TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE SÃO PAULO SEÇÃO DE DIREITO PRIVADO. 27a Câmara APELAÇÃO S/ REVISÃO. No /3. Comarca de SÃO JOSÉ DO RIO PRETO

Texto

(1)

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE SÃO PAULO

SEÇÃO DE DIREITO PRIVADO

27a Câmara

APELAÇÃO S/ REVISÃO

No.1145444- 0/3

Comarca de SÃO JOSÉ DO RIO PRETO

Processo' 2098/06 7.V.CÍVEL

APTE PORTO SEGURO CIA DE SEGUROS GERAIS

APDO MARIA JOANA DOS SANTOS

Interes. RUBENS ALEXANDRE DOS SANTOS

(2)

A C Ó R D Ã O

Vistos, relatados e discutidos estes autos, os desembargadores . .desta turma julgadora da Seção de Direito Privado do Tribunal de Justiça, de conformidade com o relatório e o voto do relator, que ficam fazendo parte integrante deste julgado, nesta data, rejeitaram a preliminar e negaram provimento ao recurso, por votação unânime.

Turma Julgadora da 27a Câmara

RELATOR DES. BERENICE. MARCONDES CÉSAR

2o JUIZ DES. ERICKSON GAVAZZA MARQUES

3o JUIZ DES. DIMAS RUBENS FONSECA

Juiz Presidente DES. ANTÔNIO MARIA

Data do julgamento: 03/03/09

DES. BERENICE MARCONDES CESAR

(3)

Voto n° 4708

AÇÃO DE COBRANÇA - DPVAT - aplicação da legislação vigente à época do acidente - COM PROVAÇÃO DO PAGAMENTO DO SEGURO OBRIGATÓRIO

- desnecessidade - a Lei não exige a apresentação do D.U.T. nem outra prova qualquer do pagamento do prêmio a ele relativo - súmula n° 257, do C. STJ -

ACIDENTE CAUSADO POR TRATOR

- irrelevância – o trator está sujeito ao seguro obrigatório - indenização devida – no caso de morte, o valor da indenização deve corresponder a 40 vezes o valor do maior salário-mínimo, tendo aplicação o art. 3o, da Lei n°. 6.194/74, que não foi revogado pelas Leis n°. 6.205/75 e n°. 6.423/77.

PRELIMINAR REJEITADA. RECURSO DA RÉ NÃO PROVIDO.

Trata-se de ação de cobrança (DPVAT) ajuizada por MARIA JOANA DOS SANTOS contra PORTO SEGURO CIA DE SEGUROS GERAIS, julgada procedente pela r. sentença (fls.

53/60), cujo relatório adoto, que condenou a Ré ao pagamento da importância reclamada na inicial correspondente a R$ 14.000,00, devidamente corrigida, além do pagamento das custas processuais e honorários advocatícios fixados em 10% sobre o valor atribuído à causa,

corrigido.

Inconformada, a Ré interpôs o presente recurso de apelação (fls. 62/72), alegando, em preliminar, carência da ação, por impossibilidade jurídica do pedido, em virtude da pretensa indenização não acobertar sinistros que envolvam tratores utilizados para fins agrícolas.

Afirmou que o evento não poderia ser considerado acidente automobilístico, por inexistir

recolhimento do prêmio do seguro. No mérito, discorreu sobre a desvinculação da indenização DPVAT ao salário-mínimo, bem como sobre a competência do CNSP para regular em matéria de seguros. Afirmou que o art. 3o, da Lei n° 6.194/74 é incompatível com o art. 7o, IV, da CF e com as Leis n° 6.205/75 e 6.423/77. Por fim, requereu o provimento do recurso.

(4)

O recurso foi regularmente processado e preparado.

É o relatório.

Trata-se de apelação interposta contra r. sentença que julgou procedente ação de cobrança de seguro obrigatório de danos pessoais causados por veículos automotores de vias terrestres - DPVAT.

Segundo consta da inicial e do boletim de ocorrência (fls. 08), no dia 16.DEZ.1988, por volta das 20h:30min, na Estrada Municipal Tanabi/lbiporanga, zona rural da cidade de Tanabi, o trator CBT 1090, Perkins, cor amarela, conduzido por José Antônio Martinez, caiu numa valeta de canalização de água de mais ou menos 2 metros de profundidade e provocou a morte do filho da Autora/Apelada, passageiro do referido trator, o que deu ensejo a ação de cobrança.

