 Formalismo Russo ou Escola Formal. Depois de expor com clareza meridiana os postulados basicos do Formalismo, enaltecendo sua contribui9ao no comb ate ao intelec-tualismo da escola de Potiebnya e Ovsianiko-Kulikovski, ,Y.igill:slci-aponta para 0 fato de que os formalistas, a 12retexto de co~eL
uma doutnna psicoI6g~~a bar~p.QlU!~da
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acabam de-fato renunciand?a
cont~~_~~a~ de qualg~Sl!J2~2!ogia 2ara~a constru-~ teona CIa arte. Resulta dal a tentativa de estudar a forma 7lrusllca COllo a1go independente das ideias e em090es que the in- Itegram a composi9ao e 0 material psicologico, 0 que invalida toda a importancia das leis do estranhamento descoberta pelos forma-listas. Estes acabam nao entendendo a importancia psicologica do material e caindo em urn sensualismo unilateral identico ao inte-lectualismo unilateral a que a incompreensao da forma levara os discipulos de Potiebnya. Para Vigotski, os formalistas nao conse-guiram entender a imensa importancia das suas proprias des
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XIV Psicoiogia da arte
duo --or entender ue a ex lica<;ao deve artir do grande circulo da vida SOCIa.
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Apesar das restri<;oes a aspectos da aplica<;ao do metodo psi-canalitico a analise de obras de arte, Vigotski nao se deixa levarpelo reducionismo e a simples animosidade que caracterizariam mais tarde 0 posicionamento da critica oficiosa sovi6iica em face
da psicanalise. Se ele rejeita os reducionismos que frequentemente dominam alguns enfoques psicanaliticos, por outro lade se iden-tifica com aspectos desse metodo, particularmente com alguns desenvolvidos por Freud. Em Psicologia pedagogica ha urn capi-tulo denominado "A educa<;ao estetica", no qual ha mais identida-de que divergencia entre Vigotski e Freud no tocante ao enfoque das artes e sua fun<;ao. Ali Vigotski defende a concep<;ao segundo a qual so ha duas saidas para as frustra<;oes da vida: a sublima<;ao ou a neurose. Do ponto de vista psicologico, a arte e um
mecanis-mo biologico permanente e indispensavel de supera<;ao das esti-mula<;oes (Freud diria "desejos") nao realizadas. As emo<;oes,
nao realizadas na vida, encontram vazao e expressao na comb ina-<;ao arbitraria dos elementos da realidade, antes de tudo na arte. A arte nao so da vazao e expressao a emo<;oes varias como sempre as resolve e liberta 0 psiquismo da sua influencia obscura. A
cria-<;ao artistica e uma necessidade profunda do nosso psiquismci em
termos de sublimafclO de algumas modalidades inferiores de
ener-Pre/acio d edifiio brasileira XV
gia. A cria<;ao artistica surge no momenta em que certa energia, nao acionada nem aplicada em urn objetivo imediato, continua nao realizada e migra para alem do limiar da consciencia, de onde retorna transformada em novas formas de atividade. E note-se que Vigotski faz essas considera<;oes em um capitulo dedicado a educa<;ao estetica das crian<;as! Psicologia pedagogica e Psicolo-gia da arte sao cria<;oes contemporaneas, arnbas escritas entre
1924 e 1926.
Se as considera<;oes esteticas acima arroladas soariam mais tarde como urn sacrilegio para a visao oficiosa de arte do
jdano-vismo, ha outra passagem no mesmo capitulo de Psicologia peda-gogica que, pela otica da estetica stalinista, justificaria a proibi-<;ao do livro. Aqui Vigotski afirma que a verdade da arte e a ver-dade da realiver-dade estao numa rela<;ao sumarnente complexa: a realidade sempre aparece tao modificada e transfigurada na arte que nao ha qualquer possibilidade de transferir 0 sentido dos
fenomenos da arte para os fenomenos da vida. Exatamente 0
opos-to do que pregava a estetica stalinista.
Os capitulos dedicados as formas de narrativa popular reves-tem-se de importancia excepcional para a teoria da arte popular e
sua rela<;ao com as outras formas de arte narrativa. Ao concentrar na fabula a sua analise, aplica urn metodo analitico claramente diacronico, que parte do mais simples para 0 rnais complexo, e a
fabula, a novela e a tragedia sao enfocadas como formas literarias interligadas e sobrepostas. Sua escolha da fabula como ponto de partida deve-se ao fato de que essa modalidade narrativa esteve sempre em contiguidade com a poesia, podendo-se perceber a concep<;ao geral de arte de urn estudioso pela sua mane ira de
fo-calizar a fabula. Por outr~ lado, seu mergulho prof undo nas teo-rias da fabula de Lessing e Potiebnya oferece ao lei tor e pesquisa-dor brasileiro urn valiosissimo material de consulta tanto pela abrangencia do enfoque da rela<;ao entre as formas primitivas de
arte e formas mais desenvolvidas quanta pelo ineditismo da
teo-ria de Potiebnya entre nos.
No capitulo VII, centrado na analise do conto de Ivan Bunin Leve alento, Vigotski se apresenta como urn autentico teorico da li-teratura. Aplicando de modo convincente e original as categorias centrais da narrativa desenvolvidas pelo Formalismo Russo, ele
XVI Psicologia da arte
cria um esquema de disposi9ao e composi9ao, urn modelo de ana-lise (aqui ele nos lembra 0 brilhante ensaio "Dialetica da malan-dragem", que Antonio Candido dedicou ao romance M emorias de um sargento de milicias) que permite acompanhar passo a passo
to do 0 movimento da narrativa pela estrutura da forma, estabele-cendo as fun90es de cada componente e cada momenta e as rela-90es de tensao entre eles, mostrando 0 dinamismo da forma como elemento fundamental na composi9ao da narrativa. A analise ba-seada nesse esquema de disposi9ao e composi9ao permitiu a Vi got ski perceber uma falacia propagada pela estetica durante
se-culos~ ~ontrario da decantada harmonia entre forma e con~u
do, da afirma9ao segundo a qual a forma ilustra, completa e acom-panha 0 con1:eudo, 0 que "lhe reservaria urn papel passiw, ele
~ forma Iuta com 0 conteugg..e 0 supera, e ~
contradi9ao dialetica entre conteudo e forma parece resumir-se 0 sentido psicol6 ico
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que ele chama de r ea9ao estetica. _Essa visao aa forma como elemen 0 mamico aproxima Vigotski de Bakhtin, que, em polemica com os formalistas em 1924, definiu a forma como elemento ativo a qual se opoe urn conteudo passi-yo. Cabe observar que os dois chegam a essa concep9ao pratica-mente semelhante a partir de uma reflexao sobre os procedimen-tos do Formalismo.A analise de Leve alento, alem de representar uma importan-tissima contribui9ao para a teoria da narrativa, reveste-se de imp or-tancia particular como uma teoria do conto e seus constituintes.
