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Poul Anderson O Avatar 1

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Academic year: 2021

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Contra capa:

Num passado que se perdia na bruma dos tempos, uma raça misteriosa, a que se chamava simplesmente “Os Outros”, deixara à humanidade um legado precioso que era simultaneamente um grande desafio; uma passagem assinalada para alcançar as estrelas inexploradas. E a humanidade utilizou essa passagem para colonizar o sistema da estrela Phoebus, mas deixou inexplorado tudo o que restava da galáxia...

Num ambiente político conturbado, a grande nave Emissário utiliza a passagem pára uma viagem de exploração. Mas, quando regressa, os governantes da União mandam aprisionar a nave e deter a tripulação, ao mesmo tempo que proíbem qualquer futura exploração do espaço...

Apenas um homem, um colono de Deméter, consegue aperceber-se da situação e empreende uma ação desesperada para salvar o presente e acautelar o futuro...

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POUL ANDERSON

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Título original: The Avatar Tradução de Américo de Carvalho

Capa: estúdios P. E. A. © 1978 by Poul Anderson

Publicado por acordo com Scoot Meredith Literary Agency, Inc., 845 Third Avenue, Nova Iorque, N. J. 10022.

Direitos reservados por Publicações Europa-América, Lda.

Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma ou por qualquer processo, eletrônico, mecânico ou fotográfico, incluindo fotocópia, xerocópia ou gravação,

sem autorização prévia e escrita do editor. Exceptua-se naturalmente a transcrição de pequenos textos ou passagens para apresentação ou crítica do livro. Esta exceção não deve de modo nenhum

ser interpretada como sendo extensiva à transcrição de textos em recolhas antológicas ou similares donde resulte prejuízo para o interesse pela obra. Os transgressores são passíveis de procedimento

judicial

Editor: Francisco Lyon de Castro Edição n.° 35 011/2856

Execução técnica: Gráfica Europam, Lda., Mira-Sintra — Mem Martins

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AGRADECIMENTOS

A máquina T não é inteiramente um produto da minha imaginação. O seu princípio básico foi descrito por F. J. Tipler na Physical Review, vol. D-9, n.° 8 (15 de Abril de 1974), pp. 2203-6; em Physical Review Letters, vol. 37, n.° 14 (4 de Outubro de 1976), pp. 879-82; e na sua tese Causality Violatibn in General Relativity (Universidade de Maryland, 1976). De modo nenhum é Tipler responsável pela utilização que faço da sua teoria, em particular porque me afastei consideravelmente do seu modelo matemático.

A idéia de vida numa pulsar provém, por sua vez, de uma entrevista com Frank Drake na revista Astronomy de Dezembro de 1973, pp. 5-8, assim como de uma conferência que ele fez na sessão de 1974 da Associação Americana para o Progresso da Ciência. Também Drake é um cientista de reputação feita. Apresenta esta noção apenas como qualquer coisa de altamente especulativo, na melhor das hipóteses. Além disso, é possível que eu tenha cometido sérios erros técnicos, pelos quais ele não é responsável.

Os meus agradecimentos a ambos por me terem permitido aproveitar das suas concepções. Resta-me esperar que estas tenham sido aqui representadas sem grandes deformidades.

Algumas partes dos capítulos II e XXIII apareceram, com forma ligeiramente diferente, no número do Outono de 1977 do Isaac Asimovs Science

Fiction Magazine, numa história intitulada “Joelle”, copyright @ 1977 de Davis

Publications, Inc.

A citação no capítulo IV é do poema “Sussex” de Rudyard Kipling. Figura na Edição Definitiva dos Versos de Rudyard Kipling, publicada por Doubleday &

Co., e foi feita com o prévio acordo daquela editora.

Por sugestões e esclarecimentos fornecidos e, de uma maneira geral, pela ajuda que me prestaram, estou especialmente grato a Karen Anderson, Mildred Downey Broxon, Víctor Fernández-Dávila, Robert L. Forward, Larry J. Friesen, David G. Hartwell e Sandra Miesel. Várias são as coisas boas do livro que se devem a eles. As más, essas, tão todas da minha lavra.

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I

Eu era uma bétula, esbelta na minha brancura no meio de um prado, mas não tinha nome para aquilo que eu era. As minhas folhas bebiam energia da luz do Sol, que perpassava através delas e lhes fixava o verde resplandecente. As minhas folhas dançavam ao vento, que tirava melodias dos meus ramos como se eles fossem uma harpa. Mas eu não via nem ouvia. Os dias, já a encurtar, deram-me um tom de mel-queimado; a geada acabou por me desfolhar, deixando-me nua; a neve estendeu-se em torno de mim durante a minha longa sonolência. Depois Orion perseguiu a sua presa para além deste firmamento e o Sol dirigiu-se para o Norte para brilhar sobre mim e me despertar. Mas de nada disto eu tinha percepção.

E no entanto eu tudo registrrava, porque vivia. Cada célula dentro de mim sentia de maneira secreta como o céu reluzia primeiro em todo o seu esplendor e depois mergulhava na quietude, como o ar soprava em vendaval ou uivava ou me acariciava num sonho, como a chuva caía fria a tamborilar, como a água e os vermes abriam caminho até às minhas raízes penetrantes, como as avezitas pipilavam no ninho onde eu lhes dava abrigo e tremiam, como a erva e o dente-de-leão me envolviam num amplexo, e como o húmus reverdecia enquanto a Terra avançava na sua rota por entre as estrelas. Cada novo ano que findava deixava gravado um anel no meu corpo, a lembrar a sua passagem. Embora não tivesse consciência disso, eu estava ainda em Criação e fazia parte dessa Criação. Embora não compreendesse, eu sabia. Era Árvore.

II

Quando a Emissário transpôs a passagem e Febo brilhou de novo sobre ela, metade daquela dúzia de tripulantes que tinham sobrevivido estava reunida na sua sala comum, juntamente com o passageiro vindo de Beta. Após tão longa ausência, queriam acompanhar as fases deste regresso nos maiores écrans que tinham e participar de uma cerimônia, num brinde com o último vinho que restava a bordo, bebendo-o com votos de boa chegada. O pessoal que estava de serviço juntou-se aos colegas, fazendo ouvir as suas vozes pelos intercomunicadores. Salud, Proost,

Skal. Banzai. Saúde. Zdoroviye. Prosit. Mazel tov. Santé. Viva. Aloha — disse cada um do

ponto onde se encontrava.

Do seu posto ao computador, Joelle Ky murmurou, em nome daqueles que tinham ficado para trás para todo o sempre,Zivio por Alexander Vlantis, Kan bei por Yuan Chichao, Cheers por Christine Burns. Não acrescentou nada em seu próprio nome. Refletiu em como estava a ficar sentimental, e desejou no seu íntimo que ninguém a tivesse ouvido. Ficou a olhar num pequeno écran que estava ali para lhe fornecer elementos visuais no caso de serem necessários. No meio dos instrumentos de medição e controlo, do equipamento emissor e receptor que enchia a cabina, o écran abria-se como uma janela sobre p mundo.

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O “mundo” ali significava o “universo”. A amplificação foi ajustada no um, mostrando simplesmente aquilo que se poderia ver a olho nu. No entanto, as estrelas brilhavam em tal quantidade e com tal esplendor — diamante puro, safira, topázio, rubi — que as trevas em redor e muito para além pareciam um cálice a envolvê-las. Mesmo no Sistema Solar, Joelle não podia ter descoberto constelação nenhuma tão densa. Contudo, a configuração da Via Láctea pouco tinha mudado em comparação com as noites por cima de Nova Iorque. Com aquele brilho gelado como guia, deparou com uma luminosidade vermelha, que era M31; e teria parecido igual em Beta também, pois é irmã de toda a nossa galáxia.

Todavia, Joelle quis de repente ter diante dos olhos uma imagem mais familiar. A necessidade do reconforto que isso lhe daria surpreendeu-a, a ela, holoteta, para quem tudo quanto é visível não passava de um manto a cobrir a realidade. Os últimos oito anos terrestres deviam ter-lhe penetrado na alma mais fundo do que ela pensava. Sem querer esperar as horas, talvez mesmo os dias, até poder ver o Sol de novo, fez deslizar os dedos pelo teclado que ali estava diante dela, dirigindo o foco para Febo. Pelo menos tinha-o vislumbrado ao partir e vira inúmeras fotografias dele durante a vida.

Pusera já o capacete na cabeça e estava completada a ligação com o computador, com o banco de memória e com os instrumentos de bordo. Um instante depois de ter desejado aquela zona do céu, já a tinha calculado. Para si tratava-se de uma operação banal: era como saber onde pôr a mão para tirar uma ferramenta ou deduzir donde vinha um som. Nada de misterioso naquilo.

