Proposta 1 Proposta 1 Grupo I Grupo I A A
Lê o excerto e responde de forma estruturada ao que te é pedido. Lê o excerto e responde de forma estruturada ao que te é pedido.
Tudo é absurdo. Este empenha a vida em ganhar dinheiro que guarda, e nem tem filhos a Tudo é absurdo. Este empenha a vida em ganhar dinheiro que guarda, e nem tem filhos a quem o deixe nem esperança que um céu lhe reserve uma transcendência desse dinheiro. Aquele quem o deixe nem esperança que um céu lhe reserve uma transcendência desse dinheiro. Aquele empenha o esforço em ganhar fama, para depois de morto, e não crê naquela sobrevivência que empenha o esforço em ganhar fama, para depois de morto, e não crê naquela sobrevivência que lhe dê o conhecimento da fama. Esse outro gasta-se na procura de coisas de que realmente não lhe dê o conhecimento da fama. Esse outro gasta-se na procura de coisas de que realmente não gosta. Mais adiante, há
gosta. Mais adiante, há um que(...)um que(...) Um lê para
Um lê para saber, inutilmente. Outro goza para viver, saber, inutilmente. Outro goza para viver, inutilmeninutilmente.te.
Vou num carro eléctrico, e estou reparando lentamente, conforme é meu costume, em todos Vou num carro eléctrico, e estou reparando lentamente, conforme é meu costume, em todos os pormenores das pessoas que vão adiante de
os pormenores das pessoas que vão adiante de mim. Para mim os pormenores são coisas, vozes,mim. Para mim os pormenores são coisas, vozes, letras. Neste vestido da rapariga
letras. Neste vestido da rapariga que vai em minha frente decomponho o vestido em o estofo deque vai em minha frente decomponho o vestido em o estofo de que se compõe, o trabalho com que o fizeram - pois que o vejo vestido e não estofo - e o bordado que se compõe, o trabalho com que o fizeram - pois que o vejo vestido e não estofo - e o bordado leve que orla a parte que contorna o pescoço separa-se-me em retrós de seda, com que se o leve que orla a parte que contorna o pescoço separa-se-me em retrós de seda, com que se o bordou, e o trabalho que houve de o bordar. E imediatamente, como num livro primário de bordou, e o trabalho que houve de o bordar. E imediatamente, como num livro primário de economia política, desdobram-se diante de mim as fábricas e os trabalhos - a fábrica onde se fez economia política, desdobram-se diante de mim as fábricas e os trabalhos - a fábrica onde se fez o tecido: a fábrica onde se fez o retrós, de um tom mais escuro, com que se orla de coisinhas o tecido: a fábrica onde se fez o retrós, de um tom mais escuro, com que se orla de coisinhas retorcidas o seu lugar
retorcidas o seu lugar junto do pescoço; e vejo as secções das junto do pescoço; e vejo as secções das fábricas, as máquinas, os operários,fábricas, as máquinas, os operários, as costureiras, meus olhos virados para dentro penetram nos escritórios, vejo os gerentes procurar as costureiras, meus olhos virados para dentro penetram nos escritórios, vejo os gerentes procurar estar sossegados, sigo, nos livros, a contabilidade de tudo; mas não é só isto: vejo, para além, as estar sossegados, sigo, nos livros, a contabilidade de tudo; mas não é só isto: vejo, para além, as vidas domésticas dos que vivem a sua vida social nessas fábricas e nesses escritórios... Todo o vidas domésticas dos que vivem a sua vida social nessas fábricas e nesses escritórios... Todo o mundo se me desenrola aos olhos s
mundo se me desenrola aos olhos só porque tenho diante de mim, abaixo de ó porque tenho diante de mim, abaixo de um pescoço moreno,um pescoço moreno, que de outro lado tem não sei que cara, um orlar irregular regular escuro sobre um que de outro lado tem não sei que cara, um orlar irregular regular escuro sobre um verde-claro de vestido.
claro de vestido.
Toda a vida social j
Toda a vida social jaz a meus olhos.az a meus olhos.
Para além disto pressinto os amores, as secrecias,
Para além disto pressinto os amores, as secrecias, a alma, de todos quantos trabalharam paraa alma, de todos quantos trabalharam para que esta mulher que está diante de mim no eléctrico use, em torno do seu pescoço mortal, a que esta mulher que está diante de mim no eléctrico use, em torno do seu pescoço mortal, a banalidade sinuosa de um retrós de
banalidade sinuosa de um retrós de seda verde-escura fazenda verde menos escura.seda verde-escura fazenda verde menos escura.
Entonteço. Os bancos do eléctrico, de um entretecido de palha forte e pequena, levam-me a Entonteço. Os bancos do eléctrico, de um entretecido de palha forte e pequena, levam-me a regiões distantes, multiplicam-se-me em indústrias, operários, casas de operários, vidas, regiões distantes, multiplicam-se-me em indústrias, operários, casas de operários, vidas, realidades, tudo.
realidades, tudo.
Saio do carro exausto e sonâmbulo. Vivi a vida inteira. Saio do carro exausto e sonâmbulo. Vivi a vida inteira.
Fernando Pessoa,
Fernando Pessoa, Livro do DesassossegoLivro do Desassossego 1.
1. No primeiro e no No primeiro e no segundo parágrafos há uma descrição dos diferentes comportamentos,segundo parágrafos há uma descrição dos diferentes comportamentos, explicita-os.
explicita-os. 2.
2. Explica a relação existente entre o enunciador observador e a «rapariga» que vê numExplica a relação existente entre o enunciador observador e a «rapariga» que vê num «carro elétrico».
«carro elétrico». 3.
3. Tendo em atenção a globalidade do texto, apresenta uma justificação para a afirmaçãoTendo em atenção a globalidade do texto, apresenta uma justificação para a afirmação «vivi a vida inteira».
«vivi a vida inteira». 4.
4. Refere a importância do verbo «reparando» para o sentido global do excerto.Refere a importância do verbo «reparando» para o sentido global do excerto. 5.
5. Qual o recurso expressivo presente em: «desdobram-se diante de mim as fábricas e osQual o recurso expressivo presente em: «desdobram-se diante de mim as fábricas e os retalhos»?. Evidencie o seu valor
B B
CENA I CENA I Madalena s
Madalena só, sentada juntó, sentada junto à banca, o à banca, os pés sobros pés sobre uma grande ae uma grande almofada, um lmofada, um livro aberto nlivro aberto no regaço, eo regaço, e as mãos cruzadas sobre ele, como quem descaiu da leitura na meditação.
as mãos cruzadas sobre ele, como quem descaiu da leitura na meditação. Madalena (repe
Madalena (repetindo maquintindo maquinalmente e devalmente e devagar o que acabagar o que acaba de ler)a de ler)
«Naquele ingano d’alma ledo e cego «Naquele ingano d’alma ledo e cego
que a fortuna não deixa durar muito» que a fortuna não deixa durar muito»
Com paz e alegria d’alma… um ingano, um ingano de poucos instantes que seja… deve de Com paz e alegria d’alma… um ingano, um ingano de poucos instantes que seja… deve de
ser a felicidade suprema neste mundo. E que importa que o não deixe durar muito a fortuna? ser a felicidade suprema neste mundo. E que importa que o não deixe durar muito a fortuna? Viveu-se,
pode-Viveu-se, pode-se morrer. Mas eu!… (Pausa). Oh! que o não saiba ele ao menos,se morrer. Mas eu!… (Pausa). Oh! que o não saiba ele ao menos, que não suspeite que não suspeite o estado em que eu vivo… este medo, estes contínuos terrores, que ainda me não deixaram gozar o estado em que eu vivo… este medo, estes contínuos terrores, que ainda me não deixaram gozar
um só momento de toda a imensa felicidade que me dava o seu amor. Oh! que amor, que um só momento de toda a imensa felicidade que me dava o seu amor. Oh! que amor, que
felicidade… que desgraça a minha! (Torna a descair em profun
felicidade… que desgraça a minha! (Torna a descair em profunda meditação; silêncio da meditação; silêncio breve).breve).
Almeida Garret,
Almeida Garret, Frei Luís de SousaFrei Luís de Sousa 6.
6. Justifica o momento de «meditação» em que se encontra D. Madalena, Justifica o momento de «meditação» em que se encontra D. Madalena, caracterizando ocaracterizando o seu estado de espírito.
seu estado de espírito. 7.
7. Explica a que se refere D. Madalena com a expressão «o estado em que eu vivo… esteExplica a que se refere D. Madalena com a expressão «o estado em que eu vivo… este
medo, estes contínuos terrores» com base no teu conhecimento da obra de onde foi medo, estes contínuos terrores» com base no teu conhecimento da obra de onde foi retirado o texto.
retirado o texto.
Grupo II Grupo II Na resposta aos
Miguel Torga,
1. No poema presente na entrada do dia 27 de Julho de 1982, o sujeito poético, através dos versos «Ainda a mesma nação,/Mas com outros sinais.»
