Iberoamericana, XV, 60 (2015), 175-179
pós-conflito na Colômbia
Mariana Carpes
Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (IREL-UnB)
Introdução
O presente artigo analisa qual papel o Brasil poderia desempenhar no período pós-conflito na Colômbia, argumentado que o conhecimento acumulado pelo país na superação de desafios sócio-econômicos coloca-o quase que naturalmente na posi- ção de país-modelo para o vizinho andino.
O artigo apresenta um breve histórico do conflito armado colombiano e o atual esta- do das negociações de paz entre o gover- no e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) que se realizam em Havana, Cuba, observando que, apesar de este ser um conflito doméstico, suas reper- cussões são transnacionais envolvendo di- reta ou indiretamente os países de fronteira:
Brasil, Equador, Peru e Venezuela.
Dado o caráter transnacional dos efei- tos do conflito, é de se compreender e es- perar que sobretudo os países de fronteira mobilizem-se da forma como for possível, para buscar soluções para o tema. Nessa linha de argumentação, o Brasil destaca-se como a exceção a regra. De fato, as rela- ções Brasil-Colômbia tem sido pautadas pela distância. Aspectos históricos, cultu- rais e geográficos poderiam explicar par- cialmente essa distância. Ainda, o perfil da política externa brasileira orientada pelo princípio da não-ingerência também pode ser creditado como parcialmente responsá- vel pela baixa intensidade que tem marcado as relações entre os vizinhos.
Nos últimos anos, entretanto, Brasil e Colômbia têm se aproximado, ainda que o tema do conflito armado não tenha sido
cio. De acordo com dados divulgados pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE), entre 2009 e 2014 houve um incremento de 73% no comércio bilateral, tendo a corrente de comércio entre os dois países superado US$ 4 bilhões em 2014. Outros temas como ciência e tecnologia, segurança alimentar e agricultura familiar têm progressivamente entrado na agenda bilateral demonstrando o potencial de cooperação entre Brasil e Colômbia.
Para além desses temas, o artigo pon- dera que a vasta experiência brasileira na superação de desafios sócio-econômicos dão ao Brasil a possibilidade de atuar como modelo, assistindo a Colômbia no período pós-conflito em que o país precisará reorga- nizar sua estrutura sócio-econômica a fim de reintegrar os ex-guerrilheiros desmobiliza- dos. Ainda, o artigo considera que tal assis- tência vai ao encontro do interesse nacional brasileiro pela América do Sul, assim como reforça o seu compromisso com o desenvol- vimento sócio-econômico da região.
Breve histórico do confito armado colombiano e a situação atual das nego- ciações de paz
O conflito armado na Colômbia remon- ta à década de 1960 e foi inicialmente mo- tivado pela questão agrária. No seu início, o conflito envolvia o governo e os grupos guerrilheiros FARC e o Exército de Liber- tação Nacional (ELN). Na década de 1980, o conflito interno assumiu nova feição ao vincular-se progressivamente ao narcotrá- fico que se instaurara na Colômbia nessa década. Ainda que os grandes cartéis da droga tenham sido derrotados na década de 1990, a relação da guerrilha com o nar- cotráfico manteve-se, sendo o cultivo, pro- dução e venda de drogas uma importante fonte de financiamento da guerrilha desde
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então. Ainda na década de 1990, um novo ator somou-se ao conflito: os grupos para- militares criados com a anuência do Estado para combater a guerrilha. Os principais grupos paramilitares, sobretudo as Autode- fesas Unidas da Colômbia (AUC), foram desmilitarizados durante o governo Álvaro Uribe (2002-2006 e 2007-2010) num longo processo de paz que, todavia, não foi ca- paz de extinguir o fenômeno do paramili- tarismo no país. Desde a desmilitarização das AUC, novos grupos paramilitares se formaram, muitas vezes sob o comando de ex-lideranças daquela organização.
