UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ CENTRO DE HUMANIDADES – CH
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM FILOSOFIA MESTRADO ACADÊMICO EM FILOSOFIA – CMAF
FRANCISCO ELIANDRO SOUZA DO NASCIMENTO
A FILOSOFIA PRÁTICA EM KANT: A QUESTÃO DA MENTIRA
FORTALEZA-CEARÁ 2014
FRANCISCO ELIANDRO SOUZA DO NASCIMENTO
A FILOSOFIA PRÁTICA EM KANT: A QUESTÃO DA MENTIRA
Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado Acadêmico em Filosofia (CMAF) da Universidade Estadual do Ceará, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Filosofia. Área de concentração: Ética Fundamental
Orientador: Prof. Dr. Luís Alexandre Dias do Carmo.
FORTALEZA-CEARÁ 2014
Dedico este trabalho ao grande arquiteto do universo YHWH, que tem me dado forças para vencer esta batalha. E a todos os meus familiares e amigos que sempre acreditaram em mim.
AGRADECIMENTOS
À Deus, por me ter dado força para progredir no desenvolvimento da Dissertação e por ter suprido todas a minhas necessidades durante este período...
Ao amigo e orientador Prof. Dr. Luís Alexandre Dias do Carmo, por suas preciosas orientações, pelo acompanhamento zeloso no processo de orientação...
Ao Prof. Dr. Ruy de Carvalho Rodrigues Junior e a Profª. Drª. Marly Carvalho Soares, que se dispuseram a avaliar e contribuir com minha pesquisa...
À minha família, pelo carinho e pela compreensão nas horas de dificuldades...
Ao amigo Prof. Ms. Arnaldo Vicente Sá, pelas correções ortográficas e pela força dada nas horas de desanimo...
“Oh dever! Sublime e grande nome, que não compreendes em ti nada benquisto que comporte adulação mas reivindicas submissão, contudo tampouco ameaças com algo que para mover a vontade provocasse no ânimo aversão natural e o atemorizasse, porém simplesmente propões uma lei que por si encontra acesso ao ânimo que, todavia, mesmo a contragosto granjeia para si veneração (embora nem sempre observância), ante a qual todas as inclinações emudecem, mesmo que secretamente se oponham a ela.‖
RESUMO
Na presente dissertação temos por objetivo tratar da questão da mentira na filosofia prática do filósofo alemão Immanuel Kant, analisando a possibilidade da legitimação da mentira. Para tanto, o trabalho foi desenvolvido a partir da compreensão do conceito de homem em Kant e de sua razão. Assim, dedicamos a primeira parte da pesquisa à análise do problema entre liberdade e natureza, a saber, se é possível à existência de ambas como causalidades no curso do mundo. Em seguida apresentamos a estrutura da filosofia prática de Kant, partindo dos pressupostos fundamentais de sua ética, na perspectiva do conceito de liberdade, no sentido transcendental e prático, sobre o qual é fundado o conceito de autonomia; do conceito de boa vontade; do princípio de universalização da lei moral e da formulação do princípio supremo da moralidade, o imperativo categórico. Após essas duas etapas, iniciamos a parte mais importante de nosso trabalho, onde será tratado de um suposto direito de mentir, a partir do debate entre Kant e o filósofo francês Benjamim Constant sobre a legitimação da mentira.
ABSTRACT
In this thesis we aim to address the issue of lies in the practical philosophy of the German philosopher Immanuel Kant, analyzing the possibility of legitimizing lie. To this end, the work was developed from the understanding of the concept of man in Kant and his reason. Thus, we devote the first part of the research problem analysis between freedom and nature, namely whether it is possible to have both as causalities in the course of the world. Then we present the structure of Kant's practical philosophy, based on the fundamental assumptions of his ethics from the perspective of the concept of freedom in the transcendental and practical sense, which is founded on the concept of autonomy; the concept of good will; the principle of universal moral law and the formulation of the supreme principle of morality, the categorical imperative. After these two steps, we began the most important of our work, which will be treated in a supposed right to lie from the debate between Kant and the French philosopher Benjamin Constant about legitimizing lie.
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
ANÁLISE Análise da obra Fundamentação da Metafísica dos Costumes de Kant CRP Crítica da Razão Pura
CRPr Crítica da Razão Prática
FMC Fundamentação da Metafísica dos Costumes
IDEALISMO El idealismo transcendental de Kant: una interpretação y defensa MC A Metafísica dos Costumes
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ... 11
2 A LIBERDADE COMO PRINCÍPIO FUNDANTE DA MORAL. ... 14
2.1 Introdução ... 14
2.2 A concepção kantiana do homem ... 15
2.3 A revolução kantiana na filosofia prática ... 19
2.4 Pressupostos fundamentais da moral kantiana ... 23
2.5 A liberdade ―transcendental‖ como princípio fundante da moral... 26
2.6 Natureza e Liberdade na terceira antinomia da Crítica da Razão Pura... 28
3 AUTONOMIA DA VONTADE E A LEI MORAL ... 40
3.1 Introdução ... 40
3.2 A vontade ... 41
3.3 A boa vontade ... 44
3.4 O dever ... 48
3.5 Imperativo categórico ... 53
4 A FILOSOFIA PRÁTICA DE KANT E O CASO DA MENTIRA ... 59
4.1 Introdução ... 59
4.2 Moral, ética e direito ... 59
4.2.2 Ética ... 61
4.2.3 Direito ... 63
4.3 Kant e a mentira ... 66
4.4 A crítica de Constant a Kant ... 72
4.5 A resposta de Kant à crítica de Constant ... 76
5 CONCLUSÃO ... 80
1 INTRODUÇÃO
A questão da mentira sempre ocupou um lugar reservado na reflexão ético-filosófica. Vários foram os filósofos que trataram sobre este tema, tais como Rousseau, Benjamin Constant e Kant que abordaram-no, vinculando-o a questões de natureza ética e jurídica, fazendo uma análise da possibilidade da legitimidade da mentira. O conceito de mentira é interpretado como o ato de pronunciar uma inverdade intencional, porém, em alguns filósofos este ato só pode ser considerado como mentira se prejudicar a outrem, ou seja, se tal ato não visa a nenhum proveito, nem causa prejuízo a ninguém, ele não pode ser considerado uma mentira e sim uma ficção. O problema fundamental da mentira reside em saber se ela é uma questão de natureza ética ou jurídica.
A definição que só considera como mentira o ato de afirmar uma coisa falsa na medida em que causa prejuízo para aquele que fez tal declaração ou a outrem, é uma definição de natureza jurídica, pois o que é levado em conta neste conceito de mentira é somente a ação externa prejudicial, qualquer que seja a declaração, verdadeira ou falsa, não causando prejuízo a ninguém nunca poderá ser chamada de mentira. No campo da ética, a declaração intencional não verdadeira é um ato que não precisa ser doloso aos outros para ser considerado como mentira. Pois, para a ética, a inverdade intencional, independente de causar prejuízo a outrem ou não, é inadmissível.
Com base nesse contexto, temos a pretensão de desenvolver uma pesquisa que tenha como intuito apresentar a questão da mentira expondo, em especial, o debate entre Kant e Benjamim Constant, no qual é tratado um suposto direito de mentir ou uma possível legitimação da mentira. O resultado da controvérsia entre os dois filósofos, acerca da mentira, resultou no texto kantiano intitulado ―Sobre um suposto direito de mentir por amor à humanidade.‖ Nesse texto, o filósofo alemão responde a crítica feita por Constant ao seu posicionamento ético sobre a mentira, ao afirmar que o princípio da veracidade é um dever incondicional. Constant expõe em sua crítica que, se fosse considerado de uma maneira absoluta e isolada o princípio kantiano da veracidade, ele tornaria qualquer sociedade impossível, pois, se os princípios abstratos da moral e da política, forem separados de seus princípios
intermediários, que o fazem descer até nós e o ajustam à nossa situação, produziriam tanta desordem nas relações dos homens em sociedade que a destruiria.
