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Hugo Chavéz está praticando uma nova forma de populismo?

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Academic year: 2018

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Am e r í n d i a, ano 1, vol 1/2006

HUGO CHAVÉZ ESTÁ PRATICANDO UMA NOVA FORMA DE POPULISMO?

Márcio R. de Freitas Fagundes Ítalo Rodrigues

RESUMO

Neste trabalho analisaremos se Hugo Chávez está revivendo um movimento político recorrente na história de meados do século XX na América Latina ou se se trata de uma variação do fenômeno adaptado para a contemporaneidade da Venezuela. Atentando para as diferentes formas de análise conceitual, estabeleceremos um paralelo, em linhas gerais, com as formas atuais do movimento, tomando como eixo principal a figura de Chávez. Analisaremos elementos da sua política, passando por seus projetos sociais; atentando para as questões das mudanças e permanências, e percebendo, sobretudo, uma diferenciação na proposta chavista já que, em comparação analítica com as categorias teóricas do populismo, o referido movimento ergueu-se sobre uma nova perspectiva que pode se chamar de novo populismo.

Palavras-chave: Populismo, Imperialismo, Chavismo, Venezuela

CONTEXTO HISTÓRICO.

O conceito de Populismo, como é tratado por Gilberto Maringoni1, é bastante elástico

ou controverso. De acordo com Norberto Borbbio2: “o populismo não conta efetivamente com uma elaboração teórica orgânica e sistemática. (...) como denominação se amolda facilmente à doutrina e a fórmulas diversamente articuladas e aparentemente divergentes. (...) as dificuldades do populismo se ressentem da ambigüidade conceitual que o próprio termo envolve”. Diante disso podemos perceber que não existe uma fórmula pronta e acabada para definirmos tal fenômeno. Sendo o conceito amplamente alargado em sua base, Margarida Lopez Maya3, socióloga venezuelana, enfatiza que o populismo é “fundamentalmente um discurso que pode estar presente no interior de organizações, movimento ou regimes muito diferentes entre si”. Os casos brasileiro, argentino e mexicano são ilustradores do fato.

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Os sociólogos argentinos Gino Germani e Torquato di Tella, nos ampliam a possibilidade de análise, na medida em que seus estudos contribuem para desvendar a referida questão, sobretudo quando o definem como fenômeno que ocorre numa situação de transição social no século XX, onde as cidades estavam em rápido processo de urbanização, possibilitando a utilização das praticas populistas. Com o advento da industrialização, agindo, portanto, no seio da formação das sociedades de classe, como diz Octavio Ianni4 “se abrió uma brecha por donde pudieron colarse las masas como

um nuevo constitutivo del Estado” .

Antes de adentrarmos na análise do governo Chávez e nas questões inerentes na problemática proposta, é interessante pensarmos um pouco mais sobre a questão conceitual do populismo. Myrian Stanley percebe este movimento como peculiar ao continente Sul Americano, dentro do período compreendido entre os anos 1930 a 1960; Francisco Welffort5, por sua vez, verifica que “el populismo sería particular de América latina y se habría dado en el momento histórico determinado por las consecuencias inmediatas de la crisis de 1930 ...” . Nesse sentido podemos associar tal movimento a momentos conjunturais enfrentados pelas sociedades. Parecida situação encontramos na Venezuela dos anos 1980, onde se vive um período de crise econômica generalizada, momento de passagem, especialmente durante e depois do Caracazo, da

Venezuela Saudita para a decadente, retomada por Hugo Chávez para ser transformada na nova República Bolivariana da Venezuela. Momentos de transição onde tanto as massas urbanas e os líderes se buscam mutuamente para colocar em andamento seus novos imaginários políticos e sociais. Época na qual, o povo e o líder buscam aliar-se a grupos que nesse momento, também, colocam-se contra a ordem estabelecida, cimentada por uma profunda insatisfação: no caso da Venezuela, seriam as Forças Armadas aonde Chávez iria procurar pelas alianças.

Devemos ver com atenção para perceber a situação em que se encontrava a Venezuela antes do governo Chávez: de profunda crise no contexto sócio-político.

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fatos de forma mais objetiva. De acordo com Maringoni o presidente venezuelano está a quilômetros de distância da demagogia de setores conservadores que se valeram da prática populista como maneira de exercer o domínio burguês. O dirigente da Venezuela tem o discurso que não se identifica com o discurso oligárquico e imperialista e, na prática, demarcador de interesses de classe.

Embora o termo seja controverso diante dos elementos abordados, e até mesmo polêmico, é verdade que poucos conceitos são sujeitos à análise política contemporânea, e pelo contrário, o populismo é definido com pouca precisão. Algo que é usado comumente, para designar um líder populista, sobretudo nos meios de comunicação de massa, são suas atitudes, vínculos e canais diretos estabelecidos com o povo. Além do componente centralizador que atrai para si a própria figura da encarnação do Estado. Mas será que basta essa característica para considerar Hugo Chávez como populista? Ou será que está criando uma nova fase do Movimento, utilizando-se de algumas de suas características?

