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Competitividade na indústria de charutos da Bahia*

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Foto: Gilberto Melo

Augusto César Pinto Paes Nunes**

Luiz Gonzaga Mendes***

José Alexandre de Souza Menezes****

uso do fumo no continente americano, notadamente na região do Caribe e no Brasil, remonta ao período pré- colombiano, sendo aqui utilizado pelos índios nas suas pajelanças - rituais mágicos, espirituais e medicinais. Na região caribenha, os silvícolas entrelaçavam folhas de tabaco, a que davam o nome de Cohiba, usando-as assim no ato de fumar. Mas a cultura do fumo em

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folha como insumo básico para a indústria de charuto se dá, no Brasil, a partir do primeiro quartel do século XIX, iniciando-se na Bahia, onde encontrou solo e clima propícios e aonde chegou a pontilhar, por muito tempo, como um dos pilares da economia estadual, em que pese descrever em sua trajetória uma espécie de alternância entre prosperidade e crises.

O Brasil produz charutos puros, todos feitos à mão, comparáveis aos de Cuba e da República Domini- cana, porém, no âmbito interna- cional, a produção não é expressiva e as marcas não têm charme nem tradição. O Recôncavo da Bahia é a região produtora e onde se situam as famosas fábricas que abastecem o mercado doméstico e exportam principalmente para a Europa e os Estados Unidos.

O

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O fumo produzido na Bahia basicamente se divide em dois tipos:

o Brasil-Bahia, de coloração castanha, do tipo dark air cured, variando do marrom bem claro ao escuro, sendo esta última cor proveniente do processo de fermentação, e o Sumatra, originário da Indonésia e introduzido no Brasil pela Suerdieck, em 1943, para elaboração de charutos com capas claras. Vale ressaltar sua excelente qualidade – destaque para o fumo proveniente da região da Mata Fina – chegando a disputar com Cuba o título de O mais aromático do mundo. Há mesmo quem prefira – como os alemães - o fumo baiano ao produzido no Caribe.

A região fumageira baiana compreende 36 municípios, di- vididos em quatro zonas: Mata Norte (onze municípios) entre Feira de Santana e Alagoinhas; Mata São Gonçalo (dez municípios) entre Feira de Santana e Cachoeira; Mata Fina (seis municípios) em torno de Cruz das Almas e Mata Sul (nove municípios) entre Santo Antônio de Jesus e Amargosa.

O processo de fabricação dos charutos da indústria baiana, de um modo geral, desde o final dos anos oitenta e o início dos anos noventa do século XX, concentra-se, e se aprimora mais ainda, na produção de charutos feitos à mão, puros, com 100% de fumo, sem aditivos químicos. A fabricação deste tipo de charuto é um procedimento secu- lar na região do Recôncavo e tra- dicionalmente feito por mulheres – as charuteiras. O corpo de um charuto é formado por três partes:

a) Torcida, que é a sua parte central, também chamada de miolo ou bucha; b) Capote, a sobrecapa ou cinta que reveste a torcida; c) Capa, que é o arremate final, a folha externa do charuto.

Bons charutos se obtêm sabendo combinar fumos na formulação das torcidas e na perícia da escolha das folhas para os capotes e capas e

observando-se ainda a qualidade das safras e o descanso dos fumos.

O trabalho manual de hábeis charuteiras, na arrumação perfeita das folhas nas torcidas, no preparo dos capotes e das capas e no esmero dos bicos é condição sine qua non para a confecção dos charutos de qualidade superior.

Mesmo com todo potencial, a agroindústria fumageira da Bahia deixou de ser destaque no cenário econômico do Estado.

A cultura fumageira no Estado da Bahia, sobretudo na região do Recôncavo, e, conseqüentemente, a produção industrial de charutos e cigarrilhas viveram anos de prosperidade no passado. Há cerca de 40 anos, entretanto, as empresas do ramo têm experimentado dias difíceis, algumas das quais sucumbiram diante das dificuldades enfrentadas. As indústrias que conseguiram sobreviver vêm-se revelando inexpressivas no cenário do mercado internacional desses produtos ante a concorrência com suas congêneres de outros países.