A cena mudou para um setor diferente. Apareceu um disco, ligeiramente maior do que o Sol observado da Terra ou da Lua, um pouco mais amarelo, tipo G5. A luminescência fotosférica, dez por cento superioras recebida pela Terra, havia sido automaticamente atenuada para evitar que a operadora se sentisse ofuscada. As intensidades menores permaneciam com o seu brilho natural. Assim, Joelle descobriu pontos na superfície, fulgores no limbo, nácar da coroa, tênues traços de luz zodiacal. Sim, pensou ela, Febo.tem a mesma beleza do meu Sol. Centrum

não, e só agora sinto quanto me fazia falta esta beleza.

Os dedos de Joelle avançaram, à procura de uma vista de Deméter. Era problema que ela podia ter solucionado simplesmente com o seu cérebro, sem recorrer a mais nada. Acabada agora a viagem que fizera, a Emissário flutuava junto da passagem. E mantinha-se numa posição Lagrange 4 em relação ao planeta, na mesma órbita do que ele mas com 60° de avanço. A escova de captação devia meramente deslizar ao longo da eclíptica para encontrar o que Joelle pretendia.

A uma distância de 0,81 unidades astronômicas, sem ampliação Deméter parecia-se com as estrelas que o rodeavam, mais brilhantes do que a maior parte delas e mais azul do que algumas. Estás aí, Dan Brodersen? —perguntava Joelle a si mesma. E depois concluía: Sim, deves estar. Andei lá por fora oito anos, enquanto se

passavam escassos dos vossos meses. Quantos, ao certo? Nem sei. Fidélio não pode dizer com precisão.

Uma chamada geral do capitão Langendijk veio interromper-lhe o devaneio. “Atenção, por favor. Os nossos radares registrram a presença de duas naves. Uma,

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naturalmente, é a nave oficial de vigilância e está a emitir sinais para entrar em comunicação conosco . Vou ligá-la ao intercomunicador, mas peço que não interrompam a conversa nem façam barulho desnecessário. Melhor será eles não saberem que vocês estão a ouvir.”

Por um momento Joelle sentiu-se surpreendida. Porque haveria o capitão Langendijk de tomar precauções daquelas? Como se o regresso da Emissário não pudesse ser motivo de regozijo para toda a espécie humana! Donde viria aquela nota de tensão na sua voz? A resposta feria-a no seu íntimo. Joelle tinha-se mantido indiferente a questões partidárias. Essas questões quase não existiam para ela. Uma vez, porém, recrutada para esta tripulação, não podia deixar de ouvir falar de disputas e de intrigas. Brodersen tinha-lhe explicado os fatos um tanto sombriamente, e eles haviam com freqüência sido objeto de conversa em Beta. Um forte grupo de pressões dentro da humanidade nunca vira com bons olhos aquela expedição e não se iria agora sentir nada satisfeita com o seu êxito.

Duas naves, ambas provavelmente em órbita em torno da máquina T. A segunda deve ser de Dan.

— Fala Thomas Archer, a comandar a nave de vigilância Faraday da União Mundial — anunciou uma voz de homem. O seu espanhol era carregado, como o de Joelle. — Identifiquem-se.

— Willem Langendijk, a comandar a nave de exploração Emissário — respondeu o capitão. — Estamos de regresso ao Sistema Solar. Podemos dar início às manobras?

— O quê? Mas ...

Percebia-se que Archer estava visivelmente espantado. Acabou por articular: — Bem, parece não haver dúvidas... Mas toda a gente supunha que vocês tinham partido para uma viagem de anos!

— E partimos.

— Não. Eu assisti à vossa passagem. Foi, vejamos, há cinco meses, quando muito.

— Essa agora! Quer dizer-me em que data estamos? E a hora? — Mas vocês ...

— Se faz favor.

Joelle podia bem imaginar como a cara chupada de Langendijk se alongava para sublinhar a sua insistência.

Archer leu alto as indicações de um cronômetro. Joelle confirmou pelo banco de memória a leitura exata do relógio quando ela e os seus camaradas haviam acabado de traçar a rota e se punham em marcha através do espaço--tempo para o seu destino desconhecido. A subtração deu um intervalo de vinte semanas e três dias. Joelle poderia com a mesma facilidade ter calculado quantos segundos ou microssegundos haviam passado na vida de Archer, mas ele apenas tinha dado a informação arredondada para o minuto mais próximo.

— Obrigado! — disse Langendijk. — Para nós passaram cerca de oito anos terrestres. Acontece que a máquina T é na verdade uma espécie de máquina de tempo, assim como um meio de transporte no espaço. Os Betanos — os seres que

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nos indicaram o caminho — calcularam a nossa viagem para que regressássemos muito perto da data em que havíamos partido.

Fez-se silêncio. Joelle notou que estava consciente do ambiente que a rodeava com mais intensidade do que o usual. Na queda livre, a nave conservava a ausência de peso, mantendo-se como que a planar. Era uma sensação agradável que fazia lembrar os sonhos de vôo de há muito, quando era novinha. (Depois disso, os sonhos haviam mudado com a sua maneira de sentir e com a sua alma, à medida que se tornava holoteta.) O ar de um ventilador parecia um murmúrio a acariciar-lhe as faces. Trazia consigo um ligeiro odor a floresta verdejante, produzido por produtos químicos em reconversão, e, na fase actual de variabilidade necessária para a saúde, uma sensação de friúra e um aroma forte, subliminal, de íons. Joelle sentia nos ouvidos o martelar possante do coração. E, sim, uma impressão no pulso esquerdo havia-se tornado em dor persistente. Joelle sentia-se à beira da artrite, e o tempo passava, o tempo passava. Provavelmente nem mesmo os outros podiam modificar aquilo ...

— Bem — disse Archer em inglês. — Com mil diabos! Sejam bem--vindos de regresso. Como estão vocês?

Langendijk mudou para a mesma língua, na qual se sentia um pouco mais à vontade e que era, de fato, usada a bordo da Emissário quase com a mesma freqüência que o espanhol.

— Perdemos três pessoas. Mas quanto ao resto, capitão, pode crer, as notícias que trazemos são verdadeiramente espantosas. Além de estarmos ansiosos por voltar para casa — e o senhor compreenderá isso —, temos pressa também em dar a conhecer a nossa história à União.

— E vocês...

Archer deteve-se, como se tivesse receio de formular a pergunta. Muito possivelmente tinha receio. Joelle ouvia-lhe a respiração pesada, antes de se decidir.

— E vocês encontraram os Outros?

— Não. O que encontramos foi uma civilização avançada, uma civilização não humana mas amiga, em contacto com um grande número de mundos habitados. Nessa civilização estão desejosos também de estabelecer estreitas relações conosco . Oferecem aquilo que a minha tripulação e eu consideramos serem condições fantasticamente boas. Não, não sabem mais do que nós a respeito dos Outros, a não ser quanto às restantes passagens que eles aprenderam a utilizar. Mas nós, as próximas gerações de homens, teremos muito que fazer para assimilar o que os Betanos nos proporcionarem.

“Escute agora, capitão. Compreendo que o senhor gostaria que lhe contássemos tudo, mas levaria dias. E, de qualquer modo, temos instruções para não nos demorarmos. O Conselho da União Mundial confiou-nos uma tarefa e exige que a ele façamos o primeiro relato do que vimos. É razoável, não? Nestas circunstâncias, pedimos que nos dê passagem a fim de seguirmos já, diretos, para o Sistema Solar.

De novo Archer permaneceu sem dizer palavra. Seria aquilo mais do que surpresa nele? Num gesto automático, Joelle recorreu aos circuitos

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exo-instrumentais da nave. Foi logo submersa por uma avalancha de informações. Não era uma percepção completa, mas, tanto quanto possível, como era fácil e ditoso compreender agora aquele cosmos no seu todo e sentir-se viver em uníssono com ele! Resistindo, Joelle concentrou-se apenas no radar e nas informações de navegação. Numa fração da sua própria pulsação, calculou como apanhar a Faraday no seu écran.

Não havia qualquer razão especial para isso. Joelle sabia muito bem qual o aspeto da nave de vigilância: um cilindro cinzento a terminar em ponta cônica, concebido de modo a poder descer em planetas, a poder lançar mísseis e raios. Mergulhado na luminosidade, e completamente diferente da enorme e frágil esfera eriçada de equipamento que era a Emissário. Quando a imagem mudou, Joelle não a ampliou para tornar a nave visível a um milhar de quilômetros. Em vez disso, prenderam-lhe a atenção dois globos pouco luminosos, vermelho e verde, que entraram no seu campo visual, num fundo de estrelas. Tratava-se de balizas à volta da máquina T. Tinham sido os Outros que as haviam colocado ali. Os órgãos de percepção de Joelle, agora reforçados, indicaram-lhe que uma terceira baliza devia também estar visível no receptor. E viu-a. Tinha uma coloração ultravioleta.

