Poder Judiciário JUSTIÇA FEDERAL Seção Judiciária do Paraná 1ª TURMA RECURSAL JUÍZO A

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Texto

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Poder Judiciário JUSTIÇA FEDERAL Seção Judiciária do Paraná 1ª TURMA RECURSAL – JUÍZO A

JUIZADO ESPECIAL (PROCESSO ELETRÔNICO) Nº201070630011420/PR

RELATOR

: Juiz Federal José Antonio Savaris

RECORRENTE

: OSCAR DOS SANTOS

RECORRIDO

: INSTITUTO NACIONAL DO SEGURO SOCIAL

VOTO

Trata-se de recurso interposto pela parte autora contra sentença que

declarou extinto o processo com resolução de mérito por reconhecer a decadência do

direito à revisão do benefício para reconhecimento de tempo de serviço especial e

majoração do coeficiente de concessão da aposentadoria por tempo de contribuição.

A parte recorrente sustenta, em síntese, que o prazo decadencial de 10

anos vale apenas para os benefícios concedidos após a edição e vigência da Lei

9.528/97.

De plano, é necessário analisar a questão da decadência do direito de

requerer revisões que dependam do reconhecimento posterior de períodos de trabalho

rural ou especial.

Esta Turma tem entendido que não incide o prazo decadencial para a

revisão do benefício previdenciário quando o que se pretende é a inclusão de tempo de

serviço rural ou especial não analisado administrativamente na ocasião da concessão

do benefício

1

.

Valho-me das razões expendidas pela Juiz a Federal Márcia Vogel Vidal

Oliveira, em voto divergente que acompanhei, na sessão de julgamento desta Turma

Recursal, ocorrida em 10.11.2010 (autos nº 200970560016274):

“Em que pese já ter proferido voto no mesmo sentido do voto da ilustre relatora, passei a entender que o prazo decadencial/prescricional do art. 103 da Lei de Benefícios não é aplicável nos casos em que a parte pleiteia a revisão do benefício mediante a averbação de períodos de trabalho, sejam eles rurais, urbanos ou especiais.

Isso porque o ato de revisão é reflexo à averbação, ou seja, não é o ato de concessão da RMI que o segurado pretende revisar, mas o reconhecimento do direito à

1

Precedentes da 1ª Turma: autos 2010.70.51.003232-8, sessão de 15.12.2010, minha relatoria e autos 2008.70.56.002061-3, sessão de 29.04.2010, relatora Márcia Vogel Vidal de Oliveira.

Precedentes da 2ª Turma: 2008.70.59.0062567, relatora Andréia Castro Dias, sessão de 26.10.2010. Autos 200870660012160, relatora Ivanise Correa Rodrigues Perotoni, sessão de 25.11.2010.

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averbação de períodos de trabalho, os quais, uma vez reconhecidos, de forma reflexa causarão a revisão do benefício.

Para melhor elucidar a matéria, peço vênia para transcrever, naquilo que interessa ao julgamento, trechos do voto condutor de acórdão proferido pela juíza federal relatora Andréia Castro Dias, autos eletrônicos nº 2009.70.53.003516-6, julgados em 30/03/2010 pela segunda Turma Recursal do Paraná:

Não obstante não tenha sido reconhecida a decadência, pelo fundamento da não-aplicação da Lei 9.528/97 de modo retroativo, com supedâneo nos precedentes do STJ, tenho que não é caso de seu reconhecimento, mas por outro fundamento, qual seja, o de que não se aplica aos casos de averbação e reconhecimento de tempo de serviço. Veja-se.

A Medida Provisória n. 1.523-9, de 27/06/1997, posteriormente convertida na Lei n. 9.528/97, deu nova redação ao art. 103 da Lei n. 8.213/91, instituindo um prazo decadencial de 10 (dez) anos para revisão do ato de concessão dos benefícios previdenciários, já que anteriormente era inexistente:

Art. 103. É de dez anos o prazo de decadência de todo e qualquer direito ou ação do segurado ou beneficiário para a revisão do ato de concessão de benefício, a contar do dia primeiro do mês seguinte ao do recebimento da primeira prestação ou, quando for o caso, do dia em que tomar conhecimento da decisão indeferitória definitiva no âmbito administrativo. (redação originária)

Impende frisar que, de fato, o artigo 103 acima citado trata de prazo decadencial, visto que se está diante de um direito potestativo, o qual impõe, através de seu exercício, à Administração Previdenciária um estado de sujeição. Vale dizer, deverá efetuar a revisão do benefício, independentemente da sua vontade ou mesmo contra sua vontade.

