Latusa digital – N° 23 – ano 3 – julho de 2006
O que fazer com os restos do banquete totêmico? *
Ruth Helena P. Cohen**
Vários debates realizados em nossa oficina desembocavam no tema autoridade,
trabalhado por Leonardo Gorostiza em Silicet dos Nomes do Pai. Neste texto1, o
autor sustenta a idéia de que a psicanálise tem como garantia o real e não a ciência. Cita, ainda, alguns tipos de pai: o humilhado, o postiço, o carente, o genético, o esperma anônimo e o mais atual, o pai desocupado. Sua argumentação gira em torno de que a autoridade do pai é tributária da ciência e da tecnologia de mercado, e de que seu declínio é associado a outras formas de declínio, como conseqüência dos efeitos da globalização, da sociedade de risco e da contingência. Gorostiza faz algumas referências ao texto de Lacan, “Os complexos familiares na formação do indivíduo”2, que nos serviu de apoio
em muitos momentos das nossas discussões. Valemo-nos também dos preciosos comentários de Miller sobre esse Lacan pré-estruturalista, pois ainda não fazia uso da eficácia simbólica de Levi-Strauss. Miller eleva esse escrito à dignidade de pertencer à história da psicanálise, pois antecipa questões cruciais que servirão de base ao ensino de Lacan, iniciado na década de 50, ainda que nele não encontremos conceitos fundamentais, tais como pulsão e simbólico. Parece tratar-se das primeiras pegadas de uma teoria que se edificará deixando
* Esse texto é fruto do trabalho desenvolvido na Oficina III: O que fazer com os restos do banquete totêmico? - coordenada por Ruth Helena P. Cohen e Vera Lopes Besset, que também faz parte da Comissão científica das XVII Jornadas Clínicas da EBP-Rio. Participam dessa oficina: Ana Lúcia Garcia; Anna Carolina Trápanio; Antonio da Silva A. Junior; Antonio Fernando Monteiro; Bruna Brito; Christiana Koch; Cláudia A. Jacob; Cristiane Fiaux Lessa; Daisy Melo; Eliana Bentes Castro; Eliane Brandão; Elza Marques Lisboa de Freitas; Fátima Amorim; Flávia Nahon; Gabriella Valle; Gisella Cohen; Janine Bronstein; Julia Linzmeier; Juliara M. Goulart; Kátia Maria A. Aguiar; Lindinalva da Gama Silva de Assis; Luciana de Siqueira Costa; Luiza Mendes Rubim; Ludmilla Furtado; Maria Cristina R. Costa; Maria Elínia Brasil Chehebe; Maria Kemper; Maria Lucia Milani Gomes; Marina Pereira Vieira; Mônica de Castro Reinach; Monique Vincent; Neusa Cristina; Nidia Edler; Oziléa Clen G. Serafim; Patrício Lemos Ramos; Priscila Basílio; Silvia S. Machado Teixeira; Silvia Santiago; Vera Fragoso.
** Aderente da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP).
1 GOROSTIZA, L. “Autoridade”. Em: Scilicet dos Nomes do Pai. Rio de Janeiro: AMP, 2006, pp. 23-25.
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marcas indeléveis para o tema sobre o qual nos debruçamos. Assim como Freud vinculara o nascimento da psicanálise ao declínio das religiões, encontramos nos “Complexos familiares” indicações preciosas do fato de que a psicanálise foi produzida no declínio do que Lacan chamou imago paterna. Miller indica a existência de escansões internas nesse texto, tais como: a redescoberta do inconsciente freudiano, que pode ser vista na antítese entre o instinto e o complexo; a interrogação técnica, a virada dos anos 20, a oposição a Egopsychology, pois era impossível para Lacan aceitar definir o psiquismo a partir da idéia de adaptação.
Comentando esse texto, Miller diz: “Nele, com certeza, não há nenhuma teoria do inconsciente. Tampouco há – obrigatoriamente – qualquer teoria da prática psicanalítica, porém o mais rico é a distinção absolutamente rigorosa entre o eu
(moi) e o sujeito, ponto umbilical do ensino de Lacan”.3
Do lado do complexo, Miller vislumbra seu status de significante, de saber, de caráter social e também de estagnação, assim como uma fixação e uma repetição por ele promovidas. O Real, o Simbólico e o Imaginário se fazem presentes embrionariamente: por exemplo, Lacan deixa entrever a relação do conhecimento com a comunicação, impensáveis sem a dimensão simbólica; a instância imaginária pode ser vislumbrada na organização afetiva, que já “supõe a posição do objeto como imaginária”, e o real é antecipado em seu status propriamente lacaniano na palavra choque, que será propriamente re-fundada, no último ensino de Lacan, como pedaços de real, tal como esclarece Miller.
Outra questão que chama atenção nos “Complexos familiares” é a antecipação da máxima lacaniana: não há relação sexual. Ela comparece no complexo do desmame, quando Lacan opõe esse complexo ao instinto dando ao desmame o caráter de uma invenção que nada tem de natural. Fica assim explicitada, diz Miller, a não relação com o objeto, o que advirá como: não há relação sexual.