A. Caracteriza um espaço.
B. Identifica um espaço com outro. C. Contrasta dois espaços.
D. Elogia um espaço.
2. Tem em atenção a frase «Retomei a enxada». Da sua relação com a frase «aqui agarrado ao teclado» conclui-se que o enunciador utiliza uma
A. Hipérbole. B. Personificação. C. Metáfora. D. Enumeração.
3. Para o diarista, a necessidade que sente em escrever tem origem na consciência da A. Eternidade.
B. Efemeridade. C. Fama.
D. Responsabilidade.
4. As palavras destacadas em «E o povo, na sua certeira sabedoria, entendeu-o bem e disse-o lapidarmente» concretizam marcas de coesão
A. Temporal. B. Lexical. C. Referencial. D. Frásica.
5. Na entrada do seu diário do dia 11 de agosto, o diarista comprova um A. Passado e um presente, respetivamente, para valorizar o primeiro. B. Presente e um passado, respetivamente, para valorizar o segundo. C. Presente e um passado, respetivamente, para desvalorizar o segundo. D. Passado e um presente, respetivamente, para desvalorizar o primeiro.
6. O diarista caracteriza-se, metaforicamente como leproso, «gafado», portador, pois, de uma doença contagiosa cujo sintoma principal é a
A. Debilidade física. B. Solidão mental.
C. Incapacidade de compreensão. D. Vontade de saber.
7. As duas atitudes referidas no final da entrado do diário relativamente à visita a Évora, -a mei-a voz e de ch-apéu n-a mão.» revel-am no visit-ante um sentimento de
A. Admiração. B. Alegria. C. Respeito. D. Confiança.
8. Indica o valor modal presente no verbo poder no enunciado «O sol salgado que me faltou em criança e a preguiça distendida que nunca pude ter de boa consciência pela vida fora.» 9. Identifica a função sintática da oração subordinada presente em «Sabemos que nada é
10. Classifica a oração subordinada «que tudo acaba».
Grupo III
A relação que os portugueses têm tido com o mar tem sido muito variada ao longo dos tempos, como o é ainda hoje.
Redige um texto de natureza expositiva, no qual apresentes modos de que se revestiu ou reveste essa relação.
Proposta 2
Grupo I A
Lê o excerto e responde de forma estruturada ao que te é pedido. A última nau
Levando a bordo El-Rei D. Sebastião, E erguendo, como um nome, alto o pendão Do Império,
Foi-se a última nau, ao sol aziago
Erma, e entre choros de ânsia e de pressago Mistério.
Não voltou mais. A que ilha indescoberta Aportou? Voltará da sorte incerta
Que teve?
Deus guarda o corpo e a forma do futuro, Mas Sua luz projecta-o, sonho escuro E breve.
Ah, quanto mais ao povo a alma falta, Mais a minha alma atlântica se exalta E entorna,
E em mim, num mar que não tem tempo ou ’spaço,
Vejo entre a cerração teu vulto baço Que torna.
Não sei a hora, mas sei que há a hora, Demore-a Deus, chame-lhe a alma embora Mistério.
Surges ao sol em mim, e a névoa finda: A mesma, e trazes o pendão ainda Do Império.
Fernando Pessoa, Mensagem. Glossário (presente na folha de prova)
aziago (verso 4)– que prenuncia desgraça.
cerração (verso 17) – nevoeiro denso; escuridão.
erma (verso 5) – solitária.
pendão (verso 2) – bandeira longa e triangular.
pressago (verso 5) – que pressagia, prevê ou pressente.
Questionário
Apresente, de forma clara e bem estruturada, as suas respostas aos itens que se seguem.
1. Integra este poema na estrutura da Mensagem, justificando a tua escolha.
2. Explicita três dos aspetos que, nos versos de 1 a 12, se referem ao mito sebastianista, fundamentando a tua resposta com elementos do texto.
3. Caracteriza a «nau» referida na primeira estrofe, com os elementos textuais pertinentes presentes nas duas primeiras estrofes.
4. Caracteriza, com base na terceira estrofe do poema, o modo como o sujeito poético e o povo português reagem ao desaparecimento da «última nau».
5. Relaciona o conteúdo da última estrofe com a pergunta «Voltará da sorte incerta / Que teve?», formulada nos versos 8 e 9.
6. Tem em atenção verso 19: «Não sei a hora, mas sei que há a hora,». Interpreta-o tendo em atenção o sentido global do poema.
7. Identifica, justificando, a quem se dirige o sujeito poético nos três últimos versos do poema.
8. Identifica, no poema, uma característica do discurso épico e uma característica do discurso lírico de Mensagem, citando um exemplo significativo para cada um dos casos.
B 5 10 15 20 25
[…] Chegados a 27 daquele mês, começou a necessidade de lançarem às ondas os primeiros companheiros que morreram de fome. Certos homens, nesse transe, lembraram-se de pedir a Jorge de Albuquerque a permissão de comerem aqueles cadáveres. Ao ouvir este horrível requerimento, arrasaram-se-lhe os olhos de água. Não, não podia ser; não o consentiria, enquanto vivesse; se morresse, porém, dava-lhes licença de o comerem a ele.
O desespero, então, levou alguns a uma outra ideia; arrombar a nau para acabarem de vez. Soube-o o Albuquerque, e impediu que o fizessem. O mais triste, porém, é que estavam os míseros divididos em bandos, e sonhavam com brigas — sendo todos uns espectros tão vizinhos da morte, e quase não se podendo conservar de pé. Jorge de Albuquerque, com mágoa infinita, os chamou à razão e os acalmou.
[…] A 2 de outubro, entre a neblina, pareceu-lhes divisar arrumação de terra. Cerca do meio-dia, dissipou-se a névoa. Maravilha! Deus louvado! Era a serra de Sintra! Lá estava, ao cimo das rochas, a própria casa da Senhora da Pena!
Mas não tinham maneira de se aproximar da praia. Iam numa carcaça sem governo algum. Chegando-se o navio para junto da terra, muitos trataram de preparar umas pranchas, para se lançarem ao mar; outros fantasiavam construir jangadas. Loucura, porque a costa ali é pedregosa e brava; e Jorge de Albuquerque dissuadiu-os de tal.
Avistaram-se numerosas velas, que se afastaram. Ao outro dia, 3 de outubro, amanheceram chegados ao cabo da Roca; e indo já a nau para dar à costa, passou perto uma caravela, que se dirigia para a Pederneira. Suplicaram-lhe socorro; pagar-lho-iam bem. Que Jesus lhes valesse, responderam eles; nada, não queriam perder tempo na sua viagem… E seguiram avante, sem nenhum dó.
Pouco depois, felizmente, avistaram uma barca pequenina, que navegava para a Atouguia. Começaram a bradar-lhes, de joelhos, que lhes valessem; e estando a barca a um tiro de berço, logo lhes acudiu com muita pressa.
Vinha a bordo dessa barca um Rodrigo Alvares de Atouguia, mestre e senhorio dela, e uns parentes e amigos seus. Todos começaram a esforçar os da nau. Não temessem nada; não os desamparariam, ainda que com risco de se perderem eles próprios. E não desejavam por i sso prémio algum.
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Vendo o estado em que estavam os da nau, ficaram atónitos. Logo lhes deram pão, água e frutas, que para si traziam.
O senhorio da barca, tanto que acabou de lhes dar de comer, passou-lhes um cabo de reboque com que afastaram a nau da rocha e a foram trazendo ao longo da costa até a baía de Cascais, aonde chegaram pelo sol-posto. Acorreram botes, em que se meteram; uns desembarcaram ali em Cascais; outros só em Belém tomaram terra. […]
«As terríveis aventuras de João de Albuquerque» in História Trágico Marítima 1. Explica a expressão: «Todos começaram a esforçar os da nau».
2. Descreve a atmosfera vivida no navio e relaciona-a com o papel de Jorge de Albuquerque no sentido de acalmar a tripulação.
3. Ao avistarem terra depois de terem passado muitas tormentas, os marinheiros acalentam novas expectativas que se vão gorando. Atenta no terceiro, quarto e quinto parágrafos do texto e explicita os sentimentos/emoções que a tripulação vai experimentando, transcrevendo elementos textuais que os comprovem.
Grupo II
Na resposta aos itens de escolha múltipla, seleciona a opção correta. GRUPO II
Lê, atentamente, o texto seguinte.
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A cidade de Santiago de Compostela é um dos muitos locais de peregrinação apropriados pela religião cristã. Escavações arqueológicas revelaram a existência de uma vila romana sob a cidade, e de um cemitério pré-cristão e um mausoléu pagão sob a catedral de Santiago. A prática de apropriação de locais sagrados e a importação de lendas cristianizantes eram muito comuns. O catolicismo aprendeu cedo que é mais difícil acabar com um foco de peregrinação, ou com um local de devoção do que criar uma lenda que o integre no
catolicismo.
