TRAJETÓRIAS DE SUCESSO ESCOLAR DE EX-BENEFICIÁRIOS DO PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA
Andréia Cristina Franco de Arruda Pereira1 Márcia Regina do Nascimento Sambugari2
Resumo: O Programa Bolsa Família (PBF) é um programa de transferência de renda criado
pelo Governo Federal com o intuito de incentivar e melhorar o rendimento escolar de crianças e jovens em situação de pobreza e pobreza extrema. Porém, desde sua criação, o programa vem recebendo críticas quanto à sua verdadeira eficiência. Para desconstruir tais preconceitos, alguns questionamentos foram levantados sobre a maneira como o PBF tem contribuído para o sucesso escolar de seus beneficiários e qual a percepção de ex-beneficiários acerca de suas trajetórias escolares. Esta pesquisa teve como objetivo desmistificar a ideia de que pessoas favorecidas pelo programa não recebem estímulos para estudar e que o mesmo incentiva o ócio e gera dependência. Para tanto, investigou-se a trajetória escolar de dois jovens, ex-beneficiários do PBF, moradores da zona rural de Corumbá, MS, e que atualmente estudam no Instituto Federal de Mato Grosso do Sul (IFMS), evidenciando, a partir da aplicação de um questionário, como o PBF os ajudou a alcançar seus objetivos educacionais até o presente momento. Os resultados da coleta de dados foram ao encontro dos objetivos da pesquisa, pois, observou-se que os estudantes investigados, apesar das dificuldades que ainda enfrentam, como o fato de residirem muito longe da escola, continuam estudando e são alunos que apresentam bom desempenho escolar. Também recebem apoio por parte da família afim de continuarem seus estudos, pois seus pais acreditam que esses jovens possam alcançar uma qualidade de vida melhor através da educação.
Palavras-chave: Trajetória escolar. Programa Bolsa Família. Sucesso Escolar.
Ex-beneficiários.
1 INTRODUÇÃO
As relações entre desigualdade e educação ocorrem porque as pessoas que vivem em situação de pobreza são prejudicadas pelas poucas oportunidades de acesso e pela dificuldade de permanência escolar. O direito à educação deveria abranger todas as crianças e adolescentes, entretanto, no decorrer do curso de Especialização em Educação, Pobreza e Desigualdade
1Aluna do curso de Especialização em Educação, Pobreza e Desigualdade Social. Graduada em Letras Licenciatura – Habilitação em Português/Espanhol pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS)
Campus do Pantanal (CPAN). E-mail: [email protected]
2Orientadora. Doutora em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Professora do Programa de Pós-graduação em Educação, nível Mestrado e do Curso de Pedagogia do Campus do Pantanal (CPAN) da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). E-mail: [email protected]
Social observou-se que nas camadas mais pobres e nos lugares mais distantes dos centros urbanos, o acesso a esse direito torna-se mais ímprobo. Como exemplo temos a maioria dos pais que vive na zona rural e que ainda vê em seus filhos, principalmente quando chegam à adolescência, uma potencial fonte de ajuda na renda familiar por meio de seu trabalho, e, desta forma, mantém-se o círculo vicioso da perpetuação da pobreza.
O Programa Bolsa Família (PBF) foi criado com o intento de minimizar as consequências das desigualdades no Brasil e promover o acesso e a permanência desses sujeitos nas escolas por meio da transferência de renda, procurando minimizar as situações de pobreza e combater os estados de vulnerabilidade a que os mesmos estariam sujeitos se expostos ao trabalho infantil. Porém, desde que foi criado pelo Governo Federal, em outubro de 2003, este vem recebendo críticas quanto à eficiência de seus resultados, como por exemplo, a ideia de que beneficiários não recebam estímulos para estudar e que o mesmo incentiva o ócio e causa dependência.
Para desconstruir tal ideia, alguns questionamentos foram surgindo, tais como: de que maneira o PBF tem contribuído para o sucesso escolar de seus beneficiários? Qual a percepção de ex-beneficiários acerca de sua trajetória escolar com a participação no PBF?