o
estudo sobre Hamlet, incluido neste livro como capitulo VIII, constitui a primeira tentativa de penetra9ao na obra de Sha-kespeare empreendida por Vigotski aos dezenove anos. Mais tarde ele retornara a Hamlet no estudo que sera publicado em livro por esta editora. 0 que impressiona na analise empreendida por um jo-vern de apenas dezenove anos e 0 seu amplo conhecimento de Sha-kespeare e da critica do dramaturgo ingles, alem de uma vi sao sutil que ele desenvolve da pe9a, como 0 mostra Vsievolod Ivanov em notas a esta edi9ao. Chama aten9ao, ainda, a refinada concep9ao do genero tragico e suas nuan9as em urn critico tao jovem.A discussao da arte como catarse, tema do capitulo IX, e su-mamente interessante pela originalidade com que 0 autor a des
en-volve, assumindo textualmente que sua concep9ao nao e
exata-~
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1
Prefacio
a
edir;iio brasileira XVIImente igual aquela consagrada por Arist6teles, embora considere que nenhum dos termos empregados depois da estagirita tern con-seguido grandes avan90s. Contudo entende que a descarga de ener-gia nervosa, essencia de todo sentimento, no processo da catarse realiza-se em sentido contrario ao habitual, e assim a arte se torna instrumento poderosissimo para suscitar importantes descargas de energia nervosa mais racionais ou uteis. E conclui que a catarse consiste em uma em09ao ou afeto que se desenvolve em dois senti-dos opostos e encontra sua destrui9ao em urn ponto culminante, numa especie de curto-circuito. Alem da teoria da catarse, Vigotski ainda desenvolve nesse capitulo uma original concep9ao do fantas-tico, que ele associa a expressao central da rea9ao emocional.
o
capitulo X fecha a discus sao em torno da psicologia da arte. E aqui 0 autor resume 0 resultado do seu estudo ao afirmar que a prevalencia daquela contradi9ao afetiva que ele chama de catarse constitui a parte central e determinante da rea9ao estetica. Alem de retomar a discus sao do seu conceito de catarse, Vigotski levanta questoes te6ricas fundamentais como a diferen9a entre romance e tragedia, os conceitos de her6i estatico e her6i dinami-co, 0 processo de transforma9ao da tragedia em drama. Desenvol-ve uma concep9ao do riso e sua fun9ao que muito 0 aproxima de Bakhtin, aprova com alguma res salva a concep9ao de humor e chiste em Freud e afirma que essa concep9ao corresponde perfei-tamente a forma de catarse por ele descoberta como fundamento da rea9ao estetica.Ao produzir 0 efeito que redunda na catarse e incorporar a esse fogo purificador as com090es mais intimas e vitalmente im-portantes da alma individual, a arte esta produzindo urn efeito social. Essa dialetica do individual e do social em arte leva-o a concluir que 0 sentimento representado na arte nao se torna social I
mas individual na medida em que a pessoa que frui a arte conver-te-se em individuo sem deixar de ser social.
Apesar de nao haver impedimento para sua publica9ao na epoca em que foi escrito, Psicologia da arte nao foi publicado em vida do autor, 0 que provavelmente se deve ao inacabamento de algumas reflexoes por ele desenvolvidas. 0 veto imposto a reedi-9ao de Psicologia pedagogica sugere que a Psicologia da arte es-taria reservado destino identico caso houvesse sido publicado,
XVIII Psicologia da arte
pois muitas das reflexoes ali desenvolvidas iriam fatalmente con-trariar a estetica oficial sovietica, principalmente a partir do jda-novismo. Hoje, 0 resgate da obra vigotskiana representa uma
con-tribui9ao essencial para 0 aprofundamento das gran des
conquis-tas do pensamento humano em campos como a psicologia, a pe-dagogia, a lingiiistica, a teo ria da literatura e a filosofia.
PAULO BEZERRA
USP-UFF
Prefacio*
Este livro e resultado de trabalhos pequenos e mais ou menos grandes no campo da arte e da psicologia. Tres estudos litenlrios
- sobre Krilov, Hamlet 1 e a composi9ao da novela - e varios
arti-gos e notas de revistas2
*
serviram de base as minhas analises. Nos capitulos que tratam da questao neste livro apresentamos apenas breves resumos, ensaios e sumarios desses trabalhos, porque e im-possivel uma analise completa de Hamlet em urn capitulo, ja que o assunto requer urn livro especifico. A busca da supera9ao dos limites precarios do subjetivismo determinouigualmente_os_d~
-""'fiiiOSao estudo das artes e da psicologia na Russia..durante~ses
... anos· lssa tendencia para 0 objetivismo, para
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conhecimentoclentlfico-natural, materialista e exato em ambos os campos, criou o presente livro.
Por urn lado, 0 estudo das artes come9a a carecer cada vez
mais de fundamenta90es psicol6gicas. Por outro, a psicologia, ao tentar explicar 0 comportamento em seu conjunto, tambem nao
pode deixar de propender para oscomplexos problemas da rea9ao f
estetica. Se incorporarmos aqui a mudan9a que ora experimentam ambas as ciencias, a crise de objetivismo que as envolve, isto ira determinar ate 0 fim a acuidade do nos so tema. De fato, 0 estudo
* 0 leitor encontrara neste livro do is tipos de nota. As notas aCOIppanha-das de asterisco sao do proprio Vigotski; as demais sao de Vyatcheslav Ivanov. (N. do T.)
'I
2 Psicoiogia da arte
tradicional das artes sempre se baseou, consciente ou inconscien-temente, em premissas psicologicas, mas a velha psicologia
popu-~ de satisfazer por do is motivos: primeiro, serVia amda para alimentar toda sorte de sub'etivismoem estetica, emboraas c orrentes 06jetivas necessitassem de premissas objetivas; segundo, desenvolvia-se uma nova psicologia, que reconstruia 0 fundamen-to de fundamen-todas as anti gas chamadas "9iencias ~ alma". 0 objetivo da nos sa pesquisa foi justamente rever a psicologja tradicional da arte e tentar indicar urn novo campo de pesquisa para a psicologia objetiva - levantar 0 problema, oferecer 0 metodo e 0 principio psicologico basico de explica<;ao, e so.
Ao optar pelo titulo Psic%gia da arte, 0 autor nao quis dizer que 0 livro apresenta urn sistema de questionamentos, urn circulo completo de quest6es e fatores. Nosso objetivo foi bern diferente: tivemos sempre em vista e aspiramos como fim nao a urn sistema mas a urn programa, nao a todo urn circulo de quest6es mas ao seu problema central.