Mais tarde, com os focos de peregrinação ligados a relíquias que começam a surgir na Idade Média, as práticas que lhes estão associadas assemelham-se bastante às práticas dos cultos pagãos e surge então a necessidade de uma nova apropriação destes locais de peregrinação através da imposição de práticas sacramentais na peregrinação. […]
Não há dúvida nenhuma que o Caminho se desenvolveu e se transformou na “autoestrada da Europa” por causa do catolicismo e das instituições ligadas à Igreja Católica, mas o passado mais distante, comprovado pelas escavações arqueológicas, está bem vivo para os peregrinos New Age ou místicos. É para o antigo templo pagão que eles caminham, seguindo a rota dos antigos druidas que iam ver o Sol apagar-se no mar em Finisterra (Charpentier, 1973).
O argumento de que a Igreja se apropriou de locais de culto anteriores ao
cristianismo é usado como estandarte pelo movimento New Age, que assim justifica a sua presença no seio de uma peregrinação tradicionalmente católica; a herança de uma peregrinação druídica, ou mesmo celta, transformam o caminho num percurso
iniciático, místico e esotérico. Ao aproveitar alguns argumentos sobre a sacralidade e simbolismo do caminho, veiculados pela própria Igreja, e rejeitar outros, manipula um mecanismo socialmente reconhecido em favor dos seus interesses. […]
Ana Catarina Mendes. Peregrinos a Santiago de Compostela: uma Etnografia do Cami nho Português. 2009. in http://repositorio.ul.pt/ [consultado em 5 de dezembro de 2014]
1.Para responderes a cada um dos itens,seleciona a única opção que permite obter uma afirmação correta.
Escreve, na folha de respostas, o número de cada item e a letra que identifica a opção escolhida.
1.1. A finalidade do texto é a demonstração de que a cidade de Santiago de Compostela é um local de peregrinação
(A)tradicionalmente católico, apesar das suas origens pagãs.
(C)druídico ou mesmo celta, mas com raízes católicas.
(D)indevidamente apropriado pela Igreja Católica como o afirma o movimento New Age.
1.2. A demonstração e a fundamentação das ideias sobre a cidade de Santiago de Compostela como local de peregrinação permitem inserir o texto acabado de ler no género
(A) da apreciação crítica.
(B) da exposição sobre um tema.
(C) da notícia.
(D) do documentário.
1.3.Relativamente ao argumento apresentado pelo movimento New Age a cerca da cidade de Santiago de Compostela como local de peregrinação, a autora
(A) não emite qualquer opinião.
(B) exprime a sua concordância.
(C) considera-o pertinente, atendendo às origens do local.
(D) considera-o manipulador.
1.4. A conjunção “ou” empregada na frase “ou com um local de devoção” (l. 10) tem um valor de
(A) adição.
(B) explicação.
(C) alternância.
(D) oposição.
1.5.Os fenómenos fonológicos que estiveram na base da evolução de sacratu>sagrado são
(A) palatalização.
(B) sonorização e síncope.
(C) síncope.
(D) sonorização.
1.6. A frase “que começam a surgir na Idade Média” (ll. 12-13) é uma oração
(A) subordinada adjetiva relativa explicativa.
(B) subordinada substantiva completiva.
(C) subordinada adjetiva relativa restrita.
(D) subordinada adverbial consecutiva.
1.7. O constituinte “comprovado pelas escavações arqueológicas” da frase “mas o passado mais distante, comprovado pelas escavações arqueológicas, está bem vivo para os peregrinos New Age ou místicos.” (ll. 17-19) desempenha a função sintática de
(A) modificador do nome apositivo.
(B) modificador do grupo verbal.
(C) complemento oblíquo.
(D) modificador do nome restritivo.
2. Responde aos itens apresentados.
2.2. Identifica a função sintática do segmento sublinhado em "A prática de apropriação de locais sagrados e a importação de lendas cristianizantes eram muito comuns". (ll. 6-8).
2.3. As palavras “sagrados” ( l. 7) e “sacramentais” (l. 15) provêm do étimo latinosacra-. De acordo
com os teus conhecimentos, dá dois exemplos de outras palavras provenientes do mesmo étimo e formadas por via erudita.
Grupo III
O apoio da família é fundamental para o desenvolvimento harmonioso do ser humano, nomeadamente na adolescência.
Redige um texto de opinião, no qual comproves que assim é, apresentando, pelo menos, dois argumentos e dois respetivos exemplos.
Proposta 3
Grupo I A
Lê o excerto e responde de forma estruturada ao que te é pedido.
Pareceu-me um fulano complicado, miudinho de carácter, basto obsessivo, explorador de pequenas vantagens até à náusea. No caso, ele era senhor duma embarcação e eu não conseguia transporte para a Ilha de Grimush. Não o larguei toda a manhã. Desconversava, dava evasivas, trejeitos, silêncios, voltava-me as costas para se ocupar em tarefas pífias, de linha e rede. Fazia-se caro e importantíssimo. Apetecia-me bater-lhe. Ser ele proprietário duma draga disforme, ferrugenta, empastada de limos e sujidade não lhe dava o direito de me tratar de alto. Se eu o esmurrasse talvez ele descesse a ser mais equitativo no trato, mas isso não me garantia o transporte.
Na véspera eu desesperava, desenganado de arranjar barco que me levasse. O velho ferry boat estava encostado há que meses, os pescadores que procurei, no cais, nas tabernas, riam-se de mim. «Para Grimush? Ora bem…!» Tinham medo de se fazer ao mar. Finalmente, um
veio atrás de mim, não sei se condoído do meu desalento se disposto a desfrutá-lo melhor. Ao dobrar duma esquina que fedia a molusco apodrecido, segredou-me: «Procure o Guedes, opatrão da draga! A draga passa…»
Nunca na vida tinha eu posto os pés numa draga. Vistas de longe pareciam-me sempre um amontoado de sucata, ineptas para o movimento, aparentadas aos velhos guindastes abandonados nos molhes, que apodrecem sobre calhas oxidadas. Mas parecia não ter alternativa. As esfinges revoltaram-se no Museu de Grimush, competia-me apaziguá-las e não era coisa que se resolvesse pelo telefone. Aí estava eu, humilhado, a suplicar ao da draga e ele a trocar-me as voltas. «Ná, não me calha! »
Foi já muito pela noite, ao balcão dum bar equívoco, enfeitado com redes de linho, teias de aranha e bolas de vidro coloridas, que o tal Guedes, exploradas todas as possibilidades de me enfadar e desiludir, concedeu:
«Acha que aguenta a viagem?»
«Mestre, estou por tudo, desde que me leve a Grimush.»
Madrugada, antes do sol, lá estava eu, na gordurosa plataforma, guardada por um tipo esquivo de brinco de latão em forma de oito numa orelha. Da cabina, o patrão não se dignou cumprimentar-me. Retirada a prancha, a draga foi deslizando, vagarosa, com um ruído atroador. Acomodei-me num recosto de chapas menos encardidas e adormeci, indiferente aos salpicos de mar.
O mestre acordou-me, já longe de terra: «Não convém dormir agora. Olhe!»
Apontava-me uma direcção. O tisnado tripulante tropeçou entre nós, a soluçar, num lanço desandado, e escondeu-se sob um cabrestante. O Guedes sorriu e encolheu os ombros. Lá longe, um rochedo escuro, tortuoso e esguio, lançava-se do mar, até grande altura. Gaivotas planavam em círculo branco, circunscrevendo o afiado píncaro.
Mário de Carvalho, «Carolina» in Contos vagabundos 1. Esclarece a relação entre o narrador e o «fulano», referido na primeira linha do texto, com
base no primeiro parágrafo.
2. Apresenta o espaço físico e o espaço social referidos no texto.
3. Explique o motivo de o «mestre» ter acordado o narrador dizendo-lhe que não lhe era conveniente não dormir.
B Subitamente que visão de artista!
-Se eu transformasse os simples vegetais, À luz do Sol, o intenso colorista,
Num ser humano que se mova e exista Cheio de belas proporções carnais?! Bóiam aromas, fumos de cozinha; Com o cabaz às costas, e vergando, Sobem padeiros, claros de farinha; E às portas, uma ou outra campainha Toca, frenética, de vez em quando. E eu recompunha, por anatomia, Um novo corpo orgânico, aos bocados. Achava os tons e as formas. Descobria Uma cabeça numa melancia,
E nuns repolhos seios injetados.
Cesário Verde, «Num bairro moderno», in Cânticos do realismo– O livro de Cesário Verde.
1. Comprova a presença de sensações variadas para exprimir a realidade observada. 2. Relaciona, justificando, o verso 1 com os versos 13 e 14: «Descobria/Uma cabeça numa
melancia».
Grupo II
Na resposta aos itens de escolha múltipla, seleciona a opção correta.
MARROCOS. MIRAGENS
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É meio-dia e estão 40 graus na penumbra da estação de camionagem de Marrakesh. Como eu, à espera da carreira para o Anti-Atlas, está um grupo eclético de marroquinos: camponeses berberes1 de saco de pele de cabra ao ombro, crianças que se colam às mãos maternas tatuadas de hena2, figuras soturnas de fundamentalistas barbudos bichanando sentenças ao tchador3 das mulheres, jovens liceais de regresso às aldeias natais mesclando vocábulos berberes, árabes e franceses, e sombras discretas de contrabandistas escondendo em sacos de plástico relógios chineses comprados em Ceuta. Para além da fidelidade ao rei e a Alá, há algo que parece unir este grupo: todos suam sob as jelabas4, as camisolas de lã quente ou os impermeáveis de plástico colorido.