O presente estudo buscou, portanto, investigar trajetórias de sucesso escolar de alunos ex-beneficiários do PBF, moradores da zona rural da cidade de Corumbá, MS, e que atualmente estudam no Instituto Federal de Mato Grosso do Sul (IFMS), por meio de suas histórias de vida. Apurou-se o quanto o programa contribuiu, ou não, para o sucesso escolar e como os ajudou a alcançar suas metas educacionais. Como objetivos específicos, buscou identificar os principais mitos acerca do PBF. Também se verificou como este ajudou na trajetória desses jovens para alcançarem seus propósitos. Considera-se nessa investigação, a entrada no IFMS como trajetória de sucesso, uma vez que há muita concorrência.
Essa pesquisa está inserida no eixo ‘Escola: espaços e tempos de reprodução e resistências da pobreza’, do Curso de Especialização em Educação, Pobreza e Desigualdade Social, centrando a discussão na trajetória de escolarização de sucesso de jovens, ex-beneficiários, a partir de sua inserção na política de transferência de renda.
Com a realização dessa pesquisa buscou-se contribuir na reflexão acerca da possibilidade de se consumar a eficiência dos programas de transferência de renda como positivos para a vida de seus beneficiários, tanto para a diminuição das desigualdades e
combate à pobreza, quanto para a sua formação educacional e cidadã, por meio de uma educação de qualidade.
Buscou-se, portanto, verificar que o dinheiro recebido foi gasto com materiais necessários ao bem-estar e a educação dos filhos dos beneficiários, tais como roupas, alimentação e material escolar e que o mesmo complementa a renda dessas famílias, pois a maioria possui emprego. Mesmo que aplicado por um longo prazo, o programa não prejudicaria a economia do país, pois corresponde a cerca de 0,5% do PIB e ainda estimula a atividade econômica e a arrecadação de impostos.
Esse artigo está organizado em cinco partes, incluindo a introdução e as considerações finais. Na primeira consta a apresentação da pesquisa com os objetivos, ou seja, explica, de maneira sucinta, o que é o programa, com quais propósitos foi criado, a sua importância para a sociedade que vive em situação de pobreza e extrema pobreza e que apesar do sucesso, é criticado por pessoas que não possuem conhecimento sobre o mesmo. Na seção ‘resultados e discussões’ constam as análises dos dados e por último as considerações finais.
2 SUCESSO ESCOLAR DE ALUNOS EX-BENEFICIÁRIOS DO PBF
O presente estudo buscou refletir acerca da eficiência dos programas de transferência de renda na vida escolar de estudantes oriundos da zona rural, pois, mesmo se estando fora dos centros mais abastados do país é possível ter acesso a uma educação de qualidade por meio do ensino público. Se de um lado compreende-se a pobreza como a privação das capacidades básicas, privação esta que pode conduzir a situações de vulnerabilidade, de outro, a educação pode ser libertadora, atuando efetivamente no processo de rompimento do círculo vicioso da pobreza. Seu resultado positivo se mostra a partir do momento em que o aluno, consciente de seus direitos como cidadão (incentivo recebido por meio da educação escolar), procura dar continuidade a seus estudos, mesmo após deixar de ser um beneficiário desse tipo de programa. Campello (2013), em seu artigo intitulado ‘uma década derrubando mitos e superando expectativas’, ressalta que há treze anos, pela primeira vez no Brasil, se estudava a possibilidade da criação de “[...] uma política pública nacional voltada ao enfrentamento da pobreza, visando garantir o acesso de todas as famílias pobres não apenas a uma renda complementar, mas a direitos sociais” (CAMPELLO, 2013, p. 15).
Com esse intuito foi criado o PBF, pretendendo alcançar esses objetivos por meio da transferência de renda diretamente às famílias que viviam situações de pobreza e extrema
pobreza, porém, com algumas “exigências” ou condicionalidades impostas pelo programa para que o cidadão pudesse receber o benefício, que entre outras obrigações, exige que a família mantenha seus filhos matriculados nas escolas com uma frequência mínima mensal de 85% para os alunos de seis a 15 anos e de 75% aos jovens de 16 e 17 anos. Esse dinheiro tinha como principal objetivo atuar como “alívio imediato” nas situações ligadas à fome, pois com esse dinheiro as pessoas poderiam adquirir alimentos, e por sua vez, mantendo as crianças nas escolas, caminhava-se para a solução de outra problemática social, a que relaciona a pobreza às dificuldades de acesso à educação, que ocasionavam problemas tais como os altos índices de evasão escolar, repetência e de defasagem idade-série.
