Argentina
Mariana Enriquez e Silvina Ocampo
Introdução
Na tela preta, enquanto os créditos iniciais surgem, ouvimos a leitura de um trecho do conto “Das coisas que perdemos no fogo”, de Mariana Enriquez:
“Foram necessárias muitas mulheres queimadas para que começassem as fogueiras.”
Aos poucos, surge a imagem de uma fogueira crepitando.
“É contágio, explicavam os especialistas em violência de gênero em jornais e revistas e rádio e televisão e onde mais pudessem falar: era tão complexo informar, diziam, porque por um lado era preciso alertar sobre os feminicídios e, por outro, falar do assunto provocava aqueles efeitos, parecidos ao que ocorre com os suicídios entre adolescentes. Homens queimavam namoradas, esposas, amantes, por todo o país”.
Conforme a fogueira se tona visível, percebemos se tratar de um punhado de lixo queimando no asfalto de uma metrópole: Buenos Aires. A leitura continua:
“As queimas são feitas pelos homens, menina. Sempre nos queimaram. Agora nós mesmas nos queimamos. Mas não vamos morrer; vamos mostrar nossas cicatrizes”.
Constitución
“Perigoso é relativo, é preciso saber se mover, dependo do horário, do dia”, conta Mariana Enriquez enquanto caminha pelas ruas do bairro Constituición. A escritora argentina de 47 anos, já teve seus livros traduzidos para mais de 20 idiomas e acaba de ganhar o Prêmio Herralde, um dos mais importantes na literatura de língua hispânica. Ao todo já publicou 10 livros, com 2 traduzidos para o português: o livro de contos “Das coisas que perdemos no fogo” e a novela “Este é o Mar”. Seu ensaio biográfico sobre Silvina Ocampo [“La Hermana Menor”]
e seu mais recente e premiado romanc”e [Nuestra Parte de Noche]” estão sendo traduzidos e tem previsão de lançamento em português em 2021.
Um de seus contos mais famosos, “O Menino Sujo”, do livro “Das coisas que perdemos no fogo”, se passa nesse bairro. Ela conta enquanto caminha que Constitución é o bairro da estação dos trens que vêm do sul para a cidade. Foi, no século XIX, uma região onde vivia a aristocracia portenha, o que explica a existência de casas enormes e mansões convertidas em hotéis ou asilos ou ruínas do outro lado da estação em Barracas. Em 1887, as famílias aristocráticas fugiram para o norte da cidade a fim de escapar da febre amarela. Poucas voltaram, quase nenhuma. Com os anos, famílias de comerciantes ricos puderam comprar as casas de pedra com gárgulas e aldrabas de bronze. Mas o bairro ficou marcado pela fuga, pelo abandono, pela condição de indesejado.
“Sonhei com o menino sujo. Eu saía à sacada e ele estava no meio da rua. Eu fazia sinais com a mão para ele se movesse porque vinha um caminhão muito rápido. Mas o menino sujo continuava olhando para cima, olhando para mim e para a sacada, sorrindo, os dentes imundos e pequeninos. E o caminhão o atropelava e eu não podia deixar de ver como a roda arrebentava o ventre como se fosse uma bola de futebol e arrastava os intestinos até a esquina. No meio da rua ficava a cabeça do menino sujo, ainda sorridente e com os olhos abertos”.
[Mariana Enriquez no conto “O menino sujo”]
Mariana caminha com frequência pelo bairro para chegar à sede do jornal Página 12, onde é subeditora do suplemento cultural Radar. Sobre o conto, ela diz: “Eu quis nomear o bairro para que ele fosse um personagem, pois o que acontece ali não poderia acontecer em nenhum outro lugar. Uma parte do sul da cidade está gentrificada, mas Constitución ainda não, talvez por causa de sua estação de trem — no mundo todo o entorno de estações é sempre medonho. É um bairro intenso e com um passado denso, que foi abandonado pela morte”.
Pelas ruas desse mesmo bairro, caminharam muitas vezes dois dos maiores escritores argentinos de todos os tempos, Silvina Ocampo e Jorge Luís Borges, na juventude.
Borges lhe dizia: “Esta noche tenemos que perdernos”. E saiam caminhando pelo bairro.
Mariana Enriquez, autora do livro de ensaio biográfico sobre Silvina Ocampo intitulado
“La hermana menor” nos leva até a Puente Alsina.
Contava Silvina: “Durante anos passeamos por um dos lugares mais sujos e lúgubres de Buenos Aires: a Puente Alsina.
Caminhávamos pelas rua cheias de barro e de pedras. Ali levávamos amigos escritores.
