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Quando o Coração Manda

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Academic year: 2022

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Quando o Coração Manda

Ana Vera Lemos

Num instante o céu se tornou mais escuro e a chuva cai... Generosamente, provocando um corre-corre entre os alunos de diversas escolas da região, em visita a um sitio arqueológico descoberto nas proximidades do Rio Paranapanema, a poucos quilômetros da divisa com o Estado do Paraná.

Celina se encontrava perto de sua barraca. Caminhou para ela lentamente, medindo cada passo com o rosto levantado para o céu sorvendo a chuva.

Ao chegar a sua barraca, entrou, fechando o zíper da porta. Estava totalmente ensopada e antes de qualquer coisa ficou de braços cruzados sentindo o frio, penetrar em seu corpo. Depois, rapidamente, acendeu seu lampião o sentou-se sobre a pequena cama de campanha, que a recebeu rangendo as molas. A barraca estava razoavelmente mobiliada. Dispunha de uma pequena mesa desmontável, uma cadeira, um fogão pequeno e a cama.

Assim que aprontou a refeição, sentou-se à mesa e comeu com apetite. Ao final, atirou os pratos de papelão no balde de lixo e estendendo o braço para fora pela porta, lavou os talheres o a frigideira, aproveitando a água da chuva. Anoitecera rapidamente.

Tentou ligar o radio, mas a estática era demais, prejudicando as transmissões. De longe vinha o barulho incessante dos trovões. Celina foi pouco a pouco fechando os olhos, até adormecer. Não soube por quanto tempo permaneceu adormecida, mas acordou repentinamente, sentindo-se observada. Ainda um tanto abobalhada, pelo sono, divisou na porta da barraca uma figura toda ensopada e trêmula. Não sabia se vivia um sonho ou se entrava num pesadelo!

Digitalização: Rosana Gomes Revisão: Cassia

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Capítulo 1

SURPRESA NA CHUVA

Celina participa de uma excursão cultural. Uma chuva inesperada isola-a em sua barraca. Do meio da chuva, surge a figura enigmática de Mário. Tudo é uma farsa da parte dele. De repente, a tragédia a surpreende no meio da noite.

A princípio foram apenas algumas gotas tamborilando sobre a lona das barracas, farfalhando levemente as folhas das árvores, pontilhando a superfície do lago perto do acampamento, trazendo às narinas um cheiro agreste de terra molhada. Depois, num instante, o céu se tornou mais escuro e a chuva caiu generosamente, provocando um corre- corre entre os alunos de diversas escolas da região, em visita a um sitio arqueológico, descoberto nas proximidades do Rio Paranapanema, a poucos quilômetros da divisa com o Estado do Paraná. Entre eles, alunos do último ano de um colégio de ensino médio se misturavam naquela correria, todos em busca de proteção. Alguns chegaram rapidamente a suas barracas. Outros buscaram abrigo sob a copa fechada do arvoredo que circundava o local. Outros simplesmente ficaram sob a chuva, saboreando a deliciosa sensação de sentir as gotas escorrendo pelo rosto, molhando os cabelos, ensopando o corpo.

Celina se encontrava perto de sua barraca. Caminhou para ela lentamente, medindo cada passo com rosto levantado para o céu, sorvendo a chuva. Ao chegar a sua barraca, entrou, fechando o zíper da porta. Estava totalmente ensopada e antes de fazer qualquer coisa ficou de braços cruzados, sentindo o frio, penetrar em seu corpo. Depois, rapidamente, acendeu seu lampião e sentou-se na pequena cama de campanha, que a recebeu rangendo as molas.

A barraca estava razoavelmente mobiliada. Dispunha de uma pequena mesa desmontável, uma cadeira, um fogão pequeno e a cama. Poderia abrigar facilmente quatro pessoas, de sorte que a gaiola dispunha de bastante espaço. Seu olhar vagou desconsolado pela barraca. Interiormente ela praguejava contra a chuva repentina que punha por terra todos os planos de D. Irene, professora e chefe da excursão. Pretendiam vasculhar todo o local, pois esperavam encontrar elementos valiosos para o museu do colégio Prova disso eram os restos de cerâmica e uma pequena machadinha de pedra polida, resultado das escavações dos últimos dias.

Sorriu puxando ligeiramente o canto da boca. Sentiu fome e, já aquecida, resolveu preparar alguma coisa. Antes que o fizesse, porém, o zíper da porta desceu ao rosto severo, mas bondoso de D. Irene que surgiu protegida pelo gorro da capa de chuva.

— Indo bem aqui? — a indagou, vasculhando a barraca com os olhos sempre atentos e observadores.

— Sim, D. Irene. Não quer entrar?

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— Não, estou preocupada com as outras meninas, vendo se elas estão bem. Vou ver as outras barracas também.

— Não se preocupe comigo. Estou ótima.

— Vejo que já tirou a roupa molhada.

— Sim, fiquei com frio. Estava ensopada.

— Boa menina! Quer que eu mande uma das outras garotas fazer-lhe companhia? Na barraca da Maria são três...

— Não, obrigada, D. Irene. Estou bem. Prefiro ficar só. Gosto de ler até tarde e não quero incomodar nenhuma companheira dorminhoca. Desculpe-me!

— Eu entendo querida. Você tem comida aí?

— Sim, tenho. Aliás, estava justamente indo preparar alguma coisa para comer. Toda essa correria me deixou faminta.

— Ótimo. Hoje não será possível um jantar coletivo. É uma pena, pois algumas garotas haviam preparado um pequeno show.

— Haverá outras oportunidades.

— Sim, espero que sim. Tenho que ir. Tudo bem com você?

— Sim, não se preocupe. Ficarei bem.

— Até logo, então — despediu-se a professora, fechando de novo o zíper da porta e afastando-se na chuva.

A garota ajeitou o roupão ao redor do corpo e foi até o fogão. Examinou a cesta de mantimentos. Resolveu fritar ovos e esquentar um pouco de arroz temperado que sobrara do almoço. Assim que aprontou a refeição, sentou-se à mesa e comeu com apetite. Ao final, atirou os pratos de papelão no balde de lixo e, estendendo o braço para fora, pela porta, lavou os talheres e a frigideira, aproveitando a água da chuva.

Anoitecera rapidamente. Olhando para fora, podia divisar o contorno das árvores e perceber o ruído das gotas caindo sobre o lago. Havia luzes e música nas outras barracas.

Sombras se movimentavam dentro delas. Voltou para a cama e estendeu-se preguiçosamente, puxando o cobertor sobre as pernas. De sob o travesseiro retirou um livro de contos de Dalton Trevisan, o vampiro de Curitiba. Tentou ligar o rádio, mas a estática era demais, prejudicando as transmissões. De longe vinha o barulho incessante dos trovões. Mergulhada na leitura, embalada pelo gotejar monótono, mas vigoroso, da chuva sobre a lona da barraca, Celina foi pouco a pouco fechando os olhos, até adormecer.

Não soube por quanto tempo permaneceu adormecida, mas despertou repentinamente, sentindo-se observada. Ainda um tanto abobalhada pelo sono, divisou á porta da barraca uma figura toda ensopada e trêmula.

— Quem é você? — conseguiu balbuciar, assim que readquiriu o domínio de si própria, superando o medo e a surpresa.

— Eu... Eu... — tentava dizer a figura ainda indefinida, batendo o queixo de frio, com os braços apertados contra o corpo.

— Quem é você? — insistiu ela. — Vamos, fale ou eu grito.

— Não, por favor, não precisa gritar — suplicou a figura, aproximando-se dela cambaleante.

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4 Instintivamente Celina se encolheu toda, mas, ao ver o rosto incrivelmente belo daquele rapaz, o grito morreu-lhe na garganta.

— Perdoe-me entrar aqui assim — desculpou-se o rapaz, esfregando as mãos contra o corpo, procurando se aquecer.

— Quem é você? — perguntou ela de novo, já mais calma, gozando a tranquilidade que aquele rosto transmitia, inundando-a de calma e calor e subjugando-a com um inesperado fascínio.

— Meu nome é Mário. Eu estava pescando rio abaixo, quando a chuva me apanhou e eu me perdi. Escureceu muito rápido. Vi luzes por aqui, mas não consegui encontrar minha barraca. Vi claridade e entrei, em busca de ajuda. Não pretendo incomodar.

Gostaria apenas de me aquecer um pouco.

— Você está todo molhado — disse ela, comovida.

— Você me empresta uma toalha? — pediu ele.

A garota deitou-se de lado na cama e colocou o braço debaixo do móvel, puxando a mala que ali se encontrava. Abriu-a e retirou uma toalha grande, atirando-a ao rapaz.

— Obrigado — agradeceu ele.

— Mesmo que você se enxugue se ficar com essa roupa vai dar na mesma — ponderou-a.

Em resposta ele sorriu constrangido, olhando embaraçado para suas roupas e para a garota.

