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A da voz e do ritmo: um estudo sobre a simbolização

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Academic year: 2018

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C E NT R O D E H UM A NI D A DE S D E PA R T A M E NT O D E PS I C OL O G I A

PR O G R A M A D E PÓS -G R A D UA ÇÃO E M PS I C OL O G I A

PA UL O A L V E S PA R E NT E J ÚNI O R

A M E T A PSIC OL OG IA DA V OZ E DO R IT M O: UM E ST UDO SOBR E A SIM BOL IZ A Ç Ã O

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A ME T A PS IC OL OG IA D A V OZ E D O R IT MO: UM E S T UDO S OB R E A S IMB OL IZ A Ç Ã O

D issertaçã o de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduaçã o em Psicologia, do D epartamento de Psicologia da Universidade F ederal do C eará, como requisito parcial para obtençã o do T ítulo de Mestre em Psicologia. L inha de pesquisa: Psicanálise e Práticas C línicas.

Orientadora: Profª. D rª. K arla Patrícia Holanda Martins.

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A ME T A PS IC OL OG IA D A V OZ E D O R IT MO: UM E S T UDO S OB R E A S IMB OL IZ A Ç Ã O

D issertaçã o de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduaçã o em Psicologia, do D epartamento de Psicologia da Universidade F ederal do C eará, como requisito parcial para obtençã o do T ítulo de Mestre em Psicologia. L inha de pesquisa: Psicanálise e Práticas C línicas.

A provada em _ _ _ /_ _ _ /_ _ _ _ .

B A NC A E X A MINA D OR A

_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Profª. D rª. K arla Patrícia Holanda Martins (Orientadora)

Universidade F ederal do C eará ( UF C )

_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Profª. D rª. L aéria B ezerra F ontenele

Universidade F ederal do C eará ( UF C )

_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Profª. D rª. Maria C elina Peixoto L ima

Universidade de F ortaleza (UNIF OR )

_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Prof. D r. D aniel K upermann

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A os meus pais, Paulo Parente e E dvânia, pelo cuidado e pela presença-ausê ncia em minha vida;

A os meus irmã os, Priscila, Patrine e L uís Pedro, por me ensinarem acerca de semelhanças e diferenças;

À Hortê ncia, com quem compartilho a vida e o amor, por sempre me lembrar do que é mais importante;

À A lice, minha pequena filha, por já estar em busca da nota azul;

À K arla Patrícia, minha orientadora nesta dissertaçã o, por ser uma verdadeira interlocutora, por ter acreditado na minha proposta e por sua atençã o generosa que tornou possível a realizaçã o deste trabalho;

À C elina Peixoto, minha primeira e sempre orientadora, por ter apostado na minha trajetória desde os primeiros anos da graduaçã o e, assim, ser um suporte da perseverança deste sonho;

À professora L aéria F ontenele, por ter me dado textos de D idier-W eill, pelas valiosas contribuições nas bancas e pelos ensinamentos nas aulas do mestrado;

A o professor D aniel K upermann, pelo prazer em tê -lo como leitor do meu trabalho e por ter aceitado contribuir na banca de defesa;

À professora E liane D iógenes, por ter me apresentado à psicanalise de forma tã o fascinante, pela amizade e pelas prometidas parcerias acadê micas;

A os queridos colegas de linha de pesquisa, R ebeca, L arissa, R odrigo e Gabriela, pela amizade, pelo compartilhamento de dificuldades e celebraçã o das vitórias. E m especial, à Gabriela, pela revisã o textual e pelos importantes apontamentos sobre o meu trabalho;

À C A PE S , pela concessã o da bolsa com seu crucial incentivo financeiro;

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“Minha mã e que falou Minha voz vem da mulher

Minha voz veio de lá, de quem me gerou Quem explica o cantor

Quem entende essa voz

S em as vozes que ele traz do interior?

...E le vai sempre lembrar D a lenha do fogã o

E das melodias vindo lá do quintal A s vozes que ele guardou

A s vozes que ele amou

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A proposta desta pesquisa é elaborar uma reflexã o sobre a simbolizaçã o, que é a conquista da palavra, através de uma investigaçã o sobre as incidê ncias da voz e do ritmo na teoria freudiana, também chamada de metapsicologia. A pergunta pelo papel da voz e do ritmo na simbolizaçã o primordial dispara este trabalho e recebe contornos a partir das problematizações psicanalíticas da constituiçã o psíquica. O solo de onde parte a pesquisa sã o trê s textos que compõem a chamada era neurológica de F reud, mas que, aqui, sã o tomados, sem receio, como fundadores de valiosos aportes metapsicológicos. D estaca-se como, no âmago desses textos, F reud rompe com as teorias localizacionistas da época com suporte em seu pouco reconhecido interesse original pela linguagem e pelo sonoro. Primeiro, faz-se necessário girar nos polos representacionais da coisa e da palavra, para ali reconhecer uma dívida da palavra para com a voz, por sua impossibilidade de transliterar, transcrever e traduzir todos os elementos sensíveis da natureza corpórea da voz. E ssa mesma impossibilidade que faz limite à ciê ncia da língua constitui um incógnito poético musical para a psicanálise, que se interessa pelos defeitos constitutivos da língua. A simbolizaçã o, em F reud, nã o irá se aportar na aquisiçã o de um conjunto positivo de signos, mas através de uma captura primordial pela melodia da voz materna. F reud introduziu no mundo uma teoria sobre a constituiçã o psíquica em que pesa a urgê ncia do auxílio do semelhante e a construçã o do psiquismo mediante a relaçã o com um outro ser de linguagem. A o apontar para o que se fundamenta no campo da alteridade, este trabalho também visa a acompanhar o percurso do próprio sujeito. O grito do bebê é o seu cartã o de chegada ao mundo e, tã o logo, convoca uma ligaçã o comunicativa com o outro que será permeada por um ritmo presença-ausê ncia. Para assinalar os desdobramentos simbólicos do ritmo, sua incidê ncia sobre o recalque originário é tematizada especialmente a partir de L aplanche e D idier-W eill. A leitura de D idier-W eill conduz a pensar sobre o ritmo musical e sobre como sua insistê ncia pode representar uma saída do estupor de uma sideraçã o originária da lei. A ssim, a música é abordada nã o em suas construções formais, mas como uma experiê ncia que articula a nostalgia e a aposta no porvir, sendo assim, uma via de simbolizaçã o.

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T his research proposes to elaborate a reflection about symbolization, which is the conquest of the word, through an investigation of the incidences of voice and rhythm in F reudian theory, also called meta psychology. T he question for the role of voice and rhythm in the primordial symbolization triggers this work and receives outlines from the psychoanalytic problematizations of the psychic constitution. T he research departs from the ground made of three texts that make the purported F reud's neurological period; these are taken here, without fear, as founders of valuable meta-psychological contributions. It is highlighted how, at the core of these texts, F reud breaks with the localization theories of that period, supported in his little recognized original interest for language and sound. F irst, it is necessary to spin at the representational poles of matter and word, to recognize there a debt from the word to the voice, for its impossibility of transcribing and translating all of the sensorial elements of the corporeal nature of voice. T his same impossibility, which limits the language science, composes a disguised musical poetic for the Psychoanal ysis, which takes interest on the constitutive defects of the language. T he symbolization, in F reud, is not anchored in the acquisition of a positive set of signs, but through a primordial capture of the maternal voice. F reud thrust to the world a theory of the psychic constitution in which is it weighed the urgency of the assistance from the similar and the construction of the psyche through the relationship with another language being. Pointing to what is fundamental in the field of otherness, this work also aims to follow the route of the self. T he cry of the baby is its arrival card to the world, and it summons up a communicative connection with the other that will be permeated by a presence-absence rhythm. T o point out the symbolic unfoldings of the rhythm, its incidence over the originating repression is themed particularly from L aplanche and D idier-W eill. T he reading of D idier-W eill leads to thinking about the musical rhythm and how its insistence can represent one exit from the stupor of a fulmination originating from the law. T hus, music is approached not in its formal constructions, but as an experience that articulates nostalgia and bets it on the tomorrow, being one channel of symbolization.