Durante a travessia, deixo a caneta deambular sobre o caderno de papel, aproveitando os balanços da viagem para desenhar a paisagem que foge – um velho truque para fazer passar o tempo. E acabo por dormitar, embalado pelo som roufenho de uma nuba5, que se liberta do altifalante pregado ao espelho retrovisor sobre a cabeça do condutor.
Nas imediações de Taddert, sou acordado pelo frio dos picos do Alto Atlas. Enquanto procuro em vão uma camisola na minha mochila, sinto cair sobre mim o silêncio trocista dos viajantes indígenas, confortavelmente aconchegados nas suas roupas suadas. Era óbvio e tinha-me esquecido: para atravessar o Atlas há que esquecer o clima da planície.
Alguns dias depois, inspecionados os ksours6 reais do Oued Imini, e visitada a kasha7 de Ouarzazate, retomo a viagem em direção ao vale do Draa e à fronteira de Tindouf, na Argélia. Ao entrar para a camioneta, ouço um “olá”, que denuncia um indiscutível sotaque lisboeta. Sinto um suor frio e o estômago revolver-se: há um conterrâneo no interior. Vislumbro uma cara conhecida, alapada no banco traseiro, com a barba por fazer e a roupa
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mascarada pelo pó dos trilhos remotos do Rif e dos contrafortes do Atlas.
Após dois ameaços de avaria, a camioneta parte aos solavancos. O ruído do motor não se consegue sobrepor à conversa do conterrâneo, que me dessintoniza do mundo que me rodeia. Soletro monossílabos de contraponto ao relato entediante da sua viagem ao oued [ribeiro] de Ksar-e-Kibir, na esperança de lhe fazer entender que quando viajo quero perder a pátria e a língua.
Ele não sabe, e eu não lhe digo, que não me interessa andar a rebuscar a Lusitânia nos caixotes do lixo das histórias dos outros povos (exceção feita, admito sem rebuço, aos pastéis de nata londrinos). Não viajo para reencontrar raízes lusas e não me vejo contemplando fascinado as Portas de Santiago em Malaca, as ruínas barrocas e bolinhos de coco da Velha Goa, as derribadas estátuas coloniais de Bolama, ou os bares de praia de Fortaleza.
Enquanto monologa, o meu conterrâneo olha de sobrolho franzido o meu silêncio tumular. Por fim, cansa-se do meu laconismo, e eu apaziguo-me com o espírito da viagem. Discuto teologia comparada com Mohamed, um jovem tuaregue de Zagora que não resistiu à curiosidade e me pede para ver o meu caderno de desenhos sincopados pelo balanço das estradas marroquinas. Por fim, para além das montanhas que se fazem cada vez mais baixas, entrevejo o deserto de dunas.
Manuel João Ramos, revista "Fugas",Público. 2002. Glossário:
1.Berberes: relativo aos berberes, povo nómada do Norte de África. 2. Hena: tintura preparada com o pó seco das folhas desse arbusto, e que se utiliza, entre outras coisas, para fazer desenhos na pele. 3. Tchador:
peça de vestuário que consiste numa capa, geralmente escura, que cobre a cabeça e o corpo, deixando apenas a cara descoberta, usada por algumas mulheres muçulmanas. 4. Jelabas: peça de vestuário larga e comprida, com capuz e mangas largas, usada por alguns muçulmanos. 5. Nuba: Relativo ou pertencente ao
povo Nuba. 6.Ksours: celeiros fortificados, usados por uma ou várias tribos, quase sempre berberes. 7.
Kasha: cidadela cercada por muros ou muralhas existente em diversas cidades árabes do Norte da África.
1.Para responderes a cada um dos itens,seleciona a única opção que permite obter uma afirmação correta.
Escreve, na folha de respostas, o número de cada item e a letra que identifica a opção escolhida.
1.1.A finalidade deste texto é
(A)narrar as experiências do viajante em terras marroquinas, as suas descobertas e impressões.
(B)contar um encontro do viajante com um conterrâneo em Marrocos.
(C) dar informações objetivas acerca de Mar rocos.
(D) persuadir o leitor a visitar Mar rocos.
1.2.O texto apresenta uma estrutura em que é possível identificar os momentos s eguintes:
(A) pequeno resumo inicial do tema, desenvolvimento do assunto, retoma da ideia inicial.
(B) definição do tema, apresentação de informações referentes ao tema, síntese das informações.
(C) descrição do objeto da crítica, comentários pessoais, conclusão.
(D) definição de um itinerário, referência cronológica aos espaços percorridos, presença de impressões e de divagações.
1.3.Ao longo do texto, há uma
(A) alternância de registo de 2.ª e 3.ª pessoas.
(B) prevalência do discurso de 1.ª pessoa.
(C) prevalência do discurso de 3.ª pessoa.
(D) alternância de registo de 1.ª e 2.ª p essoas.
1.4.A presença simultânea de uma dimensão narrativa e de uma dimensã o descritiva, associadas a um discurs o subjetivo permitem afirmar que este texto é
(A) uma exposição sobre um tema.
(B) um artigo de divulgação científica.
(C) um relato de viagem.
(D) uma apreciação crítica.
1.5.Para o autor, viajar é
(A) uma forma de encontrar as suas raízes.
(B) uma maneira de esquecer a sua língua e o seu país.
(C) uma possibilidade de reencontrar conterrâneos.
(D) um pretexto para divulgar a sua língua e a sua cultura.
1.6.O segmento “o silêncio trocista” (l. 14) t em a função sintática de
(A) sujeito.
(B) complemento do nome.
(C) complemento indireto.
(D) complemento direto.
1.7.Com a expressão “silêncio tumular” (l. 32) o autor recorre a uma (A) antítese.
(B) enumeração.
(C) metáfora.
(D) comparação.
2. Responde aos itens apresentados.
2.1. Divide eclassificaas orações em “É meio-dia e estão 40 graus na penumbra da estação de camionagem de Marrakesh.” (l.1).
2.2. Identifica a função sintática desempenhada pelo pronome sublinhado na frase “Soletro monossílabos de contraponto ao relato entediante da sua viagem ao oued [ribeiro] de Ksar-e-Kibir, na esperança de lhe fazer entender que quando viajo quero perder a pátria e a língua.” (ll. 24-26).
2.3. Classifica o tipo de sujeito presente na frase “Por fim, para além das montanhas que se fazem cada ve z mais baixas, entrevejo o deserto de dunas.” (ll. 35-36).
Grupo III
Casamento: nome masculino. (Decasar +-mento)
1. ato ou efeito de casar
2. DIREITO contrato civil celebrado entre duas pessoas segundo o qual se estabelecem deveres conjugais; matrimónio
3. cerimónia que celebra o estabelecimento desse contrato; boda 4. situação que resulta do ato de casar
5. estado de casado 6. figurado enlace, união
7. figurado combinação
In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-01-13].
Segundo o Código Civil Português, o casamento, como a mais importante fonte
das relações familiares, é definido no art. 1577.º:
“Casamento é o contrato celebrado entre duas pessoas que pretendem constituir família mediante uma plena comunhão de vida, nos termos das disposições deste Código”.
As duas definições de casamento apresentadas falam da união entre duas pessoas. No entanto, o casamento nem sempre corresponde a essa verdadeira união.
Redige uma exposição sobre o papel do cas amento na sociedade atual, num texto de cento e oitenta a duzentas e cinquenta palavras.
Proposta 4
Grupo I A
Lê o excerto e responde de forma estruturada ao que te é pedido.
Não é verdade
Cai, como antigamente, das estrelas um frio que se espalha na cidade. Não é noite nem dia, é o tempo ardente da memória das coisas sem idade O que sonhei cabe na s tuas mãos gastas a tecer melancolia:
um país crescendo em lib erdade, entre medas de trigo e alegria. Porém a morte passeia nos quartos, ronda as esquinas, entra nos navios, o seu olhar é verde, o seu vestido branco, cheiram a cinza os seus dedos frios. Entre um céu sem cor e montes de carvão o ardor das estações cai apodrecido; os mastros e as casas escorrem sombra, só o sangue brilha endurecido.
Não é verdade tanta loja de perfumes, não é verdade tanta ro sa decepada, tanta ponte de fumo, tanta roupa escura, tanto relógio, tanta pomba assassinada. Não quero para mim tanto veneno, tanta madrugada varrida pelo gelo nem olhos pintados onde morre o dia, nem beijos de lágrimas no m eu cabelo. Amanhece.
Um galo risca o silêncio desenhando o teu rosto nos telhados. Eu falo do jardim onde começa
Um dia claro de amantes enlaçados.
Eugénio de Andrade, As palavras interditas
1. Esclarece a relação do sujeito poético com a pessoa a que se refere o poema. 2. Apresenta a realidade descrita pelo sujeito poético.