Não havia nada no mundo como essa ponte. Às vezes, no caminho, quando cruzávamos a ponte, como numa espécie de um sonho, encontrávamos cavalos, vacas perdidas, como no campo. ‘Aquí tienen el Puente Alsina’, dizia Borges quando nos aproximávamos aos escombros, ao lixo e a pestilência da água.”
“A casa de açúcar”, um dos melhores contos de Silvina Ocampo e o favorito do colega Júlio Cortázar, se passa nesse bairro. Mariana Enriquez lê um trecho do conto:
“Em um sábado, ao entardecer, a encontrei na ponte de Constituición, inclinada sobre o parapeito de ferro. Aproximei-me e ela não esboçou reação.
- O que está fazendo aqui?
- Dando uma espiada. Gosto de ver as vias daqui de cima.
- É um lugar muito sombrio e não gosto que você ande sozinha.
- Não acho tão sombrio. E porque não posso andar sozinha?
- Gosta da fumaça preta das locomotivas?
- Gosto dos meios de transporte. Sonhar com viagens. Ir embora sem ir embora.
“Ir e ficar, e ficando, partir.”
Villa Ocampo
Pegamos o trem que se afasta de Buenos Aires e percorre o Rio Tigre. No trajeto, Mariana Enriquez nos conta um pouco sobre a infância de Silvina Ocampo.
Nascida em 28 de julho de 1903, foi a mais nova de seis irmãs da família Ocampo. Já adulta, Silvina chegou a dizer que se sentia como a “etcetera da família”. O que, de certa forma, tinha suas vantagens. Sua família era das mais ricas e aristocráticas da Argentina.
O fato de ser a caçula de seis irmãs lhe deu mais liberdade, seus pais – apesar de rigorosos – estavam cansados de criar filhas e relegaram muito de sua criação aos empregados da casa.
Talvez daí tenha nascido sua fascinação pela classe trabalhadora e pelos menos privilegiados. Silvina amava os mendigos, os empregados da casa, as babás, as costureiras, as passadeiras, os cozinheiros que vivem nas dependências de serviço do último andar. Ama os trabalhadores e os pobres. Nunca, em toda a sua vida, esse amor se transformará em algum tipo de consciência política ou de ação social concreta. Era simplesmente fascinada por essas pessoas.
Imagens em movimento de Silvina Ocampo, presentes no documentário “Las Dependencias”, de Lucrecia Martel, ilustram essa passagem e nos revelam sua figura enigmática.
Descemos na estação Béccar e caminhamos algumas quadras até em direção ao Rio da Prata e, pronto, os portões da Villa Ocampo, a casa de veraneio da família – hoje convertida em museu -, já aparecem no horizonte. A suntuosidade da casa contrasta com as ruas de Constituición por onde Silvina tanto caminhou e por onde Mariana ainda caminha.
Na Villa Ocampo, Silvina passou muitos de seus verões quando criança. Com o passar dos anos a mansão se tornou residência da sua irmã mais velha, Victoria, uma das mulheres mais importantes da história da Argentina.
Enquanto passeamos pelos cômodos e jardim da casa, Mariana nos conta sobre a relação das irmãs Ocampo.
Silvina e Victoria tinham uma relação conturbada. Victoria era bonita, inteligente, decidida, intelectual, moderna. Sur, a revista literária que fundou em 1931, foi uma das mais importantes do mundo: fez Borges famoso, tinha colaboradores como Pablo Neruda, Gabriela Mistral, Waldo Frank, Federico García Lorca. A editora de mesmo nome, que criou pouco depois, editou Jung, Virginia Woolf – de quem era amiga -, Nobokov, Sartre, Camus. Antifascista, antiperonista, feminista. Foi uma das primeiras mulheres argentinas a dirigir um carro; se separou do marido em 1920 e viveu um romance apaixonado com o diplomata Julián Martinez. Era uma mulher à frente de seu tempo.
Silvina se divertia irritando Victoria, cujas opiniões afiadas via como agressões indiretas, cuja vocação cultural lhe era alheia. Por outro lado, Victoria achava repugnante a mesquinharia de Silvina e achava indecente que, sendo rica, Silvina tivesse postulado uma bolsa e aceito o dinheiro quando a concederam. De acordo com o escritor Edgardo Cozarinsky, citado no livro de Mariana Enriquez sobre a escritora, Silvina Ocampo praticava, instintivamente, com habilidade consumada, esse “never explain, never apologize” que é marca significativa de personalidades fortes, mesmo quando exibem sua parte de fragilidade.