Trata-se de um contexto histórico de crise que se expressa na retração de mercado e fechamento de empresas.

A grande expansão do fa- brico desse produto constitui-se, principalmente, no fato de essa região possuir excelentes condições edafo-climáticas para o cultivo de fumo de grande qualidade, tanto para o miolo como para o capote e capa.

Aliando-se a isso, outros fatores determinam também a relevância desse segmento econômico para o Estado da Bahia: além de ser um importante empregador, pelo fato de esse tipo de indústria utilizar de maneira intensiva a mão-de-obra, há toda uma cultura voltada para a economia fumageira, que vem sendo perpetuada desde o século passado (A PRODUÇÃO..., 2002).

Tornou-se relevante investigar os aspectos que contribuíram para o declínio dessa indústria, como

também o s fatores que vêm sustentando a sobrevivência de algumas empresas e o surgimento de outras, sinalizando, novamente, para um possível crescimento desse setor.

Por constatar que, no decorrer das últimas décadas, a compe- titividade passa a ser um elemento determinante na sustentação e crescimento da maior parte dos empreendimentos econômicos em todo o mundo, torna-se pertinente analisar, sob esse enfoque, os fatores que causaram o declínio e a sustentação dessa indústria na Bahia.

Esse artigo analisa, de forma breve e integrada, os fatores determinantes da competitividade na indústria de charutos da Bahia e apresenta elementos e indicadores que possam subsidiar ações governamentais e empresariais voltadas para o seu fortalecimento, tanto no sentido de gerar mais empregos, como no de criar condições cada vez mais sólidas para essa indústria acompanhar as novas demandas do mercado nacional e internacional.

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Após pouco mais de trinta anos de decadência e estagnação, o mercado mundial de charutos experimentou ou foi exposto a um período de grande crescimento. No maior mercado do mundo – os Estados Unidos – aconteceu um expressivo aumento do seu consumo, trazendo reflexos em vários outros países. O consumo de charutos nos EUA foi realimen- tado, principalmente em relação aos charutos tipo prem ium – inteiramente confeccionados à mão

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– motivando um salto nas importações de 117,8 milhões de unidades em 1992 para 519,2 milhões em 1997. Entretanto, o mercado importador americano estabilizou-se num patamar duas vezes e meio maior que no início da década de noventa do sécu- lo XX, importando, nos anos de 2000 e 2001, aproximadamente 250 milhões de unidades/ano (SHANKEN, 2003; TOBACCO REPORTER MAGAZINE, 2003).

Houve, portanto, um boom na década de noventa do século passado, no mercado americano de charutos, especialmente nas categorias dos charutos supe- riores. Os dois principais países exportadores para os EUA – República Dominicana e Honduras – aproveitaram o momento e ampliaram suas produções e exportações de modo significativo.

O Brasil, mesmo com tradição secular de cultivo de fumo e fabricação de charutos, não desempenha papel de destaque nesse mercado especial e, prin- cipalmente, no mercado dos EUA.

O Brasil, em 1997, detinha apenas 0,3% de participação nas vendas do mercado dos EUA (WORD TRADE ATLAS citado por PROMO..., 1998).

O mercado europeu, prin- cipalmente a Europa Ocidental, também se constitui em um im- portante mercado consumidor e produtor de charutos. Quanto à produção, a Europa destaca-se, inclusive tradicionalmente, por produzir charutos e cigarrilhas de forma mecanizada. Neste aspecto, a Holanda é um dos princi- pais países avançados tecno- logicamente, detendo uma pro- dução anual bastante elevada de 1,6 bilhões de unidades por ano, somente para exportação, conforme Negreiros (2002), se comparada com a produção mundial de premium cigars.