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2 O E S T A T UT O R E PR E S E NT A C I O NA L D A V O Z ... 15

2.1 A noçã o fr eudiana de repr esentaçã o ... 16

2.2 O apar elho-poema ... 17

2.3 A r epr esentaçã o-coisa ( voz) e a r epr esentaçã o-palavr a: o pr ocesso de simbolizaçã o ... 23

2.4 D a voz à palavr a: um pr oblema de transcr içã o, tr aduçã o e transliter açã o .. 26

2.5 A gê nese do símbolo fr eudiano e o intr aduzível ... 30

3 D O G R I T O A O R I T M O : A O R I G E M D O E U -PR A Z E R ... 35

3.1 D a necessidade à funçã o invocante ... 36

3.2 D a r epr esentaçã o-C oisa ao cir cuito pulsional ... 39

3.3 D o umbigo da coisa à voz... 42

3.4 Poucos passos par a inventar a linguagem: do gr ito à fala ... 46

3.5 A noçã o de período ... 51

3.6 A or igem do eu pelo r itmo ... 53

4 O R I T M O E A L E I S I M B ÓL I C A ... 59

4.1 A s definições do r itmo ... 59

4.2 D o nã o pr imor dial ao F ort! D a! ... 61

4.3 A tempor alidade ar caica... 64

4.4 R itmo, memór ia e esquecimento ... 66

4.5 R itmo e r ecalque or iginár io... 68

4.5.1 O recalcamento originário em dois tempos: o enigmático e o siderante ... 70

5 M ÚSI C A : A O R I G E M E O PO R V I R ... 80

5.1 Passar das ser eias ao canto ... 81

5.2 O per igo da música ... 86

5.3 A musicalidade como linguagem pr imitiva: a influê ncia de H ughlings J ack son ... 88

5.4 D a pr otolinguagem à nota azul: o samba ainda vai nascer ... 91

6 PO S L ÚDI O ... 97

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1 PR E L ÚD I O

A dívida da palavra, que é o campo do sujeito, com a voz, que é o campo da mais longínqua relaçã o entre o bebê e o materno, constitui o ponto central de nossa interrogaçã o neste trabalho. O espaço maternal é, desde já, mediado pelo ritmo e pela melodia da voz que conduz à simbolizaçã o primordial, ou seja, à humanizaçã o. Mas, nã o se trata apenas do tom que vem do Outro. A o pequeno, é preciso representar suas torrentes pulsionais por meio da sua própria voz. L ançado ao mundo, o grito é o verdadeiro cartã o de chegada do bebê .

A psicanálise concebe a subjetivaçã o do infans mediante as conquistas e os impasses na traduçã o de elementos sonoros da voz em uma dimensã o significante e temporal da palavra. D entre estes registros, a ritmicidade imposta pela presença-ausê ncia do objeto; pelo silê ncio-som; tempo de fala e pausa, funciona como uma mediaçã o que conserva, por um lado, uma inscriçã o simbólica e, por outro, uma ligaçã o com a natureza sonora afetiva e pulsional da voz. Qual a importância do fato de que os primeiros encontros com este Outro materno se deem através da musicalidade de sua voz e do ritmo de sua presença-ausê ncia? A música, em seu aspecto mais elementar, está presente desde a fundaçã o do mundo para cada humano. A o bebê , é transmitido um mundo que guarda as propriedades do contínuo e do descontínuo desde o encontro com a voz maternal. Por essa voz, na melhor das circunstâncias, soa a música coberta de intraduzibilidade, mas que já nos embala um contínuo do vir a ser em suas vogais e transmite a inconstância da lei significante através das consoantes (D ID IE R -W E IL L , 1999).

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invocante. T alvez o ser humano seja isso em sua essê ncia: portador de uma irredutível estrangeiridade que lhe obriga a ter que, tã o logo, nascer de novo, como um filho da linguagem.

A língua, por sua vez, fornece condições de representar o mundo, sem, no entanto, deixar de criar um novo mundo, onde os signos passam a se sustentar nã o apenas com relaçã o à materialidade dos objetos, mas também em relaçã o aos outros signos. A sustentaçã o dessa articulaçã o entre o signo e a realidade exige uma teoria da representaçã o, que em sua extensã o abrange os campos da filosofia, ciê ncia, linguística e psicanálise. E ntretanto, qual é, de saída, a grande contribuiçã o psicanalítica quanto ao tipo de ligaçã o que é possível realizar entre a linguagem e o mundo dos objetos construídos, em grande parte, por ela mesma? A psicanálise aposta que a relaçã o que se estabelece entre um traço e a realidade resulta de uma captura do infante na teia do desejo. A qui, apostamos, ainda, que essa captura está relacionada aos elementos melódicos e rítmicos que se veiculam na voz. F oi assim que F reud se antecipou a muitos achados daquela linguística nascente e da nova ciê ncia do cérebro.

Hoje em dia, nã o se pode mais dizer que a ê nfase dada à relaçã o primordial entre a criança e o desejo dos que lhe acolhem seja algo específico da psicanálise, quando a epigenética, também, confirma a participaçã o decisiva do relacional nos rumos da neuroplasticidade (B E Z E R R A J R , 2013). A linguagem do desejo, no entanto, nã o é transmitida com significações prontas. Há um fator primordial de indeterminaçã o poética em sua forma de ser transmitida para cada um. A respeito dessa incrível possibilidade de complexificar associações entre os signos, F reud ([1891] 2013), muito cedo, escreve Sobre a concepçã o das afasias: um estudo crítico. E m momentos posteriores da sua obra, F reud ([ 1895] 1996; [ 1896] 1996; [ 1925] 2007) poderá destacar outra forma pela qual se funda um aparelho representacional. Por exemplo, mediante o movimento, som-gesto: o grito como inscriçã o primordial, em uma teoria que se baseia na escrita. Ou, também, destacará o visual no centro de uma cena primária ( F R E UD , [ 1918]2010). E le inaugura, entretanto, a primeira e resistente teoria da representaçã o, primando pela oralidade da palavra na construçã o de um aparelho de linguagem que emerge rompendo com o localizacionismo anatômico.

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concedendo a elas a alcunha de teorias projetivas, pois elas estariam comprometidas com a ideia de que o som das palavras, e, logo, as representações sã o armazenadas nas células, projetando no sistema nervoso uma cópia fiel do mundo dos objetos. C omo forma de se contrapor, F reud ([ 1891] 2013) apresenta uma teoria da representaçã o psíquica cujo estatuto associativo opera-se com arrimo na associaçã o entre o poema e o alfabeto. Ou seja, no psiquismo inscrevem-se as experiê ncias com os objetos existentes (alfabeto), mas a associaçã o psíquica, que lhe fornece o estatuto de representaçã o, é da ordem do rearranjo poético.

F reud ([ 1891] 2013) introduz, ainda, uma concepçã o de simbolizaçã o com suporte na articulaçã o da representaçã o-palavra ( Wortvorstellung) com a representaçã o-objeto (Objektvorstellung), posteriomente chamada representaçã o-coisa (Sachvorstellung) (F R E UD, [ 1915] 2010a). A s palavras, antes de se organizarem arbitrariamente na consciê ncia, possuem sua formaçã o dependente de uma série de elementos sensíveis que sã o extraídos da relaçã o com o próximo, também possuidor da linguagem. D entre esses elementos sensíveis, destacamos a imagem acústica – o traço que se inscreve da voz – como crucial para compreendermos a associaçã o dos objetos no inconsciente, que é a representaçã o-coisa.

O segundo texto basilar da metapsicologia freudiana que foi abordado – a C arta 52 (F R E UD , [ 1896] 1996) – foi escrito após o Projeto para uma psicologia científica (F R E UD , [ 1895] 1996). E ste último ficou guardado durante toda a vida de F reud, mas fornece, hoje, uma perspectiva sobre questões que foram reiteradamente presentes em sua obra. T rouxemos primeiro a C arta 52, pois ela faz ressurgir a importancia do aparelho da linguagem apresentado nos estudos sobre as afasias, à medida que recupera a teoria da simbolizaçã o da coisa pela palavra através de um modelo de estratificaçã o sígnica da memória. O que dá toda a especificidade do símbolo freudiano é que ele deixa restos intraduzíveis atrás de si. S e, inicialmente, a simbolizaçã o é a captura da representaçã o-coisa pela representaçã o-palavra, ela é, também, paradoxalmente, constituída pela deficiê ncia tradutiva da voz em palavra. O recalque de elementos da coisa na voz mediante a palavra abre a dimensã o da história, impondo uma derrota ao infantil. É entã o que a música, junto à poesia, tem seu primeiro destaque neste trabalho. A ritmicidade que constitui o fenômeno poético musical é algo fundamental também para a vida psíquica. A articulaçã o ritmica demonstra ser uma forma simbólica que antecede o recalque. Isso explicaria porque recorremos à música e à poesia para recuperar um prazer da’língua.