3. Comprova a presença da personificação no poema, justificando e referindo o seu v alor literário.
B
5
10
15
20
a este moto alheio:
Verdes são os campos de côr do limão: assi são os olhos do meu coração. VOLTAS
Campo, que te estendes com verdura bela;
ovelhas, que nela vosso pasto tendes; d' ervas vos mantendes que traz o Verão,
e eu das lembranças do meu coração.
Gados, que paceis1, co contentamento vosso mantimento não no entendeis: isso que comeis não são ervas, não: são graças dos olhos do meu coração.
Luís de Camões,Rimas.
Glossário:
1. paceis: apascentar; pastar.
Apresenta, de forma bem estruturada, as tuas respostas aos itens que se seguem.
1. Identifica os elementos da natureza interpelados pelo sujeito poético, fundamentado a tua resposta com as marcas linguísticas.
2. Relaciona a interpelação aos interlocutores com o assunto da cantiga.
3. Avalia o efeito de sentido da substituição da comparação que surge no mote do poema pela metáfora final.
Grupo II
Na resposta aos itens de escolha múltipla, seleciona a opção correta.
5
10
15
20
Ao outro dia atravesso de novo os Flamengos pela estrada municipal, entre casebres e rocas de hércules de floração amarela. A estrada sobe e do alto vejo melhor o côncavo recolhido e verde, Farrobo, Santo Amaro, o largo vale da Praia e Chão Frio, dividido entre talhões de milho e centeio – nota de abundância e de paz dum verde sempre fresco e viçoso, sob um céu muito azul, o céu esmaltado dos Açores. […]
Subo até à ermida de S. João. O mato é severo, encostas revestidas de mofedos 1, de junco de vassoura, de rapa2, que dá uma flor roxa, de trevo bravo, de rosmaninho cheio
de bagas vermelhas… Tenho diante de mim, dum lado a cratera, com duas léguas de circunferência e trezentos metros de fundo; ao outro, o amplo panorama – mar e terra, montes e vales – o mar e o Pico, um Pico estranho, suspenso no céu e pousado num oceano de nuvens brancas. Só o cume, mas o cume é uma montanha enorme e esguia, porque, à medida que fomos subindo, o Pico foi crescendo também. Volto-me e a meus pés abre-se o enorme buraco verde-negro revestido de cedros e de urze até ao lado de água choca e lama esverdeada, donde irrompe um cabeço com outra cratera minúscula dum tom acastanhado. O espetáculo é sombrio e belo. Só a caldeira mais pequena, perfeita como miniatura, é uma nota de ternura neste isolamento: parece filha da outra. Está ali a criá-la, sabe Deus para que destinos, naquele buraco ao mesmo tempo poético e feroz. Se arranco os olhos da cratera, encontro a amplidão infinita, o altar majestoso do Pico, as nuvens que ele apanha no céu e a que dá formas imprevistas, e o mar liso até ao horizonte, fechado pela barra roxa de S. Jorge e pela mancha desvanecida da Graciosa. Violeta das águas imóveis, verde-pálido da terra, céu de esmalte por cima… Despeço -me do abismo solitário
Raul Brandão. As Ilhas desconhecidas: notas e paisagens.
Glossário:
1.mofedos: excesso de vegetação; 2. rapa: espécie de carqueja.
1.Para responderes a cada um dos itens,seleciona a única opção que permite obter uma afirmação correta.
Escreve, na folha de respostas, o número de cada item e a letra que identifica a opção escolhida.
1.1.Este texto é um relato de viagem, porque o autor
(A)demonstra a especificidade da paisagem da ilha do Pico.
(B) narra a sua viagem e descreve as paisagens com que se vai deparando.
(C) expõe informação seletiva e rigorosa sobre a paisagem vulcânica do Pico.
(D) descreve sucintamente os Açores, acompanhando a sua descrição com comentários críticos.
1.2.No contexto em que ocorre a afirmação “o altar majestoso do Pico, as nuvens que ele apanha no céu e a que dá formas imprevistas,” (ll. 17-18), o autor destaca
(A) o caráter sagrado desta paisagem única e divina.
(C) o fascínio pela paisagem aérea vista do Pico.
(D) o culto pela ilha do Pico e o caráter irrepetível da paisagem a ele associada.
1.3.O adjetivo “viçoso” (l. 4) significa (A) inesperado.
(B) com diferentes tonalidades.
(C) cheio de vigor.
(D) suave.
1.4.Com a afirmação “mar e terra, montes e vales” (l. 9) o autor recorre a duas (A) antíteses.
(B) enumerações.
(C) apóstrofes.
(D) hipérboles.
1.5.O sujeito da frase “e a meus pés abre-se o enorme buraco verde-negro revestido de cedros e de urze até ao lado de água choca e lama esverdeada” (ll. 12-13) é
(A) nulo subentendido.
(B) nulo indeterminado.
(C)“o enorme buraco verde-negro revestido de cedros e de urze”.
(D)“a meus pés”.
1.6. O segmento “poético e feroz” da frase “naquele buraco ao mesmo tempo poético e feroz” (l. 16) desempenha a função sintática de
(A) complemento do adjetivo.
(B) predicativo do complemento direto.
(C) complemento do nome.
(D) modificador do nome restritivo.
1.7.A conjunção subordinativa presente na frase “Se arranco os olhos da cratera, encontro a amplidão infinita” (ll. 16-17), pode ser substituída por
(A) embora.
(B) caso.
(C) visto que.
(D) dado que.
2. Responde aos itens apresentados.
2.2. Atentana frase “Volto-me e a meus pés abre-se o enorme buraco verde-negro” (l. 12) econstrói um campo semântico composto por quatro ocorrências da palavra “pé”.
2.3. Transcreve a oração subordinada adverbial condicional da seguinte frase “S e arranco os olhos da cratera, encontro a amplidão infinita, o altar majestoso do Pico, as nuvens que ele apanha no cé u e a que dá formas imprevistas, e o mar liso até ao horizonte, fechado pela barra roxa de S. Jorge e pela mancha desvanecida da Graciosa.” (ll. 16-19).
GRUPO III
“A natureza pode suprir todas as necessidades do homem, menos a sua ganância.”
Mahatma Gandhi
Considerando as palavras de Mahatma Gandhi, acima transcritas, redige uma exposição, devidamente estruturada, sobre o papel do homem na defesa da terra, num texto de cento e oitenta a duzentas e cinquenta palavras.
Proposta 5
Grupo I A
Lê o excerto e responde de forma estruturada ao que te é pedido.
s. A máquina estremeceu, oscilou como se procurasse um equilíbrio subitamente perdido, ouviu-se um rangido geral, eram as lamelas de ferro, os vimes entrançados, e de repente, como se a aspirasse um vórtice luminoso, girou duas vezes sobre si própria enquanto subia, mal ultrapassara ainda a altura das paredes, até que, firme, novamente equilibrada, erguendo a sua cabeça de gaivota, lançou-se em flecha, céu acima. Sacudidos pelos bruscos volteios, Baltasar e Blimunda tinham caído no chão de tábuas da máquina, mas o padre Bartolomeu Lourenço agarrara-se a um dos prumos que sustentavam as velas, e assim pôde ver afastar-se a terra a uma velocidade incrível, já mal se distinguia a quinta, logo perdida entre colinas, e aquilo além, que é, Lisboa, claro está, e o rio, oh, o mar, aquele mar por onde eu, Bartolomeu Lourenço de Gusmão, vim por duas vezes do Brasil, o mar por onde viajei à Holanda, a que mais continentes da terra e do ar me levarás tu, máquina, o vento ruge-me aos ouvidos, nunca ave alguma subiu tão alto, se me visse el-rei, se me visse aquele Tomás Pinto Brandão que se riu de mim em verso, se o Santo Ofício me visse, saberiam todos que sou filho predileto de Deus, eu sim, que estou subindo ao céu por obra do meu génio, por obra também dos olhos de Blimunda, se haverá no céu olhos como eles, por obra da mão direita de Baltasar, aqui te levo, Deus, um que também não tem a mão esquerda, Blimunda, Baltasar, venham ver, levantem-se daí, não tenham medo. Não tinham medo, estavam apenas assustados com a sua própria coragem. O padre ria, dava gritos, deixara já a segurança do prumo e percorria o convés da máquina de um lado a outro para poder olhar a terra em todos os seus pontos cardeais, tão grande agora que estavam longe dela, enfim levantaram-se Baltasar e Blimunda, agarrando-se nervosamente aos prumos, depois à amurada, deslumbrados de luz e de vento, logo sem nenhum susto, Ah, e Baltasar gritou, Conseguimos, abraçou-se a Blimunda e desatou a chorar, parecia uma criança perdida, um soldado que andou na guerra, que nos Pegões matou um homem com o seu espigão, e agora soluça de felicidade abraçado a Blimunda, que lhe beija a cara suja, então, então. O padre veio para eles e abraçou-se também, subitamente perturbado por uma analogia, assim dissera o italiano, Deus ele próprio, Baltasar seu filho, Blimunda o Espírito Santo, e estavam os três no céu, Só há um Deus, gritou, mas o vento levou-lhe as palavras da boca. Então Blimunda disse, Se não abrirmos a vela, continuaremos a subir, aonde iremos parar, talvez ao sol. José Saramago, Memorial do Convento.
