ANÁLISE DO TRATAMENTO DA PROBLEMÁTICA HABITACIONAL NO
PROGRAMA 100 PARQUES PARA SÃO PAULO: ESTUDO DE CASO DO
PARQUE LINEAR CANIVETE
Fabiana Cristina da Luz, mestranda em Planejamento e gestão do território, na Universidade Federal do ABC. ([email protected]) Brenda Aparecida Lima Cruz, graduanda em Ciência e tecnologia, na Universidade Federal do ABC. ([email protected])
Resumo: O presente artigo analisa o processo de implantação do Parque Linear Canivete, localizado na zona norte da cidade de Cidade de São Paulo e inserido no "Programa 100 Parques" promovido pela Prefeitura de São Paulo. O objetivo do programa é a recuperação ambiental dos cursos d´água, fundos de vales e áreas de preservação permanente (APPs) ocupadas por assentamentos precários. Analisaremos como foi tratada a questão habitacional, ou seja, como foram atendidas as famílias que habitavam a favela “Canivete”.
Busca- se compreender a abordagem do projeto e verificar se os aspectos ambientais e sociais foram considerados e tratados de forma articulada. Para tanto identificamos a solução de recuperação do parque proposta e a solução habitacional oferecida à população que residia na área de implantação deste parque.
Palavras-chaves: APPs;100 Parques; habitação.
Abstract: This article analyzes the implementation process of the Parque Linear do Canivete, located in the northern city of São Paulo City and inserted into the "100 Program Parks" sponsored by the Prefecture of Sao Paulo. The program's goal is the environmental restoration of watercourses,valley bottoms and permanent preservation areas (APP) occupied by slums. We will examine how the housing issue has been addressed,in other words how they attended the families that lived in the favela "Canivete."
We seek to understand the approach of the project and verify if the environmental and social aspects were considered and treated in an articulated manner. For that, we identified the recovery solution proposed to the park and housing solution offered to the population residing in the area of deployment of this park.
Introdução
Não é raro identificar-se atualmente intervenções em áreas próximas a cursos d´água, ocupadas por favelas, que possuem como finalidade apenas a recuperação ambiental. Nesse contexto, a problemática habitacional é tratada de forma secundária, e o remanejamento ou o reassentamento das famílias são a única alternativa viável; o problema é a opção de atendimento habitacional que é oferecida à população removida, que muitas vezes ainda não garante moradia adequada, podendo contribuir para a ocupação de outras áreas ambientalmente frágeis.
Além disso, também são comuns intervenções urbanísticas que desconsideram a questão ambiental, como acontece, por exemplo, em programas de urbanização de favelas.
As favelas podem ser definidas como áreas ocupadas ilegalmente, carentes de infra-estrutura e com ocupação desordenada. No relatório publicado pela UN-Habitat (2003), essa modalidade de assentamento precário é apontada como o principal desafio do século XXI, no que diz respeito à questão urbana. Nesse contexto, o Brasil possui um papel importante, visto que, em 2003, 36,6% da população brasileira residia em núcleos ocupados por favelas, o que representava em números absolutos 51,7 milhões de pessoas. O país é assim o terceiro no mundo com maior número de habitantes favelados, atrás somente da China e da Índia com 193,8 e 158,4 milhões de habitantes respectivamente (UN-HABITAT, 2003).
Geralmente, os loteamentos clandestinos e/ou irregulares estão localizados em áreas ambientalmente frágeis (beiras de rios e encostas de morros, por exemplo) e em alguns casos protegidas por lei, já que, devido à impossibilidade de comercialização legalizada, são desvalorizadas pelo mercado formal.
