UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ
FACULDADE DE DIREITO
REBECA DA SILVEIRA KATAOKA
O SIGILO BANCÁRIO E OS INTERESSES DA
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. GARANTIAS À
PAZ E SEGURANÇA INTERNACIONAL.
REBECA DA SILVEIRA KATAOKA
O SIGILO BANCÁRIO E OS INTERESSES DA
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. GARANTIAS À PAZ
E SEGURANÇA INTERNACIONAL.
Monografia de conclusão de Curso, apresentada
como exigência parcial para a obtenção do grau de
Bacharel em Direito, sob a orientação da Professora
Denise Lucena Cavalcante.
REBECA DA SILVEIRA KATAOKA
O SIGILO BANCÁRIO E OS INTERESSES DA ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES
UNIDAS. GARANTIAS À PAZ E SEGURANÇA INTERNACIONAL.
Monografia submetida a apreciação, como parte dos requisitos
necessários à obtenção do titulo de bacharel em Direito,
concedido pela Universidade Federal do Ceará (UFC).
Aprovada em 21 de dezembro de 2006.
BANCA EXAMINADORA:
Professora Denise Lucena Cavalcante
Orientadora / Presidente da Banca Examinadora
Professora Deborah Sales Belchior
1º Examinador
DEDICATÓRIA
Aos meus pais, Roberto e Angela, que me
possibilitaram mais esta conquista.
Às minhas irmãs, Raquel e Roberta, pela companhia
em todos os momentos.
À minha avó, Margarida,
in memoriam,
sempre a
primeira a me apoiar em todos os meus sonhos e
conquistas. Saudades.
A todos que compõem o escritório Rocha, Marinho E
Sales S/S, pelo apoio, pelo aprendizado e pela
oportunidade.
Aos doutores Kowalski, Luciano Dib e José Carlos,
pois sem eles jamais teria conseguido obter esta e
tantas outras vitórias.
AGRADECIMENTOS
A Deus, por ter me permitido cursar a Faculdade de
Direito da Universidade Federal do Ceará.
À Faculdade de Direito da Universidade Federal do
Ceará, por ter me proporcionado a oportunidade de
reafirmar antigos sonhos.
À Professora Denise Lucena Cavalcante, por ter
sempre me assistido quando a procurei buscando
orientação.
À Professora Deborah Sales Belchior, por todo o
aprendizado
que
me
foi
conferido,
pelas
oportunidades, e por aceitar fazer parte da banca
examinadora deste trabalho monográfico.
Ao Professor Francisco Paulo Brandão Aragão, por
todo o aprendizado em Direito Bancário e Comércio
Exterior.
A toda a equipe de médicos, enfermeiros,
atendentes e demais funcionários do Hospital do
Câncer – AC Camargo, pelo carinho, atenção e
dedicação.
Aos amigos Gleidson e Rafael, por sua ajuda com a
apresentação.
Todos os seres humanos nascem livres e iguais em
dignidade e direitos. São dotados de razão e
consciência e devem agir em relação uns aos outros
com espírito de fraternidade.
RESUMO
O ideal de uma paz durável tem sido visado por todas as Nações e por um grande
número de instituições nacionais e internacionais. Deve-se destacar, neste âmbito, a
atuação da Organização das Nações Unidas - ONU, que teve como objetivo principal
de sua criação a manutenção da paz e da segurança internacional. Em sua busca
por atingir estes ideais, contudo, a ONU tem encontrado diversas dificuldades e
alguns obstáculos. Dentre eles, observa-se que a proteção ao sigilo bancário tem se
apresentado como importante fator para a disseminação de atividades criminosas
cuja atuação transpõe as fronteiras dos países. Assim, a fim de se combater as
organizações criminosas transnacionais, têm sido realizados esforços no sentido de
que a quebra do sigilo bancário não seja limitado aos casos em que houver
permissão do judiciário, conferindo-se à Administração Pública a possibilidade de
realizá-la, a fim de se promover um combate mais eficaz a tais práticas. Destarte,
debate-se sobre a necessidade de promover tal flexibilização, quais os interesses
protegidos e os benefícios à sociedade que serão promovidos com a modificação da
compreensão atual acerca da garantia ao sigilo bancário.
ABSTRACT
The ideal of a lasting state of peace has always been followed by every Nation and a
large number of national and international institutions. The United Nations – UN, in
this view, has an importat role, since it was created to maintain peace and
international security. Searching the achieve of this ideals, however, the UN has
found many difficulties and some obstacles. Among them, the protection to banking
secrecy has been observed as an important mean to disseminate criminal activities
which goes beyond the countries boundaries. Therefor, looking for fight against the
transnational organized crime, efforts has been made in the meaning that the
banking secrecy break do not continue limitated to judiciary permission, so the public
administration will also have the possibility to do it, giving it the possibility to fight
those acts in a more efficient way. Therefor, the debate is about the necessity to
promote this flexibility, the interests protected and the benefits to society which will be
promoted with the modification of the comprehension about banking secrecy.
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ... 10
2 A ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS ... 13
2.1 Histórico... 13
2.2 A Organização das Nações Unidas ... 18
2.2.1 Assembléia Geral... 22
2.2.2 Conselho de Segurança ... 24
2.3 Princípios e Objetivos ... 27
3 O SIGILO BANCÁRIO ... 29
3.1 Origem Histórica... 29
3.2 Conceito ... 31
3.3 Natureza Jurídica ... 32
4 O SIGILO BANCÁRIO E OS INTERESSES DA ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES
UNIDAS... 36
4.1 O Sigilo Bancário: visão da situação internacional ... 36
4.2 A posição da Organização das Nações Unidas acerca do tema... 38
4.3 Ações da Organização das Nações Unidas relativas ao Sigilo Bancário . 39
5 O SIGILO BANCÁRIO COMO INSTRUMENTO DO CRIME ORGANIZADO
TRANSNACIONAL ... 41
5.1 Histórico do Crime Organizado Transnacional ... 41
5.2 O Crime Organizado Transnacional ... 42
5.2.1 Lavagem de dinheiro ... 43
5.2.2 Corrupção... 44
5.2.3 Narcotráfico ... 46
5.2.4 Terrorismo ... 47
5.2.5 Tráfico de Armas ... 47
5.2.6 Tráfico de Pessoas... 48
5.2.7 Crimes Ambientais ... 49
5.3 Ações da Organização das Nações Unidas contra o Crime Organizado
Transnacional... 49
5.3.1 A Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado
Transnacional ... 51
5.3.2 Os Protocolos suplementares à Convenção... 52
5.4 Considerações relevantes acerca do Crime Organizado Transnacional .. 53
6 CONCLUSÃO ... 55
REFERÊNCIAS... 56
ANEXOS
...
61
Anexo II – Protocolo adicional à Convenção das Nações Unidas contra o
Crime Organizado Transnacional relativo à prevenção, repressão
e punição do tráfico de pessoas, em especial mulheres e crianças.