A FIGURA DE HUGO CHÁVEZ NO CONTEXTO POPULISTA.

Fazendo uma verificação dos elementos que caracterizam o provável governo populista de Hugo Chávez na Venezuela, tentaremos fazer uma análise da figura populista, tendo como base a seguinte afirmação: “uma classificação geral do que seria um líder populista comumente aceita, dá conta de tratar-se do dirigente que estabelece vínculos diretos com o povo, sem a mediação de instituições entidades ou instâncias. O líder populista relaciona-se com as multidões acima dos partidos, parlamentos, sindicatos e etc. Há um componente centralizador na figura do chefe populista, em que, a falta de mediações, se torna a própria encarnação do Estado no imaginário das classes populares urbanas”.

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o povo definiria o líder como populista, é o seu agir antiimperialista que o leva a procurar outra saída para a crise social da Venezuela e da América Latina. É seu discurso contra as políticas neoliberais que o caracterizam como populista, na medida em que oferece uma alternativa, uma forma de resistência frente às imposições externas, vindas especialmente dos Estados Unidos. Neste sentido também são considerados os casos mexicano, argentino e brasileiro nas figuras de Lázaro Cárdenas, Juan Domingo Perón e Getúlio Vargas. Como também a luta antioligárquica enfrentada por todos eles no século XX.

Marta Hanercker5, no que diz respeito as políticas de Chávez e para compreender melhor como se dão as intenções do presidente venezuelano: “a idéia mais importante do presidente: ‘a pobreza não poderá ser eliminada se não entregar o poder ao povo’ deveria se materializar em formas organizativas e participativas concretas, deveria se encarnar nas pessoas”. Dessa forma podemos refletir sobre a base do projeto político-social pensado por Chávez para a Venezuela, que inegavelmente está carregado de contornos populistas. O que se pode notar nesta questão, abordada pelos teóricos do populismo, é que não existe um populismo puro com características que sejam seguidas rigorosamente. No tipo de populismo que Hugo Chavéz pratica, por exemplo, podemos perceber que é uma prática adaptada para a realidade da Venezuela, pensada no contexto atual. Gilberto Maringoni1 relata que “Chávez é não só um líder, mas o principal e praticamente o único garantidor do processo político em curso em seu país. A principal porta voz do seu governo é ele mesmo, assim como é o principal intelectual, formulador estrategista das ações de governo”. Desta forma não é de se espantar que sua prática tenha de fato contornos populistas, como afirma o autor.

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estatais com programas de saúde, educação, construção de casas, microempresa, e reforma agrária. O impacto social era visível e favorecidas as camadas mais pobres da população. As organizações sociais responsáveis implantaram-se profundamente nos mais pobres. Com isso, afirmava que era impossível perder a eleição. Vale destacar que4estes programas assistencialistas não melhoraram os salários nem criaram projetos de empregos em grande escala. O desemprego continua em cerca de 20% e os níveis de pobreza em torno de 50%” com essa afirmativa que contém no artigo do autor Alejandro Iturbe7, possui elemento que diferenciam o populista de Chávez, que é uma política que tem um apelo para as camadas populares, falando que vai resolver os problemas da população melhorando suas condições, enchendo o povo de esperanças de um bom futuro, com isso obter apoio da população , com isso obter vantagens como, por exemplo, na época das eleições , e quando consegue o seu objetivo, suas promessas tem poucos resultados, para beneficiar esse povo que o colocou na presidência, nesse caso teria que ser uma mão de via dupla, onde ambos se beneficiariam.

Fazendo uso da citação que a autora Marta Hanecker6 faz no livro um Homem um povo, e importante destacar, que logo depois do referendo que teve vitória de Chávez e relata que “ Mas com o fracasso do golpe econômico e o inicio da recuperação econômica !Inclusive a recuperação da produção petroleira), o governo começa a alterar a correlação interna de forças. Em Abril de 2003, Chávez anuncia que retornou a ofensiva. A partir desse momento começam a lançar várias campanhas em prol dos setores sociais mais carentes (chamadas missões): consultório de saúde nos bairros populares, campanha de alfabetização, de ensino médio superior, abertura da universidade Bolivariana aos estudantes que nunca tinham podido se matricular, venda de produtos alimentícios a preços mais baixos do que os habituais, todos esses programas foram calorosamente recebidos pela população e somaram novos adeptos ao processo”.Pode-se analisar um elemento importante dentro do contexto do populismo na figura de Hugo Chávez, ele faz medidas assistencialista para o povo, mas essas medidas não são suficientes para suprir as necessidades do povo.