A existência dessa precariedade habitacional está relacionada ao processo de urbanização e industrialização brasileiro, que, como apontou Ermínia Maricato (2001), contribuiu para ampliação da desigualdade social existente no país desde o período colonial; assim, embora a problemática da habitação tenha se agravado na segunda metade do século XX, devido, entre outros fatores, aos baixos salários pagos (que não incluíam o gasto com a moradia) aos operários da indústria, esse problema está articulado às características da sociedade da época, pois, como afirmou João Whitaker Ferreira (2007):
O problema habitacional no Brasil é um problema estrutural, resultante das formas bastante específicas da formação da sociedade e do Estado brasileiros, que reproduzem os mecanismos de dominação das elites. O problema da falta de acesso à habitação remonta ao período da colonização, e não pode ser separado da questão do acesso á propriedade da terra (FERREIRA et al, 2007, p. 37).
No entanto, apesar da precariedade habitacional estar associada a uma questão estrutural, é evidente que, além das questões sobre a concentração de terra, a existência de um mercado imobiliário formal excludente, somado à ausência de políticas públicas que garantissem moradia adequada para famílias de baixa renda, agravaram essa precariedade habitacional.
Assim, essas famílias acabaram, ou comprando um lote irregular e/ou clandestinoi nas periferias das grandes cidades, ou ocupando áreas vazias, das quais muitas tornaram-se favelas. Muitas vezes, essas ocupações acontecem em áreas que são consideradas de
proteção permanente, que exigem por determinação legal a preservação de faixas mínimas nas margens de cursos d’água, variando conforme as larguras desses cursos. No geral, as legislações sobre as APPs têm como objetivo conservar os recursos hídricos, o solo e a biodiversidade das áreas, a fim de assegurar o bem-estar ambiental e da população. Porém, o descumprimento da lei é bastante evidente, o que aumenta, por exemplo, o risco de escorregamentos e acidentes para os moradores, principalmente na época de chuvas das regiões. Além disso, não há preservação da área, que acaba sendo mal conservada.
Apesar da existência de uma problemática notavelmente urbano-ambiental, na maioria das vezes essas questões são compreendidas como antagônicas; assim, existe um enfoque para o tratamento da questão ambiental que não necessariamente considera a existência da problemática urbana e vice e versa (MARTINS, 2006).
Na prática, ainda há um predomínio do tratamento setorial dessas questões. Além disso, o problema ambiental nas grandes cidades é primeiramente urbano, visto que muitos processos de deterioração ambiental nas cidades estão associados à precariedade de habitação, já que a ausência de infra-estrutura adequada acaba poluindo as áreas próximas com o esgoto das casas. Assim, há uma relação direta entre moradia pobre e degradação do meio ambiente. (MARICATO, 1994).
Ambos os processos são prejudiciais à (re) produção do espaço urbano, pois não garantem concomitantemente um espaço social e ambientalmente justo, mas pelo contrário, havendo desarticulação entre a recuperação ambiental e urbanística, o que em muitos casos, acaba por gerar um agravamento da problemática urbano-ambiental.
Existe, assim, uma necessidade em promover uma articulação das agendas urbana e ambiental, visto que apesar de existir um incentivo para a criação de políticas públicas ambientais, o tratamento da questão no meio urbano ainda é recente.
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O Programa 100 Parques para São Paulo
No ano de 2008, com base nos incentivos concedido pelo Plano Diretor Estratégico (Lei 13.430/2002) foi criado o Programa 100 Parques para São Paulo, pela Secretaria do Verde e do Meio Ambiente (SVMA). Esse programa possui dois objetivos principais: o primeiro deles está associado à criação de um banco de terras públicas para prestação de serviços ambientais e o segundo relaciona-se com a criação de um plano de adaptação ao novo cenário de mudanças climáticas. Em relação ao primeiro objetivo, é possível perceber que a recuperação de áreas públicas é elemento determinante para definir a área de implantação dos parques, já que a maioria dos espaços selecionados para a criação dos mesmos é de propriedade do poder público1, o que elimina um grande entrave, que é a desapropriação de terras (SÃO PAULO, 2010). Além disso, o programa em questão busca ampliar as áreas verdes existentes no município, bem como recuperar as áreas lindeiras aos cursos d´água; a meta é alcançar 50 milhões de metros quadrados em áreas verdes, o que corresponderia a 100 parques até o final do ano de 2012.