Promulgada no Brasil pelo Decreto nº. 5.017, de 12 de março de
2004... 90
Anexo III – Protocolo adicional à Convenção das Nações Unidas contra o
Crime Organizado Transnacional, relativo ao Combate ao Tráfico
de migrantes por via terrestre, marítima e aérea. Promulgada no
Brasil pelo Decreto nº. 5.016, de 12 de março de 2004... 101
Anexo IV – Protocolo contra a Fabricação e o Tráfico Ilícito de Armas de Fogo,
suas peças e componentes e munições, complementando a
Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado
Transnacional. Promulgada no Brasil pelo Decreto nº. 5.941, de
26 de outubro de 2006... 114
Anexo V – Convenção Internacional para Supressão do Financiamento do
A garantia ao sigilo bancário é assegurada em grande parte dos países, ainda
que não de forma absoluta em sua maioria, tendo, nos últimos anos, se evidenciado
a gravidade de seu potencial como obstáculo aos organismos internacionais, com
destaque à Organização das Nações Unidas – ONU, principalmente no que
concerne ao combate à atuação de organizações criminosas transnacionais.
No Brasil, a principal divergência quanto à questão da proteção ao sigilo
bancário decorre daqueles que afirmam que se encontra fundamentado no art. 5º,
inciso X da Constituição Federal
1, que estabelece o direito à intimidade e à vida
privada, enquanto outros negam esta assertiva.
A Carta Magna garante o direito à intimidade, à privacidade e à inviolabilidade
da transmissão de dados
2. A questão tem origem, destarte, no fato de o direito à
privacidade e à intimidade não terem definição positivada, restando, assim, no
campo da interpretação. Baseando-se nisso, muitos doutrinadores têm se esforçado
em incluir o direito ao sigilo bancário como intrínseco à intimidade pessoal. Alguns,
por crerem estar defendendo o cidadão de intromissões indesejadas do Estado,
outros por defenderem os interesses dos bancos.
A proteção ao sigilo bancário, contudo, deve ser analisado de forma bastante
cautelosa, observando-se, sempre, o interesse maior da sociedade. Não apenas da
sociedade brasileira, mas de todo o mundo, pois se sabe que a proteção ao sigilo
bancário tem servido como instrumento para a disseminação de organizações
criminosas em todo o globo.
1 “Art. 5º.”
... "X – são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito à indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação.” (BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil, Brasília, DF, Senado, 1988. In: Vade Mecum acadêmico de direito, organizado por Anne Joyce Angher. 3.ed. São Paulo: Rideel, 2006).
2 “Art. 5º.”
... “XII – é inviolável o sigilo da correspondência e das comunicações telegráficas, de dados e das comunicações telefônicas, salvo, no último caso, por ordem judicial, nas hipóteses e na forma que a lei estabelecer para fins de investigação criminal ou instrução processual penal.” (BRASIL.
Neste sentido, cumpre salientar que o sigilo bancário não pode se sobrepor
ao interesse público, obedecendo-se o princípio da prevalência do interesse público
sobre o interesse privado, princípio este imanente à ordem jurídica. Assim, a
proteção outorgada pelo ordenamento jurídico ao sigilo bancário não pode ser
manipulada como impediente à concretização do interesse coletivo ou como
instrumento destinado ao encobrimento de comportamentos ilícitos.
Sob esse aspecto, vale ressaltar que diversos países já adotaram legislações
que permitem o acesso aos dados bancários sem a necessidade de determinação
judicial, como Portugal
3, país em que legislação neste sentido foi adotada no ano
2000, permitindo que a administração tributária tenha acesso a tais dados, nos
casos especificados em lei, com o objetivo principal de combater a atuação de
instituições criminosas, inclusive organizações criminosas transnacionais, que se
utilizam de países que protegem o sigilo bancário de forma praticamente absoluta,
como é o caso do Brasil.
A atuação das organizações criminosas transnacionais tem sofrido
considerável aumento em todo o mundo, sabendo-se que as pátrias que garantem o
sigilo bancário, praticamente de forma incondicional, são responsáveis pela
facilitação da alarmante disseminação de suas atividades.
Com esse pensamento, instituições de todo o planeta têm realizado estudos
no que concerne a essa garantia, sempre com o foco no bem-estar da sociedade
global.
Além disso, a Organização das Nações Unidas, bem como outros organismos
internacionais, tem defendido que sejam adotadas legislações menos rígidas em
relação a esta proteção, de forma a facilitar o combate ao crime organizado.
Destarte, é de fundamental importância que seja reavaliada e repensada a
legislação pátria no que concerne à garantia deste sigilo, avaliando-se até que ponto
o sigilo bancário pode ser garantido sem que a sociedade seja prejudicada.
3 PORTUGAL. Lei 30-G/2000, de 29 de dezembro de 2000. Disponível em:
http://www.dgci.min-financas.pt/dgciappl/informacaoDGCI.nsf/0/9c5e56bd36514d2e002569d8005ea6f4?OpenDocument.
2 A ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS
2.1 Histórico
O ideal de uma paz estável e constante, mantida por um sistema permanente
de segurança coletiva, tem sido visado por todas as Nações, devendo-se dar
destaque, neste sentido, aos esforços que foram depreendidos nos últimos cem
anos, por sua importância, para que fosse atingido o atual estágio de
desenvolvimento e disseminação dos organismos e organizações internacionais.
Héctor Gros Espiell se refere à paz como uma aspiração universal fundada
em uma idéia comum a todos os membros da espécie humana que é, assim como a
dignidade, um elemento inerente à personalidade humana de todos os indivíduos,
sem prejuízo da diversidade, concepções e particularidades das diferentes culturas e
civilizações. Afirma que a luta pela paz é dever de todos, tanto um dever individual
quanto coletivo, pois o direito à paz está contido no direito de viver. Assim se refere
o Autor:
La paz es una aspiración universal de entrañable raiz humana. Es una aspiración fundada en una idéia común a todos los miembros de la especie humana.
Constituye un valor, un principio y un objetivo.
Así como la dignidad es un elemento inherente a la personalidad humana de todos los individuos, así como los derechos humanos, todos los derechos humanos, son patrimonio común e inalienable de todas las personas, la idea de paz y la necessidad de su realización anida en la mente y en el corazón de todos los seres humanos.
Podrán existir, según las distintas tradiciones culturales y religiosas, según las diferentes civilizaciones, según los diversos momentos históricos, particularidades específicas o apreciaciones no absolutamente coincidentes de lo que significa la paz o de los elementos que la componen.
Pero la esencia de la paz, la convicción de su necesidad, es y ha sido común a todas las culturas, si se exceptúan las aberraciones que, como expresión del mal, nunca han dejado de existir en la historia de la humanidad.
Por eso, al igual que con respecto a lo que pasa con los derechos humanos, la paz es un ideal común y universal, sin perjuicio del reconocimento de la diversidad, de las concepciones y de las particularidades en las diferentes culturas y civilizaciones.
Ya dijimos, y ahora reiteramos, que el derecho a la paz está contenido y en cierta forma constituye una proyección del derecho a vivir.4
Tal ênfase se justifica pela ressalva de que, embora a tendência de se buscar
a paz remonte aos primórdios da sociedade, as organizações internacionais nos
moldes atuais, com fins políticos, modos de decisão por maioria, poder regulamentar
e personalidade internacional, apenas tiveram início com a criação da Liga das
Nações, após a Primeira Guerra Mundial.
5Os avanços, científicos e tecnológicos, que possibilitaram um maior
intercâmbio entre as Nações foram os principais desencadeadores desta tendência,
ao mesmo tempo em que foram, também, instrumentos facilitadores da expansão
dos conflitos.
6Neste sentido, observam-se, ao longo da História, quatro principais tratados
de ordem internacional, que foram gerados com o objetivo de promover a paz
mundial:
4 (Tradução livre) “A paz é uma aspiração universal de entranhada raiz humana. É uma aspiração fundada em uma idéia comum a todos os membros da espécie humana.
