• Nenhum resultado encontrado

Rev. Soc. Bras. Med. Trop. vol.39 número5

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2018

Share "Rev. Soc. Bras. Med. Trop. vol.39 número5"

Copied!
3
0
0

Texto

(1)

5 0 7

Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical 3 9 ( 5 ) :5 0 7 -5 0 9 , set-out, 2 0 0 6

CARTA AO EDITOR/LETTER TO EDITOR

Eliminação da transmissão da doença de Chagas pelo

Triatoma infestans no Brasil: um fato histórico

Transmission elimination of Chagas’ disease by

Triatoma infestans in Brazil: an historical fact

1 . Ac adêmic o s de Medic ina da Universidade Federal do Ceará, Fo rtaleza, CE.

Ender eço par a co r r espo ndência: Ac ad. Tiago Pesso a Tabo sa e Silva. Rua Caio Cid 5 3 0 , Edso n Queiro z, 6 0 8 1 1 -1 5 0 Fo rtaleza, CE. e-mail: drtiago pesso a@ yaho o .c o m.br

Rec ebido para public aç ão em 2 8 /7 /2 0 0 6 Ac eito em 8 /9 /2 0 0 6

Senho r Edito r :

O Ministério da Saúde do Brasil rec ebeu no dia 9 de junho de 2 0 0 6 , a Ce r tific aç ão Inte r nac io nal de Eliminaç ão da Transmissão da Doenç a de Chagas pelo Triatoma infestans, c onferida pela Organizaç ão Pan-Americ ana da Saúde6.

Torna-se importante enfatizar, no entanto, que tal c ertific aç ão não r e pr e s e n ta o c o n tr o le e fe tivo da do e n ç a n o B r a s il. A c ertific aç ão representa somente a eliminaç ão ( interrupç ão momentânea) da transmissão da doenç a espec ific amente pelo tr iato m íne o da e spé c ie T. infe stans . Dife r e nte m e nte da erradic aç ão – que representa a interrupç ão definitiva da transmissão mesmo na ausênc ia de qualquer aç ão de c ontrole – a eliminaç ão pressupõe a manutenç ão de alguma aç ão de c ontrole e vigilânc ia para que a interrupç ão se mantenha1 5.

Não há dúvida de que as estratégias de c ontrole da doenç a de Chagas no B rasil têm obtido exc elentes resultados nos últim o s a n o s . Ho uve r e duç ã o s ign ific a tiva do r is c o de tr ansm issão da do e nç a no país. Um gr ande im pac to na pr e valê nc ia da infe c ç ão , no ado e c im e nto e , m e sm o , na mortalidade tem sido observado1 7. A reduç ão da prevalênc ia

da infec ç ão em c rianç as de baixa idade, doc umentada através de inúmer o s inquér ito s so r o ló gic o s r ealizado s em vár ias regiões do país, evidenc ia o virtual c ontrole da transmissão vetorial e da transmissão c ongênita2 7.

A transmissão vetorial da doenç a de Chagas no país foi grandemente reduzida e há tec nologia para sustentar os níveis de c ontrole alc anç ados. Além disso, a reduç ão da transmissão vetorial resultou também na diminuiç ão de gestantes e de doadores de sangue infec tados, o que reduziu os risc os de tr ansmissão tr ansfusio nal e c o ngê nita. No e ntanto , se r ia ingênuo pensar que o problema do c ontrole da doenç a de Ch a ga s n o B r a s il e s tá r e s o lvido . Fr e n te à r e duç ã o da magnitude da do enç a, r ec entemente lo gr ada, pr eo c upa a pr o gr e ssiva pe r da de vo ntade po lític a e de c o mpe tê nc ia té c n ic a pa r a o c o n tr o le da do e n ç a , a lé m do r is c o de dim inuiç ã o da pa r tic ipa ç ã o po pula r na s e str a té gia s de c ombate2.

Embora a transmissão por Triatoma infestans tenha sido interrompida no Brasil, ainda não houve a eliminação de sua infestação domiciliar. Embora se acredite que tal eliminação seja possível em médio prazo, existem relatos da c apac idade de repovoamento de T. infestans quando da interrupção de ações regulares de controle e vigilância3. A ausência de uma vigilância

epidemiológica minimamente atuante representa risco concreto de rec uperaç ão do triatomismo domic iliar, sobretudo nos b o lsõ e s de po b r e za e nas r e giõ e s po litic am e nte m e no s representativas. Importa considerar, no entanto, que tais riscos são, em parte, diminuídos pelo próprio processo de adaptação dos triatomíneos à vivenda humana, que é lento e requer simplificações genéticas, biomorfológicas e de comportamento4.