— Eu tenho um roupão de banho extra comigo. Se você quiser, poderá tirar essa roupa, torcê-la e deixá-la enxugando.

O rapaz pareceu mais constrangido ainda.

— Eu olho para outro lado enquanto você muda a roupa — falou ela, sorrindo marotamente, divertida com o embaraço do rapaz.

Ele aceitou a oferta e mudou a roupa, enquanto ela cobria a cabeça com o cobertor.

— Pronto — disse ele, ao terminar.

Quando Celina se descobriu e olhou-o, ele esfregava vigorosamente a toalha nos cabelos, enxugando-os.

— Acho bom torcer a roupa.

— Sim, vou fazer isso — concordou o rapaz.

Lá fora ainda chovia torrencialmente e o barulho dos trovões era maior, quase assustador.

Em Marília, a alguns quilômetros dali, a chuva caía da mesma maneira e com a mesma intensidade. André fumava calmamente, enquanto dirigia seu carro. Pensava em Celina, em seu corpo jovem e tentador, em sua boca pequena e ávida de beijos, em seu sorriso maroto, em seu narizinho arrebitado, em seus cabelos curtos e loiros, naqueles olhos azuis cheios de mistérios e verdades, naquela saudade que doía dentro dele. Após manobrar o carro, entrou por um portão de uma das muitas residências em um bairro nobre. A garagem era ampla e espaçosa. Ele acomodou seu carro sem problemas, estacionando-o ao lado de um luxuoso carro alemão importado. Antes que descesse, um rosto de criança surgiu à porta, no fundo da garagem, iluminado pelos faróis. Zezé, a pequena e irrequieta irmã de Celina, ao vê-lo, correu

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5 ao seu encontro e atirou-se em seus braços, tão logo ele abriu a porta do carro.

— Casa comigo, André! — pediu ela sorrindo, enquanto o beijava com estardalhaço.

— Calma aí, garota, quantos anos têm? — perguntou ele, sério.

— Tenho oito — respondeu ela, afastando o rosto para olhá-lo.

— Tudo isso?

— Não parece, não é? Estou muito conservada.

— Você é uma garota muito enxuta, Zezé — comentou, beijando-a carinhosamente no rosto e depositando-a de volta ao chão.

— Já estava com saudades de você — disse a garota, tomando sua mão e caminhando junto dele.

Passaram por um pequeno corredor que ligava a garagem à entrada da casa. Um homem de meia-idade os esperava sorridentes.

— Olá, André — ele cumprimentou o rapaz, estendo-lhe a mão.

— Tudo bem, seu Ernesto?

— Ótimo, mas vamos entrar. Está um pouco frio aqui.

— Chuvinha inesperada, não? — comentou o rapaz.

— Pegou todo mundo de jeito — concordou o homem, passando o braço ao redor do rapaz.

Entraram numa sala luxuosamente decorada. Uma mulher ainda jovem se levantou e foi ao encontro de ambos, cumprimentando André alegremente.

— Olá, André. Como tem passado?

—Tudo bem — respondeu ele, retribuindo o aperto de mão.

— Férias?

— Estou aproveitando os feriados da Semana da Pátria para descansar um pouco.

— Como vai aos estudos? — indagou Zezé, intrometendo-se.

— Vou muito bem, e você?

— Ah, vou bem — respondeu a garotinha, enfiando as mãos no bolso do macacão que vestia e balançando os ombros, cabisbaixa.

— Verdade, mesmo? — insistiu o rapaz.

— Verdade — confirmou-a, ainda de cabeça baixa.

— Se não estudar direitinho, não deixo você ser minha assistente — afirmou ele, abaixando-se e segurando-a pelos ombros.

— Você vai ser construtor de prédios mesmo? — a indagou.

— Mas ou menos isso. Vou ser engenheiro.

— Não é a mesma coisa?

— Não, não é — disse ele, levantando-se e olhando para os lados. — E Celina, onde está ela?

— Ela saiu em uma excursão — informou a mãe da garota.

— Excursão? Que excursão?

— Venha vamos sentar, eu lhe explico — convidou o dono da casa.

— Você acha que o Mário vai conseguir? — indagou um dos rapazes, acendendo um cigarro.

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— Tenho certeza que sim. Aquele é um tremendo cara de pau — respondeu seu colega, aproveitando a chama do fósforo para acender seu cigarro também.

Tino e Carlos eram amigos de Mário. Os três ocupavam uma barraca num acampamento um pouco distante de onde se encontravam as das garotas do colégio.

— Aquele narizinho arrebitado não me pareceu ser tão ingênua a ponto de se deixar levar por um cara como o Mário.

— Você conhece o Mário. Tem pinta, conversa bem...

— Ás vezes só isso não basta — ponderou Tino.

— No caso dele é mais do que suficiente.

— Eu duvido. Não dou cinco minutos e ele estará de volta aqui.

— Quer fazer uma aposta?

— Aposto minha mochila americana contra sua fivela country.

— Feito! — concordou o amigo, sem pestanejar. Fumaram por mais algum tempo em silêncio.

Pela barraca se espalhavam peças de roupa, misturadas a revistas em quadrinhos e algumas pedras de formato interessante.

— Será que não vai dar outro galho? — perguntou Tino, após uma longa tragada em seu cigarro.

— Galho por quê?

— E se a menina põe a boca no mundo quando ele aparecer?

— Até agora não ouvi nenhum grito.

— A chuva poderia ter encoberto.

— Não acho — disse o outro se levantando e caminhando até a porta da barraca.

Olhou a escuridão lá fora, em busca de algum indício que mostrasse que algo dera errado, mas não havia uma viva alma lá fora.

— Percebe movimento? — indagou Tino, aproximando-se.

— Não, até agora nada. Ele deve ter conseguido.

— Aquele sujeito é fora de série mesmo.

— Não tem problema. Ele vai conseguir fácil, fácil. Amanhã a gente vai ter que aturá- lo contando vantagem.

— Há outras garotas e outras barracas...

— Que nada, rapaz. Poderíamos ir pedir um pouco de açúcar emprestado, o que há de mal nisso?

— Acha que dará certo?

— E por que não? Olha, naquela barraca perto de onde fica a fogueira à noite, do outro lado do lago, dormem duas garotas. A gente podia ir lá, o que acha?

— E se não der certo?

— A gente vai dormir molhado, e arrependido só isso.

— Concordo. Vamos lá. Açúcar emprestado, não é?

— Vejo que esteve lendo contos de Dalton Trevisan. Gosta desse autor? — indagou Mário.

— Gosto, ele é muito original em sua forma de narrar. O que você estuda. — indagou Celina.

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— Estudo no colegial e faço cursinho.

— Vieram pesquisar o sítio arqueológico também?

— Sim, mas hoje eu tirei á tarde para pescar. Estava cansado de tudo isso já e não via muita vantagem em ficar cavando.

— Não está com fome? — perguntou ela.

— Fome? Sim, realmente estou com fome.

— Posso lhe oferecer alguma coisa para comer?

— Ficaria muito agradecido.

— Eu vou preparar — prontificou-se ela. Enquanto a garota se ajoelhava perto do fogão.

Mário observou-a, sorrindo cinicamente. Tudo estava correndo de acordo com seus planos. Antes que a noite terminasse, Celina estaria caidinha por ele. Tomada de repentino entusiasmo, Celina estendeu a toalha sobre a mesa, arrumou um prato e serviu a pequena refeição que o rapaz devorou rapidamente.

— Tenho refrigerante de sobra. Aceita? — ofereceu a garota.

— Não, obrigado. Aceitaria um café se você tivesse.

— Naquela garrafa térmica perto do fogão — apontou ela.

O rapaz serviu-se e com a xícara à mão apanhou suas roupas e revirou os bolsos, retirando um maço de cigarros totalmente encharcado e amassado.

— Se você quiser fumar, eu tenho cigarros — ofereceu prontamente a garota.

Enquanto ela apanhava o cigarro em sua bolsa, Mário sorriu cinicamente mais uma vez. Em nenhum momento o arrependimento passou por sua cabeça. Concebera um plano e dispunha-se a concretizá-lo. Sentia-se senhor absoluto da situação.

Revirando sua bolsa em busca de seu maço de cigarros, Celina sentia-se deliciosamente excitada pela inusitada situação em que se vira envolvida. Sozinha, num acampamento, chovendo torrencialmente lá fora e ela á sós com um jovem, tinha tudo para viver uma aventura inesquecível. De repente, porém, seus pensamentos voaram para a figura de André, seu antigo namorado, fazendo-a descompor-se, apagando-lhe o sorriso no canto dos lábios.

— Aqui está. Tome — disse, passando-lhe o maço de cigarros.

— Obrigado — agradeceu ele.

Seus dedos se roçaram. A mão dele estava fria.

— E o café? — a indagou, voltando a sentar-se na cama.

— Frio, para ser sincero.

