CONQUISTANDO O ESPAÇO URBANO: O ACOMPANHANTE TERAPÊUTICO COM PORTADORES DE DEFICIÊNCIA MENTAL.

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CONQUISTANDO O ESPAÇO URBANO:

O ACOMPANHANTE TERAPÊUTICO COM PORTADORES DE DEFICIÊNCIA MENTAL.

Universidade Estadual Paulista – Faculdade de Ciências e Letras de Assis Jorge Luís Ferreira Abrão, Audrey Nicolini, Clara Salarini Borsezi, Daniele Santoro

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Juliana Xavier de Camargo, Micheli Andréa Marino, Nathalia Miranda Rodrigues, Tathiane Andreia Paulin

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, Teresa Santos Arruda.

O recurso Acompanhante Terapêutico foi criado com o intuito de propiciar atendimento psicoterapêutico a pacientes psicóticos e toxicômicos. Tal prática foi estendida também a portadores de deficiências mentais leve e moderada. Essa alternativa justifica-se por favorecer a integração destes indivíduos junto à sociedade, tendo em vista que em sua grande maioria os portadores de deficiência mental são atendidos em instituições, que oferecem poucas possibilidades de contato com o meio social. Desta forma, a intervenção da qual decorre este trabalho tem por objetivo proporcionar ao portador de deficiência mental outras vivências, ampliando seus contatos, tornando possível a construção de novas relações sociais e possibilitando a conquista de maior autonomia e independência; além da inclusão social, partindo de uma relação de continência e confiança entre acompanhante e acompanhado. São atendidos alunos das APAEs de Assis e Cândido Mota - SP, que são acompanhados, individualmente, por estagiárias do quarto e quinto ano de psicologia da Unesp - Assis.

O trabalho é realizado semanalmente, com duração de duas horas aproximadamente, nesse tempo é o Acompanhado quem decide o que fazer – saindo do lugar de quem recebe ordens para o de quem toma decisões. Desta forma, cada paciente acompanhado por seu respectivo acompanhante tem a oportunidade de entrar em contato com seu bairro e sua cidade, percorrendo caminhos diversos e freqüentando espaços variados. Os resultados obtidos com esta intervenção apontam em duas direções: a primeira consiste em fazer com que a sociedade habitue-se a conviver com a diferença e aprenda a aceitar o portador de deficiência ocupando espaços sociais, reconhecendo seu potencial e suas dificuldades; a segunda consiste em proporcionar os recursos necessários para que o indivíduo portador de deficiência possa sair dos espaços asilares e freqüentar novos espaços no meio social, de forma tal que possa apropriar-se destes espaços e incorporá- los em sua vida cotidiana, com independência e autonomia. Assim, de maneira positiva, utilizamos o Acompanhamento Terapêutico como um facilitador da inclusão social de deficientes mentais.

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danilisbela@yahoo.com.br

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tathiane7@yahoo.com.br

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CONQUISTANDO O ESPAÇO URBANO:

O ACOMPANHANTE TERAPÊUTICO COM PORTADORES DE DEFICIÊNCIA MENTAL.

Universidade Estadual Paulista – Faculdade de Ciências e Letras de Assis Jorge Luís Ferreira Abrão, Audrey Nicolini, Clara Salarini Borsezi, Daniele Santoro, Juliana Xavier de Camargo, Micheli Andréa Marino, Nathalia Miranda Rodrigues,

Tathiane Andreia Paulin, Teresa Santos Arruda.

O recurso do acompanhante terapêutico foi desenvolvido pelo Psiquiatra e Psicanalista argentino Eduardo Kalina no início da década de 1970. Foi empregado inicialmente com o intuito de propiciar um modelo inovador de atendimento psicoterapêutico a pacientes psicóticos e toxicômacos, dentre os quais adolescentes. Tal alternativa frente ao tratamento psiquiátrico tradicional empregado até aquele momento justificava-se pela necessidade de favorecer a integração do indivíduo junto a sociedade, visto que as práticas de atendimento convencionais (práticas asilares) excluíam essas pessoas do convívio social e familiar, fazendo recair sobre elas o peso de vários estigmas.