Pelo exposto, deixamos de lado a discussao sobre 0 psicolo -gismo em estetica e os limites que separam a estetica do puro co -nhecimento das artes. Supomos com Lipps quej!,.~ica p-2£!~ §..¥T gefil}ida como disciplina da psicologia aplicaaa, entret~n.to e!TI nenhuma passagem colocamos essa questao como urn todo, con-tentando-nos com defender a legitimidade metodologica e de prin-cipio do enfoque psicologico da arte no mesmo nivel de todos os outros enfoques, com sugerir a sua importiincia essenciaP*, com procurar 0 seu lugar no sistema da ciencia marxista da arte. Aqui tivemos como fio condutor a famosa tese do marxismo segundo a
ual 0 enfoque sociologico da arte nao anula 0 estetico mas, ao
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diante dele as pOLtas e 0 pressup6e como,'segundo Pliekhanov, seu compLe~mentQ. 0 enfoque estetico da arte, uma vez que nao pretende romper com a sociologia marxista, deve fon;osamente ter fundamenta<;ao sociopsicologica.
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facil mostrar que aqueles criticos de arte, que separam com absolutajusteza 0 seu campo da estetica, tambem introduzem na elabora-<;ao dos conceitos e problemas basicos da arte axiomas psicologicos
acriticos, arbitrarios e inconsistentes. Endossamos 0 ponto de
vis-ta de Utitz, segundo 0 qual a arte vai alem dos limites da estetica e tern inclusive tra<;os basicamente distintos dos valores esteticos,
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4 Psicoiogia da arte
Contudo, analisando a fabula podemos descobrir a lei da psi colo-gia que the serve de base, 0 mecanismo pelo qual ela atua, e a isto chamamos psicologia da fabula. Na pratica, essa lei e esse meca-nismo nunca atuaram em parte alguma sob forma pura, mas se complexificaram em fun<;ao de toda uma serie de fen6menos e processos de cuja composi<;ao faziam parte; no entanto, estamos tao autorizados a excluir da a<;ao concreta da fabula a sua psico-logia quanta 0 psicologo que exclui a resposta pura, sensoria ou motora, da sele<;ao ou da diferencia<;ao, e a estuda como resposta impessoal.
Por ultimo, achamos que a essencia da questao e a seguinte: a psicologia teorica e a psicologia aplicada da arte devem revelar todos os mecanismos que movem a arte e, com a sociologia da arte, fornecer a base para todas as ciencias especificas da arte.
o
objetivo do presente trabalho e essencialmente sintetico.Miiller-Freienfels dizia, com muito acerto, que 0 psicologo da arte lembra 0 bi610go, que sabe fazer uma analise completa da mate-ria viva, dividi-Ia em seus componentes, mas e incapaz de recriar o todo com esses componentes e descobrir-Ihe as leis. Toda uma serie de trabalhos se dedica a esse tipo de analise sistematica da psicologia da arte, no entanto nao conhe<;o trabalho que tenha co-locado e resolvido objetivamente 0 problema da sintese psicologica da arte. Neste sentido, penso que a presente tentativa da urn novo passo e se atreve a lan<;ar algumas ideias novas, ainda nao sugeri-das por ninguem, no campo da discussao cientifica. Esse novo,
que 0 autor considera que the pertence no livro, necessita, eviden-temente, de verifica<;ao e critica, de passar pela prova do pens a-mento e dos fatos. E mesmo assim ele ja se afigura tao fidedigno e maduro ao autor, que este ousa anuncia-Io neste livro.
Este trabalho teve como tendencia geral aspirar
a
sobriedade cientifica em psicologia da arte, 0 campo mais especulativo e mis-ticamente vago da psicologia. Meu pensamento constituiu-se sob o signa das palavras de Espinosa7e, seguindo-as, procurou nao cair em perplexidade e compreender, sem rir nem chorar.
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problema psicolOgico da arte
"Estetica de cima "e "estetica de baixo ". A teoria marxista da arte e a psicologia_ Psicologia social e individual da arte. Psicologia subjetiva e objetiva da arte. 0 metodo objetivo-analitico e sua
apli-cQl;:iio. 1:::.
Se formos apontar 0 divisor de aguas que separa todas as
cor-rentes da estetica atual em duas grandes tendencias, teremos de indicar a psicologia. Os dois campos da estetica atual-0 psi
colo-gico e 0 nao-psicologico - abrangem quase tudo 0 que h:i de vivo
nessa ciencia. Fechner delimitou com muito acerto essas duas tendencias, chamando uma de "estetica de cima para baixo" e a outra de "estetica de baixo para cima".
Po de facilmente parecer que se trata nao so de dois campos
de uma unica ciencia, mas ate da cria9ao de duas disciplinas inde-
4
pendentes, cada uma com seu objeto especifico e seu metodo \. '"'" especifico de estudo. Enquanto para alguns a estetica ainda conti-~
nua sendo uma ciencia predominantemente especulativa, outros, ~como O. Kiilpe, tendem a afirmar que, "no presente momento, a es- ~ tetica passa por uma fase de transi9ao ... 0 metodo especulativo do
~
idealismo pos-kantiano foi quase inteiramente abandonado. Ja apesquisa empirica ... esta sob influencia da psicologia ..
~
,
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bemos a estetica como uma teo ria do comportamento estetico
~"'0
~le
dizer, do estado geral que abrange e penetra ~---to do 0 homem e tem a impressao estetica como seu ponto de par-ff
tida e centro ... A estetica deve ser considerada como psicologia ~ do razer estetico e da cria9ao artistIca . 98 .Vo e t sustenta a mesma opmIaO: "0 objeto estetico ... adqui- _ /
re 0 seu carMer estetico es ecifico
ap~,f{
asens
9ao e da fantasia do sujeito receptor." (162, S:--'-
-
8 Psicologia da arte Ultimamente, ate estudiosos como Viessielovski (26, p. 222) vern tendendo para a psicologia. E as palavras de Volkelt tradu-zem com bastante fidelidade urn pensamento geral: "A psicologia deve ser tomada como fundamento da estetica." (117, p. 192) "No presente momento, a meta mats Imedlata, mais premente da este-tica nao sao, evidentemente, as construyoes metafisicas, mas sim a analise psicologica minuciosa e sutil da arte." (117, p. 208)
Opiniao oposta tern sido sustentada-po; todas as correntes antipsicologicas da filosofia alema, tao fortes no ultimo decenio,
das quais G. Chpet fez urn apanhado geral em seu artigo (cf. 136).