Ainda assim, quando sua irmã Victoria faleceu, Silvina escreveu um poema bonito e doloroso para ela:
Como siempre
Tengo los cajones llenos de cartas que nunca te mandé.
Pero ahora como um castigo de no haberte mandado las que podia mandarte no encontre tu dirección...
No la encontre en ninguna parte.
Te digo la verdad.
Y me contestarías
- Como siempre...
Pero esta vez, Díos mío, no me ofenderia.
No tengo tu dirección ahora tampoco.
Mariana Enriquez comenta sobre a poesia de Silvina Ocampo, tão diferente – salvo exceções – dos seus contos que parece ditada por outra personalidade, proveniente de uma mulher que é mais ordenada, menos despenteada, estranha, mas correta.
Para Mariana, grande parte da literatura de Silvina Ocampo parece contida na infância, nos quartos de serviço. Dali parecem vir seus contos protagonizados por crianças cruéis, crianças assassinas, crianças assassinadas, crianças suicidas, crianças abusadas, crianças piromaníacas, crianças perversas, crianças que não querem crescer, crianças que nascem velhas, crianças bruxas, crianças videntes; seus contos protagonizados por cabelereiras, por costureiras, por professoras, por videntes, por perturbados, por cachorros embalsamados. Uma das grandes influências da literatura de Silvina–
marcada pela repetição de tópicos como a metamorfose, os monstros, a crueldade – foram os contos de fadas.
Imagens de arquivo do documentário “Las Dependencias”, de Lucrecia Martel, mostram ilustrações e pinturas feitos por Silvina Ocampo. Acontece que antes de ser escritora, Silvina foi pintora. Todos que a conheceram a lembram desenhando, o tempo todo e em qualquer superfície. Seus desenhos estão dispersos por toda a cidade e o país.
A pintura influenciou a literatura de Silvina: a disposição de objetos estranhos, quase sinistros, no espaço, e também seu distanciamento do realismo, sua preferência pelas máscaras do que pelos homens verdadeiros.
De épocas e contextos socioeconômicos completamente diferentes, Mariana Enriquez e Silvina Ocampo se encontram e se separam em diferentes aspectos. A liberdade na qual viveu Silvina é algo que fascina Mariana. Ela nos conta que Ocampo se casou com Adolfo Bioy Casares, onze anos mais jovem que ela, em 1940. Viveram um tempo juntos antes de se casarem, algo pouco usual para a época. Mas Silvina não obedecia a ninguém: não se importava com o que podiam falar dela. Suas irmãs eram bastante liberais, o resto da sua família e as amizades, enfim, sua classe, não lhe importava.
“Nenhuma porta estalava, nenhum móvel: todos os objetos se ausentavam sobre o chão de terra. As paredes, o teto tinham se dissolvido, mas o homem sentiu, na irrealidade do quarto, uma presença viva. Dava as costas à janelinha; as paredes tinham se dissolvido, mas a janelinha, não. Incomodava-o ter costas; eram elas o lugar vulnerável do corpo; a fim de ignorar isso, ele virou bruscamente a cabeça e viu, pela primeira vez, um fantasma”.
[ Silvina Ocampo no conto “A última tarde”]
La Recoleta
Em trecho do documentário “Las Dependencias”, Adolfo Bioy Casares conta como se apaixonou por Silvina: “Minha mãe e meu pai eram amigos das Ocampo e eu conhecia todas menos Silvina. Minha mãe me disse: você tem que conhecê-la porque é a mais inteligente das Ocampo. Silvina vivia neste apartamento – da Rua Posadas – com sua mãe. Quando vi Silvina, me apaixonei. Foi arrebatador. Ela tinha um estúdio no piso superior e me convidou para subir e conversar. Eu me sentia tão atraído por ela que, sem ter trocado muitas palavras, ali mesmo no elevador, a abracei e a beijei. Ela me aceitou desde esse momento. O que foi um grande desgosto para meus pais, que queriam que eu casasse com uma senhorita da mesma idade ou um pouco mais jovem, Silvina era mais velha que eu. Choraram e tudo, mas depois passou o desgosto e fizeram amizade com Silvina”.
Mariana Enriquez nos leva pelas ruas do bairro de Recoleta, onde Silvina Ocampo e Adolfo Bioy Casares viveram grande parte de suas vidas.
Da relação com Bioy Casares veio a amizade com Jorge Luís Borges. “Yo sospecho que para Silvina Ocampo, Silvina Ocampo es una de tantas personas con las que tiene que alternar durante su residência en la tierra”, escreveu Borges sobre Silvina.
Borges acompanhou a vida de Silvina quase diariamente, desde meados dos anos 30.