Não se po de e sque c e r da pe c uliar idade que o B r asil possui: uma enorme diversidade de espéc ies de triatomíneos ve to r e s da do e n ç a , s o b r e tudo n a r e giã o No r de s te3. É

pr e o c upante o r isc o de do m ic iliaç ão de e spé c ie s ditas sec undárias – c o mo T. brasiliensis, T. pseudo mac ulata e T. sordida – , c ujo habitat preferido é o peridomic ílio. Porém, e s te p r o c e s s o de do m ic ila ç ã o , ge r a lm e n te , é le n to e dependente de alta pressão triatomínic a2.

Além do controle da transmissão da doença por T. infestans – principal triatomíneo vetor – , outras evidências do sucesso obtido pelas medidas de controle vetorial são obtidas através dos indicadores entomológicos mais recentes. Tais indicadores evidenc iam: reduç ão c onsiderável da infestaç ão domic iliar por P. megistus – outro importante triatomíneo domiciliado – ; e, no c aso das o utras espéc ies – ditas sec undárias, mais peridomiciliadas – , ainda que os resultados tenham sido menos expressivos, tem sido possível manter níveis de infestação e de colonização intradomiciliar incompatíveis com a transmissão, apesar de que, nesse c aso, seja nec essário um trabalho de vigilância de caráter contínuo, com pronta intervenção, uma vez haja evidência de constituição de colônias na habitação1 2 1 6 1 7.

(2)

5 0 8

Car ta ao Edito r

pró pria po pulaç ão , devidamente c apac itada, mas também motivada2.

As estratégias de combate da transmissão transfusional da doença de Chagas no Brasil têm obtido excelentes resultados. No ta- se r e duç ão signific ativa do s r isc o s de tr ansm issão transfusional da doenç a através das aç ões de c ontrole das atividades hemoterápicas – além do controle vetorial que reduziu a prevalência de doadores infectados. Ainda, legislação específica sobre a qualidade da hemoterapia, laboratórios nac ionais e regionais de referência foram implementados, objetivando-se uma b o a so r o lo gia pr é -tr ansfusio nal do s do ado r e s, c uj a cobertura tem aumentado – com vários estados alcançando o controle sorológico de mais de 9 0 % das transfusões realizadas. A hemorrede pública pode ser considerada um ponto alto da Saúde Públic a brasileira, ostentando um elevado padrão de qualidade4.

Em termos relativos a outros mec anismos, a transmissão c ongênita possui baixa importânc ia epidemiológic a1 1, mas

ainda c onstitui uma via, em potenc ial, de manutenç ão da endemia c hagásic a no Brasil. É rec omendável tornar rotineira a investigaç ão de gestantes c hagásic as no pré-natal e garantir o tratamento de rec ém-nasc idos infec tados1 4.

A c o m pr e e n s ã o e xa ta do ve r da de ir o s ign ific a do da c e r tific aç ão c o nfe r ida ao B r asil, e xige a r e fle xão ac e r c a do c o nte xto atual das atividade s de c o ntr o le da do e nç a de Chagas no país. Em 1 9 9 1 , em virtude das semelhanças no comportamento epidemiológico da doença de Chagas no Cone Sul da América, os ministros de saúde dos países desta sub-região criaram a Comissão Intergovernamental de Doença de Chagas, tendo a Organização Pan-americana da Saúde como Secretaria. Foi elaborado um programa sub-regional e um plano de ação comum a todos os países para a eliminação da infestação domiciliar por Triatoma infestans e a interrupção da transmissão de Trypanosoma cruzi por via transfusional1 0 1 5.

Passados 1 5 anos, o avanç o alc anç ado é inegável e o risc o de transmissão da do enç a fo i substanc ialmente reduzido , espec ialmente em alguns países5 7 1 5. O Uruguai8, em 1 9 9 7 , e o

Chile9, em 1 9 9 9 , rec eberam o c ertific ado de interrupç ão da

transmissão vetorial da doenç a de Chagas1 5. Diferentemente

do Brasil, em tais países a transmissão vetorial ocorria somente por triatomíneos da espéc ie T. infestans5 7 1 5.

