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Sobre alguns limites da razão científica

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Academic year: 2018

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'7(, epoca e que já havia saído numa publicação de circula-ção reduzida entre especialistas - Cadernos do ISER (n.o 5, nov. 1975), de cujo corpo redatorial ele fazia parte. O artigo tenta uma análise interpretativa de uma estampa muito di-fundida em texto de espiritualidade protestante, no Brasil, e que mostra através de imagens e alegorias o caminho es-treito e difícil que leva a salvação e o caminho largo e pra-zeToso que conduz à perdição. Lamentavelmente, a cópia de que se dispunha não permitia uma reprodução razoável da estampa, o que reduz em parte o significado do trabalho. Mesmo nessas condições, porém, o sentido geral da pesqui-sa permanece valioso.

Secretário Geral

6 REV. DE C. SOCIAIS, VOL. IX, N.0s 1 e 2 FAG. 5-6 1978

SOBRE ALGUNS LIMITES

DA RAZÃO CIENTÍFICA

>!'

Manoel T. Berlinck

No momento em que o homem (re-)descobre em si um

ser afetuoso, emocional, começa a duvidar da eficácia e da universalidade do saber científico tal como ele é hoje conhe-cido no Ocidente porque, por mais que procure, não reconhe-ce no interior dessa racionalidade um espaço para a expressão de seu afeto.

Antes de mais nada, o conhecimento científico é aqui entendido como o que se caracteriza por ser ou pretender ser: 1) abstrato ou teórico e hipotético; 2) logicamente coe-rente; 3) axiologicamente neutro; 4) causal; e 5) experimen-tal. (1) A razão científica assim caracterizada constitui um

lagos e propõe a possibilidade de apreensão cognitiva do

mun-do prescindinmun-do mun-do afeto o qual fica sem nenhuma função cognitiva. Mas, cogitar não caracteriza o ser humano que sente e por isso (também)

e.

Essa verdadeira "escisão" entre razão e afeto que ca-racteriza o racionalismo científico ocidental pode ser vista

Versã0 modificaJa da comunicação apresentada à mesa-redonda sobre

" Dilem as da Produç(ío Científica nas Ciências Sociais" na 31.a Reunião Anual da Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência, em Fortaleza.

Agradeço a J. A. Gui llon de Albuquerque, à SBPC e a Eduardo dゥ。エセエケ@

Bezerra de 1\lenezes a oportunidade da minha participação.

(I) Os possívei\ c diferentes significados dessas caractensttcas não são objeto

deste trabalho. Há uma vastíssima bib'·'ografia sobre o assunto que

tam-bém não cabe ser citada aqui. Entretanto, o leitor interessado pode con-セオャエ。イ@ Braithwaite (1960): Nagel (1961): Popper (1959): Blalock (1964);

Bunge (1963): Hempel (1962): Feigl (1953): Black (1964); Campbell

( 1953): Hempel e Oppenheim ( 1953): Brodbeck ( 1962).

(2)

como parte da alienação humana e possui diversas implica-ções que precisam ser compreendidas para que nós, homens do Ocidente, tenhamos idéia mais clara do alcance e dos

li-mites do conhecimento científico (Bedeschi, 1975).

Nem sempre, entretanto, foi assim que o homem- mes-mo o homem do Ocidente- pensou ainda que o esquecimen-to seja comum entre os homens.

Como observam Horkheimer e Adorno (1970), o conhe-cimento científico faz parte da razão iluminista que é a que pretende impor uma ordem ao mundo para dominá-lo e con-trolá-lo. Ao fazerem publicar, em 1944, A Dialética do

Ilumi-nismo, aqueles filósofos não só trataram do conhecimento

científico como parte da razão iluminista; sugeriram tam-bém que esta forma de conhecer faz parte de tradição de pensar o mundo que era praticada pelo homem muito antes da instituição do capitalismo e que remonta à própria cria-ção do mito. (2) Ainda, entretanto, que a razão mitológica -· como, de resto, toda razão iluminista - constitua um mundo ordenado, crie um mundo que só ela desvenda, em nenhum momento pretende criar uma distinção entre si e as demais formas de expressão do mundo. Ou seja, a razã0 mitológica integra razão e afeto em sua expressão; a pró-pria forma adequada de constituição da razão mitológica é, ao mesmo tempo, racional e afetiva.