Constitui um valor, um princípio e um objetivo.
Assim como a dignidade é um elemento inerente à personalidade humana de todos os indivíduos, assim como os direitos humanos, todos os direitos humanos, são patrimônio comum e inalienável de todas as pessoas, a idéia de paz e da necessidade de sua realização que existe na mente e no coração de todos os seres humanos.
Poderão existir, segundo as distintas tradições culturais e religiosas, segundo as diferentes civilizações, segundo os diversos momentos históricos, particularidades específicas ou apreciações não absolutamente coincidentes do que significa a paz ou dos elementos que a compõem.
Mas a essência da paz, a convicção de sua necessidade, é e foi comum a todas as culturas, com exceção das aberrações que, como expressão do mal, nunca deixaram de existir na história da humanidade.
Por isso, da mesma forma que a respeito do que ocorre com os direitos humanos, a paz é um ideal comum e universal, sem prejuízo do reconhecimento da diversidade, das concepções e das particularidades nas diferentes culturas e civilizações.
Lutas para que este ideal comum e universal se concretize por meio da ação política e jurídica e pela luta individual, na realidade da vida, em cada momento da história e em cada lugar do planeta, é dever de todos e de cada um, considerando esse dever tanto individual como coletivamente. Lutar na mais ampla acepção, por todos os meios eticamente admissíveis, de acordo com o direito vigente, quando esse direito é legítimo e justo, ou para mudar esse direito positivo quando é ilegítimo, injusto ou opressivo.
Já dissemos, e agora reiteramos, que o direito à paz está contido e de certa forma constitui uma proteção ao direito de viver.” (ESPIELL, Héctor Gros. El derecho humano a la paz. In: Anuario de derecho constitucional latinoamericano 2005. 11º año. Tomo II. Konrad-Adenauer-Stiftung E. V. Fundación Konrad-Adenauer, Oficina Uruguay. Impresso por Mastergraf. Uruguay, 2005. p. 519-520). 5 MELLO, Celso D. de Albuquerque. Curso de direito internacional público. v. I. 15 ed. revista e ampliada. Rio de Janeiro: Renovar, 2004, p. 627.
A Paz de Westfália, em 1648, foi firmada com o fim de encerrar as guerras
religiosas na Europa, afastando a ingerência da Igreja e do Sacro Império
Romano-Germânico nos assuntos internacionais que apenas diziam respeito aos Estados
Nacionais. Assim se refere Gerson de Britto Mello Boson a este importante marco do
Direito Internacional:
Na História preliminar do Direito Internacional formulado, os Tratados de Westfália (1648) podem ser indicados como um seguro ponto de referência. Assinalam o amadurecimento das idéias que solaparam o medievalismo continental, negam, definitivamente, a supremacia do Império e da Igreja, e revelam a consciência geral de uma comunidade de Estados, que se reconhecem como iguais, que podem estabelecer, livremente, o seu estatuto político, contanto que dentro dos princípios ali estipulados. Na verdade, monarquias absolutas como a França e a Áustria sentam-se e deliberam ao lado de repúblicas como Veneza, e de reinos moderados como a Inglaterra. A fé religiosa deixa de ser obstáculo aos entendimentos, não se furtando os países católicos de assinar, ao lado de países protestantes, consagrando-se o cisma da Reforma. Aumenta-se a família internacional com o reconhecimento de diversos Estados.7
O Congresso de Viena reuniu representantes de quase todos os países
Europeus que, após a derrota de Napoleão em Waterloo, objetivavam estabelecer
uma nova ordem baseada no princípio do equilíbrio europeu, mantendo no poder as
antigas dinastias.
O Tratado da Santa Aliança foi assinado no mesmo ano, criando-se um
sistema de mútuo socorro entre as dinastias européias, que atuou, inclusive, contra
as revoluções liberais latino-americanas.
8Segundo Scipione Gemma, “nenhuma assembléia diplomática, depois da de
Westphalia, defrontara-se com tão graves problemas, tratando-se ali de reorganizar
tôdas as nações da Europa e de fixar suas relações recíprocas no futuro”.
9A importância do Congresso de Viena para toda a comunidade internacional
pode ser observada na análise de Gerson Britto Mello Boson:
À ata final do Congresso foram anexados diversos tratados, declarações, protocolos, regulamentos, que refizeram o mapa político da Europa, mas
7 BOSON, Gerson de Britto Mello. Curso de direito internacional público. v.1. Belo Horizonte: Livraria Bernardo Alves Editora, 1958. p. 41-42.
8 ARAÚJO, Luis Ivani de Amorim. Curso de direito internacional público. 4. Ed. Revista e atualizada por ARAÚJO, Maria Yvette Sampaio Araújo. Rio de Janeiro: Ed. Forense, 1984. p. 370-371.
9 GEMMA, Scipione. História dos tratados e dos atos diplomáticos europeus desde o Congresso de
também firmaram disposições concernentes à classificação dos agentes diplomáticos, ao tráfico dos negros, à navegação dos rios internacionais e ao reconhecimento e garantia da neutralidade perpétua da Suíça. A interdependência dos povos, crescente com o desenvolvimento econômico, expresso na revolução industrial que se processava, tornou mais firme a consciência jurídica internacional, acarretando modificações de monta no campo do Direito das gentes.10
Em 1919, com o fim da Primeira Guerra Mundial, foi criada a Sociedade das
Nações, também conhecida como Liga das Nações, que, conforme já relatado,
estabeleceu os moldes das organizações internacionais hoje existentes, o que se
considera sua maior contribuição para a sociedade contemporânea.
A Convenção da Liga das Nações expressava, dentre seus termos, o
compromisso dos países membros em respeitarem a integridade política e a
independência políticas dos demais.
A ausência de países importantes como Estados Unidos e Rússia entre os
membros da Liga das Nações e a sua incapacidade em manter a paz internacional,
aliada ao nível de destruição durante a II Guerra Mundial, contudo, chamou a
atenção de todo o mundo para a necessidade de se criar um sistema mais eficiente
para conter a violência internacional, sendo, então, sucedida pela Organização das
Nações Unidas.
11A Organização das Nações Unidas - ONU, destarte, teve origem durante a
Segunda Guerra Mundial, quando os representantes de 26 (vinte e seis) nações, os
Aliados, assumiram o compromisso de que seus governos continuariam a lutar
contra as potências do Eixo.
A expressão “Nações Unidas” foi concebida pelo Presidente norte-americano,
Franklin Roosevelt, tendo sido utilizada pela primeira vez em 1º de janeiro de 1942,
na Declaração das Nações Unidas, em que foi firmado o referido compromisso.
No ano de 1945, em São Francisco, 50 (cinqüenta) países se uniram na
cidade de São Francisco, nos Estados Unidos, em uma conferência denominada
Conferência sobre Organização Internacional. Nesta ocasião, foi elaborada a Carta
10 BOSON, Gerson de Britto Mello. op. cit. p.45.
11 MAIA, Melina Espeschit; COSTA, Marina Moreira; ÂNGELIS, Virgínia de. (org). 7th AMUN. Americas Model United Nations. United Nations Security Council. In: Building Bridges Across Nations.
das Nações Unidas, que vigora até os dias atuais, regendo o funcionamento da
Organização das Nações Unidas, ONU.
