GT7: Territorialidades étnicas e políticas públicas na América Latina e Caribe
TRAJETÓRIAS DE EXCLUSÃO E RESISTÊNCIA: UM OLHAR SOBRE OS QUILOMBOS DO SERTÃO.
Vivianne Sousa1
Resumo
Este trabalho compõe o percurso da pesquisa de dissertação e busca discutir e apresentar um olhar sobre os quilombos do sertão, localizados em Catolé do Rocha, no alto Sertão da Paraíba, percebendo as especificidades desses quatro quilombos a partir do cenário dos 39 quilombos identificados no Estado, entendendo sua organização política, o acesso ás políticas públicas, e as peculiaridades em suas trajetórias de exclusão e resistência.
Palavras Chaves: Quilombos. Exclusão. Resistência.
1. Introdução
Este artigo pauta-se na análise da luta pela terra, que vem assumindo recentemente uma amplitude e diversidade no que diz respeito aos grupos étnicos, fruto do conjunto de lutas dos movimentos sociais que reivindicam seus direitos. Nesses movimentos, a discussão étnica e racial se manifesta com a organização e reivindicação dos territórios indígenas pela demarcação de suas terras tradicionais, e pelas populações afrodescendentes que também reivindicam seus territórios de “liberdade”, os quilombos.
Apesar da Abolição da Escravatura ter acontecido em 13 de maio de 1888, á 127 anos atrás, o direito terra só foi garantido a partir da luta durante a construção da Constituição Cidadã em 1988. A organização política dos grupos étnicos se amplia após a promulgação da referida carta magna destacando a demarcação e reconhecimento dos seus territórios e valorização da sua cultura.
A partir da década de 1970, com a influência da Igreja Católica Progressista e os movimentos sociais que lutam pela Reforma Agrária, no Brasil a conquista da terra como
direito humano, sendo um marco da luta por território no âmbito nacional. Esse contexto também influenciou a forma como o próprio movimento foi construído no país, por meio da conexão entre a igreja, o Estado autoritário e a violência cometida contra os direitos humanos. Para Reis (2002, p. 119):
O regime internacional, na sua dimensão formal e informal, reconhece a ligação entre tribos e povos e terras através da cultura e reivindica a posse da terra como condição de sobrevivência não apenas física, mas também cultural de grupos indígenas. No Brasil, essa interpretação também é utilizada pelos remanescentes de quilombos para reivindicar a posse da terra; reivindicação esta que foi reconhecida pela legislação brasileira. No entanto, a concepção nascida dos movimentos sociais brasileiros e de grupos como a CPT é mais ampla do que esta e pretende o reconhecimento da posse da terra como um direito humano.
Com a Redemocratização do Estado brasileiro houve a ratificação de diversos tratados internacionais de direitos humanos que serviram de subsídio na elaboração da nova Constituição Federal, sendo uma das conquistas o Art. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias- ADCT da Constituição Federal de 1988. Este documento rege que “aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida à propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos”. Arruti (2005), ao tratar dessas regulamentações ratificadas pelo Estado, apresenta a seguinte definição de Quilombo:
Categoria social relativamente recente representa uma força social relevante no meio rural brasileiro, dando nova tradução àquilo que era conhecido como comunidades negras rurais (mais ao centro e sudeste do país) e terras de preto (mais ao norte e nordeste), que também começa a penetrar o meio urbano, dando nova tradução a um leque variado de situações que vão desde as antigas comunidades negras rurais atingidas pela expansão dos perímetros urbanos até bairros em torno dos terreiros de candomblé. (ARRUTI, 2005, p. 26)
Considerando a definição de Arruti (2005) ao afirmar que embora esses grupos tenham um passado histórico longo, a categoria social quilombola, é incorporada recentemente. Desse modo, queremos discutir as demandas das demarcações de terras Quilombolas, como um processo que inclui desde a luta por território com a organização política das populações quilombolas, até suas demarcações, constituindo-se intrínsecos todos os processos que influenciam diretamente na conquista da terra e na garantia deste direito humano, considerando o acesso às políticas públicas.
“É necessário que nos libertemos da definição arqueológica”
A resistência é um ato diretamente ligado à vida das populações negras por meio da sobrevivência a escravidão e a organização política na busca pela liberdade que culminou na criação dos quilombos, tendo em vista a produção autônoma perceptível nesses quilombos, para tanto podemos considerar que o Conselho Ultramarino em 1740 definia Quilombo como: “toda habitação de negros fugidos, que passem de cinco, em parte despovoada, ainda que não tenham ranchos levantados e nem se achem pilões nele”. Definição essa que se tornou muito presente até os dias de hoje na mente das pessoas, a qual não corresponde em sua totalidade a nossa realidade. Para Almeida (2011):
Daí a importância de relativizá-los, realizando uma leitura crítica da representação jurídica que sempre se revelou inclinada a interpretar quilombo como algo que estava fora, isolado, para além da civilização e da cultura, confinado numa suposta autossuficiência e negando a disciplina do trabalho (p.60).