Frente aos avanços alcançados no controle da doença de Chagas no Brasil, é fundamental que as atividades de vigilância epidemiológica sejam revistas e redimensionadas, adequando-se aos níveis de controle logrados e ao risco de que se restabeleça a transmissão1 6. Não se pode esquecer o exemplo da malária:

considerada em extinção no Brasil, nas décadas de 60 e 70, graças à cloroquina e ao DDT, ressurgiu com toda a força nas décadas de 80 e 90, não somente pela resistência do P. falciparum à cloroquina, mas também pela desativação dos serviços de controle3.

No B r a s i l , p r e o c u p a s o b r e m a n e i r a a p r o gr e s s i va desativaç ão da Fundaç ão Nac ional de Saúde, a propósito do projeto de desc entralizaç ão das aç ões de saúde. Esta transiç ão po de se r c o mplic ada se o s munic ípio s não c o nse guir e m realizar as atividades de c ontrole, princ ipalmente se faltarem

instânc ias regionais de supervisão, artic ulaç ão e c onsolidaç ão epidemiológic a3.

Os principais desafios da doença de Chagas no Brasil a serem enfrentados, nos próximos anos, são: os riscos de reemergência da transmissão pelo T. infestans; a adaptação1 de outras espécies

de triatomíneos, secundários, ao domicílio; a desativação dos programas de c ontrole e de vigilânc ia vetorial em muitos municípios; a necessidade de atenção médica e social à grande massa de chagásicos crônicos necessitando de tratamento; o estudo e a prevenção de mecanismos alternativos de transmissão, como por via oral; e o controle do ufanismo de pesquisadores, sanitaristas e executivos de agências nacionais e internacionais que consideram a doença de Chagas com os dias contados, o que não é verdade e possibilita redução ainda maior nos recursos e prioridades destinados ao controle da doença3.

A po ssibilidade de inter pr etaç õ es er r ô neas ac er c a do signific ado c orreto da c ertific aç ão c onferida ao Brasil, pela Organização Pan-americana da Saúde, nos leva à discussão de o q ua n to ta is in fo r m a ç õ e s po de m s e r r e s po n s á ve is pe la desmobilização de toda a sociedade para um problema que está longe de ser controlado, com significativo prejuízo para as ações de controle, que buscam a participação ativa da população1 3.

Fa z- s e n e c e s s á r io dis c utir, c o m m a io r a te n ç ã o e profundidade, o c ontrole da doenç a de Chagas no B rasil, busc ando sempre o envolvimento de toda a soc iedade, em especial da comunidade científica, pois esta desempenha um importante papel na disseminação, inclusive educacional, de informações fidedignas acerca da verdadeira situação de saúde relativa à doença de Chagas no país.

Israel de Lucena Martins Ferreira

1

e Tiago Pessoa Tabosa e Silva

1

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1 . B o rges EC, Pires HHR, B arbo sa SE, Nunes CMS, Pereira MH, Ro manha AJ,

Dio taiuti L. Genetic var iab ility in B r azilian tr iato mines and the r isk o f do mic iliatio n. Memó rias do Instituto Oswaldo Cruz 9 4 ( supl 1 ) :3 7 1 -3 7 3 , 1 9 9 9 .

2 . Dias JCP. Vigilânc ia epidemio ló gic a em do enç a de Chagas. Caderno s de

Saúde Públic a 1 6 ( supl 2 ) :4 3 -5 9 , 2 0 0 0 .

3 . Dias JCP. O c o ntro le da do enç a de Chagas no B rasil. In: Silveira AC ( org)

O Co ntr o le da Do enç a de Chagas no s Países do Co ne Sul da Amér ic a: Histó r ia de uma inic iativa inter nac io nal 1 9 9 1 -2 0 0 1 . Or ganizaç ão Pan-Americ ana da Saúde, B rasília, p.1 4 5 -2 5 0 , 2 0 0 2 .

4 . Dias JCP, Sc ho field CJ. Co ntro le da transmissão transfusio nal da do enç a

de Chagas na Inic iativa do Co ne Sul. Revista da So c iedade B rasileira de Medic ina Tro pic al 3 1 :3 7 3 -3 8 3 , 1 9 9 8 .

5 . Dias JCP, Silveira AC, Schofield CJ. The impact of Chagas disease control in Latin

America: a review. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz 9 7 :6 0 3 -6 1 2 , 2 0 0 2 .