A ONU começou a existir oficialmente em 24 de outubro de 1945, com o
depósito das ratificações da Carta pelos cinco países permanentes do Conselho de
Segurança, a saber, China, Estados Unidos, França, Reino Unido e antiga União
Soviética, atual Rússia, bem como da maioria dos demais signatários, razão pela
qual o dia 24 de outubro passou a ser considerado o dia das Nações Unidas.
12A primeira sessão da ONU ocorreu em 10 de janeiro de 1946, em
Westminster, Londres, com a realização de uma Sessão Ordinária da Assembléia
Geral. A sessão teve como principal objetivo a escolha do primeiro Secretário-Geral
da Organização, que foi Trygve Halvdan Lie, da Noruega.
13A Assembléia Geral da ONU, segundo estabelecido no artigo 20 da Carta das
Nações Unidas, reúne-se uma vez por ano em sessão ordinária, podendo, em
ocasiões que se faça necessário, reunir-se em Sessões Especiais
14.
15A primeira Sessão Especial da Assembléia Geral foi realizada no ano de
1947, tendo sido a questão palestina a causa da reunião extraordinária dos países
membros da Organização. Nesta ocasião, Oswaldo Aranha, nascido na cidade de
Alegrete, no Rio Grande do Sul, chefe da delegação brasileira, proferiu o primeiro
discurso da Sessão, presidindo-a. Iniciou-se assim, a tradição que é seguida até
hoje, sendo o primeiro discurso proferido em Sessões Especiais da Assembléia
sempre de um brasileiro.
12 ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Apresenta os fatos históricos da Organização. Disponível em: http://www.un.org/aboutun/unhistory/. Acesso em: 14 dez. 2006.
13 ______. Apresenta os documentos históricos da Organização, bem como um breve resumo das primeiras reuniões da Assembléia Geral. Disponível em:
http://www.un.org/Depts/dhl/landmark/amajor.htm. Acesso em: 14 dez. 2006.
14 ______. Apresenta relação de todas as Sessões Especiais da Assembléia Geral da ONU até a presente data, estando disponíveis as Resoluções adotadas em tais ocasiões. Disponível em:
http://www.un.org/ga/sessions/special.shtml. Acesso em: 14 dez. 2006.
Na ocasião, tendo presidido a primeira
16e a segunda
17Sessão Especial da
Assembléia Geral da ONU
18, como chefe de delegação brasileira, Oswaldo Aranha
lutou pela criação do Estado de Israel, o que ocorreu em 1948, por decisão da
Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas, que repartiu o território, até
então palestino, entre palestinos e israelenses.
2.2 A Organização das Nações Unidas
A Organização das Nações Unidas é composta, atualmente, por 192 Estados
soberanos
19, unidos por força da Carta das Nações Unidas, ou Carta da ONU, que
enuncia os direitos e deveres dos membros da comunidade internacional.
O direito de tornar-se membro da Organização das Nações Unidas é
conferido a todas as nações que declaradamente anseiem pela instituição mundial
da paz e que aceitem os compromissos estabelecidos na Carta da ONU, devendo,
ainda, estarem aptas e dispostas a cumprirem tais obrigações. Salientando-se que a
aceitação de um novo membro é realizada a critério da Organização.
Segundo o constitucionalista italiano Paulo Biscaretti di Ruffia, as Uniões
podem ser simples ou institucionais.
20Paulo Bonavides faz a seguinte análise relativa à natureza da Organização:
As Uniões simples não dão origem a uma comunidade de Estados, mas implicam apenas ação coordenada de vários Estados para obtenção de fins comuns. Abrangem as alianças, as Uniões de protetorado, e as Uniões de tutela, estas últimas, segundo a concepção do antigo mandato instituído
16 ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Apresenta as Resoluções adotadas na primeira Sessão Especial da Assembléia Geral da ONU. Disponível em:
http://daccessdds.un.org/doc/UNDOC/GEN/NR0/751/50/IMG/NR075150.pdf?OpenElement. Acesso
em: 14 dez. 2006.
17______. Apresenta as Resoluções adotadas na segunda Sessão Especial da Assembléia Geral da
ONU. Disponível em:
http://daccessdds.un.org/doc/UNDOC/GEN/NR0/752/23/IMG/NR075223.pdf?OpenElement. Acesso
em: 14 dez. 2006.
18 ______. Apresenta a Lista dos Presidentes da Assembléia Geral desde sua primeira sessão, com o brasileiro Oswaldo Aranha como presidente das duas primeiras sessões especiais. Disponível em:
http://www.un.org/ga/57/list.htm. Acesso em: 14 dez. 2006.
19 ______. Apresenta a Lista dos países membros da ONU, com a data em que se tornaram membros da Organização. Disponível em: http://www.un.org/Overview/unmember.html. Acesso em: 14 dez. 2006.
pela velha Sociedade das Nações, e renovado nos termos da moderna administração fiduciária, estabelecida pela Carta das Nações Unidas. As Uniões institucionais já produzem verdadeiras Uniões de Estados em sua acepção própria. Compreendem as Uniões gerais, as Uniões particulares e as Uniões do Estado complexo ou composto (os chamados “Estados de Estados”).21
Esclareça-se, por oportuno, que a ONU possui duas categorias de membros:
os originários, ou fundadores, e os admitidos, não existindo, contudo, qualquer
diferença entre os direitos e deveres de seus membros.
22Os membros fundadores das Nações Unidas são aqueles que assinaram a
Declaração das Nações Unidas de 1º de janeiro de 1942, ou que tomaram parte na
Conferência de São Francisco, tendo assinado e ratificado a Carta das Nações
Unidas, de acordo com o art. 110 da mesma. Dos 192 membros que atualmente
compõem a ONU, apenas 51 são originários.
23Os demais países, para ingressarem na Organização, dependem de decisão
da Assembléia Geral, mediante recomendação do Conselho de Segurança, devendo
preencher determinadas condições estabelecidas pela Organização.
24São seis os idiomas oficiais das Nações Unidas, quais sejam, inglês, francês,
espanhol, árabe, chinês e russo, sendo o inglês e o francês as línguas utilizadas
pela Secretariado em seus trabalhos. Os discursos proferidos em uma das línguas
oficiais é imediatamente traduzido para os representantes dos demais Estados por
intérpretes da própria Organização, devendo a delegação do país que desejar
proferir seu discurso em língua não oficial, contudo, fornecer um intérprete para
traduzir o discurso para uma das línguas oficiais, de forma que possa, então, ser
disponibilizado nas demais línguas da Organização. Os documentos da Organização
são produzidos simultaneamente nas seis línguas oficiais.
2521 BONAVIDES, Paulo. Idem.
22 MELLO, Celso D. de Albuquerque. op. cit. p. 644. 23 ARAÚJO, Luis Ivani de Amorim. op. cit. p. 379.
24 “Artigo 4. (...) 2. A admissão de qualquer desses Estados como Membros das Nações Unidas será efetuada por decisão da Assembléia Geral, mediante recomendação do Conselho de Segurança.” (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Carta das Nações Unidas. São Francisco, Estados Unidos, 26 de junho de 1945. In: Carta das Nações Unidas e Estatuto da Corte Internacional de Justiça. Publicado pelo Centro de Informações das Nações Unidas do Brasil. UNIC/Rio/006 - Julho – 2001 (DPI 511)).
A sede da ONU encontra-se na cidade de Nova Iorque, entre as ruas 42 e 48,
ao longo do East River. Embora o local em que se instalaria a sede da Organização
não se encontre definido na Carta, foi decidido pela Assembléia Geral, em dezembro
de 1946, que seria instalada naquele local em que se encontra até os dias atuais.