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ritmicidade é funçã o do Outro e resultado das interações com a dinâmica da ausencia-presença do próximo. É da conquista da invocaçã o que tratamos no segundo capítulo ao abordar o Projeto para uma psicologia científica (F R E UD , [ 1895] 1996). É possível que o ritmo e a voz participem da constituiçã o do eu. O eu que F reud ([ 1895] 1996) apresenta no Projeto é uma primeira organizaçã o psíquica ainda distinta do que virá a ser a definiçã o do eu em 1923, em O eu e o id (F R E UD , [ 1923] 2011). Porém, permanecerá reiterada a ideia de que o eu representa um primeiro momento de diferenciaçã o psíquica e de superaçã o de um caos disperso. O que eu retiraria da voz para a sua formaçã o? A voz serve ao eu com uma pulsã o que tende a articular-se, ligar-se, embora ao preço de, nessa articulaçã o, ser recalcada, tornar-se “pura potencialidade, gerando a palavra, diferenciada e significante” ( B OL OGNA , 1987, p.58).

B ologna (1987) reúne, na E nciclopédia E inaudi, algumas definições de voz e suas relações com a palavra e com a linguagem. E le destaca que, antes de tudo, a voz necessita ser diferenciada da palavra, em sua expressã o oral e escrita, e também da linguagem, esta como conjunto de signos, fonéticos ou nã o. Isso porque a voz pré-existe à sua articulaçã o em palavras e mesmo à linguagem, por possuir uma natureza essencialmente corpórea. A lém disso, essa natureza se encontra no limiar do simbólico junto aos pares rítmicos como a vida e a morte, a noite e o dia. A voz emana dos mesmos órgã os que garantem a sobrevivê ncia, como a respiraçã o e a alimentaçã o, e permanece, mesmo agora sob a condiçã o de suporte da palavra e da linguagem, como “um imperioso grito de presença” (B OL OG NA , 1987, p.58). A voz seria, entã o, o ponto mais central da combinaçã o entre a natureza e a cultura, entre o íntimo e o exterior.

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havido um sim imemorial. A origem do eu simbólico é resultado da explosã o do polo homeostático do prazer-desprazer. S e, no segundo capítulo, apresentamos as condições da afirmaçã o primordial sob a forma de uma experiê ncia de satisfaçã o, no terceiro, vieram as consequencias da negaçã o primordial, com a introduçã o do simbólico.

C omo o simbólico se constitui em relaçã o à lei cujo tempo transcende o do relógio, seria sempre necessário reencontrar uma metáfora da temporalidade arcaica (D E NIS , 1995). Mas, quando F reud ([ 1913] 2012) teoriza sobre a unificaçã o das pulsões eróticas em torno de um objeto amado, pensando isso no contexto da vida adulta e da análise, depara-se com o retorno de um símbolo memorável que, na verdade, faz frente a um traço imemorável. A relaçã o entre a repetiçã o da memória e de um esquecimento sobre a qual ela se funda, apresenta-se no ritmo pela marca da recorrê ncia e da diferença. O ritmo fornece condições de metaforizar o tempo arcaico, ao mesmo tempo estará submetido à lei simbólica, na condiçã o do esquecimento inesquecível, como nos apresenta o psicanalista D idier-W eill (1997). C olocamos, ainda, o que teria sido uma possível interlocuçã o entre D idier-W eill e L aplanche (1988), para refletir sobre os destinos do recalque originário. C omo o recalque secundário ou o É dipo nã o equivalem a tudo que se pode dizer sobre a simbolizaçã o em psicanálise, discutimos os efeitos da instauraçã o de uma situaçã o originária ( L A PL A NC HE , 1988) entre o bebê e o adulto como paradigma universal da primazia simbólica. A través da obra desses dois psicanalistas, pudemos dizer que o recalque originário pode ter sua instauraçã o pela via do significante enigmático de L aplanche (1988) ou também do significante siderante de D idier-W eill (1997). E nquanto um significante do enigma convoca à significaçã o que virá com o recalque secundário, o outro siderante convoca ao riso, ao para além ou aquém do sentido, que pode retomar uma via estética de subjetivaçã o, por exemplo, pelo ritmo musical.

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trabalhar com uma questã o que me acompanha desde a iniciaçã o científica na graduaçã o. E la diz respeito à relaçã o que é possível traçar entre elementos musicais, como a melodia da voz e o ritmo, e a constituiçã o psíquica. No fundo, tal questã o revela-se como a questã o de uma vida, pois o amor musical é isso ao que esse trabalho aponta: constituinte e inesgotável fonte de uma renovada nostalgia.

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2 O E S T A T UT O R E PR E S E NT A C I O NA L D A V O Z

“T oda alma é uma melodia, que se deve reatar; e para isso, sã o a flauta ou a viola de cada um”. ( MA L L A R MÉ – C rise do verso)

E m uma reinterpretaçã o do problema filosófico da representaçã o (V orstellung), F reud ([ 1891] 2013, [ 1895] 1996, [ 1915] 2010a) constrói uma metapsicologia cindida entre a ordem sonora que representa o campo da exterioridade ou a abertura ao relacional, e a ordem visual, onde se forma uma representaçã o interna do desejo. C omo, entã o, as leis da associaçã o entre sons, com suas alturas, durações, tonalidades, poderiam fornecer um modelo para uma associaçã o dos representantes psíquicos, de modo que o psiquismo funcionasse como uma linguagem? A esse respeito, F reud ([ 1891] 2013) faz uma analogia do psiquismo com a forma como um poema pode conter as letras do alfabeto. E xiste, todavia, uma dimensã o musical no poema, que articula um modo de ressoar e pulsar a toda possibilidade de significá-lo. L ogo, a voz e o ritmo devem ser elementos importantes da formaçã o de um vínculo representacional. A questã o que irá nos guiar a partir de agora é justamente sobre a participaçã o da voz no contexto de sua ligaçã o por representantes.

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2.1 A noçã o fr eudiana de r epr esentaçã o

A maioria dos tradutores de F reud optaram por traduzir a palavra alemã V orstellung (que também pode significar “noçã o”, “ideia”) pelo termo representaçã o. É importante, inicialmente, destacar que este conceito desenvolveu-se na obra de F reud de maneira distinta de como ele aparece na filosofia clássica. A noçã o clássica de representaçã o sugere uma segunda apresentaçã o: em seguida ao aparecimento do objeto no campo da realidade externa do sujeito, este apreende o objeto em sua mente, constituindo assim, uma reapresentaçã o. E mbora toda a filosofia da modernidade tenha se empenhado na desconstruçã o de um mero comparecimento, na mente, do objeto – especialmente quando a partir de K ant ([ 1781] 1996) os fenômenos passaram a ser revestidos dos limites da apreensã o – a representaçã o continuava a se definir em relaçã o à coisa em si.

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A noçã o de representaçã o surge nos primórdios da conceituaçã o freudiana com notável influê ncia do associacionismo nominalista de S tuart Mill (A S S OUN,1996). Sobre a concepçã o das afasias: um estudo crítico (F R E UD , [ 1891] 2013) torna-se, desde entã o, obra imprescindível para o debate sobre uma teoria da dinâmica inconsciente na linguagem. Mais do que em outras obras pré-psicanalíticas, entretanto, no ensaio sobre as afasias, se faz notar a ausê ncia do conceito de pulsã o. S obretudo por ainda nã o ter desenvolvido a dinâmica pulsional do aparelho psíquico, o modelo representacional retratado na obra é compreendido em sua parcialidade, no sentido de um patamar metapsicológico. A pesar disso, no texto, há um germe do conceito de repetiçã o que é crucial para pensar a articulaçã o entre a pulsã o e o seu representante no inconsciente. A lém disso, bases das noções de repetiçã o e de temporalidade estã o também presentes na teoria freudiana sobre o psiquismo desde o início. Os conceitos de regressã o [ Regression] , de repetiçã o [ Wiederholung] e de só-depois [ Nachträglich] sã o germinados nesse texto de F reud, também profundamente influenciado pelo neurologista Hughlings J ackson (R OS S I, 2013).