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O mercado brasileiro de charutos, comparado com os principais países consumidores do mundo, é um mercado modesto. De acordo com Mário Portugal, o consumo interno tem aumentado, sendo comercializados aproxi- madamente 14 milhões de unidades de charutos ao ano, incluindo-se os produzidos no Brasil, os importados legalmente e os contrabandeados (CHARUTOS..., 2001; LEMOS, 2001). A produção nacional de charutos e cigarrilhas se realiza quase que totalmente na Bahia e, em particular, na região do Recôncavo.

A produção baiana e, con- seqüentemente, do Brasil, em 2000, foi de sete milhões de unidades de charutos, de acordo com Silva (2001), enquanto em 2001, produziram-se na Bahia seis milhões de unidades (PORTUGAL citado por LEMOS, 2001). Após o mercado ter dado alguns sinais de recuperação, a produção de charutos e cigarrilhas da Bahia procura acompanhar esses sinais, sendo avaliada pela Secretaria da Agricultura do Estado em dez milhões de unidades, destas aproximadamente sete milhões são de charutos da categoria premium (A INDÚSTRIA..., 2002).

Quanto ao consumo dos charutos importados no Brasil, os cubanos têm a preferência dos brasileiros. Segundo Lessa (2000), o Brasil fica com um modesto reparte de seis milhões de charutos cubanos. Entretanto, atualmente, 70% do mercado nacional é dominado pelos charutos baianos (BARRETO citado por VIEIRA,

2002). Cerca de 80% da produção da Bahia é direcionada para o mercado interno, principalmente para São Paulo e Rio de Janeiro. O excedente, atualmente, é exportado (A INDÚSTRIA..., 2002). Os prin- cipais clientes internacionais são:

Alemanha, Suíça, Estados Unidos, Canadá e, mais recentemente, Portugal e Holanda.

A indústria A indústria A indústria A indústria A indústria de charutos de charutos de charutos de charutos de charutos na Bahia e a na Bahia e a na Bahia e a na Bahia e a na Bahia e a competitividade competitividade competitividade competitividade competitividade

A competição foi ativada de maneira substancial no decorrer das últimas décadas, na grande maioria dos países. Raros são os setores, hoje em dia, nos quais a competição ainda não alterou a estabilidade ou a dominação dos mercados. Toda empresa, para sobreviver, deve assimilar e pôr em prática a competição com alto grau de habilidade.

As características estruturais básicas de uma indústria apontam, com segurança, o elenco das suas forças competitivas, desse modo também, o nível da sua rentabilidade. Para se organizar uma estratégia competitiva numa empresa é imprescindível, por conseguinte, como condição ne- cessária, identificar as carac- terísticas estruturais da indústria na qual ela está inserida.

Porter (1986) considera que a concorrência em uma indústria advém de cinco forças competitivas básicas: ameaça de novos entrantes, intensidade da rivalidade entre os concorrentes existentes, pressão dos produtos substitutos, poder de negociação dos compradores e poder de negociação dos for- necedores.

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Dentre as forças competitivas apontadas por Porter (1986), que caraterizam a dimensão estrutural da competitividade em uma in- dústria, destacam-se na indústria de charutos da Bahia, primeiro aquelas relacionadas às barreiras a empresas entrantes potenciais. Inexiste obstáculo baseado em economias de escala.

A diferenciação do produto para o sucesso competitivo na indústria de charutos em todo o mundo tem um significado estratégico fundamental tanto, e principal- mente, no segmento dos charutos superiores, mas também, nos segmentos dos charutos mais populares e menores, onde se situam, inclusive, as cigarrilhas.

A essência de um charuto é o seu blend, ou seja, a combinação de elementos, especialmente a mistura do seu insumo básico – o fumo em folha – que propicia cor, sabor, cheiro e maciez agradáveis ao fumante, acabamento, textura e compressão que possibilitem fumá- lo adequadamente sem muito esforço, através do acendimento fácil, da queima contínua e da obtenção de um bom fluxo de fumaça (PAES et al., 1999). Aliam- se ainda a esse conjunto de particularidades os seus variados formatos que incluem comprimento, diâmetro e forma das suas extremidades; os diversos tipos de material ou condições de embalagem que devem ser homogêneas em seu conteúdo; suas formas de acomodação nos pontos de venda, que devem ser em gôndolas especiais, preferen- cialmente dotadas de equipa- mentos que controlem a tem- peratura e a umidade e até os tipos e locais dos estabelecimentos em que são expostos à venda.