Quando não estavam viajando – Borges em suas turnês, os Bioy em suas extensas férias – se viam todos os dias, seguramente todas as noites. Era uma amizade que parecia mais uma relação de família: não havia intimidade entre eles, não havia cumplicidade divertida, não havia dessas coincidências que entusiasmam. Mas a amizade era firme, afetuosa.
O verdadeiro amigo de Borges era, claro, Adolfo Bioy Casares. Eram, além disso, colaboradores literários: não só escreviam juntos, como se liam, liam outros autores, riam até a madrugada de suas piadas engenhosas, inclusive conspiravam. Porque, no plano de Borges de ocupar o espaço central na literatura argentina, então ocupados por correntes, estilos e tendências que, por distintos motivos, não gostava, Bioy e Silvina eram importantíssimos.
Não é que a amizade fosse apenas instrumental. O afeto sincero, inclusive a dependência, são absolutamente evidentes nesse monstro de três cabeças que constituíam Borges, Silvina e Bioy. A primeira ficção borgeana, “Pierre Menard, autor do Quixote”, aparece em 1939, no no. 56 da revista Sur. É um conto que desordena para sempre a literatura argentina, a deixa com as patas para cima. E está dedicado a Silvina Ocampo.
Borges, Bioy e Silvina comeram juntos a maioria das noites de suas vidas. As refeições eram em Rincón Viejo, em Villa Silvina – a casa de veraneio dos Bioy em Mar del Plata-, ou no apartamento da rua Posadas, mas sempre eram iguais: uma conversa que se estendia e que eventualmente se convertia em um diálogo entre Borges e Bioy, do qual Silvina se retirava, ou que continuava em outra parte da casa, entre eles dois. Silvina,
contam, os ouvia rindo, se divertindo e dizia a quem houvesse ficado com ela: “De qué se reirán estos idiotas”. Juntos, Borges, Bioy e Silvina organizaram a “Antologia da Literatura Fantástica, a primeira do gênero na literatura latino-americana.
Parque Chacabuco
“O Baixinho, como já era de costume, levou Jesualdo a um terreno baldio.
Enforcou-o com treze voltas de corda. O menino resistiu com força; chorava e gritava. O Baixinho declarou à polícia que tentou fazer com que ele se calasse porque não queria ser interrompido como em outras ocasiões: ‘O menino, eu agarrei com os dentes aqui, perto da boca, e o sacudi como fazem os cachorros com os gatos’. Essa imagem incomodava os turistas, que se remexiam nos bancos e diziam ‘Meu Deus’ em voz baixa. Não obstante, nunca lhe haviam pedido para interromper o relato. Depois de enforcar Jesualdo, o Baixinho o cobriu com uma placa e saiu para a rua. Mas algo o atormentava, uma ideia ardia em sua mente.
De modo que, em seguida, voltou à cena do crime. Levava um prego. Pregou-o na cabeça do menino, que já estava morto”.
[Mariana Enriquez, no conto “Pablito clavó un clavito: uma evocação do Baixinho Orelhudo”]
Em sua casa, localizada no bairro Parque Chacabuco, – local onde gosta de escrever – Mariana Enriquez nos conta como Silvina Ocampo influenciou sua escrita. Seus contos tem temáticas comuns como crianças cruéis, assassinatos, monstros. Há na literatura das duas, inclusive, uma crítica social. Mas, no caso de Silvina a crítica é voltada a sua própria classe, como um certo desprezo, mas descarregada de pensamento político. Já a de Mariana usa dos elementos sobrenaturais ou ditos, de terror, para tecer comentários e críticas sociais engajadas. Os arquétipos do terror a interessam na medida que podem se unir a situações cotidianas.
“Quando criança, eu lia mitos gregos e ouvia minha avó materna, que era de Corrientes, contar sobre santos populares como San La Muerte e Gauchito Gil. A migração do norte do país à região metropolitana de Buenos Aires mudou sua paisagem, com murais e oferendas a essas figuras. A maioria dos portenhos não entende isso e tem medo, um medo misturado à inquietude do outro que os traz: o imigrante. Não o imigrante europeu, mas o paraguaio, o correntino.”, relata Mariana.
Seu conto, “Pablito clavó un clavito”, por exemplo, rompe com o ideal do “bom imigrante” ao trazer a história de um assassino, Baixinho Orelhudo, que era, na realidade, italiano. “É uma provocação a essa ideia racista a favor dos imigrantes de pele clara. Eles eram paupérrimos, mas ‘pelo menos’ eram brancos”, ironiza. Segundo ela, há 100 anos os italianos tampouco eram bem-vistos pelos argentinos, mas logo o termo Tano (de Napolitano) foi ressignificado e hoje se refere ao estrangeiro que emigrou à Argentina para trabalhar. “Como se o boliviano que chega aqui hoje não fizesse o mesmo”, provoca em entrevista.