Na hipótese dos autos, não há discussão quanto ao acidente ocorrido, mas sim discussão quanto à possibilidade ou não do pagamento da indenização securitária, por envolver um trator, bem como do valor dessa indenização.

Em que pesem as alegações da Apelante, o recurso não merece prosperar.

Inicialmente, cabe ressaltar ser aplicável ao caso concreto a redação da Lei n° 6.194/74 vigente à época dos fatos, que previa a indenização de 40 salários-mínimos no caso de morte da vítima, sendo, portanto, inaplicável ao caso a Lei n° 11.482/07, que converteu em lei a Medida Provisória n° 340/2006, por serem diplomas posteriores ao fato gerador da

indenização postulada nestes autos.

(5)

Em primeiro lugar, deve ser destacado que a falta do pagamento do prêmio do seguro obrigatório não autoriza a recusa no pagamento da indenização, conforme art. 5o, da Lei 6.194/74, "O pagamento da indenização será efetuado mediante simples prova do acidente e do dano decorrente, independentemente da existência de culpa, haja ou não regresso, abolida qualquer franquia de responsabilidade do segurado."

Logo para o pagamento da indenização as únicas provas exigidas são a da ocorrência do acidente de trânsito e do dano.

Esse, ademais, é o entendimento sumulado pelo C.STJ, conforme enunciado de n° 257, in verbis:

"A falta de pagamento do prêmio do seguro obrigatório de Danos Pessoais Causados por Veículos Automotores de Vias Terrestres (DPVAT) não é motivo para a recusa do pagamento da indenização."

Ilustra a jurisprudência do C. Superior Tribunal de Justiça:

"CIVIL. SEGURO OBRIGATÓRIO. DPVAT. ACIDENTE CAUSADO POR VEÍCULO SEM SEGURO. EVENTO ANTERIOR À LEI N. 8.441/92. IRRELEVÂNCIA. RESPONSABILIDADE DE QUALQUER SEGURADORA. PRECEDENTES. RECURSO PROVIDO. - Mesmo nos acidentes ocorridos anteriormente à modificação da Lei n. 6.194/74pela Lei n. 8.441/92, a falta de pagamento do prêmio do seguro obrigatório de Danos Pessoais Causados por Veículos Automotores de Vias Terrestres (DPVAT) não é motivo para a recusa do pagamento da indenização." (REsp 503604/SP - Ministro SÁLVIO DE FIGUEIREDO TEIXEIRA - T4 - QUARTA TURMA – DJ 29/09/2003 p. 267).

Ademais, como salientado pelo magistrado "a quo", a indenização prevista na lei que dispõe sobre o seguro obrigatório também acoberta sinistros que envolvem tratores utilizados para fins agrícolas.

(6)

pavimentação e tracionar outros veículos e equipamentos".

Desse modo, o trator, por ser veículo automotor e suscetível de circular em vias terrestres, está sujeito ao seguro obrigatório, independentemente do local onde tenha ocorrido o acidente e independentemente do pagamento do prêmio do seguro obrigatório.

Nesse sentido, colacionam-se os seguintes julgados:

C. Superior Tribunal de Justiça:

"CIVIL E PROCESSUAL. AÇÃO DE COBRANÇA. SEGURO OBRIGATÓRIO DE

RESPONSABILIDADE CIVIL DOS PROPRIETÁRIOS DE VEÍCULOS AUTOMOTORES DE VIA TERRESTRE (DPVAT). RECURSO ESPECIAL. NULIDADE DO ACÓRDÃO. CPC, ART.

535. INOCORRÊNCIA. ACIDENTE CAUSADO POR TRATOR. COBERTURA DEVIDA. COR REÇÃO MONETÁRIA. SÚMULA N. 43/STJ. RESPONSABILIDADE CONTRATUAL. JUROS MORATÓRIOS. TERMO INICIAL. CITAÇÃO. I. Quando resolvidas todas as questões

devolvidas ao órgão jurisdicional, o julgamento em sentido diverso do pretendido pela parte não induz nulidade.