Todos estes elementos, aliados naturalmente aos preços, oferecem ao produto – charuto – condições

de obter a fidelidade por parte dos consumidores, seguida da fixação da sua marca, da formação da imagem da empresa fabricante e, por fim, do conhecimento do setor industrial de onde se origina.

A indústria de charu tos do Estado da Bahia é composta, atualmente, de dez empresas, a seguir relacionadas segundo o município onde se localiza.

Alagoinhas: CHABA – Charutos da Bahia Ltda; Cachoeira:

PARAGUAÇU – Coml. de Charutos Paraguaçu Ltda e TALVIS – Talvis Cigarrilhas e Charutos; Cruz das Almas: JOSEFINA – Josefina Tabacos do Brasil Ltda, LE CIGAR – Manufatura Tabaqueira Le Cigar Ltda, MR – MR Charutos Ltda e QUITÉRIA TABACOS – Charutos Quitéria; Maragogipe: MATHEÓ – Matheó Charutos e Cigarrilhas Ltda;

São Félix: DANNEMANN – Cia.

Brasileira de Charutos Dannemann;

S. Gonçalo dos Campos: MENENDEZ AMERINO – Menendez Amerino &

Cia. Ltda.

Das sete empresas produtoras de charutos surgidas na Bahia nos últimos sete anos, seis têm como foco principal a produção de charutos elaborados totalmente à mão, contendo 100% de fumo e sem aditivos químicos em seu processo de fabricação, juntamente com as mais antigas – Dannemann, Menendez Amerino e Paraguaçu, de acordo com o Promo... (1998), exceto a Talvis, cuja prepon- derância é a produção de cigarrilhas, bem como de marcas mais populares de charutos produzidas também através do uso de máquinas. A Menendez Amerino tem seu processo de fabricação de charutos totalmente manual. Os charutos são elaborados com folhas de fumo inteiras, selecionadas da melhor procedência e não são usadas máquinas na sua produção (PAES et al., 1999). Exemplificam a

importância dada por esta empre- sa à diferenciação, as caracterís- ticas peculiares de alguns dos seus produtos: os charutos Dona Flor, Alonso Menendez, Alonso Menendez Reserva Especial e as cigarrilhas Gabriela e St. James.

A diferenciação do produto, na indústria de charutos da Bahia, é uma força competitiva que afeta fortemente a concorrência e se constitui para o setor em barreira à entrada. A busca incessante das empresas por conquistar a fideli- dade dos seus clientes e para tornar suas marcas conhecidas através de altos investimentos em publicidade e, principalmente, através das peculiaridades existentes em seus produtos, tornandoos em qualidade singulares aos consumidores, é característica visível dessa indústria.

Neste segmento industrial, a garantia da distribuição dos pro-

Foto: Gilberto Melo

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dutos e a qualidade são fatores essenciais para obtenção e ma- nutenção de competitividade. O acesso aos canais de distribuição, especialmente no médio e longo prazos, é necessário, como realça Porter (1986). No entanto, há uma deficiência de um modo geral na indústria de charutos da Bahia, relativa a acesso aos canais de distribuição dos seus produtos, não a ponto de constituir-se em uma barreira à entrada, contudo fator determinante para manutenção da sua competitividade, tanto no mercado interno, quanto, em especial, no mercado externo.

Em termos de política gover- namental, a indústria do fumo, em muitos países do mundo, assim como a de charutos da Bahia, em particular, tem sido prejudicada em termos de lucratividade por praticamente não dispor de um

instrumental impulsionador de vendas importantíssimo - a pro- paganda. No Brasil, especialmente, a fiscalização por parte da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) do Ministério da Saúde, quanto às restrições à propaganda e publicidade, bem como à forma de apresentação das embalagens dos produtos, impostas pela legislação, têm sido bastante rigorosas e punitivas.