As racionalidades gregas clássicas de Platão e Aristó-teles transcendem a razão mitológica dos tempos heróicos e sendo iluministas na medida em que constituem kosmos

que também explicam, continuam mantendo a unidade en-tre razão e afeto. O mesmo homem que pensa a Política pensa a Ética, a Estética e a Metafísica e vive o que pensa. A razão grega é mantida e desenvolvida pelos árabes que, na tradição da Academia, vão cultivar um saber esoté-rico que é, ao mesmo tempo, "científico" e "místico", não sendo nem um nem outro no sentido que atribuímos atual-mente a essas palavras. (3) Muhammand Jalal al-Din Rumi, o fundador do moderno sufismo e certamente o maior poe-ta místico do mundo árabe, tendo vivido no século XIII, apresentou tanto em seus poemas como em seus discursos uma sabedoria que é, ao mesmo tempo, racional e afetiva,

(2) A , Dialética do Iluminismo foi publicado pela primeira vez há 35 anos atrás e é estranho que os cientistas não tenham, até hoje, tomado co-nhecimento das quest&.!s aí colocadas.

( 3) Refiro-me aqui especialmente à Academia pré-platônica que pretendia

ter desenvolvido um "sistema" de saber.

8 REV. DE C. SOCIAIS, VOL. IX, N.0s 1 e 2PÁG. 7-14 1978

prática e teórica, "científica" e "mística" (4 ) . Abu El-Arabi,

Abu-Hamid Mohammed El-Ghazali e outros sábios esotéri-cos muçulmanos serão alguns dos responsáveis conhecidos que, durante a Idade Média, entregam -ao Ocidente europeu suas sabedorias que são parcialmente adotadas por homens como Roger Bacon e acabam por influenciar a razão cientí-fica. A própria noção de sábio formado pela instituição cha-mada Universidade é, na sua origem, muçulmana como ates-ta a Universidade de Marrocos que funciona desde o século VIII de nossa era. Os formados nessa instituição seriam sá-bios versados naquilo que hoje poder-se-ia chamar de ciên-cias, artes e humanidades além, é claro, de se dedicarem ao misticismo. Dessa forma, a Universidade constituiu em seus inícios uma Uni-dade na di-versidade que, após o Renasci-mento, vai se esfumaçando num mundo de especialidade e especialistas onde um "saber" cada vez mais burocratizado substitui a razão integrada e, mais recentemente, a própria razão.

Percebe-se, assim, que apesar de fazer parte da razão iluminista, o conhecimento científico se distingue de formas anteriores de pensar porque, entre outras características, distingue e separa razão de afeto. No mundo em que predo-mina o conhecimento científico ou somos - porque, afinal, somos o que fazemos - axiologicamente neutros, logicamen-te consislogicamen-tenlogicamen-tes, abstratos, universais, causais e, no limilogicamen-te ex-perimentais ou somos emocionais, inconsistentes, concretos. específicos e experimentadores.

Na verdade, o caminho percorrido pelo iluminismo que desemboca no conhecimento científico é o caminho da pró-pria alienação que separa sujeito de objeto e razão de afeto.

A questão que se coloca, que desejo colocar é: quais as condições que permitem o surgimento da ciência, dessa es-tranha racionalidade que propõe ser um conhecimento uni-versal?

A resposta, à primeira vista, é muito simples: o conhe-cimento científico surge e se desenvolve para satisfazer a3 necessida.des técnicas da produção e da dominação burguesa. Afinal de contas, o progresso técnico que vem desempenhan-do um papel decisivo no processo de acumulação de capital é resultante direto e indireto do conhecimento científico. Além disso, boa parte do que prometeu conseguiu realizar: um mundo mais saudável com uma impressionante rede de

(4) Sobre Rumi ver Arasteh (1974); sobre o sufismo ver Shah (1 971 e 1974).