— Frio? Então vou fazer outro, espere um pouco — pediu ela, enquanto derramava água de seu cantil em um pequeno bule e o punha no fogo. — Num instante vai ficar pronto. Sente-se, por favor!

— Você é muito gentil — observou ele, sorrindo. Lá fora a chuva perdera o ímpeto inicial, tamborilando monotonamente sobre a barraca. Um vento frio balançava as folhas das árvores e encrespava as águas do lago. Celina acendeu um cigarro e jogou a fumaça para o alto, observando-a pensativa.

— O que achou da ideia desta excursão? -indagou.

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— Gosto muito dessas coisas. Apenas acho que deveríamos ter feito isso de modo mais organizado, com técnicas apropriadas.

— Concordo com você. Se localizarmos um cemitério por aqui, aí então teremos que tomar todas as precauções senão todo o trabalho será perdido. Os indígenas levavam muita coisa em conta ao escolherem um local para cemitério.

Seus olhos percorreram gulosamente as pernas de Celina à mostra, após ela ter cruzado as pernas.

— Você é muito bonita — comentou-o, após realizar um exame com os olhos.

O coração da garota disparou, sua mão tremeu ligeiramente e um sorriso sem graça brotou-lhe nos lábios. Um calafrio percorreu-lhe a espinha, advertindo-a do perigo.

— Como é mesmo o seu nome? — perguntou ele, sorrindo da insegurança demonstrada pela garota.

— Celina Monteiro — respondeu ela, tentando imprimir segurança a sua voz, que tremeu, no entanto.

— Lindo nome, Celina. Você é de onde?

— Sou de Marília, e você?

— Sou de Assis.

— Assis? Pensei que apenas escolas de Marília estivessem nesse empreendimento.

— Enganou-se. Nossa escola também resolveu participar. Quando souberam da existência de um sitio arqueológico, nossos professores ficaram interessadíssimos.

Celina sentiu-se angustiada. Revirou a cabeça em busca de outro assunto que pudesse distraí-la, mas nada a acudiu. A sensação deliciosa que tivera, no inicio era substituída gradativamente por um estado de alerta. Agira inconsequentemente permitindo que ele ficasse. Poderia tê-lo mandado à barraca de alguns dos outros rapazes da excursão, mas não o fizera. Não conseguia encontrar o motivo por que não fizera isso.

Talvez aquele rosto a tivesse cativado demais, mesmo havendo algo de falso e mentiroso naquelas faces coradas.

Mário, por seu lado, repreendia-se interiormente por ter se precipitado. A ocasião não fora propícia e a reação de Celina mostrara-lhe que deveria ter um pouco mais de tato.

Suas roupas demorariam em secar. Encontrava-se à vontade, não precisava se preocupar. A rede estava armada e Celina não fugiria. Sorriu descontraído.

— Desculpe-me se fui ousado — falou ele, dando um falso acento de timidez na voz, convincente o bastante para tranquiliza-la.

Celina não soube o que responder, mas encarou-o.

— Sabe, sinto-me constrangido com tudo isso. A amolação que estou lhe causando;

não sei como agradecer.

— Não se preocupe — respondeu ela, sentindo aliviar um pouco a tensão, pondo-se mais à vontade. — Essas coisas acontecem.

— Mas a verdade persiste — disse ele, enigmático. — Você é muito bonita mesmo! — acrescentou ele, levantando-se.

— Obrigada! — agradeceu ela, titubeante.

Não lhe agradava a maneira como ele se aproximava. Ao tentar passar para dirigir-se ao fogão, ele segurou-a pelo braço.

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— Você é realmente linda — sussurrou ele.

— Por favor! — pediu ela, em voz baixa.

— Deixe-me agradecê-la por tudo — pediu ele, colocando suas mãos nos ombros dela.

— O que pretende fazer?

— Beijá-la, posso? Só um beijo...

— Solte-me, ou vou gritar — intimou ela.

Ele não respondeu nem a soltou. Aproximou seu rosto cada vez mais. Celina colocou as duas mãos em seu peito e empurrou-o. De repente, o inesperado. O desequilíbrio, um tropeção na cadeira, o fogão, a água fervendo... Horrorizada, Celina contemplou a cena vendo-o contorcer-se no chão, com as mãos cobrindo o rosto. Seu primeiro pensamento foi para a beleza daquele rosto, provavelmente danificada pela água quente.

Quais serão as consequências daquele acidente? De que forma isso afetará o relacionamento de Celina com André? E Mário, até que ponto seu rosto foi afetado pelo acidente? Como Celina enfrentará seu sentimento de culpa?

Capítulo 2 -

REVELAÇÕES E DESCONFIANÇA

André conversa com os pais de Celina, quando ela telefona, avisando que voltou. No hospital, D. Irene ameaça contar tudo ao pai da garota. André fica atônito, quando descobre o que aconteceu. Celina tenta convencê-lo a perdoá-la.

— Quer dizer que se trata então de uma excursão cultural? — indagou André ao pai de Celina, ao final da explicação.

— Sim, isso mesmo. Celina gostou muito da ideia. Você sabe como ela adora novidades.

— É uma pena — comentou o rapaz, visivelmente desiludido e deixando transparecer nisso em seu semblante.

Estivera fora durante quase dois meses. Estudava em São Paulo, por isso não continha sua ansiedade em conseguir uma pequena pausa em seus estudos para voltar a sua cidade e rever a namorada. Celina era um amor de infância, amadurecido, pronto para a colheita, agora que ele se encontrava quase formado. Já estava no último ano e havia realizado importantes estágios. Já tinha boas ofertas de trabalho. Seu futuro profissional estava praticamente definido. Naquela noite pretendia propor um rápido noivado e um casamento para após sua formatura. A ausência da garota, no entanto, atrasava todos os seus planos. Breve teria que retornar para São Paulo e o fato de não definir aquela situação frustrava-o.

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10 Apalpou, no bolso, a caixinha de veludo onde trazia o par de alianças. Vinha economizando há meses a mesada que o pai lhe mandava, além do que recebia pelos seus estágios, para comprar o que de melhor pudera encontrar.

— Talvez com essa chuva eles suspendam a excursão — falou D. Jacira, mãe de Celina, tentando consolá-lo.

— É uma esperança — respondeu ele, suspirando fundo e apalpando novamente a caixinha com as alianças.

Pensou que talvez devesse antecipar os acontecimentos e expor suas intenções aos pais da garota, mas desistiu da ideia. Precisava, antes de qualquer coisa, ver a namorada e acertarem os detalhes.

— Você vai ficar muito tempo, André? — perguntou Zezé, levantando os olhos do televisor.

— Até sábado — respondeu ele, sorrindo para ela.

— Já que a Tatá não está aí, se você quiser eu posso ser sua namorada — propôs a garotinha, séria.

— Zezé, não seja boba! — repreendeu-a a mãe.

— Deixe D. Jacira. Adoro essa menina.

— E então, você topa? — insistiu a garota.

— Topo. O que você gostaria de fazer nos próximos dias? — indagou-lhe o rapaz, segurando-a pelas mãos.

— Poderíamos ir ao clube, ao cinema, ao circo. Sabia que há um circo na cidade? Tem leão, elefante, urso, uma porção de coisas.

— Eu a levo a todos esses lugares, minha querida.

— Está legal — concordou ela. — Você vai ficar para o desfile do dia sete? Até lá a Tatá deverá chegar. Ela vai desfilar também.

— Isso mesmo, André. Se você ficar até dia sete, poderá vê-la — lembrou-lhe seu Ernesto.

André concordou imediatamente, apesar de ter que quebrar um compromisso assumido. Programara sua volta um pouco mais cedo, no sábado, dia seis, mas não se importava em adiar tudo. A vontade de rever Celina era maior que suas forças. A conversa tomou, posteriormente, outros rumos. A chuva persistia, sem o estardalhaço inicial. Já era bem tarde, quando o rapaz decidiu retirar-se. Antes que o fizesse, porém, o telefone soou e, para espanto de todos, Zezé que atendera, falou:

— É a Tatá, papai.

— Celina? — retrucou o homem, surpreso.

— Aconteceu alguma coisa? — indagou D. Jacira, levando as mãos de encontro ao peito.

— Pai — falou Celina, assim que ele atendeu. — Aconteceu um acidente quando estávamos na excursão...

— Você está bem? — interrompeu-a ele, angustiado.

— Não foi comigo, não se preocupe. É uma história muito complicada. Preciso que o senhor venha ao hospital me apanhar. Já estou aqui, em Marília. Não se assuste, pai.

Venha até aqui.

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— Está bem, vou já. André está aqui, vou levá-lo também...

— Não! — pediu ela, num grito abafado.

— Por quê?

— Eu... Eu... Está bem, pai. Pode trazê-lo, mas venha logo.

— Estarei aí em poucos instantes. Aguarde-me na portaria.

— Estarei esperando. Tchau!