26A Organização se constitui por seis órgãos principais, quais sejam,
Assembléia Geral, Conselho de Segurança, Conselho Econômico e Social, Conselho
de Tutela, Corte Internacional de Justiça e Secretariado, conforme estabelecido no
artigo 7 da Carta da ONU. Todos os órgãos encontram-se instalados na sede da
ONU em Nova Iorque, com exceção da Corte Internacional de Justiça, que tem sede
em Haia, na Holanda.
Por sua importância para o presente estudo, tratar-se-á posteriormente da
Assembléia Geral e do Conselho de Segurança de forma mais específica,
esclarecendo-se seus objetivos e apresentando-se sua composição e modo de
atuação e funcionamento.
Ligados à ONU existem, ainda, diversos organismos especializados,
intergovernamentais, que são organizações autônomas, vinculadas à ONU por meio
de acordos especiais.
Os organismos especializados estão previstos no artigo 57 da Carta da ONU
e são mais conhecidos como Agências Especializadas. Trabalham tanto em conjunto
com a ONU, como relacionados entre si, sendo a coordenação de tais atividades
realizada pelo Conselho Econômico e Social, segundo as determinações dos artigos
63 e 64 da Carta da ONU.
As principais Agências Especializadas que hoje atuam sob coordenação da
ONU são: Organização Internacional do Trabalho (OIT); Organização das Nações
Unidas para Agricultura e Alimentação (Food and Agriculture Organizations of the
UN - FAO); Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UN
Educational, Scientific and Cultural Organization - UNESCO); Organização Mundial
da Saúde (OMS); Banco Mundial (Banco Internacional de Reconstrução e
Desenvolvimento - BIRD); Corporação Financeira Internacional (CFI); Fundo
Monetário Internacional (FMI); Organização da Aviação Civil Internacional
(International Civil Aviation Organization - ICAO); União Postal Universal (UPU);
União Internacional de Telecomunicações (International Telecommunication Union -
ITU); Organização Meteorológica Mundial (OMM); Organização Marítima
Internacional (International Maritime Organization - IMO); Organização Mundial da
Propriedade Intelectual (OMPI); Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola
(FIDA); Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (UN
Industrial Development Organization - UNIDO) e Organização Mundial do Comércio
(OMC).
27Além das Agências citadas, que prestam contas de suas atividades ao
Conselho Econômico e Social, a ONU encontra-se ligada, ainda, a uma outra
Agência Especializada, a Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA), que, por
sua importância, apesar de ser um organismo intergovernamental, como os demais,
realiza relatórios anuais para a Assembléia Geral e, quando requisitado, para o
Conselho de Segurança e o Conselho Econômico e Social.
A Organização das Nações Unidas criou, ainda, uma série de programas e
fundos, com propósitos específicos, podendo ter caráter econômico, social,
humanitário, ou outros objetivos, dentre os quais cumpre destacar, por seu valor, o
Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD); o Fundo das
Nações Unidas para a Infância (UN Children’s Fund - UNICEF); o Programa das
Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA); o Alto Comissariado das Nações
Unidas para Refugiados (ACNUR); o Fundo de População das Nações Unidas (UN
Population Fund - UNFPA); e o Centro das Nações Unidas para Assentamentos
Humanos (UN - HABITAT); dentre muitos outros.
28Assim, os seis órgãos da Organização das Nações Unidas, em conjunto com
os organismos especializados e os programas e fundos desenvolvidos pela ONU,
compõem o Sistema das Nações Unidas.
27 ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Apresenta a lista das principais agências especializadas atuantes junto à ONU. Disponível em: http://www.un.org/Overview/uninbrief/agencies.html. Acesso em: 14 dez. 2006.
2.2.1 Assembléia Geral
A Assembléia Geral, conforme estabelecido no artigo 9.1 da Carta, é
constituída por todos os Estados-membros das Nações Unidas, e reúne-se uma vez
por ano em sessão ordinária, segundo determinado pelo artigo 20 da Carta das
Nações Unidas, iniciando-se na terceira terça-feira do mês de setembro, sendo
sempre realizada na sede da ONU, em Nova Iorque.
Em algumas questões relacionadas ao posicionamento a ser adotado em
questões internas da Organização, como na questão orçamentária, por exemplo, sua
decisão tem força vinculante. O mesmo não ocorre, contudo, em relação a outras
questões, como disputas entre Estados-membros ou questões de Direitos Humanos,
por exemplo, não possuindo força para tomar decisões vinculantes ou determinar
ações coercitivas, apenas podendo fazer recomendações. Neste aspecto, possui
menos força do que o Conselho de Segurança, o que explica o fato do poder de veto
existir apenas neste último órgão.
29Podem ser convocadas sessões especiais a pedido do Conselho de
Segurança, da maioria dos membros das Nações Unidas ou, ainda, de um só
membro, desde que o seja com anuência da maioria. A Assembléia Geral já se
reuniu em sessões especiais por 28 vezes, desde a sua criação.
A primeira sessão especial foi realizada em 1947, e teve como objetivo a
solução da questão palestina, tendo sido, então, criado o Estado de Israel, que hoje
é um dos membros das Nações Unidas.
A mais recente sessão especial, por sua vez, ocorreu em 24 de janeiro de
2005, e teve como fundamento a comemoração do sexagésimo aniversário da
liberação dos judeus dos campos de concentração nazistas.
30A Assembléia Geral adotou, ainda, em 03 de novembro de 1950, a resolução
“União para a Paz”, norma introduzida pelo falecido Dean Acheson, secretário de
29 MALANCZUK, Peter. Akehurst’s modern introduction to international law. 7 revised edition. New York: Routledge, 1997, p.378.
30 ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Apresenta todas as Sessões Especiais já realizadas, disponibilizando as resoluções adotadas em cada uma delas. Disponível em:
Estado norte-americano durante o governo de Harry S. Truman. Segundo essa
resolução uma sessão de emergência da Assembléia pode ser convocada, com o
prazo de 24 horas de antecedência, a pedido do Conselho de Segurança, pelo voto
de nove membros do Conselho, quando em uma questão considerada de grande
urgência não houver unanimidade entre os membros permanentes, de forma que,
pelo poder de veto que possuem, o Conselho de Segurança falhe em adotar
medidas de proteção à paz, ou, ainda, em questões que tratem de ameaças à paz e
atos de agressão e por decisão da maioria dos membros das Nações Unidas.
Hildebrando Accioly referiu-se a esta resolução em seu manual de Direito
Internacional Público, o que se apresenta in verbis:
Ao Conselho, conforme vimos, cabe a principal responsabilidade na manutenção da paz e da segurança internacionais. Mas a ação paralisante do veto, à qual já aludimos, pode impedir que ele exerça as atribuições que lhe correspondem nessa matéria. Isto levou a Assembléia Geral, em novembro de 1950, a adotar uma Resolução destinada a obviar aquele inconveniente.