Nascida em 1973, no subúrbio de Lanús – apenas 15km de Buenos Aires cruzando a Puente Alsina - Mariana Enriquez só se mudou para a capital depois de formada em Comunicação Social.
“Lanús tem um nível de marginalidade antigo que é diferente da capital. Foi um importante polo industrial nos anos 1960 e 1970, mas se desindustrializou durante a ditadura. Eram todos bairros fabris habitados por operários de classe média, que foram perdendo sua identidade. Os imóveis vazios, a fábrica abandonada da Campomar, criam esse cenário de páramo que dá medo. Um medo misturado à tristeza. Desde então, as pessoas vêm a Buenos Aires para trabalhar porque o município nunca mais se recompôs economicamente”.
Rio Riachuelo
“Durante muito tempo as indústrias da carne e do couro da região despejavam ali seus resíduos, sem qualquer controle, e hoje é um rio completamente contaminado por metais pesados e lixo tóxico. O Riachuelo marca o limite sul entre a capital e municípios como Avellaneda, Lonas de Zamora e Lanús.
Também por isso me interessa simbolicamente, como zona de fronteira”, conta Mariana.
Nesse local, Mariana ambientou seu conto “Sob a água negra”, inspirado em um crime real cometido por policiais que fizeram um jovem nadar naquelas águas completamente poluídas. A partir dessa notícia, Mariana imaginou o que levaria um policial a pensar nesse tipo de tortura. Surgiu a ideia de que a poluição do Rio Riachuelo escondesse deuses que habitam em suas profundezas.
Escrever a partir de notícias de crimes e investigações também era algo que Silvina Ocampo fazia. Para os amigos era algo estranho, talvez mórbido, mas Silvina insistia que nada do que ela escrevia tinha a ver com a sua própria vida. Os atos cruéis de seus contos estavam tomados pela realidade, pelas notícias ou coisas que alguém havia lhe contado.
Bioy Casares dizia: “Silvina escrevia como ninguém no sentido de que não se parece a nada do que foi escrito e acredito que não recebeu influências de nenhum escritor. Sua obra parece como se houvesse influenciado a si mesma”.
São temas constantes nas narrativas de Silvina Ocampo: guerra entre adultos e crianças, as casas – tem uma verdadeira obsessão pelas casas em sua obra, a casa como último refúgio e também como o lugar que, quando se torna inimigo, é o mais perigoso de todos -, o gosto pelo detalhe e essa crueldade que costumavam a sinalizar com insistência e que para ela não parecia “crueldade”, mas um jogo, um exagero.
“A promotora Pinat levara dois meses investigando o caso. Depois de ter subornado policiais para que falassem, depois de ameaças e tardes de fúria provocadas pela incompetência do juiz e dos promotores anteriores, havia chegado a uma versão dos fatos que coincidia com as poucas declarações obtidas definitiva e formalmente: Emanuel López e Yamil Corvalán, os dois de quinze anos, voltavam de um baile em Constituición para suas casas na Villa Moreno, às margens do Riachuelo. Voltavam caminhando porque não tinham dinheiro para o ônibus. Foram interceptados por dois agentes da delegacia 34 e acusados de tentar roubar um quiosque: Yamil levava consigo uma faca, mas nunca se comprovou a intenção de assalto, não havia nenhuma denúncia. Os policiais estavam bêbados. Espancaram os adolescentes nas margens do Riachuelo até deixá-los quase inconscientes. Depois, aos pontapés, fizeram com que subissem as escadas de cimento até o mirante da ponte que cruzava o Riachuelo e os empurraram na água. ‘Assunto resolvido, aprenderam a nadar’, disse pelo rádio o oficial Cuesta, um dos acusados, o que estava agora em sua sala. O imbecil não tinha mandado apagar a conversa; a isto ela também estava acostumada por todos os seus anos na promotoria: à combinação impossível de brutalidade e estupidez da polícia”.
[Mariana Enriquez no conto “Sob a água negra”]
Autopista 25 de mayo | Conversa com Cristian Alarcón Caminhando por baixo da
Autopista 25 de mayo, Mariana Enriquez e o jornalista e amigo, Cristian Alarcón conversam sobre a literatura a partir da realidade, das notícias cotidianas que muitas vezes parecem contos de terror.
