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Cad. Saúde Pública vol.4 número2

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Academic year: 2018

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EDITORIAL

Sangue e Escravidão

"Cahe, orvalho de sangue de escravo, Cahe, orvalho, na face do algos. Cresce, cresce seara vermelha, Cresce, cresce, vingança feroz".

Castro Alves

A recente decisão da Constituinte de proibir a comercialização do sangue e derivados vem sendo acu-sada de "emocional" por setores ligados à área empre-sarial que realiza transfusões, fraciona ou processa o sangue.

O fato, no entanto, é que os constituintes decidi-ram sobre um assunto que estava sendo debatido pela sociedade brasileira há três anos, isto é, desde que pioneiramente em 1985, no Estado do Rio de Janeiro, além de proibir a remuneração de doadores, a Secreta-ria de Saúde deste Estado interditou bancos de sangue e partidas de hemoderivados. A seriedade do problema conferiu a legitimidade necessária para que o "emocio-nal" ato técnico-administrativo de então desencadeas-se o processo político e jurídico que desaguou agora na carta magna.

Contra esse movimento de opinião pública o argu-mento "racional", não emocional, seria: "O corpo do homem é uma fábrica de células e líquidos sangüíneos para os quais há um vasto mercado. Para prover a demanda a livre iniciativa está mais bem capacitada". A emoção ficaria eficientemente reservada aos velórios.

A essa lógica se contrapôs o voto da maioria dos constituintes, reafirmando que o sangue não é uma mercadoria. Não é purpurina ou farinha de rosca... O sangue é simplesmente a energia para a luta, o pulsar das emoções, o sangue é a própria vida.

Por coincidência essa decisão é tomada em 1988, é fácil imaginar, isto é, cem anos depois da abolição da escravatura. Aquela época, como hoje, muitos acha-vam que a abolição desestruturaria a economia do país, e afinal, os abusos, torturas, poderiam ser coibidos e fiscalizados rigorosamente. Havia os "bons" senho-res e os maus deveriam ser punidos...

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Como poderia uma nação que pretendesse se tor-nar digna entrar no século XX como a única que manti-nha a escravidão?

Em nossos dias, mendigos, viciados,no desespero da fome, do abandono, vendem clandestinamente peda-ços liquefeitos de seu corpo miserável. Desempregados trocam seu sangue por leite aguado para seus filhos. A sociedade, a racionalidade capitalista selvagem, não se satisfez em produzir miseráveis: suga-lhes o sangue, devora suas magras entranhas. Essa a dura e rude face do que estamos chamando de questão do sangue. Como entrar no terceiro milênio admitindo que partes do corpo do homem, sangue, rins, coração, fígado, se tornem objeto de comércio; expostos, quem sabe, em futuro próximo, em macabro açougue biotec-nológico?

É possível, como dizem por aí, que a emoção de alguns constituintes que aprovaram a medida se restringisse ao medo de contrair AIDS em transfusão; mas isso não torna a decisão menos correta.

Logo, se o voto dos constituintes foi dado "emo-cionalmente" na questão do sangue, respondendo a um movimento social eivado de indignação ante práti-cas que degradam a condição humana e colocam em risco a vida de todos nós, só temos a lastimar que em outras votações, como a da reforma agrária e do mandato presidencial, não tenha prevalecido a mesma emoção, que sucumbiu perante os radicais favores dis-tribuídos pelos poderosos.

Eduardo Costa Professor Titular da

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