Algumas das indústrias de charutos da Bahia, como a Menendez Amerino, na tentativa de superar este obstáculo, procuram atuar, juntamente com as demais empresas do ramo que são filiadas, através do Sindicato da Indústria do Fumo do Estado da Bahia. Perante o Ministério da Saúde este sindicato luta no sentido de desvincular o charuto da imagem do cigarro, pleiteando tratamento diferenciado no tema fumo e saúde. Justifica este pleito mediante a natureza dos seus produtos e do seu perfil mercadológico – produto de confec- ção exclusivamente manual, caro e elitista, fumaça não tragada pelo consumidor, consumo em geral limi- tado a uma unidade por dia, perfil majoritário do fumador de charutos como homem e adulto, entre outros pontos (CHARUTOS..., 2001).

Apesar de intrínseco à natureza da indústria fumageira e, con- seqüentemente, da indústria de charutos da Bahia, este obstáculo não se constitui em barreira à entrada de novas empresas, tendo em vista o espaço a ser explorado na tentativa de sua superação.

Campanhas que fujam ao padrão tradicional, buscando novas mídias e linguagens, como patrocínios a festas, encontros e eventos privados são alternativas às res- trições antitabagistas impostas e se constituem em novas formas de vender as marcas desta tradicional indústria baiana.

Dentre os fatores sistêmicos, os fatores macroeconômicos e os de natureza internacional levantados por Coutinho e Ferraz (1994), que influenciam a competitividade, principalmente no mercado externo (taxa de câmbio, oferta de crédito, taxa de juros e políticas de comércio exterior) estão presentes no ambiente onde atuam as empresas da indústria de charutos da Bahia.

Dos elencados, o que mais tem exercido influência é a taxa de câmbio, já que é inexpressiva a capitalização das empresas deste segmento industrial via créditos bancários, notadamente pelas altas taxas de juros que vigoram no mercado financeiro interno há mais de uma década.

Dificuldades vivenciadas no dia- a-dia das empresas produtoras de charutos da Bahia, em especial as de menor porte, para conseguir realizar operações de exportações, complexas por natureza, constituem em um dos maiores obstáculos à conquista e manutenção da competitividade deste segmento econômico. Esta constatação levou o Governo do Estado da Bahia, através do Centro Internacional de Negócios da Bahia (Promo), do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE) e do Sindicato da Indústria do Fumo do Estado da Bahia, a criarem o Programa de Promoção Comercial de Charutos Brasileiros para o Mercado Norte-americano (SEBRAE, 1999).

Apesar de bem concebido, não logrou o êxito necessário e esperado de alavancagem das vendas dos charutos para os EUA. Falhas de ordem operacional/administrativa, falta de uma verdadeira vontade/

decisão política, ausência de entro- samento entre seus signatários, dentre outros, foram os motivos do sucesso, apenas parcial, deste

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programa, especialmente dedicado aos premium cigars baianos (feitos à mão).

Um dos fatores que mais tem afetado negativamente a com- petitividade no setor industrial de charutos, alvo de constantes reclamações por parte dos seus empresários e pelo sindicato que os representa, tem sido o de natureza fiscal. A indústria reclama prin- cipalmente do Imposto sobre Produto Industrializado (IPI) que durante o governo Sarney, foi reajustado em 100% (elevando o índice de 15 para 30%), per- manecendo sem revisão até os dias atuais. Considerando o IPI, o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) substituto, o ICMS normal e o Programa de Integração Social (PIS) – Contribuição para Financiamento da Seguridade Social (COFINS), a carga tributária total do valor recebido pela produção é de aproximadamente 82%

(PORTUGAL citado por A INDÚSTRIA..., 2002).

Na concorrência internacional com os charutos cubanos, a situação fiscal, tanto no mercado doméstico como no internacional, principalmente na Comunidade Européia, é extremamente des- favorável aos produtos do Brasil.