A qui, nossa primeira incursã o pela proto-metapsicologia freudiana nos permite lançar a hipótese de que a voz pode estar para a palavra assim como, na teoria da representaçã o, uma representaçã o-objeto está para as representações verbais. V oz e representaçã o-objeto/coisa sã o apreendidos, aqui, como conceitos basais. Para avançar nessa hipótese, é preciso investigar o papel do universo sonoro na teoria da representaçã o.

2.2 O apar elho-poema

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cerebral com o campo psicológico. A pós uma temporada em Paris, exerceu a neurologia em V iena, trabalhando no instituto público de pediatria do professor Max K assowitz (R OUD INE S C O, 2016). D ecorridos cinco anos neste que foi o primeiro serviço público de pediatria, viria a publicar sua obra sobre as afasias (F R E UD , [ 1891] 2013). E mbora nã o tenha apresentado nessa obra nenhum dado clínico extraído de sua prática, certamente seu encontro com as coreografias da representaçã o na histeria impulsionou seu ensaio crítico em Aufassung.

E m seu estudo sobre as afasias, F reud ([ 1891] 2013) pretendeu tecer armas com K arl W ernicke, L udwig L ichtheim e ainda arranhar o construto poderoso de T heodor Meynert. D e antemã o, deixou claro que as teorias de Hughlings J ackson e de J ean-Martin C harcot seriam seus bastiões nessa sua batalha. F reud ([ 1891] 2013) inicia sua pesquisa seguindo a pista da hesitaçã o de W ernicke em estender para as funções psíquicas a ideia de centro. Paul B roca consagrou a referê ncia ao centro motor, enquanto W ernicke denominou um centro sensorial. Os estudos de W ernicke complexificaram-se, ao demonstrar, ainda, afasias decorrentes de lesões nã o somente nos centros, mas também advindas da destruiçã o das vias de conduçã o. F reud ([ 1891] 2013), por sua vez, destituiu a dignidade dos centros para explicar a ocorrê ncia de todos os sintomas afásicos, especialmente os que estã o referidos à afasia de conduçã o. D iante da constataçã o de que a interrupçã o de uma via privilegiada entre a área de B roca (centro motor) e a área de W ernicke ( centro sensorial) acabaria por inviabilizar definitivamente os próprios centros, F reud ([1891] 2013) levantou-se contra as duas principais teses de W ernicke, amplamente aceitas na neurologia até aquele instante. A primeira concebia uma separaçã o entre afasias de conduçã o e as afasias de centro. A segunda afirmava que a linguagem estava contida inteiramente dentro dos núcleos da fala, supondo que localizações anatômicas pudessem conter funções psíquicas.

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casos, o organismo reage como um todo e solidariamente à s lesões; a lesã o é respondida por um outro distúrbio de funçã o.

A apropriaçã o sensorial dos traços mnésicos visuais e sonoros foi discutida por F reud ([ 1891] 2013) mediante um caso de afasia amnésica, conhecido como o caso de Grashey. T ratava-se de um homem de 27 anos que, após uma queda da escada, teve uma fratura craniana. D entre tantas complicações nervosas e musculares, ele teve uma restriçã o da visã o e quase chegou a perder a audiçã o. Uma vez que a faculdade da linguagem se recuperava, foi observado, no paciente de Grashey, um distúrbio de linguagem: ele reconhecia objetos, mas nã o conseguia encontrar os nomes que os designavam. No fluxo das palavras, as quais ele podia contextualizar e compreender, os substantivos desapareciam. O paciente se destacou por sua incapacidade de fixar na mente, ainda que por pouco tempo, as imagens de objeto e as imagens sonoras. F reud ([ 1891] 2013) observou que “pelo fato de que a imagem de objeto precisa, em todo o caso, apenas de um instante para ser constituída, ela é igualmente produzida no caso de curta duraçã o da imagem de som” ( F R E UD , [ 1891] 2013, p.58). Um distúrbio ligado a uma lesã o que interferisse diretamente na duraçã o de sua memória prejudicaria todas as associações. O paciente conseguia partir das imagens de som para as imagens de objeto, mas as imagens de objeto nã o excitavam suficientemente as imagens sonoras, com exceçã o de uma situaçã o em que as imagens e o som se apresentassem de forma simultânea e contígua. Nessas condições, é exigida do psiquismo uma compreensã o de um todo instantâneo.

C abe ressaltar que a imagem visual da palavra (a letra) exige um intervalo, uma vez que é seu aparecimento de forma sucessiva que lhe garante a passagem à dimensã o do sentido. F reud ([1891] 2013) criticou W ernicke por encerrar o som à matéria unívoca. A emissã o, no entanto, dos sons das letras permite um corte que divide e marca (espacializa e temporaliza) a inefável totalidade dos sons. A concepçã o de som da neurologia da época permite compreendê -lo como uma totalidade pré-linguística, conceito que, evidentemente nã o era trabalhado por F reud.

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processo associativo ocasionado por situações banais, como a fadiga. F reud ([1891] 2013) introduz a ideia de que qualquer pessoa, sob o efeito de afetos perturbadores, apresenta semelhante confusã o de palavras. Posteriormente, na doutrina da metapsicologia freudiana, o afeto será reencontrado nas margens da representaçã o, como a expressã o da libido, a pulsã o bruta, sob o qual recai a sombra do corpo (A S S OUN, 1996).

A té aquele momento, a neurologia explicava o sistema nervoso por uma metáfora óptica. D e acordo com F reud ([ 1891] 2013] , Meynert defendia que o corpo era reproduzido no córtex cerebral através de vias específicas que ligavam cada ponto do corpo a um ponto do cérebro. D essa forma, o corpo seria projetado no aparelho central cortical. F reud ([ 1891] 2013), ao deparar-se com uma série de novas descobertas anatômicas e clínicas que corrigiam em diversos pontos essenciais tal concepçã o, passa a rejeitar a ideia da reproduçã o topograficamente exata do corpo no cérebro. Pesquisas demonstravam um abalo na preponderância dos processos corticais para explicar, sem interrupções e alterações subcorticais, os processos corporais em toda sua extensã o, ponto a ponto. A base da ideia de projeçã o é que, para cada elemento dos segmentos distais, periféricos do corpo, há um correspondente direto no centro cortical. T odavia, dos segmentos proximais do centro cortical, especialmente provindos das regiões sub-corticais, existem muitos feixes que se representam em apenas um elemento cortical. F reud ([ 1891] 2013) propõe, entã o, que se substitua a ideia de projeçã o pela de representaçã o (Repräsentation), para explicar algumas parafasias. C om a ideia de representaçã o, acolhe-se a possibilidade de associações resultantes das inúmeras ligações e ramificações que as excitações nervosas podem fazer pelo caminho entre a periferia e o centro cortical.

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E m objeçã o à hipótese da projeçã o do corpo no córtex, F reud ([ 1891] 2013) apresenta um outro modelo, uma metáfora, que detém a marca do que será proposto como o inconsciente. E m detrimento do modelo óptico, F reud ([ 1891] 2013) lança mã o da metáfora do aparelho-poema que representa, rearranja como lhe convém, o alfabeto que é o corpo. Um poema contém o alfabeto, mas lhe reordena segundo propósitos peculiares e possibilita que, na dinâmica da representaçã o, alguns elementos sejam representados várias vezes, enquanto outros pareçam estar ausentes. Para tanto, F reud ([ 1891] 2013) toma emprestado um modelo do próprio objeto a que ele se dedicava compreender, a saber, a linguagem. A ssim, rejeita de uma vez por todas a ideia de que a representaçã o possa estar contida em células. O poema é, definitivamente, um arranjo funcional-ficcional. E mbora se mantenham as relações topográficas, as exigê ncias que formalizam associações sã o embasadas na linguagem e, com ela, regem o funcionamento do aparelho.