Ouviu vagamente Archer:

— ... quarentena? E Langendijk:

— Bem, se eles insistem. Mas andamos em Beta, de um lado para o outro, durante oito anos. E trouxemos um betano conosco . Ninguém apanhou doença nenhuma. Pinski e Carvalho, os nossos biólogos, estudaram o assunto e dizem-me que é impossível transmitirmos qualquer infecção. Também são improváveis mutações bioquímicas.

Atraída pelos pontos luminosos, Joelle deixou por completo de ouvir o que se dizia. Oh! Com certeza que algum dia ela, holoteta, poderia falar de cérebro para cérebro com os que tinham instalado aquele equipamento, se alguma vez os encontrasse.

Contudo, que fariam eles dela, e isto talvez em mais de um sentido da frase? Até o aspeto físico poderia provavelmente não lhes ser de todo indiferente. Era singular o que estava a fazer naquelas circunstâncias, mas, pela primeira vez em quase uma década, Joelle Ky olhou de repente para o seu corpo como um organismo de carne viva, palpitante, e não como maquinaria.

Com 58 anos (da Terra), aquele corpo de um metro e setenta e cinco conservava-se esguio, um tanto para o magro. A pele era um pouco pálida, apenas com ligeiras rugas. Nisso e nos zigomas salientes conservavam os seus genes um pedaço da história que o seu nome também lembrava. Joelle tinha nascido na América do Norte, naquilo que restara dos antigos Estados Unidos antes de eles se federarem com o Canadá. Os seus traços eram delicados, com grandes olhos pretos. O cabelo, outrora escuro, arrepanhado logo por baixo das orelhas, era agora da cor do ferro. Vestida com o uniforme de trabalho da nave, um fato-macaco com bastantes bolsos e fechos, só raramente usava qualquer coisa mais elegante.

Esboçou um sorriso. Que idiota que sou! Se qualquer coisa há de seguro a respeito dos

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meter? Outro absurdo! Não esqueçamos que em Beta fiquei oito anos mais velha do que ele.

De qualquer maneira, estes pensamentos despertaram nela a lembrança de Eric Stranathan, o primeiro e único homem pelo qual sentiu amor verdadeiramente profundo. Ao cabo de um quarto de século — mais o tempo que ela tinha andado nesta missão —, Eric surgia-lhe de novo como se estivesse ali diante dos seus olhos. Sentou-se em frente dela numa canoa no lago Luísa, no meio das montanhas, a respirarem os dois o ar dos pinhais, sob um céu nocturno quase tão vasto como aquele que nesse momento se estendia à volta da Emissário. E, levantando os olhos ao alto, Joelle murmurou:

— Como vêem os Outros isto? Que significa para eles?

— Primeiro, o que são eles? — perguntou Eric por sua vez. — Animais que evoluíram mais do que nós? Máquinas que pensam? Anjos que habitam em volta do trono de Deus? Seres, ou um ser, de uma espécie que nunca imaginamos e nunca poderemos imaginar? Ou o quê? Há mais de cem anos que os Humanos andam a fazer a si mesmos esta pergunta.

Joelle mostrou-se confiante: — Haveremos de saber um dia.

— Por meios holotéticos? — perguntou Eric.

— Talvez. Ou por meio sabe-se lá de quê? Mas estou convencida de que haveremos de conseguir. Tenho de acreditar nisso.

— Pode ser que não queiramos. Cheguei à conclusão de que nunca mais voltaríamos de novo a ser os mesmos, e esse preço poderia ser demasiado elevado.

Joelle estremeceu:

— Quer isso dizer que haveríamos de renunciar a tudo o que temos aqui? — E a tudo o que somos. Sim, é possível.

Aquele jovem alto e magro pôs-se a mexer o corpo, balouçando o barco. E continuou:

— Quanto a mim, não queria. Sinto-me tão feliz como estou, neste momento!

Passou-se isto na noite em que se tornaram amantes.

... Joelle sentiu um frêmito. E se eu parasse com os meus devaneios? Se fosse razoável?

Estou obcecada pelos Outros, sei isso. Ver o trabalho deles de novo, não ao serviço de estrangeiros mas de humanos, deve ter feito brotar em mim uma fonte de energia. Mas Willem tem razão. Os Betanos devem ser suficientes para ocuparem muitas gerações da minha raça. Será que os Outros sabem isso? Previram-no?

Joelle sentiu-se um pouco confusa ao notar que a sua atenção se tinha desviado do intercomunicador durante alguns minutos. Não era dada a introspecção nem a sonhar acordada. Talvez aquilo tivesse sucedido por estar ligada ao computador. Nessas ocasiões, um operador tornava-se no maior matemático e lógico do mundo, sem comparação com nenhum outro que houvesse existido na Terra antes de se ter aperfeiçoado a conjunção. Mas o operador continuava a ser um mortal, repleto de estultícia dos mortais. Suponho que o meu hábito de profunda

concentração enquanto permaneço neste estado se apoderou já de mim. Uma vez que não estou habituada a entregar-me a emoções, perdi o hábito.

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Ela tinha uma noção periférica de que se estava a discutir qualquer coisa. Pondo-se à escuta, ouviu Archer, que remascava:

— Muito bem, capitão Langendijk. Ninguém previa que vocês regressassem assim tão cedo. Ou mesmo que regressassem, para ser-lhe franco. Portanto, não tenho ordens concretas a vosso respeito. Mas os meus superiores deram-me instruções gerais.

— Ah, sim? — exclamou o comandante da Emissário. — E que dizem essas instruções?

— Vejamos: certas pessoas altamente colocadas estão muito preocupadas por qualquer coisa mais do que por vocês trazerem um ser estranho para a Terra. O fato é que nem sabem o que podem vocês trazer convosco. Olhe: eu não vou dizer que um monstro se apoderou da vossa nave e que esse monstro pretende agora passar pelo capitão Langendijk, ou qualquer coisa de paranóico no mesmo gênero.

— Espero que não! A verdade é que os Betanos — nome que nós lhes demos, é claro —, os Betanos não são apenas amigos. Estão desejosos também de nos conhecerem melhor. Essa a razão por que tratarão conosco em condições incrivelmente favoráveis. Eles querem estreitar as relações ainda mais.

Desconfiado, Archer perguntou: — E como?

— Levaria longo tempo a explicar. Há qualquer coisa de vital que eles esperam saber de nós.

Aquilo fez espécie a Joelle: Qualquer coisa que eu ainda não sei ta saberei. A voz de Archer arrancou-a àquele pensamento:

— Bom, talvez. Embora eu pense que isso ainda reforça o ponto de vista de que ninguém pode dizer quais serão as conseqüências ... para nós. E a União Mundial não é lá muito estável, o senhor sabe. Tenciona fazer o seu relato diretamente ao Conselho?

— Tenciono, sim — confirmou Langendijk. — Vamos prosseguir a viagem até às proximidades da Terra, e depois chamamos Lima e pedimos instruções. Que haverá de mal nisso?

— Dá demasiado nas vistas! — exclamou Archer. E poucos segundos depois continuou: — Olhe, não me sinto em condições para adiantar muito na matéria. Mas... os funcionários que eu mencionei querem, veja bem, querem ouvi-lo estritamente em privado. Querem examinar, eles, os vossos materiais, essa tal coisa, antes de deixarem transpirar o mínimo que seja. Está a perceber?

— Hum! ... Eu cá tinha as minhas suspeitas! — resmungou Langendijk. — Continue,

— Ora, nestas circunstâncias, et coetera, eu tenho de interpretar as minhas ordens da maneira seguinte: vamos acompanhá-los pela passagem, para o Sistema Solar. Funcionará a interligação pela rádio dos nossos auto-pilotos, é claro, para nos assegurarmos de que as naves saem peto outro extremo simultaneamente. Vocês não comunicarão com mais ninguém a não ser conosco , em circuito fechado — trataremos de tudo no exterior —, até receberem indicação em contrário. Fica entendido?

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— É mais do que explícito!

— Por favor, capitão, não temos a mínima intenção de o ofender. Nem por sombras. Deve compreender que se trata de assunto de tremenda importância. Não esqueça: aqueles que têm sobre os seus ombros a responsabilidade por bilhões de vidas humanas precisam de ser cautelosos. A começar logo por mim próprio.

— Sim, concordo que o senhor está a cumprir o seu dever tal como o interpreta, capitão Archer. Além disso, tem a força.

A Emissário trazia umas armas de fogo, mas quase como excentricidade. Os seus oficiais de tiro eram ao mesmo tempo pilotos da nave. Embora esta pudesse atingir velocidades enormes se lhe dessem tempo, a sua aceleração máxima com a carga e a massa de reação de que dispunha não chegava a duas gravidades. E os seus giroscópios ou os reatores laterais só com muita dificuldade lhe permitiam mudar de posição. Ninguém a tinha imaginado como vaso de guerra, nave solitária que era, a lançar-se provavelmente por toda uma galáxia. A Faraday, essa, fora concebida para agüentar uma batalha. (Nunca surgira ocasião para tal, mas quem sabe o que poderia ocorrer de repente ao atravessar uma passagem? Além disso, a sua alta flexibilidade de manobra tornava-a indicada para trabalhos de salvamento e para o transporte de equipas de exploração.)