Em virtude do problema central de nossa pesquisa ser a questão da mentira em Kant, onde estão envolvidos problemas éticos e jurídicos, ela terá como estrutura, inicialmente, a análise e compreensão kantiana da ética, abordando os seus principais pressupostos. Nossa pesquisa será composta por três capítulos: No primeiro abordaremos a concepção de homem em Kant e a revolução, que ele, elabora no campo da filosofia prática, possibilitando assim uma melhor compreensão do desenvolvimento de sua filosofia prática; em seguida, trataremos dos pressupostos da ética kantiana, na perspectiva do conceito de liberdade, no sentido transcendental e prático, sobre o qual é fundado o conceito de autonomia; do conceito da boa vontade e do princípio de universalização da lei moral, que constituem a base do imperativo categórico. Ainda nesta unidade trataremos, em especial, da liberdade transcendental como princípio fundante da moral, pois, a pressuposição da ideia de liberdade é a condição de possibilidade do princípio supremo da moralidade. O objetivo central a ser desenvolvido, neste capítulo, consiste na possível resolução do problema entre liberdade e natureza, a saber, é possível a ideia de liberdade juntamente com a lei da causalidade?
No segundo capítulo, abordaremos o conceito de vontade, como uma causalidade própria dos seres racionais e o conceito de boa vontade como a única coisa boa sem restrição, necessária para tornar bons todos os dons, tanto materiais, quanto espirituais. A importância de desenvolvermos estes conceitos na pesquisa encontra-se na compreensão kantiana de que tais conceitos constituem as bases de sua filosofia prática. Em seguida, passaremos ao conceito de dever, fazendo uma análise da distinção entre a ação que é realizada por dever, da ação conforme o dever, tendo como objetivo descobrir em qual dessas ações podemos encontrar um conteúdo moral. Ainda nesta unidade trataremos sobre o princípio supremo da moralidade, ou seja, o imperativo categórico, que é desenvolvido por Kant na forma de uma lei universal. A importância destes dois primeiros capítulos para pesquisa, onde são tratados os pressupostos acima citados, consiste na compreensão do conceito de moral em Kant e no desenvolvimento da filosofia prática, para, em seguida, tratarmos da questão da mentira relacionando-a à moral.
No terceiro capítulo, como aspecto conclusivo da questão principal, buscaremos explicitar o problema da mentira, tendo como objetivo central a resolução da seguinte pergunta: a mentira é uma questão de natureza ética ou jurídica e é possível sua legitimação em certos casos? Começaremos esta unidade pela distinção dos conceitos de moral, ética e direito, pois nos é necessário o entendimento destes campos da cultura para podermos tratar da questão da mentira. Após distinguirmos os conceitos de moral, ética e direito, passaremos à compreensão kantiana do conceito de mentira, analisando se ela é ou não um ato inadmissível. Logo em seguida, faremos uma análise da crítica do filósofo francês Benjamim Constant ao posicionamento de Kant sobre a mentira. Para finalizar, veremos a resposta de Kant, contida no texto ―Sobre um suposto direito de mentir por amor à humanidade‖, à crítica do filósofo francês, onde é tratada a questão da legitimidade da mentira, a saber, se ela é possível ou não.
Pretendemos chegar com esta pesquisa a uma possível resolução da problemática apresentada neste trabalho, ou seja, a questão da mentira, tema bastante polêmico no meio filosófico e jurídico, em saber se é possível um direito de mentir ou a sua legitimação em certas circunstâncias. A importância desta pesquisa encontra-se na compreensão do conceito de mentira que é um dos problemas atuais tratados pela moral e pelo direito, pois, o ato de mentir pode causar os seguintes crimes contra a honra: calunia, difamação e injúria, sendo sujeito à penalidade quem comete tais atos.
2 A LIBERDADE COMO PRINCÍPIO FUNDANTE DA MORAL.
2.1 Introdução
Neste capítulo, faremos uma exposição do conceito de homem em Kant, abordando as suas duas dimensões, racional e sensível, buscando uma compreensão da dualidade que se estabelece no nível da razão prática, entre o caráter empírico do sujeito prático e o caráter inteligível, e qual dessas duas dimensões se sobressaem no campo da ética. Em seguida trataremos da liberdade como princípio fundante da moral perguntando pela possibilidade de sua pressuposição, partiremos dos princípios fundamentais da moral kantiana, tendo em vista apenas uma exposição introdutória1 de cada pressuposto, a saber, o conceito de liberdade, no sentido transcendental e prático, a boa vontade como a porta de entrada para que a moralidade chegue ao seu acabamento, que é o cumprimento do dever, e o princípio de universalização da lei moral desenvolvido por Kant como o critério último de validação das normas. Todavia o primeiro pressuposto será desenvolvido nesta unidade de forma mais clara e concisa que os demais, pois tal unidade destina-se à análise e à possível resolução do problema que o conceito de liberdade transcendental apresenta na Crítica da Razão Pura2.
A temática central a ser desenvolvida nesta unidade é a provável resolução do problema levantado entre liberdade e natureza, em se admitir a possibilidade da liberdade como uma espécie de causalidade livre em união com a universalidade da lei natural da causalidade, ou seja, é possível natureza e liberdade existirem ambas ao mesmo tempo como causalidades no curso do mundo? A resolução3 desta
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Neste primeiro momento será exposta apenas uma introdução dos pressupostos da moral kantiana, haja vista que cada um deles será desenvolvido em cada unidade do trabalho. O conceito de liberdade desenvolveremos na primeira unidade, a boa vontade e o princípio de universalização da lei moral por sua vez serão tratados de forma mais clara na parte que compõe a segunda unidade. Todos estes pressupostos serão desenvolvidos em todo o corpo do trabalho, porém sempre tendo em vista o foco de nossa pesquisa que é a questão da mentira.
2
A partir daqui ler-se-á Crítica da Razão Pura como CRP. 3
Podemos encontrar a resolução, apresentada por Kant, para este problema na CRP (KANT, 2012, p. 432 - 443).
problemática apresentada por Kant na CRP constitui os princípios gerais de sua filosofia prática.
2.2 A concepção kantiana do homem
Immanuel Kant4 (1724 – 1804) formulou uma concepção de filosofia prãtica de grande importância para o desenvolvimento posterior da filosofia. Ele é profundamente influenciado pela tradição filosófica racionalista de sua época e, posteriormente, pelo empirismo dos filósofos ingleses (Hume, Schaftesbury, Hutcheson e Lock). Os pensadores que mais o influenciaram foram, na filosofia teórica, David Hume, do qual afirmará mais tarde que ―ele primeiro me despertou do sono dogmático e deu um outro rumo a minhas investigações no campo da filosofia especulativa.‖ (Höffe apud KANT, 2005, p. 17). Na filosofia prática o filósofo alemão é influenciado por Jean Jacques Rousseau. Rousseau forneceu a Kant os:
Elementos do conteúdo apriorístico da ética kantiana, concluindo uma prospectiva de independentização da ética anunciada em Montaigne, que se completa, em primeiro lugar, através do conceito de autonomia, compreendendo os conceitos de vontade e lei, com que Kant pretende vencer o problema da antinomia entre lei e liberdade, liberdade e bem,
sollen e wollen. (SALGADO, 1995, p. 229).
Kant, no desenvolvimento crítico de sua filosofia, se ocupa dos problemas clássicos da metafísica, tais como os fundamentos da moral e as provas da existência de Deus. Segundo o filósofo, os problemas inevitáveis da razão pura são; Deus, a liberdade e a imortalidade, e ―a ciência que, com todos os seus requisitos, tem por verdadeira finalidade a resolução destes problemas chama-se metafísica‖ (KANT, 2012, p. 49). Para Kant, uma filosofia séria deve dedicar-se a questões fundamentais do homem, na medida em que se manifesta nele um interesse da razão, deste modo, os problemas inevitáveis em que a razão sempre despertou um interesse, Deus, liberdade e imortalidade, confluem nas quatro grandes perguntas;
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Historicamente, Kant pertence à época do Iluminismo europeu. A orientação geral desta época acreditava na ideia de que o homem pode dominar todas as coisas, no progresso constante da humanidade e, em geral, na confiança otimista na razão.