F reud ([ 1891] 2013) entende por representaçã o psíquica o resultado de uma interaçã o interna entre traços mnésicos. A o se relacionarem entre si, formam um composto complexo, tal como o modelo do poema. É possível sugerir que esse psiquismo-poema de F reud embora esteja absolutamente en passant em seu texto sobre as afasias, seja um resistente aporte de sua metapsicologia. A qui, F reud ([ 1891] 2013) concebe um aparelho que é a condiçã o da apropriaçã o da linguagem. Mas será que, de alguma maneira, este aparelho de linguagem anteciparia o inconsciente? A esse respeito, pode-se referir à afirmaçã o de F reud ([ 1888] 1996) que, para a histeria, é necessário um período de incubaçã o, durante o qual a causa desencadeante continua atuando no inconsciente. D iante disso, podemos dizer que o inconsciente nã o é procurado por F reud, mas, desde muito cedo, insistentemente achado.

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Interessante apontar que, antes mesmo da publicaçã o do estudo sobre a concepçã o das afasias, F reud já havia definido o que entende por afasia e por histeria, relacionando-as com a origem acústica da aprendizagem da linguagem. Originalmente publicado como contribuiçã o acerca das afasias para a E nciclopédia V illaret, o verbete Histeria, de 1888, contém a seguinte definiçã o de palavra:

A palavra nã o é uma representaçã o simples, mas um complexo que se compõe de quatro elementos, dois sensoriais e dois motores. Os dois sensoriais sã o a imagem mnê mica da palavra ouvida ( representaçã o acústica) e a imagem óptica da palavra vista ( escrita ou impressa) ; os dois motores sã o a representaçã o motora ( dos órgã os de fonaçã o) da palavra falada e a representaçã o motora da palavra escrita (pela mã o direita) . O segundo e o quarto desses elementos só desempenham um papel no sujeito instruído. A prende-se a linguagem por via auditiva ( F R E UD , 1888 citado por L E C OUR T , 1997, p. 62) .

A concepçã o de que a palavra é composta por elementos sensoriais e motores permitiu fazer uma distinçã o entre a surdez verbal, consequê ncia de distúrbios sensoriais que afetam a audiçã o, e a surdez histérica, que afeta somente as partes motoras. E nquanto a surdez verbal é experimentada como uma linguagem ruidosa que acarreta o emprego inadequado das palavras, a histérica é, na verdade, um mutismo. C uriosamente, F reud ([1893] 1996) observa que, nas afasias histéricas, há um esquecimento de palavras e a troca por outras que possuem uma sonoridade semelhante. A histeria faz uma composiçã o sonora com seu sintoma, o que indicou a importância das relações dos sons entre si para as formações sintomáticas.

O papel do sonoro na construçã o de uma teoria da representaçã o ganha maiores contornos quando F reud ([ 1891] 2013) divide em trê s os distúrbios de linguagem, encontrados na clínica das afasias. O primeiro tipo é chamado de afasia verbal, pois compromete associações entre representações-palavra. F reud ([ 1896] 1996) afirmará, posteriormente, que estes sã o problemas de tradutibilidade, perturbações das relações, dos jogos, das trocas entre palavras. O segundo tipo é denominado de afasia assimbólica. A qui, encontramos uma primeira definiçã o do que é o processo de simbolizaçã o para F reud. A afasia assimbólica compromete as associações entre representantes-palavra e os representantes-objeto. O terceiro tipo é a afasia agnóstica, que compromete a associaçã o entre o representante-objeto e o objeto, sendo entã o uma perturbaçã o da ordem perceptiva.

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o-palavra – o par basilar da teoria representacional freudiana. D ado que o sofrimento psíquico será o indicativo do colapso na ligaçã o entre estas modalidades de representaçã o, desde entã o podemos encontrar, na imagem acústica, uma pungê ncia real que pode emergir aquém ou além da simbolizaçã o. A simbolizaçã o consistirá na operaçã o que ata essas duas representações.

2.3 A r epr esentaçã o-coisa (voz) e a r epr esentaçã o-palavr a: o pr ocesso de simbolizaçã o

O texto freudiano sobre a concepçã o das afasi as é considerado proto-fundador da razã o metapsicológica ( A SS OUN, 1996), uma vez que nele se apresenta a articulaçã o central que vai ser replicada em toda a elaboraçã o posterior sobre o inconsciente. T rata-se da articulaçã o entre dois complexos associativos: o palavra e o representante-objeto, que mais tarde, no texto O inconsciente ( F R E UD , [ 1915] 2010a), passa a ser chamado de representante-coisa. S erá mediante a concepçã o da palavra enquanto uma complexa unidade composta por elementos acústicos, visuais e cinestésicos que F reud caminhará da patologia verbal em direçã o a uma lógica da representaçã o.

Para F reud ([1891] 2013), permanecerá como possibilidade de articulaçã o entre a consciê ncia e o inconsciente, a junçã o de uma imagem sonora da palavra (elemento consciente) com a imagem visual do objeto (elemento inconsciente). T oda troca simbólica parte dessa ligaçã o entre duas grandes ordens, qual seja, a visual e a sonora. E nfatiza-se, assim, o visual como o domínio privilegiado para o inconsciente, pois o elemento inconsciente passa a ser justamente a imagem visual do objeto; ou seja, o sonoro também contribui para a formaçã o de um complexo imagético (imagem acústica, imagem visual) no inconsciente. A s razões para isso estariam no compromisso inicial de F reud com uma teoria da reminiscê ncia para explicar o trauma na histeria (F R E UD ; B R E UE R , [ 1893-1895] 1996).

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coisa. Isso quer dizer que a palavra, mesmo sendo uma unidade básica da linguagem, necessita de um conglomerado de elementos articulados. S eus componentes sã o quatro: a imagem acústica, a imagem visual das letras, a imagem motora da fala e a imagem motora da escrita. A o se deslocar do universal da biologia para o universal da linguagem, a materialidade do objeto de pesquisa freudiano é a imagem acústica, o componente que a representaçã o-objeto cede à palavra ( GA B B I J R , 1991). Nesse sentido, a representaçã o-voz e a representaçã o-imagem serã o os elementos constituintes da palavra que F reud mais destaca na problematizaçã o metapsicológica.

O colapso entre componentes da palavra ( a imagem acústica, a imagem visual das letras, a imagem motora da fala e a imagem motora da escrita) passa a ser o verdadeiro índice da localizaçã o do adoecimento (F R E UD , [ 1891]2013). A lgumas considerações sã o tecidas sobre o processo de associaçã o desses elementos no aprendizado da língua. Interessa-nos, sobretudo, os primeiros laços associativos anteriores à leitura, em que se destaca o cruzamento inicial das imagens sonora, visual e motora da palavra. A s crianças parecem demonstrar bem isso quando possuem “uma linguagem própria”, que acaba por se assemelhar a uma afasia motora. O som que retorna de diversas lalações nã o representa, de saída, algo para um adulto. A prender a falar exige o esforço de reconhecimento de que o som que produzimos corresponde ao som que ouvimos dos outros. E is aí o papel da identificaçã o primordial com o Outro na conquista da própria voz e de seu lugar na linguagem. T rata-se de um jogo rítmico de dois tempos essenciais. Na própria produçã o da voz, há um movimento entre locuçã o e seu destinatário. A modulaçã o da voz apenas é possível através de seu retorno, o que garante um certo suspense (no sentido mesmo de uma extensã o temporal) , visto que a voz fará um circuito antes mesmo que se possa dela se apropriar (A S S OUN, 1999).

A representaçã o do movimento da fala necessita de um entre-tempo do resto mnésico de uma inervaçã o sonora que esteve associado a uma imagem acústica; ou seja, depois que falamos, recebemos outra imagem sonora. F reud ([ 1891] 2013) dirá que a segunda imagem de som, aquela que retorna, nã o será igual à primeira. E m outros termos, o som da voz se constitui enquanto presentificaçã o da perda da imagem sonora, pois ela, inevitavelmente, existe fora.

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conceito de representaçã o-objeto possui uma ubiquidade e será diferenciado apenas no texto metapsicológico O inconsciente ( F R E UD , [ 1915] 2010a). O referente que F reud chamava de “representaçã objeto” passa à “representaçã coisa”, mas o conceito de “representaçã o-objeto” permanece, agora, para denominar a junçã o da “representaçã o-coisa” com a “representaçã o-palavra”.