— Estou a procurar fazer o melhor que posso para o nosso Governo, capitão.

— Gostaria que me dissesse para quem, dentro do Governo.

— Desculpe, mas limito-me a ser oficial de astronáutica. Não seria razoável que me pusesse a discutir política. Deve compreender, não é verdade, que não tem motivo para se preocupar? Trata-se apenas de uma precaução extra, e não passa disso.

— Claro, claro! — suspirou Langendijk. — Faça-se a sua vontade!

A conversa desviou-se para aspetos técnicos. Desligaram depois. Langendijk dirigiu-se à sua tripulação;

— Todos ouviram, é evidente. Têm perguntas a fazer? Comentários? Seguiu-se uma onda de indignação e de consternação. Os protestos mais clamorosos vieram de Frieda von Moltke: “Que essa choldra vá toda para o diabo!” O primeiro-mecânico, Dairoku Mitsuküri, foi mais moderado: “Talvez isto seja arbitrário, mas não devemos ficar retidos por muito tempo. O próprio fato da nossa chegada irá suscitar enorme pressão da opinião pública para nos porem em liberdade.”

Carlos Francisco Rueda Suárez, o imediato, acrescentou no seu tom mais altivo:

— Além disso, a minha família há-de ter uma palavra a dizer na matéria. Um temor, que ela esperava fosse ridículo, levantou-se em Joelle, enregelou-lhe os músculos e endureceu-lhe a voz de contralto:

— Você parte do princípio de que a sua família vai saber do que se passa. — Deus do céu, como podemos nós pôr isso em dúvida? — protestou o segundo-mecânico, Torsten Sverdrup. — Os Ruedas mantidos na ignorância do caso? Impossível!

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— Receio bem que não seja impossível — volveu Joelle. — Como sabe, nós estamos inteiramente à mercê daquela nave de vigilância. E o seu comandante não está a proceder como alguém que apenas quer agir com segurança. Não é assim? Não tenho pretensões a ser muito perspicaz no que respeita às pessoas, mas já me vi perante camarilhas, perante cabalas, nas altas esferas políticas. Da última vez que falei com Dan Brodersen na Terra, também ele me preveniu de que não só podíamos suscitar a hostilidade de algumas facções, mas também sofrer dissabores.

— Brodersen? — perguntou Sam Kalahele, o atirador, companheiro de Von Moltke.

— O proprietário das Empresas Chehalis, em De meter — explicou Marie Feuillet, química. — Deve descontar-lhe os exageros. É um capitalista que trabalha por iniciativa própria. Portanto, abertamente desconfiado de tudo quanto sejam organismos do Estado, e talvez mesmo da própria União.

— Temos de começar a acelerar daqui a pouco — preveniu Langendijk. — Todos aos seus postos de voo!

— Por favor, comandante!—gritou Joelle. — Escute um minuto. Não vou pôr-me a contestar. Reconheço que sou lamentavelmente ingênua a respeito de muitas coisas. Mas Dan, o capitão Brodersen, disse-me que mandava um robô para as proximidades da passagem. Um robô programado para olhar por nós, e meramente para o caso de termos qualquer dificuldade. Previa a possibilidade — a probabilidade, disse ele — de voltarmos numa data próxima, em relação à da partida. Ora bem, que outra coisa pode ser aquele segundo aparelho, ali em órbita mais a distância? Ele apareceu-nos no radar, lembra--se? Que outra coisa pode ser senão o observador do capitão Brodersen?

Ouviu-se a voz de Rueda:

— Virgem Santíssima, Joelle! No decorrer de todos estes anos, porque nunca me falou disso?

— Oh! Ele achava que não nos devíamos preocupar com uma coisa que talvez nunca viesse a acontecer. Disse-mo porque somos amigos, e sabendo que eu ficaria com a informação apenas para mim. Gravei-a na minha banda de apontamentos, para vocês a consultarem se eu morresse.

— Mas nesse caso não há problemas! — observou Rueda, satisfeito. — Não nos podem manter incomunicáveis, se é isso o que você receia. Uma vez que o robô informe o capitão Brodersen, ele o anunciará ao mundo. Eu podia ter esperado uma coisa destas da parte dele. Talvez você hão saiba que Brodersen é ainda meu parente pelo primeiro casamento.

Joelle abanou a cabeça. Os cabos do seu capacete em forma de tigela eram flexíveis e permitiam-no, embora o acréscimo de massa a obrigasse a um visível esforço e, na ausência de gravidade, tivesse de imprimir ao busto um ligeiro movimento de compensação.

— Não — respondeu ela. — Observe como aquilo está distante. Nenhum sistema óptico construído até hoje pelo homem tem possibilidade de distinguir &

Emissário a uma distância destas, a não serem sete — não é assim? —, sete naves

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modificado.

— Para que serve então colocar um observador aqui? — interrompeu o contramestre Bruno Benedetti.

— Não era de esperar o que aconteceu? — perguntou por sua vez a planetologista Olga Razumovski. — Mas diga-nos lá, Joelle.

A holoteta respirou fundo.

— Eis o que Brodersen planeava fazer — começou ela. — Ele mandaria o

robô, na aparência para estudar a máquina T durante alguns anos e conseguir alguns

elementos sobre a maneira como ela funciona. As naves de vigilância não têm um programa lá muito satisfatório, de modo que o projeto só dificilmente poderia ser impedido. Além disso, Brodersen não o levaria a cabo em seu próprio nome. Poria à frente a Fundação Demeteriana de Investigação, a cobri-lo. Já espalhou ali em Deméter donativos bastante avultados. De qualquer maneira, o aparelho estaria a fazer observações de boa fé.

“Nestas circunstâncias, por que razão é forçado um equipamento tão dispendioso a ficar a mais de um milhão de quilômetros daquilo que tem de investigar? Presumo que as entidades oficiais hajam dado qualquer justificação quanto a segurança, possível colisão se uma nave aparecesse com vetores errados. Calculo que a probabilidade de isso acontecer seria da ordem de um em dez, com uma décima de aproximação. Mas elas podiam fazer respeitar o regulamento, se estivessem resolvidas a isso. Assim, o fato de o terem feito não revela o seu verdadeiro motivo? Não querem perder o controlo das notícias sobre a passagem — outra nave betana que aparecesse, talvez, ou nós a regressarmos, ou qualquer coisa de anormal. Querem é exercer uma censura. Irão exercer a censura sobre nós? Existe uma forte tendência antiestelar na Terra, em mais de um governo nacional. Essa gente poderia ter-se apoderado das alavancas apropriadas na hierarquia da União. Podia ter planos sobre os quais não consultou os seus colegas.

Do intercomunicador chegaram imprecações, rosnadelas, uma data de objeções. Isoladamente, no meio daquilo tudo, ouviu-se o som aflautado de Fidélio a exprimir a sua desorientação.

— Que se passa? — cantou o betano. — Porque já não estão vocês nada contentes?

Langendijk impôs silêncio.

— Como comandante de uma nave de vigilância, Archer é meu superior — disse ele. — Preparem-se para obedecer às suas instruções.

— Willem, escute — suplicou Joelle. — Eu posso fazer chegar um sinal ao

robô, sem que detetem algo a bordo da Faraday. Isso daria a conhecer a Brodersen a

verdade ...

Langendijk interrompeu-a:

— Vamos cumprir as ordens que temos. É uma instrução precisa da minha parte, e vou registrá-la no livro de bordo.

A seguir, o seu tom suavizou-se:

— Não nos vamos pôr a discutir uns com os outros, depois de termos feito juntos uma viagem tão longa, tão difícil. Acalmem-se. Pensem em como são

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grandes as probabilidades de alguns de vocês estarem cansados, levantando agora castelos fantasmagóricos por cima de um mero grão de areia. Archer comunica secretamente, com a conivência secreta do comandante da nave de vigilância no Sistema Solar... Este por sua vez comunica secretamente com os seus chefes secretos, que lhe dizem para nos levar para um lugar secreto. Não será isto um pouco melodramático? Com franqueza! Pensem também que a lei do espaço está por cima das contingências políticas. Tem de estar. Sem isso o homem não vai às estrelas: morre. Cada um de nós prestou juramento solene de cumprir o seu dever.

Após uma pausa, durante a qual apenas se ouvia a deslocação do ar vindo do ventilador, prosseguiu:

— Tomem as vossas posições de voo. Vamos acelerar dentro de dez minutos.