1. Que posso saber? 2. Que devo fazer? 3. Que me é permitido esperar? 4. O que é o homem?
De acordo com Kant, nestas quatro perguntas estão os problemas mais importantes que sempre inquietaram, não apenas todos os filósofos, como também a própria humanidade. Estas são questões que a filosofia, enquanto metafísica, sempre se ocupou e que irão definir todo o projeto filosófico de Kant. Para cada uma destas perguntas, ele escreveu uma obra como resposta argumentada a estas questões. Em resposta à primeira pergunta, o filósofo escreveu sua obra mais célebre, Crítica da Razão Pura, onde ele trata do problema da metafísica como ciência examinando as condições de possibilidade do conhecimento humano. Respondendo à segunda pergunta, Kant publica a Crítica da razão prática, em que formula as bases de sua ética fortemente racionalista. A terceira pergunta ele responde por meio da sua obra Crítica da faculdade de julgar, onde é considerada a ―especificidade do juízo estético, embora essa obra não se limite à discussão sobre a estética, visando, em última análise, superar a dicotomia razão pura teórica (conhecimento) e razão prática moral.‖ (MARCONDES, 2007, p. 110). Por fim, a quarta pergunta foi desenvolvida no livro Antropologia a partir de um ponto de vista
pragmático, obra em que Kant trata da antropologia como uma ciência cuja
―finalidade é preparar o homem para o conhecimento do ‗mundo‘ (isto é, do mundo humano). Aqui, pois, o conhecimento do homem se funda no senso comum e tem em vista as relações que se estabelecem entre os homens.‖ (VAZ, 1998, p. 97).
O filósofo alemão considera, porém, que as três primeiras questões se podem reduzir à quarta, questão fundamental, dado que em filosofia é do homem que única e exclusivamente se trata. A primeira questão é de caráter especulativo em que a metafísica responde; a segunda de caráter prático cuja resposta vem da moral; a terceira é, simultaneamente, prática e teórica, sua resposta deriva da religião; e a quarta questão engloba as anteriores, pois, as três primeiras interrogações levam à última, em que a antropologia responde. Tavares, acerca da resposta kantiana às quatro perguntas, afirma que:
A resposta à primeira pergunta pode sintetizar-se no seguinte: podemos conhecer a ordem dos fenômenos, no espaço e no tempo, sem ultrapassar os limites da experiência; podemos conhecer os princípios e os limites a
partir dos quais e dentro dos quais é possível um conhecimento científico da natureza.
A resposta à segunda questão é: devemos cumprir o nosso dever e fazer o que nos torna dignos da felicidade; devemos estabelecer os princípios da acção e as condições da liberdade.
A resposta à terceira pergunta, que aliás se liga à segunda, é: podemos esperar o Soberano Bem, síntese da virtude e da felicidade; é lícito esperar a felicidade na medida em que cada um de nós, pela sua conduta, pelo cumprimento da lei moral, se pode tornar digno dela, trata-se de delinear, projectivamente, o destino último do homem e as condições da sua realização.
Respondendo à quarta questão, o homem é um ser racional finito, sensível e moral. Como ser sensível ou fenoménico, pertence a uma espécie animal e a uma ordem natural, mas é também um ser racional que se rege, na sua conduta, por princípios morais. Neste sentido, o homem é natureza e liberdade, ser fenoménico e numénico, sujeito às leis da natureza, mas não totalmente determinado por elas. Só como ser numénico merece a designação de racional. A racionalidade é uma conquista, resulta de um esforço de auto-aperfeiçoamento. Pessoa e animal, razão e natureza, liberdade e necessidade, lei moral e lei natural, são os elementos que constituem a natureza humana. (TAVARES, 1995, p. 80).
Kant elabora uma concepção de homem, ―onde a tradição racionalista e ‗ilustrada‘ deve compor-se com a herança pietista5
e com a poderosa atração do pensamento de J.-J. Rousseau,‖ (VAZ , 1998, p. 95), para formular a ideia de homem. Levando-se em conta essas duas influências, são traçadas duas linhas de desenvolvimento da concepção do homem em Kant. Vejamos:
1) ―Uma linha propriamente antropológica, cuja origem deve ser buscada no curso de Metafísica professado por Kant e para o qual utiliza o compêndio de Baumgartner. Aqui Kant introduz a partir de 1762 uma alteração decisiva no melhor estilo da Ilustração, colocando no início o estudo empírico do homem ao qual dà o título de antropologia;‖ (VAZ , 1998, p. 96)6
5 A herança pietista de Kant refere-se ao movimento religioso, denominado Pietismo, de ―reação contra a ortodoxia protestante que ocorreu no norte da Europa, especialmente na Alemanha, na segunda metade do século XVII. Foi comandado por Phillipp Spener (1635-1705), e um de seus expoentes foi o pedagogo August Franke (1663-1727). O Pietismo pretendia voltar às teses originais da Reforma protestante: livre interpretação da Bíblia e negação da teologia; culto interior ou moral de Deus e negação do culto externo, dos ritos e de qualquer organização eclesiástica; compromisso com a vida civil e negação do valor das denominadas ―obras‖ de natureza religiosa. Deste último aspecto deriva a aceitação de muitos ensinamentos de caráter prático e utilitário nas instituições educacionais pietistas‖. (ABBAGNANO, 2007, p.795).
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Kant aborda em especial o tema da antropologia em sua obra ―A Antropologia desde o ponto de vista pragmático‖ (1798). Nesta obra o filósofo trata do conceito de Antropologia ao contrário da antropologia moral. A Antropologia de um ponto de vista pragmático, ―revela-se independente do programa da filosofia crítica, visto que na referência direta ao real para mediar o conhecimento, Kant a apresentou como uma antropologia para práxis da vida e para a ―experiência comum‖, e por isso,
2) ―Uma linha crítica que segue o desenvolvimento da reflexão crítica a partir da dissertação de 1770; na verdade, essa tarefa crítica que abrange as três atividades superiores do homem, a razão teórica, a razão prática e a faculdade de julgar, traz consigo uma profunda remodelação da imagem do homem transmitida pelo racionalismo clássico.‖ (IBIDEM).
No conceito de homem em Kant, tomando como referência essas duas linhas, é observável a subordinação da Antropologia, a qual a base é empírica, à metafísica dos costumes, que procede a priori. A concepção kantiana de homem, estrutura-se sobre dois planos epistemológicos, ―o plano de uma ciência de observação que utiliza o procedimento analítico para unificar os dados da observação por meio de uma teoria das faculdades‖, razão teórica, e o ―plano de uma ciência a priori que situa no campo da ética ou da metafísica dos costumes a possibilidade de determinação da essência do homem,‖ (IBIDEM), razão prática.
No que concerne à ideia de homem em Kant, o pensamento crítico do filósofo não se distancia da linha da tradição dualista própria da antropologia racionalista. Vaz, acerca do conceito kantiano do homem, cita que:
Esse dualismo constitui mesmo uma estrutura conceptual fundamental do edifício crítico, seja no nível da Razão pura, seja no nível da Razão prática. Com efeito, no nível da Razão pura, encontramos uma dualidade estrutural entre a sensibilidade receptiva e a espontaneidade do entendimento, e entre este como domínio do condicionado e a Razão (Vernunft) como domínio do incondicionado. No nível da Razão prática, a dualidade se estabelece entre o ―caráter empírico‖ do sujeito prático (domínio da necessidade externa e das paixões) e o seu ―caráter inteligível‖ (domínio da liberdade). (VAZ , 1998, p. 98).