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como parte da alienação humana e possui diversas implica-ções que precisam ser compreendidas para que nós, nomens do Ocidente, tenhamos idéia mais clara do alcance e dos

li-mites do conhecimento científico (Bedeschi, 1975).

Nem sempre, entretanto, foi assim que o homem- mes-mo o homem do Ocidente- pensou ainda que o esquecimen-to seja comum entre os homens.

Como observam Horkheimer e Adorno (1970), o conhe-cimento científico faz parte da razão iluminista que é a que pretende impor uma ordem ao mundo para dominá-lo e con-trolá-lo. Ao fazerem publicar, em 1944, A Dialética do

Ilurru-nismo, aqueles filósofos não só trataram do conhecimento

científico como parte da razão iluminista; sugeriram tam-bém que esta forma de conhecer faz parte de tradição de pensar o mundo que era praticada pelo homem muito antes da instituição do capitalismo e que remonta à própria cria-ção do mito. (2) Ainda, entretanto, que a razão mitológica - · como, de resto, toda razão iluminista - constitua um mundo ordenado, crie um mundo que só ela desvenda, em nenhum momento pretende criar uma distinção entre si e as demais formas de expressão do mundo. Ou seja, a razãü mitológica integra razão e afeto em sua expressão, a pró-pria forma adequada de constituição da razão mitológica é, ao mesmo tempo, racional e afetiva.

As racionalidades gregas clássicas de Platão e Aristó-teles transcendem a razão mitológica dos tempos heróicos e sendo iluministas na medida em que constituem kosmos

que também explicam, continuam mantendo a unidade en-tre razão e afeto. O mesmo homem que pensa a Política pensa a Ética, a Estética e a Metafísica e vive o que pensa. A razão grega é mantida e desenvolvida pelos árabes que, na tradição da Academia, vão cultivar um saber esoté-rico que é, ao mesmo tempo, "científico" e "místico", não sendo nem um nem outro no sentido que atribuímos atual-mente a essas palavras. (3) Muhammand Jalal al-Din Rumi, o fundador do moderno sufismo e certamente o maior poe-ta mistico do mundo árabe, tendo vivido no século XIII, apresentou tanto em seus poemas como em seus discursos uma sabedoria que é, ao mesmo tempo, racional e afetiva,

(2) A, Dialética do 1/uminiomo foi publicado pela primeira vez há 35 anos

atrás e é estranho que os cientistas não tenham, até hoje, tomado co-nhecimento das questões aí colocadas.

\3) Refi r()-me aqui especialmente à Academia pré-platônica que pretendia ter desenvolvido um '·sistem a" de saber.

8 REV. DE C. SOCIAIS, VOL. IX, N.0s 1 e 2PAG . 7-14 1978

prática e teórica, "científica" e "mística" (4 ). Abu El-Arabi

Abu-Hamid Mohammed El-Ghazali e outros sábios ・ウッエ←イゥセ@

cos muçulmanos serão alguns dos responsáveis conhecidos que, durante a Idade Média, entregam ao Ocidente europeu suas sabedorias que são parcialmente adotadas por homens como Roger Bacon e acabam por influenciar a razão cientí-fica. A própria noção de sábio formado pela instituição cha-mada Universidade é, na sua origem, muçulmana como ates-ta a Universidade de Marrocos que funciona desde o século VIII de nossa era. Os formados nessa instituição seriam sá-bios versados naquilo que hoje poder-se-ia chamar de ciên-cias, artes e humanidades além, é claro, de se dedicarem ao misticismo. Dessa forma, a Universidade constituiu em seus inícios uma Uni-dade na di-versidade que, após o

Renasci-mento, vai se esfumaçando num mundo de especialidade e especialistas onde um "saber" cada vez mais burocratizado substitui a razão integrada e, mais recentemente, a própria razão.