Essa Resolução, aprovada por 52 votos, teve o título de “União para a Paz”. Nela se estabeleceram, entre outras, as seguintes disposições: a) em caso de veto no Conselho, Assembléia poderá reunir-se dentro de 24 horas; b) a Assembléia poderá fazer recomendações aos Estados-membros, para medidas coletivas, inclusive, no caso de ruptura da paz ou ato de agressão, o uso de forças armadas; c) recomenda-se a cada Estado-membro que mantém, dentro das respectivas forças armadas, elementos nacionais treinados, organizados e equipados para serem prontamente utilizados em serviços como unidades das Nações Unidas, em conseqüência de recomendação quer do Conselho, quer da própria Assembléia. A mesma Resolução previu, além disso, o estabelecimento de uma comissão de observação, para observar e informar em qualquer área onde exista tensão internacional e criou uma comissão destinada a estudar e sugerir métodos coletivos para fortalecimento da paz e da segurança, de conformidade com a Carta.31
Foram convocadas dez sessões de emergência até a presente data
32, tendo
sido a última realizada em 2004, em virtude das ações ilegais praticadas por Israel
em território ocupado no Leste de Jerusalém e no restante do território palestino
ocupado.
31 ACCIOLY, Hildebrando. Manual de Direito Internacional Público. 11. ed. 9. tiragem. Revista pelo Embaixador SILVA, Geraldo Eulálio do Nascimento e. São Paulo: Saraiva, 1991. p. 159.
32 ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Apresenta todas as Sessões Especiais de Emergência já realizadas, disponibilizando as resoluções adotadas em cada uma delas. Disponível em:
A Assembléia Geral cumpre suas funções através do trabalho de sete
Comissões Principais
33, de forma a promover a manutenção da paz e segurança
internacionais, e garantir a efetiva implementação de todos os preceitos contidos na
Carta das Nações Unidas.
2.2.2 Conselho de Segurança
O Conselho de Segurança tem por funções e atribuições manter a paz e a
segurança internacionais de acordo com os propósitos e princípios das Nações
Unidas, examinar qualquer controvérsia ou situação suscetível de provocar atritos
internacionais e recomendar métodos para o acerto de tais controvérsias ou as
condições para sua solução.
Constitui-se por 15 membros: cinco permanentes – Estados Unidos, Rússia,
Grã-Bretanha, França e China – e dez membros não-permanentes, eleitos pela
Assembléia Geral por dois anos.
34O Douto Professor Celso de Albuquerque Mello o considera o “órgão mais
importante da ONU”
35, entendimento que merece consideração, pois, embora seja a
Assembléia Geral o órgão que possui representatividade de todos os membros da
ONU, apenas o Conselho de Segurança tem o poder de adotar medidas coercitivas
sobre questões que não se relacionem ao funcionamento administrativo da
Organização, sendo responsável pela manutenção da paz e segurança
internacionais, agindo em nome de todos os membros da Organização das Nações
33 ______. Apresenta relação das Comissões. Disponível em:
http://www.un.org/ga/commissions.shtml. Acesso em 14 dez. 2006.
34 “Artigo 23. 1. O Conselho de Segurança será composto de quinze Membros das Nações Unidas. A República da China, a França, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte e os Estados Unidos da América serão membros permanentes do Conselho de Segurança. A Assembléia Geral elegerá dez outros Membros das Nações Unidas para Membros não permanentes do Conselho de Segurança, tendo especialmente em vista, em primeiro lugar, a contribuição dos Membros das Nações Unidas para a manutenção da paz e da segurança internacionais e para os outros propósitos da Organização e também a distribuição geográfica eqüitativa.
2. Os membros não permanentes do Conselho de Segurança serão eleitos por um período de dois anos. Na primeira eleição dos Membros não permanentes do Conselho de Segurança, que se celebre depois de haver-se aumentado de onze para quinze o número de membros do Conselho de Segurança, dois dos quatro membros novos serão eleitos por um período de um ano. Nenhum membro que termine seu mandato poderá ser reeleito para o período imediato.
3. Cada Membro do Conselho de Segurança terá um representante.” (______. Carta das Nações Unidas. São Francisco, Estados Unidos, 26 de junho de 1945. op. cit.).
Unidas, de acordo com os propósitos das Nações Unidas, conforme se encontra
estabelecido no artigo 24 da Carta da ONU.
36Não se pode olvidar, contudo, que o Conselho de Segurança tem a obrigação
de submeter “relatórios anuais e, quando necessário, especiais à Assembléia
Geral”
37, de forma que sua atuação se encontra, de certa forma, sujeita a este órgão.
O Conselho de Segurança, por sua importância para solucionar atentados
contra a paz mundial, funciona continuamente, e um representante de cada um de
seus membros deve estar sempre presente na sede das Nações Unidas. O
Conselho pode, contudo, reunir-se fora da sede, se assim o achar conveniente.
38Em conformidade com os artigos 31 e 32 da Carta das Nações Unidas,
qualquer Estado-membro da ONU, mesmo que não pertença ao Conselho de
Segurança, pode tomar parte nos debates, sem direito a voto, se o Conselho
considerar que os interesses desse Estado estão sendo especialmente afetados.
Tanto os membros como os não-membros são convidados a participar dos debates,
sem direito a voto, quando são partes envolvidas na controvérsia em exame no
Conselho, que especificará as condições para participação dos não-membros.
O sistema de votações do Conselho de Segurança encontra-se estabelecido
no artigo 27 da Carta da ONU. Cada membro do Conselho tem direito a um voto. As
decisões sobre procedimentos necessitam dos votos afirmativos de nove dos 15
membros. As decisões relativas a questões de fundo também necessitam de nove
votos, diferenciando-se da exigência em relação a decisões procedimentais em
virtude da exigência de que dentre os votos contrários, não pode estar incluído o de
qualquer dos cinco membros permanentes. Esta é a regra da “unanimidade das
grandes potências”, também chamada de “poder de veto”.
36 “Artigo 24 - 1. A fim de assegurar pronta e eficaz ação por parte das Nações Unidas, seus Membros conferem ao Conselho de Segurança a principal responsabilidade na manutenção da paz e da segurança internacionais e concordam em que no cumprimento dos deveres impostos por essa responsabilidade o Conselho de Segurança aja em nome deles.” (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Carta das Nações Unidas. São Francisco, Estados Unidos, 26 de junho de 1945. op. cit., p. 20).
37 Segundo o artigo 24. 3. da Carta das Nações Unidas. Idem.
Os cinco membros permanentes já exerceram direito ao veto.
39Se um
membro permanente não apóia uma decisão, mas não deseja bloqueá-la através do
veto, pode abster-se durante a votação ou declarar que não participará da votação.
Assim, a abstenção e a não participação não são consideradas vetos.
A Presidência do Conselho é exercida pelos membros, inclusive os não
permanentes, dentro de um sistema de rodízio, por períodos de um mês.
De acordo com o artigo 25 da Carta, todos os membros das Nações Unidas
concordam em aceitar e cumprir as decisões do Conselho. Apesar de outros órgãos
da ONU formularem recomendações aos governos, somente o Conselho de
Segurança pode tomar decisões, observados os artigos da Carta, que os
Estados-membros ficam obrigados a cumprir.
Em obediência ao Capítulo VII da Carta da ONU, os membros do Conselho
devem formular planos para o estabelecimento de um sistema para a
regulamentação dos armamentos, determinar a existência de ameaças à paz ou atos
de agressão e recomendar as providências a tomar. Têm, ainda, a obrigação de
solicitar aos membros a aplicação de sanções econômicas ou outras medidas que
não impliquem emprego de força, mas que sejam capazes de evitar ou deter a
agressão, devendo empreender ação militar contra um agressor.