Desenvolvendo a conceituação dos direitos potestativos, AGNELO AMORIM FILHO, em seu clássico artigo Critério científico para distinguir a prescrição

da decadência e para identificar as ações imprescritíveis (Revista de Direito

Processual Civil. São Paulo, v. 3º, p. 95-132, jan./jun. 1961), citando CHIOVENDA, ensina:

“Esses poderes (que não se devem confundir com as simples manifestações de capacidade jurídica, como a faculdade de testar, de contratar e semelhantes, a que não corresponde nenhuma sujeição alheia), se exercitam e atuam mediante simples declaração de vontade, mas, em alguns casos, com a necessária intervenção do Juiz. Têm todas de comum tender à produção de um efeito jurídico a favor de um sujeito e a cargo de outro, o qual nada deve fazer, mas nem por isso pode esquivar-se àquele efeito, permanecendo sujeito à sua produção. A sujeição é um estado jurídico que dispensa o concurso da vontade do

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sujeito, ou qualquer atitude dele. São poderes puramente ideais, criados e concebidos pela lei..., e, pois, que se apresentam como um bem, não há excluí-los de entre os direitos, como realmente não os exclui o senso comum e o uso jurídico. É mera petição de princípio afirmar que não se pode imaginar um direito a que não corresponda uma obrigação”. (Instituições, trad. port., 1/41, 42).

Pois bem, o dispositivo em pauta estabeleceu um prazo para o exercício do direito revisional do ato de concessão de benefício por parte do segurado. Contudo, não se encontra no seu espectro de incidência o pedido de reconhecimento, por parte do INSS, de um tempo de serviço, seja comum ou especial, seja rural ou urbano, devendo-se dar interpretação restritiva a dito dispositivo.

Conforme lecionam Carlos Alberto Pereira de Castro e João Batista Lazzari2,

a decadência atinge todo e qualquer direito ou ação do segurado tendente à revisão do ato que concedeu o benefício, como o cálculo da renda mensal inicial, por exemplo. Contudo, o alcance do prazo decadencial é bastante restrito, circunscrevendo-se apenas aos atos de revisão da concessão do benefício propriamente ditos e, aqui acrescento, não de inclusão de

reconhecimento de tempo de serviço.

Dessa forma, não há falar em decadência do direito do autor de ver reconhecida atividade rural, para a qual não existe previsão legal. Note-se que o que se ataca não é um elemento do ato de concessão formadora da RMI, mas o reconhecimento de um suposto direito e, apenas reflexamente, se requer a revisão do benefício, motivo pelo qual não se pode entender que decaia o direito de alguém ver averbado em seus registros um tempo de serviço efetivamente desempenhado.

Nesse sentido, são as lições dos Magistrados Federais Simone Barbisan

Fortes e Leandro Paulsen, no livro Direito da Seguridade Social, reconhecidas

pela Turma Nacional de Uniformização dos Juizados Especiais Federais (autos n. 2004.61.85.009918-9):

“(...) A decadência previdenciária, ao contrário do que ocorre com a prescrição, atinge o próprio “fundo de direito”, isto é, uma vez decorrido o prazo legalmente previsto impede o próprio reconhecimento do direito, vedando assim também qualquer produção de efeitos financeiros. Todavia, é preciso que se frise que seu objeto, até mesmo em face dos princípios da hipossuficiência e da protetividade dos segurados, é bastante limitado, atingindo exclusivamente a revisão do ato de concessão de benefício.

2

CASTRO, Carlos Alberto de e LAZZARI, João Batista. Manual de Direito

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Portanto, não há decadência do direito ao benefício, já que o dispositivo legal determina sua incidência quando em discussão revisão de ato concessório, isto é, de benefício já em manutenção. Daí decorre que segurado pode, a qualquer tempo, requerer, judicial ou administrativamente, benefício cujo direito tenha sido adquirido a bem mais de 10 anos.

Por outro lado, discussões no entorno do benefício previdenciário ou se sua renda, que sejam posteriores ao ato de concessão, também ficam fora do prazo decadencial, como por exemplo aquelas pertinentes ao reajustamento de benefícios previdenciários.