Assim que desligou o telefone, seu Ernesto olhou para a família, ansiosa por respostas.

— O que houve Ernesto? — indagou-lhe a esposa.

— Está tudo bem, Jacira. Aconteceu um acidente com alguém da excursão. Celina está bem, vou apanhá-la no hospital.

— Então a excursão foi cancelada? — indagou André, feliz com a notícia, sem se preocupar com outros detalhes.

A ideia de rever imediatamente a namorada enchia-o de alegria. A figura de Celina, seu rosto claro, seus lábios quentes, seu maravilhoso narizinho arrebitado, sua voz doce e repousante delinearam-se em sua mente, enchendo-o de prazer.

— Vamos então, André?

— Sim, seu Ernesto. Imediatamente.

— Puxa, perdi o namorado — lamentou Zezé, vendo-os sair.

Celina sentiu um indescritível mal-estar revolucionar-lhe o estômago. Não esperava ter que encontrar André naquela situação. Estava ainda com o mesmo roupão de banho e D. Irene, carrancuda ao seu lado, lançava-lhe a todo instante, olhares de reprovação. A aventura que vivera e os momentos que passara eram difíceis de serem narrados e de serem aceitos. D. Irene acreditava naquilo que vira. Sua aluna, de roupão e roupas íntimas, a sós com um jovem numa barraca, isolados de todos. Por mais sinceras que pudessem ser as explicações da aluna, repetidas diversas vezes durante a viagem até Marília, ás evidências eram comprometedoras.

Celina abaixou a cabeça, pensando em André, maldizendo-se interiormente por ter- se deixado levar por aquela aventura, fosse o que fosse que a motivara. Deveria realmente ter orientado o rapaz e encaminhado para onde estavam alojados os outros rapazes, quando o viu em sua barraca, totalmente ensopados. Mas não fizera isso. Talvez o fascínio daquele rosto, o insólito do acontecimento, o gosto por aventuras inesperadas, ou tudo isso a tivesse movido. Não sabia ao certo o que a havia levado a agir daquela forma. E seu pai, como reagiria? E André, será que entenderia?

Virou-se para D. Irene e indagou temerosa e envergonhada.

— A senhora pretende contar tudo ao meu pai? — Seu tom de voz era submisso.

— Ponha-se em meu lugar, Celina. Os pais confiaram em mim, entregando seus filhos aos meus cuidados. É uma responsabilidade muito grande, não acha? — falou ela, num tom de voz impessoal e autoritário, com tom severo e gestos nervosos.

— Eu explicarei tudo a ele...

— Sinto muito, mas isso é meu dever. Fatos desagradáveis como esse não deveriam nunca acontecer. Vocês, jovens, a cada dia que passa, vão perdendo, mais e mais o senso de moral de pudor de valorização do próprio corpo.

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12 Agem impensadamente, não medem as consequências...

— Da forma que a senhora fala, é como se eu tivesse mesmo cometido uma falta grave, um pecado mortal, um ultraje contra a sociedade.

— E não cometeu? — retrucou a professora, como se deferisse uma bofetada no rosto da aluna.

— Não! — protestou a garota, veemente, sentindo o sangue subir-lhe às faces e lágrimas brotarem de seus olhos claros, avermelhando-os levemente.

— Quem pode acreditar? Se nada aconteceu, aconteceria mais cedo ou mais tarde...

— A senhora não pode falar assim. Já me conhece há muito tempo para saber que tipo de garota eu sou.

— Quem conhece realmente as pessoas, Celina? Quantos lobos não se escondem na pele de inocentes carneiros?

— A senhora está enganada, D. Irene. Muito enganada.

— Espero que sim, para seu próprio bem — disse a professora.

— Vai contar mesmo ao meu pai?

— Vou! — a confirmou.

— Então só conte o que viu. Poupe-o de suas falsas conclusões. Deixe que eu dê a ele os detalhes.

— Está bem. E você acha que ele vai acreditar em você?

— Vai, sim. Meu pai tem muita confiança em mim.

— Esse é o mal dos pais de hoje em dia. Confiam demais em seus filhos, dão-lhes liberdade demais e depois é isso que acontece.

— D. Irene! — murmurou a garota, entre dentes. — A senhora não tem o direito de criticar a educação que recebo de meus pais. Proíbo-a de fazer isso.

A velha professora não respondeu, limitando-se a encolher os ombros e a franzir a testa. Estavam na sala de espera do hospital, nas proximidades da portaria. A enfermeira encarregada dirigiu-se a Celina e indagou-lhe:

— É parente do rapaz que foi internado?

— Não, não sou.

— Saberia fornecer-me alguns dados para o preenchimento da ficha de internação?

— Que dados?

— Nome, residência...

— Não sei de nada sobre ele — respondeu a garota, nervosa.

— Mas você se responsabilizou por ele na internação...

— Sim, mas nada sei sobre ele. Há algum mal nisso? — indagou, com irritação.

— Há outro problema — acrescentou a enfermeira. — Um depósito de garantia a ser feito.

— Depósito? Mais essa agora! — exclamou Celina. — E de quanto é esse depósito?

— Mil reais.

— Meu pai chegará logo e providenciará isso – disse ela afastando-se e indo sentar-se em um dos sofás que havia por ali.

O corpo cansado aceitou o repouso como uma benção.

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— Que burrice, meu Deus! Que burrice! — exclamou ela em voz baixa, estirando o corpo e descansando a cabeça no encosto.

Passou as mãos pela cabeça, num gesto desesperado e olhou para D. Irene, que ainda á fitava cheia de censura. Celina fechou os olhos e julgou que dormiria, para sempre até, se preciso fosse.

— E então, filha, o que aconteceu? — indagou-lhe o pai, assim que chegou ao hospital.

Com ele chegou André. Celina olhou-o, sentindo o sempre igual arrepio percorrer- lhe a espinha e a sensação sempre renovada de que o amava cada vez mais doer dentro de si. Os lábios da garota tremeram momentaneamente, quando reprimiu o impulso de correr e abraçá-lo. Ao invés disso, porém, seus olhos voltaram-se suplicantes para a velha professora. Seu pai e André se aproximaram.

— Tudo bem, filha? — indagou o homem, abraçando-a.

— Está, pai. Não se preocupe mais.

— Olá, Celina — cumprimentou-a André, percebendo a aparente frieza com que ela o recebera.

Alguma coisa devia ter acontecido, pensou ele, analisando o rosto da namorada.

Havia nele, além daquela beleza irrequieta que sempre o atraíra, medo e sofrimento.

D. Irene se aproximou e dirigiu-se ao pai de Celina.

— Senhor Ernesto, há algumas coisas que precisamos esclarecer, antes que o assunto ganhe uma repercussão maior que possa comprometer minha atuação, junto ao diretor da escola.

— Sim, D. Irene. O que foi? — indagou seu Ernesto.

— Não sei se deveríamos conversar aqui...

— E por que não? Está tudo bem. Vamos nos sentar — disse ele, apontando as poltronas da sala de espera. Instalaram-se.

André sentou-se ao lado de Celina, sobre o braço da poltrona ocupada pela jovem.

— Foi um fato muito lamentável — começou D. Irene a falar.

— Conte logo, D. Irene — apressou-se Celina, irritada e disposta a terminar logo com o assunto.

André olhou para ela novamente e sentiu-a a mesma garota determinada de sempre.

Sorriu. Ela torceu o canto dos lábios, sem jeito, esboçando um sorriso que não chegou a se definir, momentaneamente transformado numa careta. O rapaz tirou seu casaco e cobriu carinhosamente o colo da namorada.

— Foi no inicio daquela chuvarada — continuou D. Irene. — Eu estava passando pelo acampamento todo, verificando se as garotas estavam bem, pois a chuva nos apanhou quando ainda estávamos trabalhando em escavações. Como todos estavam bem, haviam conseguido se abrigar, inclusive sua filha, voltei para minha barraca. Um pouco mais tarde, ouvi barulho e gritos vindos da barraca de sua filha. Assustei-me porque sabia que ela estava só. Corri para lá, juntamente com outros alunos e encontramos o rapaz...

— Rapaz? Que rapaz? — interrompeu-a o pai da garota, olhando para a filha.

— Sim, que rapaz? — ajuntou André, olhando-a surpreso.

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— Ainda não sei bem. Parece-me pertencer a outro grupo de alunos de outro colégio explicou a professora. — Sua filha lhe dará maiores detalhes posteriormente. Esse não é, entretanto, o ponto principal da questão, senhor Ernesto.

— Mas o que aconteceu com o rapaz? — insistiu o homem.

— Queimou-se — disse Celina, num fio de voz.

— Queimou-se como?

— É uma história complicada, pai. Eu conto depois, a caminho de casa. Deixe D.

Irene terminar de contar a parte dela sobre o que aconteceu.