Como prática terapêutica alternativa, o acompanhante terapêutico diferencia-se sobretudo por “fugir” do consultório clínico, proporcionando ao paciente vivências outras que ampliem seus contatos e repertórios de conduta e favoreçam o resgate de suas potencialidades, criando assim novas possibilidades de relacionamento com o mundo.

Pensado originalmente para o atendimento de pacientes psicóticos, o trabalho

do Acompanhante Terapêutico atende, atualmente, a diferentes demandas, ou seja, sua

população alvo vai além dos pacientes psicóticos, atendendo portadores de deficiência

mental e idosos, por exemplo.

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Particularmente no caso de atendimento de portadores de deficiência mental leve e moderada através do recurso do Acompanhante Terapêutico, defrontamo-nos com algumas singularidades que merecem ser destacadas. Tradicionalmente esses indivíduos foram excluídos do convívio social de tal forma que o atendimento de suas necessidades físicas e psicológicas, via de regra, são desenvolvidas dentro de instituições destinadas exclusivamente ao cuidado de portadores de deficiência. Esta condição cria ao menos duas problemáticas de grande conseqüência: restringe o convívio do portador de deficiência com a sociedade e em contrapartida faz com que essa sociedade passe a ter pouca experiência e convivência com a deficiência e, além disso, ao restringir as experiências do portador de deficiência dentro de um espaço protegido dificulta o desenvolvimento de suas potencialidades para o manejo social.

Desta forma torna-se premente a necessidade de encontrarmos alternativas no campo terapêutico que possibilitem a reversão desta perspectiva de exclusão social, que via de regra, caracteriza os modelos de atenção ao portador de deficiência mental em vigor na maioria das instituições.

Como forma de reversão desta perspectiva temos observado nos últimos anos que o trabalho do acompanhante terapêutico vem sendo cada vez mais ampliado, possibilitando um novo modelo de intervenção no campo da deficiência mental, como é o caso do presente trabalho.

Com base nessas considerações teóricas desenvolvemos um modelo de

intervenção a partir do qual, crianças e adolescentes portadores de deficiência mental

leve e moderada matriculados na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais –

APAE – de Assis e Cândido Mota, são acompanhados por estagiários do 4º e 5º anos do

curso de Psicologia, tendo como fundamento da intervenção as técnicas do

Acompanhante Terapêutico. O trabalho consiste em saídas semanais da instituição, com

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duração de duas horas, onde é o Acompanhado quem decide o que fazer nesse tempo – saindo do lugar de quem recebe ordens para o de quem toma decisões. Desta forma, cada indivíduo tem a oportunidade de entrar em contato com sua cidade percorrendo caminhos diversos e freqüentando espaços variados a sua escolha.

Temos assim como objetivo desta intervenção, favorecer a inclusão social de indivíduos portadores de deficiência mental por intermédio do Acompanhante Terapêutico, ampliando suas vivências no espaço urbano cotidiano, tornando possível a construção de novas relações sociais e possibilitando a conquista de maior autonomia e independência.

Os resultados obtidos com esta intervenção apontam em duas direções: a primeira consiste em fazer com que a sociedade habitue-se a conviver com a diferença e aprenda a aceitar o portador de deficiência ocupando espaços sociais, reconhecendo seu potencial e suas dificuldades; a segunda consiste em proporcionar os recursos necessários para que o indivíduo portador de deficiência possa sair dos espaços asilares e freqüentar novos espaços no meio social, de forma tal que possa apropriar-se destes espaços e incorporá-los em sua vida cotidiana, com independência e autonomia.

A fim de esclarecer a maneira como se desenvolve o trabalho do acompanhante terapêutico, seguiremos com uma breve apresentação e descrição de um atendimento ocorrido nos anos anteriores.