Resta, portanto, como único objeto do prazo decadencial, a matéria pertinente ao cálculo da renda mensal inicial dos benefícios previdenciários: tem-se, aqui, um benefício concedido, e a discussão envolve revisão de um elemento do ato de concessão, qual seja a fixação da renda mensal inicial da prestação.

(Direito da Seguridade Social – Simone Barbisan Fortes e Leandro Paulsen, editora livraria do advogado – 2005 – págs. 252/253)

Na mesma linha, a doutrina dos Juízes Federais Daniel Machado da Rocha e

José Paulo Baltazar Júnior (Comentários à Lei de Benefícios da Previdência

Social, 7ª edição, Editora, Livraria do Advogado e ESMAFE/RS, POA:2007, pág.358 e 361):

“A instituição de um prazo decadencial para o ato de revisão DOS CRITÉRIOS CONSTANTES DO CÁLCULO da renda mensal inicial dos benefícios previdenciários, inclusive dos decorrentes de acidente do trabalho, é uma inovação. Em consonância com a nova regra, no caso de o valor da aposentadoria do segurado ter sido calculada de forma equivocada, após o transcurso do prazo de 10 anos (prazo decadencial inicialmente previsto), o erro tornar-se-á definitivo.

(...)

“É relevante destacar que a regra da caducidade ABARCA EXLUSIVAMENTE OS CRITÉRIOS DE REVISÃO DA RENDA MENSAL INICIAL. (...) Não pode ser invocada para elidir ações revisionais que busquem a correção de reajustes aplicados erroneamente às prestações previdenciárias .(...)”

Em sendo assim, repito: o reconhecimento de tempo de serviço não está incluído no campo restrito de incidência da decadência.

Não destoa do entendimento supra a recente decisão do E. Tribunal Regional Federal da 4ª Região ao se manifestar a respeito:

PREVIDENCIÁRIO. REVISÃO DE BENEFÍCIO. APOSENTADORIA POR TEMPO DE SERVIÇO. DECADÊNCIA. CÔMPUTO DE TEMPO DE SERVIÇO ESPECIAL. CORREÇÃO MONETÁRIA. JUROS DE

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MORA. 1. O prazo decadencial de que trata o artigo 103 da Lei 8.213/91 insere-se no contexto referente ao controle de legalidade do ato administrativo de concessão de benefício previdenciário. Assim, dizendo a hipótese prevista na norma com limitação temporal da pretensão de submissão do ato administrativo a controle, incide a decadência apenas sobre os estritos limites nele estabelecidos. 2. A decadência prevista no artigo 103 da Lei 8.213/91 não alcança questões que não restaram resolvidas no ato administrativo que apreciou o pedido de concessão do benefício. Isso pelo simples fato de que, como o prazo decadencial limita a possibilidade de controle de legalidade do ato administrativo, não pode atingir aquilo que não foi objeto de apreciação pela Administração. 3. A Lei nº 9.711/98 e o Regulamento Geral da Previdência Social aprovado pelo Decreto nº 3.048/99 resguardam o direito adquirido de os segurados terem convertido o tempo de serviço especial em comum, até 28-05-1998, observada, para fins de enquadramento, a legislação vigente à época da prestação do serviço. 4. Até 28/04/1995 é admissível o reconhecimento da especialidade por categoria profissional ou por sujeição a agentes nocivos, aceitando-se qualquer meio de prova (exceto para ruído); a partir de 29-04-1995 não mais é possível o enquadramento por categoria profissional, devendo existir comprovação da sujeição a agentes nocivos por qualquer meio de prova até 05-03-1997 e, a partir de então e até 28-05-1998, por meio de formulário embasado em laudo técnico, ou por meio de perícia técnica. 5. Comprovado o exercício de atividades especiais, cujo acréscimo decorrente da devida conversão para tempo de serviço comum deve ser acrescido ao tempo reconhecido pelo INSS, tem o segurado direito à revisão de seu benefício de aposentadoria por tempo de serviço, a contar da data do requerimento administrativo de revisão. 6. A despeito dos precedentes anteriores da Turma em sentido contrário, firmou-se na 3ª Seção deste Tribunal o entendimento de que atualização monetária, incidindo a contar do vencimento de cada prestação, deve-se dar pelos seguintes indexadores: ORTN (10/64 a 02/86, Lei nº 4.257/64), OTN (03/86 a 01/89, Decreto-Lei nº 2.284/86, de 03/86 a 01/89), BTN (02/89 a 02/91, Lei nº 7.777/89), INPC (03/91 a 12/92, Lei nº 8.213/91), IRSM (01/93 a 02/94, Lei nº 8.542/92), URV (03 a 06/94, Lei nº 8.880/94), IPC-r (07/94 a 06/95, Lei nº 8.880/94), INPC (07/95 a 04/96, MP nº 1.053/95), IGP-DI (05/96 a 03/2006, art. 10 da Lei n.º 9.711/98, combinado com o art. 20, §§ 5º e 6.º, da Lei n.º 8.880/94) e INPC (04/2006 a 06/2009, conforme o art. 31 da Lei n.º 10.741/03, combinado com a Lei n.º 11.430/06, precedida da MP n.º 316, de 11/08/2006, que acrescentou o art. 41-A à Lei n.º 8.213/91, e REsp. n.º 1.103.122/PR). Nesses períodos, os juros de mora devem ser fixados à taxa de 1% ao mês, a contar da citação, com base no art. 3º do Decreto-Lei n. 2.322/87, aplicável analogicamente aos benefícios pagos com atraso, tendo em vista o seu caráter eminentemente alimentar, consoante firme entendimento consagrado na jurisprudência do STJ e na Súmula 75 desta Corte. 7. De acordo com o entendimento