— Sim, senhor Ernesto. Acontece que Celina estava em trajes íntimos e o rapaz se encontrava praticamente nu — falou a velha professora, num fôlego só, como se tivesse um espinho atravessado em sua garganta e precisasse arrancá-lo o mais depressa possível.

Sua voz soou, acima do tom autoritário e impessoal, envergonhada. O pai e o namorado da garota ficaram pasmados. Seu Ernesto olhava para o rosto carrancudo e envergonhado da professora, para o rosto surpreso cheio de ciúmes de André e para as faces límpidas da filha, sem nada conseguir dizer. André, porém, sentiu aquilo como uma chicotada que lhe atingisse a face, avermelhando-a. O ciúme fez seu sangue gelar e as mãos tremerem. Sua primeira reação foi esbofetear a garota, cego pelo amor próprio ferido. Depois julgou que a melhor solução seria afastar-se correndo até sumir da vida dela, cheio de vergonha e rancor. Mas não fez nada disso. Com os cabelos escorridos caindo sobre o rosto, olhos um tanto avermelhados, mas firmes e serenos, sumida por trás do casaco que ele lhe colocara em cima, Celina era a própria imagem de fragilidade e da inocência, coisa que desarmou todos os impulsos precipitados do rapaz. Ficou olhando para ela, com olhos suplicantes, pedindo uma explicação, uma certeza de que naquilo tudo havia uma lógica, que as suposições iniciais eram precipitadas e falsas, que nada havia ocorrido, que tudo fora um tremendo e lamentável engano.

Ela sempre fora sincera, era ponderada o bastante, apesar de um pouco irrequieta, para não se meter em aventuras inconsequentes. O que poderia ter acontecido? Mil ideias passavam por sua cabeça, sem que ele se detivesse em nenhuma, olhos fixos na garota, à espera de um desmentido.

— É verdade, filha? — indagou-lhe o pai, acalmando-se.

— É, pai — respondeu a garota, aumentando ainda mais o clima de tensão que pairava sobre o grupo, desde o inicio da conversa.

André tentou dizer alguma coisa, indagar detalhes. Seus lábios se abriram, mas não emitiram nenhum som.

— Deixe-me terminar, senhor Ernesto — pediu a professora.

— Oh, desculpe-me D. Irene. É tudo tão embaraçoso... — desculpou-se o homem.

— Sim, realmente é senhor Ernesto. Muito embaraçoso.

— Sim, sim. Mas o que aconteceu depois?

— Quando cheguei, juntamente com os alunos, Celina lá estava em pé; vestida como está agora, e o rapaz no chão, se contorcendo todo, com as mãos no rosto...

— No rosto? — interrompeu-a André, conseguindo articular alguma coisa novamente, após o choque inicial da revelação.

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— Sim, no rosto. Parece-me que ele tropeçou na cadeira e caiu sobre o fogão, entornando a água quente.

— Queimou-se muito? — indagou o pai da garota.

— Ainda não sabemos senhor Ernesto. Nós o trouxemos imediatamente para cá e o médico ainda o está atendendo.

— Filha, por favor, conte o que houve — pediu-lhe o pai.

— No caminho para casa eu lhe explicarei tudo, pai. Vamos embora, por favor.

— Venha também, D. Irene. Nós a deixaremos em sua casa — convidou seu Ernesto.

— Muito obrigada, mas estou com o carro e alguns alunos aí fora. Vou mandar alguém voltar para dar ordens de levantar acampamento. Não creio que seja prudente continuarmos após tudo o que aconteceu. Obrigada mesmo assim — disse a professora, despedindo-se e afastando-se.

Antes de cruzar a porta de saída, porém, olhou para a aluna. Celina olhou-a também, mas não havia nenhuma espécie de ressentimento em seu olhar. Ela estava, apesar de tudo, grata à professora.

— Vamos então, filha? — convidou-a o pai, abraçando-a.

— Sim, pai. Vamos — concordou ela, submissa.

— André, o que há? — indagou o homem ao rapaz, vendo que este não se movia e parecia mergulhado em seus pensamentos.

— Ah, sim! Vamos, desculpe-me — disse o rapaz.

— Pai, tem um problema que precisa ser resolvido — disse Celina, antes que saíssem.

— Na hora da internação do rapaz, eu me responsabilizei por ele. É preciso fazer um depósito de mil reais...

— Vou cuidar disso. Aguardem-me no carro, está bem?

— Sim — concordou ela, temerosa, vendo o pai se afastar.

Ficar a sós com André, naquele momento, era tremendamente difícil para ela. Sabia que teria que explicar-lhe tudo, mas não se sentia disposta àquilo. Seu corpo começava a dar mostras de cansaço. Estava, além disso, faminta e com frio. Resignada, permitiu que André a abraçasse afetuosamente, caminhando juntos para o carro. Esperava a todo o momento que ele começasse a falar e iniciasse uma discussão. Não foi, no entanto, o que ele fez. Caminhou ao seu lado em silêncio, até o carro, abriu a porta para que ela entrasse, deu a volta e entrou pelo outro lado. Lá dentro Celina se sentiu mais protegida, com menos frio. André olhou para ela, abriu os braços e recebeu-a, frágil e adorável, num longo abraço.

— Oh, Celina! — murmurou ele, enquanto seus lábios ávidos procuravam os dela.

O beijo que se seguiu foi longo e ardente, com um sabor violento de saudade.

Sentindo-a em seus braços, André não se importava com mais nada. Ela era tudo, nada mais havia a ser levado em conta. Amava-a. Mais do que isso: adorava-a.

— Que saudade, meu amor — murmurou ela, numa pausa.

— Celina como, senti sua falta...

— Se eu soubesse que viria, não teria ido a essa excursão.

As palavras de D. Irene ecoaram na cabeça do rapaz. Ele a soltou, quase que rudemente, recostando-se no estofamento e acendeu

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16 um cigarro. Celina entendeu a situação e percebeu que ele, de um modo ou de outro, esperava uma explicação por parte dela. O encanto se quebrara, a saudade estava morta. O presente era uma preocupação.

— Você quer que eu explique, não é?

— Sim, acho que tenho o direito, concorda? — o retrucou.

Disse isso sem olhá-la. Ela não respondeu e abaixou a cabeça.

— Quem era o rapaz? — perguntou ele.

— Não o conhecia direito.

— Não o conhecia? Então como você estava lá com ele?

— Não poderíamos deixar este assunto para amanhã?

— Não queira se esquivar, Celina. Estamos juntos há muito tempo para não sermos sinceros um com o outro.

— Eu sei, eu sei, mas entenda, por favor! Acha que é fácil para mim? Sabe do que tenho medo? Tenho medo, André, muito medo. Medo de que você não seja bastante compreensivo para aceitar minhas explicações, medo de ver você sair de perto de mim e nunca mais voltar para mim, medo de perdê-lo, André — desabafou ela, atirando-se novamente nos braços dele e oferecendo seus lábios quentes e salgados pelas lágrimas que lhe escorriam pela face.

André abraçou-a forte e deixou-a desabafar. Percebeu que o momento não era adequado realmente para uma discussão. Esperou que ela se acalmasse, secando-lhe as lágrimas com seus beijos, conversando sempre, em tom carinhoso.

— Você se, lembra Celina, quando brincávamos nos tempos de criança?

— Sim — respondeu ela, balançando a cabeça e puxando os cantos dos lábios, tentando sorrir.

— Lembra-se de nossa promessa? Aquela que nos casaríamos quando crescêssemos?

— Sim, foi naquele dia de chuva, quando ficamos presos na garagem de sua casa.

— Sim, isso mesmo. Que mais você lembra?

— Lembro-me que foi a primeira vez em que você me beijou.

— Sim, isso mesmo. Que mais?

— Você me fez uma aliança de cobre com um pedaço de fio e colocou-a em meu dedo. Nós prometemos nunca nos separarmos.

— Juramos nunca nos separarmos, lembra-se bem?

— Sim. Você queria fazer um juramento de sangue, igual ao que vimos num filme de ciganos, mas não teve coragem para cortar minha mão nem a sua.

— Era tudo tão bom, não era?

— Sim, André. Espero que continue sempre assim.

— Será? — duvidou ele, mas afogando imediatamente sua dúvida num beijo sôfrego, quase desesperado.

Instantes depois, o pai da garota chegava ao carro. A chuva cessara, mas o céu continuava encoberto, prenunciando mais chuva. Um vento fino e frio assobiava nos fios e agitava as árvores que margeavam as ruas derrubando folhas e arrastando-as pelo asfalto molhado e brilhante.

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— Vamos já para casa — disse-lhe o pai, assim que entrou. — Enquanto isso é justo que eu lhe peça uma explicação.

— Foi tudo tão... Tão... Tão inesperado, pai.

— Quem era o rapaz? Você o conhecia?

— Não, eu nem o conhecia.

— Então como ele foi parar em sua barraca, naquelas condições? — indagou o homem, pondo o carro em movimento.