Os quilombos formam atualmente um movimento de busca e luta pela terra, inclusive esta permanece muitas vezes dentro do próprio território reconstruído ou de resistência, sobretudo pelo precário acesso de políticas públicas e pelos conflitos de terras com os latifundiários, um exemplo recente de organização política e construção de espaços coletivos de debate e luta pela terra e políticas pública é a formação do Fórum Paraibano de Comunidades Quilombolas que tem se reunido e debatido suas demandas e planejado a realização de intercâmbios para troca de conhecimentos, como oficinas de musicalidade, biojoias e outras temáticas, com apoio do NEDET2 e Gestar3.
2 Os Núcleos de Extensão em Desenvolvimento Territorial são unidades administrativas com função de apoiar ações de extensão e de assessoramento técnico aos Colegiados Territoriais e demais atores dos territórios rurais.
2ª Reunião do Fórum Paraibano de Comunidades Quilombolas – Comunidade Paratibe – 19/07/2016
De acordo com a Fundação Cultural Palmares, o Brasil tem, entre os anos de 2004 a 2009, 1.342 comunidades quilombolas identificadas. No Nordeste foram reconhecidos 755 territórios, região que nesse período apresenta o maior número de comunidades identificadas. O quadro abaixo demonstra as Comunidades Quilombolas da Paraíba:
QUADRO 1 – COMUNIDADES QUILOMBOLAS DA PARAÍBA
Nº Comunidade Quilombola Famílias (estimado) Certificaçã o FCP Município Mesorregiã o
01 Paratibe 120 28/07/2006 João Pessoa
Zona da Mata 02 Mituaçú 225 19/08/2005 Conde 03 Ipiranga 50 12/05/2006 04 Gurugí 253 28/07/2006 05 Matão 31 17/11/2004 Gurinhém Agreste
06 Caiana dos Crioulos 140 08/06/2005 Alagoa
Grande
07 Engenho Bonfim 25 25/05/2005 Areia
08 Mundo Novo 24 19/11/2009
09 Cruz da Menina 50 10/04/2008 Dona Inês
10 Grilo 71 12/05/2006 Riachão do
Bacamarte
11 Matias 53 28/07/2006 Serra
Redonda
12 Pedra D’água 160 25/05/2005 Ingá
13 Serra do Abreu 28 04/11/2010 Nova
Palmeira/ Picuí
14 Areia de Verão 10 09/12/2008 Livramento Borborema 15 Sussuarana 25 09/12/2008 16 Vila Teimosa 15 09/12/2008 17 Pitombeira 50 28/06/2005 Várzea
18 Serra do Talhado 40 04/06/2004 Santa Luzia
19 Talhado Urbano 200 12/07/2005 20 Lagoa Rasa 36 28/07/2006 Catolé do Rocha Sertão 21 Curralinho/Jatobá 50 13/12/2006
22 São Pedro dos
Miguéis
23 13/12/2006
23 Pau de Leite 25 Em processo
24 Santa Tereza 140 07/06/2006 Coremas 25 Barreiras 70 07/06/2006 26 Mãe D’água 125 07/06/2006 27 Umburaninhas 39 07/06/2006 Cajazeirinhas 28 Vinhas 22 20/01/2006
29 Barra de Oitís 150 19/11/2009 Diamante
30 Vaca Morta 48 24/03/2010
31 Contendas 38 07/06/2006 São Bento
32 Sítio Livramento 40 02/03/2007 São José de
Princesa
33 Domingos Ferreira 38 04/08/2008 Tavares
34 Fonseca 30 19/11/2009 Manaíra
35 Serra Feia 140 05/05/2009 Cacimbas
36 Aracatí/Chã 30 Em processo 37 Os Rufinos do Sítio São João 30 17/06/2011 Pombal 38 Os Daniel 25 17/06/2011
39 Os Quarenta 150 Em processo Triunfo
FONTE: FCP; INCRA; AACADE; CECNEQ; Novembro de 2014. Autor: Manoel Felix
de O. Jr; 2014.