Joelle deixou-se cair. O desespero esmagava-a. Ela podia, de fato, ter mandado a imperceptível mensagem de que havia falado, se a sua ligação com o computador fosse prolongada ao sistema de comunicação exterior. Mas os botões para isso não estavam naquela sala.

E Willem faz uma idéia muito sua a respeito da lei. Talvez também tenha razão, e é possível que todo esse conluio contra nós não passe de pura fantasia. Quem sou eu para julgar? Tenho andado tão afastada da humanidade corrente, durante anos e anos! Como posso eu saber ao certo como se passam estas coisas?

A realidade absoluta é mais fácil de compreender, sim, quando estamos integrados nela. E não é esse o nosso caso. O que chega até nós são apenas reflexos através do Númeno.

— Está pronta, Joelle? — perguntou Langendijk com suavidade, um tudo-nada pesaroso.

— Oh! — replicou ela. — Estou pronta, sempre!

— Vou assinalar à Faraday a nossa intenção de nos lançarmos a um G às 15 h e 35, e eles estão de acordo. Eles nos acompanharão. Estão a manobrar nesse sentido, agora mesmo. A interligação de autopilotos será feita a 100 km da Baliza Charlie. Já tem todos os elementos de que precisa? ... Oh, é claro que sim. Uma pergunta destas da minha parte é idiota.

Joelle, ela também desejosa de reconciliação, esboçou um sorriso que ele não pôde ver, e respondeu:

— Para si é fácil esquecer, Willem. Eu estou a desempenhar as funções de Christine.

Christine Burns, a operadora efetiva de computadores, morrera nos braços de Joelle escassos meses antes de a Emissário empreender a viagem de regresso.

— A marcha está agora portanto em suas mãos — disse Langendijk, em tom formal. — Pode começar quando receber sinal.

— Muito bem!

Joelle ficou então muito ocupada. Chegavam-lhe informações de todos os lados: vetores de posição, vetores de velocidade, momentos de forças, pressões exercidas, valores do campo gravitacional, derivadas no tempo e no espaço, a modificarem-se de instante para instante, de forma ligeira mas permanente. Aquela avalancha de dados provinha de vários instrumentos e transformava-se em dígitos.

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E, entretanto, o banco de memória fornecia-lhe não só todos os fatos concretos do passado e as constantes naturais de que ela precisava, mas também uma visão de toda a grandiosa estrutura analítica da mecânica celeste e os tensores das tensões. Ela tinha ao seu imediato dispor os conhecimentos físicos de séculos e também o conhecimento preciso do ponto em que se encontrava naquele momento, no espaço-tempo.

Os elementos de informação passavam das várias fontes através de uma unidade que, em nanossegundos, os traduzia em sinais apropriados. Daí seguiam para o cérebro de Joelle. A ligação, aqui, não era feita por fios fixados no crânio nem por qualquer outro sistema do gênero. Bastava a indução eletromagnética. Joelle, por sua vez, consultava o potente computador a que estava ligada, à medida que os problemas surgiam, de momento a momento.

A harmonia era perfeita. Joelle tinha adicionado ao seu sistema nervoso a imensa capacidade de recepção e armazenamento e a velocidade de pesquisa do conjunto eletrônico, assim como a imensa capacidade lógico-matemática necessária ao volume e velocidade de operações que resultavam da outra metade desse conjunto. Por seu lado, Joelle contribuía com a sua qualidade humana de se aperceber do inesperado, com o seu pensamento criador, que lhe permitia modificar os pontos de vista. Era a parte mais maleável de todo o sistema, o programa que continuamente se reajustava a si mesmo. Regia uma vasta orquestra muda, que podia começar a tocar jazz sem aviso prévio ou compor toda uma sinfonia perfeitamente nova.

Os números e as operações não desfilavam diante dela como elementos isolados. (Da mesma maneira que ela não planeava as inúmeras decisões cinestéticas que o seu corpo ia tomando ao andar.) Joelle sentia-os, mas como parte do seu âmago, como um reflexo sensorial de equilíbrio, uma função. A sua consciência do que se passava ia para além da tessitura mecânica dos símbolos. Ela moldava os contornos da ação, tal como o escultor dá forma à argila com mãos que sabem por si mesmas o que devem fazer.

Artista, cientista, atleta, no fugidio pináculo do sucesso ... Fora isso o que sentira Christine Burns.

Não se passava o mesmo com Joelle. Christine fora uma operadora normal, uma linker. Joelle, essa, era holoteta. Uma holoteta que tinha transcendido a mera experiência de ligação ao computador. Talvez a diferença se pudesse comparar à que existe entre um leigo católico a desfiar o seu terço e São João da Cruz.

Além disso, o trabalho agora a fazer era de pura rotina. Joelle tinha meramente de dirigir, pelos seus pensamentos, o equipamento que guiava a nave, por meio de um conjunto estabelecido de curvas através de uma série conhecida de configurações. O computador só por si poderia no fundo fazer o mesmo, sem a ajuda de ninguém, se se dessem ao trabalho de reajustar certo número de circuitos. Era assim que funcionava o robô de Brodersen.

Christine, a linker, tinha sido contratada porque a Emissário ia partir para um destino totalmente desconhecido, podendo a sobrevivência depender de uma decisão a tomar de maneira rapidíssima, e que ninguém poderia prever e programar.

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A própria Christine, se ainda fosse viva, teria achado fácil agora esta manobra.

Joelle achava-a repousante. Reclinou-se na cadeira, consciente de ter reganhado peso, e saboreou o prazer de formar um todo, indivisível, com a nave. Não podia ouvir nem lhe chegavam os movimentos, mas sentia o murmúrio da marcha. Células migma estavam a gerar gigawatts de potência de fusão, a decompor a água, a ionizar-lhe os átomos e a lançar o plasma através do concentrador de jacto a uma velocidade que se aproximava da velocidade da própria luz. Mas a eficiência era magnífica. Um triunfo tão perfeito como o da catedral de Chartres. Tudo quanto se via era uma leve esteira de luz difusa a ficar para trás durante alguns quilômetros e o movimento do casco a avançar no espaço.

O movimento, esse, iria durar várias horas, com orientações e configurações constantemente a variarem à medida que a Emissário prosseguia o seu caminho através da passagem estelar entre Febo e Sol. No entanto, só havia por agora um avanço em linha reta para a primeira das balizas. Joelle agitou-se e franziu a testa. Com menos de metade da sua atenção em atividade, não podia durante muito tempo afastar o seu receio de ficar presa ali em frente.

Mas aconteceu então que o écran apanhou a própria máquina T, e Joelle viu-se em previu-sença de um milagre que nunca perdia o viu-seu encanto.

À distância, o cilindro surgia como um fio de luz no meio dos corpos celestes, de nuvens de estrelas. Joelle ampliou a imagem, e a forma da máquina tornou-se mais nítida, embora as dimensões permanecessem uma abstração: cerca de um milhar de quilômetros de extensão, diâmetro ligeiramente superior a dois. Girava em torno do seu longo eixo a tal velocidade que um ponto na periferia se deslocava a três quartos da velocidade da luz. Nada na sua superfície brilhante, cor da prata, revelava isso à vista desarmada. No entanto, a verdade é que um tremular contínuo, quase imperceptível, de cores a mudar, dava uma idéia do turbilhão de energia ali contida. Os Humanos pensavam que aquela claridade provinha de campos de força que mantinham coesa a matéria comprimida às maiores densidades. Luas havia que tinham menos massa do que aquele engenho destinado a abrir passagens através das estrelas.

Como pano de fundo, cintilavam mais duas balizas que o rodeavam: uma púrpura e outra dourada. E, através dos instrumentos, Joelle espiou uma terceira, cor de rádio.

Era uma coisa que os Outros haviam concebido e posto a circular em torno de Febo, tal como haviam instalado uma em Sol e outra em Centrum e outra em... quem se atrevia a dizer em quantas outras estrelas, por quantos e quantos anos-luz? Qual o número de raças sensíveis que tinham encontrado aqueles engenhos no espaço, obtido a mesma licença impessoal para os utilizar e ansiado depois por saber quem haviam sido os construtores de tudo aquilo?

Além desses, quantos mais se abalançaram pelo caminho que estamos agora a percorrer?

— perguntava Joelle num acesso de amargura. Oh, Dan, Dan! De nada valeu teres

procurado descobrir a mensagem que nos pudesse libertar...

E então, tal como o Sol a irromper de repente por detrás das nuvens, Joelle viu aquilo que ele já devia ter visto antes. Brodersen devia ter pensado naquilo

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mesmo. Joelle lembrou-se de o ouvir dizer: “Cada raposa tem dois covis para se acolher.” A esperança reacendeu-se nela. Não deixou de ver como essa esperança era fraca, como era fácil ser destruída de novo. Por agora, a centelha bastava.

