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SÃO PAULO NOVEMBRO DE 2021

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Academic year: 2022

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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE DIREITO DO LARGO SÃO FRANCISCO DTB 0101 - HISTÓRIA DO DIREITO DO TRABALHO NO BRASIL

2° SEMESTRE 2021

TRABALHO DE CONCLUSÃO DA DISCIPLINA A classe trabalhadora e a abolição da escravatura

Daniel Menegucci Pereira Turma 194, sala 13 N° USP: 12510700

Professor Titular Dr. Jorge Luiz Souto Maior Monitoras: Maria Paula Bebba Pinheiro e Tainã Góis

SÃO PAULO NOVEMBRO DE 2021

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1. Introdução

O presente trabalho tem como objetivo abordar a mudança substancial da classe trabalhadora após a abolição da escravatura, sobretudo e principalmente através da ótica dos mecanismos de dominação de tal classe. Abordarei como esses mecanismos sofreram mudanças na medida em que a classe em si mudou, e como, portanto, revela-se importante a dominação de uma classe sobre a outra por algum modo. Para isso, empregar-se-á uma análise histórica focalizada no momento da substituição do trabalho escravo pelo trabalho assalariado.

2. Contexto Histórico

Sabe-se, com segurança, que o abandono da mão de obra escrava não se deu por emprego de nenhuma forma de direito humanizado ou qualquer perspectiva humanitária e idealista que fosse (SOUTO, 2017), mas por questões estritamente econômicas e políticas (sobretudo de economia e política internacionais). Absurdo seria afirmar o contrário, especialmente em virtude de um conflito escancarado de classes presente no Brasil durante o século XIX (definido por Jorge Luiz Souto Maior inclusive como “guerra total”).

Tal tensão estabelecida entre as classes é também responsável por um fenômeno muito conhecido do processo de transição da forma de trabalho no Brasil: a imigração. Ao contrário do que se pode pensar ou mesmo parecer intuitivo, não foi a incapacidade do brasileiro de se adaptar à forma de trabalho assalariado ou a recusa do homem livre brasileiro por funções consideradas próprias de escravos que gerou a necessidade do incentivo à imigração (SOUTO, 2017). Em verdade, tamanha era a guerra entre classe dominante e classe dominada no país, que a mão de obra estrangeira se tornou uma opção estratégica, para ao mesmo tempo diminuir a parcela de “brasileiros” em relação à população total e excluir essa parte da população do processo de trabalho no país (negando-lhes, dessa forma, inclusive poder).

Evidentemente não se pode excluir o fator de “embranquecimento” da população brasileira das razões pela adoção das políticas de imigração.

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Contudo, a substituição do trabalho escravo por um trabalho “livre” encontrou obstáculos mesmo com a tentativa de adoção do imigrante como força de trabalho. Isso porque as formas de dominação são teoricamente diferentes para as diferentes relações de trabalho, ou seja, os mecanismos de imposição da forma de trabalho de uma classe sobre a outra variam de acordo com a própria forma de trabalho. Os escravagistas, por exemplo, impõem a forma de trabalho escravo através da dominação violenta, do medo e da coerção, métodos que não condizem com a proposta de trabalho liberal. Porém, a classe dominante brasileira, intrinsecamente escravagista, não foi capaz de adaptar seus métodos e abandonar a cultura do trabalho escravo, mantendo relações abusivas com os trabalhadores assalariados.

Exemplo incontestável disso era a prática operante no século XIX chamada de “contrato de locação de serviços”, em que o dono de uma propriedade pagava as despesas da viagem de uma família de imigrantes para o Brasil, tendo essa família que trabalhar até pagar essas dívidas. Contudo, a dívida crescia mais do que o valor recebido pelo trabalho, gerando assim uma “escravidão por dívidas” (SOUTO, 2017). Essa espécie de “anacronismo” nas práticas de trabalho, somada ao fato de que os trabalhadores europeus estavam há tempos em contato com ideais anarquistas e socialistas, fez com que a classe trabalhadora de imigrantes na verdade fortalecesse os movimentos de resistência dos trabalhadores brasileiros, movimento contrário ao interesse dos empregadores, evidentemente.