A Secretaria Municipal de Habitação (Sehab) e as subprefeituras das regiões onde serão
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Como se sabe, grande parte dás áreas pertencentes ao poder público -em especial aquelas localizadas nas beiras de rios e córregos- na cidade de São Paulo, estão ocupadas ilegalmente, sobretudo, por favelas e outras tipologias de habitações precárias. A SVMA não possui um plano de ação específico para lidar com as ocupações existente na área de implantação dos parques, logo, nos casos em que há necessidade de remover e/ou urbanizar a áreas do parque ou próxima a ele, tal processo é realizado pela Secretaria Municipal de Habitação.
implantados também são responsáveis pelo programa.
A finalidade era construir um novo modelo de intervenção em áreas que margeiam aos cursos d´água e de fundo de vales, realizando uma recuperação ambiental e ao mesmo tempo urbanística em áreas que atualmente estão ocupadas por assentamentos precários. Assim, haveria também uma proposta de solução para os moradores que ocupavam o perímetro do parque linear, como respeito ao direito à moradia.
A cidade de São Paulo possui atualmente 1.615 favelas e 1.021 loteamentos irregulares e/ou clandestinos (HABISP, 2012), dos quais muitos estão localizados em áreas ambientalmente frágeis, como ,por exemplo, as áreas de mananciais da represa Billings e Guarapirangaii, ou ainda em áreas de risco, tais como beiras de rios e córregos ou encostas de morros.
Segundo Devecchi (2010,) mais de dois milhões de pessoas ocupam uma área de aproximadamente 11.000.000m² de beiras de rios e córregos. Essa ocupação é composta principalmente por famílias de baixas rendaiii, o que representa, segundo Haroldo Torres (1997), uma desigualdade ambiental, visto que os indivíduos e os grupos sociais são expostos a riscos diferenciados nas grandes cidades, como acidentes geológicos naturais e também problemas de saúde para a população que convive muito próxima ao esgoto despejado nos córregos.
As diretrizes propostas pelo Plano Diretor Estratégico enfatizam a necessidade de ampliação, manutenção e recuperação da rede hídrica estrutural, que é composta pelos
cursos d´água e fundos de vale, eixos ao longo dos quais serão propostas intervenções
urbanas para recuperação ambiental – drenagem, recomposição de vegetação e
saneamento ambiental (SÃO PAULO, 2002, p.93); além disso, também estão inclusas as
áreas verdes, formadas por espaços ajardinados ou com arborização significativa (SÃO
PAULO, 2002, p.105).
De forma específica, o item sobre recuperação da rede hídrica estrutural tinha como objetivo conservar:
Áreas de Proteção Permanente (APPs) que margeiam os cursos d’água para minimizar os efeitos negativos das enchentes (…) além de representarem expansão da área verde na cidade, contribuirão para melhorar a permeabilidade do solo (…). Os parques irão também reduzir áreas de risco, na medida em que evitarão a construção de habitações irregulares nas áreas de várzea dos córregos, e ampliarão a qualidade de vida das populações que vivem na região ao disponibilizar equipamentos de lazer (SVMA, 2011, S/P).
Os parques lineares também seriam construídos com a finalidade de recuperar para os
cidadãos a consciência do sítio natural em que vivem, ampliando progressivamente as áreas verdes (SÃO PAULO, 2002, p. 93) e os caminhos também arborizados, que seriam
a interligação com os demais parques (urbanos e naturais) existentes na área.
Segundo Alejandra Devecchi (2010), a implantação de parques lineares poderia contribuir para redução da pressão sofrida pelas APPs devido à intensa ocupação existentes nessas áreas, que contribui para a poluição e contaminação dos córregos; além disso, a ausência de cobertura vegetal diminui a absorção da água pluvial, contribuindo para o assoreamento dos mesmos e, portanto, enchentes mais freqüentes. Além das conseqüências locais, os córregos são bastante afetados também em outros trechos,
principalmente naqueles onde a topologia da área faz com que haja acúmulo de sedimentos transportados.