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parâmetros, Chávez tornou-se o fiador da legalidade e logrou empurrar os setores das classes dominantes que tentaram derrubá-lo para a periferia da atividade política. O presidente opera no sentido de alargar os direitos sociais, materializados numa constituição extremamente avançadas , e em ações emergenciais junto à população. Beneficiando pela alta estrutural dos preços do petróleo, o Estado Venezuelano tem como bancar diversas missões junto ás camadas pobres da população” essas atitudes do governo de Chávez também o fazem seguir um caminho diferente em relação ao populismo que foi praticado na América Latina, dentro do que se diz a respeito do que e populismo se pode observar a ampla mobilização das massas em torno de líderes carismáticos que, sem romper com o regime de exploração capitalista, sabiam como atender certas aspirações populares e, com isso, manipular a simpatia da população no caminho para conduzir para caminhos convenientes para seus próprios proveitos.

Para analisarmos de forma mais clara a figura de Hugo Chávez no contexto populista, junto com o artigo de Gilberto Maringoni1 “Ninguém é populista porque e quando quer. Isso corresponde a necessidades históricas objetivas; 2. O populismo permitiu a entrada das massas empobrecidas no cenário político latino-americano; 3. A acusação de “populista” feita pela direita na atualidade busca encobrir o debate sobre as alternativas ao pensamento único; 4. O populismo não é, em si, positivo ou negativo. O centro da questão é: a devastação neoliberal enfraqueceu parâmetros de convivência institucionais. Recuperá-los muitas vezes – como o caso venezuelano mostra – tem sido tarefa de dirigentes com capacidade de se relacionar em linha direta com a população.”

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Podemos observar características populistas em Hugo Chávez, mas no contexto geral é um populismo com características bem próprias, e quando na América Latina aparece uma figura como Chávez, dentro das suas políticas antiimperialistas e anti-oligárquicas inicialmente o classificam como populista e nacionalista, ou uma combinação de ambas, para caracterizar Chávez como uma liderança populista, se pode associar imediatamente com características de dons carismáticos, como se fosse o salvador do povo, que estabelece o contato direto com as massas, prescindindo das mediações dos partidos, ou de outras organizações.

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populismo renovado ou mesmo podendo se chamar de neopopulismo que combina elementos de dominação e de manipulação das classes populares com experiências que incluem um alto conteúdo identificador, ou seria uma figura política que expressaria um nacionalismo intransigente e estadista que poderia condenar o país ao isolacionismo ao ir contra a corrente da globalização homogeneizadora.

No caso de Chávez, existe uma identificação do povo com a liderança. Mas a dinâmica política que o leva ao poder e que o sustenta é muito mais complexa. Chávez não chega ao poder simplesmente por ser populista ou ser uma liderança carismática. Chega também porque foi o melhor intérprete do desejo de mudança popular. Pode se explicar então porque a base social do chavismo é bastante ampla. A sua política reivindicatória contra as figuras políticas tradicionais e a oligarquia dos partidos, ao analisar outra questão se pode verificar que se somam não só os setores mais populares, mas também a classe média afetada pela crise. A linguagem dura com que Chávez costuma dirigir-se a dirigir-seus adversários nos dirigir-seus longos discursos é, tudo aquilo que essa badirigir-se social gostaria de ter expressado para as elites nestas duas últimas décadas. Mas se pode notar algo de incoerente que faz um discurso antiimperialista, sendo que, paga a dívida externa rigorosamente em dia. Outra questão que se pode notar é que existem projetos políticos voltados para o bem estar da população, mas esses projetos refletem poucos resultados, do que o povo espera de Hugo Chávez. Pode-se verificar um meio que ele usa para chamar atenção das massas em torno de líderes carismáticos observados no presidente Venezuelano que, sem romper com o regime de exploração capitalista, sabia como atender certas aspirações populares, que no caso de Chávez havia projetos voltados para o povo, mas não eram suficientes e, com isso, usar meios para adquirir a simpatia da população na direção de seus próprios interesses.

A população vê no líder populista como o pilar central que faz toda a ligação da sociedade. Chávez assume o poder com uma população que perdeu seus referenciais que servem como ponto de apoio no que diz respeito ao institucional. Ele tem que reunir essas partes despesas, mas, com esse incentivo à organização da população, ele, como todo populista, nega a si mesmo. Mas ele pode negar o populismo ao reconstruir a sociedade venezuelana. O sucesso de Chávez poderá levá-lo a negar ele próprio.

NOTAS

1MARINGONI, Gilberto, O que há de populismo em Chávez. In:

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2BOBBIO, N., MATTEUCCI, N. E. PASQUINO, G.

Dicionário de política. Brasília: UnB &

LGE Editora, 2004.

3LOPÉZ MAYA, Margarida – Populismo e inclusión en el caso del proyecto bolivariano.

2004, inédito.

4IANNI, Octávio. O colapso do populismo no Brasil.Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,

1968.

5WEFFORT, Francisco. Populismo na política brasileira.São Paulo: Paz e Terra, 1978.

6HARNECKER, Marta.

Um homem um povo. São Paulo: Expressão popular, 2004

7ITURBE, Alejandro, Imperialismo, nacionalismo e revolução na Venezuela. In: Revista

Referências

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