Percebe-se, assim, que apesar de fazer parte da razão iluminista, o conhecimento científico se distingue de formas anteriores de pensar porque, entre outras características, distingue e separa razão de afeto. No mundo em que predo-mina o conhecimento científico ou somos - porque, afinal, somos o que fazemos - axiologicamente neutros, logicamen-te consislogicamen-tenlogicamen-tes, abstratos, universais, causais e, no limilogicamen-te ex-perimentais ou somos emocionais, inconsistentes, concretos. específicos e experimentadores.

Na verdade, o caminho percorrido pelo iluminismo que desemboca no conhecimento científico é o caminho da pró-pria alienação que separa sujeito de objeto e razão de afeto.

A questão que se coloca, que desejo colocar é: quais as condições que permitem o surgimento da ciência, dessa es-tranha racionalidade que propõe ser um conhecimento uni-versal?

A resposta, à primeira vista, é muito simples : o conhe-cimento científico surge e se desenvolve para satisfazer as necessidàdes técnicas da produção e da dominação burguesa. Afinal de contas, o progresso técnico que vem desempenhan-do um papel decisivo no processo de acumulação de capital é resultante direto e indireto do conhecimento científico. Além disso, boa parte do que prometeu conseguiu realizar: um mundo mais saudável com uma impressionante rede de

(4) Sobre Rumi ver Arasteh (1974); .;obre o sufismo ver Shah (1971 c 1974) .

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comunicações, onde energias de diversos tipos são apropria. das, etc. Entretanto, é sabido também que a maior e melhor parte do que foi gerado pel<_> 」ッョィ・」ゥュ・ョセッ@ científico tem srdo apropriado pela burgues1a e tem servrdo para a hege-monia dessa classe. (5)

Mas não termina no âmbito da produção o uso que a burguesia faz da ciência.

O conhecimento científico, com o direito universal e com o liberalismo, compõe aquilo que se poderia chamar "o dis-curso burguês" por excelência. As idéias de que há uma única lei para todos e todos são iguais perante a lei; de que cada cidadão tem o direito de livre expressão, livre credo, livre circulação, etc. e de que existe um conhecimento uni-versal só poderiam ser invenções de uma classe que se diz universal. De fato, o mundo capitalista, o mundo dG bur-guês não conhece limites.

Entretanto, 'a universalidade contida nesses discursos serve, também, para esconder a desigualdade que é inerente ao mundo burguês.

Tanto em sua luta contra a nobreza como em sua pró-pria constituição enquanto classe, a burguesia tem como aliada e depende de outra classe que é sua correlativa: a dos trabalhadores produtivos formalmente livres.

O mundo da nobreza, como se sabe, é o da diferença. Nilo há desigualdade entre nobre e servo: há diferença. Nessa ordem, o servo faz parte da propriedade e sua natureza é di-ferente da nobreza. Os nobres, por sua vez, são iguais entre si e, por isso, entre eles não pode haver desconfiança ou até mesmo diálogo. A conversa entre iguais só pode ser um mo-nólogo e a intriga, a fofoca palaciana é o máximo em tenta-tiva de diferenciação. O discurso da nobreza é, por isso, o discurso da diferença sancionada pela Santa Madre: há os ungidos e há os servos. E fora desse âmbito resta somente as chamas eternas do inferno que tanto pavor causa a nobrrs excomungados ou a servos pecadores. (Pinsky, 1979) .

O mundo da burguesia, por sua vez, é o da distinção onde todos são iguais mas há uns que são mais iguais do que outros. Apesar daquilo que os economistas chamam de desmaterialização do capital, o burguês é enquanto existir o t:·abalhador livre: não há como escapar a esta situação. E mms: no momento da constituição das classes e do discurso. burgueses e trabalhadores livres são aliados na luta contra

(5) A noção de Hegemonia é anali!>ada em Gruppi (1978 ) .

10 REV. DE C. SOCIAIS. VOL. IX, N°s 1 e 2PÁG . 7-14 1978

a nobreza. Dessa aliança resulta a necessidade do discurso da igualdade universal e do saber objetivo.