José Saramago, Memorial do Convento 1. Distinga no texto, dados e personagens históricos e ficcionados.
2. Identifica os fatores a que se atribui, no texto, a subida da passarola.
3. Interpreta a comparação subentendida entre a subida de Bartolomeu de Gusmão e a subida de Cristo ao céu.
B A Débil
Eu, que sou feio, sólido, leal, A ti, que és bela, frágil, assustada, Quero estimar-te sempre, recatada Numa existência honesta, de cristal. Sentado à mesa dum café devasso, Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura, Nesta Babel tão velha e corruptora, Tive tenções de oferecer-te o braço. E, quando socorreste um miserável, Eu, que bebia cálices de absinto, Mandei ir a garrafa, porque sinto
Que me tornas prestante, bom, saudável. "Ela aí vem!" disse eu para os demais; E pus-me a olhar, vexado e suspirando, O teu corpo que pulsa, alegre e brando, Na frescura dos linhos matinais.
Via-te pela porta envidraçada;
E invejava,— talvez que não o suspeites!
-Esse vestido simples, sem enfeites, Nessa cintura tenra, imaculada. Ia passando, a quatro, o patriarca. Triste eu saí. Doía-me a cabeça. Uma turba ruidosa, negra, espessa, Voltava das exéquias dum monarca. Adorável! Tu, muito natural,
Seguias a pensar no teu bordado;
Avultava, num largo arborizado, Uma estátua de rei num pedestal. Sorriam, nos seus trens, os titulares; E ao claro sol, guardava-te, no entanto, A tua boa mãe, que te ama tanto,
Que não te morrerá sem te casares! Soberbo dia! Impunha-me respeito A limpidez do teu semblante grego; E uma família, um ninho de sossego, Desejava beijar sobre o teu peito. Com elegância e sem ostentação, Atravessavas branca, esbelta e fina, Uma chusma de padres de batina, E de altos funcionários da nação. "Mas se a atropela o povo turbulento! Se fosse, por acaso, ali pisada!"
De repente, paraste embaraçada Ao pé dum numeroso ajuntamento. E eu, que urdia estes fáceis esbocetos, Julguei ver, com a vista de poeta,
Uma pombinha tímida e quieta
Num bando ameaçador de corvos pretos. E foi, então, que eu, homem varonil, Quis dedicar-te a minha pobre vida, A ti, que és tênue, dócil, recolhida, Eu, que sou hábil, prático, viril.
Cesário Verde, in 'O Livro de Cesário Verde'
1. Identifique a hipálage presente na segunda estrofe e explique o seu valor expressivo. 2. Esclarece a influência que a rapariga exerce no poeta.
3. O poeta, com a sua visão de artista, transfigura a realidade. Localiza no poema e interpreta essa transfiguração do real.
4. Partindo do teu estudo da poesia de Cesário Verde, comenta, exemplificando, os diferentes tipos de figuras femininas presentes nos seus poemas.
Grupo II
Na resposta aos itens de escolha múltipla, seleciona a opção correta.
Este livro reúne alguns dos textos que mensalmente e ao longo dos últimos anos fui publicando […]. A
estranheza do título justifica uma explicação, para que ele não passe como um mero exercício de estilo.
Quando era pequeno – muito pequeno, talvez oito ou nove anos – lembro-me de estar deitado na
banheira, em casa dos meus pais, a ler um livro de quadradinhos. Era uma aventura do David Crockett, o desbravador do Kentucky e do Tenessee, que haveria de morrer na mítica batalha do Forte Álamo. Nessa história, o David Crockett era emboscado por um grupo de índios, levava com um machado na cabeça, ficava inconsciente e era levado prisioneiro para o acampamento índio. Aí, dentro de uma tenda, havia uma índia muito bonita –
uma «squaw», na literatura do Far-West– que cuidava dele, dia e noite, molhando-lhe a testa com água, tratando
das suas feridas e vigiando o seu coma. E, a certa altura, ela murmurava para o seu prostrado e inconsciente guerreiro: «não te deixarei morrer, David Crockett!»
Não sei porquê, esta frase e esta cena viajaram comigo para sempre, quase obsessivamente. Durante muito tempo, preservei-as à luz do seu significado mais óbvio: eu era o David Crockett, que queria correr mundo e riscos, viver aventuras e desvendar Tenessees. Iria, fatalmente, sofrer, levar pancada e ficar, por vezes, inconsciente. Mas ao meu lado haveria sempre uma índia, que vigiaria o meu sono e cuidaria das minhas feridas, que me passaria a mão pela testa quando eu estivesse adormecido e me diria: «não te deixarei morrer, David Crockett!» E, só por isso, eu sobreviveria a todos os combates. Banal, elementar.
Porém, mais tarde, comecei a compreender mais coisas sobre as emboscadas, os combates e o comportamento das índias perante os guerreiros inconscientes. Foi aí que percebi que toda a minha interpretação daquela cena estava errada: o David Crockett representava sim a minha infância, a minha crença de criança numa vida de aventuras, de descobertas, de riscos e de encontros. Mas mais, muito mais do que isso: uma espécie de pureza inicial, um excesso de sentimentos e de sensibilidade, a ingenuidade e a fé, a hipótese fantástica da felicidade para sempre. [...]
Miguel Sousa Tavares, Não Te Deixarei Morrer, David Crockett,
Para responder aos itens de 1 a 6, escreva, na folha de respostas, o número do item seguido da letra identificativa da alternativa correta.
1. Com a afirmação «esta frase e esta cena viajaram comigo para sempre» (linha 13), o autor quer dizer que: A. se sentia marcado para toda a vida por aquela frase e por aquela cena.
B. transportava consigo, sempre que viajava, um livro sobre David Crockett. C. se lembrava daquela frase e daquela cena sempre que viajava.
D. tinha aquela frase gravada na pasta que usava em viagem.
2. Na frase iniciada por «Foi aí que» (linha 21), o autor assinala o momento em que A. leu a história aventurosa e acidentada do desbravador David Crockett.
B. tomou consciência de que David Crockett era o símbolo da sua infância. C. sentiu a necessidade de preservar na memória o herói David Crockett. D. julgou que era David Crockett, o mítico combatente de Forte Álamo.
3. A perífrase verbal em «e ao longo dos últimos anos fui publicando» (linhas 1 e 2) traduz uma ação: A. momentânea, no passado.
B. repetida, do passado ao presente. C. apenas começada, no passado. D. posta em prática, no momento.
4. A locução «para que» (linha 2) permite estabelecer na frase uma relação de A. causalidade.
B. completamento. C. finalidade.
D. retoma.
5. O uso de travessão duplo (linha 4) justifica-se pela necessidade de A. destacar uma explicitação.
B. registar falas em discurso direto. C. marcar alteração de interlocutor. D. sinalizar uma conclusão.
6. O uso repetido do nome «David Crockett» (linhas 6, 7, 12, 15, 19, 22) A. constitui um mecanismo de coesão lexical.
B. assegura a progressão temática. C. constitui um processo retórico.
D. assegura a coesão interfrásica do texto.
7- Para responder, escreve o número do item, a letra identificativa de cada afirmação e, a seguir, uma das letras, «V» para as afirmações verdadeiras ou «F» para as afirmações falsas.
A. O segmento textual «Este livro reúne alguns dos textos que mensalmente e ao longo dos últimos anos fui publicando» (linhas 1 e 2) constitui um ato ilocutório diretivo.
B. O constituinte «inconsciente» em «Nessa história, o David Crockett (...) ficava inconsciente» (linhas 7 e 8) desempenha, na frase, a função de predicativo do sujeito.
C. Os vocábulos «batalha» (linha 7) e «combates» (linhas 19 e 21) mantêm entre si uma relação de antonímia. D. O antecedente do pronome relativo «que» (linha 10) é «uma índia muito bonita» (linha 9).
E. Em «molhando-lhe a testa com água, tratando das suas feridas e vigiando o seu coma» (linhas 10 e 11), as formas verbais «molhando», «tratando» e «vigiando» traduzem o modo continuado como a índia cuidava de David Crockett.
F. Na frase «ela murmurava para o seu prostrado e inconsciente guerreiro» (linhas 11 e 12), os adjetivos têm um valor restritivo.
G. Em «não te deixarei morrer, David Crockett!» (linha 12), «te» e «David Crockett» são referências deíticas pessoais.
H. Na frase «preservei-as à luz do seu significado mais óbvio» (linha 14), o referente de «as» é «esta frase e esta cena» (linha 13).
I. A frase «que vigiaria o meu sono» (linha 17) é subordinada relativa restritiva.
J. O conetor «Porém» (linha 20) introduz uma relação de oposição entre o que anteriormente foi dito e a ideia exposta posteriormente.