A discussao entre os partidarios de ambos os pontos de vista estri-bou-se principalmente em argumentos negativos. Cada ideia en-controu sua defesa na fraqueza da ideia oposta, e a esterilidade basica de uma e da outra corrente prolongou a discussao e adiou sua soluyao pratica.
A
estetica de cima hauriu as suas leis e demonsB;:;sQ~ da ___ ..J 1_~_"...1 _ ___ " ___ ~ _ ____ "-_1 .... ___ _______ "'- _____ ... _Metodologia do problema 9
16gicas da teoria da arte, a que mais avanya e apresenta maior coe-rencia e a ~or~ateria!illi!.o historico, que procura construir
..!!!!1a analise cientifica da art
tLa base dQsJll.esmQ~ipiosapli-cados ao estudo de todas as formas e fen6menos da vida sociaP
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.Desse ponto de vista, costuma-se enfocar a arte como uma das for-mas de ideologia, forma essa que, a semelhanya de todas as
ou-~
tras, ~~como sUl2
erestrutura~
base da§..r.el5 0es econ<lmlcase de produ9ao. E, a medida que a estetica de baixo foi sempre uma
...f \ e§tetica empirica e positiva, e perfeitamente compreensivel que a
~
teoria marxista da arte revele nitidas tendencias a reduzir a psico-1 i
logia as questoes de estetica teorica. Para Lunatcharski, a estetica ~ OS:. e simplesmente urn dos ramos da psicologia. "Seria, entretanto,i
7; superficial afirmar que a arte nao dispoe de lei propria dedesen-~ -:' volvimento. Urn fluxo d'agua e determinado pelo seu leito e suas
~
i
margens: a agua ora se represa, ora se arrasta numa correnteza calma, ora se agita e espuma no leito rochoso, ora cai em casca-tas, guina para a direita ou para a esquerda, chegando ate a retro-ceder bruscamente. Contudo, por mais que a correnteza de urn'I
regato seja determinada pela ferrea necessidade das condiyoes ex-ternas, ainda assim a sua essencia e determinada pelas leis da hidrodinamica, leis que nao podemos apreender partindo das con-diyoes externas do fluxo mas tao-somente do conhecimento da propria agua." (70, pp. 123-124)
Para essa teoria, 0 divisor de aguas, que antes separava a t estetica de cima da estetica de baixo, passa hoje por uma linha inteiramente diversa: agora separa a sociolggia da arte da ps icolo-gia da arte, indicando a cada urn desses campos 0 seu ponto de vista e'Specifico sobre 0 mesmo objeto de estudo.
Pliekhariov delimita, com absoluta clareza, os dois pontos de
C:
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vista em seus estudOSde arte, indicando que os mecanismospsi-, cologicos:-que determinam 0 comportamento estetico do homem, sao sempre determinados em seu funcionamento por causas de
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(j Psic%gia da arte ~$yuc,.-pcO'
ordem sociol6gica. Dai ser absolutamente claro que 0 estudQ..do
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funcionamento desses mecanismos e 0 qye constitui 0 objeto da
-psi'Cologia, enquanto 0 es1U('f'O({O
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natureza d~J:a.~ imp~.ssoes'xp.2J;que elti ~~~a de dife~
Pes pontos de vIsta. - ..
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* A"'"a:9ao-das leis gerais da natureza psiquica do homem nao cessa,e
claro, em nenhuma dessas epocas. Contudo, uma vez que em diferentes epocas "chega as cabe<;as humanas urn material inteiramente diverso, nao surpreende que os resultados da sua ela-bora<;ao nao sejam nada identicos" (87, p. 56). "Em certo sentido, as leis psicol6gicas podem servir de chave para explicar a hist6ria da ideologia em geral e a hist6ria da arte em particular. Na psico-logia dos homens do seculo XVII, 0 principio da antitese desem-penhou 0 mesmo papel que desempenha na psicologia dos nossos
contemporaneos. Por que, entao, os nossos gostos esteticos sao 0
oposto dos gostos dos homens do seculo XVII? Porque nos en-contramos em situa<;ao inteiramente diversa. Logo, chegamos aja conhecida conclusao: a natureza psicol6gica do homem faz com que ele possa ter conceitos esteticos e com que 0 principio da
an-titese de Darwin (a 'contradir;:ao' de Hegel) exer<;a urn papel de extrema importancia, ate hoje insuficientemente avaliado, no me-canismo desses conceitos. Nao obstante, depende das condi<;oes saber que motivos levam determinado homem social a ter justa-mente esses e nao outros gostos, a go star justamente desses e nao de outros objetos." (87, p. 57)
Ninguem, como Pliekhanov, explicou com tanta clareza a necessidade te6rica e metodol6gica do estudo da psicologia para uma teoria marxista da arte. Segundo ele, "todas as ideologias tern uma raiz comum: a psicologia de dada epoca" (89, p. 76).
Tomando como exemplo V. Hugo, Berlioz e Delacroix, ele mostra como 0 romantismo psicol6gico da epoca gerou em tres
---.\
.
..
Metodologia do problema v · " ~-/,. , - "~'F."': 11
diferentes campos - a pintura, a poesia e a musica - tres diferen
-tes formas de romantismo ideol6gico (89, pp. 76-78). Na f~, Loposta por Pliekhanov 12.ara §xJ~.rimir ~ !S!la<;.ao_entre base_e.
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@ strutura d~rimin'!IDos c~m~entos subseqiie~s:
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1) 0 estado das for<;as produtivas; ..J' ~~cF
2) as rela<;oes economicas; ~ 9
'..f:.
V<.; (/
<.3) 0 sistema politico-social; cf' Q;~-:Y:;C/'t"
4) 0 psiquismo do homem social; '>(v (
5) as diferentes ideologias, que refletem em si as proprieda-des proprieda-desse psiquismo (89, p. 75).
Assim,
2
_psiquismo do homem social e visto como subsolocomum de todas as ideologias de dada epoca, inclusive da arte. Com
I sto se eSta reconhecendo que a -a~, no maisllProximado sentido,_e
detS<.rminada.e condicionada pelo psiquismQdo homem social.