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Trabalhamos também nessa oficina questões da clínica e da psicanálise aplicada trazendo sempre ao debate o último ensino de Lacan, como paradigma de que a suposição do pai se evidencia transmutada em sintoma, mais especificamente em modos de gozo observados atualmente. O particular dos sintomas revela que o pai não-todo ( A ) se sobrepõe ao pai todo poderoso freudiano. Na investigação do nosso tema discutimos o pai como exceção, aquele que não cessa de se escrever como existência: o “existe um” que diz não à castração, o pai mítico que, segundo Freud, funda a lei e a sociedade dos homens, o pai de “Totem e tabu”. Sobre o necessário tempo psicanalítico, o do banquete totêmico, constatamos que, em tempos hipermodernos, a sociedade não trata o pai como exceção, como nos demonstra a lógica lacaniana das fórmulas da sexuação, que fundaria o para todos:
Na atualidade, a lógica que vem regendo a comunidade dos homens é: não-todos na função fálica. Esse modo de funcionamento faz com que se explicite a conseqüente virilidade na mulher e o feminino no homem. Como conseqüência,
o que se testemunha nas parcerias amorosas é a relação com um Outro
inconsistente, sendo o sintoma a maneira singular que o sujeito encontra de fazer algo com a não-relação sexual. Como diz Miller, “o parceiro do sujeito é algo dele próprio: sua imagem [...], seu objeto a, seu mais-de-gozar e
fundamentalmente o sintoma”.4
Esse fato se torna evidente quando lembramos que Lacan deu ao gozo feminino, impossível de ser dito, um lugar suplementar. Uma mulher, ao se inscrever no gozo fálico como “não-toda”, só o faz de forma contingente, ao passo que, do lado homem, uma interrogação se faz cada vez mais presente: o que é possível dizer sobre o gozo fálico na contemporaneidade, época em que reina o não-todo em relação a tudo?
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Em nossa pesquisa sobre o banquete totêmico, encontramos algumas indicações importantes nos “Complexos familiares” de Lacan. Servindo-se de
Frazer, Lacan reconhece “no tabu da mãe a lei primordial da humanidade”5.
Concordamos com ele a respeito do caráter abusivo da teoria freudiana no que concerne à hipotética família primitiva concebida como horda, em que um
macho dominaria por sua superioridade biológica.6
O texto de Vicente Palomera, Assassinato do pai7, nos deu algumas pistas
sobre os restos do banquete totêmico. Ele indica que Freud criou esse mito, nomeado por Lacan de afásico porque Freud nele havia colocado muitas palavras, para dar conta do que era um pai, e que o assassinato, essa passagem ao ato, fundaria o pai. É interessante perceber que não é a morte do pai que cria a sociedade dos homens, mas sim um crime. Por terem matado o
orangotango, os homens se descobrem irmãos, diz Lacan8, ao levantar
hipóteses bastante pertinentes sobre o que sustenta a idéia de família, que não
desenvolverei aqui.
O que ficou como insistente indagação, em nossa oficina, foi a pergunta sobre o que restou do pai totêmico, na era do vazio, ou seja, na chamada hipermodernidade lipovetyskiana. Quem se autoriza a encarnar a lei e como sustenta essa autorização? Quem se responsabiliza pela criança: o conselho tutelar, a escola ou a família? O que é interdito hoje?
A partir dessas questões cruciais trabalhamos a passagem do estatuto do sujeito do desejo, que remete a um pai, ao falasser regido pelo gozo do sintoma. Discutimos alguns casos que suscitaram questões sobre a educação, a religião, o lugar do professor e das famílias (mono, ou homoparentais). Se a renúncia ao incesto, como lei que regula as relações consangüíneas entre
5
LACAN, J. “Os complexos familiares na formação do indivíduo” (1938), op. cit., p. 54. 6 Idem, ibidem p. 55.
7 PALOMERA, V. “Assassinato do pai”. Em: Scilicet dos Nomes do Pai. Rio de Janeiro: AMP, 2005, p. 18.
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familiares, se estende na legislação brasileira às relações entre genro e sogra, filhos adotivos e pais substitutos, etc., o que faz a criança aceitar a interdição na atualidade? Chegamos à hipótese de que algum tipo de proibição talvez se sustente através de uma mutante promessa de gozo.
Do pai amado, do pai morto, do totem o que resta? Pedaços de real? Se no começo era o ato, como diz Freud parafraseando Göethe, do assassinato do Urvater, ancestral do pai edípico, o que pode se depositar como resíduo no discurso neocapitalista que está sob a égide do: todos iguais perante o consumo? O discurso capitalista demonstra sua constante preocupação em relação às modalidades de laço social. Esse discurso, ao promover uma
inversão no discurso do mestre, ou seja, ao trocar no lugar do agente o S1 com
o $, mostra também através da flecha que liga a e $, a dependência do sujeito com seu mais-de-gozar.
