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Kriterion vol.47 número114

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Academic year: 2018

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ASCENSÃO DA AUTOBIOGRAFIA /

DECLÍNIO DO SUJEITO

Myriam Ávila [email protected]

DAMIÃO, Carla Milani. Sobre o declínio da “sinceridade”. Filosofi a e auto-biografi a de Jean-Jacques Rousseau a Walter Benjamin. São Paulo: Edições Loyola, 2006. 239p.

A autobiografi a tem atraído cada vez mais a atenção dos estudiosos em diversas áreas. Antes ocupando um lugar modesto e marginal no conjunto da obra de escritores, fi lósofos, artistas e cientistas, passou, nas últimas décadas, a texto-chave para a avaliação dessa mesma obra ou documento inestimável de uma época e de um Zeitgeist. Para a literatura, o gênero autobiográfi co levanta instigantes questões sobre as negociações entre fi cção e realidade, identidade narrador-autor e em torno do pacto que busca estabelecer com o leitor. Carla Milani Damião, com seu livro Sobre o declínio da “sinceridade”. Filosofi a e autobiografi a de Jean-Jacques Rousseau a Walter Benjamin, discute um aspecto complexo da escrita autobiográfi ca que a crítica literária tem tratado com certa rapidez: o do compromisso com a verdade. Se o reconhecimento do papel da linguagem e dos processos narrativos na mediação entre realidade e texto parece nos resguardar sufi cientemente de uma leitura ingênua, a verdade

KRITERION, Belo Horizonte, nº 114, Dez/2006, p. 439-442.

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como imperativo último da empresa autobiográfi ca tem passado ao largo da maioria dos estudos a ela dedicados.

Entretanto, defi nir o teor de sinceridade nas obras deste e daquele memorialista é ainda um objetivo estreito demais para a refl exão fi losófi ca. Colocando-se na interface literatura-fi losofi a, a autora de Sobre o declínio... mostra sua fi liação à segunda ao ir além da investigação sobre obras e autores, tomando como escopo a mudança de uma sensibilidade (ela usa o termo “caráter social”) pertinente ao sujeito e à percepção da subjetividade, de um período pré ou proto-moderno1 (século XVIII) até o século XX, em que se estabelece o espírito de época que até hoje reconhecemos como contemporâneo. Essa extensão temporal e a tomada de textos autobiográfi cos de diversos tipos como iluminadores de um processo de mudança foram-lhe sugeridas por um projeto de Walter Benjamin, registrado em carta de 30 de novembro de 1939 a Max Horkheimer, então diretor do famoso Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt. Benjamin pretendia fazer uma comparação entre as Confi ssões

de Rousseau e o diário de André Gide, separados por mais de um século. O estudo do século XIX, no entanto, tanto o atrai que o fi lósofo acaba se fi xando em Baudelaire como o autor que encarnou o nascimento de uma subjetividade propriamente moderna. Carla Damião retoma a idéia abandonada por Benjamin acrescentando aos nomes propostos dois outros autores de textos de estatuto vacilante com relação a seu caráter autobiográfi co: Nietzsche (com o Ecce Homo) e Proust, concluindo seu estudo da construção textual do eu com os escritos memorialísticos do próprio Benjamin.

O material é vasto e variado e tantas são as trilhas que se abrem à margem da via principal que é admirável a segurança com que a autora mantém coesa sua linha de argumentação. Damião parte da idéia de que a autobiografi a compartilha questões de base com a fi losofi a, tais como a do conhecimento de si e a convergência possível entre verdade e expressão, confi gurando-se como um cruzamento inevitável entre aquela disciplina e a literatura. Sua escolha decorpus é extremamente engenhosa, já que obtém com ela dois outros pares que ilustram contrastes de postura tão exemplares quanto o que Benjamin propusera. Se, de fato, o cotejo Rousseau/Gide permite uma exposição quase didática das transformações do sujeito na passagem para a modernidade,2 as opções divergentes de Nietzsche e Benjamin com relação à escrita do eu e a condução estilística oposta da mesma escrita em Proust e Benjamin serão

1 Aqui o adjetivo é usado em seu sentido mais restrito, referindo-se a um desenvolvimento que só atinge sua potência máxima na passagem do século XIX ao XX.

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importantes, já não para a compreensão da perspectiva histórica, mas para a iluminação do texto autobiográfi co como gênero e também para uma percepção mais refi nada do pensamento benjaminiano.

As possibilidades combinatórias não terminam aí: tomando-se as

Confi ssões e Em busca do tempo perdido, podemos pensar na passagem da autobiografi a-romance para o romance-autobiografi a como correlata ao tema do declínio da sinceridade. Rousseau “pega carona” na ascensão do romance, formulando o eu como esse personagem do qual, já em Richardson e Defoe, era preciso afi rmar a existência real, enquanto Proust aborda o gênero no momento em que ele já não pode aspirar à monumentalização do sujeito, contentando-se com a imitação lacunar e sempre incompleta3 da experiência cotidiana de si, do outro e do tempo. Essa incompletude, propõe Carla Damião, se faz representar, na escrita, pelo diário, pois a autobiografi a propriamente dita seria sempre esse romance em que o protagonista aparece coeso e íntegro, e a sinceridade não é em nada abalada pela mentira que nela se ancora.

É nesse contexto, ainda, que Sobre o declínio... revisita a opção pela alegoria em Benjamin. As imagens supririam, não só nos textos benjaminianos de caráter autobiográfi co, mas também em seus ensaios, a perda de expressão do sujeito, pelo qual elas falariam, não mais de forma seqüencial e progressiva como nos sintagmas lingüísticos, mas operando em uma temporalidade múltipla que inclui desde o relampejar súbito até a lenta fermentação de sentido que o contato com o presente histórico lhes faculta.

No todo, Sobre o declínio... rende, com o rastreamento dessa questão que fi cara suspensa na obra de Benjamin, uma homenagem ao fi lósofo berlinense que só poderia ser realizada por uma estudiosa perspicaz daquela obra. Quando o texto se estende pela investigação de outros autores, é sempre a Benjamin que se quer voltar e se volta – movimento pelo qual, apesar de toda a equanimidade da autora, ela deixa implícita sua constante admiração. Elogiável é, portanto, sua recusa em mimetizar o estilo benjaminiano, mantendo sempre uma argumentação elegante e fl exível, sem apelos fáceis e equilibrando, com o distanciamento necessário, sua empatia com o objeto.

Embora a capacidade de não se perder nos inúmeros meandros que temas tão amplos quanto os seus não cessam de trazer à baila seja uma das grandes qualidades desse livro, ganharíamos muito se Carla Damião se dispusesse a prosseguir suas investigações dos temas autobiografi a e interação fi losofi a/ literatura com a competência que acaba de demonstrar. Lidando com extensa

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