.. Deste modo, em vez da antiga h;stilidade encontramos urn esbo<;o de reconcilia<;ao e concordancia entre as tendencias psico-16gica e antipsicol6gica na estetica, uma delimita9aO, entre elas,
do campo de estudo com base na sociologia marxista. A tenden-cia que menos se observa nesse sistema sociol6gico - na filosofia do materialismo hist6rico - e, evidentemente, a de explicar ~j.a 0
qu~Jor a Qartit do jlsiqu}smQl!1gl1anQ.fQ..mo <::ausa fin~lMas, em 19ual medi
F
esse sis~ti;a nao tende a negar ou ignorar esse psi-quismo e a importancia de-estuda-Io como mecanismo mediador,atraves do qual as rel~ecOnomicaseo SIStema po-Iitico-social criam essa ou aquela ideologia. Ao estudar formas de arte com 0 minimo de complexidade, essa teoria insiste, positivamente, na .
necessidade de estudar 0 psiquismo, uma vez que a distancia
en-tre as· rela<;oes economicas e a forma ideol6gica cresce cada vez mais e a arte ja nao pode ser explicada diretamente a partir das rela<;oes economicas. Isto Pliekhanov tern em vista quando com- I para a dan<;a das mulheres australianas e 0 minueto do seculo XVIII. "Para compreender a dan<;a da nativa australiana, basta saber que papel exerce na vida da tribo a colheita de raizes s ilves-tres pelas mulheres. E para compreender, digamos, 0 minueto,
nao basta, absolutamente, conhecer a economia da Fran9a do se-culo XVIII. Aqui estamos diante da dan<;a, que tra'duz a psicolo-gia de uma classe nao produtora ... Logo, 0 'fator' economico cede,
12 Psicologia da arte
que 0 proprio surgimento de classes nao produtoras na sociedade
e
produto do desenvolvimento economico desta." (89, p. 65)Assim, 0 enfoque marxista da arte, sobretudo nas suas for-mas mais complexas, incorpora necessariamente 0 estudo da a9ao psicofisica da obra de arte4*.
o
objeto de estudo sociologico pode ser ou a ideologia em si, ou a sua independencia em face de formas divers as de desenvol-vimento social; contudo, nunca 0 estudo sociologico em si, sem 0 complemento do estudo psicologico, estara em condi9ao de reve-lar a natureza imediata da ideologia:. 0 psiquismo do homem social. Para estabelecer os limites metodologicos entre os dois pontos de vista, e de suma importancia e essencial elucidar a dife-ren9a que distingue a psicologia da ideologia.Desse ponto de vista toma-se inteiramente compreensivel 0 papel especifico que cabe
a
arte como forma ideologica absoluta-mente peculiar, ligada a um campo total absoluta-mente singular do psi-quismo humano. E se quisermos elucidar precisamente essa sin-gularidade da arte, aquilo que a distingue com seus efeitos dentre todas as outras formas ideologicas, necessitaremos inevitavel-mente da analise psicologica. Tudo consiste em que a arte siste-lJlatiza um campo inteiramente especifico do psiquismodo ho -mem social - precisamente 0 campo do seu sentimento. I;:,embo-ra todos os campos do psiquismo tenham como subjacentes as
mesmas causas que os geraram, operando, porem, atraves de di-versos Verhaltensweisen* psiquicos, acabam dando vida a diver-sas formas ideologicas.
Assim, a antiga hostilidade e substituida pela alian9a de duas tendencias na estetica, e cada uma so ganha sentido em um
siste-ma filos6fico geral. Se a reforma da estetica de cima para baixo e
mais ou menos clara em seus contomos gerais e esta esb09ada em
toda uma serie de trabalhos, em todo caso em um grau que permi-te a continua elabora9ao dessas questoes no espirito do materia-lismo historico, ja no campo contiguo - no estudo psicologico da arte - ocorre justamente 0 contrario. Vem surgindo toda uma serie
de complica90es e problemas antes desconhecidos da antiga
meto-* Em alemiio, no original russo. (N. do T.)
"
~
13
Metodologia do problema ~
dologia de toda a estetica psicologica. E, dentre essas novas com-plica90es, a mais substantiva e 0 problema da..deJimitasao da psi: ~gia social e da individual ~!!1d;aas questoes da arte. E de
absoluta evidencia que 0 antigo ponto de vista, que nao admitia . . ~ duvidas quanta
a
delimita9ao dessas duas oticas psicologicas, Lhoje deve ser objeto de uma revisao fundamentada. Penso que a concep9ao corriqueira do objeto e do material da psicologia so-cial revela-se falsa na propria raiz ao passar por uma verifica9ao de um novo ponto de vista. De fato, 0 ponto de vista da psicologia social ou psicologia dos povos, como a entendia Wundt, adotou como objeto de estudo a lingua, os mitos, os costumes, a arte, os sistemas religiosos, as normas juridicas e eticas. Fica absoluta-mente claro que, do ponto de vista do que acabamos de expor, nada mais disso e psicologia: trata-se de coagulos de ideologia, de cristais. Ja a meta da psicologia consiste em estudar a propria argamassa, 0 pro rio . si9.ll.ismo~o~al e na2..a ideol£gia. A
lin--;;gttft;:;;ps_co til es ,e-o"S ffiifo~ sa9 todos res~raon:chr:!tivuraQ~ £.§iguismo so~L<t. nao 0 pmcesso dessaatiyidad~. Por isso, quan-do a psicologia social trata desse-s objetos, slilistitui a psicologia pela ideologia.
E
evidente que a premissa fundamental da antigapsicologi~ soci~l e da ressurgente reflexo~~g~o.trtiva, segun~o a
qual a pSIcologIa do homem parfttwar nao servma para elucIdar
a psicologia social, acaba abalada pelas novas hipoteses metod~
logicas.
0
_BiekhtleJiey_afirma: "e evidente que a 2.sicologia ~~i ~rticulares_nao serve para elucidar os !!loyimentos s.ociais .. '::
(18, p. 14). Esse mesmo ponto de vista e sustentado por psicolo-. _gos socials ~l2-11cDougaIUe Bon, F~~ eOUtros, Rara quem
~
gs
tqtii~m
<U2.
~'l.
L!_
~~
s.:cur.$a~io: q~e s~e
.d?individua~.
,Neste caso, supoe-se queexIsfe urn pSIqmsmo mdIvIdual especI-fico, e depois, ja como produto da intera9ao dessas psicologias individuais, surge uma psicologia coletiva, comum a todos esses in-dividuos. Ai a psicologia social surge como psicologia de um indi-viduo coletivo, do mesmo modo que a multidao e formada de individuos particulares, embora tenha a sua psicologia
suprapes-soal. Assim a psicologia social nao marxista entende 0 social de modo grosseiramente empirico, necessariamente como multidao, coletivo, rela9ao com outros individuos. A sociedade e ai
14 Psicologia da arte
da como reuniao de pessoas e condi9ao suplementar da atividade de urn individuo. Esses psicologos nao admitem a ideia de que, no movimento mais intimo e pessoal do pensamento, do sentimento, etc., 0 psiquismo de urn individuo particular seja efetivamente
so-cial e soso-cialmente condicionado. Nao e nada dificil mostrar que 0
psiquismo de um individuo particular e justamente 0 que
consti-tui 0 objeto da psicologia social.