A autora ressalta que, durante esse período “[...] o PBF conheceu uma trajetória de sucesso, contribuindo efetivamente para melhorar as condições de vida e ampliar as oportunidades para milhões de famílias brasileiras” (CAMPELLO, 2013, p. 15), porém, mesmo com tantos êxitos alcançados, ainda é criticado por parte da sociedade que não conhece sua ação eficiente no combate à pobreza e promoção da educação às pessoas de baixa renda.
A partir da idéia de que a educação influi sobre o nível de renda das pessoas e minimiza riscos e tensões sociais (ROCHA, 2013; ANGEBAILE, 2009), procurou-se, por meio da realização de pesquisa empírica, verificar a inveracidade da crítica acerca do programa, haja vista que os alunos pesquisados, mesmo não sendo mais beneficiários e residindo longe do local onde estudam, continuam sua vida educacional com sucesso e planos de seguirem uma carreira universitária.
3 METODOLOGIA
Esse estudo configura-se como pesquisa qualitativa, de natureza empírica, pois, conforme aponta Severino (2007, p. 123):
[...] na pesquisa de campo, o objeto/fonte é abordado em seu meio ambiente próprio. A coleta dos dados é feita nas condições naturais em que os fenômenos ocorrem, sendo assim diretamente observados, sem intervenção e manuseio por parte do pesquisador.
Como procedimento metodológico a presente pesquisa contou primeiramente com um estudo sobre o sucesso escolar de alunos ex-beneficiários do PBF.
Para a coleta de dados foi utilizado um questionário elaborado a partir do instrumento produzido por Sambugari (2010), com questões fechadas e abertas referentes à família,
processo de escolarização, situação socioeconômica dos sujeitos e entrada no IFMS (Apêndice A).
Os sujeitos dessa pesquisa foram dois ex-beneficiários do PBF, oriundos da zona rural e que atualmente são estudantes do ensino médio e técnico do Instituto Federal de Mato Grosso do Sul, Campus Corumbá. Eles responderão ao questionário individualmente e na própria escola, durante intervalos de aula. Para possibilitar a entrada na instituição, realização da entrevista e coleta de dados, contou-se com uma carta de apresentação (Apêndice B).
Para manter o anonimato dos sujeitos, em conformidade com o Comitê de Ética da UFMS, os pais ou responsáveis pelo adolescente assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE) aceitando participar da pesquisa (Apêndice C).
Para realização da análise, os dados foram agrupados em dois eixos. O primeiro eixo ‘trajetórias dos sujeitos’ aglutinou os dados referentes à situação pessoal e econômica (Faixa etária, sexo, estado civil, naturalidade, mobilidade, autoclassificação da camada social); Situação familiar na infância (situação econômica e práticas culturais, condições de acesso e aquisição de bens e locais culturais do respondente em sua infância); Escolarização (escolarização dos respondentes na escola básica, tipo de dependência administrativa da escola naqual os respondentes estudaram: período, sistema; disciplinas que mais gostavam na escola; as que menos gostavam e as que tinham dificuldades); Entrada no IFMS, dificuldades e contribuições do PBF; Escolarização e profissão dos familiares (escolarização e profissão dos pais e avós paternos e maternos). No segundo eixo ‘percepções sobre o PBF’ constam as informações referentes às contribuições do PBF na Educação segundo a concepção dos envolvidos. Para analisar os dados coletados foi utilizada a análise textual discursiva.
A pesquisa foi cometida nas dependências do Instituto Federal de Mato Grosso do Sul (IFMS), campus Corumbá, MS. Para a realização da coleta de dados foi necessária a apresentação de toda a documentação pertinente, inclusive do Parecer Consubstanciado do CEP, e este, solicitado junto a Coordenação do Curso de Especialização em Educação, Pobreza e Desigualdade Social (EPDS), no qual consta a aprovação da pesquisa intitulada ‘Educação, Pobreza e Desigualdade Social: Alguns Indicadores do Contexto Sul-Mato-Grossense’, uma pesquisa maior na qual está inserida a pesquisa ‘Sucesso escolar de alunos ex-beneficiários do PBF’, junto a uma declaração comprovando a relação entre as duas pesquisas, assinada pela pesquisadora (que inclusive é professora nessa instituição) e pela orientadora desta pesquisa (Apêndice D). Somente após a entrega de toda a documentação é que foi autorizada a realização
da coleta de dados junto aos estudantes, pois o Instituto afirmou prezar, acima de tudo, pela integridade de seus alunos.