6 . Ministério da Saúde. No tíc ias. http://www.saude.go v.br. Ac essado em 1 0 /

Jun/2 0 0 6 .

7 . Mo nc ayo A. Chagas dise ase : c ur r e nt e pide mio lo gic al tr e nds afte r the interruptio n o f vec to rial and transfusio nal transmissio n in the So uthern Co ne c o untries. Memó rias do Instituto Oswaldo Cruz 9 8 :5 7 7 -5 9 1 , 2 0 0 3 .

(3)

5 0 9

Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical 3 9 ( 5 ) :5 0 7 -5 0 9 , set-out, 2 0 0 6

9 . Or ga n i za ç ã o Mu n d i a l d e S a ú d e . Ch a ga s d i s e a s e . I n te r r u p ti o n o f transmissio n, Chile. Weekly Epidemio lo gic al Rec o rd 7 0 :1 3 -1 6 , 1 9 9 5 .

1 0 . Or ganizaç ão Pan- Am e r ic ana da Saúde . Do c um e nto OPS. PNSP/9 2 - 1 8 sobre a Iniciativa do Cone Sul. Washington DC, 1992.

1 1 . Prata A. Evo lutio n o f the c linic al and epidemio lo gic al kno wledge abo ut Chagas disease 9 0 years after its disc o very. Memó rias do Instituto Oswaldo Cruz 9 4 ( supl 1 ) :8 1 -8 8 , 1 9 9 9 .

1 2 . Prata A. Clinic al and epidemio lo gic al aspec ts o f Chagas disease. Lanc et Infec tio us Diseases 1 :9 2 -1 0 0 , 2 0 0 0 .

1 3 . Ramo s J r AN, Alb e r to N, Car valho DM. Os dife r e nte s signific ado s da c ertific aç ão c o nferida ao B rasil c o mo estando livre da do enç a de Chagas. Caderno s de Saúde Públic a 1 7 :1 4 0 3 -1 4 1 2 , 2 0 0 1 .

1 4 . Silveira AC. Situaç ão do c o ntro le da transmissão veto rial da do enç a de Chagas nas Amé r ic as. Cade r no s de Saúde Púb lic a 1 6 ( supl 2 ) : 3 5 - 4 2 , 2 0 0 0 .

1 5 . Silveira AC. O Co ntro le da Do enç a de Chagas no s Países do Co ne Sul da Améric a: Histó ria de uma inic iativa internac io nal 1 9 9 1 -2 0 0 1 . In: Silveira AC ( o rg) O Co ntro le da Do enç a de Chagas no s Países do Co ne Sul da Améric a: História de uma inic iativa internac ional 1 9 9 1 -2 0 0 1 . Organizaç ão Pan-Americ ana da Saúde, B rasília, p.1 5 -4 3 , 2 0 0 2 .

1 6 . Silveira AC, Vinhaes MC. Elimination of vec tor-borne transmission of Chagas disease. Memó rias do Instituto Oswaldo Cruz 9 4 ( supl 1 ) :4 0 5 -4 1 1 , 1 9 9 9 .

Referências

Documentos relacionados

The distribution of sand flies and cases of tegumentary leishmaniasis in the area surrounding JB Alberd City, and the proximities of Catamarca province were studied, after an

Figure B: axial CT scan shows part of the paraumbilical collateral vein and its extension to the anterior abdominal wall, with tortuous varices in the epigastrium (“Medusa’s head”

The medical records of 27 patients with hantavirus pulmonary syndrome were analyzed according to the need for invasive mechanical ventilation in relation to the following data up

Quando o Departamento de Medicina Preventiva se mudou do Hospital São Francisco de Assis (Pavilhão Carlos Chagas) para o Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, organizou

A Figura A da Imagens em Dip “Cerebral toxoplasmosis in a patient with acquired immunodeficiency syndrome” de autoria de José Roberto Lambertucci, Luciana Cristina dos Santos

immitis strains are maintained in the Culture Collection of the Oswaldo Cruz Institute using different long term storage methods.. Fisher et al 13

Together, this combination results in a massive depolarization of any axons in the immediate vicinity of the venom injection site, causing an effect similar to electrocuting the

neoformans is not transmitted to a fetus during pregnancy even when cryptococcal infection is observed in the maternal space of the placenta in a patient 5.. Another probable case