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Rev. adm. empres. vol.22 número4

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Academic year: 2018

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notas e comentários

Pequenas

e. médias empresas

- aspectos pouco analisados

*

Cézar Manoel de Medeiros

Técnico da Diretoria de Planejamento da Fundação João Pinheiro

As potencialidades das pequenas e médias empresas têm sido largamente divulgadas. E os argwnentos a favor de seu fortalecimento no cenário econômico nacional vêm sendo amplamente defendidos na forma de incentivos fis-cais, de treinamento gerencial, de crédito subsidiado, e de outras medidas do gênero. Também os seus problemas vêm sendo bastante discutidos. Tem-se dado maior desta-, que à falta de capacidade e de organização empresarial dos proprietários daquelas empresas; ao seu imobilismo ou inércia na adoção de tecnologias apropriadas à sua escala de produção; e ao seu pouco acesso aos recursos financeiros e fiscais. Sem entrar no mérito da validade, ou não, das medidas de apoio propostas em face dos problemas potenciais apontados, e também sem preten-der esgotar tema tão polêmico e importante no atual estágio de desenvolvimento nacional, gostaríamos de abordar alguns aspectos que julgamos da maior relevân-cia, em qualquer tratamento da pequena e média empre-sa, em um país com as características do Brasil, que apresenta uma estrutura índustríal bastante oligopoli-zada,

Em primeiro lugar, é estritamente necessário ter de-talhado conhecimento dos vários aspectos que caracterizam a estrutura de mercado, tanto dos fatores produtivos (capital, mão-de-obra e matéria-prima) de que elas precisam, como o de colocação final de seus produ-tos. Como pode ser visto pelo diagrama, dependendo do setor, as possibilidades de crescimento da pequena e mé-dia empresa são bastante limitadas, devido à sua posição diante da grande empresa. As pequenas e médias empre-sas - concorrentes, suplementares ou complementares das grandes empresas - encontram na aquisição de maté-rias-primas estratégicas, na contratação de mão-de-obra especializada, de obtenção de crédito subsidiado e de máquinas e equipamentos, condições bastante desfavorá-veis devido à forte concorrência dessas grandes empresas, que agem de forma bastante cartelizada (figura 1).

Na outra ponta do mercado - o consumidor de pro-dutos da pequena e média empresa - vamos encontrar, novamente, a atuação das grandes empresas, organizadas de modo cartelizado e funcionando como verdadeiros olígopsôníos na fixação de preços para os produtos por elas demandados às pequenas e médias empresas. Salíen-ta-se aqui a não-efetividade de qualquer medida de apoio

Rev. Adm. Emp.,

à pequena e média empresa ao estilo dê incentivos fiscais e credítfcíos, já que tais estímulos serão fatalmente re-passados para a grande empresa oligopolista em um ou dois segmentos do mercado.

Como estes recursos - crédito subsidiado e incenti-vos fiscais - são escassos e envolvem significatiincenti-vos custos sociais, algumas medidas paralelas e complementares se tornam necessárias para que o objetivo "fortalecimento

da pequena e média empresa" seja alcançado. Entre elas, sugerimos a criação de centrais de formação de estoques de equipamentos e de matérias-primas afins a cada ramo, em que predominam as peauenas e médias empresas, que teriam a fínalídade de evitar distorções nos preços impos-tos pela grande empresa fornecedora, dado a estrutura setorial de mercado (figura 1). Como resultado teríamos também a cartelízacão da pequena e média empresa

co-m> forma mais adequada de defesa de seus interesses.

Acreditamos que a viabilização destas centrais dependerá da formação de cooperativas, ou de outros tipos de asso-ciações, que, inclusive, teriam maior acesso ao crédito e ao treinamento de mão-de-obra, e para tanto necessitam de irrestrito apoio do Governo.

Na outra ponta, sugerimos que também sejam cria-das centrais de vencria-das de produtos comuns entre as pe-quenas e médias empresas, de modo que as suas associa-ções adquiram maior poder de barganha na negociação com as grandes empresas. Neste segmento pode ser abrangente a atuação do Governo. Além de apoiar a for-mação de referidas centrais e/ou associações, o Governo poderia criar um "sistema de preços de garantia", ao estilo de como funciona o sistema de preços mínimos para o setor agropecuârio. Ou seja, até que as pequenas e médias empresas obtenham melhor preço para seus pro-dutos, o Governo, via esquema de preços mínimos, ga-rantiria o crédito tipo EGF (Empréstimos do Governo Federal), ou compraria os bens produzidos pela pequena e média empresa, tipo AGF (Aquísíção pelo Governo Ft:-deral), que teria a vantagem adicional de permitir a for-mação de estoques estratégicos (figura 1 ).