4 RESULTADOS E DISCUSSÕES
A coleta de dados foi realizada por meio de um questionário com questões abertas e fechadas, dirigido a dois estudantes do ensino médio/técnico integrado no IFMS (Instituto Federal de Mato Grosso do Sul – Campus Corumbá), ex-beneficiários do PBF, oriundos da zona rural de Corumbá – MS, identificados na pesquisa, para fins preservar o anonimato dos sujeitos, como Leonardo e Maria.
Marconi e Lakatos (2011, p. 86) assinalam que o “[...] questionário é um instrumento de coleta de dados constituído por uma série ordenada de perguntas, que devem ser respondidas por escrito e sem a presença do entrevistador”. As questões foram respondidas na própria instituição, durante os intervalos de aula. As mesmas abordaram situações pessoais, econômicas, familiares e de escolarização dos indivíduos e seus familiares, bem como suas percepções sobre o PBF.
4.1 TRAJETÓRIAS DOS SUJEITOS
4.1.1 Percurso do estudante Leonardo
Aluno do primeiro ano do Curso Técnico Integrado em Metalurgia, no período matutino, Leonardo tem 16 anos, nasceu em Corumbá e sempre viveu nessa cidade.
Quanto a sua vida pessoal e econômica, em sua casa, além dele moram quatro pessoas, os pais e dois irmãos, sendo ele o mais velho. O principal provedor da família é o pai e a renda familiar gira em torno de R$ 1.200,00. Vivem em casa de alvenaria com dois quartos, sala, cozinha e dois banheiros. Eleclassifica seu nível socioeconômico como médio e não considera sua família pobre atualmente, pois, segundo ele, apesar de não possuírem um nível socioeconômico alto, não lhes falta nada. Afirma ainda que houve uma melhora de 40% dessa situação se comparada à época da infância de seus pais.
Com relação à situação familiar na infância, a sua família frequenta uma igreja evangélica na qual seu pai é pastor. Sempre teve acesso a jogos como quebra-cabeças, xadrez, damas, etc., e também a revistas, jornais e livros, portanto, tinha contato com a leitura frequentemente, mas afirma ter brincado poucas vezes com palavras cruzadas. Informou que,
por não haver bibliotecas em Corumbá, nunca frequentou uma. Também declarou não ter condições para frequentar teatros e cinemas e esteve poucas vezes em um clube.
Quanto à escolarização ele sempre estudou em escola pública, especificamente, uma escola municipal rural de Ensino Fundamental, em sistema regular de ensino, no período matutino, com exceção do último ano, quando a escola passou a atender em período integral. Era considerado um bom aluno, nunca ficou retido, mas afirma ter tido dificuldades nas disciplinas de História e Ciências. Essa última, admite não ter gostado, pois preferia Matemática. No entanto, declara que seu maior incentivador durante sua trajetória escolar foi seu professor de Língua Portuguesa. Na família, quem sempre se preocupou e ainda se preocupa com seus estudos são os seus pais, que o motivam a estudar para que tenha um futuro melhor que o deles, declara. Ao terminar o ensino médio/técnico, Leonardo pretende cursar Engenharia Mecânica.
Com relação à escolarização e profissão de seus familiares,seus pais estudaram até o primeiro ano do ensino médio e nunca tiveram a oportunidade de desenvolver atividades artísticas, tais como música, dança, teatro, Literatura, etc. Atualmente o pai trabalha como serralheiro e a mãe é dona de casa.
Sobre a sua entrada no IFMS, Leonardoafirma não ter tido muitas dificuldades, porém, ao ingressar, sentiu a diferença no ritmo dos estudos. Acredita que o fato de ter sido beneficiário do PBF tenha sido importante para seu ingresso no IFMS, pois, nessa etapa, a renda auxiliou na aquisição de materiais complementares como livros e roupas, porém, hoje, não recebe mais nenhum tipo de auxílio.
4.1.2 Percurso da estudante Maria
Maria é estudante do Curso Técnico Integrado em Informática do período vespertino e possui 15 anos, nasceu em Corumbá e sempre viveu nessa cidade.