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predominante da 3ª Seção desta Corte, a contar de 01/07/2009, data em que passou a viger a Lei 11.960, de 29/06/2009 (publicada em 30/06/2009), que alterou o art. 1.º-F da Lei 9.494/97, para fins de atualização monetária e juros haverá a incidência, uma única vez, até o efetivo pagamento, dos índices oficiais de remuneração básica e juros da caderneta de poupança, sendo a modificação legislativa aplicável imediatamente aos feitos de natureza previdenciária. (TRF4, AC 2008.71.08.000792-5, Turma Suplementar, Relator p/ Acórdão Ricardo Teixeira do Valle Pereira, D.E. 25/01/2010)

Por fim, impende registrar que, consoante referido acima, independentemente da questão relativa ao reconhecimento de tempo de serviço ter sido aventada ou não na esfera administrativa quando do requerimento do benefício, a possibilidade de seu reconhecimento não fica restrita ao prazo de decadência, haja vista que esta se opera apenas quanto aos critérios específicos da formação da RMI no ato de concessão; ato esse que é único e vinculado, razão pela qual a sua revisão pelo segurado e/ou pelo INSS (art. 103-A da LBPS) trata-se de direito potestativo.

Portanto, o pedido de reconhecimento de um tempo de serviço pode ser feito a qualquer tempo, estando afeto apenas ao prazo prescricional. Incide, nessa lógica, a Súmula 85 do STJ: “Nas relações jurídicas de trato sucessivo em

que a Fazenda Pública figure como devedora, quando não tiver sido negado o próprio direito reclamado, a prescrição atinge apenas as prestações vencidas antes do quinquênio anterior a propositura da ação” e, por conseqüência, o

artigo 103, parágrafo único da Lei 8.213/91 (...)”

Pelo entendimento acima exposto, ainda que tenham decorrido mais de

dez anos entre a concessão do benefício do recorrido e o ajuizamento da ação, não

ocorreu a decadência do direito de revisar a aposentadoria ora recebida, haja vista que

tal pleito funda-se no reconhecimento e conversão de períodos especiais.

Desta forma, considerando-se que não houve análise dos períodos

pleiteados na inicial e a fim de evitar cerceamento de defesa em razão do

encurtamento da instrução processual, entendo prudente a anulação da sentença.

Ante o exposto, voto por ANULAR A SENTENÇA, retornando os autos

à origem para seu regular processamento e reabertura de instrução processual, caso

necessária.

Sem honorários.

Curitiba, data do ato.

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Assinado digitalmente, nos termos do art. 9º do Provimento nº 1/2004, do Exmo. Juiz Coordenador dos Juizados Especiais Federais da 4ª Região.

José Antonio Savaris

Juiz Federal Relator

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