Fritjof Capra
A TEIA DA VIDA
UMA NOVA COMPREENSÃO CIENTÍFICA DOS SISTEMAS VIVOS
Tradução
NEWTON ROBERVAL EICHEMBERG
EDITORA CULTRIX São Paulo
Sumário
Prefácio à Edição Brasileira Prefácio
PARTE UM / O CONTEXTO CULTURAL
CAPÍTULO l Ecologia Profunda Um Novo Paradigma
PARTE Dois / A ASCENSÃO DO PENSAMENTO SISTÊMICO CAPÍTULO 2 Das Partes para o Todo
CAPÍTULO 3 Teorias Sistêmicas CAPÍTULO 4 A Lógica da Mente
PARTE TRÊS / AS PEÇAS DO QUEBRA-CABEÇA CAPÍTULO 5 Modelos de Auto-Organização CAPÍTULO 6 A Matemática da Complexidade
PARTE QUATRO / A NATUREZA DA VIDA CAPÍTULO 7 Uma Nova Síntese
CAPÍTULO 8 Estruturas Dissipativas CAPÍTULO 9 Autocriação
CAPÍTULO 10 O Desdobramento da Vida CAPÍTULO 11 Criando um Mundo
CAPÍTULO 12 Saber que Sabemos
Epílogo: Alfabetização Ecológica Apêndice: Bateson Revisitado
Notas
Bibliografia
Isto sabemos.
todas as coisas estão ligadas como o sangue
que une uma família...
Tudo o que acontece com a Terra,
acontece com os filhos e filhas da Terra.
O homem não tece a teia da vida;
ele é apenas um fio.
Tudo o que faz à teia, ele faz a si mesmo.
- TED PERRY, inspirado no Chefe Seatle
Agradecimentos
A síntese de concepções e de idéias apresentada neste livro demorou dez anos para amadurecer. Durante esse tempo, tive a fortuna de poder discutir a maior pa rte das
teorias e dos modelos científicos subjacentes com seus autores e com outros cienti stas
que trabalham nesses campos. Sou especialmente grato
a Ilya Prigogine, por duas conversas inspiradoras, mantidas no início da década de 80, a respeito das estruturas dissipativas;
a Francisco Varela, por explicar-me a teoria de Santiago da autopoiese e da
cognição em várias horas de discussões intensivas durante um período de retiro para esqui na Suíça, e por numerosas conversas iluminadoras ao longo dos últimos dez anos, sobre a ciência cognitiva e suas aplicações;
a Humberto Maturana, por duas estimulantes conversas, em meados da década de 80, sobre cognição e consciência;
a Ralph Abraham, por esclarecer numerosas questões referentes à nova matemática da complexidade;
a Lynn Margulis, por um diálogo inspirador, em 1987, a respeito da hipótese de Gaia, e por encorajar-me a publicar minha síntese, que estava então apenas emergindo
;
a James Lovelock, por uma recente discussão enriquecedora sobre um amplo espectro de idéias científicas;
a Heinz von Foerster, por várias conversas iluminadoras sobre a história da cibernética e a origem da concepção de auto-organização;
a Candace Pert, por muitas discussões estimulantes a respeito de suas pesquisas sobre os peptídios;
a Arne Naess, George Sessions, Warwick Fox e Harold Glasser, por discussões filosóficas inspiradoras, e a Douglas Tompkins, por estimular-me a me aprofundar n a
ecologia profunda;
a Gail Fleischaker, por proveitosas correspondências e conversas telefônicas a respeito de vários aspectos da autopoiese;
e a Ernest Callenbach, Ed Clark, Raymond Dassman, Leonard Duhl, Alan
Miller, Stephanie Mills e John Ryan, por numerosas discussões e correspondência sobr e
os princípios da ecologia.
Nestes últimos anos, enquanto trabalhava neste livro, tive várias oportunidades
valiosas para apresentar minhas idéias a colegas e estudantes para discussão crítica.
Sou
grato a Satish Kumar por convidar-me a oferecer cursos sobre "A Teia da Vida" no Schumacher College, na Inglaterra, durante três verões consecutivos, de 1992 a 1994;
e
aos meus alunos, nesses três cursos, por incontáveis questões críticas e sugestões úteis.
Também sou grato a Stephan Harding pelos seus seminários sobre a teoria de Gaia, proferidos durante meus cursos, e por sua generosa ajuda em numerosas questões a respeito de biologia e de ecologia. A assistência em pesquisas, oferecida por dois dos
meus alunos do Schumacher, William Holloway e Morten Flatau, é também reconhecida com gratidão.
No decorrer do meu trabalho no Center for Ecoliteracy, em Berkeley, tive ampla
oportunidade para discutir as características do pensamento sistêmico e os princípios da
ecologia com professores e educadores que me ajudaram muito a aprimorar minha apresentação dessas concepções e idéias. Quero agradecer especialmente a Zenobia Barlow por organizar uma série de diálogos sobre ecoalfabetização, durante os quais ocorreu a maior parte dessas conversas.