Com relação à situação pessoal e econômica, atualmente mora com os pais e uma irmã gêmea em casa de alvenaria na zona rural. Não se considera pobre atualmente e autoclassificou seu nível socioeconômico como médio, porém relatou não saber informar a renda mensal familiar da qual o pai é o principal provedor, mas destacou que a vida da família hoje é muito melhor e mais fácil que na época em que seus pais eram crianças.
Quanto à sua situação familiar na infância, a estudante afirma que no local onde vive não se distribui jornais, e que teve contato com a leitura por meio dos livros. Quanto a jogos
como quebra-cabeças, xadrez e damas, jogava sempre, mas por poucas vezes brincou de caça-palavras. Não frequentava bibliotecas em sua infância.
Quanto à sua escolarização, ela estudou na mesma escola que o primeiro entrevistado e durante o mesmo período. Ficou retida na 6ª série, mas recuperou suas notas e passou a ficar acima da média da turma. Sua disciplina preferida era Língua Portuguesa e não gostava muito de Matemática, pois apresentava mais dificuldades. A estudante destaca que todos os seus professores lhe motivaram durante sua trajetória escolar, inclusive a se preparar para o processo seletivo do IFMS. Entretanto, igual ao primeiro entrevistado, seu maior incentivador também foi seu professor de Língua Portuguesa. Seus pais são quem se preocupam em incentivá-la a estudar, destacando sempre a importância dos estudos para a melhora da qualidade de vida das pessoas.
Com relação à escolarização e profissão de seus familiares, seu pai estudou apenas até a 4ª série do ensino fundamental e é agricultor e a mãe, dona de casa, possui o ensino médio completo. Seus pais nunca tiveram a oportunidade de aprender alguma atividade artística como teatro, dança, música, Literatura, etc., apenas participam de cursos oferecidos a agricultores.
Sobre seu ingresso no IFMS a estudante afirma que “[...] teve certa dificuldade, mas, enfim, conseguiu passar, e isso foi muito bom”. Acredita que ter sido beneficiária do PBF contribuiu para sua entrada no IFMS, pois, o benefício a incentivou ainda mais a estudar. Atualmente o único auxílio que ela recebe é o passe estudantil, pois a mesma faz uso do transporte coletivo para vir à escola. Seu objetivo, após terminar o ensino médio/técnico é graduar-se em medicina veterinária.
4.2 Percepções dos sujeitos sobre o PBF
As percepções dos estudantes investigados acerca do PBF são muito semelhantes, pois afirmam que o mesmo contribui para a permanência dos alunos de classes menos favorecidas na escola, pois, o auxílio serve para ajudar no transporte, na alimentação e na aquisição de materiais escolares, roupas e outros produtos necessários.
Quando o PBF foi criado, com ele também surgiram vários mitos, inclusive o de que as famílias mais pobres não teriam capacidade de administrar esse auxílio adequadamente, pois não saberiam direcionar esses recursos no combate à fome e nem conseguiriam utilizá-lo afim de alcançar a inclusão social. As percepções desses estudantes se contrapõem a esse mito
melhoria de sua educação, comprovando a eficiência do programa quanto à promoção da diminuição das desigualdades. Tais indicações estão de acordo com o que descreve Campello (2013) ao afirmar que:
[...] A experiência mostrou, ao contrário, que elas não só compram “corretamente” como podem fazer um planejamento financeiro capaz de ampliar suas perspectivas e oportunidades. Ficou claro que ninguém melhor que a própria família para definir o melhor uso do dinheiro, tendo em vista suas características e necessidades (CAMPELLO, 2013, p. 15).