Aqui os charutos procedentes de Cuba são beneficiados pela isenção do Imposto de Importação (I. I.), que o governo concedeu, baseado em um acordo de preferência assinado em 1990 (BRUIN, 2000). Na Comunidade Européia, por sua vez, enquanto os charutos brasileiros são taxados em 26% pelo Imposto de Importação, os de origem caribenha são favorecidos com o índice zero de taxação.

A indústria de charutos da Bahia encontra-se afetada pela ausência de “finanças industrializantes”

(COUTINHO; FERRAZ, 1994).

Diminuta oferta de financia- mentos públicos a juros módicos não satisfaz a necessidade de capitalização das empresas. Por outro lado, elevadas taxas de juros aplicadas a financiamentos privados afastam o empresariado de recorrer a esta outra fonte de capitalização.

Também os fumicultores são atingidos por esta ausência de finanças industrializantes, na medida em que o crédito rural ainda é burocratizado, escasso, inoportuno e dificultado em de- corrência da estrutura fundiária e da produção em pequena escala, características peculiares aos minifúndios, onde se desenvolve a quase totalidade da lavoura do fumo.

A competitividade do segmento industrial aqui discutido é afetada negativamente pela forte con- corrência desleal dos charutos contrabandeados e falsificados, de origem majoritariamente cubana.

Apesar de não dispor de dados oficiais sobre o montante de charutos que entram no mercado brasileiro de forma ilegal, so- negando impostos, o Sindicato da Indústria do Fumo da Bahia estima que, de cada dez unidades de charutos vendidas, seis têm origem ilegal, o que representa cerca de 60% do mercado (PORTUGAL citado por CHARUTOS..., 2001).

Não escapam deste processo nem os charutos que afirmam ter a marca de cubanos ou os procedentes da República Dominicana. Nesse comércio ilegal, também se inserem charutos falsificados, elabora- dos por empresas clandestinas (MENDONÇA, 2003).

Devido às peculiaridades in- trínsecas à indústria de charutos instalada no Recôncavo Baiano, desde o início do século XIX, destacam-se, dentre os fatores que afetam sua competitividade na dimensão empresarial, aqueles denominados, por Coutinho e Ferraz (1994), de estratégia e gestão.

Novamente, pode-se citar como exemplo, a empresa Menendez Amerino que, desde a sua fundação, em 1977, optou claramente como estratégia competitiva produzir charutos de categoria superior, denominados premium cigars.

Para assim ser reconhecido pelo mercado consumidor, é condição necessária produzi-los com o máximo rigor em qualidade. Desde que se compõe essencialmente de folhas de fumo, a qualidade imposta ao produto final decorre basicamente da qualidade das folhas nele utilizadas. Este en- tendimento é reconhecido e as- similado pela empresa através da sua gestão empresarial, sempre focada em torno do seu insumo básico. A própria história da sua fundação foi alicerçada nesse entendimento. Após Revolução na sua terra natal, os Menendez, família de cubanos produtores de charutos e profundos conhecedores dos fumos necessários a sua elaboração, se deslocaram para o Recôncavo Baiano. Queriam trabalhar numa região que, ex- cetuando-se Cuba, era a única no mundo capaz de produzir, ao mesmo tempo e com qualidade, fumo em folha para as três partes que compõem o charuto – bucha, capote e capa (UM HÁBITO..., 2002).

O sistema de produção de fumos em folhas e capas da referida empresa é realizado através de parcerias com municípios e também

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com fumicultores que produzem com quase exclusividade para a Menendez Amerino, que fornece insumos, tecnologia e assistência técnica para seus parceiros no campo (MENENDEZ & AMERINO, 2002). Desse modo, percebe-se a importância estratégica do processo de aquisição dos fumos, principal arena onde se estabelece a competitividade da indústria charuteira da Bahia.