Até 2012, o programa previa a implantação de 33 parque lineares, que deveriam estar localizados principalmente nas cabeceiras dos principais rios da cidade, sendo elas:
Cabeceiras do Ribeirão Perus, Cabeceiras do Cabuçu de Baixo e do Cabuçu de Cima (Localizados na borda da Serra da Cantareira) (Zona Norte);
Nascentes do Aricanduva (Zona Leste); Áreas de Mananciais (Zona Sul)
Além disso, foram definidas outras áreas prioritárias com base no perfil ambiental do território das subprefeituras, através de quatro indicadores socioambientais: distribuição da cobertura vegetal, desmatamento, temperatura aparente da superfície e a taxa de impermeabilização. Atualmente, há na cidade 81 parques implantados.
Segundo a SVMA (2011), em 2005 havia na cidade de São Paulo 34 parques; a partir desse ano, seguindo as diretrizes do PDE, a Prefeitura Municipal de São Paulo passou a investir na construção de novos parques. Do total dos 100 parques previstos, 43 são lineares, dos quais 17 já foram implantados, dez estão em fase de projeto e os demais estão em diferentes estágios de construção. Atualmente, 81 parques já estão implantados na cidade.
O Parque Linear Canivete
O Parque Linear Canivete, localizado na região da Subprefeitura da Freguesia do Ó/Brasilândia, zona norte de São Paulo, teve sua primeira fase concluída em 2010. Esse parque está inserido em uma das três áreas prioritárias de intervenção do Programa 100 Parques, que corresponde à borda da Serra da Cantareira, pertencente à sub-bacia do Córrego Bananal, que também apresenta propostas para outros parques.
A área na qual atualmente está situado era ocupada por uma favela, cuja ocupação teve início na década de 1970, segundo dados da Secretaria Municipal de Habitação. Pertencente ao bairro Jardim Damasceno, surgiu a partir de um loteamento clandestino, com a construção das primeiras habitações e ocupação de outras áreas próximas, inclusive aquelas lindeiras ao córrego Canivete, que nomeou a favela e também o parque. Os moradores do bairro afirmam que até 1985 a área da favela era composta por apenas cinco barracos. No entanto, após esse período a ocupação viveu um intenso processo de crescimento, transformando-se em uma área precária com alta densidade ocupacional. Diante de tal situação, e juntamente com o Programa de Canalização de Curso d´água e Fundos de Valesiv (Procav) da Prefeitura Municipal de São Paulo, a populaçãov do entorno solicitou que o Córrego fosse incluído no âmbito desse projeto e que as famílias que ocupavam a área de várzea fossem removidas e assentadas em conjuntos habitacionais. Contudo, tal solicitação não foi atendida. Apenas no final da década de 1980, a Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), adquiriu uma área próxima, para a construção de Unidades Habitacionais (que posteriormente foram denominadas de CDHU Brasilândia D). No entanto, apesar da precariedade da favela existente próxima à construção dos conjuntos habitacionais, e da reivindicação dos moradores para que as unidades do CDHU fossem destinadas para a população que residia na beira do córrego Canivete, tal solicitação também não foi atendida. Assim, a
ocupação da favela continuou em seu processo de expansão e adensamento, que refletia um processo existente em todo o distrito de Brasilândia, visto que, como aponta Cecilia Angileli (2007), entre os anos de 1970 a 2007 surgiram na região 58 novas favelas e 38 novos loteamentos (clandestinos e ilegais).