E
inteiramente falsa a opiniao deG. Tchelpanov, seguida freqiientemente por outros, segundo a qual a psicologia marxista, em especial, e uma psicologia social, que estuda a genese das formas ideologicas pelo metodo especifi-camente marxista, metodo que consiste em estudar a origem das
referidas formas em fun9ao do estudo da economia social;
segun-do tal opiniao, a psicologia empirica e experimental nao pode
tor-nar-se marxista, como nao 0 podem a mineralogia, a fisica, a
qui-mica, etc. Tchelpanov se apoia no oitavo capitulo do Questoes
fun-damentais do marxismo, de Pliekhanov, em que 0 autor fala com
absoluta clareza da origem da ideologia.
E
antes verdadeirapreci-samente a ideia oposta, ou seja, a ideia segundo a qual a psicolo-gia individual (respectivamente a empirica e a experimental) so
pode tornar-se marxista. De fato, uma vez que negamos a existen
-cia da alma popular, do espirito PoPular, etc., como podemos di
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psicologiad
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'pode tornar-se marxista, isto e, social, como nao 0 podem a mineralo-_ gia,
a
quimica, etc., implica nao entender a afirma9ao hasica de Marx de que "0 homem; no mais lato sentido, e urnz~,nao so urn animal a quem e intrinseca a comunici9ao mas um ani-mal que so em sociedade pode isolar-se" (1, p. ) 70). Considerar 0
psiquismo do homem particular, isto e, 0 objeto da psicologia
experimental e empirica, tao extra-social quanto 0 objeto da
mineralogia, significa estar em posi9aO diametralmente oposta ao
marxismo. Isso ja sem dizer que a fisica, a quimica e a
mineralo-* Animal politico (Arist6teles, Politica, v. I, cap. I.).
Metodologia do problema _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ __ --'-_ _ _ _
gia podem, evidentemente, ser marxistas e antimarxistas, se por ciencia nao entendermos mera rela9ao de fatos e cataIogos de
de-pendencias e sim urn campo mais volumosamente sistema~
de conhecimento de toda urna parte do mundo.
Resta urna unica questao: /a genese das formas ideologicas.
Seria 0 estudo da dependencia dessas formas em face da econo-mia social 0 autentico objeto da psicologia social? De maneira
nenhurna, penso eu. Esta e uma questao geral de cada ciencia
par-ticular, como os ramos da sociologia gera!. A historia das religioes
e do direito e a historia da arte e da ciencia resolvem sempre essa
questao para 0 seu proprio campo.
Mas nao so a partir de considera90es teoricas se esclarece a falsi dade do ponto de vista anterior, pois esta se manifesta de forma bem mais clara atraves da experiencia pratica da propria psicologia social. Ao estabelecer a origem dos produtos da arte
social, Wundt acabou sendo for9ado a recorrer
a
obra de umindi-viduo (163, p. 593). Ele diz que outroindiindi-viduo pode reconhec,e-Ia n~la expressao adequada de suas proprias representa90es e emo-.
90es, e por isto uma multiplicidade de individuos diversos pode serjgllrume~ criadora de uma so~represen.ta&:ao. Em critica a
"I""" Wundt, Biekhtieriev tem toda
raz
~
o
ao mostrar que, "neste caso,e evidente que nao pode haver psicologia social, uma vez que para ela nao se coloca nenhuma meta nova alem daquelas que
inte-gram 0 campo da psicologia dos individuos particulares" (18,
p. 15). De fato, 0 antigo ponto de vista, segundo 0 qual existiria
uma diferen9a de principio entre os processos e os produtos da cria9ao popular e individual, parece hoje abandonado por unani-midade. Hoje ninguem afirmaria que a bilina* russa, registrada a partir das palavras de um pescador de Arkhanguelsk, e urn poema
de Puchkin, cuidadosamente corrigido por ele nos manuscritos, ,
sao produtos de diferentes processos de cria9ao. Os fatos mostram
justamente 0 contrario: 0 estudo preciso estabelece que ai a
dife-ren9a e meramente quantitativa; por um lado, se 0 narrador da
bi-!ina nao a transmite exatamente como a recebeu do antecessor e
faz nela algumas mudan9as, cortes, acrescimos, altera9ao na ordem
)::
16 Psicologia da arte
das palavras e das partes, ele ja e 0 autor de tal variante e usa os
esquemas prontos e os lugares-comuns da poesia popular; e
abso-lutamente falsa a concep9ao segundo a qual a poesia popular surge sem artificios e e criada por to do 0 povo e nao por
profissio-nais - narradores, cantores, fabuladores e outros profissionais da
cria9ao artistica -, donos da tecnica do seu oficio, rica e
profun-damente especializada, da qual fazem uso exatamente como os
escritores das epocas mais tardias. Por outro lado, 0 escritor que _
fixa 0 produto escrito da~ ~ao tamb~o e, absolutamente,
o criador individual da sua obra. Puchkin nao e, de modo algum,
0-
autor li1cf1Vidual do seu poema. Como qualquer escritor, naoinventou sozinho os modos de escrever em versos, de rimar, de construir 0 enredo de deterrninada forma, etc., e, como narrador da bilina, foi apenas 0 divulgador de uma imensa heran9a da
tra-di9ao literaria, e narrador dependente, em imenso grau, da
evolu-9ao da lingua, aa tecnica ao verso, dos enredos tradicionais, dos
temas, das imagens, dos procedimentos, das composi90es, etc. Se quisessemos calcular 0 que, em cad a obra de arte literaria, foi criado pelo pr6prio autor e 0 que ele recebeu ja pronto da
tra-di9ao literaria, observariamos com muita frequencia, quase
sem-pre, que deveriamos atribuir
a
parte da cria9ao pessoal do autorapenas a escolha desses ou daqueles elementos, a sua combina-9ao, a variacombina-9ao, em certos limites, dos lugares-comuns, a trans
fe-rencia de uns elementos da tradi9ao para outros sistemas5, etc.
Noutros termos, tanto no fabulador* de Arkhanguelsk quanto em
Puchkin sempre podemos encontrar a presen9a de ambos os
mo-mentos - da autoria individual e da tradi9ao literaria. A diferen9a
esta apenas na correla9ao quantitativa desses dois momentos. Em
Puchkin projeta-se 0 momenta da autoria individual, no fabulador,
o momenta da tradi9ao literaria. Mas os dois lembram, segundo
feliz compara9ao de Sillverswan, urn nadador em urn rio,
arrasta-do para urn lado pela corrente. 0 caminho do nadador, como a
obra do escritor, sera sempre a resultante de duas for9as - dos
esfor90s pessoais do narrador e da for9a deslocadora da corrente./
* 0 termo "fabulador", do russo skazitiel,
e
aqui empregado no sentido denarrador de bilinas, can90es e baladas medievais, em suma, de continuador da
tradi9iio oral. (N. do T.)