Kant, em relação à razão prática, afirma que o homem, ao contrário das coisas que atuam mecanicamente, possui a capacidade de agir segundo normas, pois somente ele possui uma razão. A grandeza do homem, segundo o filósofo alemão, consiste em sua capacidade de autodeterminar-se a partir da razão prática. A questão em Kant, relacionada à filosofia prática, consiste em saber como justificar
ela pode ser entendida como uma teoria da práxis da vida. Esta linha de pensamento diferencia-se fundamentalmente da filosofia crítica e da matemática. Enquanto na filosofia pura devem suceder princípios a priori de definição clara e segura de uma fundamentação última e suficiente, para a Antropologia é precedente não a fundamentação última, mas a utilização do conhecimento do homem sobre a práxis da vida. (MARTINS, Introdução da obra ―A Antropologia desde o ponto de vista pragmático‖, 2006, p. 12)
e determinar a validade das normas de ação, pois, o filósofo tem como objetivo tematizar o princípio de fundamentação das normas e estabelecer uma medida suprema, a partir da qual se possa decidir a moralidade das normas de ação. O pensamento de Kant no nível da ética constitui uma revolução na filosofia moral, pois, o filósofo introduz, na filosofia prática, ―um novo conceito de ética e de sua tarefa fundamental. De agora em diante, não é tarefa da ética o estabelecimento de normas para a ação humana,‖ sua função vai ―consistir no estabelecimento do princípio de validade das normas de ação.‖ (OLIVEIRA, 1993, p.141). Vejamos no tópico a seguir a revolução filosófica de Kant na filosofia teórica e prática.
2.3 A revolução kantiana na filosofia prática
A filosofia kantiana, seja no campo teórico ou prático, constitui uma verdadeira revolução no pensamento filosófico ocidental.7 Kant realizou na história da filosofia uma mudança semelhante à que Nicolau Copérnico desenvolveu na ciência de seu tempo. Assim como Copérnico inverteu a ordem das coisas com sua teoria do Heliocentrismo8, Kant realiza semelhante movimento em sua filosofia transcendental, ao deslocar a direção do pensar filosófico do objeto para o sujeito. Vejamos uma passagem da CRP em que Kant assemelha sua filosofia com a primeira ideia de Copérnico, fazendo menção à nova maneira de pensar a tarefa da filosofia. Cita o filósofo:
Até hoje admitia-se que nosso conhecimento se devia regular pelos objetos; porém, todas as tentativas para descobrir a priori, mediante conceitos, algo que ampliasse o nosso conhecimento, malogravam-se com este
7 Segundo Vázquez, ―Foi Hegel o primeiro a enxergar na filosofia kantiana uma revolução ou, mais exatamente, o ponto de partida de uma revolução que acha em seu próprio sistema seu ponto culminante. Seu objeto não é o mundo, o ser em si da metafísica tradicional, mas o conhecimento (ou pretensões de conhecimento) do mundo ou do ser‖ (VÁZQUEZ, 2002. p. 194).
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Heliocentrismo é a teoria a respeito do sistema cosmológico, segundo a qual a Terra e os demais planetas giram em torno do Sol, esta teoria era oposta aogeocentrismo, que colocava a Terra no centro do universo. Nicolau Copérnico, um polonês que viveu entre 1453 – 1543, é considerado o fundador da astronomia moderna e pai do heliocentrismo. Em 1514, Copérnico divulgou um modelo matemático no qual a Terra e os demais corpos celestes giravam em torno do Sol, contrário ao modelo geocêntrico aceito pela maioria, e defendido pela Igreja por aproximadamente 1400 anos. O sistema geocêntrico ou ptolomaico descrevia um modelo no qual a Terra seria o centro do Universo, que aliás, seria finito.
pressuposto. Tentemos, pois, uma vez, experimentar se não se resolverão melhor as tarefas da metafísica, admitindo que os objetos se deveriam regular pelo nosso conhecimento, o que assim já concorda melhor com o que desejamos, a saber, a possibilidade de um conhecimento a priori desses objetos, que estabeleça algo sobre eles antes de nos serem dados. Trata-se aqui de uma semelhança com a primeira idéia de Copérnico; não podendo prosseguir na explicação dos movimentos celestes enquanto admitia que toda a multidão de estrelas se movia em torno do expectador, tentou se não daria melhor resultado fazer antes girar o expectador e deixar os astros imóveis (Kant, 2012, p. 34).
Esta revolução que Kant realizou na estrutura da filosofia é denominada por muitos de revolução copernicana9, por ter invertido a ordem das coisas no plano teórico e prático. Segundo Kant, nosso conhecimento não deveria regular-se pelos objetos, como era compreendido na metafísica tradicional, e sim os objetos que devem regular-se sobre nosso conhecimento. Perante tal mudança, Kant inaugura um novo paradigma no plano do conhecimento teórico que marcará a sua filosofia como revolução crítica10 ou criticismo11 kantiano. Faria afirma que Kant:
...ao empreender sua ―revolução copernicana‖ revela os limites da razão teórica e a impossibilidade, dada sua constituição, de ultrapassar o campo da experiência possível, o campo dos fenômenos, para atingir o conhecimento da realidade em si (FARIA, 2007, p. 122).
De acordo com Vázquez, acerca do caráter revolucionário da filosofia de Kant:
O caráter revolucionário da filosofia kantiana mostra-se portanto em sua relação com o passado, assim como em sua relação com o futuro, pelo
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Esta revolução desenvolvida por Kant, que foi denominada de ―revolução copernicana‖, ―revela os limites da razão teórica e a impossibilidade, dada sua constituição, de ultrapassar o campo da experiência possível, o campo dos fenômenos, para atingir o conhecimento da realidade em si‖ (FARIA, 2007. p. 122). ―O entendimento não pode jamais ultrapassar os limites da sensibilidade, dentro dos quais, unicamente, podem ser-nos dados objetos‖ (CRP, Analítica transcendental, cap. III). 10
O termo crítica (Kritik) é compreendido na filosofia kantiana como investigação filosófica ou filosofia enquanto investigação que obedece ao seguinte roteiro sistemático: 1. valoração do objeto de estudo; 2. estabelecimento de informações acerca do objeto estudado e, ademais, apresentando como exigência metodológica primeiro expor e esclarecer as condições do conhecimento, para só então pretender-se produzir conhecimento.
11 Por criticismo entendemos, ―Método de investigação que consiste na instituição de um tribunal da razão (a razão julga-se a si própria), no sentido de estabelecer os limites da razão no domínio gnosiológico e, simultaneamente, investigar, nesse mesmo domínio, as suas possibilidades. Constitui um método de reabilitação da razão face ao cepticismo e, simultaneamente, uma crítica ao dogmatismo. O criticismo é já uma propedêutica à instituição da metafísica no domínio moral‖ (TAVARES, 1995, p. 80).
caminho novo que abre ao pensamento filosófico com seu idealismo transcendental (juntamente por haver desenvolvido o lado ativo, embora de um modo abstrato – primeira tese sobre Feuerbach –, na relação sujeito – objeto)12 (VÁZQUEZ, 2002, p. 194 apud Karl Marx, 1969, p. 633).
A virada revolucionária kantiana não se limita ao campo teórico, estende-se de forma impactante ao campo da filosofia prática. Kant ao elevar o homem como ser propriamente humano, tendo em vista como sujeito, autodeterminante e fim em si, embora o apresente em forma incompatível com a realidade natural, realiza também na esfera da filosofia prática uma verdadeira revolução. O filósofo de Köningsberg rompe radicalmente com a concepção tradicional do homem, determinado desde fora, seja em sentido naturalista, seja em sentido cristão, ele desenvolve sua filosofia prática opondo-se sistematicamente a qualquer forma de heteronomia13, seja ela derivada de uma ―natureza‖, de uma lei divina, da tradição, dos costumes ou da autoridade. Na concepção kantiana, o homem14 é compreendido como fim em si que atua livremente e se determina a si mesmo e escapa às determinações do natural.