“Pontes e viadutos urbanos são, em geral, lugares sinistros, mas os da Autopista 25 de Maio têm um elemento ainda mais funesto, porque foram construídos durante a ditadura e sem o consentimento das pessoas, que tiveram suas
casas derrubadas. Não se negociou, foi uma ordem. A autopista que passa por cima dos bairros do sul, como San Telmo, Barracas e Constitución, é uma espécie de ferida urbana”, Mariana nos conta sobre o local.
Chileno residente há anos na Argentina, Cristian é diretor do mestrado em Jornalismo Narrativo e criador da Revista Anfíbia, uma publicação digital de crônicas e ensaios narrativos. Desde os anos 90, Cristian se dedicou ao jornalismo de investigação e escreveu crônicas para jornais como Página 12, Clarín, Rolling Stone, entre outras.
Publicou livros onde mistura literatura com a etnografia urbana convertendo acontecimentos urgentes em contos de não ficção. Também é criador do Laboratório de Jornalismo Performático, que convoca artistas e jornalistas a produzirem peças unindo a linguagem de amplas disciplinas.
Mariana e Cristian comentam sobre como usam as notícias em seus trabalhos como escritores e como veem a literatura de Silvina Ocampo inserida nisso. Conversam especialmente sobre “A Fúria”, livro de contos publicado em 1959, reconhecido como o mais “ocampiano” dos livros de Silvina. O livro onde encontrou essa voz única, onde delineou mais claramente seu universo.
Nesse livro, recém publicado pela primeira vez no Brasil pela editora Companhia das Letras, aparecem pela primeira vez alguns dos traços que se tornarão marcantes em sua literatura e que influenciaram as gerações seguintes: a metamorfose, a desconstrução do gênero (há um conto onde a narradora começa mulher e se transforma em homem), a relação de classes.
É nesse livro também que aparece sua linguagem coloquial. Mariana conta que Silvina Ocampo, diferente de Borges e Bioy Casares e mais alinhada a Cortázar e Manuel Puig, incorporava a seus contos a fala coloquial rio-platense. A estudiosa Noemí Ulla afirma que: “Com Cortázar, são os dois que iniciaram e aceitaram uma língua mais sensível com
o coloquial. O que acontece é que Cortázar é mais conhecido, então a atualização do idioma, a oralidade, atribuíram somente a ele. Não se notava tanto em Silvina porque não era tão lida”.
Mariana se pergunta: “Aonde se metia essa mulher, com quem falava, para manejar com tanta ironia e com tanta precisão os lugares comuns, a conversa irreflexiva, a fala de uma classe que não a sua e com a que apenas cruzava na vida cotidiana?”
“Não faltou gente mal-intencionada que me acusasse de ter incendiado de propósito as asas de Lavinia. A verdade é que posso me gabar de ter sido bondosa só com uma pessoa na vida: com ela. Eu vivia cuidando dela, dedicada como uma verdadeira mãe, educando-a, corrigindo seus defeitos: Lavinia era orgulhosa e medrosa. Tinha os cabelos compridos e claros, a pele muito branca. Para corrigir seu orgulho, um dia lhe cortei uma mecha, que guardei em segredo num relicário;
tiveram que cortar o resto dos cabelos, para igualá-lo. Em outro dia, derramei um frasco de água-de-colônia sobre o pescoço e a bochecha dela; sua pele ficou toda manchada”.
[Silvina Ocampo no conto “A Fúria”]
Ex- Esma [Antiga Escola Superior de Mecânica Armada]
Mariana Enriquez nos leva até o lugar onde hoje funciona o Espaço Memória e Direitos Humanos. A antiga Escola Superior de Mecânica Armada foi um emblemático centro de detenção, tortura e extermínio da ditadura cívico-militar argentina. Entre 1976 e 1983, cinco mil pessoas passaram por aqui. “Houve outros, mas este me inquieta particularmente porque fica em uma área rica e valorizada da cidade, não em um lugar distante e ermo. Era dali que saíam os aviões que lançavam os corpos no Rio da Prata”, conta a escritora.
Nesse cenário que mistura ruína com pesquisa histórica – ainda há uma parte sendo investigada – Mariana nos conta como se aproximou do gênero do terror.
Para ela, criança na época da ditadura, “a realidade era pior do que qualquer ficção poderia imaginar”. Quando a ditadura acabou, saíram diversas publicações que faziam uma exposição quase pornográfica dos horrores que haviam ocorrido. Mariana se lembra de ver essas publicações e ficar eternamente marcada por elas. “Todo esse universo fantasmagórico do literário ficou
Seu mais recente romance, “Nuestra Parte de Noche”, ganhador do importante Prêmio Herralde de Novela, aborda a relação entre pai e filho nos anos de ditadura. Para Mariana, “a vida é um conto de terror”. Talvez por isso sua literatura esteja impactando tantos críticos e leitores ao redor do mundo, com sua habilidade de trafegar entre o absurdo e o cotidiano e, através da lente do horror, nos fazer enxergar a realidade e refletir sobre ela.