Em 2004, durante a formulação do Plano Regional Estratégico da Subprefeitura da Freguesia do Ó/Brasilândia, foi proposta a implantação de parques lineares ao longo dos Córregos Itaguaçu, Bananal, Canivete e Carombé. A construção deles tinha como objetivos a recuperação de áreas degradadas juntamente com a constituição de barreiras para ocupação de áreas de risco, sujeitas a inundações e deslizamentos.
Sendo assim, no ano de 2006, diante da existência de um forte incentivo à implantação dos parques (sobretudo os lineares), e das freqüentes enchentes no córrego, a Subprefeitura da Freguesia do Ó, em conjunto com a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente, iniciaram o processo de formulação do projeto do futuro Parque Linear Canivete.
Segundo a Subprefeitura da região, a primeira decisão tomada durante as negociações estava relacionada à ocupação da favela do Canivete. Definiu-se que, após o cadastro realizado por uma empresa privada, deveria ser iniciada a remoção das famílias que ocupavam a área lindeiras ao córrego. Além disso, esperava-se que a Subprefeitura e a Secretaria Municipal de Habitação apresentassem soluções habitacionais adequadas para os moradores da favela Canivete.
No ano de 2008, foi realizado o cadastramento da favela do Canivete, que constatou que a área era ocupada por aproximadamente 600 famílias. Nesse mesmo ano (2008) foi formulado o Programa 100 Parques para São Paulo, definindo o Parque do Canivete como um dos primeiros parques lineares a serem construídos.
Segundo o PDE, caso uma família seja removida para implantação de um parque linear, deve ser garantindo a ela uma moradia adequada, localizada na mesma sub-bacia onde já residia; no caso de impossibilidades de reassentamento, é preciso que a família e o poder público negociem um remanejamento, para uma nova área em outra sub-bacia, ainda em condições adequadas de moradia.
Em junho de 2008, teve início o processo de apresentação das propostas habitacionais para as famílias que ocupavam o perímetro do futuro parque. Inicialmente, integrantes do movimento social do bairro Jardim Damasceno, a Sehab e a Subprefeitura apresentaram apenas uma solução para os moradores, denominada de “verba de apoio habitacional”, que correspondia a um valor de cinco mil reais pago às famílias. Porém, devido à resistência de algumas em aceitar a proposta, foram apresentadas outras possibilidades de soluções. Foram elas:
Pagamento de oito mil reais para compra de outra moradia;
Pagamento de seis meses de aluguel no valor de trezentos reais, e realização de cadastro para obtenção de uma futura moradia, nos programas de moradia da PMSP e
Encaminhamento para unidades habitacionais, construídas pela PMSP.
Porém, essas outras opções de atendimento, principalmente aquela referente ao encaminhamento para unidades habitacionais, foram restritas, como mostra a tabela a seguir:
Solução habitacional Famílias atendidas
Unidade Habitacional em City Jaraguá 66 Unidade Habitacional em Cidade Tiradentes F 115 Unidade Habitacional em Lidiane II 3 Verba para compra de Moradia (R$ 8.000,00) 21 Verba de Apoio Habitacional (R$ 5.000,00) 315 Verba para moradias comerciais (R$ 2.500,00) 7
Total 527
Fonte: Arquivo da Subprefeitura Freguesia do Ó. 2010.
Algumas famílias acabaram sendo contempladas com unidades habitacionais, que apesar de não estarem localizadas na mesma sub-bacia da favela removida, são a solução mais adequada. Porém, o atendimento habitacional que predominou foi a “indenização”: nota-se que boa parte das famílias (no total de 343) receberam a verba de apoio habitacional (R$ 5.000,00) ou a verba de compra de moradia (R$ 8.000, 00). Ambos os valores estão muito abaixo do valor de uma habitação no mercado formal, sendo provável que esses moradores tenham optado por outra moradia, ainda em áreas precárias e ambientalmente frágeis. A beira do córrego do Bananal (do qual o córrego Canivete é afluente) abrigava outra favela, que, segundo informações dos moradores do Jardim Damasceno, possuía espaço para a construção de novos barracos; assim, é provável que tenha ocorrido migração dos moradores para essa favela, solucionando apenas o problema local e temporário da área do córrego do Canivete.