Metodologia do problema 17
Temos todos os fundamentos para afirmar que, do ponto de
---
~--vista psicol6gico, nao M diferen9a de principio entre os J2[ocessos
...---
-
-de cria9aopopular e) ndividual. E, sendo as~, :tIS.1l_d teve toda
razao ao afirmar "que a psicologia individual, desde 0 inicio, e ao
mesmo tempo uma psicologia social" (122, p. 3). Por isso a psi co-
'--logia intermental (interpsico'--logia) de Gabriel Tarde, como a psi-cologia social de outros autores, deve adquirir significado inteira-mente diverso.
A exemplo de Sighele, De-Ia-Grasseri, Rossi e outros, incli-no-me a pensar que se deve distinguir psicologia social de psico-logia coletiva, s6 que nao me inclino a reconhecer como tra90 distintivo de ambas 0 que esses autores apresentam, mas outro tra90 bern diferente. Foi justamente por ter a distin9ao se baseado no grau de organiza9ao do grupo estudado que essa opiniao nao foi aceita por todos na psicologia social.
o
tra90 de distin9ao se delineia por si mesmo se levamos emconta que 0 objeto da psicologia social vem a ser precisamente 0
psiquismo do individuo particular.
E
absolutamente claro que, neste caso, 0 objeto da antiga psicologia individual coincide com a psicologia diferencial, cuja meta e estudar as diferen9asindivi-duais em individuos particulares. Tambem coincide inteiramente
com isto 0 conceito de reflexologia geral diferenciada da
reflexo-logia coletiva em Biekhtieriev. "Neste sentido, existe certa
corre-la9ao entre a reflexologia do individuo particular e a reflexologia
coletiva, uma vez que a prime ira procura elucidar as
particulari-dades do individuo particular, encontrar a diferen9a entre 0 modo individual de ser de individuos particulares e indicar 0 fundamento reflexol6gico de tais diferen9as, ao pas so que a reflexologia
cole-tiva, ao estudar as manifesta90es coletivas da atividade correlata,
visa, propriamente, a elucidar como, atraves da intera9ao de
indi-viduos particulares nos grupos sociais e da atenua9ao das suas
diferen9as individuais, obtem-se os produtos sociais da atividade correlata de tais individuos." (18, p. 28)
Dessas considera90es fica absolutamente claro que se trata precisamente da psicologia diferencial na acep9ao precisa do
terrno. Neste caso, 0 que vern a ser 0 objeto da psicologia coletiva
no sentido pr6prio da palavra? Podemos mostra-lo atraves do mais
simples raciocinio. Tudo em n6s e social, mas isto nao quer dizer,
18 Psicologia da arte de modo algum, que as propriedades do psiquismo do individuo particular sejam, em sua totalidade absoluta, inerentes a todos os demais integrantes de dado grupo. So certa parte da psicologia in-dividual pode considerar-se patrimonio de determinado grupo, e e essa parte da psicologia individual, nas condic;oes de sua manifes-tac;ao coletiva, que e sempre estudada pela psicologia coletiva quando esta estuda a psicologia do exercito, da igreja, etc.
Assim, em vez de distinguir psicologia social de psi~
individual, deve-se distingllir.-I2Sicologia social ~psicologia col&:
EVa. Arustmc;ao entre psicologia social e individual em estetica
~p
arece
da mesma forma que a distinc;ao entre esteticanorma-~
desc
ri
tiva,
porque, Como 0 mostrou com absoluta razao Miins-_terberg, a estetica historica estava ligaaa-apsicologia social, e a
~
lca
normafiVa:a
psicologiai~ividual
(Cf. 156).--- Bern m is im ortante e a distinc;ao entre sicolo ia subjetiva 3--12S,!,C019glg obiEtiva _ a arte~ 0 trac;o distintivo do metodo
intros-pectivo aplicado a,o estudo das emoc;oes esteticas revela-se com total evidencia em certas particularidades dessas emoc;oes. Por sua propria natureza, a emoyao estetica permanece incompreellSiYe1-e
~
toem
sua essencia etranscor~i
a.-
Nunca
sabe-,ElQs nem e~em?s pO.r .9ue essa ou aq~e1a obra foi .do nosso
a~Tudo 0 que Imagmamos para exphcar 0 seu efelto vern a ser urn artifici tardio, uma racionalizac;ao ostensiva de processos inconscientes A ro ria emo ao continua urn eni rna ara nos A arte consiste Justamente em esconder a arte, como diz urn prov r-bio frances. Por isso a psicologia tentou chegar a uma soluc;ao ex-perimental dos seus problemas, mas todos os metodos da estetica experimental- seja na forma aplicada por Fechner (0 metoda da
~
escolha, orientac;ao e aplicac;ao), seja na forma como foram apro
-vados por Kiilpe/( 0 metodo da escolha, da mudanc;a gradual e da
""'"
variac;ao do tempo
H
Cf. 148) - foram, no fundo, imprestaveis para romper 0 circulo das avaliac;oes esteticas mi;lis elementares e simples.-Resumindo os resultados dessa metodologia, Frobes chega a conclusoes muito lamentaveis (143, S. 330). Hamann e Croce a cri
-ticaram severamente, e Croce a qualificou textualmente de antro
-pologia estetica (cf. 30; 62).
Urn pouco acima de tais concepc;oes esta 0 enfoque reflexo-logico ingenuo do estudo da arte, que estuda a personalidade do
Metodologia do problema 19
artista atraves de testes da seguinte ordem: "Qual seria sua atitu-de se a pessoa que voce ama 0 traisse?" (19, p. 35) Se mesmo nes-te caso toma-se 0 pulso e mede-se a respirac;ao, ou sugere-se ao artista escrever sobre primavera, verao, outono, inverno, ainda assim permanecemos nos limites de uma pesquisa ingenua e ca-mica, s~PQiO-e impotente ao extremo.
-•
=--
CZ.erropri~c
~
a
esteticae~~erimental est~ n~
fa:o de ela <::J come9aipe1o-frm, .pelo prazer estetlco e pela avahac;ao,19noran-.l do 0 proprio processo e esquecendo que 0 prazer e a avaliac;ao
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podem ser momentos amiude fortuitos, secundarios e ate mesmo ~ suplementares do comportamento estetico. 0 segundo erro dessa~ estetica-""manifesta-se na incapacidade de encontrar 0 especifico
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que separa a emoc;ao est6tica da em09ao Gomum. No fundo, essa '" ) estetica esta condenada a permanecer sempre fora do limiar daes-~
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tetica, c,aso sugira para avaliac;ao as mais simples combinac;oes de1
\) cores, sons, linhas, etc., perdendo de vista que esses momentos nao caracterizam, de modo algum, a perce ao estetica como tal.