Outro ponto fundamental na filosofia prática kantiana, é que ela se opõe aos modelos tradicionais da ética15, pois, de acordo com Kant, os fundamentos apresentados pelos diversos filósofos, que serviam como base para suas formulações éticas, impedia que os mesmos chegassem a um acordo no campo da filosofia moral. A nova proposta moral de Kant se configura na absoluta autonomia da razão e se confirma por ser ela em si mesma legisladora. Para nosso filósofo, a fonte da moral não deve ser algo exterior ao próprio homem, como era proposto nos modelos éticos tradicionais, e sim algo interior ao próprio homem. A razão se
12 Karl Marx, ―Tesis sobre Feuerbach‖, em Karl Marx e Friedrich Engels, La ideologia alemana, trad. De W. Roces, Ed. Pueblos Unidos, Montevidéu, 1969, p. 633.
13 Segundo Tavares e Ferro, o conceito de heteronomia opõe-se ao de autonomia, ―na medida em que significa condicionamento, determinismo. O sujeito recebe do exterior a lei a que se submete. Kant identifica heteronomia com <<liberdade em sentido negativo>>, considerando que autonomia é <<liberdade em sentido positivo>>‖ (TAVARES, 1995, p. 147).
14
Faria ressalta que o homem kantiano ―obedece apenas a si mesmo; é conduzido apenas por sua própria razão e pela consciência do dever, apesar do desejo que ameaça subordiná-lo indignamente à heteronomia, mantendo-o em situação de ―menoridade‖, e do qual, portanto, deve manter-se afastado (FARIA, 2007, p. 130).
15
Ao falarmos sobre os modelos tradicionais da ética, estamos citando as propostas éticas anteriores a Kant, em especial a ética aristotélica contida na Ética a Nicômaco a qual tem por fundamento da moral a ―ideia de um bem que se apresenta como um fim visado em todos os atos humanos‖ (FARIA, 2007, p. 125). Como também ao modelo ético cristão, cujo fundamento da moral seria o bem supremo que é interpretado como Deus.
configura na nova proposta de Kant como a responsável por legislar as normas morais que deverão conduzir e orientar as ações humanas. Na visão de Kant, a razão exerce a função prática de determinar a ação.
Faria, acerca da filosofia kantiana e os modelos tradicionais da ética, afirma que:
Ao invalidar a metafísica como ciência, Kant derruba o fundamento tradicional da ética. A queda da metafísica ameaçava arrastar consigo a ética, anulando os fundamentos e critérios invocados por ela até então. A ética tradicional, desde Aristóteles, se estrutura em torno da ideia de um bem que se apresenta como um fim visado em todos os atos humanos. Ora, a divergência quanto aos fins efetivamente visados pelo homem em todos os seus atos (felicidade, prazer, salvação da alma, auto-preservação) impediu que os diversos filósofos chegassem a um acordo no campo da ética. Acabam por enredar-se em dificuldades insuperáveis e são incapazes de responder à questão ―o que devo fazer?‖, de forma universal e necessária. Kant tem uma concepção subjetivista de felicidade, diferente da visão aristotélica. O que rejeita como possível fundamento da moral não é o conceito clássico de eudaimonia, que coincide com a autorrealização e a autossuficiência, mas o sentimento de ―bem-estar‖ ou ―satisfação‖. Kant quer ―evitar as leis morais indulgentes que fazem concessões às fraquezas humanas‖. 16
Por estar marcado pela subjetividade, o conceito de felicidade é incompatível com uma ética que se pretende objetiva e universal. Sua ética dirige-se a seres racionais enquanto tais e deve manter-se alheia a todo tipo de barganha com o vício e com as inclinações naturais. Inclinações e paixões não podem ser tomadas como critérios para determinar o comportamento de seres racionais. Tais critérios seriam indignos do homem, rebarbativos (FARIA, 2007, p. 125, 126).
Kant, diferentemente de Aristóteles, não fundamenta sua ética sobre a ideia de um bem, que é interpretado como um fim visado em todos os atos humanos. Sua ética fundamenta-se sobre o conceito de liberdade, que, na história da filosofia, não encontra similar nos conceitos de liberdade anteriores. Porém, o primeiro momento da liberdade em Kant, que é interpretado como espontaneidade (liberdade negativa), ―aparenta-se a idéia de Platão do libertar-se da prisão dos sentidos para contemplar, fora da caverna, o sol do bem‖ (SALGADO, 1995, p. 226).
A ideia de liberdade kantiana se contrasta com as concepções de liberdade existente nos filósofos anteriores a Kant, ficando ressalvada a influência de Rousseau no desenvolvimento do conceito kantiano de liberdade como autonomia.
16
FARIA, 2007, p. 125 apud ROSEN, Allen D., Kan’s Theory of justice, USA: Cornell University Press 1993.
Salgado, em sua obra A idéia de justiça em Kant, cita alguns conceitos de liberdade anteriores a Kant e apresenta as contradições existentes entre o conceito de liberdade em Kant para com os demais. A primeira proposta de liberdade anterior a Kant que Salgado apresenta no capítulo V de sua obra é a definição aristotélica de liberdade. Cita o filósofo:
A definição de Aristóteles contida na Metafísica – ―livre é o homem que tem a si mesmo como fim e não o outro‖17
desenvolvida com maior clareza, na
Ética a Nicômaco, como um ato de escolha consciente do homem livre, já
que ―o que não é senhor de si mesmo é capaz de desejar, mas não de agir por livre escolha‖ (proaíresis)18– não é o que se entende como autonomia no sentido kantiano, nem coincide com seu conceito de pessoa (fim em si mesmo), porque em Kant se trata de uma ideia, um dever ser com que pensamos todo ser humano, ao passo que em Aristóteles encontramos apenas a descrição do homem livre empiricamente, existente na Grécia: O que age em função de si mesmo e não do outro é o oposto do escravo.
A filosofia prática de Kant se configura a partir do conceito de autonomia, que por sua vez tem como fundamento a ideia de liberdade e vontade. Kant insere uma nova proposta moral, no campo da filosofia prática. Ele estrutura sua filosofia moral sobre três pressupostos fundamentais que constituem a arquitetônica de sua ética, tais pressupostos são: o conceito de liberdade, conceito de boa vontade e o princípio de universalização da lei moral. No tópico a seguir analisaremos o que constitui cada item destes pressupostos morais.
2.4 Pressupostos fundamentais da moral kantiana
A filosofia moral de Kant é construída com base em quatro pressupostos fundamentais, sendo o primeiro deles o conceito de homem como ser livre. Esta concepção de homem como agente livre é fundada sobre a ideia de liberdade. A liberdade é para Kant um conceito transcendental19, uma ideia pura (a priori),
17
ARISTÓTELES. Metafísica, 892b. 18
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco, 1111b. 19
De acordo com o Glossário presente na Metafísica dos Costumes, acerca do conceito de transcendental (transzendental), ―Kant emprega este importantíssimo adjetivo originariamente para designar um conhecimento, estando o mesmo, portanto, regularmente disseminado nas suas Analítica, Dialética, Estética, Lógica etc. Mas não há uma acepção única deste termo em Kant, ainda
imanente da própria razão, uma causa inteligível20, não é derivada nem referida a nenhum objeto que pode ser dado na experiência. A liberdade21 em sentido transcendental é o que nos possibilita pensar em uma vontade livre, a qual não é determinada por nenhuma força exterior a não ser pela própria razão (pura), e dela deriva a ideia de autonomia. Segundo Tavares, ―O conceito de liberdade, para Kant, é a chave da explicação da autonomia da vontade‖ (TAVARES, 1995, p. 80).