Sobre os critérios exigidos pelo programa, como por exemplo, se a frequência mínima necessária favorece um melhor desempenho escolar do aluno, o primeiro afirma que sim, porém, acredita que deveria haver um sistema avaliativo permanente para apurar se realmente todos os estudantes estão apresentando um desempenho escolar satisfatório. A segunda entrevistada complementa relatando que o benefício deveria ser direcionado apenas àqueles alunos que apresentassem melhora nos estudos e passassem a tirar boas notas, pois alguns vão à escola apenas para obter a porcentagem de presença necessária como condicionalidade para se obter o benefício. Dessa forma, alguns beneficiários acabam deixando em segundo plano o principal objetivo que é o de estudar, talvez por não terem consciência de que o programa foi criado visando, além do combate à pobreza, a diminuição das desigualdades sociais, e que a última se dá através do acesso à educação, ou seja, pela oportunidade de se permanecer na escola. Porém, para que obtenha sucesso, o processo educacional deve ocorrer de maneira eficiente, pois, ao se desvincular do programa, o ex-beneficiário, ciente de seus direitos como cidadão, deve enxergar na educação uma ferramenta promotora de melhorias em sua qualidade de vida, como ocorre atualmente com os estudantes entrevistados.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao investigar a trajetória de sucesso escolar desses estudantes, que atualmente são alunos no IFMS de Corumbá, MS, comprovou-se não ser verdadeiro o fato de que beneficiários do PBF não recebem estímulos para estudar e que o programa incentiva o ócio e gera dependência, pois os mesmos, apesar das dificuldades que enfrentam, como por exemplo, o fato de residirem muito longe da escola, continuam estudando mesmo após não serem mais beneficiários do programa, e são alunos que apresentam excelente desempenho entre os colegas de suas turmas, além do interesse por parte dos pais de que seus filhos deem continuidade aos estudos, visando obter melhor qualidade de vida através da educação.
As críticas acerca dos programas de transferência de renda, principalmente o PBF, são feitas por pessoas mal-intencionadas e mal informadas, pois o mesmo tem reconhecimento internacional sendo que mais de 40 países possuem programas semelhantes, inclusive os EUA, onde o PBF inspirou um programa similar em Nova York, e foi classificado como “inovador e bem-sucedido” pelo prefeito local.
Um dos objetivos da presente pesquisa consistiu em desmistificar as críticas referentes ao PBF e para isso a realização da mesma se mostrou importante esclarecendo equívocos através de dois exemplos reais, levando às pessoas que avaliam o programa de forma negativa, a oportunidade de conhecer o quanto ele pode ser útil na vida de estudantes de baixa renda enquanto proporciona a permanência desses indivíduos na escola.
A metodologia caracterizou-se como pesquisa qualitativa, de natureza empírica, realizada com esses dois alunos. Para a coleta de dados foi utilizado um questionário com perguntas fechadas e abertas, e para a realização da mesma, o IFMS solicitou a apresentação dos documentos necessários a fim de assegurar a integridade dos alunos entrevistados.
Os sujeitos entrevistados realizam cursos diferentes no IFMS e, embora com percursos de escolarização e de vida diferenciados, ressaltaram a importância do benefício do PBF para a continuidade e sucesso em sua escolarização.
O incentivo dos pais ao Leonardo e à Maria foi um dos pontos importantes a ser ressaltado nesse estudo, pois afirmaram não terem tido chances de estudar na idade certa e, portanto, tiveram que trabalhar desde muito cedo, mas que incentivam seus filhos a estudar, pois, através do acesso à educação, eles poderão alcançar formação profissional, acesso à cidadania e qualidade de vida de forma mais rápida e eficiente. Essa atitude também evidencia com clareza “[...] a interrupção do ciclo intergeracional de reprodução da pobreza” (CAMPELLO, 2013, p. 15), a partir do momento que os pais da zona rural não querem apenas que seus filhos continuem seu trabalho com a terra, mas que eles usufruam da cidadania que lhes compete, com direito a seguir a carreira que almejarem.
6 REFERÊNCIAS
ANGEBAILE, E. Escola Pública e Pobreza no Brasil: a ampliação para menos. Rio De Janeiro: Lamparina, 2009, 352 p.
IPEA, 2013, p. 15-24. Disponível em:
<http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/livros/livros/livro_bolsafamilia_10anos. pdf>. Acesso em 20 set 2016.
MARCONI, M. A.; LAKATOS, E. M. Fundamentos da metodologia científica. 6 ed. São Paulo: Atlas, 2005.
ROCHA, S. Transferências de renda no Brasil - O Fim da Pobreza? Rio de Janeiro:Campus, 2013.
SAMBUGARI, M.R.N. Socialização de futuros professores em situações de estágio
curricular, 2010. 166p. Tese (Doutorado em Educação: História, Política, Sociedade) -
Pontifica Universidade Católica de São Paulo. São Paulo, 2010.