Grupo III
“Acho que damos pouca atenção àquilo que efetivamente decide tudo na nossa vida, ao órgão que levamos dentro da cabeça: o cérebro. Tudo quanto estamos por aqui a dizer é um produto dos poderes ou das capacidades do cérebro: a linguagem, o vocabulário mais ou menos extenso, mais ou menos rico, mais ou m enos expressivo, as crenças, os amores, os ódios, Deus e o diabo, tudo está dentro da nossa cabeça. Fora da nossa cabeça não há nada. Ou melhor, há o que os nossos órgãos podem ter criado como image m.”
José Saramago, in Tabu, 19 de abril de 2008
Num texto bem estruturado, com um mínimo de duzentas e um máximo de trezentas palavras, apresenta a tua opinião sobre a importância e a supremacia do cérebro nas vivências do ser humano. Fundamenta o teu ponto de vista recorrendo, no mínimo, a dois argumentos e ilustra cada um deles com, pelo menos, um exemplo significativo.
Proposta 6
Grupo I A
Lê o excerto e responde de forma estruturada ao que te é pedido.
105
O recado que trazem é de amigos, Mas debaxo o veneno vem coberto, Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos, Ó caminho de vida nunca certo,
Que, aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106
No mar tanta tormenta e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Luís de Camões,Os Lusíadas
1. Situa esta reflexão em função da estrutura global d’ Os Lusíadas, atendendo ao plano estrutural
representado.
2. Interpreta os dois versos finais da estância 105.
3. Atenta nos quatro versos finais da estância 106 e explica de que modo podem encerrar uma valorização
B (40 pontos)
Lê o seguinte poema e consulta as notas apresentadas. Nox
Noite, vão para ti meus pensamentos, Quando olho e vejo, à luz cruel do dia, Tanto estéril lutar, tanta agonia,
E inúteis tantos ásperos tormentos... Tu, ao menos, abafas os lamentos, Que se exalam da trágica enxovia... O eterno Mal, que ruge e desvaria,
Em ti descansa e esquece alguns momentos... Oh! Antes tu também adormecesses
Por uma vez, e eterna, inalterável, Caindo sobre o Mundo, te esquecesses, E ele, o Mundo, sem mais lutar nem ver, Dormisse no teu seio inviolável,
Noite sem termo, noite do Não-ser! Antero de Quental, in "Sonetos"
1. Divide o texto em duas partes lógicas, justificando.
Grupo II
Nas respostas aos itens de escolha múltipla, seleciona a opção correta.
Escreve, na folha de respostas, o número do item e a letra que identifica a opção escolhida.
Ecos de Camões em Cesário Verde
5 10 15 20 25 30
No cerne do poema épico de Camões está o mar, espaço percorrido pelas naus de Vasco da Gama, ma s também cenário mítico em que decorrem os vários planos da narração que complexificam a temática do texto, fazendo da viagem à Índia a jornada simbólica em que Camões retrata a saga dos Lusíadas. (…)
O mar das navegações é para o autor d’Os Lusíadas o símbolo ambíguo de Portugal (…). O tempo passado vê-se elevado à categoria simbólica do Bem absoluto, com a gl ória, a harmonia e o ideal coletivo por corolários; e o mar é o espaço da viagem aventurosa em busca de novos mundos, é a possibili dade de partir, levando a outros lugares a energia positiva dos navegadores e do povo que eles representam.
Uma tal perspetiva que coloca a par a visão épica e positivada do passado com um presente decetivo e de impasse, tem múltiplos ecos na história literária nacional. Detenhamo-nos por agora em dois exemplos disso, colhidos em textos de fins de oitocentos, período em que retorna essa memória do passado histórico, como via da busca de um esteio que sustente o presente de inquietação e de mudança: tomemos “O Sentimento dum Ocidental” de Cesário Verde (…).
O poema de Cesário foi publicado no número Portugal a Camões do Jornal de Viagens de 10 de junho de 1880, uma das edições comemorativas de um centenário que erigira Os Lusíadas e o épico em
porta-bandeiras do nacionalismo; tal perspetiva não atraía o poeta de “O Sentimento dum Ocidental”, que se situa à margem do tom laudatório e exaltado de outros seus contemporâneos. Com efeito, Cesário trabalhará a sua homenagem no arame frágil do paradoxo, tratando os temas da épica (o mar, a viagem, o herói) por um prisma decetivo.
O mar está presente como elemento espacial, situando desde o título o sujeito do poema como um ocidental, oriundo das mesmas mas tão mudadas praias que viram partir os descobridores; na primeira secção, o sujeito desloca-se ao longo dos cais que figuram a possibilidade de partir, sim, mas para outros – não para o “eu” errante, só, presa de um spleen [tédio] que lhe faz sentir como fechado um espaço
fisicamente aberto. Esse tema estende-se ao modo como é vista a gare de onde partem os outros, “Felizes!”, para o mundo mítico da Europa cosmopolita (“Madrid, Paris, Berlim, S. Petesburgo, o mundo!, I, 3”); notemos também como aos cais do presente, herdeiros daqueles de que partiram as naus das Descobertas, se atracam agora botes (I, 5), caricaturas dessa grandiosidade perdida, ou como a partir deles se avista ao largo “o couraçado inglês” (I, 7) que representa o poderio estrangeiro e assinala a decadência e a impotência da pátria.
Paula Morão, “Ecos de Camões em Cesário Verde e em Nobre”, inRomânica, Revista de Literatura, n.º 1/2,
Lisboa: Ed. Cosmos, 1992, p. 27.
1. O mar é,n’Os Lusíadas,
A. simultaneamente, um espaço real e perigoso. B. um espaço com duplo significado: real e simbólico.
C. o espaço que permite a concretização de um sonho pessoal. D. um espaço desejado, mas nunca navegado.
2. Cesário Verde homenageia Camões
A. num tom elogioso e elevado.
B. comungando a perspetiva nacionalista das comemorações d’ Os Lusíadas.
C. ao publicar a sua obra literária.
D. de modo marginal ao dos seus contemporâneos.
3.O “Sentimento dum Ocidental” adota uma perspetiva
A. subversiva do imaginário épico.
B. épica, de ações grandiosas e heróis sublimes. C. eufórica para exaltar os antigos heróis nacionais. D. pessimista causada pela sua fragilidade.
4.“Cesário Verde” (l.14), o “poeta de ‘O Sentimento dum Ocidental’” (ll.17-18) e “Cesário” (l.19) contribuem
A. para a coesão interfásica. B. para a coesão frásica. C. para a coesão referencial.
D.para a coesão lexical.
5.No segmento “para o mundo mítico da Europa cosmopolita (“Madrid, Paris, Berlim, S. Petesburgo,”)
(ll. 26-27), os vocábulos sublinhados mantêm entre si uma relação semântica de A. meronímia-holonímia.
B. hiponímia-hiperonímia. C. hiperonímia-hiponímia. D. holonímia-meronímia.
6. Identifica a função sintática da expressão “de Cesário” (l. 15). 7. Indica o processo de formação da palavra “porta-bandeiras” (l. 17).
8. Indica o antecedente do pronome pessoal presente em “que lhe faz sentir como fechado um espaço fisicamente aberto.” (ll. 25-26).
Grupo III
Na nossa Era surge o conceito de navegação associado à Internet. Esta, tal como a navegação marítima dos marinheiros portugueses na época das descobertas, traz benefícios e encerra perigos.
Num texto bem estruturado, com um mínimo de duzentas e um máximo de trezentas palavras, apresenta uma reflexão sobre as vantagens e os riscos da navegação na Internet.
Fundamenta o teu ponto de vista, recorrendo a dois argumentos, ilustrando cada um deles com, pelo menos, um exemplo significativo.
Proposta 7
Grupo I A
Lê o excerto e responde de forma estruturada ao que te é pedido.
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10
15 D. Miguel anda, no
palco, dum lado para o outro, com passos decididos. 20 25 30 35 CORVO
Mas, senhores, nada prova que o general seja o chefe da conjura.
Tudo o que se diz pode não passar de um boato…
D. MIGUEL
Cale-se! Onde está a sua dedicação a el-rei, capitão? PRINCIPAL SOUSA
Agora me lembro de que há anos, em Campo d’Ourique, Gomes Freire
prejudicou muito a meu irmão Rodrigo!
D. MIGUEL
Se eu fosse falar do ódio que lhe tenho…
BERESFORD
O marquês de Campo Maior tem razões para odiar a Gomes Freire…
D. MIGUEL
E, agora, meus senhores, ao trabalho! Para que o país não se levante em defesa dos conjurados há que prepará-lo previamente. Há gente, senhores, que sente grande ardor patriótico sempre que os seus interesses estão em perigo. Há que provocar esse ardor. Há que pôr os frades, por esse país fora, a bramar dos púlpitos contra os inimigos de Deus. Há que procurar em cada regimento um oficial que se preste a dizer aos soldados que a pátria se encontra ameaçada pelo inimigo de dentro. Há que fazer tocar os tambores pelas ruas para se criar um ambiente de receio.
