30/09/2020
Número: 0000583-40.2020.8.17.2360
Classe: AÇÃO CIVIL PÚBLICA CÍVEL
Órgão julgador: Vara Única da Comarca de Buíque Última distribuição : 28/09/2020
Valor da causa: R$ 800.000,00
Assuntos: Fornecimento de insumos Segredo de justiça? NÃO
Justiça gratuita? SIM
Pedido de liminar ou antecipação de tutela? SIM Tribunal de Justiça de Pernambuco PJe - Processo Judicial Eletrônico
Partes Procurador/Terceiro vinculado
MINISTERIO PUBLICO DE PERNAMBUCO - BUIQUE (AUTOR)
Promotor de Justiça de Buíque (AUTOR)
COMISSAO PROVISORIA PARTIDO DO MOVIMENTO DEMOCRATICO BRASILEIRO - PMDB (REU)
TEOFILA MARIA MACEDO VALENCA CORREIA (REU)
Documentos Id. Data da Assinatura Documento Tipo 68805 562 30/09/2020 12:04 Decisão Decisão
Tribunal de Justiça de Pernambuco Poder Judiciário
Vara Única da Comarca de Buíque
AV JONAS CAMELO, S/N, Forum Dr. João Carlos Ribeiro Roma, Centro, BUÍQUE - PE - CEP: 56520-000 - F:(87) 38552832
Processo nº 0000583-40.2020.8.17.2360
AUTOR: MINISTERIO PUBLICO DE PERNAMBUCO - BUIQUE
REU: COMISSAO PROVISORIA PARTIDO DO MOVIMENTO DEMOCRATICO BRASILEIRO - PMDB, TEOFILA MARIA MACEDO VALENCA CORREIA
DECISÃO
Trata-se de Ação Civil Pública de Reparação de Dano Moral Coletivo ajuizada pelo
MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE PERNAMBUCO em face de TEOFILA MARIA MACEDO VALENÇA e PARTIDO POLÍTICO MDB (MOVIMENTO DEMOCRÁTICO BRASILEIRO).
O Ministério Público Estadual relata que, no dia 23 de setembro de 2020, ocorreu evento político-partidário, na cidade de Buíque/PE, organizado pelo MOVIMENTO DEMOCRÁTICO BRASILEIRO e por TEOFILA MARIA MACEDO VALENCA, que percorreu alguns bairros de Buíque/PE, incluindo a zona rural, gerando aglomeração em desconformidade com normas sanitárias vigentes, em razão da Pandemia por COVID-19.
Segue afirmando que o evento partidário fora programado com a finalidade de promover o Partido Político ora requerido e seus respectivos candidatos e representantes nas eleições do ano de 2020.
Outrossim, relata que o evento teve ampla e prévia divulgação, principalmente, pelas redes sociais, dos simpatizantes do grupo político formado pelos partidos mencionados (imagens anexas).
Alega que, o que era para ser um evento ordeiro, dentro das normas que o período requer, em razão da Pandemia por COVID-19, tornou-se um verdadeiro acontecimento festivo de cunho político-partidário, contando com a presença de várias pessoas no local do evento.
Afirma que o encontro de todas essas pessoas no mesmo ambiente gerou uma grande aglomeração que se agravou ainda mais com a chegada dos líderes partidários, causando a euforia, agitação e ainda mais aglomerações de pessoas no mesmo local.
Assevera que, por meio das imagens e de vídeos acostados, que os requeridos, não somente contribuíram decisivamente para as aglomerações, como ainda incitaram o público a manifestarem o apoio, o que influenciou ainda mais os ânimos dos presentes.
Aduz que todo esse cenário de encontro de pessoas, deu-se num cenário de pandemia, mundialmente reconhecido, causado pelo novo coronavírus (COVID-19), vírus de alto poder de proliferação e contaminação das pessoas.
Com isso, o Ministério Público requer a condenação dos requeridos por dano moral coletivo in re ipsa, decorrente do descumprimento das normas sanitárias.
Ao final, a parte autora requer, ainda, liminarmente, que os requeridos se abstenham de realizar qualquer evento que possa gerar aglomeração de pessoas, enquanto durar a situação de calamidade pública em todo o Estado de Pernambuco.
Éo relatório. Decido.
A tutela de urgência, que pode ser cautelar ou satisfativa, exige os seguintes requisitos cumulativos, segundo o art. 300, caput, do CPC: i) a probabilidade do direito; ii) o perigo de dano ou o risco ao resultado útil do processo.
