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MULHERES NEGRAS NO MERCADO DE TRABALHO: DESIGUALDADE E DISCRIMINAÇÃO RACIAL RESUMO

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Academic year: 2021

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MULHERES NEGRAS NO MERCADO DE TRABALHO:

DESIGUALDADE E DISCRIMINAÇÃO RACIAL

Francielly Cristina da Silva; Yale Koolen da Silva Faculdade de Tecnologia de Mococa

Discentes do curso Gestão Empresarial com Ênfase em Processos Gerenciais

Marcelo Micke Doti

Faculdade de Tecnologia de Mococa

Docente do curso Gestão Empresarial com Ênfase em Processos Gerenciais

RESUMO

O presente artigo tem como objeto de estudo a mulher negra no mercado de trabalho, a procura da mulher negra por direitos iguais, observando-se o princípio da igualdade, a sua inserção no mercado, como também segurança e respeito. Para tanto, adotou-se o método de pesquisa exploratória, através de questionário estruturado aplicado via Internet. Por meio da análise destas informações coletadas junto das entrevistadas foi possível concluir que o universo de mulheres negras da pesquisa sente que há uma grande desigualdade entre o tratamento dispensado aos dois gêneros e etnia no mundo do trabalho e que os diversos direitos assegurados por lei, não impedem a discriminação de raça e gênero.

Palavras-chave: Mulheres negras. Mercado de trabalho. Discriminação de raça. Desigualdade de gênero.

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1. INTRODUÇÃO

Procuramos dividir a introdução em duas partes, na primeira parte será mostrado brevemente um quadro histórico relatando sobre as violências sofridas pelas mulheres negras e o mercado de trabalho após a abolição da escravatura e em seguida dados recentes sobre a dificuldade para sua inserção no mercado de trabalho.

1.1 QUADRO HISTORICO

Historicamente o Brasil é o país que mais recebeu escravos nas Américas e foi o último a abolir a escravidão, em 1888. Portanto, o racismo está nas bases da formação da sociedade brasileira.

E quando falamos em escravidão é difícil não pensar nas mulheres negras. Essas mulheres eram meramente utilizadas para os serviços e exploração de todos os tipos: trabalho doméstico, ama de leite e eram vistas principalmente como objeto sexual dos homens, sofriam vários castigos violentos.

O trabalho como serviçal doméstica foi uma recorrência na vida das mulheres negras, não só como porta de entrada para o mercado de trabalho, mas em alguns casos a única forma possível de ocupação oferecida a essas mulheres. Enquanto para as mulheres brancas a principal função dentro do lar era o de estabelecer a ordem e o bom funcionamento da casa.

Mesmo após a abolição da escravatura e com o início da industrialização a população negra foi apartada de direitos básicos e não assumiram os postos de trabalho, as mulheres negras tiveram um papel fundamental na manutenção das famílias negras, elas que antes estavam na condição de mulheres escravizadas, foram trabalhar como empregadas domésticas.

Com o passar do tempo e o desenvolvimento da sociedade, foi-se identificando cada vez mais as diferenças e as dificuldades da população negra ao acesso aos seus direitos e principalmente a dificuldade das mulheres negras

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em se inserir no mercado de trabalho, dentre outras discriminações. Portanto, foi criado leis com o intuito de combater esse racismo patriarcal.

A LEI Nº 12.288/10, institui o Estatuto da Igualdade Racial, destinado a garantir à população negra a efetivação da igualdade de oportunidades, a defesa dos direitos étnicos individuais, coletivos e difusos e o combate à discriminação e às demais formas de intolerância étnica.