Em outras palavras, desejo sugerir que assim como o in-divíduo rJara se constituir em sujeito necessita uma lingua-gE:m, a constituição de uma classe depende também de um discurso que a distingue (Lacan, 1977). O discurso da no-lJreza se constituiu no monólogo com a divindade, a autori-dade que sancionava a ordem feudal e qualquer tentativa

de subversão dessa ordem constituía uma verdadeira ame:i-ça à própria divindade e só poderia ser provocada por forame:i-ças do mal (Foucault, 1976). Com os servos os nobres não con-versavam: a sua relação era fundada na diferença substan-cial homologada pela divindade através de sua instituição na terra: a Igreja Católica.

No mundo criado pela burguesia e pelos trabalhadores livres também não há lugar para diálogo, como observa Hannah Arendt (1972), ainda que a distinção seja condição para a ocorrência do diálogo. Mas a distinção que é engen-drada pelo capitalismo se funda na exploração que, por sua vez, gera a desconfiança. Esta, por sua vez, impede o diá-logo.

Porém, no mundo em que todos são formalmente livres mas distintos, há que se desenvolver, de alguma forma, um instrumento que, ao mesmo tempo, legitime a dominação c restabeleça a confiança perdida na exploração do trabalho. Ou seja, há que se encontrar um princípio organizador deE-ta. ordem permanentemente ameaçada.

A burguesia encontrou, como já foi dito, pelo menos três princípios: o da justiça universal, o do liberalismo e o co-nhecimento científico.

O conhecimento científico institui uma razão que é ex-terna aos sujeitos que a criam porque postula uma ordem muito peculiar ao mundo: a da causalidade. O mundo cria-do pelo discurso científico não só é externo aos que acria-dotam tal discurso. Ele é, também, ordenado pelo princípio da causalidade. Dessa forma, o conhecimento científico cria o mundo que, em seguida, desvenda. A ordem é dada pelo prin-cípio da causalidade. Só resta ao cientista desvendar as rela-ções dadas por esse princípio.

Aceito o princípio da causalidade, fica fácil engulir os demais princípios que regem essa razão: a neutralidade axio-lógica, a objetividade, a experimentação, a coerência axio-lógica,

etr.

(5)

comunicações, onde energias de diversos tipos são apropria · das etc. Entretanto, é sabido também que a maior e melhor parte do que foi gerado pel? 」ッョィ・」ゥュ・ョセッ@ científico tem sido apropriado pela burguesia e tem servido para a hege-monia dessa classe. (5)

Mas não termina no âmbito da produção o uso que a burguesia faz da ciência.

O conhecimento científico, com o direito universal e com o liberalismo, compõe aquilo que se poderia chamar "o dis-curso burguês" por excelência. As idéias de que há uma única lei para todos e todos são iguais perante a lei; de que cada cidadão tem o direito de livre expressão, livre credo, livre circulação, etc. e de que existe um conhecimento uni-versal só poderiam ser invenções de uma classe que se diz universal. De fato, o mundo capitalista, o mundo dG bur-guês não conhece limites.

Entretanto, 'a universalidade contida nesses discursos serve, também, para esconder a desigualdade que é inerente ao mundo burguês.

Tanto em sua luta contra a nobreza como em sua pró-pria constituição enquanto classe, a burguesia tem como aliada e depende de outra classe que é sua correlativa: a dos trab:-tlhadores produtivos formalmente livres.

O mundo da nobreza, como se sabe, é o da diferença. Nã-o há desigualdade entre nobre e servo: há diferença. Nessa ordem, o servo faz parte da propriedade e sua natureza é di-ferente da nobreza. Os nobres, por sua vez, são iguais entre si e, por isso, entre eles não pode haver desconfiança ou até mesmo diálogo. A conversa entre iguais só pode ser um mo-nólogo e a intriga, a fofoca palaciana é o máximo em tenta-tiva de diferenciação. O discurso da nobreza é, por isso, o discurso da diferença sancionada pela Santa Madre: há os ungidos e há os servos. E fora desse âmbito resta somente as chamas eternas do inferno que tanto pavor causa a nobrrs excomungados ou a servos pecadores. (Pinsky, 1979) .