Em segundo lugar, chama-se a atenção para os seto-res em que predominam as pequenas e médias empseto-resas e as suas diferentes características regionais. Uma grande empresa no Ceará pode ser uma pequena empresa em São Paulo, ou uma pequena empresa do setor de bens de capital pode ser considerada uma grande empresa do se-tor alimentício, dependendo, é claro, dos critérios de classificação (quadro 1).

Aqui cabe mostrar que, devido à dífículdade opera-cional de classificação do porte das empresas, em espe-cial pelos bancos de fomento e outros órgãos de fínan-ciamento, têm sido adotados critérios bastante simplistas de classificação, o que, na verdade, vem comprometendo ~riamente as medidas de apoio às pequenas e médias empresas, e os objetivos implícitos nesse apoio. Assim, é adotada isoladamente, ou a variável faturamento, ou o ativo imobilizado, ou a mão-de-obra empregada, ou ou-tras variáveis, sem nenhuma diferenciação setorial e/ou regional quanto ao funcionamento da estrutura de mer-cado.

(2)

Figura 1

Estrutura de mercado da pequena e média empresa

Moo-de-obra Especializado

Matéria-primo

A

Cartelizodo

Cortelizoda

Pr~du~or

( u

Ina

an'

o IO~CS 10 monops6nio)

Consumo PME

, (ben~, , Intermed rcnes

ou

::omplementares-concorrAncla)

, Com. íntervençüo governamental

(Tipo AGF)

Tipo EGF

Com interv e

t

c50

por~ ~rantl o efl~ rccja ea

~ dito governo (p. m(nlmosl For":}gção

estoque

Legenda: DO - demanda; 55 - oferta; AGF - aquisição pelo governo federal; EGF - empréstimo do governo feder~1.

Além de sugerirmos que a adoção de critérios e de

variáveis de classificação obedeça a minuciosa análise das

condições setoriais e regionais da estrutura de mercado,

onde predominam as pequenas e médias empresas,

pode-mos propor como crítérío geral - que consíderapode-mosope-

consíderamosope-racionalmente o mais adequado para classificar o porte

da empresa - e conseqüente defmiçãO das medidas de

apoio, uma combinação de pelo' menos' três variáveis:

faturamento,

que representa o produto monetário da

empresa, o ativo imobilizado, que representa o capital e

a mão-de-obra.

Primeiramente, tomando as variáveis faturamento

eixo horizontal e o ativo ímobílízado eixo vertical

-Quadro

I

Critérios de classificação da pequena e média empresa

Porte da empresa

Faturamento Ativo imobilizado Cr$ .mil

Pequena empresa Média empresa

até 2.000 acima de 2.000 até 5.000 acima de 5.000

até 500 até 2.000

Grande empresa acima de 2.000

PequeM' emblfa.emprelfls

podemos definir o campo de atuação de cada grupo de

empresas segundo o seu porte, conforme o quadro

1

e o

gráfico 1, por exemplo:

Gráfico

1

Critérios de classifICação da pequena e média empresa

A

Gronde

o E

2

1500

1000 M4dio

500

I:

A Pequeno

F

o 1000 2000 3000 4000 5000 F

Fom.: Cluodro 1.

Obs.: Pequenaempresl - qullquerempreuque secolocar noCImPOdefinido

polo •• tiOlJllo OABC.

Wdll omp •••• - oqu.11 qu ••• pooIc_ nllllJlro ABCFED.

Grondo omp •.••• - quolquoromp •.••• quo porttncer 00 tlPoçoforldlfllJlr. ODEF.

L~o: A- •••••to-Imoblllzodo; F ~ FI1U,omento; MO - MicHIo-obro.

-

(3)

. A partir dessa classificação, segundo o faturamento e o ativo ímobilízado, para efeito de crédito subsidiado e

de incentivos fiscais à pequena e média empresa, aos setores e/ou regiões onde a empresa, sem perda de sua eficiência econômica, pudesse adotar processo tecnolõgí-co intensivo em mão-de-obra, tais estímulos somente se-riam concedidos a partir de determínados coeficientes de absorção de trabalho. Assim, uma e,mpresa, ct.ga classifi-cação pelos critérios de faturamento e de ativo imobiliza-do não fizesse jus a qualquer incentivo, poderia passar a

fazê-lo,

se adotasse Processo técnico intensivo de mão-de-obra, Para operacionalizar uma nova classificação, considerando a ponderação "mão-de-obra", basta incluir referida variâvel no denominador, tanto do faturamento, como do ativo imobilizado, no exemplo anterior.