Esse talvez seja um dos pontos de divergência entre Mariana Enriquez e Silvina Ocampo:
o pensamento político imbuído na literatura. Silvina Ocampo, apesar de sua insistente fascinação pelos pobres e trabalhadores, jamais tentou entender o que significava o peronismo para os milhões de marginalizados e explorados. Como toda sua classe, decidiu que era uma forma local de fascismo que devia ser combatido.
O feminismo tampouco a interessava. Enquanto Victoria, sua irmã, foi uma pioneira do feminismo latino-americano, Silvina tinha uma posição mais distanciada. O feminismo lhe parecia algo que não a concernia: ela havia sido, sempre, uma mulher livre. Viveu anos com Bioy Casares antes de selarem o matrimônio – um escândalo para época;
muito se comenta sobre as relações extraconjugais que ambos mantiveram – principalmente Bioy, e dos quais Silvina sabia (e sofria); rumores afirmam inclusive que ela era bissexual. Um dos romances mais notórios foi com a poeta Alejandra Pizarnik.
Não há comprovação de que foram amantes de fato, mas cartas comprovam uma paixão avassaladora de Alejandra por Silvina.
Talvez por ter conseguido viver sempre com tanta liberdade, Silvina não tenha se dado conta da importância do movimento feminista. Já Mariana Enriquez tem uma visão diferente sobre o assunto. Ela gosta de deixar claro que, assim como Silvina, acredita que o mais importante é a boa literatura: “Quando as boas intenções rompem as boas ficções, não me interessa”. Ou seja, Mariana não acredita em forçosamente pautar um tema em seus contos e transformá-los mais em panfletos do que em literatura.
Mas, em grande parte de seus escritos, as mulheres detém o protagonismo: “Destacar as mulheres com seus problemas e seus mundos era uma forma de tirar o protagonismo do homem. Nestas histórias eles não são nada, nem vilões. Eu não queria dar a eles outro protagonismo, de alguém que leva a narrativa adiante por heroísmo ou violência. Não pretendia castigá-los ou dizer que são maus, apenas dizer ‘chega de protagonizarem tudo”. E, ao fazer isso, muitos homens a questionam: “Por que nos fez passar por idiotas?”
“Nas artes ou na realidade, quase todos os vilões são homens, dos ditadores aos monstros e assassinos seriais. É engraçado que este protagonismo não lhes incomode, mas ser um marido incapaz de satisfazer sua mulher — o que ocorre em pelo menos 50%
dos casos —, isso, sim, lhes incomoda”, reflete a autora.
“É fácil ser feminista a partir de um lugar de poder, que, aliás, é bastante masculino. A Mulher Maravilha, por exemplo, é um soldado. Eu não queria reproduzir este modelo que pensa a mulher como uma deusa satisfeita sexual, financeira e filosoficamente
(porque ninguém o é, nem a Beyoncé), mas, sim, falar das questões femininas de uma forma mais complexa e problematizar o patriarcado”, defende. Muitos de seus contos problematizam, para além da questão do feminino, as relações de casais, o íntimo, a casa de classe média confortável [aqui novamente como Silvina Ocampo] e o próprio corpo.
“Meu pai costumava falar dessas valas comuns dos cemitérios, que ficavam ao ar livre como uma piscina de ossos, mas acho que não existem mais. Se ainda existem, será que não estão protegidas e vigiadas? Ele me dizia que os estudantes de medicina iam buscar ali seus esqueletos, os que usavam para estudar. De onde tiram, agora, os ossos para estudar? Ou será que usam réplicas de plástico?
Imagino que seja muito difícil caminhar pelas ruas com costelas humanas. Se encontrar algumas, usarei a mochila grande que Patricio deixou para carregá- las, a que usávamos para acampar quando ele ainda era magro. Todos caminhamos sobre ossos, é uma questão de fazer buracos profundos e alcançar os mortos encobertos. Tenho que cavar, com uma pá, com as mãos, como os cães, que sempre encontram os ossos, que sempre sabem onde os esconderam, onde os deixaram esquecidos”.
[Mariana Enriquez no conto “Nada de carne sobre nós”]
Cemitério de Recoleta
Caminhando pelo cemitério do bairro Recoleta, Mariana Enriquez fala sobre o apagamento das mulheres na literatura e a discussão sobre a recuperação da memória e da arte de mulheres esquecidas pela história.