O mundo da burguesia, por sua vez, é o da distinção onde todos são iguais mas há uns que são mais iguais do que outros. Apesar daquilo que os economistas chamam de desmaterialização do capital, o burguês é enquanto existir o t:·abalhador livre: não há como escapar a esta situação. :E:

mms: no momento da constituição das classes e do discurso. burgueses e trabalhadores livres são aliados na luta cont ra

(5) A noção de H egem onia é analisada em Gruppi (1978 ).

10 REV. DE C. SOCIAIS, VOL. IX, N°s 1 e 2PÁG . 7-1 4 1978

a nobreza. Dessa aliança resulta a necessidade do discur.so da igualdade universal e do saber objetivo.

Em outras palavras, desejo sugerir que assim corno o in-divíduo rJala se constituir em sujeito necessita uma lingua-gEom, a constituição de uma classe depende também de um discurso que a distingue (Lacan, 1977). O discurso da no-breza se constituiu no monólogo com a divindade, a autori-dade que sancionava a ordem feudal e qualquer tentativa de subversão dessa ordem constituía uma verdadeira amel-i-ça à próplia divindade e só poderia ser provocada por foramel-i-ças do mal (Foucault, 1976). Com os servos os nobres não con-versavam: a sua relação era fundada na diferença substan-cial homologada pela divindade através de sua instituição na terra: a Igreja Católica.

No mundo criado pela burguesia e pelos trabalhadores livres também não há lugar para diálogo, como observa Hannah Arendt (1972), ainda que a distinção seja condição para a ocorrência do diálogo. Mas a distinção que é engen-drada pelo capitalismo se funda na exploração que, por sua vez, gera a desconfiança. Esta, por sua vez, impede o diá-logo.

Porém, no mundo em que todos são formalmente livres mas distintos, há que se desenvolver, de alguma forma, um instrumento que, ao mesmo tempo, legitime a dominação c restabeleça a confiança perdida na exploração do trabalho. Ou seja, há que se encontrar um princípio organizador des-ta. ordem permanentemente ameaçada.

A burguesia encontrou, como já foi dito, pelo menos três princípios: o da justiça universal, o do liberalismo e o co-nhecimento científico.

O conhecimento científico institui uma razão que é ex-terna aos sujeitos que a criam porque postula uma ordem muito peculiar ao mundo: a da causalidade. O mundo cria-do pelo discurso científico não só é externo aos que acria-dotam tal discurso. Ele é, também, ordenado pelo princípio da causalidade. Dessa forma, o conhecimento científico cria o mundo que, em seguida, desvenda. A ordem é dada pelo prin-cípio da causalidade. Só resta ao cientista desvendar as rela-ções dadas por esse princípio.

Aceito o plincípio da causalidade, fica fácil engulir os demais princípios que regem essa razão: a neutralidade axio-lógica, a objetividade, a experimentação, a coerência axio-lógica, etr.

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Ora, essa razão assim constituída n ão é propriedade de quem pensa : ela é dada. Se eu quiser ser cientista eu posso pensar o que eu quiser desde que eu pense cientificamente, ou seja, obedecendo os princípios que são dados. E é nesse sentido que se pode dizer que o conhecimento científico é uma razão universal. Como diria Isaac Newton: "meu caro senhor, o princípio da gravidade funciona tanto em Forta-leza como em Pequim". E , assim, como esse discurso é uni-versal , não nos resta out ra alternativa: ou nos submetemos a ele ou perdemos a razão.

Ao postular um conhecimen t 9 universal, a burguesia

expressa a sua vocação enquanto classe: ter o mundo sob seu domínio. Expressa, também, uma razão fora da qual n ão há salvação. No mundo feudal, os que não se submetiam à autoridade divina eram os endemoninhados, os possuídos, os loucos enfim. Na ordem burguesa não há lugar para os que pensam com categorias estranhas ao conhecimento cientí-fico: eles não têm razão. Claro está que a predominância do conhecimento científico não se deu sem luta. Atestam esta afirmação as tensas relações entre "homens de saber" e a Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana durante os primeiros dois ou três séculos de capitalismo, na Europa.