I – discriminação racial ou étnico-racial: toda distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada em raça, cor, descendência ou origem nacional ou étnica que tenha por objeto anular ou restringir o reconhecimento, gozo ou exercício, em igualdade de condições, de direitos humanos e liberdades fundamentais nos campos político, econômico, social, cultural ou em qualquer outro campo da vida pública ou privada;

1.2 DADOS DO MERCADO DE TRABALHO

No Mercado de Trabalho Brasileiro existem diversas formas de discriminação, dentre elas desigualdade de raça e gênero. Segundo dados da PNAD Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) 2019, a população brasileira é composta por 48,2% de homens e 51,8% mulheres, sendo cerca de 56% dessa população composta por pessoas negras.

Dados apontados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) 2019, mostra que apesar da maior parte da população ser composta por mulheres apenas 43,2% das mulheres estão inseridas no mercado de trabalho e quando se tratando da cor da pele essa quantidade também sofre variação.

Ainda em (2019), 44,8% dos cargos ocupados eram por brancos, enquanto os pardos eram 43,7% e apenas 10,4% ocupados por negros.

No que se diz a respeito ao salário, os brancos tiveram rendimentos de 29,9% superior à média nacional ($2,308), enquanto os pardos e negros receberam rendimentos de 25,5% e 27,5% respectivamente, inferiores à média nacional.

Os negros estão fortemente concentrados nas ocupações da indústria tradicional e nos serviços gerais, sendo que o acesso à educação é um dos principais fatores de produção dessa desigualdade. Entretanto, mesmo quando eliminadas as

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diferenças educacionais, os negros ainda apresentam desvantagens, principalmente no acesso às melhores posições ocupacionais, demonstrando que há uma distribuição desigual de indivíduos no mercado de trabalho e um dos fatores dessa desigualdade é a cor (LIMA, 2001, p. 152).

Considerando as dificuldades apontadas para os grupos raciais e de gênero, este texto se dedica a analisar a situação das mulheres negras considerando a clara manifestação da dupla discriminação a que este grupo está sujeitado, pois, se de um lado, as mulheres negras são excluídas das vagas de empregos simplesmente por serem mulheres, de outro elas também são excluídas dos “empregos femininos”.

Nesta perspectiva o presente artigo tem como objetivo geral o estudo da análise da mulher negra no mercado de trabalho, a procura da mulher negra por direitos iguais, observando-se o princípio da igualdade, a sua inserção no mercado, como também segurança e respeito. É importante destacar que o presente artigo não tem o intuito de revisar a questão em sua totalidade. Espera se traçar um panorama breve através de uma pesquisa exploratória com base em um questionário estruturado aplicado via Internet. Para tanto, este artigo, está composto além desta introdução de outras três partes, sendo uma delas dedicada à metodologia utilizada. Em seguida, é apresentado o referencial teórico, sobre a perspectiva das entrevistadas, mulheres negras no mercado de trabalho correlacionado ao tema a desigualdade e a discriminação racial. Para encerrar na última parte são apresentadas as considerações finais que foram obtidas através da percepção das candidatas.

2. METODOLOGIA

Este estudo se caracterizou como uma pesquisa qualitativa, que de acordo com Creswell (2010) é um meio para explorar e para entender o significado que os indivíduos ou os grupos atribuem a um problema social ou humano.

As mulheres pesquisadas foram acessadas através de questionário elaborados no Google Forms, pacote de aplicativo do google onde se buscou

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totalizar pelo menos 40 mulheres, contendo com critério para resposta, ser mulher negra. O link ficou ativo entre o dia 25 de maio ao dia 31 de outubro de 2020, sendo divulgado para acesso em redes sociais e compartilhado por aplicativo de mensagens.

Visando identificar a percepção das candidatas e identificar o perfil de cada uma, foram elaboradas seis perguntas, sendo cinco delas de alternativas e bastante objetivas e apenas uma pergunta aberta dissertativa e sem obrigatoriedade de resposta.

A comparação nas respostas será mais bem visualizada com a apresentação dos gráficos.

A maioria das pesquisadas tem de 20 a 30 anos de idade, (60%).

Idade - Gráfico 1

Fonte: dados da pesquisa, 2020

Através do gráfico 2 é perceptível o número alto de mulheres negras que concluíram o ensino médio, (40%).