Os estados emotivos, Srs. Governadores, dependem da música que se tem no ouvido. Para que se mantenham, é necessário que as bandas não parem de tocar.
Quero os sinos das aldeias a tocar a rebate, os tambores, em fanfarra, nas paradas dos quartéis, os frades aos gritos nos púlpitos, uma bandeira na mão em cada aldeão.
(Começa a entrar povo pela direita e pela esquerda do palco. Os tambores tocam sem cessar.)
Quero o país inteiro a cantar em coro. Lembrai-vos, senhores, de que uma pausa pode causar uma ruína de todos os nossos projetos!
(Entra pela direita do palco um púlpito a que o principal Sousa sobe. Começa a ouvir-se um sino a tocar a rebate.)
PRINCIPAL SOUSA (Do púlpito)
Meus filhos, meus filhos, a Pátria está em perigo! Os inimigos de Deus preparam, na sombra, a ruína, dos vossos lares, a violação das vossas filhas, a
morte d’el-rei!
D. MIGUEL
Portugueses: a hora não é para contemplações Sacrifiquemos tudo, mesmo as nossas consciências, no altar da Pátria.
40 Os tambores entram em fanfarra e o palco enche-se de soldados.
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PRINCIPAL SOUSA Morte aos inimigos de Cristo!
D. MIGUEL
Morte ao traidor Gomes Freire d’ Andrade!
(Apagam-se todas as luzes. As personagens ficam na penumbra, agitando os braços e erguendo bandeiras no ar. Durante um espaço de tempo muito curto, ouvem-se os sinos e os tambores.)
Luís de Sttau Monteiro, Felizmente Há Luar!, Porto, Areal Editores, 2003
1. Insere o excerto nas estruturas externa e interna da obra, referindo a sua importância no contexto da ação da obra.
2. Explicita o sentido da frase “Os estados emotivos, Srs. Governadores, dependem da música que se tem no ouvido.” (ll. 22-23).
3. Explica a crítica implícita nas falas de D. Miguel.
4. Identifica, justificando, os elementos que contribuem, neste excerto, para o aumento da tensão dramática. B
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Ai senhor fremosa! por Deus e por quam boa vos El fez, doede-vosalg˜ua vez
de mim e destes olhos meus que vos virom por mal de si, quando vos virom, e por mi. E porque vos fez Deus melhor de quantas fez e mais valer, querede-vos de mim doer e destes meus olhos, senhor,
que vos virom por mal de si, quando vos virom, e por mi. E porque o al nom é rem1,
senom o bem que vos Deus deu, querede-vos doer do meu
mal e dos meus olhos, meu bem, que vos virom por mal de si, quando vos virom, e por mi.
D. Dinis (CBN 518b, CV 121). Cantigas Medievais Galego portuguesas Glossário:
1. E porque o al nom é rem: e porque tudo o resto é sem valor.
Apresenta, de forma bem estruturada, as tuas respostas aos itens que se seguem. 4. Refereo pedido endereçado pelo sujeito poético à “senhor fremosa”.
5. Identifica e delimita no tempo o período da língua em que a composição foi escrita, fundamentando a tua resposta com duas características desse período.
Grupo II Lê atentamente o texto que se segue:
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Se nos fixarmos em 1808 verificamos, num relance rápido, que os efeitos da ocupação francesa foram
diretamente sentidos por todas as classes sociais. Antes de findar o ano de 1807 já Lisboa se despovoava. “A
população de Lisboa calculava-se em 280 a 300 mil almas; mas julgo que se pode afirmar, sem exageração, que ela tem diminuído de 15 de Novembro para cá, [29 de Dezembro] em mais de 70 mil pessoas, principiando pela saída dos Ingleses a que se seguiu o decreto para se lhes fecharem os Portos e, em consequência, o bloqueio que paralisou o comércio, a saída da esquadra que levou imensa gente e deixou
outra sem meios de subsistência… Esta despovoação há-de continuar ainda até que os habitantes se reduzam
ao número proporcionado às circunstâncias e qualquer que seja o nosso último destino é provável que Lisboa nunca chegue a ser tão populosa como dantes era, sendo certo que ela tinha demasiada gente, e a sua grande
povoação era efeito de vícios da administração e não de causas materiais… Há mais de 8 dias que ouvi que
só pela Intendência Geral da Polícia se tinham dado 11 000 passaportes. Muitas famílias aqui estabelecidas têm-se retirado para o campo, outras para as províncias.”[1]
O aumento da procura de bens essenciais aliado aos efeitos devastadores da guerra e ao cancelamento das importações reflete-se, de imediato, na subida incontrolável dos preços. Em Março de 1808, o redator do Dietário de S. Bento assinalava “a falta de alguns géneros de primeira necessidade” e para o mês seguinte
registava os seguintes preços – “o trigo está a 1200 e 1400 o alqueire; o azeite a 3000 e 5200 por almude; o feijão a 1000 e 1100 e o mais à porção: manteiga a 550 e a 600” e acrescentava “o peixe fresco nem por exorbitante dinheiro”[2].
Acentua-se o caráter rural da sociedade portuguesa; a indigência aumenta; entre as classes possidentes que ficam generaliza-se a tendência para o entesouramento e a vertigem da venda de bens, a qualquer preço; a atividade fabril abranda e nalguns casos suspende-se mesmo.
Para a paralisia económica do reino contribuíram ainda as pilhagens e requisições da tropa invasora, o sequestro dos bens ingleses e de todas as mercadorias de origem britânica em poder dos negociantes, para além da imposição de avultadas contribuições extraordinárias e de guerra, parcialmente executadas.
Associada a esta política de saque, Junot desarma o país tentando, em vão, silenciar quaisquer manifestações de hostilidade e revolta.
Ana Cristina Araújo, “Revoltas e ideologias em conflito durante as invasões francesas”,
In Revoltas e Revoluções, Coimbra, Instituto de História e Teoria das Ideias, Faculdade de Letras, 1985 (adaptado) 1. De acordo com o sentido do texto, assinala a opção correta que completa cada afirmação que se segue:
1.1. Segundo o excerto, um dos primeiros efeitos da ocupação francesa foi a) o empobrecimento de muitas pessoas em Lisboa.
b) o falecimento de muitas pessoas em Lisboa. c) a chegada de muitas pessoas a Lisboa. d) a fuga de muitas pessoas de Lisboa.
1.2. A citação introduzida na linha 3 serve para
a) introduzir dados concretos acerca do exército francês.
b) apresentar dados de uma fonte especializada no estudo da época. c) introduzir no texto uma fala em discurso direto.
1.3. Com a expressão “Esta despovoação há-de continuar ainda até que os habitantes se reduzam ao número proporcionado às circunstâncias” (ll. 7-8), o autor sugere que a população continuará a abandonar Lisboa até a) cessarem as inúmeras mortes na cidade.
b) o número de pessoas que ficar consiga viver em condições. c) melhorarem as condições de vida na cidade.
d) o número de pessoas que ficar seja insignificante. 1.4. O autor do excerto citado nas linhas 3 a 13 é a) Ana Cristina Araújo.
b) Christovam Ayres de Magalhães Sepúlveda. c) Ricardo Raimundo Nogueira.
d) Dietário de S. Bento.
1.5. Nesta altura, os preços subiram incontrolavelmente (l. 15) por causa
a) do aumento da quantidade de bens à venda, da destruição provocada pela guerra e da cessação da aquisição de bens do exterior.
b) do aumento da procura de alimentos, da destruição provocada pela guerra e do cancelamento das vendas para o exterior.
c) do aumento da procura de alimentos, da destruição provocada pela guerra e da cessação da aquisição de bens do exterior.
d) do aumento da quantidade de bens à venda, da intensificação da violência da guerra e da cessação da aquisição de bens do exterior.
1.6. O excerto “entre as classes possidentes que ficam generaliza-se a tendência para o entesouramento e a vertigem da venda de bens, a qualquer preço” (ll. 20-22) revela uma tendência que as pessoas tinham para a) arrecadar o máximo de dinheiro possível.
b) se despojarem dos bens de modo a poderem sair do país. c) venderem os bens que tinham em boas oportunidades de lucro. d) enriquecerem, aproveitando a situação de desgraça dos outros.
2. Faz corresponder a cada um dos elementos da coluna A um elemento da coluna B.
A B
Na frase “Antes de findar o ano de 1807 já Lisboa se despovoava.” (ll. 2-3)
Com o recurso a “há-de continuar” (l. 7)
Com a expressão “tão populosa como dantes era” (l.
9)
Com o recurso ao travessão (l. 17)
No segmento “para a paralisia económica do reino
contribuíram ainda as pilhagens e requisições da
tropa invasora” (ll.23-24)
o enunciador recorre a um hipérbato para destacar uma parte do enunciado.
o enunciador introduz uma enumeração. o enunciador introduz uma metáfora.
o enunciador perspetiva um futuro. verifica-se uma relação lógica de causa.
estão presentes duas referências deíticas temporais.
o enunciador introduz um discurso direto. o enunciador explicita uma comparação.