MULTICULTURALIDADE: A REALIDADE DE RORAIMA
As migrações internacionais estão no centro das preocupações da maioria dos Estados. O fato de tais movimentos trazerem ao centro do debate diversas questões, como, por exemplo, o tema da diversidade cultural, faz com que os países tenham, em um contexto globalizado e de grande movimentação de pessoas, dificuldades na forma como se relacionam com as pessoas.
Nos dias atuais, em quase todo o mundo, movimentam-se milhões de pessoas provenientes de diversas localidades, a maioria de países com baixos índices de desenvolvimento, para outros locais, os quais podem ou oferecem alguma oportunidade na busca por trabalho e de melhores condições de vida.
O número dos migrantes internacionais no mundo é estimado em mais de 200 milhões, cerca de 3,3% da população mundial. Em termos absolutos, esses números cresceram bastante e rapidamente nos últimos quarenta anos, passando de 82 milhões em 1970, para atingir a cifra de 175 milhões em 2000 e, estima-se, que esses indivíduos sejam quase 300 milhões em 2051, segundo dados da Organização Internacional para Migrações (OIM) 1. Nesse sentido, o fenômeno migratório constitui-se hoje como uma realidade cada vez mais complexa, que se originam em virtude de sistemas sócio-político-econômicos injustos, de guerras, de conflitos, perseguições, explorações de várias naturezas, violência e de violações de direitos humanos.
Quando passa-se desse cenário mundial para o Brasil, visualizamos que os números não são tão expressivos quanto os do restante do globo, mas que nos últimos anos também cresceu. No Brasil, atualmente, vivem cerca de um milhão de imigrantes, segundo os dados do Ministério da Justiça em 2015 1.
A presença dessas pessoas em sociedades que não são as suas de origem gera uma série de questões, como a dificuldade do acesso aos serviços de saúde. É nesse campo que surge um dos maiores obstáculos ao processo de integração dos imigrantes, pois, por possuírem diferentes origens, a sua adaptação a diferente forma do cuidado em saúde do novo território, pode criar situações de conflito que vão alémdas dificuldades já inerentes à prestação de cuidados. Esse fato pode ser potencializado quando há formação deficiente da equipe de saúde para lidar com essas especificidades, repercutindo diretamente na qualidade da assistência prestadas a esse grupo especial de clientes 2.
A Realidade de Roraima
A cidade de Boa Vista, Roraima, é a capital brasileira mais próxima das fronteiras nacionais. A fronteira com a República Cooperativa da Guiana fica a, aproximadamente, 120 km, já com a República Bolivariana da Venezuela, a distância é de, aproximadamente, 220 km.
Além dessa localização próxima às fronteiras, que impacta no cotidiano das pessoas que moram nessas localidades, há que se destacar que as regiões que fazem fronteira com o estado de Roraima, tanto na Venezuela, quanto na Guiana, são regiões distantes de suas respectivas capitais nacionais, situação essa semelhante à de Boa Vista. Portanto, essa tríplice fronteira é marcada pelo isolamento dessas regiões em relação aos seus centros federais, transformando Boa Vista e sua estrutura de serviços, principalmente hospitalares, na referência para uma região muito maior que a do próprio estado de Roraima.
O atendimento de saúde ao estrangeiro
Os hospitais de Roraima recebem demandas de pessoas que vêm de outros países em busca de atendimento médico/saúde. De acordo com o Governo de Roraima, até o mês de maio/2016, o Hospital Geral de Roraima (HGR) recebeu 658 pacientes estrangeiros. Os países vizinhos Venezuela e Guiana são responsáveis pela maior demanda no atendimento de estrangeiros com 383 e 63 atendimentos, respectivamente 3.
Entretanto, em termos de atendimento da equipe de saúde, as dificuldades trazidas por esses grupos são muito semelhantes. O impacto cultural, que se manifesta em termos linguísticos e de procedimentos de enfermagem, demora um bom tempo para ser amenizado. Vários desses estrangeiros têm dificuldade em conversar em português e a maioria dos profissionais não domina uma língua estrangeira, como o inglês e o espanhol, que são as duas que possibilitariam melhor comunicação com a maioria das pessoas. Além disso, eles trazem uma carga cultural distinta em termos de cuidado, o que gera um forte estranhamento frente aos procedimentos e padrões da saúde brasileira.
Essa ineficiência na comunicação entre paciente e o profissional gera um quadro de dificuldade do correto cuidado, além de ser gerador de possíveis conflitos, o que não é benéfico para nenhuma das partes. Tais conflitos podem gerar ações não condizentes com a de um paciente por parte do estrangeiro paciente e xenofóbica por parte da equipe. Tal fato desenvolve resistências para o atendimento dessas pessoas, pois acreditam que esse tipo de serviço não deveria ser realizado em um hospital público brasileiro.
Quando o doente estrangeiro necessita de cuidados de saúde há um encontro entre três culturas: profissional das enfermeiras, a do doente (baseada nas suas experiências de saúde e de doença, crenças pessoais e práticas) e a hospitalar (missão, normas e rotinas) 4.
