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18 alface adentro à lupa

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Academic year: 2021

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A relação entre Lisboa e a arte pública já não é um

simples namoro. Cada vez mais encontros, exposições e

ações ligadas à expressão criativa no espaço urbano têm

contado com o apoio da autarquia e com o entusiasmo

da comunidade. Mas o que faz os writers (no centro desta

arte) desejarem as paredes do mundo? Acompanhámos

100 metros de pintura no Parque Mayer e descobrimos

que, no princípio, era a raiva; agora, é o amor.

18

Nota positiva | NovemBRo

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lhes vai na lata sob um tema central: o teatro.

No seio da ação, o italiano radicado na Bélgica, Esko, pratica a letra em palco. “A vida é, em si mesma, um teatro, por isso, estou a deixar-me levar e a divertir-me nesta parede”, partilha o writer que divide a vida entre o graffiti e os seus pacientes. Esko é médico, em Bruxelas, mas diz que os colegas não podem saber disso. Caso contrário, o que aconteceria? “Pffuuu!”, responde-nos pontuado pelas batidas do rap.

Mas vale a pena o risco da vida dupla. “Eu era uma pessoa muito tímida, fechada, guardava tudo para mim. E isto [mostra a lata de spray] permitiu-me, numa fase inicial, pôr os sentimentos cá para fora. Agora, é sobretudo uma maneira de conviver com diferentes pessoas e culturas, de viajar e de me divertir”, conta, de luva azul de látex – a fazer lembrar a de médico – na mão. A pri-meira viagem de Esko através do graffiti foi feita para abandonar o meio rural onde vivia, numa pequena vila ao pé de Brugelette. “Comecei a ganhar vontade de fazer os frescos que via por aí e quis saber mais sobre arte urbana.” Conclusão: “Apaixonei-me.”

Também Wuuna, a writer francesa de cabelos louros e olhos azuis que pinta um mimo agastado na parede, se apaixonou pelo graffiti longe dos muros, dos transportes públicos e do mobiliário urbano. “Nasci bem afastada da arte urbana, mas sempre me inte-ressei por ela. Comecei a entrar no mundo dos patins e do skate e,

O

s writers já não rapazes de subúrbio a correr

com latas de spray na mão de cada vez que vem a bófia. É bem calmamente, sob a clari-dade das três da tarde e o borbulhar de uma cerveja, que o luxemburguês Nask pinta um pedaço de parede. Há tempo para gozar a tinta, porque os graffiti já não são apenas marcas de raiva, pintadas à velocidade da trans-gressão e da adrenalina. “O graffiti é amor à primeira vista”, solta o writer de corpo, paredes e alma, Nask. Para que não restem dúvi-das, esta forma de arte urbana “não é uma paixão, mas um modo de vida”, pelo menos desde o dia em que um videoclipe de KRS-One, pioneiro da cultura hip-hop nos Estados Unidos, entrou pela porta de casa deste artista urbano, que agora pinta um muro de 800 me-tros quadrados em pleno Parque Mayer. “Vi todas aquelas cores e expressão e pensei: ‘Uau! Mas o que é isto?’ O graffiti intrigou-me. Foi algo completamente emocional.”

Se é amor aquilo que une Nask a um muro decrépito de Lis-boa, ele carrega um andaime para lhe tocar mais alto. Lá de cima, explica que o graffiti também serve para “escapar”, para “canali-zar toda a energia negativa e transformá-la em positiva”, porque escrever em liberdade ensinou-lhe “uma nova forma de pensa-mento”. Dentro do fantasma Parque Mayer, mais de 20 artistas portugueses e internacionais fazem o mesmo, sacudindo o que

De 21 a 23 de

outubro, Lisboa

ganhou mais pontos

no mapa da arte

urbana mundial,

através do Writers’

Delight, o encontro

internacional –

organizado pela

Dedicated Store,

a maior loja de

material de arte

urbana do país

– que vai reunir,

anualmente, writers

de todo o mundo

no Parque Mayer.

Wuuna

Esko

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Nota positiva | NovemBRo

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quando vi um graffito pela primeira vez, descobri que era isso que queria fazer”, recorda. Anos mais tarde, foi para Toulouse e per-cebeu que havia mais writers como ela – vindas de meios rurais e a usar rabo-de-cavalo. “Em Toulouse, a arte urbana mexe muito. Há frescos por toda a cidade e muitos deles foram feitos por mu-lheres, como a Miss Van, por exemplo. É uma forma de expressão. Não interessa se és homem ou mulher. Já disseram coisas menos agradáveis sobre mim, mas não quero saber”, chuta Wuuna.