A partir dos anos 2000, o conflito arma- do e a guerra contra as drogas na Colôm- bia ganharam mais um ator: os EUA que se tornaram o principal financiador exter- no do Estado através do Plano Colômbia.
Importante ressaltar que com a chegada do presidente Uribe ao poder em meio às repercussões internacionais dos atentados às Torres Gêmeas em Nova Iorque, EUA, a narrativa oficial construída em torno da situação interna da Colômbia mudou: de conflito armado, a situação passou a ser tratada como uma guerra contra a narco- guerrilha, definida como grupo terrorista.
A resposta do governo Uribe a esse novo contexto foi a militarização como forma de combate à guerrilha.
A ruptura com a lógica militarista para o alcance da paz na Colômbia ocorre com a eleição do atual presidente Francisco San- tos (2010-2014 e 2014 até o momento). As atuais negociações de paz entre o governo colombiano e as FARC tiveram início oficial em agosto de 2012 e possui como países ga- rantidores Chile, Cuba, Noruega, e Venezue- la. Em que pesem os inúmeros reveses nos compromissos assumidos pelas partes em negociação desde que os diálogos tiveram início, o esforço, tanto do governo quanto das FARC em retornar à mesa de diálogo evidencia o mútuo interesse em encontrar uma solução negociada para o conflito.
Se um acordo de paz for alcançado em Havana, não só a Colômbia mas toda a América do Sul adentrará a fase pós-con- flito e precisará pensar em soluções para os potenciais problemas e desafios que virão:
regresso da população refugiada, instabi- lidade na fronteira amazônica, aumento no tráfico de drogas e de armas. O Brasil, como potência regional precisa criar canais de aproximação com a Colômbia e ocupar- se do tema não só como um problema de fronteira mas em toda a sua complexidade.
Relações Brasil-Colômbia: de “vizinhos distantes” a “países amigos”
De fato, ainda que Brasil e Colômbia dividam parte dos efeitos do conflito arma- do, a história das relações bilaterais entre esses vizinhos demonstra mais distancia- mento do que aproximação. Aspectos geo- gráficos, culturais e históricos ajudaram a definir as relações Brasil-Colômbia como sendo a de “vizinhos distantes”. Notada- mente, o distanciamento entre eles reper- cutiu na não participação direta do Brasil como país mediador ou garantidor nos pro- cessos de paz entre o governo colombiano e a guerrilha neste século, apesar de algum interesse ter sido demonstrado pelo Brasil nesse sentido.
Ainda durante o governo Andrés Pas- trana na Colômbia (1998-2002), o então mandatário do Brasil, Fernando Henrique Cardoso (1995-1998 e 1999-2003), colo- cou-se à disposição para mediar os tentati- vos acordos de paz daquele período. Pos- teriormente, com a ascensão de Uribe, o ainda presidente Cardoso apressou-se em reforçar a disposição brasileira em cola- borar ativamente nas negociações de paz, sendo essa postura continuada por Luis Inácio Lula da Silva (2003-2006 e 2007- 2010) após a sua posse. Em nenhuma des- sas ocasiões o Brasil foi escolhido como
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mediador ou garantidor pela Colômbia.
O exato motivo de cada recusa colombia- na mereceria um estudo aprofundado de documentos primários e entrevistas que excede o escopo do presente artigo. Vale por hora observar, todavia, que a recusa colombiana em aceitar a assistência bra- sileira ilustra a distância entre vizinhos que, apesar de dividirem o ônus do confli- to armado em suas fronteiras, não se per- ceberam como parceiros diretos na busca de soluções para o problema até então. A assimetria de poder que beneficia o Bra- sil, bem como as diferenças ideológicas, sobretudo durante os governos Uribe e Lula contribuiram em larga medida para o aprofundamento dessa distância. Assim, ao longo desse início de século as relações Brasil-Colômbia mantiveram-se no nível técnico, abarcando temas comerciais, de ciência e tecnologia e educação.