Embora as comunidades possuam indícios de ocupação histórica quilombola, a exemplo da manutenção dos costumes, memória, tradições, cultura e ter acionado instâncias jurídicas, os caminhos percorridos para a legalização do território e da certificação de identidade quilombolas são tortuosos e demorados e muitas vezes ineficientes, causando sempre movimentos de desarticulação política nas comunidades.
Tendo em vista as relações de poder existentes, constatamos através de relatos que existe uma morosidade da justiça na resolução dos casos de violência, usurpação de terras e privilégio dos interesses econômicos e políticos pautados na lógica de expansão capitalista. Os órgãos responsáveis pela desapropriação desses territórios demoram muito
em realizar os estudos preliminares, a exemplo da comunidade Curralinho/Jatobá que já está em processo pela solicitação da demarcação da terra há 10 anos.
Podemos considerar que esse poder é reflexo dos conflitos decorrentes do processo de luta pelas terras quilombolas no território brasileiro, que a partir da década de 1970, como afirmam Ratt´s (2003), Arruti (1997) e Marques (2006), apresentam-se como um momento histórico emergente desses grupos sociais. São posturas de articulação que denotam a organização, resistência, busca dos direitos assistidos e embates cotidianos, que se processam por meio de desterritorializações, acampamentos, articulações, violência e impunidade.
Para entender a dinâmica dessas comunidades é fundamental a discussão sobre o território, considerando que esse conceito vem sendo pela ciência geográfica discutido por meio de Raffestin, quando diz que território é constituído por relações de poder. Raffestin (1993), parte, inicialmente, da confrontação dos conceitos de espaço e território. Para ele, espaço e território diferem conceitualmente, sendo, ainda, o espaço anterior ao território; o território é formado pela ação do homem; é definido a partir das relações de poder (econômicas, políticas e culturais) e é a principal categoria de análise da realidade.
Os grupos Quilombolas estão amparados na Constituição de 1988 segundo os seguintes incisos:
Consideram-se remanescentes das comunidades de quilombos, para os fins deste Decreto, os grupos étnico-raciais, segundo critérios de auto-atribuição, com trajetória histórica própria, dotados de relações territoriais específicas, com presunção de ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida.
§ 1.º – Para os fins deste Decreto, a caracterização dos remanescentes das comunidades de quilombo será atestada mediante auto-definição da própria comunidade.
§ 2.º – São terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos as utilizadas para a garantia de sua reprodução física, social, econômica e cultural.
§ 3.º – Para a medição e demarcação das terras, serão levados em consideração critérios de territorialidade indicados pelos remanescentes das comunidades dos quilombos, sendo facultado à comunidade interessada apresentar as peças técnicas para a instrução procedimental. ( Brasil, 1988)
Nesse processo de investigação e análise sobre os Territórios Quilombolas e suas populações tendo em vista as diferenças entre eles e as especificidades espaços políticos e culturais é importante perceber a trajetória de lutas e conquistas dos movimentos sociais, para Maracajá e Rodrigues (2008, p. 5):”é levando em consideração essas questões que
poderemos compreender os conflitos no campo brasileiro vivenciado pelos homens pobres livres, pelos indígenas, pelos negros e pelos escravos.”
Nesse contexto de luta pelas minorias e por direitos, os movimentos constituem um papel fundamental para as conquistas, Gohn (1997) define Movimentos sociais da seguinte forma:
Movimentos Sociais são ações sóciopolíticas construídas por atores sociais coletivos pertencentes a diferentes classes e camadas sociais, articuladas em certos cenários da conjuntura socioeconômica e política de um país, criando um campo político de força social na sociedade civil. As ações se estruturam a partir de repertórios criados sobre temas e problemas em conflitos, litígios e disputas vivenciados pelo grupo na sociedade. As ações desenvolvem um processo social e político-cultural que cria uma identidade coletiva para o movimento, a partir dos interesses em comum. (GOHN 1997, p. 251).
No tocante as discussões de Raça e Racismo nos remetemos a Rodrigues ( 1982) quando aborda o negro como “expressão de raça” balizando-se pela teoria da aculturação e seus desdobramentos culturalistas, o racismo no Brasil, expresso pela denominada democracia racial que é legitimadora da dificuldade de mobilidade vertical e mobilidade horizontal, na medida que homogeneizou ou tentou homogeneizar racial, étnica e culturalmente, as classes sociais gerou preconceito contra o negro e mesmo assim o mito floresceu legitimado pela ideologia racista do branqueamento e gerou um caráter etnocêntrico pautado na valorização da cor da pele e da aparência.