Contudo, segundo o projeto da SVMA, a área na qual está localizada a favela Bananal também será transformada futuramente em um parque, o Parque Linear Bananal. Assim, a favela dessa área também será removida, e as famílias que foram removidas da favela do Canivete passarão novamente pelo mesmo processo, e se a solução habitacional oferecida for semelhante à oferecida na implantação do Parque Linear Canivete, é provável que o ciclo de remoção dos moradores de áreas precárias, de risco e ambientalmente frágeis, permaneça, com conseqüente ocupação de outras áreas com as mesmas características.
Apesar da implantação do Parque Linear Canivete não ter solucionado totalmente a problemática habitacional que envolvia sua implantação, em termos ambientais e da criação de um espaço de lazer no bairro Jardim Damasceno, o parque obteve êxito. Segundo relatos dos moradores e informações dos técnicos da Defesa Civil, não houve mais enchentes no córrego Canivete; isso se deve à vegetação implantada e a desocupação da área ribeirinha auxiliarem no combate às mesmas. Além disso, as crianças e jovens do bairro que sofriam com a carência de equipamentos públicos foram beneficiadas, com quadras poliesportivas, playgrounds e áreas de estar.
O Parque realizou a recuperação de 1 km do córrego, e também recebeu em seu perímetro 300 mudas de árvores, contribuindo para a sua arborização. Foi inaugurado no ano de 2010, com uma área de 60.000m.
Considerações finais
Embora seja reconhecida a necessidade de se adotar uma abordagem socioambiental para intervir em áreas ambientalmente sensíveis ocupadas por favelas (e seus assemelhados), a prática nem sempre caminha nesta direção. O Plano Diretor Estratégico
do Município de São Paulo estabelece que deve ser garantida a condição de moradia digna , entretanto isto não foi observado no caso estudado. No âmbito do “Programa 100 Parques Para São Paulo”, a implantação do Parque Linear Canivete promoveu a recuperação ambiental do setor urbano mas não viabilizou solução de habitação adequada para o conjunto de seus moradores.
Conclui-se que ainda é frágil a articulação entre as políticas públicas ambientais e habitacionais, porém seria imprescindível para garantir a recuperação ambiental de áreas degradadas e também o direito à moradia digna.
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Segundo Raquel Rolnik (2004) os loteamento irregulares são aqueles que não estão de acordo com os requisitos mínimos previstos na lei, dos quais o projeto do loteamento foi aprovado pelo órgão responsável, mas que, no entanto, não foi executado de acordo com o projeto aprovado, já os loteamentos clandestino são aqueles que não possui nenhum projeto apresentado ou aprovado pelos órgãos responsáveis. ii
Aproximadamente 250 favelas e 135 loteamentos irregulares estão localizados nas áreas de mananciais (HABISP, 2012).
iii
Embora as famílias de baixa renda sejam as principais ocupantes dessas áreas, há muitas ocupações nessas áreas realizadas tanto por pessoas de renda superior, como por empresas privadas.
iv
O Procav é um Programa iniciado no ano de 1987 que tem como finalidade realizar obras em diversas bacias hidrográficas da cidade de São Paulo, na primeira fase do programa foram canalizados 9 córregos, num total de 27,9 km de canais, 23,8 km de avenidas, além de ter sido realizado a remoção de 1.590 famílias e 995 imóveis localizados nas áreas de intervenções das obras. Na segunda fase do programa (Procav 2) o objetivo era realizar a canalização de 11 córregos distribuídos pelas zonas leste, norte e sul do município de São Paulo, totalizando cerca de 35,4 km de córregos canalizados, 36,6 km de vias marginais paralelas ao longo desses córregos, além da construção de 8 reservatórios de detenção e da remoção de 4.500 famílias para três conjuntos habitacionais.