A boa vontade22 é outro elemento de suma importância na questão da moralidade, ela é desenvolvida por Kant como o fio condutor do sistema moral. Kant inicia seu texto Fundamentação da Metafísica dos Costumes23 fazendo um elogio à
boa vontade. Cita o filósofo alemão: ―Neste mundo, e até também fora dele, nada é possível pensar que possa ser considerado como bom sem limitação a não ser uma só coisa: uma boa vontade‖ (KANT, 2009, p. 21). A boa vontade24
é o caminho para que a moralidade chegue ao seu acabamento, que é o cumprimento do dever. Segundo Kant, só existe uma vontade, porém ela aparece de diferentes modos, e pode ser chamada de vontade santa, vontade pura ou ainda arbítrio humano, todavia é a mesma vontade. Para que a vontade possa ser considerada boa, o motivo da ação moral da vontade deve está contido nela mesma e não em um valor externo que lhe serve de critério de julgamento. Em outras palavras, a vontade só pode ser considerada boa em si mesma se não for submetida às afeições dos sentidos, e não deve estar contaminada por nada que possa torná-la má25. De acordo com Salgado, acerca da boa vontade, o mesmo afirma que:
que as acepções da palavra sejam intimamente correlatas. Vejamos: 1. diz-se daquilo que é uma
condição a priori e não um dado empírico; 2. diz-se de toda investigação que colima as formas,
princípios ou idéias puras (a priori) na sua relação necessária com a experiência. (CRP) Kant opõe
transcendental alternadamente a empírico, transcendente e metafísico‖ (KANT, 2008, p. 40)
20 Por inteligível entendemos ―àquilo que em um objeto dos sentidos não é ele próprio fenômeno‖ (KANT, 2012, p. 432).
21
A idéia de liberdade transcendental é desenvolvida por Kant na Dialética Transcendental da Crítica
da Razão Pura, em especial na terceira antinomia (KANT, 2012, p. 377).
22
A boa vontade é definida como a vontade de agir por puro respeito pela lei moral. 23
A partir daqui ler-se-á Fundamentação da Metafísica dos Costumes como FMC. 24
Trataremos de forma específica deste conceito na unidade seguinte.
25 Do ponto de vista de Salgado, este é o motivo de ―todas as éticas até então serem éticas heterônomas, em que o motivo da ação moral da vontade não está nela mesma, mas num valor externo que lhe serve de critério de julgamento, ou que se apresenta como causa do seu movimento, ou seja, motivo da ação moral (SALGADO, 1995, p. 158-159). A moral em Kant, é fundada em uma proposta de autonomia, uma moral autônoma que se funda na razão pura, excluindo qualquer influência externa na formulação de leis práticas, deste modo para que uma vontade seja considerada boa, do ponto de vista moral, ela deve ser determinada por si mesma e não por forças externas que venham determinar seu movimento.
...A vontade não deve ser julgada por um critério exterior: ela própria é o critério de todo valor, do bem e do mal. ―Ela é a faculdade de determinar-se somente por aquilo que a razão, independentemente da inclinação, reconhece praticamente necessário, isto é, como bom.‖ A regra criada pela vontade pura (não sujeita às inclinações sensíveis) é necessariamente conforme essa vontade. Só por isso ela é valida (SALGADO, 1995, p. 159 apud KANT, IV, p.412).
Em terceiro plano Kant desenvolve o conceito prático de liberdade como autonomia, este conceito é fundado sobre a ideia transcendental da mesma. A liberdade pode ser tomada em dois sentidos: no sentido transcendental, onde ela é interpretada como ―causalidade livre‖ (KANT, 2012, p. 429), e no sentido prático, quando se apresenta como ―independência do arbítrio em relação à necessitação pelos impulsos da sensibilidade‖ (KANT, 2012, p. 410). O conceito prático de liberdade desenvolve-se a partir do conceito transcendental, ambos estão em mútua relação. A moral é fundada sobre estes dois conceitos de liberdade. Em outras palavras, ―a liberdade é, por sua vez, a ratio essendi (razão de ser) da lei moral, isto é, se o homem não fosse livre, a lei moral não poderia ser um dado da consciência, um facto da razão‖ (TAVARES, 1995, p.79).
Por fim, o quarto pressuposto é o princípio de universalização da lei moral, ele é um dos pilares fundamentais da moral kantiana, o qual Kant exporá nos Fundamentos da metafísica dos costumes e depois na Crítica da razão prática, como o critério último de validação das normas. A universalização da lei moral é a base das diversas formulações do imperativo categórico26, desenvolvido por Kant na FMC como princípio supremo da moralidade27.
Os pressupostos apresentados até aqui, a idéia de liberdade como causalidade livre e como autonomia, o conceito de boa vontade e o princípio de universalização da lei moral constituem a base da filosofia moral de Kant. Porém,
26 ―Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal; Age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa como na de qualquer outra, sempre e simultaneamente como um fim e nunca simplesmente como meio; Age de modo a que, pelas tuas máximas, possas ser um legislador de leis universais; Age segundo máximas de um membro universalmente legislador em ordem a um reino dos fins somente possível‖ (KANT, 2009, p. 62, 73, 82, 87).
27
A moral kantiana, formulada a partir do critério de universalização, serve de fundamento para novas propostas éticas, tais como a ética do discurso fundada na década de sessenta por K.-OttO Apel, e desenvolvida por J. Habermas na sua teoria da ação comunicativa. Ambos os filósofos, Apel e Habermas, recorreram ao principio de universalização para fundamentarem suas teorias da ética do discurso. O critério de universalização é um dos principias pressupostos na formulação da lei moral.
tais pressupostos só podem ser desenvolvidos a partir da possível resolução da problemática em se admitir a possibilidade da liberdade como uma espécie de causalidade livre em união com a universalidade da lei natural da causalidade.
2.5 A liberdade “transcendental” como princípio fundante da moral
Toda a construção da moral kantiana parte do problema da liberdade. Ele conceitua a liberdade de duas maneiras: a primeira é entendida como espontaneidade da ação, seria uma ―causalidade pela qual algo acontece sem que a sua causa também seja determinada por outra causa anterior segundo leis necessárias, i. e., uma espontaneidade absoluta das causas” (KANT, 2012, p. 378); a segunda é concebida como autonomia moral, ou seja, a vontade como legislação. Estes dois conceitos são entendidos como liberdade transcendental e liberdade prática. Nos escritos teóricos28 de Kant, podemos encontrar os princípios gerais de uma teoria da obra humana (liberdade prática). Na Dialética Transcendental29, a liberdade é apresentada como espontaneidade de uma causa peculiar, já no Canon30, ele conduz a uma nova compreensão de liberdade como autonomia, porém esta compreensão só é possível por meio da ideia de espontaneidade da ação, sem ela seria impossível pensar em uma liberdade prática, ou seja, ―a supressão da liberdade transcendental aniquilaria toda liberdade prática‖ (KANT, 2012, p. 430). Em síntese, a liberdade prática depende da realidade da liberdade transcendental, pois esta justifica e fundamenta a autonomia moral.
A realidade objetiva da liberdade transcendental não pode ser demonstrada, nem por leis naturais nem por experiência, ela não pode ser explicada e justificada por nada, a não ser por ela mesma. Se pensarmos em fundamentar a liberdade sobre algo que a determine, esse fundamento cairia sobre a natureza ou sobre Deus, mesmo assim o problema continuaria, pois nos é impossível pensar uma moral autônoma que tenha como fundamento a natureza ou Deus. Então como
28
Fazemos menção aqui, em especial, a Crítica da Razão Pura, onde Kant estabelece os limites gerais do conhecimento.
29
Não nos referimos ao conceito de Dialética Transcendental, e sim a um capitulo central da CRP (KANT, 2012, p. 352 – 448), onde são apresentadas as antinomias da razão pura.
conceber uma moral autônoma já que seu fundamento não pode ser demonstrado empiricamente?