Não há, entretanto, que se confundir o episódio de Ga-lileu Galilei ou o de Giordano Bruno com o de Wilhelm Reich. Enquanto no primeiro caso a Santa Madre lutava pela manutenção de uma forma de saber- a dogmática-

con-tra uma oucon-tra forma de saber - a científica que surgia no cenário europeu; no segundo caso, o estado capitalista repri-me ・ク・ューャセュョ・ョエ・@ um homem de saber que sugere os

limi-tes da razão científica propondo, de alguma forma, a intro-dução do afeto, da emoção como critério de sabedoria.

(Reich, 1953).

No mundo racionalista, objetivo e neutro do conheci-mento científico não há lugar para os que têm, reconhecem que têm, expressam e pensam o mundo com raiva, dor, ale-gria, tristeza, amor e ódio. Em outras palavras, o mundo das emoções pode até ser objeto do conhecimento cientifico mas não é um mundo que possua sua própria razão porque re-conhecer isto seria rere-conhecer os limites de uma razão que se

propõe universal. ·

A constituição do conhecimento científico na Europa capitalista acaba, portanto, compondo um mundo bipartido pelos que têm razão e pelos sem razão. Mas os sem razão precisamente são os alienados, os loucos. Assim, uma das 12 REV. DE C. SOCIAIS, VOL. IX, N.0s 1 e 2PÃG. 7-14 1978

funções não manifestas do conhecimento científico tem sido a de enlouquecer os homens. E enlouquece duplamente

por-qne, em primeiro lugar, constitui um mundo dos sem razão, dos alienados, dos loucos e porque, em segundo lugar, não reconhece em seu espaço metodológico um lugar para o afe-to que deve ser reprimido, ignorado pelo racionalismo neu-tro e objetivo dos que sabem, dos que têm razão.

Assim, a razão científica que, num primeiro momento, se apresenta como um critério para o diálogo entre desiguais, wm interesses antagônicos e cheios de desconfiança vai, num segundo momento, fornecer os elementos para a domi-nação material da burguesia e, em seguida, enlouquece os que ficam fora desse estranho diálogo.

BIBLIOGRAFIA

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Readings in the Philosophy of Science, New Y{)rk, Appleton - Century - Crofts, 1953, p. 408-418.

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HEMPEL, Carl G . - "Deductive-Nomological vs. Statistical Explanation" In: Herbert Feigl & Grover Maxwell, Minnesota Studies in 1fze Philoso-phy of Science, Minneapolis, University of Minnesota Press, 1962, v. 3, p. 98-169.

(7)

Ora, essa razão assim constituída não é propriedade de quem pensa: ela é dada. Se eu quiser ser cientista eu posso pensar o que eu quiser desde que eu pense cientificamente, ou seja, obedecendo os princípios que são dados. E é nesse sentido que se pode dizer que o conhecimento científico é uma razão universal. Como diria Isaac Newton: "meu caro senhor, o princípio da gravidade funciona tanto em Forta-leza como em Pequim". E , assim, como esse discurso é uni-versal, não nos resta outra alternativa: ou nos submetemos a ele ou perdemos a razão.

Ao postular um conhecimenh universal, a burguesia

expressa a sua vocação enquanto classe: ter o mundo sob seu domínio. Expressa, também, uma razão fora da qual nã.o há salvação. No mundo feudal, os que não se submetiam à autoridade divina eram os endemoninhados, os possuídos, o:s loucos enfim. Na ordem burguesa não há lugar para os que pensam com categorias estranhas ao conhecimento cientí-fico: eles não têm razão. Claro está que a predominância do conhecimento científico não se deu sem luta. Atestam esta afirmação as tensas relações entre "homens de saber" e a Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana durante os primeiros dois ou três séculos de capitalismo, na Europa.