Esta proposição implica que o critério que classifica como pequena empresa aquela que absorve até 50 em-pregados; como média aquelacom mais de 50 e até 250; e como grande aquela que conta com mais de 250, seja conjugado com os demais critérios: faturamento e ativo imobilizado. Quer dizer, após exaustiva análise da tecno-logia adequada, da estrutura de mercado de cada setor, e das características regionais, aqueles ramos, onde fosse possível estimular a absorção de mão-de-obra, os

íncentí-Quadro 2

Critérios propostos para classificação de pequena e média empresa

Porte da empresa FaturamentoMão-de-obra Ativo imobilizadoMão-de-obra

Pequena empresa Média empresa

até 200 mais de 200 até 500 mais de 500

até 50 mais de 50 até 200 mais de 200 Grande empresa

Fonte: quadro 1.

Obs.: Apenas para exemplificar adotamos MO

=

10 valendo . como 1.000 empregados adicionais no denominador.

vos creditícios, fiscais e outros, estariam condicionados ao modelo apresentado no quadro 2 e gráficos 2 e 3.

Entre as vantagens esperadas com a adoção deste critério podemos citar, por exemplo, o caso de uma em-presa cujo faturamento era de Cr$ 12 milhões e o ativo imobilizado somava Cr$ 3 milhões, absorvendo 300 em-pregados, portanto, não se enquadrando como pequena e média para efeito de benefícios fiscais e creditícios. Tal empresa, ao mudar seu processo tecnológico, passa a .ser capaz de absorver 350 (50 de acréscimo) empregados, o que a coloca, para efeito de fazer jus aos benefícios, com> média empresa.

(faturamento mão-de-obra) • 3000

10 •• 100

_~ 300 •• Ativo Imobilizado ••• mão-de-obra

1000 10

Os gráficos 2 e 3 permitem verificar tal exemplo. Finalmente, ressalta-se que o fortalecimento das pe-quenas e médias empresas no Brasil, além dos benefícios

Gráfico 2

Critérios propostos para classificação da pequena e média empresa

A

3000

---,b

2~ I

I

M I

I

1 500

rvi

I

2000 5000 12000 F

Gráfico 3

Critérios propostos para classificação da pequena e média empresa

A

MO

200r---,

500 F MO

200 240

Fonte: ~adro 2.

Obs.: I)p•. 1 foolUto<,

em

1ItnnOl _10100111, podorll •• r constru Idl uml toboIl

r8lUmodo modelo, contendo vária ':temattv. 111\tornodos cri.rios •verl"i1.

b) grondo omPrMI que 00 IntonsIfie •. UIOde mio-de-obro, pode .r bonollcfadl com cri.rios f1","1s ecradltlcioo.

78

-~-_.~---- -

----preconizados, ainda pode ser considerado como estraté-gico no combate à inflação e, ao mesmo tempo, na me-lhoria da distribuição de renda, além de ser pré-requisito básico para a consecução de ambos objetivos.

As pequenas e médias empresas predominam nos se-tores que utilizam tecnologia menos sofisticada, e o seu desenvolvimento implicará a expansão do nível de em-pregos. Além disso, como essas empresas se concentram nos setores essenciais para a população, o seu fortaleci-mento em muito contribuirá para a melhoria da distri-buição de renda e, paralelamente, para evitar pressões inflacionárias provenientes do próprio aquecimento da demanda por bens essenciais conseqüentes da melhoria da distribuição de renda. Logo, se bem planejado, o . apoio às pequenas e médias empresas constitui

pré-requi-sito básico para que sejam solucionados importantes pontos de estrangulamento da economia brasileira - al-tas taxas de inflação e de concentração de renda - e, ao mesmo tempo, sejam alcançados os mais significativos objetivos nacionais: expansão do mercado interno, des-concentração espacial de atividades, elevação do nível de emprego, melhoria da distribuição de renda, redução das desigualdades regionais e maior facilidade de controle do nível geral de preços.

• A RAEagradece -a gentil autorização da direção da Revista FundDção João Pinheiro, de reproduzir este artigo, publicado orWiruílmente no 9 (9): 648-52, set. 1979.

Imagem

Gráfico 1

Referências

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