III

Daniel Brodersen nasceu naquilo que então se designava por Estado de Washington e que ainda se não havia, na verdade, separado dos Estados Unidos da América durante as guerras civis, como várias regiões haviam tentado e a Santa República do Ocidente conseguira fazer. No entanto, durante três gerações antes dele, o chefe da família tinha usado o título de capitão-geral do Domínio Olímpico e exercido a liderança sobre aquela península, incluindo .a cidade de Tacoma, liderança que era real, ao passo que as pretensões do Governo Federal não passavam de palavras.

Aqueles barões não se haviam considerado como nobreza. Mike era pescador, casado com uma indiana quinault, e havia investido o seu dinheiro em vários navios. Quando as Perturbações atingiram a América, ele e os seus homens tornaram-se no núcleo de um grupo que repôs a ordem na região, principalmente no intuito de protegerem famílias e bens. À medida que a situação ia piorando, chegaram-lhe pedidos de ajuda vindos de um círculo sempre crescente de fazendas e de pequenas cidades, até que, um tanto para surpresa sua, se viu senhor de muitas montanhas, florestas, vales e costas, com todas as populações que aí habitavam. Qualquer pessoa se podia fazer ouvir por ele. Não era homem que se distanciasse de ninguém.

Acabou por cair numa batalha com bandidos. O seu filho mais velho, Bob, vingou-o de maneira terrível, anexou o território sem lei, para evitar que aquilo se repetisse, e decidiu-se a assegurar a defesa e a fazer justiça na sua própria terra, a fim de toda a gente poder prosseguir o seu trabalho. Bob cultivava a lealdade para com os Estados Unidos e por duas vezes formou regimentos de voluntários para lutarem pela sua integridade. Foi desse modo que perdeu dois dos filhos, e veio a morrer quando defendia Seattle, atacada por uma esquadra que a Santa República tinha mandado para o Norte.

No decorrer da sua vida passaram-se acontecimentos semelhantes na Colômbia Britânica. O nacionalismo americano e canadiano significava muito menos do que a necessidade de cooperação local. Bob casou John, o filho que lhe restava, com Bárbara, filha do capitão-geral do Fraser Valley. Essa aliança selou uma estreita amizade entre as duas famílias. Após a morte de Bob, uma eleição especial deu a maioria esmagadora a Joim para lhe suceder. “Temo-nos dado muito bem com os Brodersens, não é verdade?” — foram as palavras que saíram dos cais e das docas, das choupanas e das vivendas, dos pomares, dos campos, das florestas, das oficinas, dos bares, desde Cape Flattery até Puget Sound e de Tatoosh até Hoquiam.

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Os primeiros anos de governo de John foram agitados, mas deve-se isso a acontecimentos que se desenrolaram fora da Península Olímpica, e também, aos poucos, estes vieram a perder a virulência. Com a paz estendeu--se a prosperidade e um renascer de civilização. Os barões sempre tinham sido gente instruída, mas homens rudes na ação. John dotou as escolas, mandou vir professores, ouviu-os com atenção e lia livros sempre que lhe restava tempo disponível.

Dessa maneira veio a compreender, melhor ainda do que o espírito nacional permitia, que a época feudal estava em declínio. Primeiro, o comando militar federal pôs o conjunto dos Estados Unidos sob seu controlo, tal como o general McDonough havia feito no Canadá. A seguir, peça por peça, instituiu um novo aparelho do Estado, chegou a acordo precário com a Santa República do Ocidente e com o Império Mexicano, e iniciou negociações para se unir ao seu vizinho do Norte. Nesse meio tempo estava a expandir-se a União Mundial, criada pela Convenção de Lima. A Federação Norte -- Americana aderiu a ela dentro de três anos após haver sido proclamada, nos termos de um compromisso que tomara antes. Este exemplo arrastou as últimas nações ainda hesitantes, e tornou-se então realidade o governo constitucional sobre toda a raça humana — durante algum tempo pelo menos.

No início destes acontecimentos, John decidiu que o seu apelo fosse no sentido de preservar ao seu povo suficiente independência interna para que ele pudesse viver mais ou menos de harmonia com as suas tradições e desejos.

Com o volver dos anos caminhou-se para a centralização, passo a passo, negociando cada ponto concreto, e conseguiu o que desejava. Por fim, era nominalmente um verdadeiro senhor, possuidor de consideráveis propriedades, com direito a várias honras e benefícios, e não um cidadão comum. Na prática, contava-se entre os magnates, retirando a força do respeito e do afeto de todo o Noroeste do Pacífico.

Daniel era o seu terceiro filho, que pouca riqueza iria herdar e nenhuma posição social. Isso, aliás, adaptava-se bem ao feitio de Daniel. Ele gozou da sua infância — bosques, montanhas, rios caudalosos, o mar, cavalos, carros, barcos, aviões, armas de fogo, amigos, cerimônias da guarda, severo esplendor de casa senhorial até ela se tornar numa mansão, visitas aos parentes de sua mãe e a cidades mais próximas onde prazer e cultura se renovavam sem cessar, tornando-se cada vez mais refinados. Mas a inquietação permanecia nele, herança de uma casa de guerreiros, e na sua adolescência com freqüência entrava em brigas, quando não andava na pândega com amigos das camadas mais baixas ou a meter-se com as criadas. Finalmente, alistou-se no Corpo de Emergência do Comando de Paz da União Mundial, logo após a formação desse corpo. A própria União estava ainda a ensaiar os primeiros passos, que muitos procuravam impedir. Os homens que faziam parte do Corpo de Emergência andavam sempre de um lado para o outro pelas várias regiões da Terra — e mais tarde fora dela também. A maior parte destes homens iam carregados de armas, que mostravam freqüente uso. Para Brodersen começou aqui uma série de andanças que por fim o levaram a Deméter.

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as loucuras da juventude constituíam nele uma fase muito distante no espaço e talvez, com a idade de cinqüenta anos terrestres, mais afastada ainda no tempo. Ele próprio só raras vezes pensava nelas. Estava sempre muito ocupado.

Aconchegando-se numa cadeira, tirou a saca com o cachimbo e o tabaco. — Vão para o diabo os torpedos! — murmurou ele. — Para a frente é que é o caminho.

A governadora-geral de Deméter olhou para ele, surpreendida, por cima da secretária.

— Como?

— Uma expressão de meu pai — explicou ele. — Significa que a senhora me pediu para vir ao seu gabinete em pessoa, porque não queria que falássemos disto pelo telefone. E agora está para aí com pezinhos de lã a rodear o assunto, como se tivéssemos de entrar num estábulo que não tivesse sido lavado há semanas.

Esboçou um sorriso forçado para mostrar que não via onde estava a dificuldade. E prosseguiu:

— Não me vai por certo deixar ficar para aqui a grasnar as minhas figuras de retórica mais tempo do que o necessário. A Lis está à minha espera em casa para o jantar, e não me perdoará se o assado ficar queimado por minha causa.

Aurélia Hancock franziu as sobrancelhas. Era uma mulher bastante alta, para o pesado, feições vincadas e cabelo curto, já encanecido. Nos seus dedos amarelados ardia-lhe vagarosamente um cigarro. O fumo tinha-lhe enrouquecido a voz, e dizia-se que ela se submetia agora a uma quantidade invulgar de tratamentos de rádio contra o cancro. Como era seu hábito, usava roupa que seguia a moda da Terra, mas de maneira bastante conservadora: uma túnica verde com decote aberto e franja prateada, por cima de calças à boca de sino, e sandálias douradas.

— Eu estava a tentar ser-lhe agradável — disse ela. O polegar de Brodersen amassou o tabaco no cachimbo:

— Obrigado — respondeu ele —, mas receio bem que este assunto não se possa tornar interessante, de maneira nenhuma.

Ela levantou a cabeça:

— Como sabe o senhor aquilo de que lhe quero falar?

— Oh, desça desse tosco pedestal, Aurie! De que outro assunto se poderia tratar senão da Emissário?

Hancock levou o cigarro aos lábios, pousou-o e disse:

— Muito bem, Dan! O senhor vai deixar de espalhar essas histórias a respeito do regresso da nave. O fato é que elas não correspondem em nada à verdade. O meu pessoal e eu já temos muito com que nos ocupar com o que se passa no dia-a-dia, sem necessidade de acrescentarmos infundadas suspeitas de que o próprio Conselho ande a mentir ao povo.

Brodersen alçou as suas espessas sobrancelhas:

— Quem disse que eu tenho andado para aí a badalar? Não apareci em emissão nenhuma, nem subi para cima de um caixote e me pus a discursar em Goddard Park, não é verdade? Há quatro ou cinco semanas perguntei-lhe se a senhora tinha notícias da Emissário. Voltei a perguntar-lho outras vezes, em seguida.

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Disse-me que não. É tudo.

— Não, não é tudo. O senhor tem andado a falar...