Direitos dos estrangeiros
No Brasil, a Constituição Federal de 1988 afirma a saúde como “Direito de Todos e Dever do Estado” e a Lei nº. 8080/1990 ao regulamentar o texto constitucional, reitera no seu artigo 2º, que a “Saúde é um direito fundamental do ser humano, devendo o Estado prover as condições indispensáveis para seu pleno exercício”. Assim, ainda que a legislação em saúde não se refira especificamente ao acesso de estrangeiros ao SUS, depreende-se do texto legal que o direito universal à saúde transcende os cidadãos brasileiros natos ou naturalizados, pois se refere a todos os seres humanos, e que o acesso universal ao SUS deve ser garantido às pessoas independente de nacionalidade.
De outra parte, o artigo 5º da Constituição Federal reza que “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade...”, donde se conclui que estrangeiros residentes têm os mesmos direitos sociais dos brasileiros. O que é também afirmado pelo Estatuto do Estrangeiro (Lei nº. 6.815, de 19 de agosto de 1980) que em seu artigo 95 rege: “O estrangeiro residente no Brasil goza de todos os direitos reconhecidos aos brasileiros, nos termos da Constituição e das leis” 5-6-
7.
Conclui-se que qualquer cuidado, independente das emergências e necessidades de longo prazo, de acordo com o princípio da equidade da lei que institucionalizou o SUS, o serviço ao outro precisa converter-se em escuta, atenção, em ir ao encontro do que cada um é para quem o interpela. Isso, a fim de que possam ser respeitados os hábitos, os costumes e a cultura do indivíduo diferente, de modo a permitir o estabelecimento de diálogo construtivo e o crescimento para ambas as partes.
Dessa forma, mostra-se a importância do como se aproximar e relacionar-se com o diferente, para conhecer e se informar sobre a especificidade do problema. Ser aprendente um do outro, no modo peculiar de cada um viver, respeitar o adoecer, compreender as necessidades do outro em direção a uma vida saudável, no sentido mais amplo 4.
O cuidar de forma multicultural tem por base ações com o intuito de assistir, apoiar, confortar e ajudar nas decisões que são feitas na maioria das vezes para incluir os
valores culturais, crenças e estilos de vida do indivíduo, grupo e instituição, a fim de proporcionar um cuidar significativo, benéfico para a saúde e bem-estar 8-9. Cuidar de forma culturalmente competente significa um desafio constante para uma prestação de cuidados de enfermagem de qualidade, visando à satisfação do cliente e garantindo a maximização da sua individualidade.
Nesse sentido, apesar da característica universal e universalizante do cuidar, nota-se que a criação de barreiras no acesso à saúde dos estrangeiros não é uma ação apenas estatal, mas também uma ação do profissional de enfermagem. Será que nós incorporamos as fronteiras e praticamos uma enfermagem excludente? Em um mundo globalizado e de intensa mobilidade, analisar essa questão se mostra substancial para os desafios que a enfermagem enfrenta hoje.
REFERÊNCIAS
1. Milesi R. Migrações Internacionais fluxos e desafios. Brasília: Allience; 2005.
2. Carballo M, Grocutt M, Hadzihasanovic, A. Women and migration: a public health issue. World Health Statistics Quarterly; 1996; 49(2):158-64.
3. Hospital Geral recebeu mais de 600 estrangeiros este ano. Folha de Boa Vista 14 jul 2016; saúde, capital.
4. Leininger M. Enfermagem transcultural: Imperativo da enfermagem mundial. Rev Enf.
1997;10:32-6.
5. Brasil. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal; 1988.
6. Brasil. Lei nº 8.080, de 19 de setembro de 1990. Dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o funcionamento dos serviços correspondentes e dá outras providências. Diário Oficial da União 20 set 1990.
7. Brasil. Lei nº 6.815, de 19 de agosto de 1980. Define a situação jurídica do estrangeiro no Brasil, cria o Conselho Nacional de Imigração. Diário Oficial da União 19 ago 1980.
8. Lopes JCR, Santos MC, Matos MSD, Ribeiro OP. Multiculturalidade: Perspectivas da enfermagem. Loures: Lusociências; 2009.
9. Monteiro AP. Multiculturalismo e cuidados de enfermagem. Pensar Enfermagem.
2005;9(1): 48-57.
AUTORES Stéfanie Angélica Gimenez Jarochinski Silva Enfermeira pela Universidade Federal de São Paulo.
Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem - Mestrado (PPGENF) da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO).
Joanir Pereira Passos Doutora em Enfermagem pela Universidade de São Paulo. Coordenadora do Curso de Doutorado - PPGENFBIO. Professora Titular do Departamento de Enfermagem de Saúde Pública da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Professora
nos Programas de Pós-Graduação em Enfermagem (PPGENF) e em Enfermagem e Biociências (PPGENFBIO) da UNIRIO. Líder do Grupo de Pesquisa PENSAT
Como citar este post (Vancouver adaptado): SILVA SAGJ, PASSOS JP.
Multiculturalidade: A realidade de Roraima. [internet]. Rio de Janeiro (br); 2016 [Acesso em: dia mês (abreviado) ano]. Disponível em: http://www...(completar com os dados do site).