Nos últimos anos, contudo, tem-se ob- servado uma mudança progressiva e quali- tativa nas relações Brasil-Colômbia. Como já foi mencionado, a ascensão do presiden- te Santos na Colômbia marcou uma ruptura no manejo dos processos de paz em relação às linhas adotadas até aquele momento pelo ex-presidente Uribe. Santos, apesar de ter sido eleito sob o signo da continuidade em relação a seu antecessor (do qual foi vice- presidente), afastou-se progressivamente da linha militarista de Uribe ao retornar à mesa de negociações de paz com a guerri- lha. A opção por uma via negociada para a paz reconcilia, do ponto de vista discursi- vo, as diplomacias de Brasil e Colômbia.
Isso porque a negociação é parte constituti- va da tradição diplomática brasileira desde o início da República. Assim, ainda que o Brasil não tenha participado ativamen- te nos diálogos iniciados em Havana em 2012, a reaproximação discursiva entre os dois vizinhos amazônicos pode ter desdo- bramentos positivos concretos para o perío- do pós-conflito na Colômbia.
Caso as atuais negociações de paz ren- dam um acordo entre governo e guerrilha e a consequente desmobilização desta, a Colômbia entrará numa fase de novos e difíceis desafios: reincorporar ex-comba- tentes (inclusive crianças), reestruturar o campo - atendendo, assim, às necessidades da população rural e deslocada pelo confli- to - além de trazer justiça e reparação para as vítimas. É nesse contexto que um even- tual aprofundamento das relações Brasil- Colômbia poderia se dar, já que o Brasil possui suficiente experiência no combate a desafios de natureza sócio-econômica.
O interesse do Brasil em ser um modelo para o vizinho
Para além dos reflexos concretos do con- flito armado colombiano na fronteira, por que o Brasil teria interesse em desempenhar qualquer papel na restruturação da Colôm- bia pós-conflito? Ou seja, como a questão colombiana se insere no interesse nacional do Brasil? Grosso modo a América do Sul é o entorno estratégico do Brasil, tendo esse país historicamente demonstrado interesse pela região. Do ponto de vista teórico, dir- se-ia que, sobretudo, a América do Sul é o espaço imediato de projeção de poder do Brasil já que a habilidade de um país em projetar poder declina com a distância geo- gráfica. Essa relação se materializa, por um lado, na profunda e assimétrica interdepen- dência econômica dos vizinhos com o Brasil e, por outro, no esforço diplomático brasi- leiro em se apresentar como o representante da América do Sul na política internacional.
Concretamente, a Carta Constitucional Brasileira de 1988 expressa essa relação do Brasil com seu entorno regional. No docu- mento, o Brasil compromete-se em promo- ver o desenvolvimento sócio-econômico da região de modo amplo – incluindo não ape- nas a América do Sul, mas toda a América
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Latina. Seguindo esse argumento, em almo- ço com Embaixadores do Grupo de Países Latino-Americanos e do Caribe (GRULAC) no dia 25 de abril de 2015, o chanceler bra- sileiro Mauro Vieira observou que não há nada mais imediato para o interesse nacio- nal do Brasil em política externa do que seu entorno regional e que a América Latina e o Caribe são e continuarão sendo a prioridade da política externa brasileira. Finalmente, numa perspectiva pragmática, o desenvol- vimento econômico dos países vizinhos e sua consequente estabilidade política são de interesse do Brasil, pois significam aumen- to da segurança em sua extensa fronteira. É nesse sentido, que a assistência aos vizinhos e a cooperação com os mesmos insere-se no interesse nacional do Brasil.
Temas da agenda bilateral e as possibili- dades para os próximos anos
No contexto de reaproximação pro- gressiva, os temas examinados por Brasil e Colômbia envolvem o comércio bilateral, investimentos, ciência e tecnologia, coope- ração fronteiriça, segurança alimentar; bem como tópicos da agenda de integração la- tino-americana, como a aproximação entre o MERCOSUL e a Aliança do Pacífico e a atuação da UNASUL e da CELAC, além do processo de paz na Colômbia.