O perfil do paciente: T. ingressou na APAE por volta dos cinco anos de idade,

tendo como diagnóstico deficiência mental leve ocasionada por cianose. Desde então

permanece na instituição onde conseguiu desenvolver diversas habilidades através do

trabalho de estimulação oferecida.

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Hoje, aos vinte e quatro anos trabalha na mercenária da referida instituição, desempenhando bem essa atividade e apresentando-se bastante sociável apesar de alguma timidez.

O atendimento: T. utilizava-se de suas saídas para freqüentar sempre o mesmo local, uma loja de CD’s em que conhecia uma das funcionárias. Neste período foi possível estabelecer um vínculo de confiança entre paciente e acompanhante, o que aconteceu de forma lenta e progressiva, na medida em que pôde ser oferecido ao paciente a continência necessária para eu pudesse sentir-se mais seguro frente às novas situações que haveria de se deparar. Fazendo usa do segurança sentida por T. em passeio que já lhe era familiar se tornou possível ampliar seu repertório de relações, ou seja, a partir deste momento é que pôde emergir na relação o desejo do paciente de conhecer outras pessoas e novos lugares.

Foi então que em uma tarde de atendimento, T. não quis pegar o ônibus que costumeiramente pegávamos. “Tem ônibus também do outro lado da rua” disse T, sugerindo que experimentássemos um “novo ônibus” e logo se dirigindo ao ponto.

Expliquei que aquele ônibus não passaria no mesmo lugar que costumávamos ir, que ônibus diferentes nos levam a lugares diferentes. T. resolveu ficar no “novo ponto” e arriscar. Durante todo o percurso ficou um pouco assustado, perguntando se não estávamos indo longe demais e como faríamos para voltar. Para tranqüiliza-lo, expliquei que se continuássemos no ônibus voltaríamos ao lugar de onde havíamos saído, ou que então poderíamos descer e pegar um outro ônibus que voltasse para a APAE. Ele preferiu ficar e conferir se iríamos mesmo voltar com aquele ônibus. Parecia não acreditar que um ônibus tem itinerário fixo, passando sempre nos mesmos lugares.

Durante todo o tempo me perguntou quanto iria demorar para voltar à APAE. Expliquei,

mostrei o relógio, parece que T. se tranqüilizou e pôde aproveitar mais o passeio e

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esperar com menos ansiedade para ver o ônibus chegar ao ponto de onde havíamos partido. Em encontros seguintes, T. quis fazer o “novo passeio” com mais tranqüilidade.

Talvez depois desse acontecimento T. possa se sentir mais seguro para conhecer novos lugares, ampliando suas referências, podendo circular livremente pelo espaço público e conhece-lo melhor.

Por estas razões podemos concluir que o Acompanhante Terapêutico atua como mediador entre o portador de deficiência e a sociedade, favorecendo o reconhecimento de sua singularidade. Sendo que de uma forma lenta e gradual, em função de uma série de barreiras, como o preconceito, este trabalho esteja sendo implementado para uma luta pela conquista de cidadania destes indivíduos.

BIBLIOGRAFIA

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Robe, 1995

BARRETO, K. D. Andanças com Dom Quixote e Sancho Pança pelo campos da Transacionalidade: Relato de um Acompanhante Terapêutico.Tese de mestrado em psicologia clínica. PUC-SP, 1997

CAUCHICK, M. P. Sorrisos inocentes, gargalhadas horripilantes: Intervenções no acompanhamento terapêutico. São Paulo:Annablume, 2001.

Equipe de Acompanhantes Terapêuticos do Hospital-Dia A Casa A rua como espaço clínico. Acompanhamento terapêutico. São Paulo:Escuta, 1991.

Equipe de Acompanhantes Terapêuticos do Instituto A Casa Crise e cidade:

acompanhamento terapêutico. São Paulo: EDUC, 1997.

GHERPELLI, M. L. B. V. Diferente, mas não desigual: a sexualidade no deficiente

mental. São Paulo: Editora Gente, 1995.

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Referências

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