— Com amigos, claro. E há quanto tempo andam os seus bufos a escutar as conversas?

— Bufos? Suponho que queira dizer detetives. Agentes da polícia. Não, Dan, pode ter a certeza que não. Que juízo faz de mim? Para que haveria eu de querer que lhe andassem a escutar as conversas, apenas com meio milhão de pessoas em Eópolis e da maneira como elas pairam? O que se diz à esquina de uma rua chega até mim, automaticamente.

Brodersen olhou para ela com renovado respeito. Desempenhava um cargo político de confiança, membro proeminente que era do Partido da Ação da Federação da América do Norte e protegida de Ira Quick. Mas, no fim de contas, não tinha feito mau trabalho em Deméter, servindo de medianeira entre o Conselho da União e um grupo heterogêneo de colonos cada vez mais descontentes. (Uma nota de piedade: o seu marido fora jurisconsultocom altos poderes na Terra, mas pouco se recorria aos seus serviços aqui e, apesar de ele querer salvar as aparências, toda a gente sabia que se tinha afundado no álcool, sem se querer emendar. Isso, porém, só podia tornar Aurélia Hancock ainda mais digna de admiração.) Melhor seria Brodersen jogar jogo franco.

— Eu falei com a senhora, primeiro — disse ele.

— Sim, é verdade que falou. E respondi-lhe que com certeza eu já teria sabido alguma coisa se ...

— Mas nunca me convenceu de que as minhas deduções eram erradas.

— Procurei fazê-lo. O senhor não me quis ouvir. Mas pense um pouco. Aquela distância, como poderia o seu robô dizer-lhe se era a Emissário a passar por ali?

Hancock franziu de novo o sobrolho. E prosseguiu:

— A sua falsa declaração aos Serviços de Controlo Astronáutico quanto ao verdadeiro objetivo daquele aparelho podia afetar a continuação das suas licenças, e o senhor sabe disso.

Brodersen já esperava aquela forma de ataque.

— Aurie — e suspirou calculadamente —, permita-me que lhe reconstitua exatamente o que se passou.

Acendeu o cachimbo e levou-o à boca. Pôs-se a olhar em torno de si. O gabinete e o mobiliário agradavam-lhe, com pouco de sintético, quase tudo feito à mão com os materiais de que se dispunha há uns setenta anos, quando a colônia estabelecida em Deméter tinha cerca de uma geração. (Issofaria meio século da Terra, lembrou-se ele. Realmente mergulhei de vez neste planeta, não há dúvida.) Lambris de dafne creme com nervuras em espiral faziam ressair um jarrão com girassóis sobre a secretária e, numa estante por detrás, um excelente holograma do monte Lorn, com ambas as luas cheias por cima das suas neves. À direita, duas janelas abertas para um jardim. Estendiam-se aí canteiros de roseiras da Terra e relvado até a um gradeamento de ferro forjado, mas restava um enorme carvalho da antiga floresta, com as suas folhas de um verde-azulado a espalharem um leve perfume a gengibre,

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e cresciam trepadeiras viçosas por cima do metal. O tráfego usual circulava pela rua, com os peões, os ciclistas, o ronronar de um carro e o deslizar de um vagão de mercadorias a toda a velocidade nas suas almofadas de ar. Do outro lado da rua, um prédio moderno erguia a sua massa trapezoidal de cores suaves. Lá no alto, o céu arqueava-se numa abóbada de um azul mais profundo do que em qualquer parte da Terra, e Febo à tarde tinha uma suavidade muito parecida com a do Sol no crepúsculo. Durante meio segundo, lembrou-se Brodersen de que a pressão atmosférica era mais baixa e mais baixa também era a força de gravidade (80%0, mas o seu corpo estava bem habituado e já não sentia as diferenças.

Puxou uma cachimbada, saboreou um pouco o fumo entre a língua e as fossas nasais, e continuou:

— Nunca fiz segredo do que pensava. Diz a teoria que uma máquina T pode levar uma pessoa para qualquer parte no espaço-tempo dentro do seu campo de ação ... o que significa espaço e tempo. A Emissário estava a seguir uma nave desconhecida que fora observada a transpor uma passagem no nosso sistema, evidentemente para fazer o trajeto, entre dois pontos acerca dos quais nada sabemos. Parti do princípio de que tanto a tripulação como os que mandaram aquela nave seriam amigos. E porque não haveriam de ser? Pelo menos, ajudariam a Emissário a regressar, uma vez concluída a sua missão. E, nesse caso, porque não mandar para cá, de volta, a nossa gente muito próximo da data em que havia partido?

— Ouvi falar do seu ponto de vista — disse Hancock —, mas só depois de o senhor se começar a mexer. Se achou que isso era plausível, se achou que isso era importante, porque não mandou um relatório, em primeiro lugar, ao organismo competente?

Brodersen encolheu os ombros:

— E porque o haveria eu de mandar? A idéia não era só minha. Além disso, sou um mero particular.

Ela lançou-lhe um olhar carregado:

— O homem mais rico de Deméter não é, de maneira nenhuma, um mero particular.

— Bem pouco sou em comparação com os ricos da Terra — respondeu em voz macia.

— Como o clã dos Ruedas no Peru, com o qual o senhor está ligado por negócios e por laços de família. Não, o senhor não é propriamente um particular.

Hancock voltou a fixar-lhe os olhos, Brodersen sentou-se, afagando a quenturado seu cachimbo, e deixou que ela o olhasse. Não que tivesse ilusões quanto à sua elegância. Era um homem alto, de um metro e oitenta e oito, corpulento, de ossos resistentes, músculos sólidos, ombros largos, forte de peito. Nos últimos anos, porém, tinha criado um pouco de barriga, até parecer gordo. A cabeça era maciça, mesocefálica, com uma cara quadrada, queixo e boca vincados, nariz romano saliente, largos olhos cinzentos, a descair obliquamente, já com pés-de-galinha, pele tisnada e com rugas. Como a maior parte dos homens em Deméter, tinha o rosto barbeado e o cabelo cortado por cima das orelhas. O cabelo

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era direito, áspero, preto com algumas madeixas brancas, herança ainda da sua bisavó. Para este encontro, assim como a maior parte das vezes, vestia traje colonial de uso corrente: bolero de pele de orosauro, com a camisa de fora, calças largas enfiadas em meias-botas macias, um largo cinto com pequenas ferramentas e instrumentos a pender-lhe da ilharga, mais uma faca dentro de uma bainha.

— Bem vistas as coisas — disse ele, mantendo o seu tom afável —, não sei que leis tenha eu infringido, e suponho que não me desviei irreparavelmente das normas estabelecidas.

— Não esteja muito seguro de si a esse respeito — preveniu ela.

— Como? Melhor seria retomarmos toda a história desde o princípio e dizer-me de maneira precisa em que ponto cometi eu uma ilegalidade. De contrário, para quê estarmo-nos a ralar?

Brodersen respirou fundo antes de prosseguir:

— Eu pensei, e falei disso a várias pessoas, que a Emissário podia regressar em breve. Poucos me deram grande atenção. Sim, como a senhora imaginou, foi de minha iniciativa aquele robô de observação que a Fundação mandou para ali, a fim de estudar a máquina T, mas estava fundamentalmente a levar a cabo autêntico trabalho científico e ainda não recebi uma explicação satisfatória quanto ao motivo por que lhe impuseram uma órbita tão distante.

— Espere um pouco, por favor — pediu ele. — Deixe-me prosseguir mais um momento.

E, embora as pálpebras lhe palpitassem atenuando o tom imperativo, a sua voz suavizou-se:

— Os regulamentos do espaço não prescrevem a obrigatoridade de os planos de investigação serem discriminados em pormenor. E que mal haveria, em todo o caso, em manter um óculo apontado para a Emissário? A senhora acusa-me de fazer as coisas pela calada? Que diabo, Aurie, não foi nada assim!

Depois de breve pausa, Brodersen prosseguiu:

— É claro que, após alguns meses, o observador regressou e lançou uma mensagem à estação a que estava ligado, revelando certos fatos. Eu vim aqui falar consigo e perguntei-lhe — com bastante diplomacia, penso eu — se sabia alguma coisa sobre o assunto. A senhora disse-me que não. Pedi informações para a Terra e todos aqueles a quem me dirigi disseram também que não. Eu não gostaria agora de lhes chamar mentirosos a todos. Especialmente a si, Aurie. No entanto, a senhora convidou-me hoje para uma conversa confidencial, que parece ter por fim fazer-me calar.

Hancock endireitou-se na cadeira, apoiou-se ao tampo da secretária e olhou para ele num desafio.

— O senhor pôs-se logo a tirar ilações desde o princípio. Ilações absurdas. — Devo ser eu porventura a andar descalço pela estrebaria em vez de si? O tom de paciência que deu às palavras não era espontâneo. Brodersen tinha planeado a sua táctica no caminho, quando se dirigia para aquela entrevista. Continuou:

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disso, porém, vou-lho delinear de novo.