Podemos perceber o racismo presente desde o institucional até as atitudes veladas presentes no cotidiano das comunidades quilombolas que são excluídas dos processos políticos e sociais, apenas tardiamente e ainda que insuficientemente tem a possibilidade da posse da terra, mas tendo que percorrer um árduo de resistência as categorias dadas pelo estado, por exemplo no Artigo 68 da CF contém o termo “Remanescente”, entendendo como um povo que sobrou, como algo folclórico, sem considerar as trajetórias e a realidade desses povos atualmente, sua resistência assim também como a dívida histórica e o escasso acesso aos direitos humanos.
Para Munanga, (1995/96 p. 03-08),
o quilombo é seguramente uma palavra originária dos povos de línguas bantu (kilombo, aportuguesado: quilombo). Sua presença e seu significado no Brasil têm a ver com alguns ramos desses povos bantu cujos membros foram trazidos e escravizados nesta terra. Trata-se dos grupos lunda, ovimbundu, mbundu, kongo, imbangala, etc., cujos territórios se dividem entre Angola e Zaire. (...) Pelo conteúdo, o quilombo brasileiro é, sem dúvida, uma cópia do quilombo africano reconstruído pelos escravizados para se opor a uma estrutura escravocrata, pela implantação de uma outra estrutura política na qual se encontraram todos os oprimidos. Escravizados, revoltados, organizaram-se para fugir das senzalas e
das plantações e ocuparam partes de territórios brasileiros não-povoados, geralmente de acesso difícil.
O processo de luta pela terra no meio dos grupos étnicos é manifestado através da resistência diária desses grupos que acessam minimamente algumas políticas públicas (cestas básicas, construção de banheiros, projeto arca das letras), porém ainda resistem através das ocupações em seus territórios e suas manifestações culturais, sem uma produção autônoma.
Nosso objetivo foi elucidar o debate da luta pela terra dos grupos étnicos, compreendendo suas particularidades e seus avanços garantidos desde a constituição de 1988 e o avanço de algumas políticas afirmativas no decorrer da última década. Considerando que na Paraíba apenas o Quilombo do Bonfim teve uma terra demarcada, os demais ainda caminham no processo de reconhecimento e de luta pela terra e os passos seguintes após o reconhecimento pela Fundação Cultural Palmares, entendendo que existe uma morosidade nesse processo e que as equipes do INCRA muitas vezes não chegam a comunidades distantes da capital com isso as comunidades quilombolas ainda permanecem na subjugação e com sérias dificuldades de permanência nas terras, migrando na maioria das vezes para as grandes cidades e suas periferias em busca de trabalho e com uma condição de vida precária.
3. Lagoa Rasa, São Pedro, Curralinho/Jatobá e Pau de Leite – Os quilombos do Sertão.
“ eu trabalho nos quilombolas como líder para que melhore a qualidade de vida deles, para que eles tenha primeiro que tudo a terra, pois os quilombolas não tem a terra, eles tem que ter moradia digna, geração de trabalho e renda e condições para que coloquem seu próprio negócio, eu fiz um curso do pronatec de garçom e hoje eu trabalho numa empresa de eventos e festas, cozinhando, sendo garçonete...” ( Maria Francisca da Silva, Bidia, Liderança Quilombola - Entrevista - Pesquisa de Campo em 27/12/2015)
Os quilombos do Sertão, localizam-se em Catolé do Rocha, Alto Sertão da Paraíba, a 411km da Capital Paraibana, uma típica cidade do interior com 29 mil habitantes e com o maior número de comunidades quilombolas identificadas no estado, sendo 04 quilombos
que envolvem uma cidade marcada pelas oligarquias e por um vasto tempo na história com escasso acesso às informações, além das várias reproduções do feudalismo nas áreas rurais e um território entremeado por relações de poder. Um cenário político de representatividade majoritariamente ocupado por homens brancos, médicos, ricos e de uma única família e sem nenhuma sensibilidade para as populações quilombolas desse munícipio.
As comunidades quilombolas se chamam: Lagoa Rasa, Curralinho/Jatobá, São Pedro e Pau de Leite, as três primeiras encontram-se nos registros da Fundação Cultural Palmares, a última, reconhecida apenas pela AACADE4, vivencia o processo de luta pela sua certificação a partir do Artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais transitórias (ADCT) que diz “aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os respectivos títulos”.
A comunidade Pau de Leite ainda não conseguiu sua certificação, ainda está submetendo-se aos pareceres e moldes do estado para a sua certificação, na última pesquisa de campo realizada em Dezembro de 2015 no Quilombo um dos líderes afirmou, que a resposta dada a eles para não certificação era “a ausência de história no território”. Contudo, a comunidade quilombola ainda resiste em uma área rural as margens de uma estrada, vivendo apenas com suas casas de taipa e seus quintais, cujas famílias são beneficiárias do Programa Federal Bolsa família e produzem em sistemas de meia/terça5, onde parte da produção dessas famílias é repassada para o proprietário das terras ocupadas tradicionalmente pelas/os quilombolas.