F reud recolhe de S tuart Mill ([ 1843] 1979) a ideia de uma “representaçã o-objeto” como o afluente inesgotável de impressões sensoriais novas em torno de uma mesma cadeia associativa. Isso quer dizer que, do lado da experiê ncia com os objetos, reside a possibilidade do surgimento do novo. J á a representaçã o-palavra se compõe como um sistema definido, embora passível de extensã o. O objeto traz a dimensã o do infinito, enquanto a palavra tem a finitude da representaçã o. E ntende-se que a infinidade das associações de objeto se deve exatamente ao fato de que sã o associações, e nã o porque os objetos do mundo sã o inesgotáveis. Na verdade, o conceito de associaçã o de objeto refuta o conceito de projeçã o exata do corpo no córtex. F reud extrai do filósofo S tuart Mill uma lógica subjacente à s associações de objeto, segundo a qual as associações se fazem pela atitude expectante que a mente desenvolve. A ssim, além das percepções, a mente é capaz de realizar as associações possíveis com base na expectativa. A matéria nã o se apresenta de forma pura. O mundo, desde sempre, é atravessado por possibilidades de associações, fruto dos caminhos do sujeito. Nesse sentido, podemos entender o aspecto permanentemente aberto das associações de objeto.

O principal intuito de S tuart Mill ([ 1843] 1979) era apontar que a existê ncia do mundo exterior nã o se dissocia de sua apropriaçã o enquanto crença. A s leis de associaçã o sã o regidas por quatro princípios: semelhança, contiguidade, frequê ncia e inseparabilidade. Pela semelhança, há um princípio fundamental que possibilita compartilhar uma sensaçã o com ideias do mesmo conjunto. A contiguidade possibilita que uma associaçã o de objeto seja atingida por uma ideia anteriormente associada de forma simultânea com outra. A frequê ncia aprimora esse processo. Quanto mais experimentamos simultaneamente ideias e associações, elas tendem a se repetir, o que, por fim, gera uma associaçã o inseparável. O estado permanente de possibilidade de associaçã o, considerado inesgotável, acaba conduzindo a simultaneidade nã o contraditória das experiê ncias sensoriais até uma rede sobredeterminada que produz uma lei das sucessões, chamada crença. A linguagem nã o é, antes de tudo, uma crença?

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diferentemente das teorias localizacionistas que trabalhavam com as hipóteses do aparelho projetivo e do psíquico como epifenômeno do físico. O aparelho de linguagem freudiano, funcionando sobre a infraestrutura das associações de objeto e de palavra, já levaria em conta que o sonoro é refratado também desde o interior pelas infinitas possibilidades de ser representado no psiquismo. A voz na teoria da representaçã o freudiana se apresenta como um resto mnésico passível de ser associado internamente pelas leis próprias do aparelho de linguagem.

2.4 D a voz à palavr a: um pr oblema de transcriçã o, tr aduçã o e tr ansliteraçã o

Nas formulações freudianas, o primeiro aparato psíquico pode ser denominado aparelho de linguagem ( F R E UD , [ 1891] 2013), o segundo, um aparelho neurônico

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(F R E UD , [ 1895] 1996) e, no ano seguinte, F reud ([ 1896] 1996) apresenta um novo esquema, por meio de uma carta a F liess, a C arta 52, que pode ser considerado o terceiro modelo teórico de aparelho psíquico no período de germinaçã o metapsicológica de sua obra. O aparelho de memória por estratificaçã o sígnica ali apresentado engendra, definitivamente, na teoria da constituiçã o psíquica, os desafios metapsi cológicos impostos pela temporalidade, sendo este o mais próximo do aparelho apresentado por F reud ([ 1900] 1996) em A interpretaçã o dos Sonhos, que inaugura a primeira tópica.

Na C arta 52, F reud ([ 1896] 1996) anuncia a F liess:

E stou trabalhando com a hipótese de que o nosso mecanismo psíquico tenha se formado por um processo de estratificaçã o: o material presente em forma de traços da memória estaria sujeito, tempos em tempos, a um rearranjo segundo novas circunstâncias – a uma retranscriçã o. A ssim o que há de essencialmente novo a respeito da minha teoria é a tese de que a memória nã o se faz presente de uma só vez, mas se desdobra em vários tempos; que ela é registrada em diferentes espécies de indicações ( F R E UD , [ 1896] 1996, p.281) .

E ste modelo explicativo da memória está em continuidade com aquele que ele havia proposto para explicar as afasias. O aparelho de linguagem já nos indicava que os restos mnésicos da experiê ncia com o objeto, especialmente divididos em visuais e acústicos, nã o eram armazenados como cópias fidedignas ou unívocas. E ram, portanto, superassociados em feixes de possibilidades abertas aos rearranjos posteriores. Na C arta 52, contudo, F reud ([ 1896] 1996) passa a nomear a relaçã o entre os conteúdos linguísticos dispostos em estratos a partir de operações de retranscriçã o e traduçã o. A louch (2005) aponta ainda um outro tipo de

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rearranjo chamado de transliteraçã o. D essa forma, F reud ([ 1896] 1996) deixa claro que os estratos psíquicos se apresentam como diferentes registros de linguagem, e nã o dispostos em uma topografia cerebral.

D e acordo com D unker (2013), a C arta 52 constitui o modelo de aparelho psíquico que melhor resiste à tentativa de espacializaçã o das instâncias psíquicas. A li, a memória é definida por F reud ([1896] 1996) como a capacidade de articular signos

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de formas múltiplas. E is a forma como F reud ([1896] 1996) apresenta esse esquema:

F onte: C arta 52 ( F R E UD , [ 1896]1996, p.281) .

O W ( Wahrnehmungen) é referente à s percepções. A qui, trata-se do tempo da folha branca. F reud ([ 1896] 1996) situa um tipo de ligaçã o da consciê ncia à s percepções sem que, no entanto, conservem algum traço da experiê ncia, em razã o da diferença absoluta entre os processos da consciê ncia e da memória.

O primeiro estrato W z (Wahrnehmungszeichen) é o registro do primeiro signo de uma percepçã o na forma como aparece para a memória. E sse signo, inacessível ao consciente, forma um tipo de associaçã o unicamente devido aos processos de simultaneidade em que se inscrevem.

No segundo estrato Ub ( Unbewusstsein), temos o registro do inconsciente. F reud ([ 1896] 1996) supõe que (talvez) aqui os signos perceptivos passem a se organizar segundo uma relaçã o de causalidade, ainda que inacessíveis à consciê ncia.

E m V b (V orbewusstsein), temos a pré-consciê ncia como a terceira modalidade de transcriçã o. A gora, chegamos à s representações verbais que podem se articular entre si e corresponder, nos termos da temporalidade, ao tópico do eu reconhecido. Nesse estrato, os investimentos psíquicos se dã o no sentido de forçar sua representaçã o na consciê ncia; no entanto, isso só ocorre segundo as novas leis do processo secundário, que, por sua vez, envolvem o pensamento e a funçã o judicativa.

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F reud ([ 1896] 1996) supõe que as representações verbais sã o provenientes de um rearranjo dos investimentos da alucinaçã o primária. Ou seja, o que divide todo o aparelho psíquico é o processo de transcrever em palavras os traços deixados pelas vivê ncias fundamentais, que sã o aquelas que estruturam uma dinâmica representativa própria do prazer-desprazer. O primeiro estrato composto pelo signo da percepçã o é, de acordo com a nossa hipótese, o lugar mnê mico pré-linguístico do grito no complexo associativo da experiê ncia de satisfaçã o. T al hipótese será melhor abordada no próximo capítulo. A primeira formulaçã o de causalidade no inconsciente, no segundo estrato, indica a transformaçã o do signo visceral do grito (desprazer) e das melodias da voz materna ( prazer) em representações-coisa.

Quando F reud ([ 1896] 1996) encerra a apresentaçã o das transcrições entre os materiais psíquicos e passa a falar de como eles devem se suceder diacronicamente na história pessoal do indivíduo, o termo traduçã o emerge para indicar estas transformações. A traduçã o, portanto, é uma operaçã o que coloca em jogo a diacronia. F reud ([ 1896] 1996) separa estruturas clínicas distintas como sendo consequentes de uma interrupçã o ou de uma fixaçã o de determinados materiais psíquicos; por exemplo, problemas de traduçã o ou transcriçã o. C ada estrato é ordenado por uma lei temporal distinta e, quando o aparelho nã o consegue realizar a transcriçã o ou traduçã o do material psíquico, ele fica sujeito à vigê ncia das leis do período anterior. É dessa forma que F reud ([ 1896] 1996) explica as “sobrevivê ncias” e os anacronismos nos sofrimentos psicopatológicos.