Conclusões e Conclusões e Conclusões e Conclusões e Conclusões e sugestões sugestões sugestões sugestões sugestões

O principal fator que explica a competitividade das empresas produtoras de charutos, no Recôncavo da Bahia, consiste na qualidade do seu insumo básico – fumo - utilizado na sua produção.

A diferenciação dos produtos é outro fator decisivo para se estabelecer de forma competitiva no mercado. Quanto mais os produtos dessa indústria apresentarem particularidades que os diferenciem, maiores serão as chances das suas marcas serem fixadas junto ao público consumidor, conquistando sua fidelidade e gerando vendas.

A distribuição ampla e adequada dos produtos, através de canais competentes, é outro fator que guarda relação direta com o sucesso competitivo da indústria focada.

Não adianta gerar qualidade e não ser competente para torná-la disponível e desfrutada, especial- mente quando se trata de produto supérfluo e destinado a um público mais elitizado.

Outro fator fundamental para galgar competitividade na indústria de charutos, especialmente a da Bahia, constitui-se na divulgação e

promoção abrangentes das suas marcas. Fato constatado quando se afirma que as marcas baianas não têm charme nem tradição, especialmente no mercado inter- nacional, apesar da qualidade do produto.

O contrabando e as falsificações que contaminam o mercado con- sumidor de charutos têm exercido, especialmente no Brasil, uma concorrência bastante desleal e comprometedora da competi- tividade das marcas nacionais.

A alta incidência de impostos na cadeia produtiva de charutos e cigarrilhas e o benefício fiscal concedido ao principal concorrente – os charutos cubanos – constituem- se em fatores que também pro- vocam concorrência desleal e comprometem o sucesso compe- titivo da indústria charuteira local.

Ausência de estrutura nas empresas e de apoio governamental para operações de exportação, difíceis e burocratizadas por natureza, tornam-se elementos impeditivos com vistas à inserção no mercado internacional, bem como de alavancagem competitiva.

A política cambial executada pelo governo poderá constituir-se ora em fator favorável à compe- titividade (câmbio desvalorizado), ora em fator desfavorável (câmbio sobrevalorizado).

Visando aumentar a com- petitividade da indústria de charutos da Bahia, sugere-se:

a) aperfeiçoar a qualidade do fumo em folha produzido na Bahia, através do revigoramento e fortalecimento do Programa de Revitalização da Cultura do Fumo no Estado da Bahia, coordenado pela Secretaria da Agricultura do Estado (BAHIA, 1999);

b) imprimir marca própria aos seus produtos, através de linhas de crédito destinadas a programas de promoção comercial dos charutos baia- nos, no exterior, nos moldes do elaborado em 1998/1999 pelo PROMO/SEBRAE-BA, bem concebido e formulado, mas de execução operacional incon- sistente;

c) superar a ausência de

“Finanças Industrializantes”, através de política indus- trial, executada pelo Governo Federal, que contemple oferta de crédito para atividades exportadoras e de uso inten- sivo de mão-de-obra, de for- ma oportuna, desburocratizada e suficiente, pelos agentes financeiros estabelecidos pelo Governo, sejam públicos ou privados;

d) estabelecer acordos co- merciais, capazes de am- pliar oportunidades em setores competitivos e eliminar dis- torções tributárias no âmbito do comércio internacional, como as impostas aos charutos brasileiros na União Européia, em comparação com nossos principais concorrentes, os cubanos;

e) implementar, com urgência, a reforma tributária, procurando eliminar benefícios fiscais inaceitáveis como o concedido às importações de charutos cubanos no Brasil;

f) reforçar o desempenho dos pequenos empreendimentos charuteiros, através de um programa de formação e for- talecimento de cluster;

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g) criar e promover eventos, de cunho publicitário, em espaços que abriguem confraria de apreciadores de charutos, visando atenuar as limitações impostas pela legislação à propaganda dos produtos derivados do tabaco;

h) implementar ações rotineiras de combate ao contrabando e às falsificações de charutos, notadamente cubanos, utilizan- do as estruturas da Receita e da Polícia Federais.

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Foto: Gilberto Melo

Referências

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