II. Os sinistros que envolvem veículos agrícolas passíveis de transitar pelas vias terrestres estão cobertos pelo DPVAT.

III. Não labora ex officio, ultra petita ou em infringência ao princípio da ne reformatio in pejus o acórdão que, nas instâncias ordinárias, disciplina a incidência dos juros moratórios e da

correção monetária, independentemente de pedido específico das partes. IV. "Incide correção monetária sobre dívida por ato ilícito a partir da data do efetivo prejuízo" - Súmula n. 43/STJ. V.

No caso de ilícito contratual, situação do DPVAT, os juros de mora são devidos a contar da citação. VI. Recurso especial conhecido em parte e, nessa extensão, parcialmente provido."

(REsp 665282 /SP - Ministro ALDIR PASSARINHO JÚNIOR - T4 - QUARTA TURMA - DJe 15/12/2008). (destacado)

E. Tribunal de Justiça de São Paulo:

(7)

provocado por trator, ocasionando a morte do filho da apelada

- Seguradora que se recusou a efetuar pagamento de indenização no valor de 40 salários mínimos, tal como previsto em lei -

Inclusão de trator no conceito legal de veículo automotor – Precedentes nesse sentido - Indenização devida

- Valor estipulado em salários mínimos - Critério legal e específico, que não se confunde com índice de reajuste – Lei 6.194/74 não revogada pelas Leis 6.205/75 e 6.423/77 - Súmula 37 do extinto T TAC - Recurso improvido, sentença mantida."(Apelação s/ Revisão N° 1.075.960-0/9 - 28a Câmara da Seção de Direito Privado - Rei. Des. CARLOS NUNES - DJ: 02/12/08).

(destacado)

Quanto ao valor da indenização, o C. Superior Tribunal de Justiça já assentou o entendimento no sentido de que as Leis n°. 6.205/75 e n°. 6.423/77 não revogaram o art. 3o, da Lei n°

6.194/74, e a indenização em caso de morte atinge o valor de quarenta (40) salários-mínimos.

Nesse mesmo sentido é a Súmula 37 do E. extinto Primeiro Tribunal de Alçada Civil, - "Na indenização decorrente de seguro obrigatório, o art. 3o da Lei 6.194/74 não foi revogado pelas Leis 6.205/75 e 6.243/77".

Verifica-se que a jurisprudência se firmou nesse sentido, entendendo que a fixação da

indenização, tendo como base o salário-mínimo não é proibida, por cuidar somente de critério de cálculo:

C. Superior Tribunal de Justiça:

"ACÓRDÃO: RESP 296675/SP (200001421662) - 451596 RECURSO ESPECIAL - DATA DA DECISÃO: 20/08/2002 - ÓRGÃO JULGADOR: - QUARTA TURMA -EMENTA -CIVIL. SEGURO OBRIGATÓRIO (DPVAT). VALOR QUANTIFICADO EM SALÁRIOS MÍNIMOS. INDENIZAÇÃO LEGAL. CRITÉRIO. VALIDADE. LEI N. 6.194/74. RECIBO. QUITAÇÃO. SALDO

REMANESCENTE. I. O valor de cobertura do seguro obrigatório de responsabilidade civil de veículo automotor (DPVAT) é de quarenta salários mínimos, assim fixado consoante critério legal específico, não se confundindo com índice de reajuste e, destarte, não havendo

incompatibilidade entre a norma especial da Lei n. 6.194/74 e aquelas que vedam o uso do salário mínimo como parâmetro de correção monetária. Precedente da 2ª Seção do STJ (REsp n. 146.186/RJ, Rei. p/ Acórdão Min. Aldir Passarinho Júnior, por maioria, julgado em

12.12.2001). II. O recibo dado pelo beneficiário do seguro em relação à indenização paga a

(8)

RELATOR: MINISTRO ALDIR PASSARINHO JÚNIOR".

