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Formas de Ver e Dizer
coordenação
Filomena Viana Guarda
Formas de Ver e Dizer
Ensaios de Cultura e Conflito
Índice
Apresentação 7
Filomena Viana Guarda
Passado, Presente e Futuro dos Intelectuais Públicos 11 Maria Laura Bettencourt Pires
A Fragilidade Ética da Reconciliação em Disgrace
de Steve Jacobs 31
Adriana Alves de Paula Martins
‘À Sombra do Muro’: Imagens Fílmicas entre
a Nostalgia e a Desilusão 39
Filomena Viana Guarda
A Negação do Conflito: O Lugar Comunicacional da Cartuxa
na Pós-Modernidade ou a Outra Forma de dizer a Palavra 51 Carlos Capucho
Uma Aproximação ao Pathos nos Filmes de Exílio
de Andrei Tarkovsky 69
Rui Manuel Brás
De Guerreiros e Mártires a Toureiros. A Imagem de Portugal
e dos Portugueses na História e na Memória Malaio-Indonésia 81 Jorge Santos Alves
Apresentação
Filomena Viana Guarda
O nosso tempo testemunha o impor irreversível de um mundo sem fronteiras, onde o capital circula sem constrangimentos e o ciberespaço, em crescimento estonteante, se abre aos locais mais recônditos do planeta, levando a que cada vez menos se duvide da pertinência da conhecida expressão “aldeia global”, cunhada por McLuhan já na década de 1960. O grande desenvolvimento das novas tecnologias permite, através dos
media e da web, levar a informação e a imagem a toda a parte em tempo real, forçando à redefinição das categorias de tempo e espaço e, ao criar novas percepções do mundo, transforma necessariamente a vida política e cultural das nações. Todavia, neste quadro globalista que dá origem a novas formas de vida transnacional, as sociedades contemporâneas conti-nuam a ter que lidar com conflitos vários e bem complexos. Na verdade, o mundo tendencialmente global traz ainda a consciência da globalidade dos perigos e da intensificação dos conflitos, logo também a multiplicação das reivindicações de diferença (Ulrich Beck), dando, por sua vez, origem a novas polémicas. Nunca como hoje, como constata Marc Augé, se falou tanto de cultura a propósito das mais variadas questões que preocupam a sociedade contemporânea e que se prendem sobretudo com a reflexão alargada sobre a diferença entre os povos, ou melhor, sobre a unidade na diversidade da humanidade.
O grupo de investigação “Cultura e Conflito”, do Centro de Estudos de Comunicação e Cultura (CECC) da Universidade Católica Portuguesa, tem-se dedicado ao estudo do papel da memória cultural e do conflito quer no mundo de ontem quer no mundo de hoje, com base em fontes tão díspares como a literatura e o cinema, a história cultural e a teoria crítica. Conscientes de que a cultura não é mais “um sistema completo e coerente de explicação do mundo” (Lipovetsky e Serroy, 2010: 12), os investigadores do CECC procuram sobretudo contribuir para a inteligi-bilidade do mundo contemporâneo através do recurso à análise cultural
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e ao diálogo interdisciplinar. Formas de Ver e Dizer – Ensaios de Cultura
e Conflito é uma miscelânea de estudos que pretende divulgar parte do trabalho desenvolvido pelos investigadores da linha ao longo do ano de 2010. A heterogeneidade dos ensaios que aqui se apresentam atesta bem a amplitude do objecto de estudo.
Maria Laura Pires, em Passado, Presente e Futuro dos Intelectuais
Pú-blicos, começa por se debruçar sobre os vários papéis que os intelectuais têm vindo a desempenhar na cultura e na sociedade para se deter, logo de seguida, na situação dos intelectuais públicos nas sociedades democráticas no século XXI e no futuro. Interrogando-se sobre a sua representativida-de na sociedarepresentativida-de representativida-de consumo e sobre as consequências representativida-de uma educação democrática em massa, acaba por demonstrar a importância crucial do intelectual público que, através do conhecimento e da criatividade, pode contribuir bastante para a qualidade de vida das sociedades e ajudar a expandir a sua compreensão da realidade.