A probabilidade do direito é a plausibilidade de existência do direito que se pretende satisfazer ou acautelar. Para tanto, deve haver uma verossimilhança fática, isto é, a constatação de que há um considerável grau de plausibilidade da narrativa fática, além de uma plausibilidade jurídica, no sentido de que os fatos narrados têm amparo no ordenamento.
Dessa forma, cumpre à parte autora demonstrar ao juízo, por meio de prova inequívoca, a probabilidade do direito pleiteado. Aqui, não se está exigindo um esgotamento da prova, nem se poderia, dado o caráter ainda incipiente da marcha processual. O que deve ser exigido é um conjunto probatório mínimo a demonstrar a plausibilidade de existência do direito.
No presente caso, a medida pleiteada pela parte autora é uma medida de natureza cautelar consistente na determinação para que os requeridos se abstenham de realizar qualquer evento que gere aglomerações de pessoas, em desacordo com as normas sanitárias, em especial o Decreto Estadual n. 49.055/2020.
No caso em apreço, em juízo de cognição sumária, verifica-se que os requeridos, TEOFILA MARIA MACEDO VALENÇA e PARTIDO POLÍTICO MDB (MOVIMENTO DEMOCRÁTICO BRASILEIRO), deixaram de observar as determinações previstas nas normas sanitárias, causando e/ou incentivando aglomerações de pessoas, o que, em princípio, resultou no desrespeito ao bem jurídico da saúde pública e dignidade da pessoa humana.
Tal fato, em tese, pode ser classificado como em desacordo com o art. 14 do Decreto Estadual n. 49.055/20, por causar a concentração de mais de 10 pessoas no mesmo ambiente. Vejamos o que prevê o mencionado dispositivo:
“Art. 14. Permanece vedada a concentração de pessoas no mesmo ambiente em número superior a 10 (dez), salvo no caso de atividades essenciais ou cujo funcionamento esteja autorizado neste Decreto, observadas as disposições constantes do art. 4º ou a disciplina específica estabelecida em outras normas estaduais que tratam da emergência em saúde pública de importância internacional decorrente do novo coronavírus.”
68670838, além dos demais vídeos enviados (ID 68670834, 68670836, 68670837,68671592, 68671591), ocorreu uma aglomeração, notoriamente com mais de 10 pessoas, em aparente desacordo com as normas sanitárias vigentes e, pelo conhecimento preliminar das imagens e documentos, tendo a organização sido efetuada pelos ora requeridos da presente ação.
No curso de uma campanha eleitoral, ou mesmo de um ato de pré-campanha, é até mesmo natural a manifestação espontânea de eleitores e simpatizantes em prol de um determinado candidato. Contudo, como pontuou o Ministério Público na inicial, aparentemente, os dois requeridos incentivaram o ato, em desacordo com as normas sanitárias, promovendo grande agitação e aglomeração das pessoas que lá se encontravam.
Épúblico e notório que estamos enfrentando uma pandemia mundial em decorrência da Covid-19, e seguindo recomendações da Organização Mundial da Saúde, a União e os Estados têm editado normas sanitárias para combater e minimizar os efeitos nefastos dessa pandemia.
No âmbito federal foi editada, por exemplo, a Lei n. 13.979, de 6 de fevereiro de 2020, que estabeleceu medidas que poderão ser adotadas pelas autoridades, no âmbito de suas competências, com vistas ao enfrentamento da pandemia. Ao julgar a ADI n. 6341/DF, o colendo Supremo Tribunal Federal reconheceu a competência concorrente da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios no combate à Covid-19, e que as medidas adotadas pelo Governo Federal para o enfrentamento da Covid-19 não afastam a competência concorrente e nem mesmo a tomada de providências normativas e administrativas pelos demais entes federativos.
Assim, no âmbito estadual, o Governo do Estado de Pernambuco também editou atos normativos para enfrentamento da pandemia. Como visto acima, pelo Decreto Estadual n. 49.055/2020, com as alterações posteriores, ainda está vedada a concentração de pessoas no mesmo ambiente em número superior a 10 pessoas, além da obrigatoriedade de se respeitar o distanciamento mínimo entre as pessoas e o uso de máscaras em qualquer local público.
Com efeito, enquanto vigorar as restrições sanitárias fixadas em decreto estadual, nenhum ato pode promover aglomeração de tantas pessoas no mesmo ambiente, além disso, todos os participantes devem observar as regras de protocolo, como usar máscaras e respeitar o distanciamento mínimo.
Àtoda evidência, eventos de pré-campanha, como convenções partidárias, ou até mesmo atos típicos de campanha, como carreatas, passeatas e reuniões também estão sujeitos ao cumprimento dessas importantes normas sanitárias.