Embora o conceito transcendental de liberdade não possa ser demonstrado através da experiência, todavia, a liberdade prática é provada pela experiência. Afirma Kant:
A liberdade prática pode ser provada pela experiência. Pois nem só o que estimula, i. e., que afeta imediatamente os sentidos, determina o arbítrio humano; nós temos também uma faculdade de, por meio de representações daquilo que, mesmo da maneira mais remota, é útil ou prejudicial, superar as impressões causadas em nossa faculdade sensível de desejar; estas considerações, porém, sobre o que seria desejável, i. e., bom e útil, em vista de nosso estado como um todo, baseiam-se na razão. Por isso esta promulga leis que são imperativos, i. e., leis objetivas da liberdade, e que dizem o que deve acontecer (mesmo que nunca talvez aconteça), distinguindo-se assim das leis da natureza, que só tratam do que acontece; razão pela qual também são denominadas leis práticas (KANT, 2012, p.583).
Apesar de a liberdade prática, segundo Kant, ser provada pela experiência, a questão da realidade da liberdade transcendental permanece um problema. Pois, se a autonomia da vontade depende de certa forma de uma causalidade livre, ―pela qual algo acontece sem que a sua causa também seja determinada por outra causa anterior segundo leis necessárias...‖ (KANT, 2012, p. 378), e por vez essa causalidade se contrasta com a causalidade segundo as leis da natureza, onde ―tudo o que acontece, portanto, pressupõe um estado anterior ao qual ele se segue inexoravelmente segundo uma regra‖ (KANT, 2012, p.377), então permanece a questão em saber se a liberdade transcendental em geral é possível e, em sendo-o, se pode coexistir com a universalidade da lei natural da causalidade. A possível resolução deste problema, que é apresentado no Segundo Livro da Dialética Transcendental31 (KANT, 2012, p.432), constitui a chave de explicação da autonomia da vontade.
31
2.6 Natureza e Liberdade na terceira antinomia da Crítica da Razão Pura
O princípio supremo da moralidade é a liberdade, ela é a base de todo o edifício moral moderno, os conceitos de boa vontade, autonomia, virtude e dever só podem ser desenvolvidos a partir dela, em outras palavras, sem a ideia de liberdade é impossível fundar uma moral autônoma. O filósofo de Königsberg conceitua a liberdade32 como a pedra-de-toque para a elucidação da autonomia da vontade, ele a expõe na FMC como um pressuposto da autonomia da vontade. Segundo Kant: ―a todo ser racional que tem uma vontade temos que atribuir-lhe necessariamente também a ideia de liberdade, sob a qual ele unicamente pode agir‖ (KANT, 2009, p. 102). Apesar da liberdade em seu primeiro momento ser atribuída, na filosofia kantiana, a todo ser racional, como uma propriedade sob a qual ele unicamente pode atuar, este conceito de liberdade constitui um problema, a saber, se é possível ou não a existência de tal propriedade dos seres racionais.
Apolinário, acerca da liberdade, afirma que sua existência não pode ser provada empiricamente, pois compreende-se a liberdade como uma ideia.33 Ressalta o filósofo:
À luz dessa colocação, compreende-se que essa liberdade da vontade não se prova empiricamente, é ideia34 a priori inscrita na vontade de todo ser
racional, que partindo dela compõe ações no mundo. Portanto, a moralidade, resulta da relação dos atos com a autonomia da vontade, possui ligação direta com a ideia de liberdade, que em conformidade com o léxico kantiano é ideia, não pode ser provada em realidade nem
32
O conceito de liberdade que aqui tratamos é um conceito meramente negativo e faz menção ao primeiro momento da liberdade, ele pode ser concebido, de acordo com Salgado, ―como independência com relação às condições empíricas‖ (SALGADO, 1985, p. 235). O segundo momento da liberdade compreende-se como liberdade positiva ou prática, este é o momento em que a liberdade deixa de ser independência do arbítrio com relação às condições empíricas e passa a ser legisladora dando leis de ações ao arbítrio, em outras palavras, a liberdade em seu segundo momento identifica-se como autonomia. Em termos kantianos, ―poder-se-ia definir a liberdade prática também pela independência da vontade de toda outra lei com exceção unicamente da lei moral‖ (KANT, 2011, p. 152).
33 Por ideia, em termos kantianos, compreende-se ―aquilo que, no domínio do pensamento, não se origina dos sentidos e, inclusive, ultrapassa as próprias noções do entendimento‖ (KANT, 2008, p. 32). Segundo Kant, é impossível conhecermos as idéias, pois, só podemos conhecer aquilo que passa pelo crivo da experiência, as ideias podem somente ser pensadas e pressupostas de uma possível existência.
34 Veja-se a Dialética Transcendental (em específico, o primeiro livro Dos Conceitos da Razão Pura) –
depreendida como princípio constitutivo; é apenas passível de pressuposição (APOLINÁRIO, 2012, p. 50, 51)
Se a liberdade é um pressuposto da autonomia da vontade, daqui resulta que a liberdade é o princípio fundamental de toda moralidade e que todo o desenvolvimento das leis morais dependem da pressuposição da sua existência. Em Rohden vamos encontrar o seguinte esclarecimento, ―A ideia teórica de liberdade é uma espécie de credencial para as leis morais‖ (ROHDEN, 1981. p.34).
O conceito de liberdade que tratamos até aqui é um conceito negativo, e de acordo com a filosofia kantiana tem de pressupor-se como propriedade da vontade. Kant afirma que:
Não basta que atribuamos liberdade à nossa vontade, seja por que razão for, se não tivermos também razão suficiente para a atribuímos a todos os seres racionais. Pois como a moralidade nos serve de lei somente enquanto somos seres racionais, tem ela que valer também para todos os seres racionais; e como não pode derivar-se senão da propriedade da liberdade, tem que ser demonstrada a liberdade como propriedade da vontade de todos os seres racionais, e não basta verificá-la por certas supostas experiências da natureza humana (se bem que isto seja absolutamente impossível e só possa ser demonstrada a priori), antes temos que demonstrá-la como pertencente à actividade de seres racionais em geral e dotados de uma vontade (KANT, 2009, p. 101).
Este primeiro momento da liberdade, que se caracteriza como espontaneidade, é um pressuposto que todo ser racional deve ter para que se possa considerá-lo verdadeiramente livre, porém a liberdade em seu sentido negativo constitui um problema, como havíamos ressaltado no item anterior. Segundo Kant, o conceito de liberdade como espontaneidade, o qual se compreende como o primeiro momento da liberdade, não pode ser demonstrado, nem por leis naturais nem por experiência. Então, o que garante a liberdade ao homem imerso no determinismo, haja vista que sua existência não pode ser provada? Caso queiramos pressupor uma existência à ideia de liberdade, teríamos que encontrar uma possível resolução para o seguinte problema: é possível natureza e liberdade existirem ambas ao mesmo tempo como causalidades no curso do mundo? Pois, a ideia de liberdade, aparentemente, entra em contradição com a universalidade da lei natural da causalidade.
A discussão sobre a possibilidade da liberdade tem sua origem na CRP, na parte que expõe o Terceiro conflito das ideias transcendentais da antinomia da razão
pura (KANT, 2012, p. 377). O problema apresentado na terceira antinomia35 gira em torno da ideia de liberdade, concebida como independência das leis da natureza e do conceito de natureza, entendida como conformidade a leis. Ressalta Allison, que:
A concepção cosmológica de liberdade que Kant trata inicialmente na <<Terceira antinomia >> é caracterizada como <<liberdade transcendental >> e é definida como a capacidade [Vermögen] de começar um estado espontaneamente [von selbst] >> (A 533 / B 561) . Isto se contrasta com a <<causalidade segundo as leis da natureza >> ou simplesmente com a causalidade mecanicista que governa a conexão dos acontecimentos no tempo. De acordo com essa concepção, muito conhecida a partir da <<Segunda analogia>>, todo acontecimento tem uma causa antecedente. Mas esta causa, como Kant muitas vezes a chama, <<causalidade da causa>> é, em si mesma, um acontecimento no tempo. Portanto, também deve ser determinado por uma causa antecedente, e assim até o infinito. Uma vez que ambos os lados da disputa antinômica assumir o regime exclusivo de causalidade mecanicista do mundo, e o assunto em discussão é saber se também é necessário , ou pelo menos possível, apelar a outro tipo de causalidade (liberdade transcendental) a fim de conceber um primeiro começo do mundo (ALLISON, 1992, p. 470, 471).36
O conceito de liberdade kantiano se contrasta com a causalidade segundo as leis da natureza, e simplesmente, com a causalidade mecanicista que rege a conexão dos eventos no tempo. A dificuldade em se admitir a realidade da liberdade transcendental, juntamente com a causalidade mecanicista da natureza, constitui a questão central do problema apresentado na terceira antinomia, a saber, se é possível a liberdade como uma espécie de causalidade, que aparentemente quebra com a ordem mecanicista da causalidade segundo as leis da natureza. A aceitação da liberdade como causalidade resultaria na supressão do ―único fio condutor das regras em que uma experiência completamente concatenada seria possível (KANT, 2012, p. 378)‖.