Dentre suas funções está também a de recomendar a admissão de novos
membros às Nações Unidas
40e as condições sob as quais os Estados poderão
tornar-se partes do Estatuto da Corte Internacional de Justiça. Têm por dever, ainda,
exercer as funções de tutela das Nações Unidas nas “zonas estratégicas”,
apresentando, anualmente, relatórios especiais à Assembléia Geral.
39 GLOBAL POLICY FORUM. Apresenta tabela com os vetos aplicados no Conselho de Segurança desde a criação da Organização. Disponível em:
http://www.globalpolicy.org/security/data/vetotab.htm. Acesso em 14 dez. 2006.
Deve, por fim, recomendar à Assembléia Geral a nomeação do
Secretário-Geral e, conjuntamente com a Assembléia Secretário-Geral, eleger os juízes da Corte
Internacional de Justiça.
412.3 Princípios e Objetivos
A Organização das Nações Unidas tem seus princípios e objetivos regidos
pela Carta das Nações Unidas. O preâmbulo da Carta expressa os ideais e os
propósitos dos povos cujos governos se uniram para constituir a Organização.
A Carta representa os ideais de países amantes da paz
42, que se uniram com
um fim comum de manter a paz e a segurança internacional, bem como de promover
a cooperação internacional, visando solucionar os problemas mundiais de caráter
econômico, social, cultural e humanitário, promovendo o respeito aos direitos
humanos e às liberdades fundamentais.
Os propósitos da Organização das Nações Unidas encontram-se dispostos no
artigo 1 de sua Carta, estando listados, dentre eles, a finalidade de promover o
desenvolvimento de relações amistosas entre as nações, sendo um centro destinado
a harmonizar a ação dos povos para que se possa atingir os objetivos de paz,
segurança, harmonia e cooperação.
A Carta da ONU, em seu artigo 2, relaciona os princípios que servirão como
base para a realização de seus propósitos, estabelecendo que a Organização deve
sempre agir pautada no princípio da igualdade de todos os seus Membros, que se
obrigam a cumprir de boa-fé os compromissos por ele assumidos ao firmarem a
Carta.
Além disso, restam determinados por aquele artigo outros preceitos
fundamentais para que se mantenha o equilíbrio necessário ao cumprimento de
41 “Artigo 4. 1. Os membros da Corte serão eleitos pela Assembléia Geral e pelo Conselho de Segurança de uma lista de pessoas apresentadas pêlos grupos nacionais da Corte Permanente de Arbitragem, de acordo com as disposições seguintes. (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS.
Estatuto da Corte Internacional de Justiça. In: Carta das Nações Unidas e Estatuto da Corte Internacional de Justiça. Publicado pelo Centro de Informações das Nações Unidas do Brasil. UNIC/Rio/006 - Julho – 2001 (DPI 511), p. 64).
todos os objetivos para os quais a ONU foi criada, dentre eles, destaque-se a
prerrogativa de que todos os países membros deverão resolver suas controvérsias
internacionais por meios pacíficos, de forma que não sejam ameaçadas a paz, a
segurança e a justiça internacional, devendo, inclusive, em suas relações
internacionais, absterem-se de recorrer à ameaça ou ao emprego de força contra
outros Estados e o dever de todos os países membros de assistirem as Nações
Unidas em todas as medidas por ela tomadas, sempre se observando a
conformidade com os preceitos da Carta, inclusive com a abstenção de fornecimento
de auxílio a Estado contra o qual as Nações Unidas agirem de modo preventivo ou
coercitivo.
São, ainda, princípios das Nações Unidas, estabelecidas por sua Carta, no
seu Capítulo I, que trata dos propósitos e princípios da Organização, o dever das
Nações Unidas de fazerem com que Estados que não são membros da Organização
ajam de acordo com os princípios em tudo quanto for necessário à manutenção da
paz e da segurança internacionais, ressaltando, ainda, que nenhum preceito da
Carta autoriza às Nações Unidas intervir em assuntos que sejam essencialmente da
competência de cada país.
3 O SIGILO BANCÁRIO
3.1 Origem Histórica
O sigilo bancário tem se mostrado como um elemento antigo na história da
humanidade, com a ressalva de que, existindo antes mesmo da criação dos
primeiros bancos, deve-se referir a este instituto, inicialmente, como sigilo
financeiro.
43O sigilo financeiro pode ser observado ainda nas primeiras relações de
natureza da guarda ou câmbio de dinheiro, atividade que foi exercida inicialmente
por sacerdotes, quando as riquezas eram mantidas nos templos.
Por esta razão, não se pode considerar que o sigilo bancário tenha tido uma
origem determinável no curso da história, pois sua origem se confunde com a das
primeiras atividades bancárias.
44Por esta razão, cumpre realizar um breve relato
sobre o início das atividades bancárias, o que se fará com base nos estudos de
Sérgio Carlos Covello.
Covello afirma que o sigilo bancário passou por três fases distintas, quais
sejam, embrionária, institucional e capitalista, sendo esta última a que chegou aos
dias atuais.
45A fase embrionária teria compreendido a antiguidade babilônia, hebréia,
egípcia e greco-romana.
As primeiras atividades bancárias, destarte, foram observadas na Babilônia,
sendo exercidas pelos sacerdotes, nos templos, com o recebimento de depósitos,
realização de empréstimos, já com a cobrança de juros, e mediação de
pagamentos.
4643 BALTAZAR JUNIOR, José Paulo. Sigilo bancário e privacidade. Porto Alegre: Livraria do Advogado Ed., 2005. p. 53.
44 FOLMANN, Melissa. Interpretação constitucional principiológica e sigilo bancário. 1. ed. 3. tiragem. Curitiba: Juruá, 2005.p. 78.
45 COVELLO, Sérgio Carlos apud FOLMANN, Melissa. Ibidem, p. 78-80.
Desta época data a mais antiga referência ao sigilo bancário, contida no
código de Hammurabi,
47um dos mais antigos conjuntos de leis de que se tem
conhecimento, que estabelecia um dever de discrição daquele que realizasse a
atividade de guarda e câmbio de moeda, de forma que somente poderia ser
revelado o conteúdo dos arquivos pertinentes perante autoridade judicial, e apenas
em caso de conflito que o tornasse necessário.
Os hebreus também conheciam as atividades bancárias há bastante tempo,
tendo este povo, assim como os babilônicos, os templos como depositário de seus
tesouros. A Bíblia, composta de diversos livros escritos muito antes de Cristo e por
pessoas a ele contemporâneas, possui diversas passagens em que se refere a tais
práticas, inclusive em relação à cobrança de juros, ou mesmo referindo-se
diretamente à atividade dos banqueiros.
48Os gregos também mantinham em templos os seus depósitos, que eram
emprestados pelos sacerdotes a terceiros, tendo influenciado os egípcios nesta
prática.
Cumpre, ainda, citar a importância de Roma para a prática bancária, pois data
do século III o desenvolvimento de seu comércio bancário, destacando-se a
existência de banqueiros que se dedicavam exclusivamente à atividade cambiária,
ao lado dos banqueiros que realizavam as atividades de depósitos e empréstimos.
Os banqueiros romanos registravam suas atividades em livros que eram mantidos
sob o mais absoluto sigilo.