No Graffiti, “a ciDaDe é a teLa”

Começamos a tirar conclusões sobre a filosofia do “amor e uma parede”, quando, ao som do MC em ação, o português que assina Pariz no muro pergunta: “Podemos falar enquanto pinto?” Não quer parar durante a jam, como não quis parar durante a vida. “Isto começou por uma brincadeira, com aquelas latas de spray do Natal, que imitam neve. A minha mãe comprou uma e eu comecei a fazer desenhos. Era bem mais rápido que os marca-dores e, quando percebi isso, comprei uma lata de spray e comecei a ir para a rua. Nunca mais parei. Hoje, o graffiti é o meu ganha--pão”, conta o writer de 27 anos.

Para “Pariz, o mais feliz” (como o próprio gosta de se chamar), há uma vida antes e outra depois desta arte de rua. “E tenho isso marcado no corpo”, materializa, referindo-se à frase “Graffiti

chan-Dar viDa à ciDaDE

Para o presidente da Junta de Freguesia de São José, a porção de Lisboa que mais metros quadrados dedica à arte urbana, o graffiti é uma forma de revitalizar a cidade, através da qual “todos saem a ganhar”. “Sou completamente contra os tags, os riscos, rabiscos e as frases ordinárias. Apoio o graffiti como forma de arte e há que separar a arte do vandalismo”, afirma Vaso Morgado, salientando que, “se estes movimentos tiverem apoio institucional, a cidade ganha pontos de referência a nível cultural, embelezam-se espaços degradados e eles [os

writers] ganham mais spots para pintar.”

Paralelamente, a Câmara Municipal de Lisboa (CML) assegura que irá “continuar a apoiar uma série de projetos em fachadas, alargando as intervenções a novos pontos da cidade”, segundo Jorge Ramos de Carvalho, diretor do Departamento de Património Cultural da autarquia. Tudo porque “o reconhecimento da arte urbana se enquadra perfeitamente nos objetivos da CML”, que passam por fazer de Lisboa uma “cidade criativa”. Através da Galeria de Arte Urbana (GAU) (criada em 2008 exclusivamente para incentivar esta forma de expressão), a CML tem vindo a apoiar diversas iniciativas, possibilitando, inclusive, a participação da população, como acontece no projeto “Reciclar o Olhar”, que consiste na pintura de vidrões. A ação “tem tido uma adesão brutal”, nota o responsável, que contabiliza 75 vidrões intervencionados até ao momento (o objetivo é chegar aos 415).

A curto prazo, as próximas iniciativas da GAU passarão pelo registo da arte urbana lisboeta, de acordo com o arquiteto da autarquia, que menciona o lançamento de um site da GAU (onde existirá um inventário da arte urbana lisboeta desde o 25 de Abril); e a publicação de um livro sobre as intervenções mais recentes na cidade.

A Câmara Municipal de Lisboa tem 4689 prédios devolutos registados na cidade, entre os quais, 1877 em estado de total abandono. A maioria – 3155 edifícios – é propriedade privada.

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emergida no início dos anos 1970, em Nova Iorque, onde latas de spray começaram a ser utilizadas como armas de protesto e libertação.

“Como nos diz Ferrell (1996), o graffiti, à semelhança das outras vertentes do hip-hop, eclodiu como resultado do confron-to entre a audácia, a inovação e a pobreza de recursos técnicos”, sintetizou o antropólogo Ricardo Campos em 'Pintando a Cida-de – Uma Abordagem Antropológica ao Graffiti Urbano', tese Cida-de doutoramento realizada em 2007 na área da antropologia visual. Com a travessia da ilegalidade para a licitude, esse confronto foi--se aproximando cada vez mais da arte. Quase como num mo-vimento migratório entre o bombing (graffiti rápido, que incide na caligrafia e no tag, associando-se ao universo da ilegalidade e transgressão) e a claridade dos painéis autorizados, como expli-cou o writer KFT numa entrevista a Ricardo Campos: “Se calhar nos dias em que vamos fazer bombing achamos que o graffiti é mais uma coisa de contestação e espalhar uma mensagem. Quan-do vou fazer um hall of fame se calhar vejo o graffiti mais como uma arte que ainda tem muito para dar e... e vejo o graffiti mais pelo seu lado técnico e por uma mensagem mais artística.”