E. extinto Primeiro Tribunal de Alçada Civil de São Paulo:

"PROCESSO: 1060780-2 - RECURSO: Apelação -ORIGEM: Guaratinguetá - JULGADOR: 11a Câmara - JULGAMENTO: 16/09/2004 - RELATOR: Vasconcellos Boselli -REVISOR:

Constança Gonzaga -EXTINÇÃO DO PROCESSO - Seguro obrigatório - Responsabilidade civil - Alegada falta de interesse de agir, ante a ausência do pedido pela via administrativa -

Hipótese em que não se pode impedir a Autora de exercitar o seu direito constitucional de acesso ao judiciário - Preliminar rejeitada. SEGURO OBRIGATÓRIO - Responsabilidade civil - Acidente de trânsito - Vítima fatal - Indenização fixada em salários mínimos - Possibilidade - Artigo 3o, da Lei n° 6.194/74, não revogado pelas Leis n° 6.205/74 e n° 6.423/77, que só proíbem a vinculação de salário mínimo como fator de correção monetária - Súmula n° 37, do Io Tribunal de Alçada Civil - Alegação de irretroatividade da Lei n° 8.441/92 - Irrelevância, eis que referido diploma legislativo apenas explicitou o caráter compulsório do seguro obrigatório, o que já vinha sendo amplamente reconhecido pela jurisprudência - Desnecessidade de apresentação de comprovante do pagamento do prêmio - Súmula 257 do Superior Tribunal de Justiça - Ação julgada procedente - Recurso improvido."

"PROCESSO: 1266807-6 - RECURSO: Apelação Sum - ORIGEM: São José do Rio Preto - JULGADOR: 3a Câmara (Extinto Io TAC) - JULGAMENTO: 17/03/2005 - RELATOR: Salles Vieira - SEGURO OBRIGATÓRIO - Responsabilidade civil - Atropelamento por coletivo -

Indenização - Percentual - Autor que sofreu invalidez permanente – Indenização em percentual de 100% - Aplicação do artigo 3o, letra "b" da Lei 6.194/74 – Apelo do autor provido.

ILEGITIMIDADE "AD CAUSAM" - Seguro obrigatório - DPVAT - Atropelamento praticado por coletivo - Seguro não realizado – Carência da ação afastada - Aplicação do disposto no artigo T da Lei n° 8.441/92, que alterou dispositivos da Lei 6.194/74 - Inaplicabilidade das Resoluções n° 01/75 e 06/86 - Responsabilidade da empresa de seguro reconhecida, que poderá exercer o direito de regresso contra a empresa de transporte coletivo - Apelo do réu improvido. SEGURO OBRIGATÓRIO - DPVAT - Valor da indenização - Alegação de que o valor da indenização não é de 40 salários mínimos - Valor que não pode ser usado como fator de correção -

Necessidade da fixação em 50% do teto estabelecido pelo CNSP - O valor de cobertura do seguro obrigatório de responsabilidade civil de veículo automotor (DPVAT) é de quarenta salários mínimos, assim fixado consoante critério legal específico, não se confundindo com índice de reajuste e, destarte, não havendo incompatibilidade entre a norma especial da Lei n.

(9)

Considerando o preceito legal e a jurisprudência uma fonte informativa de direito, prevalece a tese da Autora/Apelada.

As Resoluções do Conselho Nacional de Seguros Privados são normas infralegais, que não prevalecem contra a lei, que é ato normativo primário.

Esclarece o v. acórdão/voto n° 49 relatado pelo i. Des. Ronnie Herbert e Soares: "A quitação só é dada sobre aquilo que foi pago, como estabelece o artigo 320 do Código Civil. Por óbvio, o que não foi pago não está quitado. Não há que se falar em ato jurídico perfeito (artigo 5o,

XXXVI, da Constituição) ( ) A atribuição

administrativa do Conselho Nacional de Seguros Privados não importa em supressão do

devido processo

legislativo, não podendo essa entidade, à guisa de regulamentar a Lei, pretender revogá-la. Irrelevantes as regras emitidas pelo CNSP e pela SUSEP ao disciplinar a matéria regulada expressamente pela lei quando com ela conflitam. A própria apelante transcreve o art. 12 da Lei n. 6.194/74, cujo texto é elucidativo ao fixar o papel e o limite das normas a serem estabelecidas pelo Conselho Nacional de Seguros Privados:

"normas disciplinadoras e tarifas que atendam o disposto nesta lei". A regulamentação, por certo, não pode infringir a lei, modificar suas disposições ou ultrapassar o que nela está determinado."

(destacado)

Portanto, a r. sentença não exige reforma e o recurso não prospera.

Ante o exposto, REJEITO A PRELIMINAR, CONHEÇO e NEGO PROVIMENTO ao recurso de apelação interposto pela Ré, mantendo a r. sentença.

Berenice Marcondes César

Relatora

Imagem

Referências

temas relacionados :