Também tive a oportunidade única de apresentar várias partes do livro para
discussões críticas numa série regular de "reuniões sistêmicas" convocadas por Joanna Macy, de 1993 a 1995. Sou muito grato a Joanna, e aos meus colegas Tyrone Cashma
n
e Brian Swimme, por discussões em profundidade sobre numerosas idéias nessas reuniões íntimas.
Quero agradecer ao meu agente literário, John Brockman, pelo seu encorajamento e por ajudar-me a formular o esboço inicial do livro, que ele apresentou aos meus editores.
Sou muito grato ao meu irmão, Bernt Capra, e a Trena Cleland, a Stephan Harding e a William Holloway por ler todo o manuscrito e me oferecer valiosa consultoria e
orientação. Quero também agradecer a John Todd e a Raffi pelos seus comentários sobre vários capítulos.
Meus agradecimentos especiais vão para Julia Ponsonby pelos seus belos
desenhos de linhas e por sua paciência com meus repetidos pedidos de alterações.
Sou grato ao meu editor Charles Conrad, da Anchor Books, pelo seu entusiasmo e por suas sugestões úteis.
Por último, mas não menos importante, quero expressar minha profunda gratidão
à minha esposa, Elizabeth, e à minha filha, Juliette, pela sua compreensão e por sua paciência durante tantos anos, quando, repetidas .vezes, deixei sua companhia para
"subir ao andar de cima" e passar longas horas escrevendo.
Prefácio à Edição Brasileira Oscar Motomura(*)
No início dos anos 90, convidamos Fritjof Capra a vir ao Brasil. O objetivo era provocar um diálogo entre ele e os executivos de empresas clientes sobre sua visão d e
mundo.
Desde meados dos anos 80, organizávamos diálogos semelhantes com renomados
"futuristas" internacionais buscando fazer as conexões possíveis entre estratégia empresarial e a forma como o mundo estava "caminhando". Mais do que isso, a form a
como a vida no planeta tenderia a evoluir, uma vez que procurávamos ir muito além da s
previsões econômicas, que ainda estavam muito associadas ao planejamento estratégico tradicional.
Capra, para nós, representava uma fase importante dessa nossa abordagem à
estratégia e à gestão empresarial. Ele nos ajudaria a associar a busca de novas estratégias e o processo de criação do futuro com o processo de pensar e,
conseqüentemente, de perceber o mundo em que vivemos - o todo, esse grande context o
em que a vida acontece.
Na realidade, descobrimos que a coisa ia até mais além, na medida em que
constatávamos que não se tratava só de ver e perceber as coisas a partir de nossas premissas e teorias (paradigmas...), mas também de como nos colocávamos no mundo...
Ficamos muito surpresos com a quantidade de executivos e executivas que vieram ao evento com Capra. Acostumados a grupos menores - pois que estávamos sempre buscando os pensadores mais inovadores do mundo, os pioneiros, em sua maioria, pessoas desconhecidas do grande público - ficamos impressionados com a receptivida de
a Capra.
No auditório superlotado, Capra compartilhou suas idéias mais recentes.
Interessante foi a reação do público presente.
De um lado, víamos pessoas maravilhadas pela possibilidade de conectar o que
faziam em gestão/liderança com os conceitos trazidos à luz pela "Nova Ciência". De outro, víamos pessoas perplexas, imaginando se teriam vindo ao evento errado ou se Capra teria "errado de tema"...
A expectativa dessas pessoas, ao que parece, era de ouvir coisas mais
diretamente ligadas à administração e, de preferência, muito práticas que pudessem ser aplicadas imediatamente ao trabalho atual.
Uma parte desse grupo era constituída de pessoas capazes tão-somente de
trabalhar o concreto, o já manifesto em seus aspectos mais externos e, portanto, não preparadas para um pensar mais sutil. Outra parte, porém, era de pessoas perfeitam ente
capazes de pensar mais abstratamente, uma vez que isso é exigido no trabalho de qualquer executivo. Neste grupo, o problema era outro.
O problema era de percepção. Exatamente a questão central trabalhada por Capra.
Os executivos em questão - por mais boa vontade que pudessem ter e por mais esforço que viessem a fazer - não estavam com seus respectivos "modelos mentais"
adequadamente preparados para enxergar as conexões entre a vida empresarial e os conceitos da "Nova Ciência".