Hancock encheu os pulmões de fumo e aguardou. Pôs-se a refletir rapidamente quanto o discurso humano era, como nestas circunstâncias, árida repetição, se não mesmo mero ressoar do tanta, e perguntou no seu íntimo se os Outros também estariam sujeitos àquela necessidade ou se podiam falar chegando diretamente a um ponto pleno de significado.

— O robô descobriu um transporte da classe Reina a sair de uma passagem — disse ele. — É claro, a distância era muito grande para que fosse possível identificar a nave, mas nós, Humanos, não construímos nada de maior, e a configuração era a usual. Ou se tratava de uma Reina ou então de uma nave de não humanos, da mesma espécie geral. O robô descobriu nessa altura a Faraday a rodear a nave recém-chegada, e depois assinalou-as a ambas quando seguiam de Febo para Sol. Era o bastante para o seu programa o mandar regressar à base, dar conhecimento do que se passava.

“Ainda não mergulhei, Aurie, até tocar no fundo das coisas. Comecei por pedir aos meus agentes na Terra que me informassem do paradeiro exato das várias

Reinas nessa ocasião. Ficou demonstrado que nenhuma delas podia ser a que o meu

observador viu. Todas se encontravam no Sistema Solar ou neste aqui.

“Entretanto a Füraday voltava para Febo e retomava as suas atividades. Pedi a um diretor da Fundação que dirigisse ao capitão Archer um pedido muito polido, para saber o que se havia passado. Respondeu ele que não fora nada de extraordinário. Que uma nave de carga tivera certas dificuldades quando fazia a viagem ida de Sol e que a havia escoltado, como medida de precaução. Que não era uma Reina, nem uma Princesa, e que se isso não coincidia com os elementos fornecidos pelo nosso robô, melhor seria que lhe mandássemos fazer uma revisão à aparelhagem.

“Agora* veja, Aurie: -eu sei que o observador está em perfeita forma. Nestes termos, que diabo quer a senhora que eu pense? Ou que se trata de uma nave de não humanos ou que era a Emissário, o que, imagino eu, e a senhora concordará, é mais provável, sem dúvida nenhuma. De qualquer modo, é a maior história desde ... veja bem ... e ninguém de responsabilidade tem uma simples palavra a dizer sobre isto!

Brodersen inclinou-se para a frente. Com a ponta do cachimbo riscou uma curva no ar. E prosseguiu:

— Reconheço que, provavelmente, a maior parte daqueles a quem me dirigi, ou a quem os meus agentes se dirigiram, são pessoas honestas. Não tinham realmente qualquer conhecimento do que se estava a passar. Em alguns casos, deram-se ao trabalho de fazer diligências de sua própria iniciativa, e não obtiveram resultados positivos. É compreensível que não tenham então aprofundado mais a questão. Entendem que o seu tempo é valioso, e eu já ganhei a reputação de ser importuno. Por que razão haveriam eles de aceitar que as minhas informações fossem de confiança? Sem dúvida que alguns deles devem ter pensado que eu estava a mentir, por qualquer motivo não muito claro.

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melhor do que isso, não lhe parece? E, pela minha parte, quando entrei em contacto consigo pela primeira vez a este respeito e a senhora me disse que não sabia de nada, eu acreditei. Quando mais tarde lhe pedi de novo notícias e me respondeu que estava a investigar, acreditei também. A partir de então, contudo — e francamente —, tornei-me cada vez mais céptico. Para que me pediu então para vir hoje aqui?

Hancock amassou a ponta do cigarro no cinzeiro, tirou outro cigarro de uma caixa e acendeu-o num gesto vivo.

— Pretende o senhor que eu lhe quero tapar a boca — observou ela. — Chame-lhe o que muito bem entender. É isso mesmo que eu procuro fazer.

Estas palavras não foram totalmente uma surpresa para Brodersen. Este fez um esforço para que os músculos do ventre se descontraíssem e para que a sua resposta fosse envolvida num tom delicado.

— E porquê? Com que direito? Hancock enfrentou o seu olhar, sem fletir: — Recebi uma resposta às minhas consultas sobre o assunto. Resposta vinda de uma entidade altamente colocada. O interesse público exige que, por tempo ainda indeterminado, não se dêem notícias sobre o que se está a passar, isso abrange as ilações que o senhor tem andado a tirar.

— Interesse público? Ari, sim? — Sim. Desejo...

A mão de Hancock, ao levar o cigarro à boca, perdera bastante da sua firmeza.

— Dan — reatou Hancock quase com tristeza —, temos andado em conflito um com o outro. Compreendo quanto o senhor se opõe a certas medidas políticas da União e, por isso, se está a tornar um porta-voz de uma certa atitude entre os Demeterianos. No entanto, estimo-o e ousei esperar que acreditasse que também eu anseio pelo melhor futuro deste planeta. Trabalhamos juntos mesmo, não é verdade? Como quando eu pedi ao Conselho que se fizesse a apropriação extra para a Universidade que o senhor pretendia, ou quando o senhor fez pressão sobre o seu intratável parlamento colonial para aprovar a Lei Ecológica que, conforme eu o persuadi, se tinha tornado uma necessidade. Posso esperar hoje de si um pouco mais de confiança?

— Claro que pode — rosnou ele —, se me disser as razões que estão por detrás disto tudo.

Ela abanou a cabeça.

— Não posso. E o senhor compreende: também não me deram pormenores. É assunto espinhoso. Mas, no que se refere àqueles que solicitaram o meu auxílio, eu confio neles.

— Sobretudo em Ira Uuick — volveu Brodersen, sem poder neutralizar o tom ácido do remoque.

Hancock empertigou-se.

— Como quiser. Ele é ministro da Investigação e do Desenvolvimento. — E uma roda motora do Partido da Ação, que manobra todas essas facções na Terra que bem queriam não nos verem andar pelas galáxias — replicou

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Brodersen, refreando os seus impulsos. — Não, hão nos vamos pôr agora a discutir política. Que é que lhe é permitido dizer-me? Presumo que me possa dar alguma justificação, que me possa apontar algum motivo para andar a vigiar-me.

Hancock lançou o fumo para o ar enquanto fixava os olhos na ponta do cigarro a arder, que segurava em cima da mesa.

— Eles sugeriram-me uma situação hipotética. Imagine que o senhor tem razão, que a Emissário voltou, mas que trazia consigo qualquer coisa de terrível?

— Uma praga? Uma horda de vampiros? Valha-nos Santo André, Aurie! E valham-nos os quatro evangelistas!

— Podia simplesmente trazer más notícias. Nós admitimos como ponto assente uma porção de coisas. Por exemplo, que todas as civilizações tecnologicamente avançadas para além da nossa são civilizações pacíficas. Que de outro modo não se poderiam ter mantido. O que é um non sequitur lógico, no fim de contas. Suponha que a Emissário descobriu uma raça conquistadora de hunos interestelares.

— Se é essa a questão, duvido que os Outros continuassem tranqüilos nesse campo. No entanto, supondo que sim, eu haveria de querer alertar a minha espécie para podermos preparar, todos, a nossa defesa.

Hancock dirigiu a Brodersen um pálido sorriso.

— Este foi um exemplo que as circunstâncias me sugeriram. Reconheço que não é muito plausível.

— Então dê-me outro que o seja. Ela teve um sobressalto.

— Muito bem. Uma vez que o senhor mencionou os Outros, suponha que não há Outros.

— Como? Mas alguém construiu as máquinas T e nos deixa utilizá-las.

— Robôs. Quando os primeiros exploradores chegaram à máquina no Sistema Solar, a coisa que lhes falou não escondeu que era apenas um robô. Nós assentamos toda a concepção dos Outros apenas sobre a base daquilo que ele nos disse. O que é espantosamente pouco, Dan, se pensar bem. Suponha que a

Emissário nos trouxe a prova de que estávamos enganados. Que os Outros se

extinguiram. Ou que nunca existiram. Ou que são fundamentalmente um perigo. Ou tudo o mais que o senhor possa imaginar. O senhor é um herético nato. Não acha nada disto inconcebível, ou acha?

— N... não. Acho-o extremamente improvável. Mas suponhamos que é verdade, para termos uma base de raciocínio. E daí?

— O senhor podia ver as coisas a frio. É um espírito excepcional. Mas aconteceria porventura o mesmo com a humanidade no seu conjunto?

— Aonde quer a senhora chegar?

Uma vez mais Hancock levantou a cabeça, atormentada, para lhe fazer frente.

— O senhor gosta de ler a História — disse ela — e como homem empreendedor é uma espécie de político pragmático. Será preciso que eu lhe diga a si o que significaria isso? O esfrangalhar da nossa imagem dos Outros?

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