Muitos veem o desconhecimento sobre a obra de Silvina Ocampo como um desses casos. Mas, para Mariana, o mais comum dos lugares comuns sobre Silvina Ocampo é considerar que ficou na sombra, escurecida, diminuída por sua irmã Victoria, seu marido, o escritor Adolfo Bioy Casares e o melhor amigo de seu marido, Jorge Luís Borges. Que a deixaram opaca. Ela acredita que é possível que a posição de Silvina seja mais complexa. Quem a admira fervorosamente decreta sem dúvida que foi ela quem escolheu esse segundo plano. Dizem que assim podia controlar melhor aquilo que desejava controlar. Que a vida pública nunca a interessou, e sim, ter uma vida privada livre e menos vigiada o possível. Que, na verdade, ela inventou seu mistério para não ter que dar explicações.
Mariana diz que há um mito criado em torno da figura de Silvina, sempre muito misteriosa, de que seus livros se perderam em um limbo de indiferença. Na pesquisa para seu livro, “La hermana menor”, Mariana encontrou inúmeras resenhas escritas nas épocas dos diferentes lançamentos de seus livros. Ainda assim, Silvina sentia falta de ser lida pelo grande público. Queria que suas obras fossem mais populares. “Que es el êxito?
Saber que uno há conmovido a alguién. Es claro que cuando te conmuevo a vos, siento que es y ala gloria, algo muy importante que influirá sobre la historia de la literatura,
Ainda assim, Silvina Ocampo não estava disposta a fazer o necessário para “ser famosa”.
Não ia a apresentações, nem no rádio, nem na televisão, não dava palestras. Não gostava de sair. Se tinha que ir a um evento público por obrigação, ficava aparte, calada.
“No soy sociable, soy íntima”, dizia. Seu comportamento ajudou a construir essa neblina de mistério que envolve sua figura e sua literatura.
Caminhando pelas tumbas, Mariana revela que, ao contrário de muitos, ela gosta de cemitérios. Inclusive publicou um livro de crônicas intitulado
“Alguién camina sobre tu tumba”, onde relata seus passeios por diferentes cemitérios pelo mundo.
“Para as pessoas da minha geração, que cresceram no clima mórbido da pós-ditadura lendo notícias explícitas sobre torturas, sequestros e crianças
apropriadas, o que dá medo não é
a tumba, mas a falta dela, os corpos não identificados jogados em valas comuns. Um cemitério onde há mortos com nomes e datas é um lugar que me tranquiliza”, ela conta.
“Narrativamente, o fenômeno de um corpo desaparecer é de uma sofisticação literal do horror, porque criam-se fantasmas sociais. A ditadura argentina é sinistra”.
Chegamos até a jazida da família Ocampo, onde Silvina está enterrada. Não há nenhuma placa que leve seu nome, que indique que seus restos descansam ali.
Irmã de Victoria Ocampo, esposa de Adolfo Bioy Casares, amiga íntima de Jorge Luís Borges, uma das mulheres mais ricas e extravagantes da Argentina, uma das escritoras mais talentosas e estranhas da literatura em espanhol: todas essas nomenclaturas não a explicam, não a definem, não servem para entender seu mistério. Nunca trabalhou por dinheiro – não precisava -, não participou de nenhum tipo de atividade política (nem sequer política cultural), publicou seu último livro quatro anos antes de morrer (e escreveu inclusive quando já tinha os primeiros sintomas de Alzheimer, com quase noventa anos) e sua vida social, sempre reduzida, foi-se fazendo nula com os anos, algo quase desconhecido em mulheres de sua classe. Silvina Ocampo é uma escritora a ser desvendada. Sua literatura destemida abriu portas para escritoras como Mariana Enriquez que, através de um gênero muitas vezes menosprezado, nos ajuda a enxergar os absurdos de nossa própria realidade.
“Amparadas pela escuridão, meninas surdas-mudas se demoraram nos balanços, movendo-se para cima e para baixo freneticamente; os uniformes escolares voavam ao vento: não se avistavam seus rostos nem suas mãos; pareciam
fantasmas, Erínias de gesso. Mulheres enlutadas, cheirando a laranja, carregavam as tochas.
Pouco a pouco, a praça se iluminou. As meninas pararam de se balançar. Elas e os cachorros se juntaram à procissão. O frio, a chuva influíram na repercussão dos sons: estes ressoavam como se estivessem sendo emitidos dentro de uma gruta que houvesse se multiplicado e se dividido para sempre”.
[Silvina Ocampo em A criação (conto autobiográfico)]
Silvina Ocampo Mariana Enriquez