Por ultimo, a terceira e rincipal falh daquela estetica - a falsa premissa de que a emoQao estetica complexa surgiria como
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enos
y~
res
.-£
steticos
particulares. Essesestet
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supoem que a beleza da obra de arquitetura ou de uma sil}fonia musical pode ser algum dia por nos atingida como expressao su-maria de percepc;oes particulares, consonancias harmoniosas, acor
-des, justa proporc;ao, et£J>or isso e absolutamente claro que, para a antiga estetica, 0 objetivo e 0 subjetivo eram sinonimos de este-tica nao-psicoI6gic_a,_Pill urn lado, e de estetica psicologica, .por
-outro (CC'lI). 0 12roprio_co.Dce!to_~tetica objetivamente
psi-cologi~!!.m9_combinac;ao,absurd<Lejnternamente contradito-ria de conceitos e palavras.
-. A crise por ue ora passa a psicologia no mundo inteiro divi-f
diu, grosso modo, todos os mllCo ogo~s camE,9s. De urn ~
temos urn
~
logos
que se recol . m' antes ao subjetivismo Di t eye outros). Trata-se de uma psi-cologla que ten e mtldamente para 0 bergsonismo. De outro lado,nos mais diversos paises, da Amerreaa Es;;Uha:-vemos as mais variadas tentativas de criac;aode uma psicologia obietiva. 0 beha-viorismo americano, apsicologia da Gestalt alema, a reflexolo i e a psico ogla marxlsta sao to as tenta Ivas orientadas pela
ten-/
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20 Psicologia da arte
dencia, geral"'para 0 objetivismo que ~e verifica na psicologia atual. E evidente que, ao lado da revisao radical de toda a
metodo-'rogla da antiga estetica, essa tendencia para 0 objetivismo abrange tambem a psicologia estetica. Assim, essa psicologia tern como problema maior criar urn metoda objetivo e urn sistema de psice-logia da arte. Tornar-se objetivo e auestao de vida ou morte para
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---=--:=----odo sse cam 0 do conhecimento. Para a15Oroar a soluyao desse problema, e necessario defimr com mais precisao em que consis-te a psicologia da arconsis-te e so entao passar ao exame dos seus metodos.
E
facilimo mostrar que qualquer estudo da arte e sempre e necessariamente foryado a lanyar mao desses ou daqueles dados e premissas psicologicas. Na ausencia de algurna ja consumada teo-ria psicologica da arte, tais estudos usam a psicologia vulgar do pequeno-burgues e das observayoes domesticas. Com exemplos e mais facil mostrar como livros serios pelos fins e pela execuyao cometem freqiientemente erros imperdoaveis quando comeyam a apelar para a psicologia do comum. Entre tais erros esta a carac-terizayao psicologica da medida do verso. Em livro recem-publi-cado de Grigoriev esta escrito que, com 0 auxilio da curva do rit-mo que Andriei Bieli ins ere para determinados versos, pode-se esclarecer a sinceridade da emoyao do poeta.E
ele mesmo que faz a seguinte descriyao psicologica do coreu: "Foi observado que o coreu ... serve para exprimir disposiyoes de animo, danya('Nu-yens correm, nuvens se emoscam'). Se ai algum poeta aproveita 0 coreu para exprimir algum estado de espirito elegiaco, fica claro que esse estado elegiaco nao e sincero, e afetado, e a propria ten-tativa de usar 0 coreu para a elegia e tao absurda quanto, segundo comparayao jocosa do poeta I. Rukavichnikov, e absurdo esculpir urn negro de marmore branco." (41, p. 38)
Basta lembrar 0 poema de Puchkin mencionado pelo autor ou ao menos urn verso puchkiniano - "rasgando-me 0 corayao com urn ganido queixoso ou urn bramido" - para nos convencermos de que aqui nao ha nem vestigio daquela "disposiyao de animo e danya" que 0 autor atribui ao coreu. Ao contrario, ha uma tentati-va mais que evidente de usar 0 coreu em urn poema lirico sobre urn sentimento angustiante e desesperador. Tal tentativa 0 nosso au-tor qualifica de absurda, como e absurdo esculpir urn negro de marmore branco. Contudo, seria mau escultor aquele que se
me-Metodologia do problema 21
tesse a pintar de negro uma estatua se ela tivesse de representar urn negro, como e precaria a psicologia que, a esmo, contrariando as evidencias, co10ca 0 coreu na categoria das disposiyoes de ani-mo e danya.
Em escultura urn negro pode ser branco, como na lirica urn sentimento sombrio pode ser expresso pelo coreu. Mas e inteira-mente verdadeiro que ambos os fatos precisam de uma explicayao especial, e so a psicologia da arte pode da-Ia.
Em pandant* cabe citar outra caracterizayao analoga do
me-tro, feita pelo professor Iermakov: "No poema 'Caminho no In-verno' ... 0 poeta usa a medida triste e iambica em urna obra de conteudo elevado e cria uma desarmonia interior, uma nostalgia opressiva ... " (49, p. 190) Neste caso a teoria psicologica do autor pode ser rejeitada pela simples referencia factual de que 0 poema "Caminho no Inverno" foi composto
a
base de urn coreu tetramico puro e nao em "medida iambica triste". Assim, os psicologos que tentam interpretar a tristeza de Puchkin a partir do seu iambico e o estado de espirito animado a partir do seu coreu equivocam-se com esses iambicos e coreus e nao levam em conta 0 fato ha mui-to estabelecido pela ciencia e formulado por Gershenzon, segun-do 0 qual, "para Puchkin, a medida segun-do verso parece indiferente; pela mesma medida ele descreve a separayao da mulher amada (,Para as margens da patria distante') e a caya do gato ao rato (em'0 Conde Nulin'), 0 encontro de urn anjo com 0 demonio e urn tentilhao preso ... " (34, p. 17).
Sem urn estudo sicologico especial nunca vamos entender que eis regem os sentimentos numa obra e arte, e sempre nos
'" arriscaretTiOSacOmeter erros crassos. Alem dlsso, e notavel que
os estudos sociologicos da arte nao estejam em condiyao de expli-car integralmente 0 proprio mecanismo de ayao da obra de artt:f.
Aqui muita coisa e explicada pe10 "principio da antitese" que, seguindo Darwin, Pliekhanov incorpora para explicar muitos fenomenos em arte (87, pp. 37-59). Tudo isso diz da colossal com-plexidade das influencias sofridas pela arte~ que de modo algum podem ser reduzidas a uma forma simples e univoca de reflexo.