— Quando começou a chover eu corri para minha barraca. Estava toda molhada e então tirei a roupa e coloquei o roupão. Não me preocupei em vestir outra coisa, pois logo iria dormir mesmo...

— E o rapaz, já estava lá? — interrompeu o pai.

— Não, pai. Ele não estava lá. Eu já havia me deitado, comecei a ler e adormeci. Ele apareceu lá depois, todo molhado, dizendo que havia se perdido, por isso entrara na primeira barraca que lhe apareceu pela frente.

— E por que você não o mandou para uma barraca onde tivesse algum rapaz? — indagou André.

— Não sei, creio que fiquei com pena — afirmou ela, lembrando-se momentaneamente daquele rosto fascinante, daquela beleza indescritível, como a de um deus grego de seus livros de História. — Dei-lhe um roupão para que ele tirasse suas roupas molhadas...

— E ele ficou nu? — interrompeu-a novamente André, cada vez mais enciumado, sem esconder sua contrariedade.

— Sei lá, não estava olhando. Ele colocou o roupão... Precisava secar as roupas dele.

— Está bem. Ele ficou de roupão enquanto as roupas secavam. E daí? — perguntou o rapaz.

— Daí eu ofereci-lhe o que comer e fui preparar um café. Conversamos. Ele foi gentil, até que me abraçou e tentou me beijar.

— Tentou beijá-la? — exclamou André, cada vez mais nervoso.

— Sim, tentou beijar-me. Empurrei-o. Ele tropeçou na cadeira e caiu sobre o bule de água quente que estava sobre o fogão.

— Só? — perguntou André, assim que ela terminou o relato.

— O que você esperava? Que eu lhe dissesse que as coisas não foram assim, que eu me comportei levianamente, que o recebi em minha barraca livremente, como se eu fosse uma aventureira?

— Acalmem-se vocês dois — ordenou Ernesto. — Exaltarem-se de nada vai adiantar.

Tudo me parece muito simples.

— E para você, André? — indagou-lhe a moça, olhando-o.

A resposta foi um olhar enigmático, desconfiado, duro, descrente, que a feriu profundamente, André tinha que acreditar nela. Ela precisava disso, era muito importante para ela.

Conseguirá André entender e perdoar Celina por aquele deslize? Ou o ciúme falará mais alto, pondo fim ao relacionamento dos dois? O que fará Mário, após deixar o

hospital? Como ficará seu rosto após o acidente?

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Capítulo 3 -

TRAIÇÃO E VINGANÇA

Celina lamenta a loucura que cometeu. André, despeitado, vai ao hospital ver Mário.

Depois, enciumado, procura uma garota de programa amiga sua, com quem passa a noite. Mário, furioso com Celina, começa a preparar a sua vingança.

Assim que Celina repetiu as explicações para a sua mãe, despediu-se de André e jantou, após horas com o estômago vazio. Foi para seu quarto. Abriu a porta vagarosamente, pois o aposento de sua irmãzinha era ao lado e ela não tencionava acordá- la. Zezé, no entanto, ainda estava acordada e esperava pela irmã, sentada numa poltrona, junto à janela. Ficou observando a irmã caminhar lentamente até a cama e estender-se sobre ela, como se estivesse profundamente, cansada.

— Tudo legal, Tatá? — sussurrou ela. Não obtendo resposta, levantou-se e foi até a cama da irmã. — Por que você está chorando, Tatá?

— Nada, não foi nada — respondeu Celina, com a voz embargada, enxugando as lágrimas com a manga do roupão, virando-se na cama para fitar a irmã.

— Credo, que cara, Tatá!

— Não foi nada, Zezé. Está tudo legal, vá deitar-se.

— O que aconteceu? Conta pra mim.

— Amanhã eu conto.

— André já foi embora?

— Sim, já foi.

— Você estragou todos os meus planos — disse a garotinha em tom de censura. — Se você não aparecesse, André seria meu namorado até sábado.

Celina sorriu levemente.

— Vá deitar-se, criança. Amanhã a gente conversa.

— Tá legal! — concordou ela.

Celina seguiu com os olhos a irmã, até que ela deixou o quarto, encostando a porta.

Depois voltou a estirar o corpo em sua cama. Olhou para seus pés. Estavam enlameados. Passou a mão pelo rosto e pelos cabelos. Sentiu-se horrivelmente feia.

Levantou-se preguiçosamente e olhou-se no espelho. Estava com um péssimo aspecto. Revirou as gavetas da cômoda até encontrar um maço de cigarros. Acendeu um e sentou-se na beirada da cama enquanto fumava. Terminado o cigarro, dispôs-se a tomar um banho. Retirou algumas peças do guarda-roupa e foi para o banheiro. Encheu a banheira com água quente. Mergulhou, depois, seu corpo cansado, sentindo-se repousada em contato com a água quente.

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19 Longo tempo permaneceu ali. Antes que adormecesse, porém, levantou-se, enxugou- se lentamente e voltou para o quarto. Vestiu apenas a camisola e enfiou-se na cama, disposta a adormecer prontamente. Os últimos acontecimentos, no entanto, desfilaram por sua mente, desde quando o rapaz aparecera ensopado em sua barraca, até a discussão com André no carro. Seus pensamentos se fixaram na cena em que do acidente com rapaz caiu e a água quente. Um misto de horror e angústia causou-lhe um nó na garganta. Fora tudo tão repentino. Ela nada pudera fazer para impedir o que havia acontecido.

Virou-se na cama procurando afastar aqueles pensamentos, mas, de repente, assaltou-a uma dúvida cruel: e se o rosto do rapaz ficasse deformado? E se aquela beleza imaculada se visse desonrada por cicatrizes e marcas? Tais indagações ecoaram em sua mente, ameaçando enlouquecê-la. Um pesado sentimento de culpa oprimiu-lhe o peito. Se não tivesse permitido que ele ficasse, aquilo tudo não teria acontecido. Se não tivesse tido a maldita ideia de ser agradável ao fazer um novo café, aquilo não teria acontecido. Se não tivesse resistido à ideia de ser beijada por ele, aquilo não teria acontecido. Mas, pensava ela, não poderia ter-se deixado beijar. Não que a ideia a desagradasse de todo. Ele era um rapaz bonito, um tanto ousado, mas simpático. E depois, estivera tanto tempo afastada de André. Sentia saudades de suas caricias, de seus beijos. Mas, nem por isso, poderia ter agido levianamente. E se as intenções do rapaz fossem realmente sinceras? E se ele apenas quisesse expressar seu agradecimento, nada mais? Era-lhe difícil coordenar seus pensamentos. Apesar do cansaço, teve certeza de que rolaria horas e horas em sua cama, até que conseguisse adormecer, atormentada pelas circunstâncias em que se vira envolvida.

Assim que se despediu da família da namorada, André apanhou seu carro, mas não sentia vontade nenhuma de voltar para casa. Embora recusasse admitir, estava terrivelmente magoado com os acontecimentos. A todo instante apalpava a caixinha de alianças em seu bolso, sem saber ao certo se elas seriam ou não usadas. Sentiu fome. Parou em uma lanchonete e enquanto fazia um rápido lanche, recordava-se dos beijos que havia trocado no interior do carro. Havia sinceridade, ansiedade, paixão neles e nisso ele acreditava. Não aceitava, porém, o envolvimento de Celina com aquele outro rapaz. As explicações não o convenceram totalmente. O amor que sentia por ela o forçava a crer, mas o machismo ferido, a ideia de que poderia ter sido passado para trás, inconscientemente o forçava a desacreditar de tudo. Era-lhe amargo e difícil esse dilema.

Terminado o lanche, voltou ao carro. Ficou sem saber que rumo tomar. Era madrugada. Apenas alguns raros carros passavam pelas ruas. Bêbados voltavam para casa. A chuva cessara e uma névoa finíssima dava ao colorido da cidade uma aparência de tristeza e inutilidade. A solidão pesou em seu peito. Lembrou-se do rapaz no hospital.

Sentiu vontade de conhecê-lo. Ligou o carro e rumou para lá. O médico de plantão era um velho conhecido seu.

— Olá, André, como tem passado? — indagou o médico.

— Tudo bem, doutor Marcos.

— Algum problema?

— Não, estava sem sono...

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20

— Vamos tomar um café? — convidou o doutor, servindo-se de uma garrafa térmica sobre a mesa da sala de plantão.

— Você me parece preocupado. O que houve, afinal de contas? Essa de vir aqui porque estava sem sono não me convence.

— Não é nada, não. Um conhecido meu que foi hospitalizado agora à noite — mentiu ele. — Aquele que queimou o rosto.

— Ah, sei. Eu o atendi. Nada de grave.

— Há perigo de uma deformação?

— Creio que não. Temos que esperar. Queimaduras são imprevisíveis. Ele está dormindo, mas se quiser, eu o levo até lá.