49Com a gradual extinção da prática de se guardarem as riquezas em templos
religiosos, foram surgindo os primeiros banqueiros, ainda sem esta denominação,
47 ABRÃO, Nelson apud FOLMANN, Melissa. op. cit. p. 78.
48 Dentre as passagens bíblicas que tratam das atividades inerentes aos bancos, destaca-se uma das mais antigas, encontrada no livro de Deuteronômio, capítulo 23, versículos 19 e 20, o texto em que Moisés se refere ao povo Israelita, após sua saída do Egito para as terras em que hoje se encontra o Estado de Israel, em relação à usura, estabelecendo que não se realizarão empréstimos com juros aos “irmãos”, seja dinheiro, comida ou quaisquer outras coisas, mas tão somente aos estrangeiros. No livro de Mateus, capítulo 25, versículo 27, em uma de suas parábolas, Jesus Cristo refere-se diretamente aos banqueiros, quando um dos personagens assim afirma: “Cumpria, portanto, que entregasse meu dinheiro aos banqueiros, e eu, ao voltar, receberia com juros o que é meu.”. (BÍBLIA.
A Bíblia Sagrada. Traduzida em Português por João Ferreira de Almeida. Revista e atualizada no Brasil. 2. ed. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2003, passim.).
que mantiveram a proteção do sigilo financeiro, seguindo a tradição iniciada nos
templos.
Os primeiros bancos surgiram na idade média, desempenhando um papel
importante no atendimento aos comerciantes estrangeiros em operações de troca de
moedas,
50tendo origem o que foi considerado por Sérgio Covello como a fase
institucional
51, impondo a seus empregados a obrigação de se manter o sigilo dos
clientes, tendo sido adotado, desde então, pelos bancos criados em todo o mundo.
Saliente-se, ainda, que, com o fim da idade média e a centralização do
governo dos países, iniciou-se a criação de leis regulamentando os sistemas
bancários, tendo início, assim, as primeiras legislações que trataram
especificamente deste instituto, regularizando-o e garantindo-o, de forma direta ou
indireta.
A terceira fase, capitalista, teve início durante o período histórico do
Renascimento, tendo o sigilo bancário sido, então, definitivamente incorporado às
legislações que tratam das atividades bancárias em praticamente todas as nações, o
que perdura até os dias de hoje.
A idéia de proteção ao sigilo bancário surgiu no Brasil no século XIX, tendo a
sua fase legislativa apenas se iniciado com o Código Comercial Brasileiro, Lei nº.
556/1850, que disciplinou de forma ampla o resguardo do segredo das atividades
comerciais, não tendo sido tratado, contudo, o sigilo bancário de forma direta.
523.2 Conceito
O sigilo bancário se caracteriza como o dever que é imposto aos bancos e
instituições financeiras afins de não revelarem a terceiros as informações de seus
clientes, mantendo-se, portanto, em guarda destas informações, não podendo
compartilhá-las com qualquer pessoa que venha a requerê-las, com exceções para
as questões em que houver justa causa.
50 MARTINS, Fran. Contratos e obrigações comerciais. 15. ed. Revista e aumentada. Rio de Janeiro: Forense, 2002. p. 408.
51 COVELLO, Sérgio Carlos apud FOLMANN, Melissa. op. cit., p. 79.
Neste caso, as legislações dos países variam em relação ao que seria
interesse suficiente para se realizar a quebra do sigilo bancário de um indivíduo,
havendo distinções, ainda, sobre a autoridade que seria legítima para decretar ou
realizar o rompimento desta garantia.
André Terrigno Barbeitas afirma que “o sigilo bancário entre nós corresponde,
consoante a dicção legal, à obrigação imposta às instituições financeiras ‘de
conservar sigilo em suas operações ativas e passivas e serviços prestados’,
configurando infração a sua quebra injustificada.”
53Importa salientar, contudo, que o sigilo bancário não atinge apenas as
informações pertinentes às contas dos clientes da instituição financeira, mas, ainda,
a todos os seus dados e informações.
543.3 Natureza Jurídica
A natureza jurídica do Sigilo Bancário é questão que gera desencontro entre
os doutrinadores, sendo diversas as posições apresentadas em relação a este tema.
Alguns autores defendem ser o sigilo bancário uma obrigação que teriam os
bancos, em virtude da relação profissional existente entre este e seus clientes,
enquanto para outros, decorreria apenas em virtude da relação contratual, de forma
que seria um dever gerado no campo do direito privado, portanto.
Relevante ressaltar, ainda, a posição adotada por alguns doutrinadores que
defendem ser parte do direito à intimidade, de forma que deve ser garantido
constitucionalmente a todos, superprotegendo o instituto, pois apenas em reduzidas
exceções seria possível sua quebra.
Afirma Juliana Garcia Berloque, acompanhando a grande maioria dos
Doutrinadores pátrios, que os fundamentos do sigilo encontram-se na estrutura dos
valores eleita e expressa na ordem constitucional pátria.
5553 BARBEITAS, André Terrigno. O sigilo bancário e a necessidade da ponderação dos interesses. São Paulo: Malheiros, 2003. p. 15.
54 ROQUE, Maria José de Oliveira Lima. op. cit. p. 85.
Francisco Rezek, por sua vez, em Mandado de Segurança ajuizado perante o
Supremo Tribunal Federal, votou pela inexistência de previsão do sigilo bancário no
artigo 5º da Constituição de 1988, não considerando, portanto, que o sigilo bancário
esteja protegido dentre os direitos e garantias individuais.
56Diva Malerbi assim se refere ao tema:
(...), pode-se afirmar que o sigilo bancário está compreendido no âmbito da proteção maior que a Constituição empresta à intimidade e a conseqüência que a violação indiscriminada a esse direito pode acarretar é a perda, pela pessoa, de sua própria liberdade em atentado contra a dignidade humana. Esta a razão pela qual no âmbito de proteção do amplo direito à intimidade restam englobadas distintas tutelas jurídicas da vida privada.
O direito ao sigilo bancário, por ser uma projeção específica do direito à intimidade, é direito de natureza fundamental e integra a categoria dos direitos da personalidade.57
Melissa Folmann refere-se à quebra do sigilo bancário com base no princípio
da supremacia do interesse público como uma falácia, afirmando que representa o
interesse público da reserva da dignidade humana, relacionando este argumento
aos utilizados por regimes ditatoriais.
58Equivoca-se, contudo, a Autora, ao adotar tal postura, gerada apenas em
decorrência da situação histórica, política, social e jurídica que vive a sociedade
brasileira, conforme evidencia a Professora Denise Lucena Cavalcante ao
apresentar seu entendimento sobre o tema:
Prevalece nos países desenvolvidos uma forte tendência à uniformização dos procedimentos referentes à comunicação de dados entre as instituições financeiras e a Administração Pública.
Quanto aos países como o Brasil e outros da América Latina, cujas doutrina e legislação estão predeterminadas em circunstâncias histórica, política, social e jurídica, ainda dos regimes ditatoriais, é justificado a prevenção em relação às legislações, principalmente quando se atribuem à atividade estatal sempre novos poderes.59
Assim, encontra-se equivocado o referido posicionamento, de forma que não
se quer negar a proteção constitucional dada ao sigilo bancário, pois o que se
56 MORAES, Alexandre de. Direito constitucional. 13. ed. São Paulo: Atlas, 2003. p. 97.
57 MALERBI, Diva. Sigilo bancário e tributário: direito tributário internacional contemporâneo. São Paulo/Argentina, IOB e A. Thompson Co./ La Ley, 2001. p. 83.
58 FOLMANN, Melissa. op. cit. p.140-143.
59 CAVALCANTE, Denise Lucena. Transparência, cooperação internacional e flexibilização do sigilo