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Escola Idade - Gráfico 1ridade – Gráfi

Fonte: dados da pesquisa, 2020

No entanto o gráfico 3 nos mostra que a maioria das entrevistadas não trabalha, nem mesmo de maneira informal, (35%).

Mercado de trabalho - Gráfico 3

Fonte: dados da pesquisa, 2020

Observando o quadro 4 a grande maioria das candidatas disseram que já sofreram preconceito racial em trabalho atual ou em experiencias profissionais anteriores (65%).

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Racismo no trabalho - Gráfico 4

Fonte: dados da pesquisa, 2020 Relatos pessoais envolvendo racismo

Elaboramos a seguinte pergunta no tópico cinco “Poderia nos contar em poucas palavras um episódio de racismo que tenha sofrido no trabalho ou em uma entrevista de emprego?”.

Quatorze das entrevistadas se sentiram à vontade para responder. Abaixo relatos sobre esta experiência existencial marcante para a pessoa. Marcante, pois o ato da escrita (fala), o ato de ter-se dado a falar por palavras e não apenas expressar-se em um questionário quantitativo diz muito sobre a experiência e seu impacto na existência da pessoa.

Mulher negra 1: “Quando trabalhava não podia soltar meu cabelo, por ser cacheado/armado, mas uma colega de trabalho que era branca e de cabelos lisos podia sem nenhum problema, não chamavam a atenção ou nada do tipo, isso aconteceu comigo e mais 2 colegas de trabalho negras.”

Mulher negra 2: “Um cliente preferiu a loirinha "vou ver com a mocinha ali" Mulher negra 3: “Ouvi várias vezes a frase "Nossa para uma pessoa da sua cor até que você é inteligentinha "

Mulher negra 4: “Você é “morena”, mas é a mais bonita que conheço, difícil achar uma moreninha bonita igual você”

Mulher negra 5: “Apenas recentemente tenho construído/ descoberto minha identidade como mulher negra, após ser mãe de uma menina negra e diante de muitos estudos sobre racismo e feminismo interseccional. Então

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acredito que ao longo da vida posso ter passado por outras situações de racismo sem ter percebido. Não posso dizer que quando mais nova em entrevistas de emprego alguém tenha agido de forma racista comigo, mas me lembro de sempre olhar para as concorrentes da vaga e pensar que eu não era adequada ao perfil, porque elas eram mais 'bonitas' que eu. Atualmente, sou pedagoga na rede privada e recentemente enquanto lavava meu próprio prato após a refeição (assim como todos os funcionários fazem) fui abordada por uma senhora branca que ao me ver do lado de trás da pia me perguntou como eu fazia para deixar o fogão tão limpo. Respondi que não era responsável pela limpeza da escola e sim professora. A senhora ficou bastante sem graça. Por ser meu local de trabalho não deixei que a situação assumisse grandes dimensões aos meus sentimentos, mas claramente este é um exemplo gritante de racismo estrutural.”

Mulher negra 6: “Acredito que o cabelo Black Power seja um empecilho para encontrar emprego.”

Mulher negra 7: “Uma amiga me indicou para fazer uma entrevista numa escola privada de uma cidade do interior. O diretor da escola quando me viu não disfarçou descontentamento por eu não ser do padrão comum na cidade em que há muitos descendentes de italianos. Tive certeza que não me chamaria para a vaga, apesar da minha formação e experiência profissional. É algo que se sente pelo olhar, na pele”

Mulher negra 8: “Não tem vontade de alisar, não coloque tranças é melhor deixar assim menos feio.”

Mulher negra 9: “Olhares de nojo, vergonha de me ter por perto pela minha cor”

Mulher negra 10: “Quando minhas decisões não eram levadas em consideração e sempre pediam para meus superiores confirmarem as informações que eu passava.”