Dois temas são destaques promissores da agenda bilateral: cooperação em temas relacionados a ciência, tecnologia e inova- ção (CTI) e temas relacionados à terra e em especial à segurança alimentar, que simul- taneamente fortalece a agricultura familiar.
No que se refere à cooperação em CTI, em novembro de 2014 os dois países assi- naram no Palácio do Itamaraty em Brasília uma agenda de trabalho para avançar na cooperação bilateral. Entre os temas defi- nidos para a agenda a ser implementada no biênio 2015-2016 estão o aproveitamento
sustentável da biodiversidade amazônica, a energia renovável (biocombustíveis e biorrefinarias) e a cooperação geoespacial.
Além disso, compõe a agenda as ações pela mobilidade acadêmica e a formação de pes- soal de nível superior. Na ocasião da assi- natura do compromisso, o secretário de De- senvolvimento Tecnológico e Inovação do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inova- ção do Brasil Armando Milioni, observou que o Brasil tem tradição de cooperação na área de ciência, tecnologia e inovação com outros países da América do Sul e que, portanto, o que se espera da cooperação as- sinada com a Colômbia é a criação de uma nova tradição de parceria.
Já o tema da terra foi destaque no en- contro entre os chanceleres Mauro Vieira, do Brasil; e María Ángela Holguín, da Co- lômbia, por ocasião da visita do chanceler brasileiro à Colômbia em abril de 2015.
No evento, a chanceler colombiana desta- cou o interesse de seu país em aprimorar os já existentes projetos colombianos de estímulo à agricultura familiar a partir da experiência brasileira “Programa de Aqui- sição de Alimentos (PAA)”. O PAA tem por objetivo assegurar o acesso aos alimentos às populações em situação de insegurança alimentar e nutricional, tais como as po- pulações atendidas por programas sociais, quilombolas, indígenas, acampados da re- forma agrária e atingidos por barragens.
Simultaneamente o PAA promove a inclu- são social no campo por meio do fortale- cimento da agricultura familiar, já que os produtos distribuídos são comprados pelo governo direto do produtor familiar e dis- tribuídos diretamente aos que necessitam.
Conclusão
O presente artigo debateu as relações entre Brasil e Colômbia observando seu caráter até então distante. A atual fase a
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qual a Colômbia atravessa representa uma oportunidade para que Brasília e Bogotá aprofundem a amizade entre as nações e avancem suas relações para além do nível técnico. O artigo argumenta que o ônus do conflito armado colombiano é transnacio- nal assim como o serão as dificuldades na etapa pós-conflito. Ainda, dado o interesse brasileiro pela América do Sul, considerada seu entorno estratégico, o Brasil não pode se furtar de assumir um papel pró-ativo e de maior engajamento com o vizinho an- dino. É nesse contexto que as experiências brasileiras de luta contra mazelas sócio- econômicas colocam o Brasil quase que naturalmente como um país-modelo para a Colômbia.
O Brasil tem expertise em programas de erradicação da fome e redução da mi- séria (Fome Zero), facilitação de crédito para a aquisição de moradia popular (Mi- nha Casa, Minha Vida), empoderamento da mulher como responsável financeira no seio familiar (Bolsa Família), progra- mas para a reestruturação do campo com base na agricultura familiar (Programa de Aquisição de Alimentos), além de progra- ma para levar saúde às populações que vi- vem em regiões mais remotas do país (Mais Médicos). Cada uma dessas experiências de sucesso no Brasil vão ao encontro de desafios que a Colômbia enfrentará após a desmobilização da guerrilha e poderiam ser incorporadas pela Colômbia no período pós-conflito. Nesse cenário, o Brasil assu- miria uma posição de país-modelo e a Co- lômbia se apropriaria das experiências bra- sileiras, inclusive aprendendo e evitando os erros ou dificuldades que o Brasil enfrentou pelo pioneirismo.