Em A Fragilidade Ética da Reconciliação em ‘Disgrace’ de Steve Jacobs, Adriana Martins reflecte sobre a adaptação que, em 2008, Steve Jacobs fez do romance de J. M. Coetzee, igualmente intitulado Disgrace (1999), no qual o escritor problematiza a coexistência frágil entre brancos e negros no período posterior ao apartheid. Entendendo-o como um processo de remediação “fiel”, a atenção da autora detém-se sobretudo no modo como o realizador aborda e explora a construção ética de uma nova África do Sul, forçada a lidar com os fantasmas traumáticos de raça e de género do seu passado recente.
Filomena Viana Guarda, em ‘À Sombra do Muro’: Imagens Fílmicas
entre a Nostalgia e a Desilusão, analisa os caminhos do cinema alemão na nova Alemanha unificada e, em especial, o modo como olha retrospecti-vamente para a ex-RDA. No centro da análise estão dois filmes alemães recentes, realizados por cineastas de idades e origens bem distintas:
Sonnenallee, um filme de 1999 de Leander Haußmann, um realizador vindo do leste, não pretende uma avaliação séria do passado nem uma descrição pormenorizada do modo como se vivia na ex-república alemã socialista, mas apenas mostrar de que modo ela é recordada 10 anos após o seu fim; e As Vidas dos Outros, um filme de 2006 de Florian Henckel
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von Donnersmarck, um jovem cineasta nascido e criado no ocidente, mostra-nos sobretudo a repressão e o modo como esta condiciona a vida das pessoas.
Em A Negação do Conflito: O Lugar Comunicacional da Cartuxa na
Pós-Modernidade ou a Outra Forma de dizer a Palavra, Carlos Capucho debruça-se sobre O Grande Silêncio, um documentário realizado pelo ale-mão Philip Gröning em 2005 sobre a Casa-Mãe da Ordem da Cartuxa, nos Alpes Franceses, e que, no seu entender, “não mostra, dá a ver”. O filme permite ao espectador entrar no quotidiano de frades cenobitas que, vivendo embora em comunidade, levam uma vida marcada pelo silêncio, isto é, pela ausência de palavras, ao mesmo tempo que outras poderosas formas de comunicação, bem presentes neste lugar de conjugação de aparentes contrários, se deixam perceber.
Em Uma Aproximação ao Pathos nos Filmes de Exílio de Andrei Tarkovsky, Rui Brás analisa dois filmes de exílio de Andrei Tarkovsky, Nostalgia e
Sacrifício, e o profundo sentimento de perda que marcou a sua decisão de 1983 de permanecer no ocidente. Ficou, todavia, ligado para sempre à
sua Rússia natal, ou seja, à Rússia idealizada que os seus filmes de exílio deixam transparecer.
A fechar o volume, já não no contexto da arte cinematográfica, mas sim dos estudos historiográficos, Jorge Santos Alves apresenta, em De
Guerreiros e Mártires a Toureiros. A Imagem de Portugal e dos Portugueses na História e na Memória Malaio-Indonésia, a súmula de um projecto mais amplo e internacional que se propõe estudar a evolução da imagem e da representação de Portugal e dos Portugueses tanto na História como na memória social malaio-indonésia, desde o momento histórico da sua chegada no século XVI até à década de 1960. Tendo como referencial teórico o jogo de tensões entre conceitos e a objectivação da História, o autor propõe-se investigar se a representação pública dos portugueses é, ou não, uma fusão de múltiplas representações mentais individuais e/ou de grupo, e o modo como essa representação se articula com a História.
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Bibliografia
Augé, Marc (2006), Não-Lugares. Introdução a uma Antropologia da Sobremodernidade, Lisboa: 90º (colecção CHs).
Beck, Ulrich (2007), Was ist Globalisierung?: Irrtümer des Globalismus – Antworten auf
Globalisierung, Frankfurt am Main: Suhrkamp Taschenbuch Verlag.
Lipovetsky, Gilles e Serroy, Jean (2010), A Cultura-Mundo: resposta a uma sociedade