O mito freudiano é para Lacan, no Seminário XVII9, um enunciado impossível,
pois não há ato se não há uma rede simbólica prévia. Palomera esclarece que um ato tem sempre um antes e um depois, e que “o que está no começo é o
gozo, a linguagem”10. O assassinato, portanto, não seria nem ato, nem
acontecimento histórico, mas significaria um meio-dizer. A castração como operação real da linguagem surgida do simbólico, diz o autor, nunca pode ser um ato, pois é conseqüência real do que não pode ser dito. Ele também comenta que desse mito “o que sobra é sua função de recobrir a castração [...] O assassinato do pai mascara a castração do filho”. Conclui que se a castração
9 LACAN, J. Op. cit., p. 121. 10
é uma operação real, efeito da linguagem, nesse sentido não tem relação com o pai.11
Muitos verbetes de Scilicet versam sobre o pai e a religião, tendo sempre como pano de fundo “Totem e tabu” que, segundo Lacan, foi o responsável pela salvação do pai e da religião. As questões levantadas na Oficina puseram a trabalhar dois laboratórios do CIEN que se inscrevem na interface psicanálise e educação, provocando ainda depoimentos clínicos e jurídicos de alguns participantes. O que pudemos extrair provisoriamente desses trabalhos foi o fato que há, em quase todos os segmentos estudados, um apelo ao direito ao gozo, regido por uma ética que não é mais a do desejo ou em nome do pai.
Em relação à demanda desenfreada de gozo imediato, freqüente na
contemporaneidade, pensamos com Lacan que a lógica borromeana, com o seu
saber-fazer, poderia oferecer algum instrumental para o tratamento desses modos de gozo.
Servimo-nos do mito de “Totem e tabu” orientados pelas fórmulas da sexuação, advertidos de que a lógica utilizada por Lacan não é a lógica clássica
aristotélica, mas sim, segundo Badiou, “uma variante da lógica intuicionista”.12
Deparamo-nos ainda com a lógica kantiana trabalhada por Yunis em
“Pós-modernidade e Nome-do-Pai”13. Trabalhamos suas hipóteses sobre o
estatuto do pai: haveria um desaparecimento, uma omissão ou uma negativização da função paterna? O autor aposta na última, baseando-se na lógica kantiana das “magnitudes negativas”. Verificamos que Kant distingue oposição lógica e oposição real. Entendemos que a primeira consiste no fato de algo ser simultaneamente afirmado e negado, o que tem como conseqüência o nada (nothing at all); já a oposição real ocorreria quando dois predicados de uma mesma coisa são opostos entre si, mas não se contradizem. Aqui, um
11 Idem, ibidem.
12 BADIOU, A. Sujet et Infini – Conditions. Paris: Seuil, 1992.
predicado cancela o outro, mas a conseqüência é alguma coisa (something)14. Concluímos que a magnitude negativa é aquela que entra em oposição real com uma magnitude positiva (desprazer opõe-se ao prazer produzindo alguma coisa), mas nessa relação dialética não importa qual das duas magnitudes é afirmativa ou negativa, já que estas são apenas atribuições arbitrárias. No texto de Yunis temos a aplicação dessa oposição real (ou “real contraposição”, como o autor diz) na representação da função paterna que consta das fórmulas da sexuação. Ou seja, para ele, a função paterna persiste operando como algo que, em si mesmo, é realmente positivo, não havendo um mero desaparecimento ou omissão, mas uma nova lógica de funcionamento.
O fato do termo Nome-do-Pai ter passado por inúmeras transformações até reduzir-se ao sinthoma e também o fato de que Lacan fará dos registros: R, S,
I, os verdadeiros Nomes-do-Pai15 encaminharam as discussões sobre a
orientação dada pelas cadeias borromeanas como novas formas de “escritura que suporta o real”.16
O que ficou depositado como um saber fazer com os restos do banquete totêmico é o fato de não podermos deixar de criar laços, redes, mesmo que sejam virtuais. Se a responsabilidade parece estar sendo inventada em todos os setores da sociedade como um artifício, se aquilo de que se trata é uma invenção sintomática que tenta responder ao real, o que a psicanálise vem indicando é que podemos usar o pai como instrumento, sem acreditar nele.
Degustamos “Totem e Tabu” e estamos tentando digerir seus restos, servindo-nos dos textos de Scilicet dos Nomes do Pai como entrada. O pai do gozo alicerça as formas neobarrocas de cingir o real quando vivemos sob a égide da contingência, do anonimato. Se a psicanálise é suposta tributária do declínio das grandes religiões e da imago paterna, ela recupera, por outro lado, os restos do pai freudiano, os resíduos pulsionais que levam o homem hipermoderno a inventar novas versões de pais gozadores. Os “Comandos” do
14 KANT, I. Theoretical Philosophy (1763), The Cambridge edition of the Works of I. Kant, Paul Guyer and Allen Wood editors. Agradecemos a contribuição de Antonio da Silva Alves Junior que nos ajudou na pesquisa do texto de Kant sobre as magnitudes negativas.
tráfico de drogas dominam as favelas brasileiras dando a receita de como fazer novos banquetes.
Pensamos que, se no discurso capitalista há uma foraclusão do impossível, a aposta seria fazer valer a lógica indecidível que, segundo Lacan17 (1971-72),
abriria um espaço propicio à criação, na hiância que se opera entre o impossível e o contingente.
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