D e acordo com o artigo de Gouvê a, F reire e D unker (2011), a traduçã o participa das formas mais simples de inscriçã o (Niederschrift), consistindo na mera passagem de um significante a outro. Podemos, entã o, localizar os processos de traduçã o ocorrendo a partir do estrato da pré-consciê ncia (V orbewusstsein) e afirmar que se trata de transformações ao longo das associações entre representantes-palavra. J á no que diz respeito à s transcrições, estas remetem ao processo que ocorre entre os estratos do inconsciente e o da pré-consciê ncia. Ou seja, onde se perfaz uma articulaçã o entre o representante-palavra com o representante-objeto. É na ocorrê ncia de uma ruptura desse laço, que F reud ([1891] 2013) localiza a afasia assimbólica, como já posto anteriormente. Nã o se trata, entã o, apenas da substituiçã o de uma ideia (V orstellung) por outra, mas de dois meios de linguagem distintos. A transcriçã o permite que um traço verbal, acústico ou visual, seja transformado em outro tipo de signo (GOUV E IA ; F R E IR E ; D UNK E R , 2011).

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uma língua latina, estamos apenas traduzindo, pois usufruímos de um sistema de escrita que abrange um alfabeto semelhante. E ntretanto, se devemos reescrever um texto escrito numa língua árabe ou em japonê s, nã o apenas temos que traduzir, mas também transliterar, pois se trata de outro sistema de escrita. A s escritas deixadas na pré-história pelos nossos ancestrais constituem outro exemplo que exige que se façam transliterações. A respeito dos estratos psíquicos, precisamos transliterar as primeiras indicações da percepçã o para transformá-los em significantes. A pura voz, nesse caso, é um tipo de sistema de escrita vocal que precisa ser transliterada para a fala, como produçã o discursiva. A voz é primeiramente inscrita no corpo do infante como resíduo perceptual-mnê mico da relaçã o com o próximo acolhedor. E nquanto essa voz presumir simultaneidade, identidade e continuidade, ela encontra-se no nível do traço. Quando passar a ser dialetizada pela relaçã o rítmica do descontínuo, a voz poderá ser significantizada, digamos assim, pela diferença, negaçã o e oposiçã o ( GOUV E IA ; F R E IR E ; D UNK E R , 2011).

F reud ([ 1896] 1996) apresenta, ainda na C arta 52, uma noçã o de recalcamento importantíssima: o recalque é uma falha na traduçã o. E le impede as traduções, em palavras, de conteúdos que estã o associados à escrita dos afetos. No recalque pode haver, entretanto, um relativo sucesso da transliteraçã o e da transcriçã o. A partir disso, inserimos um questionamento: a psicose, o autismo e as problemáticas que envolvem alterações na ritmicidade e na entonaçã o melódica da fala seriam decorrentes de dificuldades em operar rearranjos num outro nível, como na transcriçã o e transliteraçã o? E sta parece ser uma questã o clínica promissora. O recalque, por exemplo, indica que mecanismos de substituiçã o de representações escamotearam uma representaçã o do desejo; um escamoteio falho, já que esta representaçã o sobrevive. Por outro lado, F reud ([ 1915] 2010a) trará que, na psicose, a palavra é tomada como a própria coisa, indicando que nã o houve uma transcriçã o desses meios de linguagem. A qui, outra questã o pode ser lançada: no autismo, o sujeito fica impedido de transliterar os traços pré-históricos (sonoros, visuais) deixados pelo encontro com o Outro em uma produçã o de linguagem? Infelizmente, no âmbito do presente trabalho, tais questões podem apenas ser indicadas.

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na traduçã o que impedem um desfiladeiro desordenado de representações, como ocorre no automatismo delirante.

D e um nã o traduzível originário, resistiria uma força que se manteria insistente em direçã o ao simbólico. S eria o ritmo um operador a serviço das transformações associativas, especialmente no caso da ligaçã o da voz e seus destinos na linguagem? A partir da investigaçã o sobre a psicose infantil, D unker (2013) aponta que, devido à verificaçã o de uma fissura sígnica – desprendimento do significado e do significante – na clínica das psicoses, as condições intermediárias de articulaçã o entre a palavra e a voz sã o imprescindíveis. D entre essas condições intermediárias, o autor cita o ritmo e o canto. S eguimos nessa perspectiva e buscamos dar relevância, na ritmicidade, ao trabalho mediador que esta impõe ao movimento pulsional da voz em direçã o à simbolizaçã o.

E m Psicanálise do autismo, J erusalinsky (2012) chega a afirmar que o autista fica submerso no real devido à reduçã o da palavra à voz, o que nos leva a interrogar como se opera essa ligaçã o entre a palavra e a voz. A palavra precisa do suporte da coisidade da voz para funcionar diacronicamente produzindo significantes. T odavia, a palavra, para simbolizar a dimensã o real da voz, vela a coisa. O aspecto de representaçã o-coisa na voz é o que a reveste do sensível, ao mesmo tempo, tornando-a imemorável. A voz enquanto traço precisa ser recalcada para que emerja a palavra como cadeia de si gnificantes. E ntã o, voltando ao problema mais seminal da teoria freudiana, podemos dizer que, entre a voz e a palavra, temos a ponte mais crucial entre a natureza e a cultura, entre o íntimo e o exterior.

2.5 A gê nese do símbolo fr eudiano e o intr aduzível

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A dimensã o melódica na língua tem um papel crucial na subjetivaçã o e insiste por toda a vida humana através da irresistível atraçã o pela música, pela dança e pela poesia. E ssa atraçã o se reveste da expressã o nostálgica do encontro primordial do sujeito com o Outro. F reud ([ 1895] 1996) introduziu no mundo uma teoria sobre a constituiçã o psíquica em que pesa a urgê ncia do auxílio do semelhante e a construçã o do psiquismo mediante a relaçã o com um outro ser de linguagem. A pós a primeira grande aproximaçã o da psicanálise com a linguística, através de L acan, nos últimos anos um renovado interesse surgiu a partir dos estudos linguísticos sobre a interaçã o sonora entre a mã e e o bebê (C A T Ã O, 2009; L A Z NIK , 2004). Por outro lado, embora as duas disciplinas – psicanálise e linguística – compartilhem o mesmo material (linguagem, vocabulários e, aparentemente, alguns conceitos), convém assinalar que isso constitui, em grande parte, um problema cheio de ambiguidades e de impossível reduçã o. Por isso, sempre foi imprescindível, como assinalam trabalhos como de Michel A rrivé (1994), apontar seus traços distintivos e suas possibilidades de encontro, a despeito da euforia com que se parte de um campo ao outro.

E mbora a materialidade da linguagem na psicanálise possa ser a mesma da linguística saussuriana, a primeira se voltou à s formações simbólicas, e a segunda, com pouco interesse pelo símbolo, angariou o domínio das formações sígnicas. A razã o para que a linguística saussuriana nã o tenha privilegiado o símbolo talvez tenha sido o fato de tomar a própria linguagem como o grande sistema simbólico de onde se podem filiar todos os signos. S e, para a linguística, tudo é o simbólico da linguagem, esta deveria se dedicar a uma de suas facetas remontáveis, observáveis, que é a relaçã o dos signos. A psicanálise custou, até L acan, para perceber que seu único campo possível na ciê ncia é o da linguagem, e o símbolo para esta tornou-se o resquício histórico do problema original entre o mundo da representaçã o e o R eal além da linguagem.

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significados; entretanto, o símbolo mnê mico, aqui abordado, longe de ser dividido como o signo linguístico é, com efeito, a condiçã o de seu surgimento.

Importante destacar que a representaçã o-objeto, o grito, os primeiros signos da percepçã o estã o sendo considerados, aqui, como nomes para o traço mnê mico ainda a ser traduzido em palavra (campo da articulaçã o significante/significado), no sentido em que ele ainda nã o está dividido em relaçã o ao seu significado, mas em relaçã o direta com a pulsã o. Por isso, também podemos tomar a teoria da emergê ncia do pulsional na voz como uma abordagem do pré-linguístico.