Estamos, na realidade, ainda muito presos ao arcabouço de pensamento criado
pela ciência do início do século. A equação que temos de resolver, não só nas empresas, mas também na sociedade como um todo, parece simples: "como podemos atualizar
nossa forma de pensar e enxergar o mundo em que vivemos com base em novos
arcabouços, em linha com o que a ciência (no sentido lato) do limiar do século XXI está trazendo à tona?" Em outras palavras, se quisermos considerar a administração como ciência (ou seria arte?) e buscamos praticar a chamada "administração científica", não deveríamos pelo menos atualizar nossos referenciais, alinhando-nos às descobertas da
ciência deste final de século (ao invés de continuarmos presos aos princípios científicos do começo do século)?
Em conversas recentes com Capra, uma de suas colocações que mais me impactou foi sobre como nossas percepções são interrompidas pelo "reconhecimento". Muitas vezes, quando estamos tentando perceber algo à nossa frente, o processo é interrompi do
por um "enquadramento" daquilo em relação a alguma coisa que já está armazenada em nosso atual arcabouço mental. Nesse momento, nosso processo "neutro" de percepção é interrompido e "rotulamos" a coisa como algo já conhecido, poupando-nos o trabalho de
desvendar o inédito...
E se esse algo que observamos não se encaixar? Interrompemos também o
processo através de julgamentos rápidos? "Estranho..."; "Esquisito..."; "Não faz sentido..."; "Fora da realidade...".
Neste exato momento em que escrevo este prefácio, o que me vem com mais força
à mente é esse intrigante fenômeno de julgar o que vemos ao nosso redor... Em nosso curso de pós-graduação "lato sensu" (o APG), trabalhamos essa questão com uma
simples reflexão: "Nas várias formas de avaliação que fazemos na empresa - e obviamente na sociedade - quem está avaliando o avaliador?" Com que "réguas" o avaliador está julgando? Quais os seus referenciais, suas "verdades"?
Podemos sempre presumir que o avaliador será invariavelmente neutro,
imparcial? Quanta perfeição isso exigiria? Não teríamos que ser conhecedores das verdades absolutas para podermos julgar?
Em nossa vida diária, vemos uma enorme quantidade de avaliações que
poderíamos, no mínimo, classificar de "paradoxais". É o caso do "conservador"
avaliando uma proposta "liberal". E o crítico literário agnóstico criticando, agressiv a e
impiedosamente, um romance escrito por um autor espiritualista. E o executivo cíni co
classificando toda proposta que visa ao bem comum como "romântica" e "fora da realidade".
Fora da realidade? A que realidade estamos nos referindo? À realidade percebida pelos nossos cinco sentidos? Não é verdade que um mesmo fato testemunhado por um grupo de pessoas pode ser percebido de forma diferente por diferentes pessoas?
E a realidade invisível, inaudível, intocável, não passível de percepção pelos nossos sentidos normais? E o intangível que não conseguimos demonstrar em nossos
"balanços" e relatórios, quer se trate do país, da empresa ou mesmo de nossa vida pessoal?
Não seria a realidade visível um instantâneo do processo da vida? O que está ocorrendo neste exato momento não seria conseqüência de algo que já está em
processo? E esse processo não irá continuar gerando ainda outras conseqüências, ou seja, uma sucessão de outros instantes, encadeados e conectados entre si?
Como nos referirmos à realidade do momento sem entender ou perceber o
processo maior do qual aquele instante faz parte? De que "realidade" estamos fal ando
quando julgamos a proposta ou ato de outrem como algo "fora da realidade"?
E se levarmos em conta a infinidade de processos que se interconectam na realidade maior? Não seria esse conjunto uma realidade "sistêmica", altamente complexa, que está fora da esfera de compreensão da maior parte de nós, humanos?
Onde situar o potencial do que nós, seres humanos, podemos criar, gerando um futuro que, pelo menos em parte, seja reflexo do que criamos em nossas mentes a partir
de um número infinito de possibilidades existentes no universo?
De que realidade estamos falando em nosso dia-a-dia? A realidade do que já está acontecendo? A realidade de um processo do qual o que já vemos no plano concreto é parte? A realidade dos inúmeros processos que formam um todo sistemicamente
interdependente? A realidade do que ainda está latente, do que ainda é possível, do qu e
ainda podemos criar se quisermos?
Como executivos, profissionais das mais diferentes áreas, líderes governamentais, servidores públicos, artesãos, trabalhadores, donas de casa, mães, pais, todos nós nos posicionamos em relação à realidade à nossa volta. Na verdade, em relação à própria vida.
Na medida em que nossa vida é vivida a partir de uma perspectiva
"especializada"/ fragmentada (como os executivos que ouviram as idéias de Capra pe la
perspectiva do "mundo empresarial tradicional", não conseguindo conectá-las com seu dia-a-dia) nos fechamos num mundo próprio como num grande "videogame". Só que a diferença é que todos os nossos atos gerados a partir dessa visão fragmentada têm conseqüências na realidade maior. Conseqüências que poderão afetar a vida de todo o planeta e até de futuras gerações...
Neste sentido, quais devem ser nossas prioridades não só como profissionais, mas