Percorreram alguns corredores, até uma porta.

— Se ele estiver acordado, evite falar — recomendou o médico, entrando junto com o rapaz.

Assim que entrou, iluminado por uma pequena lâmpada na parede, André divisou um vulto estendido no leito. O rosto estava coberto de medicamentos, dando-lhe uma aparência grotesca, assustadora. Apesar disso, pelos traços pode adivinhar que se tratava de um rosto belo, fazendo-o odiar aquele rosto grotesco, mas que já fora visto e talvez admirado em toda sua beleza pelos olhos de Celina. Agradeceu ao médico e saiu apressadamente. Sentia-se como fera enjaulada, como bomba prestes a explodir. Ligou o carro e saiu a toda, rumando para um endereço conhecido, onde desabafaria tudo aquilo que ameaçava estourar dentro dele, enlouquecendo-o.

Algum tempo depois estacionava o carro diante de uma pequena casa, na periferia da cidade. Antes de descer, ele abriu o porta-luvas e vasculhou-o, até encontrar uma chave. Com ela na mão, atravessou o pequeno portão e parou diante da porta. Por instantes ele hesitou, mas decidiu-se logo a seguir. Tinha de fazer alguma coisa para apagar aquela mágoa dentro dele. A melhor maneira era pagar na mesma moeda, por isso introduziu a chave na fechadura e girou-a. A porta se abriu. As luzes da casa estavam apagadas.

Silenciosamente ele atravessou a sala e rumou para o quarto de dormir. Abriu a porta. A cortina transparente deixava entrar a luminosidade pálida da madrugada. Ele caminhou até a cama. O corpo de uma jovem se estendia graciosamente sobre os lençóis.

Ele imaginou o calor daquela pele e o desejo acendeu-se dentro dele. Despiu-se lentamente, procurando não fazer ruídos. Ela suspirou e girou sobre a cama as costas nuas voltadas para ele. André deitou-se lentamente enlaçou-a por trás, as mãos comprimindo os seios rijos e provocantes, os quadris roçando as nádegas excitantes.

— André, eu sabia que você voltaria cedo ou tarde — murmurou ela, sonolenta, tentando girar o corpo.

Ele a apertou firme em seus braços e beijou-lhe a nuca, enquanto as mãos acariciavam-lhe os seios e o ventre.

— Eu queria não ter vindo... Queria não precisar vir nunca mais, sabia? — murmurou a voz alterada pela excitação.

— Brigou com aquela magrela de novo, não? Você sempre me procura quando briga

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21 com ela. Eu deveria ter vergonha na cara e expulsá-lo daqui — disse Joana, desvencilhando-se dele.

Apanhou um cigarro sobre a mesa da cabeceira e acendeu-o. Ficou olhando André, deitado na cama, olhando-a também.

— Venha deitar aqui — pediu ele, puxando-a pela mão.

— Eu não gosto disso, André. Tenho um pouco de princípios, sabia? — indagou Joana, visivelmente aborrecida e irritada.

— Joana, você é uma garota de programa e eu sou seu cliente. Sem melodramas, por favor! — disse ele, com rispidez.

— E se eu estivesse com outro cliente?

— Eu sou o único cliente com quem você passa a noite. Pensa que me esqueci disso?

Agora venha se deitar — ordenou ele.

A garota esmagou o cigarro num cinzeiro, depois foi se deitar ao lado dele. André a abraçou, tentando encontrar na pele dela o mesmo perfume da pele de Celina. Ele a olhou demoradamente. Joana possuía o mesmo tipo de beleza agressiva, marcante, que ele via em Celina. Isso a fazia desejável.

Joana, arredia, puxara a ponta do lençol sobre os seios. Seus quadris estavam cobertos, mas suas coxas se exibiam em toda a exuberância de uma plástica invejável.

Aquela mulher era todo fascínio e sexo, uma espécie de vício que o desagradava e redimia ao mesmo tempo e a quem procurava quando as coisas não iam bem com Celina.

Era sua válvula de escape.

— Pobre André! Deve estar mesmo muito despeitado para vir até aqui, no meio da noite — exclamou ela, os lábios avançando para roçar os ombros dele, depois seu pescoço.

Não conseguia esconder o quanto a presença dele á agradava e excitava. Mordiscou- lhe o queixo, depois as orelhas. Sua respiração alterada fez arrepiar o corpo de André.

Joana era o seu consolo. Enlaçou-a com força e colou seus lábios aos dela, sugando- os. Ela retribuiu o abraço e o beijo com sua maneira felina e arrebatadora de amar. Seus corpos mergulharam, então, num estado de febre e paixão. O alheamento do amor envolveu-os e apenas a vontade de manifestarem livremente o desejo permaneceu. André sentia seu corpo abalar-se. Seus lábios espalharam beijos pelo rosto de Joana, depois pelo seu corpo, com ansiedade crescente.

Ela suspirava e esfregava-se nele, retribuindo beijos e carícias, vibrando intensamente aquela caminhada feita pelos lábios dele sobre seu corpo. André beijou-a nos ombros, no pescoço, depois deslizou os lábios sobre a pele sedosa e macia, até o vale perfumado dos seios. Joana suspirou mais alto. As mãos dele escorregaram pelas coxas dela até as nádegas roliças e firmes. Seus lábios cobriram um dos seios, beijando-o, acariciando-o, sugando-o. Estremecimentos tomaram conta do corpo dela. As mãos dele circularam os quadris da garota, estenderam-se pelas coxas sedutoras, retornaram, buscando a intimidade já úmida e ardente.

Seus lábios deixaram os seios da garota e escorregaram pelo ventre macio e achatado.

Beijos rápidos e hábeis provocaram convulsões no corpo dela. A respiração apressada do rapaz avançou pelo triângulo sedoso. Suspiros e gemidos, palavras entrecortadas e murmúrios escaparam dos lábios dela.

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22 André levantou a cabeça para fitá-la, vencida pela paixão, uma expressão felina no rosto crispado pelo desejo, num fascínio maior nas formas perfeitas do corpo em estremecimentos. Ele coordenou, então, seus lábios e mãos, esmerando-se em carícias apaixonadas que a fizeram contorcer e arquear o corpo, tentando abraçá-lo, arranhá-lo, mordê-lo. Sensações delirantes devassavam seu corpo. André avançou, então, seus lábios, buscando-o em toda a sua intimidade, devassando-a com sua língua, incendiando-a com beijos hábeis. A loucura e o delírio se estamparam, então, nas faces da garota. As mãos dela buscaram retribuir, tocando toda a extensão do corpo de André, mas era impossível agir. Aquela tensão interior que ele despertava dentro dela era mais forte e a punha fora de si. Ela suspirava entrecortada e gemia debilmente. Ele a abraçou e se deitou sobre ela, beijando-a sofregamente.

Joana enroscou-se nele. Ele girou o corpo para o lado, fazendo-a segui-lo. Frente a frente, André tinha liberdade de movimentos para as mãos e para os lábios. Ele continuou acariciando-a. Suas mãos escorregaram pelas costas da garota, até as nádegas roliças e firmes. Apertaram e alisaram as carnes provocantes. Uma delas se deteve ali. A outra subiu para massagear um dos seios da garota.

Joana arfava, aceitando com prazer os beijos que a excitavam ao extremo. Suas mãos se apertavam junto ao ventre dele, buscando, a seguir, a rigidez que a fazia sentir um calor insuportável entre suas coxas. Ele a apertou com força contra si, quando as mãos dela o enlaçaram e o apertaram possessivamente. O beijo que se seguiu foi mais empolgado, mais eletrizante. Ele a beijou, então, no rosto, nas orelhas, no pescoço, nos ombros. A cabeça dele se movia com rapidez e frenesi, como se desejasse que seus lábios estivessem em todas as partes daquele corpo jovem e delicioso.

Os beijos trocados em seguida foram mais ardentes e demorados. Suas línguas se buscaram numa intimidade total. Gemidos escapavam da garganta de Joana, descontrolada com aquela paixão que atingia um clímax. Seus corpos se emaranharam, suas peles se roçaram. As mãos de Joana, então, firmaram-se às costas de André, forçando- o a deitar-se sobre ela. Suas unhas traçaram sulcos sobre a pele dele. Ele a atendeu ansiosamente, acomodando-se sobre ela, após vestir uma camisinha. Seu membro rígido tocou o ponto mais sensível e úmido da garota, fazendo-a delirar.

Os joelhos de Joana se flexionaram para os lados e ela gemeu alto com a estocada profunda e lenta que se seguiu. Um abraço frenético os uniu por instantes, antes que os quadris de Joana, movidos pelo desejo que ardia dentro dela, se agitassem com habilidade.

André coordenou seus movimentos de macho aos dela e ambos mergulharam definitivamente no frenesi inconsciente que precedia o momento máximo. Ávidos, e inquietos, os beijos se sucediam no mesmo ritmo alucinado que movia seus corpos.