Não há, entretanto, que se confundir o episódio de Ga-lileu Galilei ou o de Giordano Bruno com o de Wilhelm Reich.

Enquanto no primeiro caso a Santa Madre lutava pela manutenção de uma fonna de saber - a dogmática -

con-tra uma oucon-tra forma de saber - a científica que surgia no cenário europeu; no segundo caso, o estado capitalista repri-me exemphtrrepri-mente um horepri-mem de saber que sugere os limi-tes da razão científica propondo, de alguma forma, a intro-dução do afeto, da emoção como critério de sabedoria.

(Reich, 1953).

No mundo racionalista, objetivo e neutro do conheci-mento científico não há lugar para os que têm, reconhecem que têm, expressam e pensam o mundo com raiva, dor, ale-gria, tristeza, amor e ódio. Em outras palavras, o mundo das emoções pode até ser objeto do conhecimento científico mas não é um mundo que possua sua própria razão porque re-conhecer isto seria rere-conhecer os limites de uma razão que se propõe universal .

A constituição do conhecimento científico na Europa capitalista acaba, portanto, compondo um mundo bipartido pelos que têm razão e pelos sem razão. Mas os sem razão precisamente são os alienados, os loucos. Assim, uma das

12 REV. DE C. SOCIAIS, VOL. IX, N.0s 1 e 2PÁG. 7-14 1978

funções não manifestas do conhecimento científico tem sido a de enlouquecer os homens. E enlouquece duplamente

por-qne, em primeiro lugar, constitui um mundo dos sem razão, dos alienados, dos loucos e porque, em segundo lugar, não reconhece em seu espaço metodológico um lugar para o afe-to que deve ser reprimido, ignorado pelo racionalismo neu-tro e objetivo dos que sabem, dos que têm razão.

Assim, a razão científica que, num primeiro momento, se apresenta como um critério para o diálogo entre desiguais, com interesses antagônicos e cheios de desconfiança vai, num segundo momento, fornecer os elementos para a domi-nação material da burguesia e, em seguida, enlouquece os que ficam fora desse estranho diálogo.

BIBLIOGRAFIA

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INTRODUÇÃO

SOBRE

A NEUTRALIDADE

DAS

ciᅧnciasG セ@

Eduardo Diatay B. de Menezes

Houve um tempo, quando comecei a ensinar Teoria e Métodos de Investigação Social e, particularmente, logo após ter .feito um ano intensivo de estudos sobre pesquisa na Uni-versidade de São Paulo, onde alguns professores pregavam uma concepção bastante positivista de ciência, houve um certo tempo, repito, em que acalentei esse ideal de ciência como algo que atinge o maior grau de rigor e precisão, ele objetividade e neutralidade, e somente isso. Eu imaginava, por exemplo, que as Ciências Sociais eram menos científi-cas porque ainda não tinham conseguido ser mais precisas, mais rigorosas, mais neutras. Posteriormente, ao estudar melhor a questão, ao refletir melhor sobre isso e à medida que tinha de insistir nesses aspectos no âmbito de meu en-sino de metodologia, comecei a me dar conta de sua dimen-são ideológica; comecei a desconfiar de que o positivismo

(tanto na sua versão clássica, quanto na sua formulação mais rigorosa e mais recente) não era apenas uma postura episte-mol.ógica nem se esgotava apenas uma lógica da investigação:

( * ) O presente texto se ongma de uma entrevi sta que concedi aos alunos do

Estágio de Pesquisa em Sociologia, do Bacharelado de Ciências Sociais, do Departamento de Ciências Sxiais e Filosofia (UFC). Procurei des-pojá-lo do tom excessivamente coloquial e espontâneo de uma conversa-ção que se fez sem avi so e sem pl ano prévios. Embora mantendo no geral o texto primitivo, acrescentei algum as refl exões novas e um a amostra de textos, seguida de um a bibliografia, no final. T alvez isso tenha tornado o meu argumento parcialmente red undante e pouco orde nado. Fic a a%im mesmo como minha contribuição pessoal a um velho debate.

Referências

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