Vivenciamos um momento de extrema gravidade decorrente da pandemia do Covid19, que já matou milhares de pessoas no país, além de ter trazido sérios problemas individuais e coletivos, na dimensão psicológica, social e econômica. É evidente que nesse momento tão difícil faz-se necessário exigir uma postura responsável de todos, especialmente daqueles que almejam disputar uma eleição e ocupar cargos no Poder Executivo.
O político é o primeiro que deve dar exemplo aos seus cabos eleitorais, correligionários, eleitores e à população em geral para observar essas importantes regras sanitárias.
Por tudo isso, entendo que está presente a probabilidade do direito, a ensejar a concessão da tutela de urgência requerida.
que a demora implica para a efetividade da jurisdição e a eficaz realização do direito. Para Fredie Didier, na obra Curso de Direito Processual Civil, Volume 2, 10ª Edição, o perigo de dano que justifica a tutela provisória de urgência deve ser: “i) concreto (certo), e, não, hipotético ou eventual, decorrente de mero temor subjetivo da parte; ii) atual, que está na iminência de ocorrer, ou esteja acontecendo; e, enfim, iii) grave, que seja de grande ou média intensidade e tenha aptidão para prejudicar ou impedir a fruição do direito”.
No caso, igualmente, entendo que está presente o requisito acima, vez que, considerando o atual cenário causado pela pandemia de Covid-19, considerando, ainda, o decreto estadual que prorrogou o estado de calamidade pública causado pela pandemia do novo coronavírus, mostra-se necessária a imposição de obrigação de não fazer, a fim de se evitar novos acontecimentos que possam gerar aglomerações de pessoas, o que pode comprometer o controle da Covid-19 e implicar em riscos à saúde pública.
Assim, da análise dos autos, bem como das provas colacionadas à inicial, denota-se que, ao menos em juízo de cognição sumária, a parte demandante logrou êxito em demonstrar a probabilidade do direito e o perigo de dano.
Nesse sentido, o pedido de tutela de urgência deve ser acolhido, a fim de conceder tutela inibitória para que os requeridos se abstenham de realizar eventos que gerem concentração de pessoas em desacordo com o Decreto Estadual n. 49.055/2020, com as suas alterações posteriores, enquanto perdurar a situação de calamidade pública.
Friso que a presente decisão não terá o condão de impedir os atos de campanha eleitoral, mas apenas que os requeridos se abstenham de gerar concentração de pessoas, em desacordo, sobretudo, com o art. 14 do Decreto Estadual n. 49.055/2020.
Logicamente, a determinação constante da presente decisão somente terá validade enquanto esteja vigente o aludido decreto e seus termos ou que sobrevenha novo protocolo sanitário específico para as campanhas eleitorais, que possa vir a ser definido pelas autoridades sanitárias federais e/ou estaduais.
Ante o exposto, considerando tudo mais que dos autos consta, nos termos dos arts. 300 e seguintes, e art. 497, todos do CPC/15, art. 12 da Lei nº 7.347/85 e art. 84 do Código de Defesa do Consumidor, DEFIRO A TUTELA DE URGÊNCIA vindicada, para determinar que, até posterior decisão, os requeridos se abstenham de realizar eventos que gerem concentração de pessoas em desacordo com as normas sanitárias federais, estaduais e municipais, nomeadamente, mas não exclusivamente, com o Decreto Estadual nº 49.055/2020, com as suas alterações posteriores, enquanto perdurar a situação de calamidade pública e enquanto esteja vigente o aludido decreto e seus termos ou que sobrevenha novo protocolo sanitário específico para as campanhas eleitorais, que possa vir a ser definido pelas autoridades sanitárias federais e/ou estaduais, tudo sob pena de imediata suspensão do evento e multa de R$ 50.000,00 (cinquenta mil reais), de responsabilidade (individual) dos requeridos, para cada novo evento promovido por qualquer dos requeridos desrespeitando a determinação acima.
Intimem-se COM URGÊNCIA os demandados da presente decisão, para que os mesmos procedam ao imediato cumprimento dos comandos acima elucidados.
Oficie-se COM URGÊNCIA ao Comando do Batalhão de Polícia Militar, bem como à Delegacia de Polícia Civil local, informando-lhes desta decisão e determinando que fiscalizem o cumprimento das medidas aqui determinadas, e façam cumprir o que foi acima decidido, sob as penas da lei.
Remetam-se cópias desta decisão para o Cartório Eleitoral local. Ciência ao Ministério Público.
Citem-se os requeridos para, querendo, contestarem a presente demanda, na forma e prazo legais.
Expedientes necessários. CUMPRA-SE COM URGÊNCIA.
BUÍQUE, 30 de setembro de 2020.
Ingrid Miranda Leite Juíza Substituta