Analisaremos a tese apresentada na terceira antinomia, que afirma a necessidade de admitir, além da causalidade natural, uma causalidade livre para a
35 Por antinomia entendemos o ―desacordo ou contradição ocorrida entre as leis da razão pura‖ (KANT, 2008, p. 26), em outras termos, o ―conflito da razão consigo própria, resultante de duas proposições afirmadas pela razão e que se opõem entre si‖ (TAVERES, 1997, p.143). A possível solução de uma antinomia supõe a distinção entre conhecer e pensar.
36
explicação dos fenômenos. Em seguida, faremos uma análise da antítese que, por sua vez sustenta que ―não há liberdade‖, mas que ―tudo acontece no mundo segundo leis da natureza‖. A ideia central da tese afirma o seguinte:
A causalidade segundo leis da natureza não é a única a partir da qual os fenômenos do mundo possam ser deduzidos em seu conjunto. Para explicá-los é também necessário assumir uma causalidade por meio da liberdade (KANT, 2012, B 472).
A tese defende a existência de uma causalidade, pela qual algo acontece, sem que sua causa tenha sido causada por outra causa, ―um tipo particular de causalidade pela qual os acontecimentos do mundo poderiam ocorrer, qual seja, uma faculdade de começar absolutamente um estado” (KANT, 2012, p. 378). A antítese levantada contra este argumento defende a impossibilidade da existência da liberdade, pois ela quebraria com a ordem lógica dos acontecimentos no mundo, atribuindo assim um caráter ilusório ao conceito de liberdade:
A liberdade transcendental se contrapõe à lei causal, portanto, a essa ligação dos estados sucessivos de causas atuantes, pela qual não é possível uma unidade da experiência – que, pois, também não poderia ser encontrada na experiência –, é, portanto, um mero produto do pensamento. Só temos a natureza, portanto, onde procurar a concatenação e a ordem dos acontecimentos do mundo. A liberdade (independência) das leis da natureza é, de fato, uma libertação da coerção, mas também o é em relação ao fio condutor de todas as regras (KANT, 2012, p. 378, 379).
A oposição contra a tese afirma a impossibilidade de assumir a liberdade como um tipo de causalidade particular (espontaneidade), pois não poderíamos afirmar que em vez das leis da natureza, fossem colocadas as leis da liberdade como causalidade do curso do mundo, se isto fosse possível, e se a liberdade fosse determinada segundo leis, já não seria liberdade e sim natureza. Tal objeção culminará na antítese já citada, ―Não há liberdade, mas tudo no mundo acontece unicamente em virtude das leis da natureza.‖ A antítese nega tanto a necessidade como a possibilidade desta causa. Afirma que todo processo causativo, sem exceção, deve ser de tipo mecanicista, e ao sustentar isto se obriga a aceitar uma cadeia causal infinita.
Antes de apresentarmos a possível resolução kantiana para este problema antinômico, é necessário analisarmos detalhadamente os argumentos desenvolvidos na tese e antítese. Recorreremos à análise feita por Allison em sua obra El idealismo
trascendental de Kant: una interpretación y defensa, onde o filosofo expõe os
argumentos contidos na tese e antítese. Conforme ressalta Allison, os argumentos apresentados na tese desenvolvem-se da seguinte maneira:
1) De acordo com o pressuposto que há de repudia-se, << tudo o que acontece pressupõe um estado anterior o qual segue invariavelmente segundo uma regra >>, isto é simplesmente uma reafirmação do princípio de causalidade;
2) Uma vez que, por hipótese, isso se aplica a qualquer estado, também deve aplicar-se a <<causalidade da sua causa>>, em outras palavras, tal causa deve considerar-se como um evento que acontece ao longo do tempo, que, como tal, requer sua própria causa;
3) Então, neste caso, nunca haveria um primeiro começo ou começo absoluta, no qual significa que não haveria uma série das condições;
4) Mas, se isso acontecer, então não haveria uma causa, o fundamento suficiente para determinar a totalidade, i. e., não haveria uma explicação adequada da totalidade dos fenômenos, mas isso contradiz o princípio da razão suficiente;
5) Por conseqüente, além da <<causalidade segundo as leis da natureza>> ou a causalidade mecanicista, é necessário admitir uma <<causalidade livre >> ou liberdade transcendental, pelo menos a respeito da primeira causa (ALLISON, 1992, p. 471, 472 ).37
No que concerne a analise dos argumentos desenvolvidos na antítese, Allison ressalta que eles são expressos da seguinte maneira:
1) Vamos supor que há liberdade no sentido transcendental, i. . e, << uma faculdade de começar absolutamente um estado e, portanto, começar também absolutamente uma série de conseqüências do mesmo >>;
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2) segue-se que uma série de acontecimento tem o seu primeiro começo, ou começo absoluto, nesta causa espontânea, mas esta causa espontânea deve ter em si mesma um começo absoluto, i. e., <<não haverá nada prévio que permita determinar antes o evento que está ocorrendo de acordo com leis fixas>>; obviamente, isso decorre da definição mesmo de liberdade transcendental;
3) mas o problema é que a <<Analítica>> nos tem indicado que <<todo começo de ação pressupõe um estado da causa ainda não existente>>; aqui é onde entra em jogo o princípio da <<Primeira analogia>> segundo o qual <<toda a mudança é alteração>>; o ponto é que, no caso de um começo absoluto temos, por hipótese, um ato que não pode ser conectado à condição de um agente antecedente;
4) no entanto, isto transgride as considerações da unidade e da experiência precisamente da mesma maneira em que transgride, segundo foi mostrado na exposição da <<Primeira analogia>>, a noção de criação ex nihilo [a partir do nada];
5) Por isso, não pode haver liberdade transcendental, i. e., um ato espontâneo, e toda causalidade é segundo as leis naturais (ALLISON, 1992, p. 471, 472 ).38
Os argumentos apresentados na tese e antítese mostram, aparentemente, que a causalidade mediante a liberdade é incompatível com a causalidade mecanicista da natureza. Porém, para o filósofo de Königsberg, este conflito antinômico descansa sobre uma mera ilusão. Afirma Kant:
Deve-se observar que nós não quisemos estabelecer aqui a realidade da liberdade como uma das faculdades que contêm a causa dos fenômenos de nosso mundo sensível. Pois, além de não ser uma consideração transcendental que somente tivesse a ver com conceitos, isso não daria certo, já que nunca podemos inferir da experiência algo que absolutamente não pode ser pensado segundo leis da experiência. Além disso, não quisemos jamais provar a possibilidade da liberdade; pois isso também não teria dado certo, uma vez que não podemos, em geral, conhecer a partir de meros conceitos a priori a possibilidade de um fundamento real ou de uma causalidade. A liberdade só é tratada aqui como uma ideia transcendental, pela qual a razão pensa começar absolutamente, através do sensível condicionado, a série das condições no fenômeno, mas pela qual também se enreda em uma antinomia com suas próprias leis, que ela prescreve ao
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