A comunidade Lagoa Rasa, localizada na Zona Rural do município, onde começou o processo de formação política e organização, a partir da década de 90 com a participação do líder do movimento negro Paraibano Balula, desencadeando na auto organização da comunidade negra que mais tarde receberia sua certificação e suas lideranças contribuiria diretamente para o auto reconhecimento das demais comunidades quilombolas do município e região. Atualmente residem 23 famílias no quilombo, porém a região vivencia a constante migração para a zona urbana dos seus moradores e moradoras em busca de emprego e geração de renda, os moradores da localidade consideram uma área esquecida e abandonada, sofrem uma enorme dificuldade com água e para desenvolver a
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Associação de Apoio aos Assentamentos e Comunidades Afrodescendentes
agricultura. É importante considerar as relações de poder existente nestas terras que pela presença constante dos “patrões” isso amedronta diariamente a reivindicação pela posse da terra. A comunidade no decorrer dos anos após a certificação foi beneficiada com a construção da Associação Comunitária, Programa Arca das Letras, a Construção de Banheiros e Cisternas e o beneficiamento cestas básicas para as famílias o que ainda é insuficiente para as especificidades desses povos.
Com a contribuição das lideranças da Comunidade Lagoa Rasa, a comunidade Curralinho Jatobá e São Pedro passaram pelo processo de auto organização e certificação, são duas comunidades com características distintas no sentido que Curralinho Jatobá fez a reivindicação de demarcação da terra e agora quase 10 anos depois, na nossa pesquisa de campo não encontramos ninguém no quilombo e o que ficamos sabendo é que os moradores e moradoras migraram em busca de emprego na cidade e São Pedro ainda não reivindicou a posse de terra.
Na comunidade São Pedro é bastante presente na fala dos quilombolas, o preconceito vivenciado por eles diariamente, a comunidade é dividida em duas São Pedro dos Felipe e São Pedro dos Miguéis – Quilombola, o que ocorre é que São Pedro dos Felipe onde fica localizada a escola é onde ocorrem os casos de racismo em relação aos Quilombolas de São Pedro dos Miguéis. A comunidade apresenta uma relação direta com a comunidade quilombola de Contendas, no município de São Bento, relações de parentesco e intercâmbios culturais e nas tradições e festas, a comunidade assim como as demais do município, enfrenta dificuldades, sobrevivem com bolsa família, aposentadoria e recebem algumas políticas como a da cesta básica.
Diante desse contexto percebemos a invisibilidade dessas comunidades quilombolas no município, mediante aos conceitos e ideias propagadas que o quilombo é um resquício do que restou, a retrograda visão de caracterizar esses grupos como folclóricos e enquadrá-los em cenários que não evoluem com o tempo e mantém uma dinâmica estática em seus territórios, é absolutamente necessário dar voz a essas populações e demonstrar as formas de resistência em meio aos contextos de relações políticas autoritárias, a seca, as escalas migratórias e o escasso acesso as políticas públicas que se resumem a uma cisterna e cestas básicas que de maneira nenhuma atende por completo as necessidades desses grupos, bem como suas especificidades.
Todas as Comunidades Quilombolas do Sertão em Catolé do Rocha situam-se na Zona Rural, plantam milho e feijão em terras ocupadas historicamente por esses grupos,
mas com “um patrão” - assim é chamado o dono das terras por essas famílias-, a produção só para o consumo é feita por todos os membros da família, vivenciando os processos da escassez de água, após a produção é repassado metade do que foi produzido para o “patrão”. A maioria das casas não possui água encanada, nem saneamento básico, as escolas próximas estão sendo fechadas por falta de alunos, o que permanece fortemente são as igrejas que assumem a finalidade de manter as comunidades ativas em festas típicas, organização de bingos para arrecadar fundos para as atividades, assim também como o intercâmbio entre as comunidades que acontece durante esses momentos promovidos pelas igrejas nos quilombos.
As comunidades quilombolas, são um dos grupos populacionais mais vulneráveis do país, pois de um total de 2002 comunidades legalmente reconhecidas no país, só 238 conquistaram o título definitivo de suas terras, sendo apenas 02 Comunidades ( Bonfim e Grilo) na Paraíba a receber o título de posse da terra, segundo os dispositivos da Constituição Federal de 1988.6
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