Mulher negra 11: “Já fiz entrevista de emprego, não me contrataram pelo fato de estar usando tranças. Outra coisa também é sempre me refiram como

Mulher negra 12: “moreninha” que trabalha no caixa.”

Mulher negra 13: “Bom pra mim que sou una negra foi muito difícil conseguir um emprego todos lugares que entrava olhavam de cima em embaixo, então já sabia qual seria a resposta”

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E finalizando as perguntas alternativas no gráfico 6 a maioria das pesquisadas afirmam que por ser mulher e negra acreditam que dificulta a inserção no mercado de trabalho, (77,5%).

Mulher negra e a inserção no mercado de trabalho - Gráfico 6

Fonte: dados da pesquisa, 2020

3. DISCUSSÃO E RESULTADOS

De acordo com a pesquisa qualitativa feita com 40 mulheres negras, em idades entre 16 a 30 anos, podemos notar de que apesar da minoria das candidatas não ter o ensino fundamental a grande maioria não trabalha nem mesmo de maneira informal e essa maioria relataram que já sofreram algum tipo de preconceito racial , além de acreditarem que a dificuldade para inserção no mercado de trabalho e suas poucas oportunidades sejam pelo fato de serem mulheres e negras, assim como relatos de episódios racistas descrito por algumas delas.

A pergunta de número cinco responde varias questões a respeito do racismo estrutural, através das respostas podemos analisar o racismo em suas diferentes faces. A candidata número 1 relatou que não podia usar o seu cabelo “cacheado/armado” solto no trabalho, em contra partida outras funcionárias brancas podiam ter seus cabelos lisos soltos. A candidata número 2 relatou que

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um cliente se negou ser atendido por ela e preferiu ser atendido por uma mulher loira. A candidata 3 relatou que foi elogiada por ser uma negra “inteligentinha” fazendo a ilusão a inferioridade pelo seu tom de pele.

Todas as candidatas deram relatos fortes de racismo estrutural, padrões de predominância da estética branca onde se privilegiam traços como cabelo liso, olhos claros e peles claras, o embranquecimento sociocultural. Foram diferentes relatos, mas com a mesma bagagem de preconceito.

Racismo sofrido por possuir o tom de pele escuro, cabelos crespos; cacheado; armado ou trançado, capacidade de exercer funções no trabalho questionada e sub julgamentos.

4. CONCLUSÃO

Concluímos através da pesquisa que a mulher negra encontra vários obstáculos para inserção no mercado de trabalho, e o fato de ser mulher e negra é o maior deles, visto que vivemos em uma sociedade historicamente racista.

Políticas sociais com combate à desigualdade e ao racismo deveriam ter mais força no atual cenário, existe espaço para a ação do Estado perante a essa necessidade, e uma “reeducação” para toda a sociedade livre, de que todos somos iguais.

5. REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil de 2010. Brasília, DF: Presidência da República, [2013]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2010/lei/l12288.htm. Acesso em: 26 nov. 2020.

GIACOMINI, Sonia Maria. Mulher e Escrava: uma introdução histórica ao estudo da mulher negra no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1988.

GOMES, Laurentino. Escravidão: Do primeiro leilão de cativos Portugal até a morte de Zumbi dos Palmares. Rio de Janeiro: Globo S.A, 2019.

MARCONDES, Mariana Mazzini.et al. Dossiê mulheres negras: retrato das condições de vida das mulheres negras no Brasil. Brasília: Ipea, 2013.

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MARY, Piore Del. Mulheres no brasil colonial. São Paulo: Contexto, 2000 Artigo.

PERREIRA, Bergman de Paula. De escravas a empregadas domésticas: a dimensão social e o “lugar das mulheres negras no pós – abolição”. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP).

PRIORE, Mary Del; BASSANEZI, Carla. História das mulheres no Brasil. 2 ed. São Paulo: Contexto, 1997.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questões raciais no Brasil 1870 – 1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

Referências

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