Em frente ao muro do Parque Mayer, Pariz ajeita o chapéu, sem largar a lata de spray, para comparar o passado do graffiti aos dias de hoje: “Dá-me mais gozo pintar assim, mas, adrena-ged my life”, que imprimiu à pele. Foi das latas de spray que vieram

os amigos, as viagens a “meio mundo”, a namorada e a futura fi-lha. “Tudo isso englobado faz-me sentir apaixonado”, afirma. Isso e a liberdade em ponto grande, como indicia, de braços abertos voltados para a parede. “No graffiti, temos a tela do tamanho que quisermos. A cidade é a tela”, atira Pariz, sem tirar os olhos dela.

Nesta “cidade de 800 metros quadrados”, o writer português considera que “a juventude está a fazer o que o Governo e a Câ-mara prometeram: reavivar o Parque Mayer”. No contracampo, Vasco Morgado, presidente da Junta de Freguesia de São José, en-tidade parceira deste encontro do graffiti, corrobora: “O Parque Mayer está moribundo e esta é uma forma reativa de não deixar cair o problema.” [ler “Dar vida à cidade”]

a aDreNaLiNa a boMbar e a

quietuDe Da arte

Se o graffiti abre o mundo a novas formas de pensamento, como analisava o luxemburguês Nask, isto não se restringe ape-nas ao universo individual. “Socialmente, o graffiti é reivindica-dor. É uma ilustração de nós próprios enquanto sociedade. E se o homem não é eterno, esta é uma forma de deixar a sua mar-ca, através de uma tomada de consciência”, solta Nask. Foi esse o princípio, aliás, da cultura hip-hop (onde se inclui o graffiti),

Pariz

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Nota positiva | NovemBRo

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o movimento hip-hop ganha maior

expressão pública a nível nacional,

com destaque para o rap

_

outubro

– é criada a Galeria de

Arte Urbana (GAU), pela Câmara

Municipal de Lisboa

_

setembro

– a GAU ganha o

Prémio Ignasi de Lecea, atribuído

pelo Public Art & Urban Design

Observatory de Barcelona

_

outubro

– acontece a 1ª Mostra de

Arte Urbana, na Calçada da Glória,

simbolizando o enquadramento legal

à pintura de graffiti em Lisboa

_

maio

– ergue-se o projecto Crono.

Na Avenida Fontes Pereira de Melo,

Os Gémeos, Blu e Sam3 pintam dois

edifícios devolutos

_lançamento do livro Porque

Pintamos a Cidade? – Uma

Abordagem Etnográfica do Graffiti

Urbano, de Ricardo Campos

_

dezembro

– o encontro de cultura

e arte urbana “Meeting of Styles”

decorre no Bairro Armador, em

Chelas, reunindo writers nacionais e

internacionais

_

junho

– inicia-se o projeto “Reciclar

o olhar”, com intervenções em cinco

camiões de resíduos e dezenas de

vidrões de Lisboa

_

agosto

– o jornal The Guardian

considera o graffito dos brasileiros

Os Gémeos, do italiano Blu e do

espanhol Sam3, num prédio devoluto

da Avenida Fontes Pereira de Melo,

um dos dez melhores do mundo

_

outubro

– o encontro Writers’

Delight reúne mais de 20 criadores

de arte urbana de nove países,

pretendendo manter uma

periodicidade anual

lina, é à socapa. Sem dúvida. São dois

senti-mentos completamente diferentes.” E seriam muito mais distantes, ainda, há 22 anos, altura em que Youth, artista da old school do graffiti nacional, começou a pintar paredes com os Microlândia Connection, uma das primeiras crews a surgir em Portugal, na década de 1980, em Carcavelos. “Hoje, o graffiti já não é vis-to como vandalismo. Mas foi uma luta para chegarmos até aqui. Vencemos porque fomos teimosos e remamos contra a maré”, conta o produtor MC, que entrou nesta subcultura atraído “pela diferença, ausência de regras e pelo facto de ser uma coisa de rua, libertina”.

Se hoje as autoridades respeitam o graffi-ti, isso deve-se, em grande parte, à força dos próprios writers, fenómeno que Pariz, entre cores berrantes, sintetiza assim: “Muito sin-ceramente, o que fez as autoridades – como a Câmara de Lisboa, que nos tem apoiado bastante nos últimos tempos – mudarem de atitude em relação a nós foi isto: ‘Se não con-segues vencê-los; junta-te a eles’.”

Anos 1990

2009

2010

Referências

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