C onforme indica Octave Mannoni (1992), a linguística nã o se interessa pelas imperfeições da língua, pois a toma como um sistema já estabelecido e positivo. Nã o obstante, o psicanalista aprende com o poeta a remunerar os defeitos constitutivos da língua. Nã o remunera a língua no sentido de recompensá-la, mas em extrair um prazer em jogo, reencontrado pelas crianças, pela poesia, pela música e, enfim, pela psicanálise. D ito isto, seguindo as considerações de A rrivé (1994) e C ampos (2010), a diferença entre a formaçã o do símbolo freudiano e o si gno linguístico para S aussure também reside na modalidade de laço que os ata. O signo saussauriano é unido por arbitrariedade e por semelhança, enquanto o símbolo freudiano possui uma gê nese, é articulado por uma motivaçã o inconsciente, sendo sobredeterminado e possuidor de uma dimensã o energética e sexual.

É incontestável que a criança conhece o ritmo e a melodia prosódica muito antes de falar ou de compreender a fala. No processo de aquisiçã o linguística, as crianças primeiramente brincam com os sons e inventam, com sua aparente defasagem, combinações de palavras que ainda nem sequer compreendem o sentido. T odavia, é preciso alterar o ponto de observaçã o na psicanálise, pois aqui, o que a criança precisa para entrar na significaçã o é necessariamente aprender a perder com as palavras. E m cada significaçã o, ocorre o cozimento balizado pela arbitrariedade do signo de um significante com o significado, a despeito do que fica recalcado neste processo, ou seja, as várias significações possíveis. Mas, se voltarmos a nossa atençã o para a música e para a poesia, veremos que elas nã o cedem a essa derrota do infantil, na medida em que a forma de combinar os sons nã o depende desse recalque.

Nã o conhecendo ainda nosso Manoel de B arros e já tendo citado B audelaire, para quem o gê nio é aquele que reencontra a infância à vontade, Mannoni (1992) segue indicando a importância dos poetas para a psicanálise:

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nos faria remontar, sem dúvida, ainda mais atrás. D iz Mallarmé: “impõe-se a música limitar o mistério, quando o escrito pretende isso.” É esse mistério que retém Mallarmé ( MA NNONI, 1992, p.68) .

Mannoni (1992) assinala que o interesse da psicanálise para com a língua é bem distinto do interesse do linguista, para quem a língua é revestida de uma objetividade visando à ciê ncia, apontando, assim, que existem riscos quando se atrai a psicanálise para o neopositivismo, por exemplo. E le destaca, ainda, que F reud e L acan interromperam em algum ponto crucial seus notáveis esforços acadê micos de relacionar a psicanálise com a neurologia e a linguística, respectivamente.

Há algum tempo, pesquisas em neurologia pré e neonatal tê m despertado interesse na psicanálise ( B US NE L , 2002), especialmente aquelas que demonstraram as possibilidades de enlaces entre o bebê e o materno, através do desenvolvimento primitivo de capacidades sensoriais do feto, em especial, as auditivas. O mais sugestivo é que o bebê combine o imutável lugar primordial da formaçã o dos órgã os auditivos com o interesse pela voz humana, em especial, dos seus próximos. A lém disso, novos estudos constatam que o bebê reage à música com um grau de sensibilizaçã o de áreas corticais que só músicos profissionais parecem manter. A mesma aptidã o universal já conhecida para os fonemas há de se verificar para a música. Nas experiê ncias de B usnel (2002), há, ainda, um momento em que nã o é a voz da mã e que é tomada como estímulo, mas o ritmo cardíaco enquanto esta ouve música. T ais estudos tê m sido uma aposta para os psicanalistas que acreditam que isso representa um frutífero campo de pesquisa das ciê ncias, pelo qual se priorizam aspectos relacionais e significantes que a psicanálise já valorizava anteriormente. O desafio, entretanto, é que as relações com a psicolinguística nã o venham a ser de um apelo de prestígio para a psicanálise, tal como, em outro momento, tornou-se a farmacologia para a psiquiatria.

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A palavra é a fonte de sofrimento para o sujeito, pois ele sofre dos próprios limites da sua reconstruçã o narrativa, rememorativa, em dar conta do inominável. A contece algo interessante com a música, do ponto de vista da imersã o do sujeito no fenômeno musical, seja na escuta ou em sua fruiçã o: por seu poder além das palavras, ele revela que o traço nã o se traduz, apenas nomeia o real. A música permanece no horizonte como algo que as palavras também nã o alcançam. E la nã o precisa ser traduzida. E é por isso que, ao nã o precisar ser traduzida, ela nã o é fonte de sofrimento para o sujeito. D o contrário, ela faz do que é imemorável um motivo para comemorar ( D ID IE R -W E IL L , 1999). S eguindo essas considerações, concebemos que o sujeito pode, durante certo tempo em que a música perdurar, nã o pagar o preço neurótico de ter que se haver com as suas contradições – preço que todos pagam para advir na palavra.

O elemento musical, que também pode se apresentar na voz dos pais, na voz do analista ou no ritmo das sessões, pode se relacionar ao traço. Nã o porque lhe rememora, lhe retranscreve ou traduz, mas porque demonstra que podemos viver com esse incógnito e, dele mesmo, retirar um entusiasmo. Nesse âmbito, o musical é também uma conquista que passa pela simbolizaçã o da voz, ou seja, pelas suas possibilidades representativas; todavia, nele resiste uma insistê ncia repetitiva nã o rememorativa, de um estado originário em que o humano desafia sua condiçã o informe, de onde ele emerge pela pura voz – o grito.

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3 D O G R I T O A O R I T M O : A O R I G E M D O E U -PR A Z E R

“Yeaaaaaah! ” ( Grito de 13 segundos de B ruce D ickinson na música T he Number of the B east, 1982)

Nos anos que se seguiram ao seu trabalho na clínica de K assowitz, primeiro serviço público de V iena para tratamento de doenças infantis (R OUD INE S C O, 2016), F reud produziu importantes obras sobre a constituiçã o psíquica, com inspiraçã o neurológica e clínica. A lém de diversos ensaios, artigos, verbetes para enciclopédia, surgiu o já abordado estudo crítico sobre as afasias, em 1891, que trouxe o aparelho de linguagem, ou, conforme designamos, o aparelho-poema. Mas, apesar da manutençã o de um viés neurológico, no ano de 1895, quando F reud escreve e guarda para si o Projeto para uma psicologia científica, aprofunda a importância da relaçã o com o outro, o semelhante, para repensar os limites do psíquico.

O texto do Projeto (F R E UD [ 1895] 1996) que, a princípio, pareceu apenas uma fábula neurológica, hoje é cada vez mais considerado antecipatório da compreensã o da estrutura relacional que se impõe pelos cuidados parentais e que interferem de forma decisiva nos rumos da constituiçã o epigenética e psíquica. Se o aparelho neurônico apresentado no Projeto (F R E UD [ 1895]1996) é apegado fortemente, por um lado, ao que ocorre no plano das associações físico-anatômicas, acaba, por outro, por denotar a funçã o essencial do que ocorre no nível das experiê ncias com o semelhante. A lém disso, se havíamos considerado a linguagem como crucial para F reud já nos estudos sobre as afasias (F R E UD , [ 1891] 2013), agora, introduziremos sua relevância com suporte na funçã o invocante. A ssim, no presente capítulo, apresentaremos um percurso constituinte que parte do grito, que, ao ser recebido pelo próximo acolhedor, desprende-se da mera reaçã o a uma necessidade, para introduzir o bebê na dinâmica das relações inter-humanas. E ssa dinâmica se mostrará portadora de um poder relacionado ao ritmo com que se operam seus encontros e desencontros, capaz de introduzir o pequeno na tarefa de construir uma memória, logo, seu psiquismo. A constituiçã o do eu-prazer

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como uma primeira organizaçã o psíquica deve se insurgir a partir das garantias que o próximo lhe fornece, para entã o, transformar o seu grito visceral, a pura voz, nos primeiros passos para conquistar a linguagem. Ou seja, conquistar a sua subjetivaçã o pela invocaçã o.

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Referências

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