Esse processo fica muito evidente na mudança rápida de direção da política brasileira em relação a trabalhadores imigrantes: em um momento inicial, ao final do século XIX, incentiva-se a vinda de tais grupos para compor a classe operária, e logo depois, em 1907, aprova-se a chamada Lei Adolfo Gordo, que estabelecia a exportação de imigrantes que se mobilizassem em movimentos trabalhistas.

As práticas de dominação do trabalho análogos às escravistas seguem presentes até hoje no Brasil, sobretudo no campo (devido a longevidade das práticas de “parcerias”), mas a forma geral de dominação teve de se adaptar e se reformar para ser condizente com o discurso de liberdade associado ao que seria o trabalho assalariado. Souto Maior defende, inclusive, que a dissonância entre o discurso liberal e a insistência em práticas escravistas está na origem de tal ideia de liberdade. Para o autor, ao proclamar um discurso liberal, a classe dominante brasileira se referia à liberdade de empregar, à liberdade do capital, uma liberdade para os meios de produção, e não que tornasse indivíduos de cativos para livres.

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3. Nova Forma de Dominação

Como já demonstrado, a formação da classe operária brasileira no final do século XIX fazia-se exigir, de um lado ou de outro, a mudança na forma com que o trabalho é colocado.

Souto Maior explana: “Não seriam, no entanto, a necessidade dos trabalhadores e sua luta pelos postos de trabalho oferecidos suficientes para a consolidação do modo liberal de exploração do trabalho assalariado, pressupostamente livre. Seria essencial a legitimação ideológica desse modelo perante os próprios trabalhadores. Também certa aceitação de seus preceitos se fazia necessária”.

De fato, será o véu da ideologia (pelo menos da concepção marxista do termo

“ideologia”) o responsável por cobrir as novas relações de trabalho com a dominação necessária. A questão que se coloca é: como essa legitimação ideológica se dá? A dominação do escravizado é feita através de pura e simples violência, o que, como já visto, é contraditório em relação ao trabalho supostamente livre, que tem uma dominação puramente ideológica. O indivíduo agora se vê separado da sua força de trabalho (que se torna mercadoria), fato que faz com que os argumentos de superioridade racial, por exemplo, também já não sirvam, já que a questão não é mais o indivíduo, mas somente sua força de trabalho.

Assim, o indivíduo é levado a acreditar, através da ideologia, que todos os cidadãos são iguais, já que não há mais disposição legal que diferencie classes de indivíduos. Essa crença ignora, certamente, as relações materiais que os diferentes grupos de indivíduos possuem, como por exemplo a diferença entre burguesia e proletariado (a burguesia, por deter os meio de produção, exerce “papel” diferente na sociedade do que o proletário, que apenas vende sua força de trabalho). Essa ideia convence a classe trabalhadora que é o trabalho que promove as diferenças de classe, ou seja, que é através do trabalho que há ascensão de classes, o que indicaria que a classe dominante é a classe dominante por mérito (sem nenhuma relação com uma apropriação histórica). A construção desse aspecto da ideologia pode ser explicada, entre outras coisas, pela proibição da vadiagem e narrativa que considera esta como imoral.

4. Conclusão

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Pode-se observar, de forma bastante consistente, ainda nos dias de hoje, as formas de dominação do trabalho “livre” assalariado. A condenação da vadiagem e a meritocracia, como aspectos discutidos aqui que representam a dominação ideológica no período de instituição do trabalho assalariado no Brasil, ainda são aspectos fortes da ideologia capitalista no século XXI, facilmente observáveis não só no Brasil, mas em todo o mundo.

Por conseguinte, conclui-se que a exploração do trabalho de uma classe por outra só ocorre através de algum método de dominação, mesmo que esse método varie de acordo com a forma de trabalho instituída. Assim, tanto a escravidão, como a servidão, como também o trabalho assalariado, dependem da dominação de uma classe sobre a outra, ou do homem pelo homem.

5. Bibliografia

Souto Maior, Jorge.A História Do Direito Do Trabalho No Brasil.Mar. 2017.

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