Depois, um arranco mais forte fundiu seus corpos um no outro, seguido do diluir espasmódico do prazer dentro deles. André a beijou, sugando-lhe os lábios quentes, antes de se aquietar sobre ela, vencido, imaginando como tudo seria diferente se a mulher junto dele fosse Celina, a mulher que ele amava, mas que, naquele momento, odiava.

Um sol pálido e esmaecido penetrou no quarto, assim que Zezé abriu as cortinas, fazendo Celina virar-se na cama e proteger os olhos com os braços.

— Que horas são? — a indagou.

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23

— Já é meio-dia — respondeu a irmãzinha. — Papai já está aí para almoçar e me mandou acordar você.

— Está bem, está bem. Já vou me levantar — respondeu ela, espreguiçando-se, antes de atirar as cobertas para o lado.

A lembrança dos acontecimentos da noite anterior desfilaram novamente por sua mente, distantes, longínquos, como se tudo não passasse de um pesadelo do qual acordara. O roupão amassado a um canto do quarto e os chinelos enlameados perto da cama, no entanto, davam-lhe a certeza de que tudo fora irremediavelmente real.

— Vá buscar uma xícara de café para mim — pediu à irmã, enquanto acendia um cigarro.

— Você não vai almoçar?

— Vou sim, só quero tomar um pouquinho de café.

Enquanto a irmã atendia a seu pedido, levantou-se e foi ao banheiro. Lavou o rosto e escovou os dentes, sempre olhando para si mesma no espelho. Penteou os cabelos curtos e lisos e voltou para o quarto. Vestiu uma calça comprida, camiseta sem mangas e uma jaqueta. Calçou tênis e deu uma última tragada no cigarro que esquecera aceso no cinzeiro, apagando-o depois. Zezé chegou com a xícara de café. Celina tomou alguns goles e, antes de descer, voltou ao espelho e olhou-se novamente. Tentou imaginar como ficaria seu rosto se lhe derramassem água fervente em cima. Inventou cicatrizes, distribuiu marcas e o resultado foi um estômago embrulhado que quase a fez vomitar. Sua mãe entrou no quarto e se aproximou dela. Abraçou-a e falou:

— São tantas as armadilhas que o mundo coloca em nossos caminhos que às vezes é difícil reconhecer o certo do errado, o bem do mal, não acha filha?

— Está tudo bem, mãe. Não se preocupe comigo.

— Preocupo-me por você. E por André, também. É um bom rapaz e pareceu-me muito magoado ontem.

— Depois de tanto tempo, mãe, pensei que ele tivesse mais confiança em mim. Ele deveria me conhecer melhor.

— Não se trata disso, filha. Os homens são melindrosos. Nós, mulheres, temos que tratá-los com muito cuidado. Consegue-se tudo deles, desde que não os desagrademos.

— André é inteligente e entenderá mãe. Espero...

— Mas eu me preocupo. Gostaria que desse certo entre vocês.

— Eu também, mãe — completou Celina, sentindo queimar em seus lábios os beijos ávidos e cheios de saudade que recebera na noite anterior.

Mário despertou, abrindo dolorosamente os olhos. Sua visão era turva e tudo que viu foi uma névoa esbranquiçada cobrindo contornos indefinidos. Um vulto se aproximou dele e uma voz feminina cheia de bondade e paciência indagaram-lhe:

— Como se sente hoje?

— Bem, acho — falou ele, sentindo a boca pastosa e a língua um tanto desgovernada, efeito dos medicamentos que recebera.

Abrir os olhos, falar ou fazer qualquer movimento com a cabeça foram atos difíceis e dolorosos, a princípio. Todo o seu rosto se achava tomado por uma dormência incômoda

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24 que não chegava, porém, a minorar as dores que sentia.

— Onde estou? — perguntou ele.

— Hospital de Marília — respondeu a enfermeira.

— Como vim parar aqui? — perguntou ele, tentando levantar a cabeça, mas arrependendo-se do movimento.

— Trouxeram-no ontem à noite.

— O que aconteceu comigo?

— Queimou-se um pouco. No rosto.

— Como está? Queimou muito?

— E o que vamos verificar agora.

— O que vai fazer? – ele perguntou amedrontado, já conseguindo articular bem as palavras e perceber nitidamente o rosto bondoso de enfermeira que se aproximava dele com uma bandeja de medicamentos à mão.

— Vou remover o curativo — informou ela.

— Vai doer? — o indagou, infantilmente.

— Um pouco. Feche bem os olhos e a boca. Talvez arda um pouco, mas logo vai passar. Procure não se movimentar.

O rapaz crispou seus dedos no lençol da cama, enquanto a enfermeira realizava seu trabalho.

— Não foi tão grave — comentou a mulher.

— Vou ficar deformado? — perguntou ele, num fio de voz.

— Creio que não, — respondeu ela calmamente. — Vou chamar o médico de plantão para examiná-lo. Ele o informará melhor.

— Está doendo — gemeu ele.

— Não se agite nem passe a mão no rosto. Enquanto isso há dois rapazes aí fora que desejam falar com você.

— Tino e Carlos?

— Sim, foram os nomes que deram. Vou deixá-los entrar.

A enfermeira saiu e pouco depois entraram os amigos do rapaz. Ambos se aproximaram vagarosamente, examinando detidamente o rosto do amigo, com um misto de curiosidade e pena estampado em suas faces. A visão não era, lealmente, agradável.

— Como está meu rosto? — perguntou Mário, notando a expressão dos amigos.

— Está mais ou menos — informou Tino.

— Não queimou tanto — ajuntou Carlos.

— Acham que vou ficar deformado?

— Vê lá, rapaz — consolou-o Tino, sorrindo sem graça.

— O que é isso, cara? — completou Carlos. — Que bobagem!

— Algum de vocês tem um espelho aí?

— Não, não temos — responderam ambos.

— Aqui no quarto tem algum? — insistiu.

— No banheiro, talvez — opinou um dos amigos, indo verificar.

— Levem-me até lá... — pediu Mário, tentando se levantar.

— Para quê? — indagou Carlos, surpreso.

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— Quero ver como ficou.

— Não acho que seja prudente. Você pode ficar traumatizado — observou Tino, arrependendo-se imediatamente do que dissera.

—Traumatizado por quê?

— É sempre uma visão desagradável — comentou Tino.

— Vocês são umas bestas — esbravejou Mário. — Já que não querem me ajudar, eu vou sozinho.

Dispunha-se a realizar realmente o prometido, mas foi impedido pela chegada do médico, que o obrigou a voltar ao leito, realizando depois um exame minucioso e demorado no rosto de Mário.

— Vou ficar deformado, doutor? — indagou o paciente, como se já estivesse obcecado pela ideia.

Mário sempre tivera muito orgulho de seu rosto e estava consciente daquela beleza invulgar que tanto fascinava as garotas.

— Não creio que você deva se preocupar com alguma coisa. Talvez fiquem leves marcas, manchas apenas, mas nada com que deva realmente se preocupar.

— Então vou ficar marcado — soluçou ele com a voz embargada, fechando os olhos firmemente.

— Não serão marcas visíveis — consolou-o o doutor.

— Maldita garota! — murmurou ele entre dentes, com um misto de ódio e tristeza na voz, arrependido do momento em que tivera a ideia de se aproximar dela.

— A enfermeira fará um novo curativo — informou o médico.

Assim que ele saiu, Mário ficou alguns instantes em silêncio. Seu cérebro se agitava.

Reviveu os acontecimentos, sentindo a raiva crescer dentro de si. Celina teria que pagar por aquilo. A ideia de uma vingança falou alto dentro dele.

— Como é que vieram parar aqui? — indagou aos amigos.

— Viemos com a turma da excursão — informou Carlos.

— Levantaram acampamento?

— Sim. Por enquanto estamos na casa de uns amigos que arrumamos na volta, mas não vamos poder ficar lá por muito tempo. Estamos sem dinheiro, sabe?

— Sei. Avisem lá em casa. Você telefona para lá, Carlos, avisando meu pai. Diga a ele para me mandar dinheiro. Fale do acidente, mas diga que foi coisa leve, sem gravidade alguma. Vou aproveitar o feriado escolar e passar alguns dias aqui. Não quero que ele venha, não por enquanto.

— Certo. Quer mais alguma coisa?

— Sim, quero que tomem algumas informações sobre aquela garota. Vejam se a família dela é rica, onde mora coisas assim entendeu?

— Faremos isso — concordou Carlos.

— Apareçam aqui, mais tarde — pediu ele, assim que a enfermeira entrou para fazer- lhe um novo curativo.

Quando ficou a sós, continuou a pensar em uma maneira de fazer Celina pagar por aquele incidente. Precisava humilhá-la, magoá-la para se sentir satisfeito. Precisava fazê-la sua e depois desprezá-la, como já havia feito com

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